Off Topic: Vamos todos impedir a regulamentação da profissão de analista de sistema

19 de abril de 2008 · 💬 Participe da Discussão
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Update 25/08/2009: A lei já foi aprovada pelo CCJ e caminha para o CAS. Isso está indo longe demais!

Update 21/04/2008: Este post do Paulino Michelazzo é muito bom. Recomendo.

O Rodrigo Kumpera disse tudo: essa lei de regulamentação de “analistas de sistema” é pura perda de tempo e uma bobagem sem tamanho.

Senhores “políticos”: já que estão desperdiçando nossos impostos em projetos de lei sem sentido, que tal regulamentar a profissão de político? Pelo que se vê, sua profissão pode causar mais males, a muito mais gente e com muito mais facilidade, do que um médico não licenciado fazendo cirurgia cardíaca.

Vamos colaborar: bloguem, divulguem e, principalmente, enviem sucata para a casa deles (os endereços estão no link acima). Tenho alguns quilos de sucata excedente aqui esperando um destino.

Mas tem que ser rápido. O tempo está se esgotando.

Obs: se quiserem ficar revoltados, leiam o texto integral da tal lei. Seria engraçado se não fosse trágico.

Em resumo, a lei cria milhares de cabides (conselhos regionais, fiscalizadores, blá blá blá), nos cobra anuidades para sustentar esses cabides, nos joga 30 anos para trás e freia o desenvolvimento tecnológico do país. Tudo isso barrando profissionais qualificados e dando passagem a diplomados desqualificados. A discussão aqui não é “se diploma é importante”: programador não tem nada a ver com médico nem engenheiro.

Update 20/04/2008: Como os comentários estão legais, resolvi acrescentar exatamente por que eu, pessoalmente, quero dar um tapa na orelha do infeliz que inventou essa “lei”.

No Brasil, toda vez que surge uma nova lei, a primeira pergunta deveria ser: a quem ela beneficia? E não, a resposta não é “a população”. Deveria ser, mas aqui normalmente não é. Que políticos e lobistas ganham com isso não é novidade; a questão é entender quem mais ganha.

Além disso, toda justificativa de lei é falaciosa. Políticos são mestres da argumentação, por isso são políticos. Vamos lá.

A Falácia

Antes de mais nada, o argumento que todos mais gostam:

“Engenheiro Civil, Cardiologista, Advogado criminal, Contador, todos eles precisam se formar, todos precisam de licença para trabalhar, todos pagam conselhos regulamentadores, enfim, todos são “regulamentados”. Por que programadores, analistas e cientistas da computação acham que são mais “especiais” e não precisam disso?”

Esse é o argumento principal e a chave da falácia. A premissa a quebrar é esta: “desenvolvedor de software está na mesma categoria de engenheiro civil, médico ou advogado”.

Se um engenheiro faz um prédio ruim, ele cai. Se cai, pessoas morrem. Raro, mas acontece. Se um médico erra, o paciente morre. Se um advogado erra, um inocente passa 30 anos na cadeia. Se um contador erra, o cliente tem prejuízo financeiro e o nome sujo na Receita Federal.

A comparação errada é a seguinte: se um programador “inexperiente” deixar um bug passar, um avião controlado por computador poderia cair. Um elevador poderia despencar. Um equipamento médico poderia matar um paciente. Logo, um programador despreparado seria tão perigoso quanto um médico despreparado, e hoje ninguém o fiscaliza nem o pune.

Voltando no tempo

A engenharia civil tem raízes de antes dos faraós e das pirâmides. A medicina vem dos curandeiros das tribos. A advocacia e as técnicas de argumentação existem desde que existem pessoas.

Todas essas profissões têm um corpo de conhecimento complexo, completo e uniforme. Isso não significa que pararam de evoluir. Mas nelas a maioria apenas executa as técnicas que aprendeu, e uma minoria tem recursos para pesquisar e descobrir técnicas novas.

Computação é o oposto. Nossa área não tem nem um século de idade, e o mercado começou não faz 60 anos. Cada salto evolucionário aqui equivale a um século em outras áreas.

O problema é que nossa área mistura matemática com técnicas de engenharia. Por isso os leigos acham que é tudo a mesma coisa: técnicas bem definidas com resultados bem definidos. Não é o caso. Eu não iria tão longe quanto Pete McBreen em Software Craftsmanship, mas a maioria das pessoas parte das premissas erradas ao avaliar software.

Nossa área não é estável como as outras porque evolui de forma acelerada, e cada passo muda tudo. Um único algoritmo novo pode mudar o que fazemos. Um Google, um Linux, redefinem a maneira como pensamos e fazemos software.

