[Small Bites/Off-Topic] "People over Processes", o que são "People"?
Essa frase aparece bastante no mundo ágil. A leitura correta dos 4 valores do Manifesto Ágil está no que ele mesmo diz: “Ainda que exista valor nos itens à direita, valorizamos mais os da esquerda”.
O problema é usar a frase como desculpa. Ela vira “não precisamos de processos, basta deixar as pessoas escolherem”, ou então “as pessoas escolhem, então vamos ter consenso pra tudo”, a falácia da organização democrática. No fundo, é justificativa para não entender o valor de ter processos.
Agile, derivado do Lean, é inteiramente baseado em processos. E o pilar do Lean original (não das derivações como Lean Startup ou Kanban) é o “Kaizen”, ou seja, a “melhoria contínua”.
A ideia é que o hoje seja pelo menos um pouco melhor do que o ontem. O que fazemos é mensurável, e por isso dá para afirmar que hoje ficou melhor do que ontem. O princípio é simples; a execução, nem tanto. Se ainda não leu, siga os links deste parágrafo para entender esses conceitos.
Agora vem a parte ruim: como falar sobre pessoas? Ou, mais especificamente, sobre o comportamento das pessoas?
Como todos nós somos “pessoas”, temos a certeza de que sabemos como as pessoas pensam. E nada poderia estar mais distante da verdade. Carregamos ideias pré-concebidas, falaciosas, supersticiosas e preconceituosas, muitas ultrapassadas há tempos. De tanto serem repetidas como clichê, ainda acreditamos nelas, do mesmo jeito que muita gente acredita que só usamos 10% do cérebro ou que não dá para tomar manga com leite.
E não precisamos adivinhar. Assim como no caso dos processos, existe uma longa literatura sobre pessoas: psicologia, sociologia (que evoluiu muito a partir dos anos 90 graças ao estudo de redes), economia comportamental, entre outras. É impossível para quem vem da tecnologia virar especialista em Humanas, mas se a responsabilidade é priorizar pessoas, além dos processos, é melhor se equipar o suficiente.
Este é um Small Bite porque não pretendo, desta vez, entrar em detalhes sobre o assunto. Prefiro deixar alguns livros de que gosto muito para dar uma base.
Dentro da própria área de tecnologia existem alguns clássicos que valem a leitura:
- Peopleware do Tom DeMarco
- The Mythical Man Month do Fred Brooks
- The Psychology of Computer Programming do Gerald Weinberg
Daí podemos ir para Economia Comportamental e Psicologia:
- Thinking, Fast and Slow do prêmio Nobel Daniel Kahneman
- Predictably Irrational do Dan Ariely
- The Upside of Irrationality: The Unexpected Benefits of Defying Logic do Dan Ariely
- The (Honest) Truth about Dishonesty do Dan Ariely
- The Lucifer Effect do Philip Zimbardo
- Talent Is Overrated do Geoffrey Colvin
- Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain do Antonio Damasio
- The Black Swan do Nassim Taleb
- Fooled by Randomness do Nassim Taleb
E, mais especificamente, sobre o comportamento de diversos agentes em grupos (teoria de redes):
- Linked, the New Science of Networks do Albert-László Barabási
- Six Degrees: The Science of a Connected Age do Duncan Watts
- Everything Is Obvious: How Common Sense Fails Us do Duncan Watts
- Sync: How Order Emerges From Chaos In the Universe, Nature, and Daily Life do Steven H. Strogatz
- Chaos: Making a New Science do James Gleick
- Nonlinear Dynamics and Chaos do Steven H. Strogatz
- The (Mis)behavior of Markets do Benoit Mandelbrot
Sim, muitos desses livros são bem superficiais (nenhum é técnico ou de especialista), mas a intenção é só dar uma introdução às diversas áreas. Com o tempo, eliminei alguns superficiais demais, já na categoria de entretenimento e auto-ajuda, como Malcolm Gladwell, Dan Pink, Clayton Christensen e Clay Shirky. Ainda assim, vale a pena ler alguns deles.
O principal é a conclusão: ao contrário do que costumamos pensar, nós, pessoas, não somos tão racionais quanto gostaríamos, e nosso comportamento é fortemente influenciado por agentes externos e pelo ambiente.