Off-Topic: O Poder do Mito, Redux

20 de setembro de 2008 · 💬 Participe da Discussão
Se tem preguiça de ler, clique aqui pro TL;DR

Nos últimos posts eu expliquei por que o pensamento “medíocre” é ruim e por que não existe esse conceito de “média” no mundo real.

Alguns já me pediram recomendações de livros, e deixei alguns importantes nos últimos posts. The Black Swan é um dos principais. Ele explica como ignoramos os “cisnes negros” e por que tentar prever o futuro de longo prazo a partir de eventos passados é um exercício de futilidade. O ponto central: nós naturalmente “reduzimos” e “simplificamos” as coisas para torná-las digeríveis, e isso é um problema.

Agora quero explicar como o herói moderno banalizou a importância dos grandes mitos.

Heróis modernos

Outra obra que recomendo, sem relação direta com o assunto, é O Poder do Mito, do grande Joseph Campbell. O livro é fantástico e descreve, entre outras coisas, a Jornada do Herói. Toda civilização teve seus mitos, povoados de figuras heróicas.

Resumindo: a Jornada do Herói começa com alguém igual à maioria de nós, na “média” ou abaixo dela. O caminho é cheio de perigos, tentações e provações. No fim, o herói completa a jornada e retorna para pregar o que aprendeu. É um dos motivos pelos quais mitos como o do Buda ou o de Jesus são contados até hoje: são alegorias heróicas que formam parte importante de cada cultura.

Todo fã de Guerra nas Estrelas sabe que George Lucas é discípulo de Campbell. A história de Luke Skywalker é exatamente o conto do herói: um garoto pobre nos confins de Tatooine passa por provas e pelas tentações do Lado Negro da Força até se superar e retornar aos seus como herói. É um dos motivos de Guerra nas Estrelas ser um clássico até hoje.

O mundo moderno ainda tem suas histórias heróicas. Hoje, alguns dos heróis são homens de negócio bem sucedidos: Steve Jobs, Jack Welch, Henry Ford e muitos outros.

Todos nós gostamos de ter esses “heróis”. Suas histórias inspiram e, como efeito colateral, vendem muitos livros e merchandising, como cursos e certificações.

A autoajuda de hoje é uma representação pobre da mitologia de outrora. Nesse mercado que tenta fabricar os próximos heróis, cópias pífias disputam o espaço do próximo Perseu.

Charlatães

Toda essa conversa de herói era a introdução para o ponto que importa: como somos facilmente enganados por charlatães, e como sair desse ciclo vicioso.

Pergunte a Campbell, mas talvez esteja na nossa natureza a necessidade de heróis em quem nos espelhar. Não há problema nenhum nisso: os nomes que citei acima são razoavelmente dignos do título de herói moderno.

O problema são os charlatães que tentam se vender como heróis, e muitos conseguem. O “Líder” de hoje é o “Herói” de ontem. Fiz uma busca pela palavra “lider” no site do Submarino e o resultado já mostra o tamanho do filão: uma enxurrada de livros com o mesmo tema, “Como se tornar um líder”. Deve ser a categoria mais vendida da autoajuda corporativa.

Antes de mais nada: autoajuda é um enorme exercício de futilidade. Se puder evitar, evite, porque quase tudo é perda de tempo. Editores nunca foram bons filtros, então sempre haverá uma montanha de livros sem valor algum. O trabalho é separar o joio do trigo.

Muita gente diz que é preciso ler muitos livros, e está certa. Só falta explicar que não vale qualquer livro. Ler livro ruim emburrece mais do que ajuda; se só existisse esse tipo, eu recomendaria parar de ler. Lembrem de Pareto: talvez 20% de todos os livros valham alguma coisa.

Livro com tema “Como ser…”? Esqueça, é perda de tempo. Para entender, faça a pergunta mais óbvia: algum dos grandes líderes da história precisou de livro, curso ou palestra de autoajuda para se tornar memorável? Consegue imaginar John Kennedy, Martin Luther King ou Abraham Lincoln lendo “Como se tornar um Líder” nos bastidores? Dificilmente.

Agora a segunda pergunta: quantas pessoas perto de você viraram boas líderes por causa desse material? E vou além: existem dezenas de “metodologias” de gerenciamento de projetos que prometem milagres, e todo mundo compra.

A grande Falácia

A lógica funciona assim: você aplica a técnica ou metodologia e, se o projeto dá certo, o mérito é todo dela. “Claro que deu certo, graças à metodologia revolucionária.”

Se o projeto dá errado, o culpado é você, que obviamente não seguiu a metodologia direito. Se tivesse seguido, tudo teria dado certo!

