<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"><channel><title>Mercado-De-Tecnologia | AkitaOnRails.com</title><link>https://akitaonrails.github.io/tags/mercado-de-tecnologia/</link><description>Blog do Fabio Akita do Canal do YouTube 'Akitando' falando sobre tecnologia, carreira e coisas geek.</description><generator>Hugo -- gohugo.io</generator><language>pt-BR</language><lastBuildDate>Mon, 19 Oct 2026 23:20:48 +0000</lastBuildDate><atom:link href="https://akitaonrails.github.io/tags/mercado-de-tecnologia/index.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>Davi e Golias digital: Entendendo MegaLag vs Honey/Paypal</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/08/12/davi-e-golias-digital-entendendo-megalag-vs-honey-paypal/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/08/12/davi-e-golias-digital-entendendo-megalag-vs-honey-paypal/</guid><pubDate>Wed, 12 Aug 2026 11:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Quem vive de criar conteúdo na internet sabe: comissão de afiliado paga conta. Você testa um produto, grava o review, coloca o link na descrição. Alguém assiste, clica, compra dias depois, e uma fatia da venda pinga na sua conta. Foi assim que boa parte do YouTube independente se financiou na última década.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora imagina descobrir que um dos seus patrocinadores estava plantado no checkout dos seus espectadores, trocando a sua etiqueta pela dele e embolsando essas comissões. Milhões de vezes. Por anos.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quem vive de criar conteúdo na internet sabe: comissão de afiliado paga conta. Você testa um produto, grava o review, coloca o link na descrição. Alguém assiste, clica, compra dias depois, e uma fatia da venda pinga na sua conta. Foi assim que boa parte do YouTube independente se financiou na última década.</p>
<p>Agora imagina descobrir que um dos seus patrocinadores estava plantado no checkout dos seus espectadores, trocando a sua etiqueta pela dele e embolsando essas comissões. Milhões de vezes. Por anos.</p>
<p>Foi isso que o MegaLag mostrou em dezembro de 2024, expondo as práticas do Honey, aquela extensão de cupons que o PayPal comprou por 4 bilhões de dólares e que prometia <em>&ldquo;achar todos os cupons de desconto da internet&rdquo;</em> pra você. Eu acompanho o canal dele desde esse vídeo e virei fã na hora: é jornalismo técnico com demonstração ao vivo, código e packet capture, não só denúncia no grito.</p>
<p>Um ano e meio depois, a história só engrossou: o PayPal tentou descartar tudo como fake news, o MegaLag voltou com evidência técnica irrefutável, a Rakuten e outras redes de afiliados cortaram o Honey publicamente, e o caso virou uma ação coletiva que acabou de sobreviver ao pedido de extinção (o <em>motion to dismiss</em> americano).</p>


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<p>A linha do tempo dos vídeos, que são as fontes primárias deste artigo:</p>
<ol>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vc4yL3YTwWk"target="_blank" rel="noopener">Exposing the Honey Influencer Scam</a>, 21 de dezembro de 2024</li>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wwB3FmbcC88"target="_blank" rel="noopener">Exposing Honey&rsquo;s Evil Business Model (PART 2)</a>, 22 de dezembro de 2025</li>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qCGT_CKGgFE"target="_blank" rel="noopener">The Honey Scam is Worse Than I Thought</a>, 30 de dezembro de 2025</li>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EXDemfGNGz0"target="_blank" rel="noopener">Honey Gets Terminated as Lawsuits Proceed</a>, 11 de agosto de 2026 (ontem)</li>
</ol>
<p>Vou contar a história em três atos: o truque do último clique contra os criadores, o modelo de extorsão contra as lojas, e o dispositivo de fraude que enganava os auditores das redes. O miolo técnico, o que interessa pra nós desenvolvedores, está no terceiro ato. Mas sem os dois primeiros ele não faz sentido.</p>
<h2>O que o Honey deveria ser<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-que-o-honey-deveria-ser"></span>
    <a href="#o-que-o-honey-deveria-ser" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O pitch pro consumidor era irresistível: uma extensão gratuita que, na hora do checkout, testa todos os cupons de desconto conhecidos e aplica o melhor no seu carrinho. <em>&ldquo;É literalmente dinheiro de graça.&rdquo;</em> E não, eles juravam, não vendiam seus dados.</p>
<p>Pra criadores de conteúdo, o Honey era um patrocinador generoso. O MegaLag mapeou cerca de 5.000 vídeos patrocinados em mais de 1.000 canais, somando quase 8 bilhões de views. O MrBeast foi o primeiro grande nome, e a ex-presidente do Honey, Joanne Bradford, se gabava: <em>&ldquo;todo garoto nos EUA conhece o Honey&rdquo;</em>.</p>
<p>Criador ganhava dinheiro fácil recomendando uma ferramenta que parecia útil. A ironia, que o primeiro vídeo expõe com requinte: esses mesmos criadores estavam instalando no público deles, o público que mais clicava nos links de afiliado deles, a ferramenta que roubava essas mesmas comissões.</p>
<p>Pra lojas e marketplaces, o Honey se vendia como ferramenta de conversão: menos carrinho abandonado, ticket médio maior. E tinha um pitch extra, mais escuso, que aparece no FAQ de parceiros e num podcast do próprio Honey: a loja controlava quais cupons ficavam visíveis. Ou seja, pro consumidor o discurso era <em>&ldquo;achamos todos os cupons&rdquo;</em>, e pra loja era <em>&ldquo;você impede o consumidor de achar os cupons bons&rdquo;</em>. Os dois discursos eram oficiais.</p>
<h2>Afiliados em 30 segundos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="afiliados-em-30-segundos"></span>
    <a href="#afiliados-em-30-segundos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Pra entender o crime, precisa entender a vítima. Marketing de afiliados funciona assim: um criador coloca um link com uma tag de rastreamento (tipo <code>?tag=shortcircuit</code> num link da Newegg). Você clica, a loja grava um cookie com validade de uns 30 dias, e se você comprar qualquer coisa nesse período, a comissão vai pra quem gerou aquele clique.</p>
<p>O MegaLag tem uma analogia boa pra isso: é como o vendedor de uma loja de departamentos que te atende, te dá um cartão de indicação com o nome dele, e o caixa sabe de quem foi a venda. O cookie de afiliado é a versão digital desse cartão.</p>
<p>O padrão da indústria é o <strong>last-click attribution</strong>: o último clique leva tudo. Não é o sistema mais justo do mundo, mas é o mais simples de implementar. E é aqui que mora o problema: quem aparece no último segundo antes do pagamento sempre vence. E quem aparece no último segundo? Uma extensão instalada no seu navegador, que acorda exatamente na tela de checkout. É como se um segundo vendedor, que não te atendeu em momento nenhum, arrancasse o cartão da sua mão na fila do caixa e entregasse o dele no lugar.</p>
<h2>O que o Honey realmente fazia<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-que-o-honey-realmente-fazia"></span>
    <a href="#o-que-o-honey-realmente-fazia" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O primeiro vídeo documenta os cenários, todos variações do mesmo truque:</p>
<ul>
<li><strong>O popup de cupom</strong>: você clica em &ldquo;aplicar descontos&rdquo;, o Honey abre uma aba minúscula e escondida que simula um clique de afiliado com a tag do PayPal, e fecha sozinha. Seu cookie do criador é substituído. Comissão roubada, mesmo quando o Honey não acha cupom nenhum.</li>
<li><strong>O Honey Gold</strong>: quando não existe cupom, aparece um popup oferecendo pontos de cashback. Clicou, mesma coisa: último clique, comissão do PayPal.</li>
<li><strong>O popup vazio</strong>: sem cupom, sem cashback, o Honey ainda abre um popup pra você clicar em &ldquo;got it&rdquo;. Clicou pra dispensar? Já era, o clique valeu.</li>
<li><strong>O botão PayPal</strong>: num checkout que já tem opção de pagar com PayPal, o Honey oferece um botão &ldquo;check out with PayPal&rdquo;. Qualquer desculpa vale pra conseguir o último clique.</li>
