[Off-Topic] Zona de conforto: sair às ruas não é a única solução

23 de julho de 2013 · 💬 Participe da Discussão
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Publicado pela 1a vez em 2013-07-23T09:17:20+00:00

Sair às ruas não é a única solução.

“Nunca na história do mundo ninguém nunca alcançou nada de bom e valioso por meio de orações e súplicas” – J.P. Morgan

Não quero julgar nem analisar os movimentos #vemprarua que tomaram as ruas do país neste passado recente. É um emaranhado que deixo para cientistas políticos e historiadores desembaraçarem. Quero elaborar sobre um pensamento que deriva desse tipo de movimento e aparece no nosso dia a dia: a “reivindicação”, o ato de “reclamar, exigir”.

É muito comum esta nova geração cair no erro de achar que reivindicar é a melhor solução para os problemas. Estão errados. Fora os casos extremos, essa é sempre a pior solução possível. No cotidiano do homem comum, reivindicar é só a declaração da própria incompetência.

Vamos considerar nosso mercado de tecnologia no geral:

  • Reivindicar melhores condições de trabalho: ninguém mais trabalha em fábricas sujas, esfumaçadas, junto com ratos e esgoto. Ora, ninguém sequer trabalha 8 horas por dia sem parar, no máximo 4 horas esticadas em 8.
  • Reivindicar melhores salários: é um livre mercado, com dezenas de empresas de tecnologia de todos os tamanhos e categorias. A mobilidade é simples. Claro, só consegue se mover de uma empresa para outra ganhando mais quem tem capacidade para isso. Quem fica no mesmo lugar, descontente, e só sabe “demandar” para ganhar mais já demonstra seu baixo caráter.
  • Reivindicar investimentos: parece que os ‘empreendedores’ de startups hoje viram apenas ‘mendigos profissionais’, convencidos de que só dá para ir pra frente quando um investidor lhes der dinheiro.

O pensamento de “reivindicar” leva ao outro pensamento, o do “reclamador barato”, aquele que joga a culpa em todos menos nele mesmo.

  • “O que estão pedindo é impossível de fazer nesse tempo e custo.” O pensamento por trás: “não consigo imaginar uma maneira, portanto deve ser impossível.”
  • “Os usuários do produto são burros, o problema não está no produto.” O pensamento: “se fui eu que fiz, só pode ser bom; se estão reclamando, os burros são eles.”
  • “O mercado é injusto: eu manjo mais e ganho menos do que deveria.” O pensamento: “sei que manjo muito, por que não me pagam o quanto eu quero?”
  • “Só me criticam, e o outro que também não fez?” Ninguém gosta de ser criticado, mas sem crítica não há avanço. Pior ainda quando a primeira reação diante da crítica é comparar com o erro do outro ou justificar jogando a culpa nos demais. Esse perfil jamais vai longe. Elogio não contribui para a evolução de ninguém, ainda mais elogio barato.

A Geração “Me me me” é a mais sensível que eu já vi. Deveria se chamar “Geração Porcelana”, porque quebra fácil demais.

Na Revolução Industrial as pessoas eram literalmente duras como ferro. Não havia opção: muitas morriam nas fábricas, e o conceito de “condições de trabalho” nem existia. Na era da agricultura, trabalhavam de sol a sol, ganhando muito pouco e carregando toneladas nas costas.

Agora esta era digital tem uma resistência estereotipicamente Emo (nada a ver com a origem do hardcore punk): riscou a unha, já entra em desespero. A adolescência está sendo esticada, e a fase adulta só se manifesta depois dos 30 (antigamente, aos 16 já era boa idade para assumir uma posição adulta).

Isso até deveria ser bom, porque significa que elevamos o conforto a um patamar jamais visto em milênios de história humana. Mas veio um efeito colateral: a nova geração cresceu sem entender a dificuldade de chegar até aqui.

Tudo isso pode levar à pergunta: “quer dizer que devo engolir tudo de que não gosto?”. De jeito nenhum. E aqui entra um gancho com meu artigo anterior “Restrições são Libertadoras: menos é mais”.

Assuma sempre esta premissa: ninguém vai te dar o que você quer ou precisa, muito menos além disso. Se você não conquistou, não merece o que está pedindo, e ninguém tem obrigação nem de ouvir o que você tem a dizer. Cabe a você, e só a você, resolver o próprio problema, com o próprio suor e as próprias lágrimas.

