[Off-Topic] Se Você Precisa de "Validação", Provavelmente está Errado

20 de abril de 2016 · 💬 Participe da Discussão
Se tem preguiça de ler, clique aqui pro TL;DR

TL;DR: este é um dos meus famosos posts Off-Topic, portanto, longos! Vá diretamente à conclusão para ver aonde quero chegar. Mas por favor não critique antes de ler o texto todo, será mais produtivo.

Em tempos em que todo mundo parece ter uma opinião ativa sobre certos assuntos, eu prefiro não defender ativamente nenhuma, nem a favor, nem contra. Os dois lados têm certeza absoluta de que estão certos, é um jogo de soma zero, e eu odeio soma zero.

Se eu tiver uma opinião e forçá-la sobre as pessoas, muitas vão concordar e comprar meu ponto de vista. Outras tantas vão discordar com ódio e tentar desacreditar a ideia ou o autor. E o principal: todos só temos a perder se entrarmos nesse tipo de visão maniqueísta.

Isso significa ficar “em cima do muro”? Também não. Uma coisa que eu tenho há anos no meu perfil do Quora é isso:

“I never live for the sake of another person and I never ask anyone to live for the sake of mine. I only accept voluntary trade for mutual benefit.”

Que quer dizer:

“Eu nunca vivo por causa de outra pessoa e eu nunca peço a qualquer pessoa para viver por minha causa. Eu aceito somente trocas voluntárias para mútuo benefício.”

Portanto, antes de continuar, eu peço encarecidamente que você pense por si mesmo, não pelos outros e muito menos por mim, independente de concordar ou discordar do que eu tenho a dizer.

Dito isso, quero começar com um pequeno exemplo, de magnitude microscópica perto das grandes questões da atualidade.

“Bem Vindos”

Em 07 de Julho de 2016, às 1:52:39 completará 10 anos que publico posts dedicados à comunidade de tecnologia, particularmente de Ruby on Rails. Escolhi as palavras com cuidado e disse o seguinte:

Vamos ver até onde essa comunidade pode chegar.

Ruby on Rails poderá ser muito ou nada, tudo vai depender de como o mercado vai encarar a novidade. Mas muita coisa pode ser feita agora. Para começar, aprendendo sobre o assunto.

Vou postar os principais assuntos sobre a plataforma aqui e espero que todos colaborem com ideias e sugestões ou mesmo críticas e opiniões.

Infelizmente ainda existem muitos desafios a serem vencidos. Para começar, materiais de Rails em português virtualmente inexistem. Sites brasileiros idem. Portanto quando digo “começar do zero”, estou falando sério.

O maior desafio será convencer o mercado. E isso não se faz da noite para o dia. Significa que ainda não será possível deixar o legado do Java totalmente de lado. Vamos começar um período de transição no qual tentaremos as duas coisas em paralelo.

Os pioneiros sempre caminham por território árduo, mas a recompensa dos primeiros sempre será maior também. Esse é o sentido do investimento.

Meus Princípios

Se você nunca leu meus Off-Topic, vamos deixar claro: eu não sou altruísta, no sentido literal da palavra, não no jeito errado como costuma ser interpretado. Nada do que fiz até hoje foi puramente em prol de alguma ideologia de “bem maior”.

Meu objetivo é simples: eu só quero o direito de produzir, nos meus próprios termos.

No caminho, o que eu faço deixa efeitos colaterais, e um deles é ajudar os outros. Hoje tenho uma pequena empresa chamada Codeminer 42 que emprega mais de 60 pessoas. São pessoas com famílias, que encontram ali o sustento e também a própria melhoria, através dos resultados que eu e meus amigos buscamos e conquistamos juntos. Esse é um efeito colateral direto.