</ul>
<p>O experimento que o MegaLag fez com a NordVPN deixa tudo concreto: comissão de 40% por venda. Duas compras feitas pelo próprio link de afiliado dele. Sem o Honey: $35 de comissão. Com o Honey Gold ativado: $0. A parte dele, como &ldquo;consumidor&rdquo;, do roubo da própria comissão? 89 pontos, ou seja, <strong>89 centavos de dólar</strong>. O Honey ficou com 97,5% do valor que era dele por direito.</p>
<blockquote>
  <p><strong>Pra guardar:</strong> mesmo quando você clica no link de afiliado do criador, a comissão vai pro PayPal se o Honey aparecer no checkout. No teste da NordVPN, dos $35 de comissão, o &ldquo;benefício&rdquo; que sobrou pro usuário foi 89 centavos.</p>

</blockquote>
<p>E isso não era hipótese, acontecia em escala industrial. O exemplo central do primeiro vídeo usa a tag de afiliado do Linus Tech Tips na Newegg: o Linus Media Group promoveu o Honey por anos, em algo como 160 segmentos patrocinados, e encerrou a parceria em 2022 ao perceber que o Honey sobrescrevia o link de afiliado deles <em>mesmo quando não encontrava desconto nenhum</em>. Repare na armadilha demográfica: quem instala extensão de cupom é exatamente o espectador que caça preço e clica em link de afiliado. O Honey pagava o patrocínio uma vez e passava a taxar as comissões futuras do criador pra sempre.</p>


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<p>Até aqui, a vítima era o criador. O segundo vídeo mostra o outro lado do balcão: as lojas.</p>
<h2>O modelo de negócio contra as lojas<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-modelo-de-negócio-contra-as-lojas"></span>
    <a href="#o-modelo-de-neg%c3%b3cio-contra-as-lojas" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O arquivo <code>supported domains</code> da extensão listava mais de 180.000 lojas, contra &ldquo;30.000 participantes&rdquo; no marketing. A análise da planilha (um desenvolvedor rastreou tudo e publicou) mostrava 146.000 lojas sem nenhum vínculo, incluídas presumivelmente sem consentimento.</p>
<p>Tem mais: cupom digitado manualmente no checkout era enviado pros servidores do Honey <em>antes</em> de pedir consentimento. E códigos privados vazavam pra base pública: desconto militar, cupom de funcionário, um código de $75 sem valor mínimo que dava mercadoria de graça ilimitada.</p>
<p>O estrago era mensurável. Um lojista relatou prejuízo de $100 mil depois que o código exclusivo do podcast que ele patrocinava vazou pra base do Honey, e ele só percebeu meses depois, quando a comissão de afiliado do podcast já tinha ido embora faz tempo. O Chip, CEO da Made In Cookware, resumiu o efeito: <em>&ldquo;se o Honey vai ficar com 10% da sua receita o tempo todo, no fim das contas você é obrigado a subir os preços.&rdquo;</em></p>
<p>E quando um lojista pedia pra sair, a resposta oficial era <em>&ldquo;não removemos códigos sem um relacionamento comercial&rdquo;</em>, o que o MegaLag chama, com precisão, de extorsão econômica: <strong>as lojas não pagam pra entrar, pagam pra sair</strong>.</p>
<h2>Stand down: a regra que o Honey fingia cumprir<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="stand-down-a-regra-que-o-honey-fingia-cumprir"></span>
    <a href="#stand-down-a-regra-que-o-honey-fingia-cumprir" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Contra tudo isso, a defesa do PayPal sempre foi a mesma: <em>&ldquo;o Honey segue as regras e práticas da indústria, incluindo o last-click&rdquo;</em>. Era uma saída retórica esperta, porque dá pra discutir se o last-click é justo. O que vem a seguir é diferente em natureza: prova de que o Honey sabia que estava errando e construiu um sistema pra não ser pego.</p>
<p>Pra entender, um pouco de contexto. As redes de afiliados (Rakuten Advertising, CJ, Impact, Awin) sabem desde 2002 que extensões de navegador são parasitas naturais desse ecossistema. Então criaram uma regra contratual chamada <strong>stand down</strong>: se o usuário já chegou à loja pelo link de outro afiliado, a extensão deve se desativar e não interferir. Ponto. Está escrito nos contratos. A política da Rakuten, por exemplo, diz que o publisher deve <em>&ldquo;se retirar e não exibir nenhuma forma de slider ou popup&rdquo;</em> quando outro afiliado já referenciou o usuário, e <em>&ldquo;não pode forçar cliques nem fazer cookie stuffing&rdquo;</em>.</p>
<p>E o Honey cumpria. Tecnicamente. Quando testado.</p>
<p>Aqui chegamos no coração do terceiro vídeo, o que o MegaLag chama de Cookie Gate, e a analogia que ele usa é precisa: o Dieselgate da Volkswagen. A VW programava os carros pra reduzir emissões só durante os testes de laboratório. O Honey programava a extensão pra respeitar o stand down só quando detectava que o usuário provavelmente era um auditor.</p>
<blockquote>
  <p><strong>Pra guardar:</strong> stand down é obrigação contratual desde 2002, não cortesia. Se o usuário chegou à loja pelo link de outro afiliado, a extensão tem que se retirar. O Honey se retirava só quando o usuário cheirava a auditor.</p>

</blockquote>
<h2>A evidência: ssd.json, linha por linha<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-evidência-ssdjson-linha-por-linha"></span>
    <a href="#a-evid%c3%aancia-ssdjson-linha-por-linha" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Depois que o PayPal comprou o Honey, a extensão foi reescrita e as regras passaram a vir em texto claro de um servidor. Isso permitiu ao MegaLag, e ao Ben Edelman, pesquisador de segurança que trabalhou no caso de fraude de afiliados do eBay nos anos 2000 e verificou tudo independentemente (<a href="https://www.benedelman.org/honey-detecting-testers/"target="_blank" rel="noopener">análise completa dele aqui</a>), expor o mecanismo inteiro.</p>
<p>Primeiro ponto arquitetural: <strong>as regras de stand down moram na nuvem, não na extensão</strong>. A extensão busca dois arquivos JSON dos servidores do Honey e verifica atualizações a cada hora: <code>standdown-rules.json</code> (as regras normais) e <code>ssd.json</code> (as regras de <em>selective stand down</em>). Ou seja: o PayPal podia mudar o comportamento de ~14 milhões de usuários em uma hora, sem atualização de extensão, sem revisão da Chrome Web Store, sem ninguém ver.</p>
<p>Segundo: as regras normais já eram uma piada. O temporizador de stand down, o tempo em que o Honey respeita o cookie do afiliado original, era de 3.600 segundos. Uma hora. Clicou no link do seu YouTuber favorito de manhã, comprou à tarde, o Honey já podia agir de novo. E um arquivamento de 2023 da Wayback Machine mostra que já foi de <strong>360 segundos. Seis minutos</strong>. Como o MegaLag diz, ele leva mais de seis minutos só pra digitar o cartão de crédito. Nenhuma rede de afiliados define prazo de expiração. O Honey inventou um.</p>
<p>Terceiro, o prato principal. Este é o <code>ssd.json</code> capturado em 22 de outubro de 2025 (comentários meus):</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-json" data-lang="json"><span class="line"><span class="cl"><span class="p">{</span><span class="nt">&#34;ssd&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="nt">&#34;base&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;gca&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">1</span><span class="p">,</span>      <span class="c1">// checar cookie de console de afiliados
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;bl&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">1</span><span class="p">,</span>       <span class="c1">// checar blacklist no servidor
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">65000</span><span class="p">,</span>   <span class="c1">// mínimo de pontos pra IGNORAR o stand down
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;adb&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">26298469858850</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="p">},</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="c1">// domínios onde procurar cookies de &#34;insider da indústria&#34;:
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="nt">&#34;affiliates&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">[</span><span class="s2">&#34;https://www.cj.com&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;https://www.linkshare&#34;</span><span class="p">,</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">                 <span class="s2">&#34;https://www.rakuten.com&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;https://ui.awin.com&#34;</span><span class="p">,</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">                 <span class="s2">&#34;https://www.swagbucks.com&#34;</span><span class="p">],</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="nt">&#34;LS&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span> <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">5001</span> <span class="p">},</span>  <span class="c1">// exceção pra Rakuten (antiga LinkShare)
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="nt">&#34;PAYPAL&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span> <span class="nt">&#34;uL&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">5000001</span><span class="p">,</span> <span class="nt">&#34;adb&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">26298469858850</span> <span class="p">}</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="p">},</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="nt">&#34;ex&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span>  <span class="c1">// exceções por loja (IDs internos do Honey)
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;7555272277853494990&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span> <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">5001</span> <span class="p">},</span>                         <span class="c1">// TJ Maxx
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;7394089402903213168&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span> <span class="nt">&#34;uL&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="nt">&#34;adb&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">120000</span><span class="p">,</span> <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">1001</span> <span class="p">},</span> <span class="c1">// Booking.com
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;243862338372998182&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">{</span> <span class="nt">&#34;uL&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">0</span><span class="p">,</span> <span class="nt">&#34;uP&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="mi">100000</span> <span class="p">},</span>               <span class="c1">// Kayo Sports
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="c1">// cookies procurados, na MESMA ORDEM dos domínios acima:
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nt">&#34;GA&#34;</span><span class="p">:</span> <span class="p">[</span><span class="s2">&#34;CONTID&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;s_vi&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;_ga&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;networkGroup&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;_gid&#34;</span><span class="p">]</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">  <span class="p">}</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="p">}</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Vamos decodificar. Quando a extensão detecta que você clicou num link de afiliado, ela consulta essas regras antes de decidir se obedece o stand down:</p>
<ul>
<li><strong><code>uL</code></strong> (user logged in): você precisa estar logado numa conta Honey.</li>
<li><strong><code>uA</code></strong> (user account age): sua conta precisa ter uma idade mínima, 30 dias, em milissegundos, <em>&ldquo;por algum motivo&rdquo;</em>, como nota o MegaLag. Conta nova é o padrão de quem testa extensão pra auditoria.</li>
<li><strong><code>uP</code></strong> (user points): você precisa ter acumulado um mínimo de pontos de cashback. Na configuração atual: 65.000 pontos. Como 1.000 pontos valem $10 em vale-compras, isso exige $650 de ganho acumulado, praticamente nenhum usuário real, e com certeza nenhum auditor com conta de teste.</li>
<li><strong><code>bl</code></strong> (blacklist): o servidor pode marcar seu ID, cookie ou IP (quem já reclamou do Honey, por exemplo) e te tratar como &ldquo;alto risco&rdquo;.</li>
<li><strong><code>gca</code></strong>: a mais incriminadora de todas, e merece parágrafo próprio.</li>
</ul>
<p>Se você passa em todos os filtros, o sistema te classifica como consumidor legítimo e o Honey <strong>ignora o stand down</strong>, rouba a comissão. Se falha em qualquer um, te classifica como possível auditor e o Honey se comporta direitinho. O Edelman resume: <em>&ldquo;o Honey respeita o stand down, mas só às vezes. E esse &lsquo;às vezes&rsquo; é previsível.&rdquo;</em> Determinístico, na verdade: mesmas condições, mesmo resultado, reproduzível.</p>
<h3>O gca: procurando cookie de auditor<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-gca-procurando-cookie-de-auditor"></span>
    <a href="#o-gca-procurando-cookie-de-auditor" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>O <code>gca</code> é o equivalente a revistar seu bolso procurando crachá de fiscal. As listas <code>affiliates</code> e <code>GA</code> são pareadas posicionalmente: no domínio <code>cj.com</code>, procure o cookie <code>CONTID</code>; no <code>linkshare</code>, o <code>s_vi</code>; no <code>ui.awin.com</code>, o <code>networkGroup</code>. O código, recuperado via <code>sourceMappingURL</code> do app iOS que vazou praticamente sem ofuscação:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="nx">m</span> <span class="o">=</span> <span class="nx">p</span><span class="p">.</span><span class="nx">ex</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="nx">p</span><span class="p">.</span><span class="nx">ex</span><span class="p">.</span><span class="nx">GA</span> <span class="o">||</span> <span class="p">[]</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="nx">g</span> <span class="o">=</span> <span class="nx">i</span><span class="p">().</span><span class="nx">map</span><span class="p">(</span><span class="nx">p</span><span class="p">.</span><span class="nx">ssd</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="nx">p</span><span class="p">.</span><span class="nx">ssd</span><span class="p">.</span><span class="nx">affiliates</span><span class="p">,</span> <span class="p">(</span><span class="kd">function</span><span class="p">(</span><span class="nx">e</span><span class="p">)</span> <span class="p">{</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">return</span> <span class="nx">f</span> <span class="o">+=</span> <span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="nx">u</span><span class="p">.</span><span class="nx">A</span><span class="p">.</span><span class="nx">get</span><span class="p">({</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="nx">name</span><span class="o">:</span> <span class="nx">m</span><span class="p">[</span><span class="nx">f</span><span class="p">],</span> <span class="c1">// nome do cookie vindo do array GA
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="nx">url</span><span class="o">:</span> <span class="nx">e</span>      <span class="c1">// domínio a ser verificado
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="p">}).</span><span class="nx">then</span><span class="p">((</span><span class="kd">function</span><span class="p">(</span><span class="nx">e</span><span class="p">)</span> <span class="p">{</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="nx">e</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="p">(</span><span class="nx">o</span><span class="p">.</span><span class="nx">gca</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">0</span><span class="p">)</span> <span class="c1">// achou o cookie: gca = 0, entra em modo compliance