Pouco mais de uma década atrás, a internet nem era popularizada. Linguagens e paradigmas mudam o tempo todo. Poucos anos atrás, metodologias ágeis sequer eram levadas a sério. O que se aprendeu na faculdade 10 anos atrás já mudou muito, e daqui a 10 anos vai ser diferente de novo.

Quebrando a Premissa

Desenvolvedores de software não podem nem devem ser comparados a médicos ou engenheiros. Estamos mais perto do artesanato, da arte, da experimentação.

Um mesmo programador muda o jeito de fazer a mesma coisa de projeto para projeto, como um artista muda alguma coisa numa escultura. A técnica se refina com a experiência e o convívio com outros artistas.

Combinamos ferramentas e processos diferentes, e cada combinação dá um resultado diferente. Não existem critérios fixos para definir o que é um “bom software” ou um “mal software”.

Outra coisa: software 100% livre de erros não existe. Bugs são inerentes à nossa prática. Dá para controlar, nunca para eliminar. Nenhuma linguagem, plataforma ou conjunto de técnicas garante 100% de certeza.

O que aprendemos foi conviver com isso: suítes de testes, por exemplo. Nem isso garante 100%, só cobre os bugs mais óbvios. Quer aumentar a chance de acerto? Aumente a quantidade de testes. Mas depois de certo ponto, alguém ainda teria que garantir que os próprios testes não têm bugs (!)

Tem gente que acha que basta aplicar CMMi, PMI ou qualquer dessas bobagens para “garantir” um “bom software” no fim do processo. Outro erro. Nem XP nem Scrum são respostas definitivas, embora sejam um grande passo à frente. O processo que garante 100% de certeza ainda não existe.

A Falácia do Diploma

Um músico diplomado é melhor que Villa-Lobos? Uma pintora diplomada é melhor que Tarsila do Amaral? Um escritor formado é melhor que Machado de Assis? O Washington Olivetto é um grande publicitário porque se formou? Detalhe: ele nunca concluiu o curso de publicidade da FAAP.

O que isso significa? Que sou contra a graduação? Absolutamente não.

Se Linus não tivesse passado pela Universidade de Helsinki, talvez não tivesse criado o Linux. Se Larry Page e Sergey Brin não tivessem se conhecido no doutorado de Stanford, talvez o Google nem existisse. E a lista segue: James Gosling por Carnegie Mellon, Bill Joy por Berkeley, Bjarne Stroustrup por Cambridge, Dennis Ritchie por Harvard, Yukihiro Matsumoto pela Universidade de Tsukuba.

Muitos dos grandes nomes da história da computação são formados. Isso significa que todos os outros estão perdidos? Não. O problema aqui é a Falácia Informal:

“Muitos grandes programadores da computação são formados. Portanto, a chave para se tornar um grande programador é se formar.”

Dados os dois cenários acima, entre artistas e programadores, eu diria o seguinte:

“Grandes programadores não são formados. Grandes programadores se formam.”

Esses grandes nomes terminaram faculdades, pós-graduações e doutorados porque viram valor nessa formação e foram atrás dela. Garanto que nas turmas de cada um havia dezenas de outros formandos, muitos lá apenas por inércia. Só um deles tem página na Wikipedia hoje.

Um grande artista viaja para a França atrás de conhecimento e inspiração por conta própria, não porque é trabalho de escola. Um grande programador lê Donald Knuth antes de dormir porque entende o valor dos algoritmos, não porque precisa de créditos para o próximo semestre.

Problemas Brasil

O problema aqui é o Brasil, para variar. E não, isso não é desculpa de “direita neoliberal”.

A maioria esmagadora das nossas universidades, pelo menos na área de computação, não chega perto das americanas. Sim, temos USP, Unicamp, algumas federais. Não estou falando das exceções.

Quase não existe incentivo à pesquisa, nem público nem privado. Não temos um Bell Labs, um Microsoft Research, um Google, ou as centenas de empresas que investem pesado em Research & Development. Empresa brasileira não quer investir, quer faturar. Ok, estou generalizando; as exceções não contam nesse argumento.

Nosso sistema tributário e fiscal é uma vergonha nacional. Ele nos faz sangrar todo dia e corrói o país como um câncer corrói um paciente terminal. Leis protecionistas que não funcionam, impostos que só servem para encher mais cabides públicos.

A pesquisa científica inédita publicada por brasileiros é um fio de cabelo perto da biblioteca de inovações que sai das melhores universidades americanas, europeias e asiáticas. As tecnologias do nosso dia a dia não vieram do Brasil: nós apenas licenciamos, importamos e aplicamos. Até as raras exceções de grandes conquistas brasileiras são mais usadas lá fora do que aqui. Exemplo clássico: a linguagem Lua, que por ironia tem a página da Wikipedia mais completa em inglês do que em português.

