[Off Topic] Cuidado com o Kanban-butt

16 de dezembro de 2009 · 💬 Participe da Discussão
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Por alguma razão, muita gente anda discutindo e evangelizando Kanban ultimamente, e isso começa a me irritar. Aplicar a ferramenta Kanban como se ela fosse uma metodologia inteira é um erro. Essa ferramenta foi criada e difundida pela Toyota, décadas atrás, dentro de uma metodologia bem maior: o Toyota Production System (TPS), do grande Taiichi Ohno.

Como eu disse num artigo anterior, as metodologias ágeis têm a mesma fundação. Para entender o TPS vale voltar à literatura original, e uma dessas fontes é o livro O Sistema Toyota de Produção, do Ponto de Vista da Engenharia de Produção, de Shigeo Shingo, publicado em 1996. No Prefácio ele diz:

Muitos acreditam que ao implementar um novo sistema, somente “know-how” é necessário. No entanto, se você quer obter êxito, você deve entender, também, “know-why”

Com o know-how, você pode operar o sistema, mas você não saberá o que fazer no caso de encontrar problemas sob condições diferentes das usuais. Com o know-why, ou “sabendo o porquê”, você entende por que você tem de fazer o que está fazendo e assim enfrentar situações de mudança.

Especificamente sobre Kanban ele diz:

O maior problema encontrado enquanto estudava o TPS do ponto de vista de Engenharia de Produção é o fato de ser frequentemente considerado como sinônimo de sistema Kanban. O sr. Ohno escreve:

  • TPS é um sistema de produção
  • O método Kanban é uma técnica para sua implementação

Muitas publicações são confusas nessa questão e oferecem uma explicação do sistema, afirmando que o Kanban é a essência do TPS. Uma vez mais: O TPS é um sistema de produção e o método kanban é meramente um meio de controlar o sistema.

Análises superficiais do TPS dão especial atenção ao método kanban devido às suas características únicas. Consequentemente, muitas pessoas concluem que o TPS é equivalente ao método Kanban.

Um método Kanban deve ser adotado somente depois que o sistema de produção em si tenha sido racionalizado. Esse é o motivo pelo qual este livro insiste repetidamente no fato de que o TPS e o método Toyota são entidades separadas.

Devo acrescentar que 90% do excelente desempenho gerencial da Toyota foi atribuído ao TPS em si, e apenas 10% ao método Kanban – uma clara demonstração da maior importância do TPS.

Vale repetir: Shigeo escreveu isso em 1996. Impressiona que, mais de uma década depois, ainda cometamos os mesmos erros de interpretação.

Assim como o Manifesto Ágil, o Sistema Toyota tem um conjunto de 14 princípios, conhecido no Ocidente como The Toyota Way. E, do mesmo jeito que em Agilidade, colocar post-its na parede e rodar Sprints não faz nada virar Ágil. Seguir o método Toyota exige muito mais do que usar Kanban.

Para entender a Toyota é obrigatório entender o Toyota Way, e um dos melhores livros para começar é o The Toyota Way, de Jeffrey Liker. Se você pretende levar isso a sério, precisa também entender a revolução gerencial da Toyota, narrada no clássico The Machine that Changed the World, de James Womack.

Se ainda não está convencido, na conclusão do capítulo sobre Kanban, o próprio Shigeo Shingo diz:

Os sistemas Kanban podem ser aplicados somente em fábricas com produção repetitiva. (…)

Os sistemas Kanban não são aplicáveis em empresas com produção sob projeto não repetitivo, onde os pedidos são infrequentes e imprevisíveis.

O tipo de produção que com maior probabilidade se beneficiaria do Kanban, é aquele que utiliza processos comuns de transformação dos materiais.

Uma dica: desenvolvimento de software é uma tarefa não repetitiva. Mesmo assim, os princípios do TPS continuam muito aplicáveis quando o know-why está claro.

O método Toyota é mais conhecido genericamente como Lean Manufacturing. O melhor trabalho adaptando Lean ao mundo de software é o livro Lean Software Development, de Tom e Mary Poppendieck. Antes de falar levianamente em Kanban, é obrigatório ler esses trabalhos; caso contrário, será só mais uma ferramenta fadada a falhar, e vamos acabar com uma onda de Kanban-butts.

Tudo que vem fácil, vai fácil. “Parece” fácil implementar Ágil. “Parece” fácil implementar Kanban. Não existe almoço grátis. Leve as coisas de forma superficial e não espere nada além de resultados medíocres. É assim que funciona.