</span></span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="p">}))</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Se você tem cookie de login do painel de afiliados da CJ, da Rakuten ou da Awin, ou seja, se você trabalha na indústria, o Honey respeita o stand down em tudo, sempre, não importa o link. O MegaLag descobriu isso por acidente, testando a própria extensão que ele construiu (a Cookie Guard): logou na conta de afiliado dele da CJ numa aba, e de repente o Honey virou um anjo.</p>
<p>E tem um detalhe cínico no design: domínios e nomes de cookie ficam em duas listas separadas em vez de pares nome-valor. Como nota o Edelman, o efeito é dificultar que alguém olhando o arquivo perceba a relação entre eles.</p>
<p>O Edelman é categórico sobre o que isso significa: não existe nenhuma razão legítima pra uma extensão de cupons verificar se você logou num painel de afiliados. A única função é se esconder de quem fiscaliza. E quem se esconde sabe que está fazendo algo proibido.</p>
<h3>Os outros truques: email &ldquo;test&rdquo;, killswitch e eBay<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="os-outros-truques-email-test-killswitch-e-ebay"></span>
    <a href="#os-outros-truques-email-test-killswitch-e-ebay" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Tem mais duas pérolas no código. A extensão escaneia seu endereço de email procurando a palavra &ldquo;test&rdquo;. Achou, modo compliance:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="k">if</span> <span class="p">(</span><span class="nx">r</span><span class="p">.</span><span class="nx">email</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="nx">r</span><span class="p">.</span><span class="nx">email</span><span class="p">.</span><span class="nx">match</span><span class="p">(</span><span class="s2">&#34;test&#34;</span><span class="p">)</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="p">(</span><span class="nx">o</span><span class="p">.</span><span class="nx">bl</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">0</span><span class="p">),</span> <span class="o">!</span><span class="nx">r</span><span class="p">.</span><span class="nx">isLoggedIn</span> <span class="o">||</span> <span class="nx">t</span><span class="p">)</span> <span class="p">{</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>E existe um killswitch mestre no servidor: a extensão consulta periodicamente uma URL, e dependendo da resposta o sistema SSD inteiro liga ou desliga:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="k">return</span> <span class="nx">e</span><span class="p">.</span><span class="nx">next</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">7</span><span class="p">,</span> <span class="nx">fetch</span><span class="p">(</span><span class="s2">&#34;&#34;</span><span class="p">.</span><span class="nx">concat</span><span class="p">(</span><span class="s2">&#34;https://s.joinhoney.com&#34;</span><span class="p">,</span> <span class="s2">&#34;/ck/alive&#34;</span><span class="p">));</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="nx">c</span> <span class="o">=</span> <span class="nx">S</span><span class="p">().</span><span class="nx">then</span><span class="p">((</span><span class="kd">function</span><span class="p">(</span><span class="nx">e</span><span class="p">)</span> <span class="p">{</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="nx">e</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="s2">&#34;alive&#34;</span> <span class="o">===</span> <span class="nx">e</span><span class="p">.</span><span class="nx">is</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="p">(</span><span class="nx">o</span><span class="p">.</span><span class="nx">bl</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">0</span><span class="p">)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="p">}))</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Um flip no servidor e 14 milhões de extensões entram em modo compliance instantaneamente. Útil, por exemplo, no dia em que uma auditoria grande for anunciada.</p>
<p>E o eBay? O eBay tem tratamento VIP, direto no código: enquanto o stand down normal dura uma hora, o do eBay dura 86.400 segundos (24 horas), e a lógica SSD é explicitamente desativada pra domínios eBay:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="s2">&#34;regex&#34;</span><span class="o">:</span> <span class="s2">&#34;^https?\\:\\/\\/rover\\.ebay((?![\\?\\&amp;]pub=5575133559).)*$&#34;</span><span class="p">,</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="s2">&#34;provider&#34;</span><span class="o">:</span> <span class="s2">&#34;LS&#34;</span><span class="p">,</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="s2">&#34;overrideBl&#34;</span><span class="o">:</span> <span class="kc">true</span><span class="p">,</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="s2">&#34;ttl&#34;</span><span class="o">:</span> <span class="mi">86400</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-javascript" data-lang="javascript"><span class="line"><span class="cl"><span class="nx">a</span> <span class="o">=</span> <span class="s2">&#34;ssd&#34;</span> <span class="o">===</span> <span class="nx">r</span> <span class="o">&amp;&amp;</span> <span class="o">!</span><span class="sr">/ebay/</span><span class="p">.</span><span class="nx">test</span><span class="p">(</span><span class="nx">p</span><span class="p">);</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Por quê? Porque em 2008 o eBay processou civil e criminalmente seus dois maiores afiliados, Shawn Hogan e Brian Dunning, que receberam mais de $20 milhões em 18 meses com esquemas de cookie stuffing, e os dois foram presos. O próprio Edelman ajudou a pegá-los. O Honey sabia exatamente com quem não devia brincar. Todo o resto do mercado, aparentemente, era presa fácil.</p>
<h3>A telemetria: a prova que se autodocumenta<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-telemetria-a-prova-que-se-autodocumenta"></span>
    <a href="#a-telemetria-a-prova-que-se-autodocumenta" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>A parte que me deixou de queixo caído: desde o primeiro dia, o defeat device (o &ldquo;dispositivo de fraude&rdquo;, no jargão do Dieselgate) <strong>registrava cada decisão que tomava</strong>. Quando a extensão decide respeitar o stand down, ela manda telemetria com <code>&quot;method&quot;:&quot;suspend&quot;</code> e um <code>state</code> dizendo exatamente qual regra disparou, <code>&quot;uP:5001&quot;</code>, <code>&quot;gca&quot;</code>, <code>&quot;ssd&quot;</code>, junto com o link de afiliado original, que frequentemente contém o ID e às vezes o nome do afiliado prejudicado.</p>
<p>Em algum lugar nos servidores do PayPal existe um registro detalhado de cada comissão que esse sistema ajudou a roubar. O MegaLag fecha o quarto vídeo pedindo que as redes exijam esses dados e cobrem o reembolso. É difícil discordar.</p>
<h3>Como o MegaLag provou na extensão pública<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="como-o-megalag-provou-na-extensão-pública"></span>
    <a href="#como-o-megalag-provou-na-extens%c3%a3o-p%c3%bablica" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Um detalhe de engenharia que merece respeito. Depois do primeiro vídeo, o PayPal subiu o limiar base pra 65.000 pontos, na prática desativando o mecanismo pra quase todo mundo e limitando o comportamento suspeito. Só que quem editou o <code>ssd.json</code> esqueceu a exceção da Rakuten: <code>&quot;LS&quot;: {&quot;uP&quot;: 5001}</code>.</p>
<p>O MegaLag fez o que ele chama de <em>&ldquo;uma maratona de compras dolorosamente cara&rdquo;</em> até passar de 5.000 pontos e reproduziu a fraude na extensão pública, intacta, sem modificar uma linha. (O Edelman fez mais simples: interceptou a resposta do servidor com o Fiddler e mentiu o próprio saldo de pontos. O código dele está no artigo linkado acima.)</p>
<h2>A reescrita do PayPal<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-reescrita-do-paypal"></span>
