Processos, Metodologias e o Cérebro Humano

21 de junho de 2013 · 💬 Participe da Discussão
Se tem preguiça de ler, clique aqui pro TL;DR

Original de 24/6/2010: Gestão 2.0

O cérebro humano é uma máquina fantástica, e dizer isso é basicamente uma redundância do termo. Porém existem muitas anedotas e misticismo quando se fala sobre ele.

Todos já discutiram alguma vez a separação da “Emoção” do “Raciocínio”. Desde os tempos de Platão, as emoções são vistas como algo que atrapalha o pensamento lógico. Pior ainda: a maioria das pessoas acredita que, pelo menos nas decisões mais importantes, somos capazes de deixar as emoções de lado. A ideia é pensar de acordo com a economia clássica, baseados em fatos, evidências e custo-benefício.

Porém, na grande maioria das vezes não é assim que nos comportamos. Quando vamos a um supermercado, dificilmente ficamos fazendo aritmética, considerando os ingredientes de cada produto ou o valor nutricional. Normalmente olhamos para um produto e decidimos se compramos ou não com base no que sentimos.

No meio de dezenas de marcas para um mesmo tipo de produto, escolhemos com base em experiências passadas, em algum acontecimento marcante, nas lembranças, e tudo em frações de segundos. Preferimos levar um produto “80% light” a levar um “20% gorduroso”, apesar de ambas as frases dizerem a mesma coisa.

Brain

Antonio Damasio é um conhecido neurologista que estuda o cérebro e nosso comportamento. Ele acompanhou pacientes que literalmente perderam a capacidade de ter emoções por causa de danos cerebrais, seja por tumor, seja por problema genético. Poderíamos imaginar, como o filósofo Platão, que uma pessoa sem emoções tomaria as melhores decisões o tempo todo, já que não seria influenciada por elas.

Porém, sem as emoções essas pessoas não conseguem aprender. Qualquer decisão trivial vira uma análise de custo-benefício. Escolhas cotidianas como que roupa vestir, que canal de televisão assistir, tomar chá ou café, todas as coisas mundanas que decidimos quase instantaneamente, podem levar horas até esse tipo de paciente chegar a uma conclusão.

Brain

Um fato que já conhecemos: todas as emoções, tristeza, compaixão, alegria, depressão, prazer, são reações químicas no cérebro. E já sabemos como influenciar ou controlar muitas delas.

Usuários de drogas conhecem a sensação de prazer. Quem toma antidepressivos também. São todos químicos que atuam no cérebro e modificam nossas emoções. Esquizofrenia e Parkinson, por outro lado, são danos nesse sistema químico.

Outro fato é que nosso cérebro evoluiu para aprender. Aprendemos por tentativa e erro. Aprendemos observando e inferindo padrões. As emoções influenciam fortemente nossas decisões, e isso é bom.

Quando aprendemos algum padrão, dopamina é liberada no cérebro e cria uma sensação de prazer. Gostamos de descobrir o padrão das coisas e de tentar prever eventos futuros.

Pegue um experimento com macacos: tocamos um sino e depois damos uma banana. O macaco aprende o padrão “depois do sino vem a banana”. Dá para medir a dopamina sendo liberada já quando o sino toca, porque o macaco passa a prever esse acontecimento.

Se acendermos uma luz, tocarmos o sino e depois dermos a banana, o macaco aprende que o evento “luz” dá sequência ao sino e depois à banana. O padrão pode ser repetido com várias etapas, e o macaco aprende. Porém, se seguirmos o padrão e a banana não vier no final, o macaco fica triste, porque a previsão falhou.

Nós também funcionamos assim.

Para muitos eventos simples, com poucas variáveis, isso funciona bem. Talvez por isso muitos gostem de rotina, onde os resultados são bem definidos.