Se a maioria das faculdades se limita a ensinar o que se descobre lá fora, qual é o meu incentivo para me formar aqui? Quem tem vocação para pesquisa precisa ir embora, como fazem muitos dos nossos melhores cientistas. Cientista no Brasil morre de fome.

E se for para aprender, com anos de atraso, o que já se aplica lá fora, para que perder tempo? Felizmente hoje existe internet. Algoritmos e estruturas de dados? Estatística e probabilidade? Inteligência artificial, autômatos finitos? Compiladores? Bancos de dados não relacionais? Sistemas operacionais modernos? Tudo isso está coberto por livros e pela web. Faculdade para aprender os princípios das linguagens modernas? Não, aqui a faculdade ensina Java. Desculpem, é pouco demais.

Passei dois anos na USP e simplesmente me desmotivei a continuar. Aprendi toda a teoria de programação por conta própria. Para saber que o livro do Tanenbaum existe, eu não precisava esperar até o quarto ano. Para ler o livro do Wirth, eu não precisava ter entrado na faculdade. Onde estavam as pesquisas inovadoras que me prenderiam lá? Os grandes nomes publicando trabalhos novos? A motivação para ficar quatro anos ou mais numa universidade?

E depois de formado? Existe incentivo real para pós-graduação, doutorado e pesquisa própria? Na iniciativa privada, alguma empresa me contrataria para pesquisar? E se eu abrisse minha própria empresa, conseguiria mantê-la?

Empreender no Brasil é uma tarefa homérica. É preciso ser Aquiles para não ser esmagado pelo elefante da máquina do governo. Abrir uma empresa aqui quase te transforma em criminoso. O Brasil incentiva o “jeitinho” e a recompensa rápida, porque longo prazo aqui é praticamente sinônimo de prejuízo. Por isso um iPhone jamais sairia de uma empresa brasileira, e o próximo processador quântico jamais sairá de uma instituição brasileira. Importar tecnologia é mais barato, mais fácil e dá mais lucro do que criar, mesmo com impostos protecionistas.

Resumindo: se o único incentivo é receber um pedaço de papel ao fim de quatro anos porque uma lei vai exigir isso, fiquem com meu exame de urina. Sai mais barato.

“Jeitinho”, um orgulho nacional

Universidades ruins, empresas ruins, estudantes desmotivados, nenhuma tecnologia nova. Nessa espiral negativa, a “lei regulamentadora” faz menos sentido ainda.

Antes de mais nada, uma lei que regula o que não é regulamentável serve para uma coisa: arrecadar mais fundos para os puteiros de Brasília.

Nossas universidades, como um todo, são muito ruins. Assim como popularizamos os “remédios genéricos”, criamos as “universidades genéricas”. Todo dia surge uma Uni* com cursos de dois anos aprovados pelo MEC, formando “profissionais”. Elas existem justamente pelos motivos que citei: virou burocracia obrigatória ter diploma, então o brasileiro criou um jeito de burlar. Se as empresas querem papel, papel elas terão, custando menos tempo e menos dinheiro.

Vamos definir o que um órgão desses regulamentaria. Software “certificado” seria todo aquele feito por diplomados, com processo ISO-xpto, aval de um “fiscalizador” autorizado, escrito em Java e rodando em servidor Windows. Está muito fácil.

É público e notório que a maioria das prestadoras de serviço de software, vulgo “consultorias”, é subproduto dessas condições. Subproduto do “jeitinho”. Nenhuma delas tem interesse em qualidade, pesquisa ou formação. Se mantêm centros de “educação” para certificar funcionários, é única e exclusivamente porque as licitações do governo exigem os papéis.

São elas que tornam a vida do desenvolvedor mais difícil. O governo não tem competência para liderar projetos de software, todo projeto sai uma ordem de grandeza mais caro, e a conclusão fácil é culpar as consultorias. Culpadas elas são, mas aqui o feitiço vira contra o feiticeiro: foi o próprio governo que criou essas aberrações, com atitudes iguais a essa “lei regulamentadora”.

Criar órgãos reguladores que não fazem ideia do que regulam é a minha definição de cabide de empregos: mais um corpo de fiscais para subornar. É mais um custo que toda empresa vai pagar para continuar funcionando, mais um obstáculo na burocracia absurda de todo dia. Do dia para a noite nasce uma nova categoria de “despachantes” para burlar isso, e mais trabalho para advogados.

