Off-Topic: Devo fazer faculdade?

17 de abril de 2009 · 💬 Participe da Discussão
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Não sei se foi coincidência, mas hoje recebi um e-mail pedindo uma opinião sobre esse tema ao mesmo tempo que o Paulino Michelazzo blogou sobre algo parecido.

A resposta curta? Na dúvida, faça. Ok, vamos para a resposta mais longa.

As Faculdades de Hoje

Assim como o Paulino, a maioria das pessoas tem a noção de que a faculdade “não prepara o aluno para o mercado de trabalho”. Outros dizem exatamente o contrário: que o problema é a faculdade focar só no mercado de trabalho e deixar o acadêmico de lado.

Para mim existem dois tipos de faculdade. O primeiro são as tradicionais sérias, como as federais e algumas estaduais: USP, Unicamp, UFRJ, ITA. Essas são as vistas como “as que não preparam o aluno para o mercado de trabalho real”.

O segundo tipo são as comerciais, com seus cursos fast-food de dois anos ou menos, diplomas relâmpago, faça dois-cursos-em-um. Nem vou citar os nomes porque são óbvios. Essas são as vistas como “as que só focam, mal e mal, no mercado de trabalho”.

O objetivo de uma faculdade deveria ser muito maior do que preparar alguém para “o mercado de trabalho”. Ela é o ponto final do processo educativo formal que começa no primeiro grau e que prepara o indivíduo “para a vida”. Preparar para evoluir sozinho, prezar pelo autoconhecimento, pelo respeito ao próximo, pelos deveres cívicos. Criar gosto pela descoberta, pelo pensamento racional e independente, pela tentativa e erro sistemática de melhoria contínua. Ao longo de mais de dez anos formais, o sistema deveria ensinar o aluno a pensar e agir por conta própria, com consciência dos próprios atos, pelo método científico acima de tudo.

Em vez disso, o aluno sai do sistema educacional com outra proposição: faço tudo que me mandarem fazer, tudo que me disserem é verdade e não precisa de averiguação, e tudo que aprendi até agora basta para me considerar um bom profissional. Resumindo, o aluno sai da faculdade com os valores completamente corrompidos. Metade da culpa é do sistema, a outra metade eu coloco no aluno, porque eu também passei pelo mesmo sistema.

As faculdades consideradas de primeira linha, como uma USP, ainda têm um âmbito mais acadêmico e, portanto, mais experimental, mais desafiador e mais interessante. Se o aluno tiver boa disposição, isso pode realmente abrir boas portas. Alunos desse tipo de faculdade têm mais tempo, costumam ter mais poder aquisitivo e, com a cabeça certa, acesso a professores e material com muito mais perspectiva. Estou generalizando: nem todos os professores são bons, nem todos os alunos são interessados. Mas não costuma ser o normal.

As faculdades comerciais têm um único objetivo: serem fábricas de diplomas. Elas apresentam, de maneira absolutamente superficial e descartável, todos os termos técnicos e procedimentos básicos que os empregos de base costumam pedir. São peças de um quebra-cabeça cruel cujo único objetivo é banalizar o ensino e o ofício. De novo, estou generalizando: existem bons professores e pessoas bem-intencionadas. Só que não é o normal.

O sistema educacional tradicional como um todo se baseia em dogmatização muito mais que em aprendizado propriamente dito. Até o fim do segundo grau, todos os alunos são máquinas de decoreba. As faculdades comerciais seguem o mesmo ritmo: decore, faça as provas e ganhe um diploma. Simples, fácil, sem esforço (repito: sem esforço).

Minha Experiência

Já relatei isso antes. Uns seis anos atrás eu resolvi tentar uma certa faculdade comercial renomada, só para tirar uma onda. Marquei a prova para um sábado e na sexta-feira anterior fui a umas três ou quatro baladas, não dormi nada, fiz a prova literalmente em ritmo de pós-balada. Terminei em meia-hora, afinal era absolutamente trivial, e obviamente passei. Vamos apenas dizer que o nome dessa faculdade é reconhecido por qualquer empresa do mercado.

Foi tão frustrante que decidi não perder meu tempo num lugar tão simples de entrar. Nem me dei ao trabalho de me matricular.

