[Off-Topic] Breaking Bad foi uma startup de muito sucesso
Publicado pela 1a vez em 2014-03-28T09:00:33+00:00
Eu escrevi este artigo em inglês logo depois que o último episódio da série foi exibido na TV, em Outubro de 2013. Como já passaram alguns meses, imagino que todos já tenham tido a oportunidade de assistir tudo. Para mim esta foi uma das melhores séries de TV das últimas décadas. Chega perto do “The Sopranos”.
Não vou revisar cada detalhe da série, já que existem muitos blogs fazendo isso com mais competência do que eu faria. Vou assumir que você já assistiu à série e vou contar partes do final, então vá assistir antes de continuar lendo.
As pessoas amam a série e torcem pelo Heisenberg mesmo sabendo que ele comete vários crimes. Pessoalmente, acho que o que prende as pessoas é a história que o autor está contando, muito mais do que os crimes em si.
Esta é a história de uma startup de muito, muito sucesso, a clássica “startup de garagem”, só que dentro de uma van. Walter e Jesse começam com uma ideia, alguns trocados e muito trabalho, cozinhando metanfetamina no meio do deserto. Mesmo com pouco dinheiro e sem recursos, Walt não abre mão da qualidade do produto, e essa é uma marca dos grandes empreendedores. Jesse é a metáfora do empreendedor amador, que largou os estudos e tenta acertar na loteria sem experiência e sem pensar adiante.

Para mim, toda a ideia de Breaking Bad gira em torno de empreendedorismo. Walt não é só um experiente professor de química, com conhecimento e talento de verdade; é também um grande homem de negócios, e provou isso muitas vezes. Um exemplo está em perceber que, para pontuar alto, crescer organicamente vendendo nas ruas do jeito do Jesse não é o bastante.
Aí entram Gus Fring e a Los Pollos Hermanos, com a explosão nos canais de distribuição. É assim que se escala um negócio. Gus é o “investidor anjo” do Walt, e depois do aporte a pressão só aumenta. Jesse se cansa rápido de trabalhar tanto no laboratório, como todo jovem idealista que ainda não entende o que é trabalho pesado de verdade. Walt, por outro lado, está focado em pontuar alto a qualquer custo.
A série também mostra como negociar com parceiros de quem você não gosta e em quem não confia, num jogo sempre exigente. Quando surge a oportunidade, você não precisa fazer todo o trabalho sujo com as próprias mãos: ponha cachorro grande para comer cachorro grande, jogue o Cartel contra o Gus. E, se tudo der errado, sempre dá para explodir a casa de repouso.
No processo, o que vemos é o amadurecimento do Jesse. Walt foi um grande mentor, e as aventuras o tornaram mais forte. O final também é sobre o Jesse entender o que ele realmente é e talvez se tornar uma pessoa melhor, em termos de autoconhecimento. Agora ele está pronto para se comprometer e sacrificar, em vez de ser só um idealista.
No mundo real, a gente tem que se comprometer e fazer sacrifícios. Vão existir danos colaterais, porque não dá para fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos. Nada que valha a pena é fácil, e o processo nunca vai ser bonito.
O final é fantástico porque Walt finalmente admite uma coisa: quem empreende faz isso por si mesmo. Não pela família, não pelos amigos, não pelo bem da humanidade. É para você e só para você. Quem não está fazendo por si mesmo está fazendo errado, e esse é o conceito mais básico do empreendedorismo.
Beneficiar (ou prejudicar) os outros é sempre um efeito colateral de ações feitas com o único objetivo de beneficiar a si mesmo. Enquanto você não faz por você, sempre vai usar os outros como saída fácil, como desculpa. “Deu errado, mas eu fiz com boas intenções.” Boas intenções não importam, resultados importam. Se você faz tudo por você mesmo, a responsabilidade é sempre sua. Sem desculpas.
Ter sucesso vai muito além de glória e fama. Como Breaking Bad mostra, quando o negócio cresce, a concorrência fica mais agressiva, os ataques ficam mais violentos e todo mundo quer o seu pedaço da pizza. Defender o próprio território depende só de você, e nem sempre dá para fazer isso sozinho.
Às vezes você precisa de bons mercenários e sempre de um bom advogado, como Mike Ehrmantraut e Saul Goodman, para cobrir seus passos. São os parceiros de sangue frio que tocam os negócios que você não pode fazer o tempo todo.
Marie representa o que há de pior e mais degradante no mundo: a normalidade medíocre. São pessoas tão presas ao status quo, tão entediadas com a própria existência, que sentem inveja mortal de quem não segue a sua versão minúscula de “verdade”, o tal caminho de “ser normal”. Gente cheia de preconceito e cheia de si, que julga tudo e todos o tempo todo. O melhor a fazer é se manter o mais longe possível desse tipo.
Skyler começa igual à Marie, mas, por estar tão perto do Walt, ela luta contra si mesma. Sofre para sair da caixa, para se acostumar a correr riscos, para pensar de um jeito diferente. Ela passa por todas as fases comuns de transição: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. No final, a gente vê que ela finalmente entendeu.

Walt não era o vilão, era um homem fazendo o que sabia fazer de melhor. Alguém que valorizava tanto o próprio trabalho que jamais deixaria nada nem ninguém pará-lo. Isso é “garra”, e é o nível de garra que qualquer um que queira empreender precisa ter. Alcançar o objetivo, custe o que custar.
Walt é o melhor exemplo de empreendedor que existe, muito parecido com o Tony Soprano. A Máfia é o melhor MBA do mundo.