Que benefícios essa lei traz para …

  • os clientes de empresas de software? Nenhum. Quem recebia serviço ruim vai continuar recebendo, só que mais caro. Quem tinha serviço bom pode perdê-lo, porque muitos bons profissionais serão impedidos de atuar e os ruins tomarão o lugar.

  • as empresas de software? Nenhum. Vai ficar mais difícil contratar gente boa, os custos de burocracia sobem, e no começo talvez haja até uma inflação nos preços de quem já tem diploma. Mais um custo para repassar ao cliente, mais uma encheção de saco.

  • os microempreendedores que investem em software? Nenhum. Muitos viviam do diferencial de qualidade e não vão arcar com os custos (subornos). Ou se adaptam com grandes dificuldades, ou fecham as portas.

  • os bons programadores? Nenhum. Os formados continuam trabalhando, agora pagando um equivalente de CREA que não protege direito nenhum e ainda atrapalha o tempo todo. A criatividade sai perdendo, porque o trabalho terá que seguir “padrões” arbitrários e ilógicos. Quem tiver condições, deixa o país.

  • os maus programadores? Todos. Os formados acabam de ganhar uma lei protecionista que os beneficia com ou sem esforço, mais procura e cabides de graça onde se pendurar. Os que não se formaram vão correr atrás do diploma, e nesse caso as Uni* genéricas ganham junto, vendendo papel a preço de ouro e ficando ricas no processo.

  • os atravessadores? Todos. Das Uni* enchendo seus “cursos” de baixíssima qualidade aos profissionais informais com “contatos” nos cabides governamentais, oferecendo saídas por baixo dos panos a quem puder pagar. Além disso vai se popularizar a figura do “profissional formado” que assina projetos feitos por “profissionais não legalizados” melhores que ele. Uma assinatura vai valer dinheiro.

  • os políticos? Todos. Mais cabides de emprego, mais lugares para empregar familiares e amigos, mais cargos executivos para negociar. Mais suborno de lobista. Mais dinheiro extraído de profissionais honestos que pagam taxas arbitrárias como essa. A maior parte da população, que não conhece o assunto, será ludibriada de novo, e eles se reelegem. Absolutamente nada a perder.

  • a população em geral? Zero. A área de tecnologia brasileira já andava devagar de qualquer jeito; isso é só mais um freio. Com sorte não voltamos a rolar ladeira abaixo. Somada a leis anacrônicas como a reserva de mercado, com seus impostos irreais sobre eletrônicos importados, essa lei coloca o mercado de TI brasileiro ainda mais atrás do resto do mundo.

Programadores

“Bons profissionais não são formados. Bons profissionais se formam. Bons profissionais, no Brasil, tragicamente podem acabar empurrados a ser péssimos profissionais.”

“Péssimos profissionais não são formados. Péssimos profissionais sempre serão péssimos. Não há esperança para eles.”

Não me interessa se a pessoa é formada ou não. Me interessa se o profissional é de qualidade.

  • Um bom profissional estuda e pesquisa por conta própria, já que ninguém o incentiva.
  • Um bom profissional está sempre preocupado com a qualidade do próprio trabalho, mesmo que ninguém o recompense.
  • Um bom profissional ajuda o próximo, mesmo que leve uma facada nas costas.
  • Um bom profissional usa o tempo livre para participar de comunidades, difundir informação e tentar melhorar a área, mesmo que isso lhe renda uma crise de stress.
  • Um bom profissional, no Brasil, é um sobrevivente: com tudo isso, ele ainda quer melhorar e aprende a viver na selva.
  • Um bom profissional precisa ser praticamente um Chuck Norris.
  • Um bom profissional guarda fantasias de ver uma Magnum 44 apontada para a cabeça de cada político.

Péssimas pessoas são péssimos profissionais. Todo político, por definição, é um péssimo profissional.

  • Um péssimo profissional é um encosto. Faz faculdade pelo diploma; aprender é o que menos importa.
  • Um péssimo profissional menciona, logo no topo do currículo, as 10 certificações que tem.
  • Um péssimo profissional dá risada de leis como essa: elas só melhoram a situação dele.
  • Um péssimo profissional torce pela deterioração do setor, porque no curto prazo ele se beneficia disso.
  • Um péssimo profissional adora lei protecionista, porque ela protege sempre tipos como ele. Afinal, quem cria essas leis são outros péssimos profissionais.
  • Um péssimo profissional é como uma barata: asqueroso e difícil de morrer. Eventualmente, alguns péssimos profissionais viram políticos.

Alguns dizem que sou simplesmente pessimista. Será?