Viram o absurdo? Todos esses livros e cursos de gerenciamento, liderança e resultados escondem esse truque: listam dezenas de pessoas e empresas que se beneficiaram das suas “técnicas”. Eu aposto que esses projetos foram bem sucedidos pela qualidade das equipes, das pessoas que os executaram. A metodologia só apareceu depois, para levar o crédito.

Foram equipes com gente capaz de contornar cada obstáculo, que subverteram a “metodologia” até atingir o objetivo. Atingiriam o mesmo resultado com ou sem a receitinha, e provavelmente mais rápido sem o embaraço das receitas mágicas.

Eu particularmente gosto da filosofia Ágil. Muita gente prefere falar em “metodologias” Ágeis, mas eu prefiro “filosofia”. Metodologia sugere uma receita sistemática que se repete em qualquer cenário, o que não é verdade. Se a equipe não tem consciência e disciplina na filosofia, pode implementar as técnicas à vontade que o projeto nunca será verdadeiramente Ágil. Escrever em post-it, colar na parede e cronometrar reuniões de 15 minutos não torna empresa nenhuma ágil.

Na era da modernidade achamos que estamos mais espertos, mais inteligentes. Será? Buscamos os heróis que venceram adversidades e, como Nassim Taleb diria, queremos pegar a experiência e as receitas deles e aplicar nos nossos próprios projetos. Em outras palavras: planejamos o futuro com base no passado bem sucedido de quem consideramos heróis.

Pior: ainda “adaptamos” essas receitas, convencidos de que sabemos fazer melhor. Um exemplo é a fama do tal “processo Waterfall”, o processo em escada, tido como um dos piores já criados para desenvolvimento de software.

O Waterfall foi descrito no paper Managing the Development of Large Software Systems, de 1970, por Winston Royce. É nesse paper que está o famoso diagrama de fases em escada. Só que pouca gente sabe que o próprio Royce escreveu ali: "… a implementação acima é arriscada e propensa a falhas". Ele já propunha executar o processo pelo menos duas vezes, ou seja, já sabia que a coisa evoluiria para algo iterativo.

Nós adoramos nos apoiar em projetos anteriores bem sucedidos, em mestres e estudiosos com soluções mágicas. A grande maioria simplesmente não faz a lição de casa e cai na conversa da carochinha como criança ingênua.

Outra coisa que quase ninguém questiona: alguém já checou, de forma empírica, quantos desses gerentes formados em treinamento têm carreiras consistentemente bem sucedidas no longo prazo? Eu não conheci nenhum. Também nunca vi um dado crível sobre isso, de uma entidade com credibilidade, num estudo independente relevante.

Fabricando Gerentes

Já passei por todo tipo de palestra e curso sobre gerenciar projetos, lidar com pessoas, ser líder. Num mundo Gaussiano, onde o sistema educacional inteiro incentiva a média, os estudantes chegam ao mercado de trabalho e de repente sente-se falta de gente fora da média.

Óbvio. Criamos as pessoas de forma paternalista e protecionista, o pior jeito de criar alguém. Na escola só estudamos o que nos dão, só fazemos a lição que mandam, só estudamos para tirar 5 e passar de ano. Estamos tão acostumados a receber ordens que o resultado ficou público e notório: excelentes operários, poucos profissionais pensantes e pouquíssimos grandes líderes.

Eu gosto de dizer que “líderes não são formados, líderes se formam sozinhos”. O jeito de incentivar a formação de líderes desde a infância é arrancar deles o pensamento da média e criá-los num ambiente meritocrático: onde o mérito é recompensado muito mais do que a mediocridade. E quando digo “muito mais”, falo de forma absolutamente desigual.

Uma civilização democrática e evolutiva não nasceu para forçar igualdade, subindo os fracos artificialmente e derrubando os fortes até todos ficarem na média. “Igualdade” quer dizer apenas que ninguém vai impedir você de subir acima da média. A maioria confunde isso com fazer todo mundo ser igual.

A solução correta é o oposto: manter uma alta desigualdade baseada no mérito. É o que acontece no mundo real: os bem sucedidos são ordens de grandeza mais ricos do que os que se esforçam pouco. Riqueza em capital, mas também em reconhecimento e influência.

As empresas seguem fazendo o contrário: repetem o currículo do primário, enfiam os funcionários numa sala de aula e esperam que saiam de lá grandes líderes.

Eu sei como isso funciona: sou Gerente de Projetos PMP, certificado pelo PMI, o “renomado” Project Management Institute. E digo sem medo: é mais uma das grandes mentiras corporativas tão comuns hoje em dia.