Quinze anos atrás eu prestei a Fuvest, a Unicamp e a Fatec, apenas essas três, e passei nas três. Foi bem mais difícil: passei um ano inteiro no mesmo ritmo frenético de estudo, pelo menos dez horas todos os dias, incluindo fins de semana e feriados. Foram milhares de exercícios e simulados, e nem assim eu cheguei ao topo da lista.

Ter passado algum tempo na USP foi uma ótima experiência, mesmo eu tendo desistido três anos depois. Os motivos são particulares e se aplicam somente a mim, por isso eu digo que não recomendo que ninguém me copie. Saí porque tinha certeza de que conseguiria aprender sozinho, e mais rápido, o que faltava do currículo. Mas não confunda: eu não achava que o que estava aprendendo fosse desimportante. Eu já era programador havia pelo menos cinco anos. Os primeiros anos de USP deram uma super acelerada no que eu já sabia e me ajudaram a dar passos muito maiores.

Apesar de eu ser do IME (Instituto de Matemática e Estatística), meus melhores amigos da época eram estudantes de engenharia elétrica da Politécnica. Foi esse pessoal que me ensinou Unix: uma galera que brincava de assembler na hora do lanche, fazia computação gráfica nas horas vagas e ainda tinha tempo para desenhar microprocessadores antes do jantar. Eu vi o Java, o Delphi, o HTML e o Javascript nascerem junto com esse pessoal. E tive acesso a internet banda larga, quinze anos atrás, graças à universidade.

Esse pessoal me deixou uma ótima impressão: estudantes apenas um ou dois anos mais velhos do que eu, mas que pareciam ter dez anos de experiência a mais.

Talento e Esforço

Para mim, a faculdade foi extremamente proveitosa e um passo importantíssimo no que sou hoje. Não terminei por opção. Agora vem a parte difícil: desenvolvimento de software não é um ofício manual repetitível. Assim como Publicidade, Música, Literatura, Medicina, Arquitetura e todas as grandes profissões, ele exige talento nato. Ninguém aprende a ser um grande músico: você nasce com o talento e aprende a refiná-lo. Você não aprende a ser Da Vinci, nem Mozart, nem Niemeyer, nem Villa Lobos. Ou você nasce Da Vinci, ou não. Sempre dá para aprender as técnicas, claro, mas você não vai chegar muito longe.

A faculdade não vai torná-lo um cara talentoso; no máximo, ela ajuda a moldar seu talento. Muitos descobrem na faculdade que não estão no caminho certo, e muitos só descobrem muito tempo depois. Infelizmente isso é comum. Algumas pessoas têm consciência de que ainda não sabem o que querem. Pior ainda: muitas sequer sabem que ainda não sabem.

Outra coisa importante: um cara de talento nunca se contenta com o que o sistema lhe dá, com o que a faculdade ou outros cursos lhe ensinam. Ele sempre quer mais, muito mais. São caras como um Linus Torvalds, que cria um kernel do zero. Como um Miguel de Icaza, que cria plataformas do zero. Como um Joe Armstrong, que desafia o status quo e cria uma linguagem como Erlang; como um Damien Katz, que cria maneiras diferentes de lidar com problemas antigos como bancos de dados, criando CouchDBs. Caras como Don Chamberlin e Raymond Boyce, que criaram o SQL original. Caras como Alonzo Church, que foram mais a fundo em disciplinas da matemática como o lambda calculus e abriram novas formas de programação. Caras como John von Neumann, que literalmente colocaram o primeiro tijolo da fundação da computação.

Educação é muito mais do que aprender um micro-ofício, uma série de tarefas mecanizadas que podem ser repetidas. Existe lugar para esse tipo de tarefa, claro. Mas se você está lendo este artigo, com certeza não estamos falando de pintura de parede nem de empilhamento de tijolos.

Muitos dos melhores programadores já são programadores antes ainda da faculdade. Não é um requerimento, mas é comum, principalmente nos dias de hoje, que a vontade de programar surja muito antes do vestibular. Isso facilita as coisas, porque há menos dúvidas. Nesse caso, invista o máximo no talento que você acredita ter e entre numa faculdade que tenha condições de moldar o que você sabe.

O maior erro que vejo acontecer são grandes potenciais entrando em faculdades ruins apenas para pegar um diploma. Eles acreditam que já são bons (ainda não são, apenas têm potencial) e que por isso não precisam de faculdade. São dois equívocos. O primeiro: uma faculdade ruim faz você perder tempo atrás de um diploma que não tem valor algum. Eu pessoalmente não contrato ninguém baseado em diploma, e nem ninguém realmente sério, que dá valor ao conhecimento, contrata por diploma.

