[Off-Topic] Grandes Artistas Roubam
A maioria de nós geeks provavelmente já ouviu a frase:
“Good artists copy, great artists steal”
Ela nos chega pelo Steve Jobs, no contexto da interface gráfica copiada primeiro pela Apple a partir da Xerox e depois pela Microsoft a partir da Apple.
A frase virou quase um cult depois do famoso filme para TV Piratas do Vale do Silício. E acabou, para muita gente, erroneamente associada a “plágio” e “pirataria”. Por muito tempo eu mesmo nunca parei para pensar nela, só a joguei nesse mesmo balaio.
A frase costuma ser creditada ao grande artista Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, ou simplesmente Pablo Picasso :-). Abro um parêntese: essa autoria é discutível. O registro documentado mais antigo dessa ideia é de T.S. Eliot, em 1920 (“poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam”), e foi o próprio Steve Jobs quem passou a colar o nome de Picasso no ditado, nos anos 1980. De qualquer forma, é a versão atribuída a Picasso que ficou popular, e é dela que parto aqui.
Quem me acompanha há algum tempo e assiste às minhas palestras sabe que eu gasto muito tempo tentando explicar o termo “artista” aplicado a “desenvolvedor de software”, ao “software craftsmanship” e, mais especificamente, à “prática de programação”.
Programação não é algo que você lê num livro, exercita uma vez e “boom”, já sabe programar. Como qualquer arte, seja pintura, música ou dança, ela depende de disciplina e muita prática. E quem se dedica a uma arte sabe que repetição é uma técnica, mas repetir a mesma coisa não leva a lugar nenhum.
O processo de “prática” começa em dominar uma técnica, repeti-la muitas vezes, entender onde se erra e refiná-la. Quando ela está dominada, segue-se rápido para técnicas novas e mais difíceis. É contínuo, sem um “fim”. Não existe “ponto de chegada” para quem pratica arte. Até lutadores de artes marciais sabem que faixa preta não significa “fim”.
Se eu tivesse que resumir tudo isso, seria com a frase de Picasso:
“Bons Artistas Copiam, Grandes Artistas
RoubamTomam para Si”
Troquei “roubar” pelo sentido mais literal de “tomar para si”. Essa é a pegadinha que muda o sentido para mim.
Tudo o que temos hoje, conhecimento, cultura, técnica, tecnologia, vem de séculos de acúmulo meticuloso e refinamento cuidadoso feito por centenas de grandes homens e mulheres. Literalmente, somos pequenos duendes de pé sobre o ombro de gigantes.
Uma propriedade material, física, quando tomada de alguém, é roubo: para você ter, alguém ficou sem. Copiar essa propriedade é plágio. Com conhecimento e ideias, porém, “copiar” ou “roubar” ganha vários sentidos mais abstratos, e quero expor um deles aqui.
Qualquer artista precisa começar de algum lugar. Um pintor contemporâneo já parte anos-luz à frente dos colegas de alguns séculos atrás. Naquela época, acesso a tinta não era óbvio.
De que material da natureza se extrai o amarelo? Talvez da gema de ovo. E o azul ultramarino? A coisa complica. Anos de conhecimento acumulado hoje nos dão todas as tonalidades possíveis sem precisar pensar nisso.
O mesmo vale para pontilhismo, aquarela, tinta a óleo. Hoje não precisamos “descobrir” essas técnicas, elas já estão exaustivamente documentadas. Ou seja:
“Para nos tornarmos ‘bons’ artistas, devemos ‘copiar’ as centenas de técnicas que os gigantes criaram antes de nós, até dominá-las.”
E convenhamos: um pintor que copia as técnicas bem o bastante para ficar indistinguível dos mestres que as criaram já é um excelente artista.
Toda prática começa copiando o que já foi feito. Repetindo, aprendendo as nuances, entendendo por que as técnicas chegaram ao que são hoje. Quem segue essa filosofia, copiar para dominar e seguir em frente até cobrir a área inteira, está andando nos passos dos gigantes do passado.
Depois vem um passo extra. Nós, geeks, conhecemos o chavão de quando “o discípulo se torna o mestre”. Nos filmes parece bem mais fácil, mas esse passo é o momento em que o artista deixa de só copiar o que dominou:
“Para nos tornarmos ‘grandes’ artistas, depois de dominar o que copiamos, podemos adaptar, refinar e, quem sabe, melhorar ou inovar. É quando deixamos de apenas copiar e passamos a literalmente ‘roubar’, tornando aquela propriedade efetivamente nossa, tomando para si.”
É quando um Einstein sucede a um Newton, ou um Platão sucede a um Sócrates. Aqui “roubar” carrega o sentido de “tornar a propriedade efetivamente sua”, longe do uso comum de “tirar sem mérito o que pertence a outro”.
Todo bom pintor ou artista plástico tem dezenas de gigantes e séculos de material para “copiar” e “praticar”: Michelângelo, Da Vinci, Picasso.
Pintor de Parede vs Pintor de Quadros
Outra coisa que repito ad nauseam é que existem programadores-codificadores e programadores-desenvolvedores. Pintores de parede e pintores de quadros.
Codificadores não entendem seu papel nessa história. Aprendem a copiar umas poucas técnicas, talvez dominem algumas, e logo se autodenominam “mestres”. É um pensamento medíocre, que envergonharia os gigantes de eras anteriores: Babbage, Von Neumann, Bob Noyce. São meros pintores de parede.
Desenvolvedores, como gosto de chamar, entendem melhor seu papel na história. Reconhecem a riqueza do material que já existe, praticam sem limite e sem acreditar num fim, e dominam técnica após técnica, sempre mirando um nível acima do atual. Mas jamais se colocariam na posição de pintar uma Mona Lisa sem antes aperfeiçoar o sfumato. Esses são pintores de quadros.
Me envergonham programadores que leram pouco, praticaram miseravelmente pouco e se acham na posição de mestre. Do mesmo jeito que envergonharia um pintor ouvir alguém dizer que sabe pintar um afresco sem sequer saber diluir uma base de gesso.
Resumindo a minha versão pessoal:
“Bons Artistas Copiam, Grandes Artistas Tomam para Si, Péssimos Artistas são cheios de si.”