Guia de Sobrevivência para uma Internet Censurada

19 de agosto de 2026 · 💬 Participe da Discussão
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Semana passada eu escrevi sobre a censura ao Discord e a ECA Digital: a ANPD mandou desligar o Go Live no país inteiro porque a criptografia de ponta a ponta impede a vigilância do conteúdo, e no mesmo pacote veio a primeira majorante de pena da história pra quem comete crime “usando VPN”. Depois daquele artigo, a pergunta que mais recebi foi a óbvia: “tá, e o que eu faço?”

Este artigo é a resposta: um guia prático, do mais fácil ao mais complicado, pra você manter seus canais de comunicação de pé conforme o cerco for fechando. Porque o cerco está fechando, e convém entender o ritmo dele antes de escolher suas ferramentas.

O histórico: nada disso é novo

Quem se surpreendeu com o caso do Discord não estava prestando atenção. O Judiciário brasileiro bloqueia serviços de comunicação há mais de uma década, sempre por cima de milhões de usuários inocentes pra atingir meia dúzia de investigados:

Repare no que aconteceu ali: pela primeira vez, usar uma ferramenta neutra de privacidade virou, por si só, conduta punível no Brasil. Ninguém foi multado no fim das contas, mas a infraestrutura pra multar foi montada, testada e documentada. E em 2026 o Congresso votou e o presidente sancionou a majorante de pena pra crimes cometidos com VPN. O precedente do X deixou de ser exceção e virou repertório.

Pra guardar: no caso do X, o Estado brasileiro já tratou usuário de VPN como infrator, já tentou tirar VPN da loja de apps e já pediu relatório de quem burlou. Tudo documentado, em decisão judicial e relatório público.

O destino final: o modelo chinês

Não me resta dúvida de que gente muito bem posicionada no governo olha pra Grande Muralha da China com inveja, não com horror. E vale entender o que ela é, porque ela define o limite do jogo.

A Muralha vai muito além de bloquear sites. É inspeção profunda de pacotes (DPI) em escala nacional, rodando na espinha dorsal da internet do país: todo tráfego é classificado em tempo real, protocolos de VPN conhecidos são identificados pelo formato do aperto de mão e derrubados, o Tor é bloqueado por padrão, e só VPNs homologadas pelo Estado (ou seja, com porta dos fundos) operam legalmente. Cidadão comum pego usando VPN não autorizada toma multa. E mesmo quando o tráfego não pode ser lido, os metadados entregam o jogo: quem fala com quem, quando, por quanto tempo.

Por isso a resposta honesta pra pergunta “dá pra burlar uma Muralha dessas sem ser notado?” é: não, não pra um cidadão comum. Contra um firewall estatal desse nível, nenhuma ferramenta doméstica te torna invisível. No máximo te torna caro demais pra valer a pena perseguir em massa. Quem te vender invisibilidade total está mentindo.

A boa notícia é que o Brasil não está nem perto desse ponto. Censura raramente chega de uma vez: vem em degraus, e cada degrau tem uma defesa correspondente. O resto deste guia é essa escada, degrau por degrau. A lógica de tudo que vem a seguir é uma só: censura é uma questão de custo. Nosso trabalho é deixar o bloqueio caro, tecnicamente e politicamente, até que massificar ele seja impraticável.

Pra guardar: contra um firewall estatal completo, nenhuma ferramenta te torna invisível, só caro demais pra perseguir em massa. O jogo é subir a sua escada antes que o censor suba a dele.

Fase 1: VPN comercial, o mínimo que todo mundo deveria ter

Comece pelo óbvio. Uma VPN (rede privada virtual) cria um túnel criptografado entre o seu dispositivo e um servidor do provedor. Seu provedor de internet passa a ver só um fluxo cifrado indo pra um endereço só; os sites que você acessa veem o IP da VPN, não o seu. Eu explico a fundo, com a teoria de redes por baixo, no Akitando 126.

O que uma VPN faz: esconde seu tráfego do provedor de internet, troca seu IP de saída, te tira de bloqueios geográficos e de bloqueios judiciais por DNS/IP. O que ela não faz:

  • Não te torna anônimo. O provedor da VPN vê todo o seu tráfego no lugar do seu ISP. Você não eliminou o vigia, só trocou de vigia.
  • Não esconde sua identidade se você pagou com cartão. Assinatura com cartão de crédito amarra a conta de VPN ao seu CPF. Se a autoridade chegar com ordem judicial no provedor, seu nome está lá.
  • Não protege o conteúdo depois do túnel. Da saída da VPN até o site final vale a criptografia normal da web (HTTPS). A VPN é um trecho do caminho, não o caminho inteiro.