O segundo equívoco é reduzir desenvolvimento de software (incluindo desenvolvimento web) a um mero conjunto de conhecimentos específicos. Achar que saber Javascript, HTML, Linux, Apache forma uma coleção suficiente. Pense novamente num pintor: um grande pintor ou sabe pintar a obra toda ou não sabe pintar nada. Um bom chef ou sabe fazer os pratos todos ou nada. Um músico ou sabe compor uma música completa ou nada. Não existe saber pedaços, mesmo que muito bem cada pedaço, e achar que já sabe o suficiente.

O Peão e o Artista

Esse equívoco é mortal, porque o indivíduo vai facilmente acreditar que sabe o suficiente e vai dar pouca ou nenhuma atenção a todo o resto. Desenvolvimento de software é uma arte como qualquer outra. Você jamais será perfeito em todos os aspectos dela, e a peculiaridade de todas essas áreas criativas é justamente primar pela “busca da perfeição”. O que conta é o degrau acima em que você estará amanhã, e a sabedoria de que essa escada não tem fim. O que importa é a jornada, e a jornada em busca da perfeição é o motor da melhoria contínua.

Como diziam de Sócrates: “quanto mais aprendo, menos sei”. Pare por um instante e pense nisso novamente: a maioria de nós esquece esse princípio. Diplomas e certificados são ruins justamente porque desestimulam a jornada de longo prazo em troca de falsos troféus de curto prazo.

Você acha que realmente não precisa de faculdade? Você sabe probabilidade e estatística? Porque sem isso você não cria os mecanismos mais avançados de anti-spam e antivírus. Você acha que entende de álgebra linear e cálculo? Porque senão você nunca vai criar nada de computação gráfica. Você realmente acha que entende de álgebra? Sem ela você nunca vai entender como funcionam os mecanismos de criptografia. Você aprendeu mesmo lógica booleana? Sem ela você não entende a fundação da computação moderna. Você acha física quântica irrelevante? Sem ela você nem pode começar a imaginar as possibilidades da computação quântica do futuro. Antes que os cínicos levem isso ao pé da letra: não estou pedindo expertise em nenhuma dessas áreas, eu mesmo não a tenho. Mas sei onde olhar para resolver cada problema que envolve cada uma delas.

Muita gente acha tudo isso muito irrelevante. Afinal, para que um programador precisa saber toda essa baboseira para ser um mero “codificador de formulários”? Acontece que, no final das contas, o grosso do “mercado de trabalho” é criar formulários: formulários em Visual Basic, formulários em HTML, é tudo formulário. Para isso eu não preciso de Da Vinci; um pintor de paredes me basta.

Se o seu propósito de “programador” é só esse, este artigo acaba aqui e eu estou perdendo meu tempo. Eu também faço formulários, mas não me conformo com isso e vivo inventando formas diferentes de fazê-los. Um Da Vinci não escolhe nem planeja quando nem como vai sair sua Mona Lisa. Ela é o resultado de uma jornada longa, trabalhosa e difícil. A Mona Lisa começou a ser pintada em 1503, ele deu os últimos retoques nela até pouco antes de morrer, por volta de 1519, e essa jornada o levou da Itália à França em 1516. Ela só começou a ficar realmente famosa em meados do século XIX. Ele fez centenas de outras pinturas durante a jornada, algumas mais conhecidas, outras ignoradas.

Além disso, conhecer todos os aspectos da profissão torna até a tarefa de “codificar formulários” mais interessante. Um codificador medíocre vai codificar formulários da mesma forma pela vida toda. Um bom programador sempre vai buscar formas diferentes, experimentar novas técnicas, aprimorar as que já sabe, exatamente como se fazia na Renascença. Daí nasceu toda a escola de arquitetura de software, as melhores práticas, as melhores arquiteturas, todo o processo e a disciplina que depois serão ensinados como decoreba aos medíocres.