    <a href="#a-reescrita-do-paypal" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A genealogia do sistema, reconstruída pelo MegaLag com ~300 builds arquivados da extensão desde 2014:</p>
<ul>
<li><strong>Outubro de 2017</strong>: o SSD aparece pela primeira vez, na versão 10.5.2, ainda sob os fundadores Ryan Hudson e George Ruan, mas criptografado, embaralhado, ilegível pra quem encontrasse. O pesquisador Wladimir Palant já tinha documentado em 2020 que o Honey escondia trechos do próprio código.</li>
<li><strong>Março de 2021</strong>: sob o PayPal, versão 13.1.0, <strong>o sistema inteiro foi reconstruído</strong>. As regras foram reestruturadas num formato novo e passaram a morar em texto claro nos servidores do PayPal. Foi essa reescrita descuidada que expôs tudo.</li>
</ul>
<p>Guarde essa informação e compare com a declaração oficial do PayPal depois que a casa caiu:</p>
<blockquote>
  <p><em>&ldquo;O código causador desse comportamento foi identificado e não tem mais impacto. O código foi implementado antes da aquisição pelo PayPal e aparentemente afeta menos de 0,1% do tráfego do Honey.&rdquo;</em></p>
<p>— PayPal ao Hello Partner, janeiro de 2026</p>

</blockquote>
<p>O MegaLag chama isso do que é: mentira. Você não reconstrói um sistema do zero, ajusta as regras dele ano após ano, e depois alega que não sabia que ele existia.</p>
<p>A cronologia entrega: o MegaLag avisou o PayPal pedindo comentário em 18 de dezembro de 2025; chamaram as acusações de <em>&ldquo;imprecisas&rdquo;</em> e mandaram os advogados ameaçarem ele. A Rakuten desligou o Honey da rede em 12 de janeiro de 2026. O defeat device foi desativado em 13 de janeiro, um dia depois, quase um mês após o aviso. E o &ldquo;0,1% do tráfego&rdquo; é retórica vazia: as regras moram no servidor, então a abrangência sempre foi ajustável remotamente. Nas regras de 2023, o alvo era praticamente todo mundo.</p>
<h2>As consequências<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="as-consequências"></span>
    <a href="#as-consequ%c3%aancias" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Depois do Cookie Gate, a fila andou:</p>
<ul>
<li><strong>Rakuten Advertising</strong> (12 de janeiro de 2026): terminou o Honey da rede inteira, mais de 2.000 lojas, incluindo Walmart, Lego, Sephora, Newegg, Uniqlo e Samsung. Detalhe sórdido: emails internos que vieram a público no processo mostram que a Rakuten sabia das violações de stand down desde julho de 2020 e manteve o Honey mesmo assim, e o PayPal ainda respondeu que as políticas de stand down eram <em>&ldquo;exagero&rdquo;</em>. Em maio de 2026 a Rakuten readmitiu o Honey discretamente, depois de publicar um <a href="https://github.com/rakutenrewards/PublisherStandown-SDK"target="_blank" rel="noopener">SDK de stand down de código aberto</a> que o Honey implementou.</li>
<li><strong>Impact</strong> (16 de janeiro): removeu o Honey do marketplace de descoberta e suspendeu a conta, confirmando violação das <em>&ldquo;exigências universais de stand down&rdquo;</em>.</li>
<li><strong>Awin</strong> (21 de janeiro): a maior rede afetada, com mais de 16.000 lojistas. Confirmou <em>&ldquo;violações das nossas políticas de publisher&rdquo;</em>, suspendeu pagamentos e impôs um plano de remediação que inclui <strong>dar às redes acesso ao código-fonte do Honey</strong>.</li>
<li><strong>Google</strong>: em março de 2025 a Chrome Web Store passou a exigir <em>&ldquo;benefício direto e transparente ao usuário&rdquo;</em> pra qualquer extensão que injete links de afiliado. O jeitinho do Honey foi ativar cashback de 0,1% a 1% em quase todas as lojas parceiras. Tecnicamente um benefício, na prática troco de bala.</li>
<li><strong>O mercado respondeu</strong>: o Honey perdeu cerca de 7 milhões de usuários (de 20 milhões pra 14), mais de 7.000 lojas (de ~35.000 pra ~28.000), e a base de cupons encolheu de ~90.000 pra ~50.000 códigos. A Apple, que sozinha gerava mais tráfego monetizável que as 27.000 menores lojas juntas, caiu fora.</li>
</ul>


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</div>

<h2>A ação coletiva<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-ação-coletiva"></span>
    <a href="#a-a%c3%a7%c3%a3o-coletiva" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Aqui o Davi encontra o Golias no tribunal. Dias depois do primeiro vídeo, em 29 de dezembro de 2024, a Wendover Productions (do Sam Denby) entrou com a primeira ação; o Devin Stone, do LegalEagle, que é advogado de verdade, organizou o esforço, e umas vinte firmas abriram ações parecidas em vários estados, incluindo o GamersNexus como autor principal de uma delas. Os casos foram consolidados no distrito norte da Califórnia: <em>In re PayPal Honey Browser Extension Litigation</em>, caso 5:24-cv-09470-BLF, juíza Beth Labson Freeman.</p>
<p>As acusações na petição atual: enriquecimento sem causa, interferência intencional em relações contratuais e em vantagem econômica prospectiva, violação do Computer Fraud and Abuse Act (a lei anti-hacking americana), da lei de acesso indevido a dados da Califórnia, e das leis de concorrência desleal da Califórnia e de Washington.</p>
<p>A cronologia processual é uma novela:</p>
<ul>
<li><strong>Novembro de 2025</strong>: o PayPal tentou forçar arbitragem e perdeu. Semanas depois, a juíza Freeman rejeitou a primeira petição, com permissão pra emendar, porque os contratos de afiliado eram com as lojas, não com o PayPal, e a simulação de Monte Carlo que os autores usaram pra estimar o dano não convenceu. O Ryan Hudson tuitou <em>&ldquo;Case dismissed&rdquo;</em> fazendo graça. O Hello Partner, publicação da indústria que tinha o Honey como patrocinador master da conferência deles, correu pra publicar <em>&ldquo;o que o MegaLag errou&rdquo;</em>.</li>
<li><strong>Janeiro de 2026</strong>: a segunda petição chegou com 101 páginas, dez autores nomeados, os contratos reais das lojas, evidência de compras-teste e, crucialmente, as descobertas do Cookie Gate incorporadas. A página 65 descreve o dispositivo de fraude em detalhe: <em>&ldquo;o PayPal criou vários métodos pra ignorar ou contornar os protocolos de stand down&rdquo;</em>, incluindo a detecção de visita a sites de redes de afiliados, que a petição chama de <em>&ldquo;a revelação mais gritante da má intenção do PayPal&rdquo;</em>.</li>
<li><strong>4 de junho de 2026</strong>: segunda audiência. A juíza avisou o advogado do PayPal, Richard Jacobson, o mesmo que assinou a notificação extrajudicial contra o MegaLag, que ele tinha <em>&ldquo;uma batalha difícil pela frente&rdquo;</em>. Quando a defesa argumentou que IDs de afiliado são <em>&ldquo;só sequências curtas de números e letras&rdquo;</em>, sem valor intrínseco, a juíza respondeu que dá pra dizer o mesmo de uma nota de dólar. Jacobson: <em>&ldquo;não sei como responder a isso.&rdquo;</em></li>
<li><strong>22 de junho de 2026</strong>: o pedido de extinção foi <strong>negado integralmente</strong>. Todas as acusações sobreviveram. O caso agora entra na fase de produção de provas (o <em>discovery</em> americano): documentos internos, comunicações, depoimentos, possivelmente dos fundadores e dos engenheiros do PayPal. Julgamento, se houver, lá pro fim de 2027. O palpite do MegaLag, e o meu também: o PayPal vai tentar acordo pra enterrar esses depoimentos.</li>
</ul>
<p>Vale registrar: uma ação paralela de consumidores do Reino Unido, sobre a propaganda enganosa de <em>&ldquo;melhores cupons&rdquo;</em>, foi rejeitada em junho de 2026. E a Capital One Shopping, processada por esquema parecido, fechou acordo em setembro de 2025 negando culpa.</p>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O que me pega nessa história toda é o padrão de comportamento do PayPal em cada etapa. Acusado com vídeo e demonstração ao vivo, chamou de fake news. Confrontado com o código, mandou notificação extrajudicial e tentou derrubar o vídeo do Patreon alegando violação de direitos autorais. Alertado formalmente sobre o dispositivo de fraude, chamou de <em>&ldquo;impreciso&rdquo;</em> e esperou a Rakuten agir pra desligar. Pego, divulgou que <em>&ldquo;descobriu recentemente&rdquo;</em> um sistema que a própria empresa reconstruiu em 2021.</p>
