Off Topic: Inimigos da Razão
Meu blog não tem nada a ver com religião, mas tem tudo a ver com formação. Formação técnica, claro, mas principalmente formação de vontade. Eu não valorizo quem estuda só para tirar um certificado no fim de seis meses. Valorizo quem estuda por gosto, pela simples vontade de aprender. Este artigo é inflamatório e corro o sério risco de perder leitores. Fazer o quê? ;-)

Nesse sentido, religiões e superstições têm seus problemas. Isso não quer dizer que religiosos ou crentes não possam ser excelentes programadores. Eles são! Existe a visão errada de que ateus como eu, quando falam de religião, querem apenas caluniar, falar mal, ridicularizar. Calma lá, não somos tão maus assim. Assim como não julgamos ninguém pela cor, também não julgamos pela crença.
O problema é quando a desvalorização das evidências em favor de superstições leva a prejuízos reais, como o atraso no desenvolvimento das técnicas de células-tronco. Ou quando a pessoa pára um tratamento médico sério por causa de um copo d’água homeopático.
Interessante notar como muitas discussões no mundo de tecnologia têm muito de irracional: minha linguagem é melhor que a sua, meu processo é melhor que o seu, meu Linux é melhor que seu Mac, meu Ruby é melhor que seu Java. As pessoas assumem que existe Certo e Errado absoluto: para um ganhar, o outro tem que perder. Se o meu é obviamente o Certo, o do outro é, obviamente, o Errado. Como diria Einstein (em outro contexto, eu sei), tudo é relativo.
Quem lê meus artigos mais antigos já notou que eu não torço para nenhum time. Sou programador Ruby, mas não tenho problema nenhum em abrir um Visual Studio e escrever C#. Tenho vários Macs, mas otimizo um Windows ou um Linux com a mesma tranquilidade. Tudo que puder melhorar meu conhecimento é bem-vindo. Qual o sentido prático de se auto-limitar?

A motivação para falar sobre isso foram dois vídeos do Channel 4 da Inglaterra: “Enemies of Reason”, um documentário em dois episódios que podia ser assistido na íntegra pelo Google Video (episódio 1 e 2). O apresentador é um dos meus autores favoritos fora da tecnologia: o Dr. Richard Dawkins. Biólogo, feroz defensor do evolucionismo e criador do termo meme, cunhado pela primeira vez no excelente The Selfish Gene.
Ele também é autor do meu livro favorito recente: The God Delusion, lançado no Brasil pela Companhia das Letras como Deus, um Delírio. Esse livro deu origem a outro documentário do Channel 4, que também recomendo muito: The Root of All Evil?, também disponível no Google Video (aqui e aqui). O segundo episódio se chama “The Virus of Faith”.

Dawkins faz parte de uma nova geração de ateus conhecida como Novos Ateístas, muito criticada. Estão no mesmo grupo autores e estudiosos como Sam Harris, autor de “The End of Faith”, e o filósofo Daniel Dennett, autor de “Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon”.
O maior problema é o fanatismo. Existem religiosos não fanáticos (felizmente, a maioria). Mas a minoria fanática é perigosa, e muitos deles estão nas cúpulas de poder, definindo o futuro de todos. Já passamos por uma era de alienação religiosa, conhecida como Idade Média. Temos a sorte de ser uma geração pós-Renascentista. Não faz sentido regredir por pura falta de razão.