Funciona assim: você é obrigado a frequentar uns 2 ou 3 meses de aulas para aprender o “ofício” de gerente. Aprende a dividir o projeto em WBS, a montar um Gantt Chart, a calcular slacks, a criar um Project Chart, a analisar riscos (de forma Gaussiana!) e por aí vai.

Você recebe uma apostila, faz lição de casa toda semana, igualzinho ao primário. No final tem o “vestibular”: a prova de certificação, com 200 questões. Passou da nota de corte, pouco mais da metade, e você ganha um bonito diploma de PMP, um broche, um modelo de assinatura para o cartão de visitas e o direito de assinar os e-mails como “Fabio Akita, PMP”.

Tudo isso torna você um gerente melhor? Se você era muito ruim, pelo menos sai da ruindade absoluta e chega perto da média. Não se orgulhe muito disso.

Agora, isso cria bons gerentes? Absolutamente não. No máximo prova que você lê bem o suficiente para acertar pouco mais da metade das questões em 4 horas, o que, convenhamos, não prova nada. Depois da lavagem cerebral e do decoreba, qualquer um fica hábil em passar em prova. Quem fez cursinho para o vestibular sabe: curso de gerente é a mesma coisa.

Conheci muitos gerentes de projeto, mais do que eu gostaria, que são notoriamente péssimos. E passaram na prova de PMP! Quando você se forma, fica contente, claro, eu fiquei. Mas se você é esperto, começa a ter vergonha do título quando vê os outros PMPs ruins por aí. Foi quando parei de usar o meu, mesmo depois de um processo que custou uns R$ 5 mil (um pedaço de papel custa caro), fora dezenas de horas de simulados.

Ah, sim: nós viramos Líderes com data de validade. O meu expira em 2009…

Fabricando Líderes

De qualquer forma, se seu currículo é fraco e você sabe que não dá conta do recado, vá em frente e se certifique no máximo de coisas possíveis. O mercado de certificações existe porque as pessoas não aprenderam na escola como aprender de verdade.

Todo mundo só aprendeu a estudar o que lhe dão e a passar na prova, na média. Conheci poucas pessoas verdadeiramente autodidatas, com jogo de cintura. São exatamente as que não dão a mínima para certificações. Um conhecido meu, muito inteligente, com quem infelizmente tive pouco contato, foi quem me disse: “caras bons não se formam”. De fato.

E olha que tirar 10 na prova e ser inteligente são coisas bem diferentes. Você pode tirar 10 em tudo e continuar longe de ser uma pessoa inteligente. Conheci muitos nerds de nota máxima que viraram operários só um pouco melhorzinhos.

Nosso conceito de herói mudou muito. Para mim, a figura do Herói sempre foi forte e influente nas minhas atitudes: gente fora da curva, que sozinha saiu do zero e ergueu impérios. Sempre admirei os grandes artistas da Renascença, como Leonardo da Vinci, que quebrou barreiras como pintor, escultor, inventor, filósofo, anatomista, físico e matemático. E outras personalidades como Thomas Edison, Benjamin Franklin, Carl Sagan, Stephen Hawking e Charles Babbage, que conheci lendo enciclopédia no ginásio. Sim, enciclopédias não foram feitas para servir de enfeite.

Felizmente minha criação sempre pressionou para superar a média. Se eu chegasse em casa com nota 9, minha mãe respondia: “a nota da prova vai até 10, se faltou 1 ponto significa que faltou esforço.” Se eu tirasse 5, a média, era castigo. Meu pai, por sua vez, sempre primou pelo autoconhecimento: comprava livros e revistas científicas, e me deu um globo com mapa-múndi de presente de aniversário.

Você é uma empresa e quer formar grandes líderes? Coloque grandes desafios nas mãos deles, pressione ao máximo, extraia tudo o que puder. Seja um tirano sem ser um ditador. Exija perfeição, e para isso saiba até onde cada um consegue ir. Só quem supera obstáculos fora do normal é uma pessoa fora do normal. Líderes são Heróis, por definição!

Agora, “líder” não se ganha por cargo. Respeito de subordinado por força da hierarquia vale nada, zip, zero. Uma estrutura em que a única forma de comando é a velha “cadeia de comando”, onde o subordinado obedece porque o emprego depende disso, é uma empresa que tira uma fração mínima da capacidade que poderia. Por isso sou contra organizações hierarquizadas. Como mencionei no outro post, hierarquias são mais uma forma Gaussiana de controle pela média, e isso não funciona. Insistir no erro só torna tudo mais errado.