Dito isso, pras fases iniciais do cerco ela resolve. Minhas recomendações, em ordem:

  • ProtonVPN: Suíça, fora da jurisdição fácil, código aberto e auditado, política de não guardar registros testada em tribunal, tem plano gratuito decente e aceita pagamento até em dinheiro pelo correio.
  • Mullvad: Suécia, a mais paranoica do mercado: não pede nem e-mail, sua conta é um número aleatório. Preço fixo de €5/mês, aceita dinheiro vivo num envelope e criptomoeda. É o mais próximo de “VPN sem identidade” que existe em produto comercial.
  • NordVPN e similares funcionam tecnicamente, mas o dinheiro delas vai mais pra marketing do que pra postura de privacidade. Entre as grandes, fico com as duas acima.

O limite dessa fase é conhecido: os IPs de saída das VPNs famosas são públicos e catalogados. Uma ordem da ANPD ou da Anatel pros provedores nacionais bloquearem esses ranges é tecnicamente trivial, e o caso do X mostrou que remover o app da loja também está no cardápio. Quando (não se) isso acontecer, a VPN comercial morre em um dia. Por isso existe a Fase 2.

Pra guardar: VPN comercial é o cinto de segurança: use sempre, mas saiba que ela depende de três coisas fora do seu controle. O app continuar na loja, os IPs continuarem desbloqueados e o provedor continuar honesto.

Fase 2: VPN auto-hospedada, seu próprio túnel

A jogada aqui muda de figura: em vez de assinar um serviço com milhões de usuários e IPs catalogados, você aluga um servidorzinho barato fora do Brasil e monta a sua VPN pessoal. Não existe lista pública do seu IP pra censura baixar. Você é um usuário de um IP desconhecido, indistinguível de qualquer outro tráfego até ser analisado de perto.

Escolha do provedor (e por que não AWS, Azure ou Google Cloud). As nuvens grandes têm faixas de IP (ASNs) enormes, públicas e mapeadas. Bloquear elas inteiras é uma linha numa tabela de roteamento; o freio é só o dano colateral (muita empresa brasileira legítima está lá), e outros países já pagaram esse preço em situações de crise. Provedores menores diluem esse alvo. Opções que eu consideraria, do médio pro pequeno:

ProvedorSedePor que
HetznerAlemanha/FinlândiaBarato, confiável, fora do alcance fácil
OVH / ScalewayFrançaIdem, jurisdição europeia
ContaboAlemanhaMuito barato, perfil baixo
Vultr / DigitalOceanEUA/globalMédios, conhecidos mas não gigantes
BuyVM, HostHatch, LiteServerEUA/EuropaPequenos, fora de qualquer lista óbvia

Uma máquina de US$ 3 a 5 por mês, com 1 GB de RAM, sobra pra uma VPN pessoal. Ressalva importante: pagar VPS com cartão deixa rastro igual à VPN comercial: seu nome está no cadastro do provedor, e o provedor pode ser compelido judicialmente. Alguns aceitam criptomoeda, o que reduz (não elimina) o rastro. Pra maioria das pessoas, nesta fase, o risco de cadastro é aceitável: você não está se escondendo de uma investigação, está saindo da mira de um bloqueio em massa.

Passo a passo: WireGuard com wg-easy

Vou usar o wg-easy, que empacota o WireGuard (o protocolo de VPN moderno, rápido e auditável) num container Docker com painel web e QR code pra configurar o celular em segundos.

1. Alugue o VPS. Ubuntu 24.04, a menor máquina disponível, região fora do Brasil (Amsterdã, Frankfurt e Helsinque são escolhas clássicas por jurisdição e latência aceitável).

2. Acesse e atualize:

ssh root@SEU_IP
apt update && apt upgrade -y

3. Instale o Docker:

curl -fsSL https://get.docker.com | sh

4. Gere o hash da senha do painel (o wg-easy não aceita senha em texto puro; anote a senha que você escolher):

docker run --rm -it ghcr.io/wg-easy/wg-easy wgpw 'SuaSenhaForteAqui'
# a saída é algo como: PASSWORD_HASH=$2b$12$abc...
# no comando abaixo, duplique cada cifrão: $ vira $$

5. Suba o container:

docker run -d \
  --name=wg-easy \
  -e WG_HOST=SEU_IP \
  -e PASSWORD_HASH='$$2b$$12$$abc...' \
  -v ~/.wg-easy:/etc/wireguard \
  -p 51820:51820/udp \
  -p 51821:51821/tcp \
  --cap-add=NET_ADMIN \
  --sysctl="net.ipv4.conf.all.src_valid_mark=1" \
  --sysctl="net.ipv4.ip_forward=1" \
  --restart unless-stopped \
  ghcr.io/wg-easy/wg-easy

6. Libere o firewall. A porta 51820/UDP é o túnel em si. A 51821/TCP é o painel: não deixe o painel exposto pra internet. O jeito certo é abri-lo só via túnel SSH (ssh -L 51821:localhost:51821 root@SEU_IP e acessar localhost:51821 no navegador), ou liberar 51821 só pra criar seus clientes e fechar em seguida.

7. Crie os clientes. No painel, um clique gera um cliente com QR code. Aponte a câmera do app oficial do WireGuard (Android/iOS) e está pronto. No notebook, baixe o arquivo de configuração e importe no cliente WireGuard.

Pronto: todo o tráfego do seu dispositivo sai pelo seu servidor europeu. Seu provedor brasileiro vê apenas um fluxo cifrado pra um IP qualquer da Alemanha.

E na sua máquina, como usa?

O servidor é metade da história. No seu dispositivo, o ritual é esse:

No celular (Android/iOS): instale o app oficial do WireGuard pela loja (ou pelo F-Droid, no Android). Toque no "+", escolha “Escanear QR code” e aponte pro código que o painel do wg-easy mostrou. Aparece um “túnel” novo na lista: um toque no interruptor e você está dentro. No iOS, ative o “On-Demand” nas configurações do túnel pra ele religar sozinho quando trocar de rede (Wi-Fi pro 4G, por exemplo).

No notebook (Windows/macOS): baixe o cliente oficial do WireGuard pro seu sistema, clique em “Importar túnel de arquivo” e selecione o .conf que você baixou do painel. Um clique em “Ativar” e pronto. Detalhe importante: o cliente oficial tem a opção “Bloquear tráfego fora do túnel” (o kill switch): ligue ela. Se o túnel cair, sua internet para em vez de vazar pelo IP real.

No Linux: copie o .conf pra /etc/wireguard/wg0.conf e suba com sudo wg-quick up wg0 (e sudo systemctl enable wg-quick@wg0 pra subir no boot). Ou importe o arquivo direto no NetworkManager pela interface gráfica, se preferir clicar em vez de digitar.

Um .conf de cliente completo, pra referência, é assim:

[Interface]
PrivateKey = <chave privada DESTE dispositivo>
Address = 10.10.0.2/32
DNS = 1.1.1.1

[Peer]
PublicKey = <chave pública do servidor>
Endpoint = IP_DO_SERVIDOR:51820
AllowedIPs = 0.0.0.0/0
PersistentKeepalive = 25

Dois detalhes que valem ouro aqui. O PersistentKeepalive = 25 mantém o túnel vivo quando você está atrás de NAT (rede doméstica, 4G), evitando que a conexão morra em silêncio. E o AllowedIPs = 0.0.0.0/0 é o que faz todo o tráfego entrar no túnel; sem ele, só o tráfego pros IPs da própria VPN sai criptografado. (A linha DNS = funciona bem no Windows, macOS e celular; no Linux com systemd-resolved ela pode atrapalhar, como explico nos erros comuns mais abaixo.)

Conferindo se funcionou: com o túnel ativado, rode curl ifconfig.me no terminal (ou abra ipleak.net no navegador). Tem que aparecer o IP da sua VPS, não o da sua casa. Se a sua rede tiver IPv6, confira separadamente com curl -4 ifconfig.me e curl -6 ifconfig.me: os dois precisam mostrar o servidor. E visite dnsleaktest.com: o DNS também tem que sair pelo túnel. Se aparecer o servidor de DNS do seu provedor de internet, tem vazamento pra corrigir.

Manutenção mínima: ative unattended-upgrades pro sistema se atualizar sozinho, use chave SSH em vez de senha, e não instale mais nada nessa máquina. Superfície pequena, risco pequeno.

O jeito 2026 de fazer isso: deixe a IA configurar

Se você travou em algum passo, lembre que estamos em 2026: você não precisa mais dominar cada comando desse guia. Eu mesmo fui por esse caminho. Aluguei a VPS, entreguei o acesso SSH pro agente de IA e pedi a configuração completa; do outro lado, na minha máquina, ele importou o .conf, subiu o wg-quick, ativou no boot e conferiu vazamento no final. Hoje meu servidor é um playbook Ansible reproduzível (derrubou a VPS, sobe outra e roda um comando) e a config do meu notebook segue o mesmo padrão. Tudo em repositórios privados, e privados de propósito: configuração de VPN não é o tipo de coisa que eu quero que estranhos fiquem espiando.

Meu repositório privado no Gitea com o playbook Ansible do servidor: cadeado de “Private”, roles, group_vars e um README de operação

O meu, rodando no meu Gitea: privado, versionado, e o servidor inteiro sobe de novo com um comando.

E se for pedir pra IA configurar, pula o “me instala uma VPN” genérico e entrega os requisitos de verdade. Algo assim:

Transforme esta VPS Ubuntu 24.04 limpa em um servidor WireGuard robusto,
de preferência via playbook Ansible idempotente (quero poder destruir a
VPS e recriar tudo rodando um comando). Requisitos:

- WireGuard gerenciado por wg-quick@wg0, chave do servidor gerada no
  próprio servidor (permissão 0600), sem painel web exposto
- Túnel dual-stack: IPv4 e IPv6 (subnet ULA fd00::/64 com NAT66), pra
  nenhum tráfego vazar por fora em redes com IPv6 nativo
- ufw negando tudo, exceto SSH e a porta UDP do WireGuard
- sshd somente com chave (sem senha), fail2ban no sshd,
  unattended-upgrades sem reboot automático
- Peers declarados como dados num arquivo de configuração: adicionar
  cliente = adicionar uma entrada e rodar o playbook de novo
- Gere os .conf dos clientes com PersistentKeepalive=25, AllowedIPs em
  full-tunnel e QR code via qrencode
- Ao final, imprima os comandos de verificação (curl -4/-6 ifconfig.me,
  wg show)

No fim, me entregue um README curto de operação: como adicionar cliente,
como atualizar, quando reiniciar.

A diferença entre um servidor “funcionando” e um servidor sólido está inteirinha nesses requisitos: dual-stack, firewall fechado, sshd sem senha, peers como dados, reprodutibilidade. A barreira técnica desse artigo inteiro, na prática, virou uma conversa.

Erros comuns (e como evitar)

Vejo sempre os mesmos tropeços quando alguém monta a primeira VPN própria. Todos evitáveis:

  • Expor o painel do wg-easy pra internet. O erro clássico número um. O painel é a chave do cofre: aberto na 51821, qualquer scan de botnet acha em horas. Túnel SSH sempre, porta aberta nunca.
  • Senha fraca ou reciclada no painel e no SSH. A VPN inteira protegida por 123mudar é pior que não ter VPN. E desligue o login SSH por senha de vez (PasswordAuthentication no no sshd_config) depois de configurar sua chave.
  • Achar que está anônimo porque o IP é “seu”. A VPS está no seu nome, paga com o seu cartão. Ela te protege de bloqueio em massa, não de investigação com o seu nome nela. Nível de paranoia errado gera falsa sensação de segurança, que é pior que nenhuma.
  • VPS no Brasil ou de empresa brasileira. Já vi gente montar “VPN de privacidade” em provedor nacional. Se a ordem judicial chega no mesmo país, você não saiu do alcance, só mudou de prateleira. Servidor fora, jurisdição fora.
  • Distribuir acesso pra meio mundo. Cada pessoa extra é um dispositivo a mais, um padrão de uso a mais, uma boca a mais. Família próxima, ok; grupo de 40 contatos, não. Quanto mais gente no mesmo IP, mais rápido ele entra em alguma lista.
  • Usar a mesma máquina pra outras coisas. Blog pessoal, bot de Telegram, seedbox: tudo isso aumenta a superfície de ataque e amarra identidades que você queria separadas. VPS da VPN é só da VPN.
  • Confiar sem testar vazamento. Depois de configurar, teste: ipleak.net ou dnsleaktest.com com a VPN ligada. Se aparecer seu IP real ou o DNS do seu provedor, algo está errado, e você só descobre assim.
  • Esquecer o IPv6. Esse pegou até eu: túnel só IPv4 numa rede com IPv6 nativo, e todo o tráfego v6 passa por fora da VPN, às claras, sem você perceber. Ou o túnel é dual-stack, ou metade do seu tráfego vaza. Teste com curl -6 ifconfig.me.
  • A linha DNS = quebrando o cliente Linux. Em sistemas com systemd-resolved (Ubuntu, Fedora e afins), o wg-quick chama o openresolv pra escrever o DNS, o openresolv se recusa a mexer no /etc/resolv.conf que pertence ao systemd-resolved (erro de “signature mismatch”) e a interface inteira falha ao subir. Se o DNS do seu sistema já funciona bem, simplesmente remova a linha: as consultas vão pelo túnel de qualquer jeito.
  • Perder a impressora, o NAS e a rede local. Com AllowedIPs = 0.0.0.0/0, até o tráfego pra dentro da sua própria casa tenta ir pelo túnel. A correção é uma regra de policy routing avaliada antes das regras do próprio WireGuard: PostUp = ip rule add to 192.168.0.0/16 lookup main priority 1000 (e o PostDown correspondente pra desfazer ao desligar).
  • Encadear wg-quick down && up. O down retorna erro quando a interface já está desligada, e com && o up nunca executa. Rode o up sozinho.
  • Instalar e abandonar. Servidor sem atualização por um ano é servidor com vulnerabilidade conhecida. E teste a conexão de tempos em tempos: o que funciona hoje pode estar fingerprintado amanhã.
  • Não ter backup da configuração. O diretório ~/.wg-easy guarda tudo (chaves, clientes). Guarde uma cópia criptografada local. Se a VPS morrer ou for desligada pelo provedor, você sobe outra em dez minutos em vez de recomeçar do zero.

Pra guardar: uma VPS de US$ 5 fora do Brasil com WireGuard te tira de qualquer bloqueio em massa por IP catalogado. O preço é o cadastro no provedor: aceitável contra bloqueio, insuficiente contra investigação nominada.

O inimigo invisível: DPI

Até aqui, assumi que o censor bloqueia endereços. O próximo nível dele é bloquear formatos, e é aí que mora a inspeção profunda de pacotes (DPI).

Mesmo criptografado, um túnel de VPN tem assinatura. O aperto de mão inicial do WireGuard e do OpenVPN tem tamanhos de pacote, sequências e tempos característicos. O conteúdo é ilegível, mas o formato grita “eu sou uma VPN”. A China faz exatamente isso em escala nacional: não precisa ler seu tráfego, basta reconhecer o protocolo e derrubar a conexão.

Pra guardar: o censor não precisa ler o seu tráfego pra te bloquear. Basta reconhecer o formato do túnel. É por isso que a ofuscação existe.

A resposta técnica é ofuscação: fazer o túnel parecer outra coisa.

  • AmneziaWG: um fork do WireGuard que injeta pacotes de lixo e embaralha os cabeçalhos até a assinatura sumir. Mesma base auditada do WireGuard, app gratuito pra todas as plataformas, e aponta pro mesmo tipo de VPS da Fase 2. Se você montou wg-easy, migrar pra Amnezia é o passo natural quando o DPI chegar.
  • udp2raw: enfia o tráfego UDP do WireGuard dentro de pacotes TCP falsos, que parecem uma conexão comum.
  • Shadowsocks: nasceu na China exatamente pra isso, um proxy criptografado desenhado pra não ter assinatura reconhecível.

Repare que ainda estamos falando de ferramentas gratuitas e de uma VPS de US$ 5. O custo sobe pro censor muito mais rápido do que pra você.

Fase 3: quando nem a sua VPS basta

Se o cenário degradar ao ponto de DPI nacional com bloqueio de protocolos, o jogo vira camuflagem pesada e redundância. As opções reais, em ordem de esforço:

Protocolos que se disfarçam de HTTPS comum. O estado da arte hoje é o VLESS com Reality (do projeto Xray-core): seu tráfego se apresenta como uma conexão TLS 1.3 legítima pra um site real e inocente, com certificado, aperto de mão e padrão de pacotes indistinguíveis de um acesso normal. Pra bloquear você, o censor teria que bloquear o site inocente junto, e o dano colateral é a defesa. Trojan-Go segue filosofia parecida. O Outline, da Jigsaw (Google), empacota Shadowsocks com um gerenciador amigável se você quiser distribuir acessos pra família e amigos.

Tor com pontes (bridges). O Tor puro é bloqueado por padrão nos países censurados, mas as pontes obfs4 e o Snowflake foram feitos sob medida pra esse cenário: Snowflake mascara sua entrada na rede Tor como uma videochamada comum de WebRTC. É lento, esquece streaming, mas é a rede mais difícil de extinguir que existe, mantida justamente pra jornalista e ativista em país hostil.

Redundância e rotação. Duas ou três VPS baratas em provedores diferentes, com failover automático. Se uma cair numa lista negra, você troca em minutos: instância nova, IP novo. Seu custo: mais US$ 5. O custo do censor: descobrir e bloquear de novo, toda vez.

Acessos alternativos. Starlink e outros links via satélite saem completamente da infraestrutura terrestre nacional. Enquanto não forem também regulados, são o último recurso físico. E pros casos extremos, a sneakernet de sempre: pendrive, disco externo, cópia física.

Higiene do lado do cliente, que vale em todas as fases:

  • Kill switch ligado: se o túnel cai, o dispositivo corta a internet em vez de vazar pelo IP real.
  • Proteção contra vazamento de DNS: suas consultas de DNS têm que ir pelo túnel, senão seu provedor continua vendo cada site que você visita.
  • WebRTC desligado no navegador (ou use extensão): ele vaza seu IP real mesmo com VPN ativa.
  • VPN ligada quando necessário, não sempre: padrão de uso 24/7 vira ele mesmo uma assinatura comportamental.

E as notas honestas de sempre: rodar seu próprio servidor pra uso pessoal é legal; usá-lo pra cometer crime, não. E a partir de 2026, com a nova majorante, “usando VPN” pesa na pena de qualquer crime que você cometeria de qualquer forma. Mantenha a superfície pequena, teste sua conectividade de dentro do Brasil com regularidade (o que funciona hoje pode ser fingerprint amanhã), tenha plano B (uma segunda VPS, um perfil de Tor com pontes) e mantenha cópias offline de tudo que for crítico.

Avaliação realista: nenhuma solução é permanente contra um censor determinado e bem financiado. O objetivo aqui é outro: encarecer o bloqueio em massa até ele virar mau negócio, técnica e politicamente. Um país que precisa derrubar metade da internet legítima pra calar meia dúzia de vozes tem um problema de relações públicas, não de tecnologia. É nesse custo que a gente aposta.

Pra guardar: a escada é VPN comercial, depois VPN própria, depois protocolo ofuscado, depois Tor com pontes, depois satélite. Cada degrau sobe pouco o seu custo e muito o do censor. Comece a subir antes de precisar.

Conclusão

O padrão brasileiro é o que eu chamei de censura por acumulado: nenhum degrau isolado parece o fim do mundo, e cada um vem com sua plaquinha de boa intenção. Mas a infraestrutura de bloqueio, uma vez montada, não tem dono moral: serve pro governo de hoje e pro de amanhã, contra o alvo de hoje e contra você.

A infraestrutura de comunicação livre funciona igualzinho: também se constrói por acumulado, também tijolo por tijolo. Uma VPN comercial configurada hoje. Uma VPS sua amanhã. Um protocolo ofuscado na gaveta pra quando precisar. Nada disso é paranoia. Funciona como backup: você não espera o disco falhar pra começar.

E se você quer acompanhar essa fronteira de perto, uma recomendação pessoal: siga o Ayub. É hoje a melhor fonte em português sobre infraestrutura de internet e censura estatal no Brasil. Foi ele quem soou o alarme sobre a criminalização de VPNs no PL 3066/2025 meses antes de virar lei. E nos últimos dias ele está cobrindo duas coisas que a grande imprensa mal tocou: a entrega de mais de R$ 100 bilhões em redes públicas, dutos e imóveis da União pras operadoras e pro BTG Pactual, e o aparato técnico da nova regulamentação do Marco Civil, que segundo ele deu à Anatel acesso remoto aos roteadores de borda dos provedores. Leitura obrigatória pra entender por onde vem o próximo degrau da escada.

A melhor hora de montar o seu túnel era antes de precisar dele. A segunda melhor é agora.