Estruturas de dados, algoritmos simples, bancos de dados relacionais, compiladores, montadores, sistemas operacionais, protocolos: são todas disciplinas que devem ser consideradas triviais. O desafio está em outro lugar. Para um artista, é o mesmo que saber a posição de segurar um pincel ou como manusear as teclas de um piano: a diferença está na forma de usar. Isso requer talento, requer experiência. Mesmo a pessoa mais talentosa vai precisar de anos de experimentação prática, milhares de horas de treino, de tentativa e erro, de aprimoramento, até chegar ao status de expert. Um bom programador deve almejar se tornar um polymath.

Por polymath quero dizer saber programação, saber um pouco de administração, um pouco de marketing, cultura geral, comunicação e diversos outros aspectos que vão se somar ao seu ofício principal. A moda atual das “redes sociais” faz muito mais sentido quando você se inteira do trabalho de estudiosos como Albert-László Barabási sobre redes de livre escala, uma disciplina que não se origina na computação mas que explica com precisão a evolução desse tipo de formação natural. Para os mais inclinados à carreira gerencial, entender Frederick Taylor dá outra perspectiva. Temas mais “modernos” como agilidade ou lean fazem muito mais sentido depois de conhecer o trabalho de outros como W. Edwards Deming ou Taiichi Ohno.

Meu ponto: você não vai tirar nada de útil apenas da sua própria cabeça. Esqueça essa ideia. Você só aprimora o que sabe, de forma efetivamente veloz, subindo nos ombros de gigantes. No meu caso, acho que apenas absorvi esse insight e mudei minha atitude de forma consciente ao passar pela faculdade, num ambiente propício a experimentar minha própria pequenez diante de décadas de evolução cultural e acadêmica. Você precisa se sentir um anão para buscar ultrapassar os gigantes.

Os ambientes tradicionais e comerciais de ensino e trabalho de hoje, infelizmente, são péssimos lugares para isso, eu diria os piores do mundo. Neles você vive a ilusão de conseguir mais sem se esforçar por mais, num ambiente predatório que incentiva o rápido e o superficial. A cultura fast-food é completamente avessa ao conceito de melhoria contínua, que por definição depende de tempo e esforço disciplinado. Hoje todos querem uma faculdade curta, fácil de entrar, fácil de passar, de preferência barata e de pouco esforço. Cursos e certificados seguem o mesmo caminho: muito rapidamente você pode se autointitular um “sábio” em determinada área. No lugar de um ambiente meritocrático, que valoriza o aprendizado e a sabedoria, temos um ambiente oportunista que valoriza a pequenez, o pouco esforço e a baixa cultura.

Receita?

Com tudo isso:

  • Se você ainda está na idade escolar, no segundo grau, faça de tudo para entender o que você acha que gosta. Raramente você vai ter certeza, mas precisa tentar.

  • Se você já passou da idade escolar e ainda não sabe o que quer fazer, sinto muito: raros saem dessa condição para uma posição de destaque. Raro não é impossível, mas nesse caso entenda que você vai precisar se esforçar muito mais que a média, muito mais do que a maioria dos que são naturalmente talentosos. Vai literalmente cortar na carne, vai doer, e não vai ter garantia nenhuma de retorno.

  • Se você sabe o que quer, vá em frente. Mas vá de fato. Entenda que a jornada é longa e não tem fim, que você nunca vai atingir o topo e que sempre haverá muitos acima de você, com o agravante de que eles continuam subindo rápido. A recompensa: se você se engajar na jornada, nunca vai precisar separar trabalho de diversão. Deixe que os outros decidam se o que você está fazendo é trabalho.

Agora a parte mais complicada da equação: pouca gente tem condições para tudo isso. A maioria não é apenas oportunista; está numa situação de real despreparo financeiro, às vezes com problemas familiares mais graves ainda. É aquela terrível situação de ter que escolher entre o que você quer e o que os outros querem, onde qualquer uma das duas escolhas será péssima.

Não tenho solução mágica para isso, sequer tenho essa vivência. Porém conheço casos muito próximos, em detalhes, de pessoas que conseguiram sair do ciclo negativo e se tornaram muito mais bem-sucedidas do que eu. Agora isso tem um preço: vai doer. Nenhuma grande recompensa vem de graça. Nenhum grande valor vem em curto prazo.

O que eu mais vejo são pessoas que perdem muito tempo tendo dó de si mesmas. Odeio esse tipo, que se acha a vítima de tudo: a culpa é do sistema, da empresa, dos pais, de todo mundo, menos de si mesmo. Sempre existe gente em situação muito pior do que você está. Nunca ache que você já está no fundo do poço, porque você não tem nem ideia de quão fundo esse poço é. E se você está aqui, lendo este blog, posso lhe assegurar que você está muito longe desse fundo, portanto não tem desculpa.