Nosso cérebro, no entanto, tem um defeito: na ânsia de encontrar padrões, ele tenta encaixá-los onde não existem. É assim que nascem as superstições. Antes de entendermos meteorologia, tribos primitivas achavam que “chover” estava ligado a uma dança que acabaram de fazer, e imaginavam que repetir a dança traria a chuva de novo.

Traduzi no meu outro blog um artigo da Scientific American demonstrando como somos “matematicamente ignorantes”. Tentamos achar um padrão para tudo. Um trecho que ilustra nossas superstições e explicações sobre coincidência é este:

Sempre é possível combinar dados aleatórios e encontrar alguma regularidade. Um exemplo muito bem conhecido é a comparação das coincidências nas vidas de Abraham Lincoln e John Kennedy, dois presidentes com 7 letras em seus últimos nomes, e eleitos com 100 anos de diferença, 1860 e 1960. Ambos foram assassinados numa sexta-feira na presença de suas esposas, Lincoln no teatro Ford e Kennedy num automóvel feito pela Ford. Ambos assassinos têm 3 nomes: John Wilkes Booth e Lee Harvey Oswald, com 15 letras em cada nome completo. Oswald atirou em Kennedy de um armazém e correu para um teatro, e Booth atirou em Lincoln em um teatro e correu para um tipo de armazém. Ambos os sucessores vice-presidentes eram Democratas sulistas e ex-senadores chamados Johnson (Andrew e Lyndon), com 13 letras em seus nomes e nascidos com 100 anos de diferença, 1808 e 1908.

Mas se compararmos outros atributos relevantes falhamos em encontrar coincidências. Lincoln e Kennedy nasceram e morreram em datas (dia e mês) e em estados diferentes, e nenhuma das datas é separada de 100 anos. Suas idades eram diferentes, assim como os nomes das esposas. Claro, se alguma dessas fosse correspondente estariam na lista de coincidências “misteriosas”. Para qualquer pessoa com vidas razoavelmente cheias de eventos é possível encontrar coincidências entre elas. Duas pessoas se encontrando numa festa normalmente encontram coincidências chocantes entre elas, mas o que são – aniversários, cidades natais, etc – não são previstos de antemão.

O mundo real é cheio de aleatoriedades, e não é difícil encontrar padrões nelas. Na verdade é muito fácil. Situações complexas têm muitos aspectos aleatórios, mais do que se imagina. E nosso cérebro ainda não evoluiu o suficiente para se sentir confortável num mundo totalmente aleatório.

Um exemplo são as pessoas de sucesso. Imagine um mega-investidor como Warren Buffett. Livros e mais livros são impressos, com análises, biografias e teorias, tentando explicar o processo que leva uma pessoa comum a ganhar bilhões na bolsa. Só por especulação: e se Warren Buffett for nada mais, nada menos, do que um acidente estatístico?

Nassim Taleb explica isso num artigo de Malcolm Gladwell:

Suponha que existem 10 mil gerentes de investimento por aí, o que não é um número tão irreal assim, e que a cada ano metade deles, totalmente por acaso, ganharam dinheiro e a outra metade perdeu dinheiro, também totalmente por acaso. E suponha que todo ano os que perderam dinheiro saem do mercado, e esse jogo é repetido todos os anos com os que sobraram. Ao final de 5 anos, ainda existiriam 313 pessoas que ganharam dinheiro seguidamente em todos os anos. E depois de 10 anos ainda existiriam 9 pessoas que ganharam dinheiro todos os anos, seguidamente, totalmente por acaso, por pura sorte da aleatoriedade. E quem pode dizer que Buffett não é um desses 9?

Nosso cérebro tem prazer em procurar padrões em tudo, especialmente em casos de sucesso. Queremos encontrar a receita, a fórmula mágica. Às vezes fica aquela sensação de “o que ele tem que eu não tenho?”

Às vezes duas pessoas são tecnicamente igualmente capazes, mas uma fica rica e a outra não. A diferença pode ser simplesmente aleatoriedade. “Mas isso não é justo!”, você reclama. O mundo não foi feito para ser justo. Justiça é um conceito humano, e a realidade não tem senso de moralidade: ela apenas “é”.

