[Off-Topic] Empresas, Pessoas, Sucesso
Adoro o vídeo Wear Sunscreen. Vi pela primeira vez em 2003 ou 2004 e ele ficou comigo como um aviso, algo para lembrar de vez em quando. As partes que mais gosto:
“Tenha cuidado com quais conselhos você aceita, mas seja paciente com quem lhes dá conselhos. Conselho é uma forma de nostalgia, distribuí-lo é uma forma de pescar o passado do lixo, limpá-lo, pintar sobre as partes feias e reciclá-lo por mais do que vale.”
Outra parte importante:
“Talvez você se case, talvez não, talvez você tenha filhos, talvez não, talvez você se divorcie aos 40, talvez você dance a dança da galinha no seu 75o aniversário de casamento. Não importa o que faça, não se parabenize demais ou se critique demais. Suas chances são de 50%, assim como as de todo mundo.”
Relembrei dessa parte lendo What the Dog Saw, do Malcolm Gladwell, no capítulo em que ele fala de outro autor que gosto, Nassim Taleb, autor do excelente Fooled by Randomness. O capítulo está no blog do Gladwell, e este é o trecho que me chamou a atenção:
“Para Taleb, então, a questão de porque alguém foi um sucesso no mercado financeiro era vexatório. Taleb consegue fazer os cálculos de cabeça. Suponha que existiam 10 mil gerentes de investimento por aí, o que nem é um número grande, e que a cada ano metade deles, totalmente por sorte, ganharam dinheiro e que metade deles, totalmente por azar, perderam dinheiro. E suponha que a cada ano os perdedores saiam do mercado, e o jogo é refeito com os que sobraram. Ao final de 5 anos, haveriam 313 pessoas que ganharam dinheiro em cada um desses anos, e depois de 10 anos, sobrariam 9 que ganharam dinheiro em cada ano, seguidamente, totalmente por sorte. Niederhoffer, como Buffett e Soros, era um homem brilhante. Ele tinha um Ph.D em economia pela Universidade de Chicago. Ele iniciou a ideia de que por análise matemática rígida de padrões no mercado um investidor poderia identificar anomalias lucrativas. Mas quem poderia dizer que ele não era um dos 9 sortudos? E quem poderia dizer que no 11o ano Niederhoffer não seria um dos azarados, que de repente perderia tudo, que de repente, como se diria em Wall Street, ‘se ferrou’?”
O artigo é longo, mas poupo vocês dos detalhes: Victor Niederhoffer literalmente ‘se ferrou’ em outubro de 1997. Perdeu praticamente tudo.
O Milagre da Apple
Em 1997, a Apple era considerada praticamente fora do mercado, com uma linha de produtos ruim, péssima imagem, marketshare em declínio, enormes prejuízos. Foi quando Steve Jobs retornou.
Em 2009, a Apple é uma das empresas mais admiradas do mundo, seu valor de mercado se multiplicou dezenas de vezes, demonstra lucros extraordinários, a marca é uma das mais reconhecidas e adoradas do mundo, seus produtos são invejados por toda a indústria.
Essa é a história do CEO da Década, do iMac ao iPod, ao iPhone e agora ao iPad. Todos adoramos histórias assim. Imaginar que um grande cérebro, um gênio, um herói, sozinho dobra uma indústria inteira a seus pés. Doze anos ininterruptos de sucesso.
Eu também adoro essa história. Ela me fascina desde os anos 90, e conheço a trajetória inteira desde o começo, em 1976: o Macintosh em 1984, a Pixar em 1995, o grande retorno em 1997, o iPod em 2001, o iTunes em 2003, o iPhone em 2007.
Mas não consigo deixar de imaginar o quanto disso foi pura sorte, e quando virá o dia da grande virada para o azar. Espero que não aconteça, claro, mas a história mostra que é questão de tempo.
As Receitas Mágicas
O que acho mais engraçado é quantos “analistas”, “especialistas” e “gurus” gostam de citar histórias como a da Apple, de Warren Buffett ou dos Victor Niederhoffer da vida como donos de “Receitas Mágicas para o Sucesso”.