O velho ditado continua valendo: “no pain, no gain.” O importante é não ser conformista. A maioria que critica quando eu falo dessas coisas parte do princípio errado: separa o que é trabalho do que não é trabalho. Esse já é o conformista: já se conformou que o trabalho é algo que ele não quer levar para casa. E não estou falando no sentido de levar papelada de tarefas para fazer na madrugada. Estou falando na jornada, no mindset, no pensamento, na reflexão. Qual o balanço disso? Cada um sabe do seu.

Foras de Série

Como conta Malcolm Gladwell no seu recente Outliers, os Beatles foram para Hamburgo cinco vezes entre 1960 e 1962. Eles tocavam oito horas por noite, sete dias por semana, tentando ganhar uma plateia que não falava a língua deles e que estava mais interessada nas strippers. Foram 270 noites em Hamburgo. Quando “I Want To Hold Your Hand” finalmente fez sucesso na América, em janeiro de 1964, os Beatles já haviam se apresentado umas 1.200 vezes. Isso é muito mais experiência do que a maioria dos novos artistas acumula na vida.

Você não precisa se tornar os Beatles, isso é quase impossível. Nem um Bill Gates, um Steve Jobs, um Ray Kroc, um Henry Ford. Não faz nenhum sentido tentar imitá-los, seguir seus passos, cursar os mesmos cursos, fazer as mesmas coisas, vestir as mesmas roupas. Isso é fútil e não traz nenhum resultado: uma biografia não chega nem perto de ser uma receita para o sucesso. Você precisa absorver o que os levou à jornada, e não o que fizeram durante a jornada.

Uma coisa que todos eles têm em comum é talento, muito trabalho e muita experiência. Um Mozart começou a compor aos seis anos, mas foi só depois dos vinte que ele finalmente compôs uma obra de arte: mais de dez mil horas de prática depois.

Portanto, eu retorno à pergunta: “Vale a pena fazer faculdade?” Certamente, se for uma boa faculdade, se for com o intuito de aprimorar o que você sabe, se for com o objetivo de aprender mais. Vale bastante, se você entender que uma faculdade é apenas uma fração da sua jornada de, no mínimo, dez anos de aprendizado antes de finalmente poder dizer que sabe alguma coisa.

Minha jornada na informática começou timidamente em 1986, com mais ênfase a partir de 1989. Meu currículo “formal” começa lá por 1997. Ainda sou extremamente novato em muitas áreas em que eu gostaria de saber mais. Minha jornada mal começou. Não pense que a sua já acabou.

Você precisa de uma faculdade?

Depois de tudo isso você não espera uma resposta fácil, espera? :-)

Para ser medíocre, por definição fazer o que todo mundo faz, sim: você definitivamente vai precisar de uma faculdade, qualquer uma, pegar seu diploma e ser apenas mais um no meio de milhões. Boa sorte, você vai precisar.

Para ser acima da média, o único caminho que presta, depende. Se você acha que consegue aprender tudo sozinho, isso também funciona. Conheço vários casos assim, de pessoas extraordinárias que nunca fizeram faculdade (ou que fizeram uma ruim, só para as aparências, sem que isso as influenciasse) e sabem todos os aspectos da área. Entenda: conhecimento não é um segredo. Não existe coisa que você só vai ver depois que abrir alguma porta secreta dentro de uma faculdade. Toda a informação está disponível. Cabe a você saber se vai atrás de tudo isso sozinho ou não. Se achar que não, faça faculdade, mas uma decente, não uma dessas comerciais descartáveis de esquina. Acho que vale a pena.

Porém, se a pergunta que você queria fazer era “faculdade é determinante numa carreira de sucesso?”, nesse caso a resposta é não. Sucesso depende única e exclusivamente do indivíduo. Se tiver sucesso, ele é só seu; se tiver fracasso, a culpa também não é de ninguém mais. E, de novo, aos cínicos (por alguma razão tenho a impressão de que os cínicos são inteligentes e sempre buscam retirar coisas fora do contexto): não, nada do que eu disse aqui é novidade. Estou apenas repetindo o que já deveria ser senso comum.