<p>Em cada degrau, a escolha foi negar, ameaçar, minimizar, até a evidência tornar a posição insustentável; aí recuava meio passo fingindo surpresa.</p>
<p>O Honey, como produto, é causa perdida. Mesmo se você não liga pra ética de quem rouba comissão de criador, lembra do que a Amazon avisou lá em 2020: é uma extensão com permissão de ler e modificar seus dados em qualquer site, que escaneia seus cookies, loga seu histórico de navegação com geolocalização, e que aplicava cupom sabidamente expirado só pra fazer volume. Desinstala. Não existe cupom que pague isso.</p>
<p>E o lado inspirador, porque tem um: um desenvolvedor neozelandês motivado, com um analisador de pacotes, uma conta de teste e paciência, fez o que redes bilionárias com times de compliance não fizeram em oito anos. A arma dele foi um arquivo JSON em texto claro e algumas dezenas de linhas de JavaScript que o próprio PayPal serviu pra quem quisesse olhar. A frase que fecha o quarto vídeo resume a arrogância que ele derrubou:</p>
<blockquote>
  <p><em>&ldquo;Quando eu erro, sou o MegaLag. Quando eu acerto, sou só um comentarista da indústria.&rdquo;</em></p>

</blockquote>
<p>Pois agora ele é testemunha técnica de fato num processo federal. Davi venceu essa rodada. E foi lindo de assistir.</p>
]]></content:encoded><category>seguranca</category><category>mercado-de-tecnologia</category></item><item><title>[Akitando] #138 - Meu Começo de Carreira Durante a Bolha - 1997 a 2002, Bug do Milênio, Crash</title><link>https://akitaonrails.github.io/2023/02/14/akitando-138-meu-comeco-de-carreira-durante-a-bolha-1997-a-2002-bug-do-milenio-crash/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2023/02/14/akitando-138-meu-comeco-de-carreira-durante-a-bolha-1997-a-2002-bug-do-milenio-crash/</guid><pubDate>Tue, 14 Feb 2023 09:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;Já tinha feito videos sobre antes de 1997 e sobre depois de 2002, ficou faltando contar justamente sobre como foi meu começo de carreira, a transição da faculdade pros primeiros empregos, de agência a pontocom, de CD-ROMs pra Web, tudo que eu passei no final dos anos 90 até a virada do século, incluindo o Bug do Milênio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Muitos agora começando carreira ou vendo o atual Crash da Bolha Tech estão inseguros, talvez sirva como perspectiva pra dar uma noção de que crises são cíclicas e qual é a melhor posição pra se estar pra passar ileso todas as vezes.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<p>Já tinha feito videos sobre antes de 1997 e sobre depois de 2002, ficou faltando contar justamente sobre como foi meu começo de carreira, a transição da faculdade pros primeiros empregos, de agência a pontocom, de CD-ROMs pra Web, tudo que eu passei no final dos anos 90 até a virada do século, incluindo o Bug do Milênio.</p>
<p>Muitos agora começando carreira ou vendo o atual Crash da Bolha Tech estão inseguros, talvez sirva como perspectiva pra dar uma noção de que crises são cíclicas e qual é a melhor posição pra se estar pra passar ileso todas as vezes.</p>
<h2>Capítulos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="capítulos"></span>
    <a href="#cap%c3%adtulos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>00:00 - Intro</li>
<li>01:41 - CAP 1 - Relembrando 1997 - Retrospectiva</li>
<li>05:37 - CAP 2 - Meu Primeiro Emprego numa Agência - CD-ROMs</li>
<li>14:03 - CAP 3 - Minha Primeira Comida de Rabo - Sendo Estagiário</li>
<li>18:42 - CAP 4 - Minha Primeira Vez Aprendendo &ldquo;Backend&rdquo; - Microsoft</li>
<li>22:09 - CAP 5 - Combatendo o Bug do Milênio - Y2K</li>
<li>30:24 - CAP 6 - Meu Primeiro Merge e Layoff - A Primeira Pontocom</li>
<li>34:42 - CAP 7 - Entrando numa Agência &ldquo;Big 5&rdquo; - F/Nazca</li>
<li>37:55 - CAP 8 - A Primeira Vez Procurando Emprego - PSN</li>
<li>41:50 - CAP 9 - A Segunda Vez Procurando Emprego - SAP</li>
<li>44:54 - CAP 10 - O que me Motivava? - Perspectivas</li>
<li>46:45 - CAP 11 - O seu Colega Contrataria Você? - Verdadeiro Networking</li>
<li>52:10 - CAP 12 - Varar Noites?? - DISCLAIMER</li>
<li>54:00 - CAP 13 - Mas Akita: O que você recomenda pra mim? - O que o Akita NÃO Fez?</li>
<li>58:42 - Bloopers</li>
</ul>
<h2>Links<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"></span>
    <a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>
<p>Playlist: Minha História (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0&amp;list=PLdsnXVqbHDUe50Aqsa-i_NW42AkuByQZa"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0&list=PLdsnXVqbHDUe50Aqsa-i_NW42AkuByQZa</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Playlist: Eu Avisei (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=wpPv1dJWjDs&amp;list=PLdsnXVqbHDUehzKjiRruy--gncHz9Injy"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=wpPv1dJWjDs&list=PLdsnXVqbHDUehzKjiRruy--gncHz9Injy</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Playlist: Carreira (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U&amp;list=PLdsnXVqbHDUcAWAN3cXHWnM9JEw2gjIN9"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U&list=PLdsnXVqbHDUcAWAN3cXHWnM9JEw2gjIN9</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Macworld 1997: The return of Steve Jobs (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=IOs6hnTI4lw"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=IOs6hnTI4lw</a>)</p>
</li>
<li>
<p>LinuxMall - A história de uma das primeiras lojas virtuais do Brasil (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=BGVmQEpKTSI"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=BGVmQEpKTSI</a>)</p>
</li>
<li>
<p>The iPod Revolution (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=FQwzI4kBG1o"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=FQwzI4kBG1o</a>)</p>
</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Pra quem acompanha o canal desde o começo, deve ter notado que eu contei um pouco da minha carreira na área com videos como Meus Primeiros 5 Anos que fala um pouco de 1990 até 1995 que foi quando comecei na faculdade. Daí o video sobre o Livro &ldquo;Estrada do Futuro&rdquo;, falando um pouco sobre 1996. No video da minha Máquina do Tempo falo da importância de backups e alguns trabalhos que eu fiz por volta de 1996 a 1998. Teve os 2 videos curtos da Sua Linguagem é Especial? Onde falo sobre dois pequenos cases técnicos por volta do ano 2000.</p>
<p>Teve o video de Você não entende nada de Enterprise, onde falo sobre SAP, que foi meu período de consultoria entre 2002 a 2007. Finalmente, o video da História do Ruby on Rails que cobre um pouco entre 2007 a 2016. Mas ficou um buraco dessa história entre mais ou menos 1996 a 2002. Justamente o período final da Primeira Grande Bolha da Internet que explodiu no ano de 2001, junto com as Torres Gêmeas. O que eu estava fazendo naquela época?</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Fiquem até o final do video que tenho alguns comentários a fazer sobre minha playlist de Eu Avisei, em particular o video sobre o estouro da Bolha de Tecnologia recente. Se quiser entender mais os princípios financeiros por trás dessa bolha, não deixe de assistir a playlist inteira. Até já aviso que esse video pode soar um pouco auto ajuda, especialmente pro fim, mas é o mais honesto que eu posso ser comparando minha situação 25 anos atrás com a situação de agora e talvez dar alguma perspectiva ou inspiração. Depois vocês me digam.</p>
<p>Mas vamos lá. O período entre 1996 até 2002 foi provavelmente quando eu mais aprendi tecnologias que não são mais usadas hoje em dia. A idéia é tanto um pouco de nostalgia pra vocês que estão na faixa dos 40 anos, mas também perspectiva pra vocês que estão na faixa dos 20 anos. O que o Akita estava fazendo depois da faculdade?</p>