Para mim, a diferença entre uma criança e um adulto é simples: o adulto resolve os próprios problemas com as próprias mãos e nunca espera que resolvam de graça para ele. E “resolver” quer dizer resolver de verdade, sem jogar a culpa nos outros, sem demandar ou exigir, sem esconder o problema debaixo do tapete.

E quando o problema parece “impossível” é que aparece a melhor oportunidade de inovar. Inovação nasce justamente de uma situação impossível. Uma coisa é impossível quando não dá para realizá-la com o que sabemos até hoje. Só dá para resolvê-la por um caminho diferente, um caminho que ainda ninguém conhece.

Os adolescentes que se formam hoje nas faculdades veem essa moda das “Startups” e querem ser “empreendedores”. Tudo o que aprendem a fazer é montar PowerPoints para Demo Days. Acreditam que a “formação” (que é pouca, não importa o MBA ou PhD) e a “ideia” bastam para se intitular “empreendedor”. É pouco, extremamente pouco.

“Empreendedor” que assume baixo risco e baixo sacrifício é só um funcionário médio com nome pomposo. Uma “ideia” e um possível investimento resolvem muito pouco.

Primeiro trabalhe numa indústria de verdade para aprender como ela funciona e, quem sabe, achar uma solução que ninguém tentou. Porque essa é outra verdade: qualquer ideia que você tenha, provavelmente alguém já teve antes e já tentou de várias formas. As chances de você ter uma ideia inédita são baixas.

Só quando você cai numa situação impossível, em que já se tentou de tudo, é que aparece a chance de tentar algo novo e talvez inovador. Ao tentar resolvê-la, você pode acabar encontrando uma solução que já existia e descobrir que o seu “impossível” era só desconhecimento do que já se sabia. Aí é pular para o próximo problema.

Estava assistindo à série do History Channel “Gigantes da Indústria”, que mostra, de forma romanceada, parte da história de como os Estados Unidos conquistaram e mereceram o posto de maior potência econômica do mundo. A história começa como a nossa: ninguém lhes deu nada, tudo teve que ser conquistado. Ela traz alguns bons exemplos que gosto de citar.

  • Era impossível transportar mercadorias pelo país inteiro somente a cavalo ou mesmo a navio; cada vez mais foi preciso achar maneiras de encurtar esse tempo. Foram as ferrovias de Vanderbilt que ligaram todos os estados do país.
  • Era impossível ter uma corporação tão grande e massiva como a Standard Oil foi no passado, mas Rockefeller inovou o que hoje conhecemos como estruturas corporativas, muitas de suas práticas depois consideradas ilegais. Se você já encheu o tanque num posto Esso aqui no Brasil, vale lembrar onde tudo começou.
  • Era impossível atravessar o grande Rio Mississipi com uma ponte de ferro. Ligar o Leste e o Oeste do país parecia impossível. Foi preciso um Andrew Carnegie executar a ideia de uma indústria de aço acessível em larga escala para resolver esse problema. Formou-se a Carnegie Steel, que depois se tornaria a US Steel.
  • Era impossível ter eletricidade distribuída em todas as casas do país. Foi preciso literalmente o “sangue” de gênios como Edison, Tesla, Westinghouse e Morgan para atingir esse objetivo. Hoje nem pensamos nisso, porque todo mundo assume que eletricidade é algo “natural”. Não era.
  • Era impossível melhorar as condições brutais de trabalho nas fábricas e ao mesmo tempo ter produtividade. Henry Ford mudou esse conceito com o refinamento da sua linha de produção. Aliás, lembrem que o modelo que o tornou famoso foi o Ford Modelo T; para chegar ao “T”, ele começou no modelo “A”.

Esses e outros “self-made men” mudaram o mundo de um jeito só: resolvendo um problema de cada vez, sem reivindicar, reclamar ou exigir. E quanto mais “impossível” era o problema, mais “revolucionária” era a solução. É assim que se formam grandes empreendedores: resolvendo os próprios problemas com as próprias mãos.

A frase de abertura do artigo resume seu conteúdo, e a próxima o define:

“Visão sem execução é alucinação” – Thomas Edison