A ciência, felizmente, tem um procedimento para evitar essa armadilha do cérebro: o método científico. Tudo pode começar com um desses enganos, achando que encontrou um padrão e gerando uma teoria. Agora essa teoria precisa ser colocada à prova.

Para virar uma boa teoria, precisamos não só tentar comprová-la, mas principalmente tentar desprová-la. E mesmo que não achemos como desprovar a hipótese, nem por isso ela vira uma “Lei”. A ciência toma muito cuidado com as afirmações que faz.

Mesmo que uma teoria funcione bem mil vezes, basta um único fracasso para que seja rejeitada. É graças a essa forma de pensar que temos fundações sólidas e confiáveis na ciência, livres de superstição e misticismo.

Processos, Metodologias e Superstições

Dei toda essa explicação para chegar ao assunto principal deste blog: gerenciamento de projetos e de pessoas. Quem acompanha meus posts notou que em nenhum momento eu prego uma metodologia, um processo, uma receita de bolo. Coisas do tipo “como fazer estimativas corretas” ou “como prever o sucesso de um projeto”.

Se você é bem atualizado, sabe que existe todo um mercado de indivíduos e empresas que tentam justamente isso: vender processos e metodologias. Seja a Engenharia de Software tradicional, seja o PMI, sejam as chamadas “metodologias Ágeis”.

Antes preciso deixar um alerta: todas essas metodologias foram pensadas com a melhor das intenções. A ideia era compartilhar os fatores que levaram determinado projeto ao sucesso.

Minha explicação é mais ou menos assim: os líderes desses projetos, ou melhor, seus cérebros, começam incansavelmente a procurar padrões. Talvez seja o post-it na parede. Talvez o tipo de documento usado. Talvez a forma de as pessoas se sentarem à mesa.

Tudo isso forma um conjunto de “pseudo-verdades” que o cérebro entende como as “luzes” e os “sinos” que levam à “banana”. Esses líderes aplicam a receita em outros projetos e, como Nassim Taleb explicou, têm sucesso seguidamente.

Eureca! Parece que encontramos a fórmula para transformar ferro em ouro! Rapidamente essas pseudo-verdades são formatadas como metodologias, enlatadas, empacotadas e vendidas.

Porém pensem por um momento: e se todas essas metodologias forem exatamente como a dança da chuva? Como eu disse, é muito fácil encontrar padrões na aleatoriedade.

Quando começamos a discutir minúcias, com que nível de detalhe fazer uma estimativa, que métricas usar, quais os mecanismos de comunicação da equipe, não consigo deixar de pensar nas tribos primitivas discutindo “Quais penas devemos vestir? Que cores usar na cara? Devemos dar passos longos ou curtos na dança?”

Mas a questão principal não vem à tona: é a dança da chuva que efetivamente faz chover? Ou, no nosso caso, é a metodologia que de fato leva o projeto ao sucesso?

Dança da Chuva

E o método científico? O problema é que um “projeto” é uma situação muito complexa. Mesmo os menores projetos são complexos, no sentido de que têm mais variáveis do que é possível medir.

Um dos jeitos de testar uma teoria é fazer um experimento duplo-cego, como os laboratórios de remédios fazem: um grupo recebe o medicamento de verdade e outro recebe um placebo, sem saber. Se ambos tiverem aproximadamente o mesmo resultado, o remédio não funciona.

Porém uma metodologia é mais complicada do que um remédio. Mesmo que a gente crie dois ambientes de trabalho isolados e idênticos, coloque dois grupos de pessoas “aproximadamente” semelhantes em cada um, comece no mesmo horário e com os mesmos requisitos, um lado com a metodologia “A” e o outro com a “B”, ainda assim não dá para comparar os resultados.