A Morte dos Heróis

Eis o problema do pensamento Gaussiano: num mundo que incentiva a média, sobra pouco espaço para Heróis. Por essa lógica, os heróis que existem são “acidentes”: a probabilidade Gaussiana diz que a chance de um herói aparecer é tão pequena que beira o zero, algo que uma pessoa “normal” jamais alcançaria. Nem vale considerar a possibilidade. O “seguro” é ficar na média.

Só que heróis existem e aparecem todos os dias. Abra a Forbes e veja a lista dos mais ricos do mundo. Pegue os 500 primeiros: o último lugar desses 500 já é infinitamente mais rico que qualquer um de nós. Estenda a lista para os 10 mil mais ricos e o último deles ainda é muito mais rico do que qualquer pessoa que você já conheceu. Desça mais e você percebe que existem milhares de pequenos heróis: gente que saiu do caminho “normal” e venceu. E não só em dinheiro.

Existe outro problema no mundo da média: muita gente conhece o “truque”. As pessoas até gostariam de ser heróis, mas isso dá trabalho. Todo mundo sabe que seguir o caminho do herói é um esforço descomunal e altamente arriscado: o meio da Jornada é lotado de provações, perigos e tentações do demônio. Ninguém gosta de sofrer por um futuro incerto. As pessoas são naturalmente imediatistas; adoram “dizer” que planejam o futuro, mas é só retórica.

E quem melhor conhece esse truque é justamente quem inventa as receitas mágicas, as metodologias, os procedimentos passo a passo de como virar herói em 24 horas, sem suar, sem se esforçar, sem se arriscar. Por uma pequena quantia e algumas horas do seu dia, qualquer um vira herói, e ainda leva um certificado para provar! As empresas contratam esses heróis fast-food, dão cargos de comando, e os subordinados obedecem pela simples força do cargo. Quer coisa mais fácil?

Como eu disse, não existe dado empírico que comprove a eficácia desses métodos. As empresas simplesmente “acreditam” que funcionam. O pedigree dos treinadores parece bom, outras empresas juram que funciona, as referências são ótimas. Por que duvidar?

![](http://s3.amazonaws.com/akitaonrails/assets/2008/9/20/the_office_nbc_image 3_ medium_.jpg)

Todos caem na falácia de mostrar só os projetos que deram certo, onde o mérito era das pessoas, e “esquecer” de listar os que aplicaram a metodologia e afundaram.

Parece tão inteligente quando o treinador diz: “como Líder, você precisa motivar sua equipe.” Só falta explicar, passo a passo, como se “motiva” alguém. Claro que ninguém explica. Pior: como Taleb descreve, as pessoas viram estereótipos e papéis, fantoches inanimados que, segundo a receita mágica, são previsíveis e fáceis de controlar. Basta “motivar”, basta “incentivar”, basta “ser comunicativo”. Construir retórica atraente e vazia é muito fácil. Difícil é levar um projeto ao sucesso.

Um conhecido meu já dizia: “Quem sabe faz, quem não sabe, ensina.”

E, segundo Pareto, isso é normal. Pelo menos 80% da população, das empresas e dos profissionais vai pensar assim. Ótimo para os outros 20%: menos concorrência.

O mundo não foi feito para ser justo nem igual. O mundo real é, por natureza, altamente injusto e desigual. Nele, os verdadeiros heróis são calejados, têm a pele grossa de tanto apanhar, e sobem graças única e exclusivamente ao próprio esforço. O mundo real é meritocracia. Muitos vão se iludir por um tempo, achando que estão num lugar estável e igual para sempre, mas esse período é temporário e fadado a desaparecer, dando lugar a um sistema de mérito que vai esmagá-los sem piedade. A maioria morre de medo disso, morre de medo de perder a zona de conforto.

Todas essas receitas de bolo, fantasiadas de autoajuda, travestidas de cursos sérios, são mitologia barata em doses homeopáticas. Não vou descrevê-las por mais do que elas realmente são. Todas vêm cheias de “conselhos”, e a melhor definição de conselho que já vi está no famoso vídeo Sunscreen:

“Conselho é uma forma de nostalgia. Aconselhar é uma maneira de pescar o passado da lata de lixo, dar uma limpada, pintar as partes feias e revendê-lo por um preço muito maior do que ele vale.”

Os Heróis de Campbell não vivem na zona de conforto: a rotina do herói é sair do caminho comum. A jornada começa exatamente quando ele resolve desafiar o que os outros consideram impossível. O herói vira mito quando conquista o impossível, e o impossível não se conquista por caminhos “normais”.

Mitos são raros, infelizmente (ou felizmente).