Independente das implicações políticas e culturais, o que me incomoda pessoalmente é a falta de valorização própria. Não estou defendendo a arrogância de quem acha que sabe tudo sem saber. Mas o simples “Graças a Deus” é um freio inconsciente. Se você conquistou alguma coisa, o mérito é seu e dos seus colaboradores. Sorte ajuda, mas é apenas um evento estatístico. Nada é impossível: algumas coisas são só probabilisticamente mais improváveis.
Se você não conquistou, a responsabilidade também é toda sua. Sinto que muita gente tem dificuldade de assumir responsabilidades, tanto nos acertos quanto nos erros. O mérito e a culpa das suas ações são exclusivamente seus. Viva com isso.
Outra coisa que me incomoda: todo o material que mencionei aqui vai ser muito criticado. Talvez eu receba uma enxurrada de comentários contrários, como de costume, ou talvez seja simplesmente ignorado. Mesmo assim, os preconceitos farão muita gente se recusar a ver.
Esse é outro problema: o caminho do aprendizado exige razão e raciocínio lógico baseados em evidências sólidas. Faz quase um século e meio que Charles Darwin publicou sua Teoria da Evolução, e ninguém, nas ciências, foi arrogante o bastante para transformá-la em Lei da Evolução. Em tecnologia vale o mesmo: ninguém pode afirmar “minha tecnologia é superior”. É tudo relativo, e ninguém aqui tem autoridade para criar uma Lei que comprove uma afirmação dessas. O que precisamos ter em mente, para criar um ambiente conscientemente investigativo, é: “se o meu não é o melhor, quais as alternativas? quais as evidências? quais as circunstâncias?”
Joseph Campbell diria que as sociedades precisam de mitologias, heróis e crenças. É uma forma de explicar o que não sabemos e de comunicar o que se considera Certo ou Errado num determinado período, já que esses conceitos variam conforme o espaço e o tempo. À medida que evoluímos, matamos um deus de cada vez: Ra, Isis, Osiris, Apollo, Artemis, Poseidon e muitos outros. Explicamos onde o Sol nasce, onde se põe, o que há no céu, de onde viemos, para onde vamos e uma tonelada de outros eventos naturais.

Como Richard Dawkins disse, Carl Sagan faz falta. Para mim, ele fez dois dos trabalhos mais inspiradores que existem: a série “Cosmos” e o livro The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark. Toda criança deveria ser encorajada a assistir à série inteira e aprender a pensar por si própria, livre de dogmas e superstições.
Como Dawkins mostra no documentário, os livros de astrologia e outras superstições vendem muito mais que os livros de ciência. E até em documentários aparecem produções supersticiosas que pregam história da carochinha usando a ciência como pretexto, como o horroroso “What the Bleep Do We Know?”.
Num mundo competitivo, com vários problemas para resolver, como doenças, conflitos, aquecimento global e escassez de recursos, precisamos da maior quantidade de cérebros céticos e não supersticiosos de todos os tempos. Só assim daremos passos à frente em vez de estagnar nas mandingas do passado. E mesmo sem considerar as grandes questões, na evolução individual, não podemos nem devemos nos tornar inimigos da razão.
Definição de Ciência: vem do Latim “scientia”, ou “conhecimento”. Segundo o Webster’s New Collegiate Dictionary: “conhecimento adquirido através do estudo ou prática”, ou “conhecimento que cobre verdades gerais da operação de leis gerais, como as obtidas e testadas através do método científico e que se preocupam com o mundo físico”.
Ciência se refere a um sistema para se adquirir conhecimento. Esse sistema usa observação e experimentação para descrever e explicar fenômenos naturais. O termo também se refere ao corpo organizado de conhecimento que as pessoas ganharam usando esse sistema.
Ciência é um sistema elegante porque o método científico é simples e coerente (observação/pesquisa, hipótese, predição, experimentação e conclusão), porém rigoroso o suficiente para ser confiável, principalmente porque, por definição, tem mecanismos de autocorreção. Independe de opinião pessoal, crença ou ponto de vista. A Lei da Gravidade é a mesma para todos, independente de raça, cultura, ideologia, idade ou condição social.
Nenhuma hipótese ganha o caráter de “Lei” sem evidências sólidas o suficiente para tal. Além disso, toda teoria (ou hipótese, definida como uma sugestão de explicação) pode ser descartada caso apareçam evidências sólidas em contrário.
Definição de superstição: (1) uma crença irracional de que um objeto, ação ou circunstância, não logicamente relacionada a um curso de eventos, influencia seu resultado. (2) (a) uma crença, prática ou ritual irracional mantido por ignorância das leis da natureza ou por fé em mágica ou acaso. (b) um estado mental temeroso ou abjeto, resultado de tal ignorância ou irracionalidade. (c) idolatria.
Finalmente, a definição de dogma: (a) algo tido como uma opinião estabelecida; especialmente: um princípio autoritativo definido. (b) um código de tais princípios (dogma pedagógico). (c) um ponto de vista ou princípio colocado de forma autoritária sem fundamento adequado. (d) não pode ser disputado ou posto em dúvida.