Existe uma indústria inteira, de psicólogos a MBAs, PhDs e economistas, com toneladas de livros e análises traçando as rotas das grandes pessoas e empresas de sucesso. Todos tentam achar o que elas têm em comum e, a partir daí, vender procedimentos que “garantidamente” levam você ao sucesso.
É uma tarefa fácil: se der certo, a fórmula funciona; se não der certo, foi você quem não seguiu a fórmula corretamente. Não tem como errar.
Estou cansado de ouvir: “temos que seguir esse caminho, porque é assim que a empresa XYZ, de grande sucesso, faz.” Mal sabem eles que muito disso pode ser pura sorte. E sorte é incontrolável, presa à situação em que aconteceu, impossível de replicar sob encomenda.
Num mundo caótico, é impossível replicar as milhões de variáveis que levaram a um fenômeno. Em retrospectiva, enxergamos muitos dos fatores macro, mas nunca saberemos todos os microfatores que influenciaram o resultado. Por isso é fútil tentar.
Dá para aprender com erros. Aprender com acertos é bem mais difícil, ainda mais o tipo de acerto que tira uma Apple da quase-falência em 1997 e a leva ao estrelato em 2009. Nem os maiores supercomputadores do mundo dariam conta de analisar todas as variáveis envolvidas.
Admirar os grandes sucessos é um bom exercício. Inspira a tentar coisas diferentes e a rever pontos de vista, e nisso há algo saudável.
Mas é burrice sair citando ou imitando os outros. “Vamos fazer X porque esse guru de sucesso disse.” Isso é cegueira, é agir sem saber o que se está fazendo, é não entender que o sucesso de alguém pode muito bem ter vindo de pura sorte. Muita gente prefere acreditar que veio de suor, esforço próprio e mérito, 100% fruto da perspicácia e da inteligência.
Como Taleb diz, isso soa como heresia numa cultura que trata “suor = sucesso”, mas é assim que o mundo funciona. Espécies evoluem ou se extinguem com base em pura aleatoriedade. O Homo sapiens está aqui por pura chance. É um fato a se aceitar.
Tem mais: análises em retrospectiva são perigosas. Depois do fato, é simples traçar o caminho para trás e enxergar a maioria dos passos que foram dados. O truque é que, no passado, na hora de decidir, ninguém sabia como a história ia se desenrolar.
Por isso não dá para comparar o crítico de hoje, que diz “ah, mas você devia ter feito Y”, com o decisor de então, que não tinha o conhecimento do futuro. E análises retrospectivas não servem de receita para o futuro, porque o conjunto de variáveis e circunstâncias será totalmente outro.
Histórias heroicas fazem parte do nosso folclore, da nossa cultura. Já falei disso no artigo O Poder do Mito: Redux, e recomendo dar uma olhada se ainda não leram.
Diante disso, um dos perigos é o bom e velho analysis paralysis, quando queremos avaliar todas as variáveis possíveis antes de tomar qualquer decisão. Aceite que você nunca terá todas, e por mais que consiga analisar, suas chances de acerto não melhoram tanto assim. Como disse antes:
“Não importa o que faça, não se parabenize demais ou se critique demais. Suas chances são de 50%, assim como as de todo mundo.”
Dito tudo isso, o que uma pessoa ou empresa deve fazer? “Satisfazer os clientes?” Isso é só um aspecto do negócio. “Entregar bons produtos?” Mais um aspecto. O que você faz no meio do caminho lhe dá ou não sustentabilidade, mas não confunda as coisas: o propósito é um só.
Um marketeiro dirá que o principal é “satisfazer o cliente”. Um engenheiro de produção, “aumentar a produtividade”. Um investidor, “aumentar o valor da empresa”. Um cientista da computação, “criar tecnologias inovadoras”. Um sociólogo, “fazer diferença no mundo”. E assim por diante.
O propósito de uma empresa é “ganhar dinheiro de forma sustentável”. Apenas isso.
Obs: Não estou afirmando que tudo vem só de sorte, claro que não. Estou dizendo que é inútil tentar separar uma coisa da outra em casos passados, e pior ainda usar isso de modelo para o futuro, justamente por causa dessa incerteza.