<p>Pra quem não lembra, 1997 foi o ano que morreu a Princesa Diana, foi o maior rebuliço isso. Eu nem acompanhava mas lembro que falavam disso toda hora. Também foi o ano em que a J.K. Rowling publicou o primeiro livro do Harry Potter. Eu nem sabia disso, só fiquei sabendo que esses livros existiam mais perto de quase lançar o primeiro filme. Outra coisa engraçada, foi o ano que o Mike Tyson mordeu fora a orelha do Evander Holyfield, quem não lembra disso? Falando nisso, pro povo que curte perder tempo com documentário da Netflix, foi o ano que o O.J. Simpson foi julgado culpado.</p>
<p>E pra gente de tecnologia, foi o ano que o Steve Jobs anunciou sua volta pra Apple Computers, que na época tava negativo 1 bilhão de dólares, a dias de fechar as portas. Conseguem imaginar isso? A empresa mais valiosa de tecnologia hoje, em 1997 estava praticamente falida. Os anos 90 foram muito divertidos.</p>
<p>Enquanto isso, eu tinha 20 anos, indo pro 3o ano de faculdade. Quem assistiu os episódios anteriores vai lembrar que eu tava trabalhando como monitor na sala de computadores do CCE, aprendendo tudo que podia sobre UNIX, Internet, essa novidade chamada Web. Ao mesmo tempo, assim como a maioria de vocês de 20 anos, eu tava de saco cheio da faculdade. No meu caso, passava muito pouco tempo na minha faculdade mesmo, no IME. Eu preferia gastar meu tempo na sala de computação do CCE que ficava atravessando a rua, na Politécnica, e meus amigos eram todos da Engenharia Elétrica. Eu fazia Ciência da Computação e nessa época já quase não tinha nenhum amigo no meu curso mesmo.</p>
<p>Todo dia eu ficava deslumbrado com as novidades que surgiam. Estávamos no meio pro fim da transição da arquitetura de 16-bits pra 32-bits com os Pentiums. Estávamos no fim da transição de ambiente texto do MS-DOS pros gráficos do Windows, OS/2 e no caso de UNIX eu aprendi que existia Solaris, Irix. Estávamos entendendo como criar aplicações distribuídas nessa tal de Internet em vez de programas isolados feitos no meu antigo Clipper ou FoxPro. Novas linguagens estavam começando, como Java, Delphi. E naquela época não existia nada na Web ainda que chegasse perto de redes sociais.</p>
<p>Não existia Reddit, não existia Stackoverflow, não existia blogs, não existia Google. O máximo que a gente tinha eram sites que manualmente indexavam outros sites como o Yahoo ou Lycos, e as primeiras tentativas de indexação automática com sites como WebCrawler ou o famoso Altavista. Mas comparado com hoje, era hiper rudimentar. Pesquisar pra comprar componentes de computador, por exemplo, a gente ainda fazia via página de classificados nos jornais.</p>
<p>Foi naquela sala de computador da Politécnica, que tinha um quadro de avisos onde encontrei o anúncio do meu primeiro emprego. Uma agência pequena de novo esquisito, Kropki, não muito longe dali, de um professor da Escola de Comunicação e Artes na USP, a ECA, que era na mesma rua, passando a Politécnica, o IME que é minha faculdade, daí vinha a FEA que é a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, daí era a ECA. Pouco antes da famigerada FFLCH, que recomendo passar longe. Enfim.</p>
<p>A agência em si, era caminhando pra fora do campus da USP, atravessando a ponte da Cidade Universitária em direção à Praça Panamericana. Uma caminhada de uns 5km a partir da minha faculdade, ou uns 40 minutos a pé. Na época eu considerava isso perto o suficiente pra ir a pé mesmo. Nessa época às vezes pegava o carro do meu pai emprestado, mas andava muito a pé e de ônibus mesmo, então era importante não ser longe demais e em São Paulo, 5km é o que chamamos de &ldquo;aqui do lado&rdquo;.</p>
<p>Fui até lá, e acabei sendo contratado como estagiário. Lá era uma agência que tinha meia dúzia de funcionários, uns 3 ou 4 designers que mexiam em Photoshop, alunos da ECA, ajustando capas de jogos de videogame, pra antiga Tectoy. Eles faziam as capas dos jogos de Megadrive, e tinham alguns outros clientes. Eles queriam entrar no mercado de multimídia e Web, mas eram mais usuários de Adobe do que qualquer outra coisa e precisavam de alguém de tecnologia, e esse alguém seria eu.</p>
<p>Lá tinha uns 3 ou 4 Mac Quadra ou Centris, não lembro exatamente. A linha feia bege da era do MacOS System 7 e 8, o período negro da Apple sem o Steve Jobs. Mesmo assim eu achava fascinante, afinal era a primeira interface gráfica comercial de sucesso e o Windows 95 ou 98 daquela época ainda era super cru em comparação. Infelizmente eu era o único que ia ter que usar um PC com Windows justamente pra experimentar as coisas novas saindo pra essa tal de Web.</p>
<p>De curiosidade, os Mac Quadra daquela época acho que eram os últimos modelos anteriores à migração pra PowerPC então ainda usavam os processadores Motorola 68000, como o 68040 de 33Mhz, talvez uns 16 Megabytes de RAM, HD externo SCSI. Foi a primeira vez que vi SCSI e zip drives da Iomega. O meu PC era mais novo e mais potente, um Pentium MMX acho que já de 100 Mhz, com uns 16, talvez 32 megabytes de RAM. Monitor Super VGA de 1024 por 768 pixels, um pouco mais do que o que chamamos de HD hoje em dia, que é 720p. RAM nos anos 90 era super caro, talvez a parte mais cara do computador.</p>
<p>Também de curiosidade, meu salário de estagiário naquela época foi de uns 500 reais. Ajustado pelo IPCA seria equivalente hoje a uns 2 mil reais. Super justo. Eu tava empolgado pra mexer mais na Web, mas queriam que eu aprendesse a fazer CD-ROMs. Na prática eu tava empolgado pra mexer em qualquer coisa que fosse no computador, e estava sendo pago pra isso, tanto fazia pra mim com o que eu ia ter que mexer.</p>
<p>Entenda. Não existia LinkedIn, nem Twitter, nem nada. Não existia eventos de tecnologia pra programadores. No máximo eventos corporativos de Microsoft ou Oracle. Meus colegas da faculdade estavam todos procurando programas de trainée numa Oracle da vida, ou bancos. Ninguém que eu conhecia tava indo trabalhar em agência. Eu deveria estar preenchendo formulários de programas de treinamento na indústria automobilística, seguros ou saúde, pra aprender a mexer em mainframes e Cobol. Mas eu nunca nem procurei saber como esse mercado funcionava. Eu achei esse emprego, tava meio de saco cheio da faculdade, liguei o &ldquo;foda-se&rdquo; e só fui.</p>
<p>Pra vocês terem uma idéia do que significava isso de CD-ROM, eu instalei um Windows Me num emulador chamado DOXBox-X, altamente recomendado se quiser rodar programas e até jogos de DOS daquela época, roda super bem mesmo num PC modesto de hoje. Uma empresa de tecnologia que era super reconhecida naquela época se chamava Macromedia, que fazia esse troço chamado Director. Director quando abre tem o que ele chama de stage, tipo um palco. Embaixo tem uma timeline.</p>
<p>Podemos abrir essa janela de casting, que é o nome que se dá ao grupo de atores escolhidos pra uma peça. O Director tem esse nome porque usa essa metáfora de um teatro, palco, atores, casting. Enfim, podemos inserir diversos tipos de objetos como bitmaps, clipes de video e no caso estou criando um objeto de vetor, semelhante ao que se faria com CorelDraw ou Adobe Illustrator. Olha só, aparece aqui na janela de casting. Agora posso arrastar pro stage, pro palco.</p>
<p>Daí posso criar keyframes, mover o objeto um pouco, ir mais pra frente, criar outro keyframe, mover o objeto mais um pouco e ir fazendo assim. Agora voltamos pro começo da timeline, damos play e voilá, uma animação super crua. E se isso pareceu familiar pra alguns de vocês, o Director começou sendo um software pra exportar executáveis pra gravar em CD-ROM, mas com a Web não ia demorar pra passar a exportar num formato distribuível pela Web instalando plugin em navegadores da época como o Netscape ou as primeiras versões do famigerado Internet Explorer. Era o formato Shockwave.</p>
<p>Com a evolução rápida da Web, a Macromedia simplificou o Director, focou mais na parte vetorial, as ferramentas mais simples de animação e chamou de Macromedia Flash. Essa é a origem do Flash, mas estou me adiantando. Deixa eu voltar pro Director. Assim como em Flash, todo mundo sabe que tinha uma linguagem derivada de Javascript pra programar interatividade, chamada ActionScript. O Director também tinha uma linguagem, só que ainda mais rudimentar, declarativa, chamada Lingo.</p>