Eu organizo a Rubyconf Brasil há 9 anos, junto com a Locaweb. Palestrantes, patrocinadores, a Locaweb e eu temos um ponto de encontro anual onde empresas conhecem gente nova pra contratar, profissionais acham o próximo emprego e empreendedores se juntam pra testar ideias. São mais de 1.200 participantes todo ano com a chance de produzir alguma coisa. Esse é um efeito colateral indireto.

Um grupo como o Ruby on Rails Brasil no Facebook, que não fui eu quem criou, tem mais de 8.500 participantes trocando ideias, aprendizados e experiências.

A base de tudo isso é o mundo open source: a maior experiência capitalista do mundo do software e um exemplo vivo do que é um Mercado Livre Laissez-faire. É o melhor lugar para manter e melhorar commodities de tecnologia.

Empresas investem tempo e dinheiro contratando programadores para manter projetos abertos. Não por serem “boazinhas”, independente do que digam, mas porque essas tecnologias trazem benefícios diretos e indiretos aos seus negócios.

Sozinhas, elas precisariam investir muito mais do que dividindo o problema entre dezenas de outras empresas para lucrarem juntas. É a plataforma ideal para o indivíduo demonstrar suas capacidades ao mundo, melhorá-las e buscar novas oportunidades. E é um dos ambientes mais brutais e agressivos que existem, justamente por isso muito bom, para aprender a lidar com pressão, comunicação e soluções técnicas criativas, exatamente porque os recursos são finitos.

Todos lucram, e nem sempre em dinheiro: uns com aprendizado novo, outros com oportunidades novas. Até quem tem seu lucro na pura satisfação de ajudar faz uma troca justa, do que sabe produzir pela recompensa de uma consciência mais tranquila. Afinal, ninguém ajuda quem não gosta, e isso sim seria altruísmo de verdade.

O que eu NÃO fiz, e NÃO faço

Quando comecei essa jornada, e lembrando que eu não fui o primeiro, sempre busquei fazer coisas para meu próprio benefício, sabendo que isso poderia beneficiar outras pessoas. Com benefícios mútuos, todos andam mais rápido e melhor. Minha proposição nunca foi promessa de recompensa material ou moral, apenas a de trabalhar no que se gosta.

Se fosse puramente por moral ou ideologia, nunca teria dado certo. E se por acaso desse, seria frágil, porque estaria assentado na fundação errada.

Se eu realmente acreditasse que “Ruby on Rails é a única melhor tecnologia”, teria forçado essa visão nos outros. Muitos teriam acreditado. Pior: teríamos que assumir que as outras tecnologias são ruins e lutar contra elas, ignorando as evidências. O resultado teria sido desastroso.

Eu sempre soube que Rails é bom em certos casos, em particular no mercado de startups que crescia a partir de 2004. Software as a Service, Infrastructure as a Service, Platform as a Service. Muita gente pensou como eu, de forma independente, e daí nasceram gemas como o Github, o maior mercado livre de software já criado.

Se eu tivesse assumido que meu jeito era o certo e o dos outros automaticamente errado, teria me frustrado e fracassado amargamente. Meu pensamento natural teria sido:

“Por que esse povo não me segue se meu caminho é certamente o correto?”

Eu nunca tentei convencer ninguém de que meu ponto de vista é o correto “pelo bem” de alguma coisa, ou “porque é free software”, ou “porque atende a alguma visão política”. Eu sempre evangelizei ensinando como lucrar.

Num nicho com as características de Rails se acumularam profissionais de qualidade rara. Todo novo programador tinha esses pioneiros como “role model”. Todo Rubista almejava qualidade em primeiro lugar. E a nova geração de startups mostrava como fazer produtos lucrativos sem a torneira aberta de investidores alucinados como em 2000. Era esse o discurso da 37signals em 2005: todo mundo queria fazer o próximo Basecamp. E fizeram, de Engine Yard a Heroku, Github, Pivotal Labs, Living Social, Shopify, Twitter, Groupon, Zendesk, Hulu, Square, Airbnb e Soundcloud.

Importa que eles não são 100% feitos em Ruby? Lógico que não. Ninguém está defendendo uma visão extremista e religiosa, este não é o “Culto do Ruby”. Rails é um meio para um fim, jamais o fim. Quem adotou Rails queria filtrar os melhores programadores, porque era preciso gostar muito da arte de programar para aprender Rails em 2006. Queria também qualidade de vida na rotina, porque os princípios por trás do design do Ruby e do Rails criaram uma visão única de como fazer software. Ninguém escolheu Rails como se escolhe time de futebol ou partido. Todos que escolheram miravam algum ganho para si e, pensando assim, criaram um ecossistema gigante que acabou beneficiando muito mais gente.

O que eu não fiz? Não fiz promessas, não dei certificados, não garanti ministérios, não prometi “um futuro brilhante” e não coloquei visão política na comunidade. Talvez a única promessa tenha sido a de muito trabalho pela frente e oportunidades de produção. Releiam o último parágrafo do meu primeiro post:

“Os pioneiros sempre caminham por território árduo, mas a recompensa dos primeiros sempre será maior também. Esse é o sentido do investimento.”

Esse é o espírito de um empreendedor: arriscar o que se possui, não o que os outros têm.

É proposital: desde o começo eu raramente palestro nos eventos que eu mesmo organizo. E desde o começo há outras tecnologias em exposição num evento de Ruby (tivemos palestras de Node.js já em 2009, antes de existirem eventos de Javascript). Por isso a “Ruby"conf tem trilhas de várias outras tecnologias em ascensão: porque só temos a lucrar com isso.

É a minha forma de produzir nos meus próprios termos, com o que eu gosto.

O “Ruby-way” não convence os outros de que usar Ruby é o único caminho. Ele mostra que trilhar o caminho mais difícil, o da qualidade e do cuidado com o que se faz, provavelmente traz resultados melhores. É o que faz um empreendedor: assume riscos calculados e trabalha brutalmente por si próprio. É o que faz um artista, sempre diferente do comum.

O caminho de um empreendedor, de um artista, de quem produz, é necessariamente individualista. Porque vai contra o status quo, contra o que se considera “certo” hoje, contra o que é “comumente aceito” por uma “maioria”.

“Loucura é querer resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa.” - Albert Einstein

Vamos sempre ser apedrejados por isso. Mas são justamente as pessoas que escolhem o caminho diferente que todos tentam impedir, e são elas que nos levaram às grandes conquistas da humanidade. Uma das coisas que me fez enxergar isso logo de cara veio do criador do Rails, o até hoje controverso David Heinemeier Hansson, alguém com quem concordo e discordo em vários aspectos, quando citou nos primórdios da comunidade:

“Primeiro, eles o ignoram. Depois, o ridicularizam. Finalmente, eles brigam contra você. E então, você vence.” - Mahatma Gandhi

É pecado sequer imaginar que não é o Sol que gira em torno da Terra. Foi preciso a visão individualista e absolutamente “egoísta” de um “Galileo vs Inquisição” para abrir caminho até hoje, quando não só já fomos à Lua como estamos ficando excepcionalmente bons em mandar maquinário para o espaço.

Uma Nação Nazista

“Somente um Sith pensa em absolutos.” - Obi-wan Kenobi

Existe um termo para quem pensa em absolutos no mundo real: extremista terrorista. Ser extremista, por si só, não faz mal. O problema é forçar a visão extrema sobre os outros, o terreno do terrorista, e é isso que leva ao lado negro da Força.

Um terrorista é perigoso porque acredita, de forma absoluta, que está certo.

“Porque algumas pessoas não estão procurando por alguma coisa lógica, como dinheiro. Eles não podem ser comprados, antagonizados, ensinados, ou negociados. Algumas pessoas somente querem ver o mundo pegar fogo.” - Alfred, The Dark Knight

É por isso que não se negocia com terrorista. É impossível, você sempre vai perder.

E o pior é que o lado negro da Força seduz, porque se traveste com facilidade de algo “bom”:

“Não tente me ensinar, Obi-wan! Eu vejo através das mentiras dos Jedi. Eu não tenho medo do lado negro como você. Eu trouxe paz, liberdade, justiça e segurança … ao meu Novo Império!” - Anakin Skywalker, Episode III

Não é difícil entender como surgiram pessoas tão inequivocamente reconhecidas como “o mal”. Coletivistas e extremistas como Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Heinrich Himmler, Hermann Göring.

Mas eles são só algumas pessoas. A questão principal é bem mais difícil: como se convence uma Nação inteira, como o povo alemão, a aceitar e agir em favor da ideologia de um partido como o Nacional Socialista, até o ponto do genocídio de 11 milhões de pessoas no Holocausto!?

Existem muitas teorias para o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, e é um assunto delicado até hoje. Eu tenho uma pequena teoria pessoal, sem suporte em evidências, por isso o ‘disclaimer’:

Muitos devem ter cometido esses atos com intenção puramente maléfica. Ainda assim, é difícil acreditar que, num espaço curto de tempo, milhares de alemães viraram automaticamente agentes do Mal.

Naquela época, a Alemanha carregava a humilhação do pós-Primeira Guerra e uma economia em frangalhos depois da Grande Depressão de 1929. Nesse contexto, uma ideologia política populista, em nome do bem social da nação, ganhou força pelo Partido Nacional Socialista. A ideia do “Terceiro Reich” seduzia por devolver a esperança de um futuro brilhante, o de uma “Nova Alemanha”.

E encontraram alguém para odiar de verdade, no caso, os judeus. A ideia antissemita pegou tração no discurso populista.

Em nome do “futuro brilhante da Nova Alemanha”, o caminho pôde chegar até o extremo do Holocausto. E mesmo assim, como isso se justifica?

Se você não conhece as teorias psicológicas de Stanley Milgram, recomendo assistir ao filme The Experimenter (2015) para entender.

Em resumo, o Experimento da Autoridade de Milgram, repetido inúmeras vezes ao longo dos anos, mostra que não é tão difícil quanto o senso comum imagina fazer um grupo de pessoas executar a coisa errada, mesmo com consciência disso, em nome de um “bem maior”.

Estou sendo simplista na explicação, claro, mas vale guardar isto: a maioria das pessoas reage com comportamento de rebanho (Herd Behavior).

Está perto da Lei do Mínimo Esforço: afinal, por que gastar tempo pesquisando se algo é “certo” ou “errado”, quando é muito mais fácil seguir o que a “maioria” julga correto?

“Um Pouco de Conhecimento é Uma Coisa Perigosa”

A coisa mais perigosa de todas raramente é a ignorância completa. É “um pouco de conhecimento”, como já nos alertou o grande poeta Alexander Pope.

“A little learning is a dangerous thing; Drink deep, or taste not the Pierian spring : There shallow draughts intoxicate the brain, And drinking largely sobers us again.” - Alexander Pope

Uma das coisas que gosto de escrever é justamente esse alerta: não sabemos tudo, nunca saberemos tudo, e tudo o que sabemos pode estar errado. Se você viver com isso sempre em mente, estará seguro.

A Raiz de Todo o Mal, os Inimigos da Razão, é o que eu aponto faz tempo: o pensamento “religioso”.

E não digo isso para atacar a religião dos outros. A “religião” a que me refiro não é só Cristianismo, Judaísmo, Xintoísmo. É pior, é a Religião do Pouco Conhecimento.

Vemos exemplos disso todos os dias, basta ler as notícias:

Basta procurar por “morte” nas notícias e boa parte delas é resultado da ignorância ou, pior, do “pouco conhecimento” das pessoas. Isso não vai se resolver sozinho, mas já resolvemos milhares desses problemas. O século XX em diante foi um grande avanço na eliminação de preconceitos, conhecimentos ultrapassados e ignorância geral da população global.

O problema é que nenhuma dessas pessoas tem dúvida. Todas têm certeza de que estão certas e de que fazem o moralmente correto, dado o pouco que sabem.

A consequência é a dogmatização. E dogma é inquestionável. Você segue uma cartilha inquestionável? Então provavelmente já foi dogmatizado. Ninguém gosta de ser provado errado, ainda mais depois de acreditar numa mentira com afinco por muito tempo, porque ela vira parte da sua identidade. E quem quer ver a própria identidade quebrada?

Cisnes Negros e o Antídoto do Pouco Conhecimento

Finalmente chegamos ao ponto. Como se resolvem os problemas do mundo?

Com a “filosofia científica”. E não é preciso ser cientista para pensar assim.

O mundo é injusto, é um fato. É impossível resolver o problema de todo mundo de uma vez. Mas dá para resolver um problema de cada vez, ao longo do tempo. Sinto muito aos impacientes.

Acho que começa com uma coisa simples: raciocínio crítico que não se apoia em indução simples.

Para mim, Karl Popper ensinou uma das coisas mais valiosas do meu jeito de pensar. Eu não procuro falsos-gurus, falsos-especialistas, falsos-líderes, falsos-heróis nem falsos-ícones.

Não preciso de ninguém de “autoridade” para me dizer o que é certo. E também não preciso do consenso de uma “maioria” para validar minhas ações.

Quando alguém advoga uma “afirmação inviolável”, “a” forma correta, seja pela tradição, pelas escrituras, pela vontade de uma entidade abstrata e amorfa como “a sociedade” ou “as pessoas”, ou pior, por “provas invioláveis”, eu sei que estou diante de um falso profeta.

A explicação para você se tornar incorruptível é simples. Deixe-me usar o exemplo clássico:

“Imagine que todos os cisnes do mundo são brancos.”

Digamos que sua afirmação venha do fato de que, nos 40 anos em que viveu, você, sua família e seus amigos só viram cisnes brancos com os próprios olhos. Sua conclusão natural e “lógica”, por “indução”, é extrapolar para uma lei geral e absoluta: “todos os cisnes do mundo são brancos”.

Isso vem do seu pouco conhecimento. Não importa se foram 40 anos. Não importa que você já tenha visto 1.000 cisnes na vida, todos brancos.

Você claramente nunca viajou para a Austrália ou para a Nova Zelândia, onde encontraria a variedade preta.

Pelo seu “pouco conhecimento”, você chegou a uma conclusão errada. E, pior, extrapolou e proferiu essa afirmação a outros, que agora pensam como você. A responsabilidade é sua.

“Eu sei que vacinas são ruins porque eu ouvi casos de várias crianças que foram vacinadas e morreram, portanto nunca vou vacinar meus filhos.”

“Eu sei que remédios não funcionam mas homeopatia funciona, porque minhas tias usam faz anos e nunca tiveram problemas de saúde, portanto nunca vou usar remédios.”

“Eu sei que o capitalismo é coisa de gente maléfica, porque eu conheci empresários na minha cidade que exploravam meus amigos e vizinhos, portanto o sistema capitalista tem que cair.”

“Eu sei que o socialismo funciona, porque meus amigos que visitaram Cuba ficaram muito impressionados com o que ouviram dos hospitais de lá, e por isso acho que tinha que usar em todo lugar.”

Você faz isso todos os dias: vê uma notícia de título chamativo, vê dezenas de “Likes”, concorda que está certa e ainda compartilha com mais gente, disseminando mentiras.

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” - Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda Nazista

O problema está na “procura da verdade”. Tirando os teoremas matemáticos, raramente é possível mostrar a prova correta de alguma coisa. Muitas vezes recorremos ao reverso, mostrar que algo é incorreto. Nenhuma quantidade de evidências prova uma teoria como verdade absoluta. O máximo que podemos fazer é “desprovar” uma teoria, e para isso basta uma única evidência que a refute.

“Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.” - Carl Sagan, Cosmos

E eu acrescento: nem mesmo com evidências extraordinárias dá para afirmar a descoberta de uma “verdade absoluta”. Dá apenas para dizer que temos conhecimento sólido o bastante para usar, e que pode ser desprovado a qualquer momento.

Vale ter esse conceito em mente, porque ele nos deixa mais fortes contra rumores, pseudociência, superstições, “ditos comuns”, tradição ultrapassada e todo tipo de falsa “verdade”.

Toda teoria que não oferece formas claras de desprová-la é uma teoria fraca e, certamente, não é científica. Toda afirmação que depende de uma divindade impossível de provar, de uma “moral” inviolável ou de uma autoridade “inquestionável” é pseudociência e está errada.

A Moral Cinzenta dos “Justiceiros Sociais”

Esse é um assunto em que evito ao máximo me envolver, porque esta geração dos chamados Justiceiros Sociais (Social Justice Warriors, SJW) é particularmente perversa. Não todos! Apenas uma minoria pequena e muito influente. Verdadeiros lobos em pele de cordeiro.

Disclaimer: eu considero perverso quem luta por causas sociais? NÃO. Existem diversas iniciativas sociais legítimas, com excelentes resultados e com gente de afinco real em resolver um problema legítimo. Só desejo coisas boas a essas pessoas. Aqui falo apenas de quem as desvaloriza. O objetivo desta seção é separar o real do ilegítimo.

Não sou contra causas sociais, e a maioria das pessoas civilizadas também não é. Há muito o que fazer para continuar melhorando o mundo. E no último século nós o melhoramos de forma extraordinária, ainda mais se comparado aos séculos anteriores ao XX.

Ao contrário do que muitos dizem, e algo que repito desde 2013: “O Mundo Hoje está Melhor”. Acredite que o mundo está piorando e você vai começar a justificar atos perversos como moralmente corretos.

O mérito é do progresso contínuo de quem “produz”, não de eventos e movimentos pontuais. E roubar vai além de tirar de alguém um bem material. Dá para roubar bem mais que isso: o tempo, a moral, a mente e a liberdade de uma pessoa.

Roubo da liberdade é Escravidão.

Até o século XIX todo mundo precisava trabalhar arduamente só para garantir o sustento básico. Hoje temos uma sobra enorme, um surplus, porque descobrimos formas mais eficientes e as aplicamos para fins individuais. Isso acabou ajudando muito além do indivíduo que as criou. O motor a vapor, a eletricidade, a agricultura, a medicina, tudo criação de gente egoísta com o único objetivo de produzir, tornou o mundo ordens de magnitude melhor. Nenhuma revolução social da história pode reivindicar os mesmos resultados.

Você se importa em diminuir a pobreza? Milton Friedman já explicava por que o Livre Mercado é melhor para os pobres.

Existem só 3 liberdades básicas que realmente importam:

  1. o direito à liberdade de expressão;
  2. o direito a produzir e manter para si o que se produz via trocas voluntárias, sem roubo ou escravidão;
  3. o direito a procurar e conquistar seus próprios objetivos, sem obrigação de servir à vontade de outros.

Um indivíduo produtivo “egoísta” tem um único objetivo, produzir, criar. Jamais roubar.

Ninguém tem o direito de restringir a liberdade de outra pessoa forçando a própria moral cinzenta, a própria agenda e os próprios objetivos, exceto pelo meio das “trocas voluntárias”. Nenhuma moral cinzenta tem o direito de justificar a imoralidade da escravidão de um indivíduo, por objetivo nenhum.

E aqui está o problema: o falso justiceiro social tem um único objetivo, ser um justiceiro social, ter a aceitação e a validação dos demais. Para isso, ele precisa que exista o sofrimento alheio, qualquer um, para justificar sua existência e sua identidade. Acabar com o sofrimento não é o objetivo dele. Se uma forma de sofrimento termina, logo será preciso outra para levantar uma causa, e esse é o círculo vicioso. O objetivo dele é se alimentar do sofrimento dos outros, escravizar esse sofrimento à validação da própria identidade.

Um produtor, um criador, nem sempre se interessa por “causas”, e certamente isso não é regra. Sejam quais forem os motivos, ele quer criar, e isso basta. Para o falso justiceiro, isso não basta: ele precisa tomar de quem produz em benefício de alguma “causa”. O justiceiro quer tirar o que você tem, e não o que ele mesmo tem, porque ele não produz, em nome de alguma moral cinzenta. E só pelas causas que interessam a ele. É a velha e eterna briga entre quem produz e quem toma, a moral cinzenta de Robin Hood.

É uma pena, porque isso desvaloriza quem de fato dedica a vida às causas sociais. Médicos, bombeiros, policiais, soldados e diversos anônimos que não gastam o tempo postando em rede social, julgando os outros e criando discórdia, mas trabalham em silêncio, sem esperar reconhecimento público.

Quer distinguir o justiceiro social real dos parasitas sociais? Procure pela ausência de busca por reconhecimento.

Conclusão

O objetivo deste longo artigo? Apenas expor conceitos universais e os meus princípios pessoais, que são invioláveis e incorruptíveis. Os principais pontos:

  • A única coisa realmente moral são as trocas voluntárias. Nunca forçar a escravidão, física ou moral, de qualquer indivíduo.
  • Não existe “verdade” decretada por um grupo ou por uma maioria. Existem ideias, umas válidas e outras inválidas. Mas se não forem falseáveis e refutáveis, provavelmente são falsas por premissa, não importa a moral aparente que representem nem a quantidade de “evidências” que juntem.
  • Não existe “autoridade moral”, esse é o domínio dos charlatães. Duvide de qualquer um que force a sua propriedade (sua ação é sua propriedade, sua liberdade é sua propriedade) em nome de qualquer “causa”, por mais justa que ela pareça. Não procure heróis.
  • A única coisa que nos tirou da Idade Média e nos lançou à modernidade foram as mentes que produziram para benefício próprio, sem exigir de forma unilateral a tomada da propriedade de ninguém, material ou mental.

Veja o século XX e compare com o XIX e anteriores. Ninguém explicou isso melhor que Hans Rosling, da Gapminder:

Gapminder

Não vire vítima da minoria dos falsos justiceiros sociais. Aprenda mais sobre esse perigoso grupo Orwelliano, nada menos que a “Polícia do Pensamento” profetizada no universo despótico de 1984. Esse tipo de pensamento não é novidade, existiu por todo o século XX, mas o advento da Internet e principalmente das Redes Sociais criou um ambiente selvagem onde reinam rumores, notícias falsas e pseudociência em geral. É onde o Racionalismo Crítico pode te salvar.

Princípios invioláveis e incorruptíveis são simples. No mundo axiomático da matemática, 2 + 2 é 4, e não há “maioria” nem grupo que, por clamor ou voto, mude esse resultado para 5 ou 6, não importa a moral ou a autoridade de quem clama. Você não precisa de validação! Você precisa, sim, assumir a responsabilidade pelas próprias ações e parar de justificar seus erros como resultado de seguir a moral cinzenta de outra pessoa.

Repetindo:

“Eu nunca vivo por causa de outra pessoa e eu nunca peço a qualquer pessoa para viver por minha causa. Eu aceito somente trocas voluntárias para mútuo benefício.”

E com esse princípio vamos continuar a evoluir o século XXI como fizemos no XX, não importa quem tente nos roubar, quer você concorde com esta exposição ou não.

Já estamos fazendo isso.