Isso porque metodologias envolvem as micro-decisões e as capacidades de cada pessoa, e “aproximadamente semelhante” é muito diferente de “igual”. É impossível duplicar o mesmo grupo de pessoas em cada ambiente.

Teríamos primeiro que clonar as pessoas com sucesso. Aí sim, com grupos exatamente idênticos, daria para fazer um experimento duplo-cego. Mas isso é impossível.

A conclusão é que provar uma metodologia desse tipo como “correta” é impossível, assim como é difícil desprová-la. Portanto, é inútil tentar afirmar que elas funcionam ou não. É claro que influenciam e, separadamente, cada técnica pode ser testada com mais cuidado. Mas não acho possível afirmar cientificamente que elas funcionam.

“Mas eu testei a metodologia X no meu projeto e funcionou!”

Excelente, bom para você. Porém, para cada projeto bem-sucedido com determinada metodologia, dá para encontrar um caso em que deu errado.

E os indivíduos e consultorias que vendem essas metodologias são espertos: se o projeto deu certo, foi graças à metodologia; se deu errado, foi porque as pessoas não seguiram a metodologia como deveriam. A culpa nunca é da metodologia. É uma ótima retórica para montar um argumento de vendas.

E como as pessoas não estão acostumadas a avaliar as coisas racionalmente, e como expliquei, na maioria das vezes nem raciocinam, sobram muitos consultores ganhando muito dinheiro sem precisar se comprometer com resultados.

Isso importa porque muita gente acredita que, com a ajuda da metodologia da moda, basta aplicá-la a uma equipe só de inexperientes para um bom resultado aparecer, como se o importante fosse o processo e não as pessoas. Acontece o contrário.

Na maioria das vezes essas metodologias não descrevem as qualificações exatas que cada membro precisa ter, porque é impossível listar todas. No máximo trazem descrições vagas de “papéis”, que geram mais discussão do que resposta. Um projeto com chance de dar certo começa com pelo menos algumas pessoas muito experientes, capazes de conduzir o resto da equipe.

Enfim, minha recomendação: estude as tais “metodologias”, porque, como eu disse, algumas técnicas ali têm valor. Mas entenda que nenhuma delas representa a verdade.

E não adianta somar duas meia-metodologias achando que isso as torna “mais completas”. Projetos são executados por pessoas, o comportamento humano é difícil de prever e o mundo real é cheio de variáveis imprevisíveis, formando um sistema complexo com muita aleatoriedade envolvida.

Evolução

Comece aceitando que o mundo é aleatório e está fora do seu controle. Em situações complexas é melhor errar antes do que depois, porque os erros trazem informação que ajuda a refinar as decisões seguintes.

Aceite que prever o futuro num sistema complexo é impossível e adapte-se: algumas coisas vão sair como previsto e outras vão precisar mudar. Talvez uma funcionalidade não prevista precise ser feita, e o prazo tenha que esticar. Talvez uma funcionalidade prevista não fosse tão necessária e possa ser descartada. É assim que se lida com um ambiente complexo e imprevisível: adaptando.

A biologia explica: todos os seres vivos do planeta são resultado de uma sequência constante de tentativa e erro. A natureza não é “perfeita”, no sentido de que não há criador, não há design inteligente, não há grande plano, não há destino. Todo ser vivo veio de um rascunho biológico muito ruim que, pouco a pouco, via seleção natural, foi descartando o que não funcionava e favorecendo o que funcionava.

Nós humanos carregamos resquícios biológicos, como o apêndice. Somos um produto em constante evolução, e para muita coisa o estágio atual é “bom o suficiente”. Em termos de projeto, é nesse ponto que ele pode ser lançado: quando está “bom o suficiente”, ainda com arestas a arrumar, mas funcionando no geral.

Tentativa e erro. Adaptação. Evolução. É assim que se gerencia qualquer coisa.

Se quiser uma visão mais detalhada sobre esse assunto recomendo começar lendo os seguintes livros: