[Off-Topic] Carpe Diem e os Mitos da Felicidade

“Mas o que é felicidade? É um momento antes de você precisar de mais felicidade.” - Don Draper
Um dos grandes mitos da sociedade moderna, perpetuado por uma torturante repetição diária nas redes sociais, é o falso “objetivo” da “busca pela felicidade”.
A esse mito se soma o mito da “motivação”. TL;DR: motivação é superestimada, muito mais do que realmente merece.
“As pessoas podem ter dois tipos de mentalidade, diz ela. Aqueles com ‘mentalidade fixa’ acreditam que seus talentos e habilidades estão cravados em pedra. Aqueles com ‘mentalidade de crescimento’ acreditam que seus talentos e habilidades podem ser desenvolvidos. Mentalidades fixas enxergam cada situação como um teste de seu merecimento. Mentalidades de crescimento enxergam as mesmas situações como oportunidades de melhorar.” - Daniel H. Pink, Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us
Junto vem o mantra repetido do “faça o que ama”. Como discorri em 2014, essa ideia é uma forma mesquinha de desvalorizar o trabalho dos outros.
“…, o grande problema da narrativa do “ame o que você faz” é que ela está vinculada a um discurso de felicidade que é “estar no topo da montanha russa o tempo inteiro”. Como se uma vida normal, cotidiana, rotineira não pudesse ser uma vida de satisfação. Tudo isso torna esse cenário preocupante.” - Bárbara Castro - “5 Razões pelas quais o ‘faça o que você ama’ não é a solução”
No nosso pequeno grande mundo de tecnologia, isso leva muita gente a concluir: “vou trabalhar numa startup ou abrir a minha própria”. A decisão em si não tem nada de errado. O problema é chegar nela movido pelos mitos anteriores, o que vira uma fonte enorme de frustração desnecessária, como já expliquei em 2013.
“Não vou me equivocar: eu sou profundamente cético com esse sistema. Sou cético quanto à escravidão desse sistema, fetichização autocongratulatória de “disrupção” e ao mesmo tempo se tornando tão obviamente o tipo de instituição impassível que quer substituir. Sou cético quanto à visão de curto-prazo da comunidade de startup. E sou particularmente cético pelo seu desprezo quanto às vidas das pessoas que participam e a vida daqueles que vivem no mundo que as startups procuram reformular. Não vamos nem começar a discutir o conluio, cartelização e outras atividades de corrupção de mercado que são tão comuns no mundo dos VCs. O ponto sendo: é um jogo ruim, e um jogo de fraude.” - Alex Payne
Some a isso o “consenso” das redes sociais de que o mundo não para de piorar. Tudo hoje seria pior. As pessoas, piores. Os trabalhos, piores. O meio ambiente, destruído. Tudo ofende todo mundo o tempo todo, e ninguém consegue parar de julgar os outros.
Eu discordo, como já expliquei também em 2013 e repito todo ano: o mundo está melhor, em melhoria constante, e o futuro será ainda melhor. Aproveito para homenagear um dos homens que ajudaram a mudar minha perspectiva sobre o mundo, o recém-falecido Dr. Hans Rosling.

A Perpetuação dos Mitos
Não faltam livros, palestras, programas de TV, filmes e tudo mais construído ao redor da ideia de que todos “devem” ser felizes, o tempo todo. E que, se você não está feliz, está fazendo alguma coisa muito errada. A busca incessante pela “felicidade ideal” virou uma das obsessões mais insalubres e cruéis dos últimos dois séculos, ao lado do consumo excessivo de açúcar. Esse é outro assunto, embora açúcar e felicidade costumem andar correlacionados.
Existem 2 conceitos que todos precisam entender:
- Você provavelmente não tem depressão. Hoje em dia todo mundo “está deprimido”, claro, porque “descobrir o que ama fazer” dá muito trabalho e traz muito “sofrimento”…
Não, você só está entediado, momentaneamente.
Dizer “estou com depressão” em vez de “estou entediado” ficou tão comum que a condição clínica de verdade precisou de outro nome para se diferenciar, o “Major Depressive Disorder”. Essa é uma condição médica séria demais para ser tratada com tanta falta de consideração.
- Normalmente, mesmo depois de passar por eventos que consideramos muito ruins, ou muito bons, tendemos a voltar ao mesmo nível de “felicidade” (ou de tédio) em que estávamos antes deles. Isso se chama “Adaptação Hedônica”. É a principal razão de a “busca pela felicidade” ser uma jornada tão cruel: quem não entende esse mecanismo vive frustrado o tempo inteiro.
“Quando o suficiente não é o suficiente, nasce um hedonista.” - Sukant Ratnakar

Você já pensou em “Eu finalmente serei feliz quando me casar.” Ou “se eu conseguir esse trabalho, vou me sentir totalmente satisfeito.” Ou talvez você se relacione mais com o outro lado da moeda “Eu nunca vou ser feliz agora que recebi esse diagnóstico médico.” Ou “Eu não posso ser feliz enquanto tiver que pagar essas dívidas.” Pesquisas psicológicas revelaram duas descobertas importantes quando se fala nessas crenças: As coisas que achamos que nos tornarão felizes nunca nos tornam felizes pelo tempo que imaginamos. Ao mesmo tempo, eventos negativos na vida e desafios não têm um impacto duradouro na nossa felicidade como acreditamos que teriam também. - Sonja Lyubomirsky, Ph.D - The Myths of Happiness
“Nós parecemos obcecados por motivação, nos incitando rumo a algo além da vida disponível a nós agora, e tratamos essa motivação como se fosse uma parte importante da história da sabedoria, o que ela não é.” - Jennifer Hecht - The Happiness Myth: The Historical Antidote to What Isn’t Working Today
Por causa da Adaptação Hedônica, qualquer mudança parece fornecer uma “motivação” nova, a sensação de que “finalmente engatamos no caminho certo”. A menos que ela traga um propósito novo, é só mais do mesmo. Logo nos acostumamos ao “novo normal” e voltamos ao tédio.
Sem entender isso, você fica preso no ciclo interminável e insatisfatório da “grama do vizinho é sempre mais verde”. O efeito mais perverso desses mitos aparece quando a pessoa passa a culpar os outros pelos próprios problemas. “Eu não consigo porque meu marido…”, “Eu não consigo porque minha família…”, “Eu não consigo porque meus colegas de trabalho…”, “Eu não consigo porque meu chefe…”, “Eu não consigo porque a sociedade…”
Nesse momento você está perdido. Quer mudanças, mas quer que tudo ao seu redor mude, menos você mesmo. Essa é a melhor definição de covardia: viver de justificativas e desculpas superficiais para não se esforçar, para evitar a dor, para maximizar o prazer de curto prazo. É o comportamento de um viciado, e julgar tudo e todos é a droga.
Só você está destinado a coisas grandes, mas alguma coisa ou alguém te impede. Só você é especial. Só você merece tratamento diferenciado. Antigamente chamaríamos isso, educadamente, de “imaturidade” ou “criancice”. Hoje eu diria que a maioria se encaixa mesmo em “Transtorno de Personalidade Narcisista”.
“Transtorno de personalidade narcisista é um transtorno mental em que as pessoas têm uma sensação inflada de sua própria importância, uma profunda necessidade de admiração e uma falta de empatia. Mas por trás dessa máscara de ultraconfiança está uma frágil auto-estima que é vulnerável à menor crítica … (isso) causa problemas em muitas áreas da vida, tais como relações, trabalho, escola ou assuntos financeiros. Você pode ser infeliz no geral e frustrado quando não lhe é concedido favores especiais ou admiração que você acredita que merece. Outros podem não gostar de estar perto de você, e você pode achar que seus relacionamentos não te satisfazem.” - Mayo Clinic
No mundo moderno, eu reduziria isso à “Cultura do Like”. Triste.
Conclusão
Essa busca incessante pela “felicidade ideal”, esse “fazer somente o que você ama” e essa certeza de que “o mundo vai acabar” tornam as pessoas muito fracas. Baixa autoestima, baixa empatia, narcisismo altíssimo e uma sensação de “depressão” que chega a paralisar. No fim, a pessoa só atira para todos os lados, por falta de “propósito” e por frustração constante com tudo e com todos.
Felizmente, eu nunca tive esse problema. Conheci pessoas que têm, e este artigo é dedicado a elas, como um “wake up call”. Isso não quer dizer que eu não tenha tido momentos infelizes e crises pessoais. Já perdi muita coisa, financeira e pessoalmente. Negócios, amigos, relacionamentos. Não estou exagerando. Mas aceito meus prejuízos e pago por eles, como parte da vida: No Pain, No Gain.
Ambiente de trabalho “fancy” nunca foi preocupação. Já trabalhei embaixo de uma lona (!) quando pintaram o pequeno escritório onde eu era estagiário, no verão, sem ar-condicionado, porque iam dar uma festa e o trabalho não podia parar. Já trabalhei dentro de um armazém de logística, com teto de zinco, só com ventilador, caminhões entrando e saindo ao lado.
Dormi no chão do escritório dezenas de vezes. Carreguei móveis pelo meio da rua para mudar de sede. Varei muitas noites não pagas. Tomei esporro na cara por coisas que nem eram minha responsabilidade (eu era estagiário). Fiz um monte de coisas fora do meu trabalho de verdade, briguei com gerentes, com “colegas” e com fornecedor.
Nunca tratei nada disso como “fim do mundo”. Era só o inevitável. O famoso “aceita, que dói menos”.
Não é à toa que sou um Engenheiro. Engenheiro resolve problema, e a nossa obsessão é sempre encontrar um jeito mais eficiente de fazer a mesma coisa. Nenhum engenheiro resolveu nada só com mimimi.
Também não existe “trabalho que me desvaloriza”. Se eu precisar recortar um Photoshop, não vou tratar isso como trabalho braçal inútil. Não existe trabalho inútil. Existe má vontade. Toda tarefa corriqueira e subestimada, feita com a cabeça, pode levar a grandes descobertas acidentais.
“O inventor da Coca-Cola não era um homem de negócios astuto, um vendedor de doces, nem um sonhador buscando enriquecer no ramo de bebidas. John Pemberton só queria curar dores de cabeça. Farmacêutico de profissão, Pemberton usou dois ingredientes principais em sua esperada cura para dor de cabeça: folhas de coca e nozes de cola. Quando seu assistente de laboratório acidentalmente misturou os dois com água carbonada, o resultado foi a primeira Coca-Cola do mundo.” - 10 Awesome Accidental Discoveries
Muitos desses narcisistas, na aura de autoimportância, acham que precisam do ambiente perfeito, que alguém lhes dê as condições para realizar coisas grandiosas (a ênfase no “dê” é porque eles se recusam a conquistar sozinhos o que precisam). Isso é uma grande besteira. Ainda estou para ver alguém que pensa assim realizar qualquer coisa relevante para alguém.
Na minha experiência, todas as grandes descobertas nasceram em condições humildes, com pessoas que tinham interesse real no que faziam. Apenas isso. Profissionais, “craftsmen”, interessados em aperfeiçoar o próprio conhecimento e que, por consequência, chegaram a coisas grandes que beneficiaram mais gente. Você não planeja algo revolucionário. Ele acontece por acidente, dadas as condições ideais de temperatura e pressão daquele momento.
“A questão não é quem vai me permitir: é quem acha que pode me impedir.” - by Akita.
Eu não sou programador com o intuito de um dia superar Bill Gates ou Linus Torvalds. Dá para fazer coisa boa sem ser cegamente arrogante. 30 anos depois, ainda me divirto com coisas triviais: um código novo que compila, uma configuração que otimiza minha GPU, montar um Raspberry Pi, testar uma linguagem nova, ajustar meu editor de textos, pesquisar, aprender, evoluir, e assim vai. “Fazer o que ama” é fazer bem essas coisas pequenas. E “ser feliz” é um processo de tentativa e erro, sempre em movimento, que se conquista aos poucos em vez de num destino final.
Quem aproveita o presente, o que existe ao redor e ao alcance neste momento, em vez de perder tempo com o “e se no futuro…”, é quem tem mais chance de fazer o que os outros não conseguem, cegos pela jornada da felicidade impossível. Restrições levam à Inovação, como venho repetindo faz anos.
“carpe diem, quam minimum credula postero” - “Faça o melhor possível com o tempo (limitado) que você tem”.
“Quem vive de passado é museu. E quem sofre com o futuro longínquo é um doente mental.” - Desconhecido.
Coincidentemente, enquanto estava pesquisando para escrever este post, saiu o podcast do Hipsters Ponto Tech onde fiz uma pequena participação justamente para falar sobre o assunto de Carreiras em tecnologia.
E releiam meus antigos posts mencionados acima, relacionado a estes assuntos:
- O Mundo Hoje é Muito Bom! Feliz 2013!
- Carta para um Jovem Programador Considerando uma Startup
- Restrições são libertadoras: menos é mais
- NÃO Faça o que Você (“ACHA”) que Ama
TL;DR: Aprenda a aprender, e aproveite melhor sua vida.