<p>Por exemplo, posso adicionar um script aqui num dos frames pra pausar. Pronto, rebobino a fita, dou play de novo e ele pára aqui. Se tem o comando &ldquo;pause&rdquo;, deve ter o comando &ldquo;resume&rdquo;. Posso adicionar um novo comportamento nesse sprite, no evento &ldquo;mouseUp&rdquo; que é quando eu termino de apertar o botão do mouse, posso adicionar &ldquo;resume&rdquo; usando essa ajuda rudimentar aqui que lista todas as funções do Lingo. Resume sprite 1. Dou play de novo, ele pausa, clico no ator e &hellip; erro.</p>
<p>Handler not defined. Maldito erro genérico, Javascript deve ter se inspirado em Lingo. Bom, vamos procurar no Stackoverflow então. Só que em 1997 não tinha Stackoverflow, nem Google, nem fóruns de discussão. Eu tinha um livro impresso. O software tem essa documentação local aqui. E era isso. Nem se eu perguntar hoje pro ChatGPT ele sabe me dar uma boa resposta. E agora em 2023 obviamente não lembro mais o que significa isso. A única coisa que me ocorre é uma gambiarra. Já que resume não funciona, estou aqui no frame 6, então vou dar comando pra pular pro próximo frame e torcer pra continuar. Go to frame 7. Como eu disse é uma linguagem declarativa.</p>
<p>Rebobina, dou play, pausa, clico no ator e boom, ele continua como eu queria. E meu dia a dia era assim: mensagens de erro que não diziam coisa nenhuma, ficar fuçando a documentação e tentando coisas até conseguir fazer funcionar. Imagino que não é muito diferente do que a maioria de vocês fazem hoje em dia, só que eu tinha bem menos opções de onde pesquisar erros. Foi fazendo assim que consegui compilar meu primeiro CD, que foi esse aqui do lançamento do Volks Parati 4 portas.</p>
<p>Se não me engano foi uma campanha pra dealerships, pra treinamento dos vendedores de concessionárias, mas enfim, é como se fosse um site web estático, mas em formato de CD-ROM. &ldquo;E por que não um site de uma vez?&rdquo;, alguém poderia perguntar. Por que internet em 1997 era altamente opcional. A maioria da população ainda nem sabia o que era isso. Mesmo em pequenas empresas, no máximo o povo tinha conexão discada via iG ou Terra ou America Online, ou UOL. E a conexão média era de 19 kilobits por segundo.</p>
<p>Uma imagem de 160 pixels por 150 pixels, metade do que seria a tela de um Nintendinho, com 7 bits de cor, dava uns 20 kilobytes. Imagine múltiplas imagens dessa. Levava vários segundos a minutos pra montar uma tela como essa via web. Por isso a Web de 1997 era bem mais rudimentar do que era possível fazer num CD-ROM, que já vinha com todas as imagens, clipes de video, áudio e tudo mais local, num CD de 650 megabytes. Streaming de video e áudio era impossível naquela época. Só que todo mundo pagou uma grana investindo nos tais kits multimídia, como da Creative Labs, e queriam ver videos e áudio. O que a gente fazia em CD era impossível de fazer na Web.</p>
<p>Assistam meu video sobre compressão, de 25 TB pra 5 gigabytes, onde explico sobre cores, algoritmos de compressão e tudo mais. Boa parte do meu trabalho era converter Jpegs com 8 bits de cor em GIFs com paleta de cor menor pra fazer versão web de algumas coisas. Naquela época, o mais comum eram monitores VGA de 800 por 600 pixels, que seria o nosso &ldquo;4K&rdquo; considerando que o padrão era tipo 320 por 240 num sistema operacional texto como MSX, Commodore ou consoles como Super Nintendo ou Megadrive. E com 256 cores.</p>
<p>Olha alguns dos sites que eu fazia naquela época, vou só passar aqui alguns slides de fotos de tela, mas deve dar pra dar uma noção de quão limitado era a tecnologia da época. Hoje em dia vocês estão acostumados no mínimo a Full HD que é 1080p e pelo menos 8 bits de cor com milhões de cores possíveis, ou HDR com 10 ou 12 bits de cor em 4K nos monitores mais avançados. Pular de 80 colunas por 24 linhas em monitor de 240p, pra VGA colorido em 768p, é como vocês pulando de Full HD pra 4K hoje em dia.</p>
<p>O CD-ROM mais complicado que eu fiz, foi o projeto do lançamento do Fiat Marea. Esse foi particularmente difícil porque a Fiat ainda tava mudando detalhes como opcionais do carro, cores de tecidos, e coisas assim enquanto a gente tava montando o CD. Os designers tinham que fazer coisas como mudar a cor dos tecidos nas fotos antigas direto no Photoshop, porque não ia dar tempo de tirar novas fotos em estúdio com os novos materiais. Foi a primeira vez que eu vi Photoshop sendo usado pra coisas desse tipo e isso explodiu minha cabeça naquela época. Foi vendo isso que decidi aprender mais sobre essa parte gráfica e aprender Photoshop.</p>
<p>Se eu montasse o CD do jeito tradicional, como eu mostrei no começo, até que não era um projeto difícil. Mas eu era um aluno de ciências da computação aprendendo coisas como Delphi, Java e esse troço novo na época chamado Orientação a Objetos. E eu ficava tentando adicionar objetos em tudo. Delphi era basicamente Pascal com objetos, tanto que chamava Object Pascal. Mas eu usava ainda o Turbo Pascal 6 de DOS, que não tinha classes, mas tinha objetos rudimentares, e eu queria adicionar suporte a pelo menos encapsulamento e talvez herança nessa linguagem rudimentar de Lingo pra Director.</p>
<p>Tá vendo esse menu principal? Ele aparece em todas as seções do CD. Cada seção o Director recomenda organizar como um arquivo separado, daí um evento num arquivo basicamente carrega outro arquivo. Seria como um anchor em HTML que tem a URL pra carregar outra página. Eu queria fazer um objeto reusável entre todos, o que vocês chamariam hoje de componente. Obviamente isso é um caso de uso não documentado, que não tinha em nenhum livro. E óbvio que deu um monte de bug que eu tive que varar muitas noites pra resolver. E quando digo muitas, quero realmente dizer MUITAS noites sem dormir.</p>
<p>Lembro até hoje que por minha culpa, quase não deu pra lançar o CD. Entenda: hoje em dia se alguma coisa dá pau, fácil, só subir um commit de correção, deployar e em alguns minutos tá corrigido. Mas um CD exige um compromisso que nenhum de vocês vê mais hoje: uma vez prensado, não tem como corrigir os CDs distribuídos. Esses CDs do Fiat Marea iam ser distribuídos em revistas da Editora Abril como Quatro Rodas e Playboy, e uma vez queimado o CD Gold, o master, não tem mais como corrigir.</p>
<p>O processo todo já tava atrasado de qualquer jeito porque a Fiat não parava de fazer modificações de última hora que exigia mudar textos da especificação dos modelos, opcionais, e tudo mais, e em cima disso toda vez que a gente ia apresentar pro gerente de contas da Fiat, minha programação dava um bug inesperado. No último dia, literalmente na última hora, lembro de compilar a última versão, gravar num CD na agência, pegar o carro, tipo 10 horas da noite e ir até a Zona Norte de São Paulo, onde ficava a antiga Sonopress, a fábrica que prensava os CDs em massa.</p>
<p>Pensa, eu era estagiário, tinha 20 anos, fui sozinho com o CD embaixo do braço pra mostrar pro gerente de contas mais rabugento, mau educado e nervoso da face da Terra, roendo todas as unhas das mãos e dos pés, porque depois de tantos dias de bugs, eu tava com minha confiança por um fio. E por sorte, nos 45 do segundo tempo, navegamos por todo o CD e funcionou sem bugs.</p>
<p>Ali ele deu ok pra Sonopress prensar. Lembro até hoje, saindo com ele, no estacionamento, ele me parou e ventilou tudo que tinha que ventilar na minha cara. Eu não lembro de uma palavra do que ele disse, só que eu fiquei ali, sei lá, 11 horas da noite, paralizado no meio do estacionamento vazio, só ouvindo. Foi a primeira comida de rabo sério que tomei. Vocês acham que eu sou rabugento nos videos? Volta aqui depois que experimentarem terem saliva voando na sua cara de alguém gritando.</p>
<p>Eu queria ter uma moral da história, tipo que depois disso eu me tornei mais cuidadoso, mais prudente, que me ajudou de alguma forma, mas tem uma coisa que descobri recentemente que talvez explique como reagi na época: eu fiz teste preliminar com psicólogo e de fato, parece que eu tenho um certo grau de Asperger, tipo um autismo leve. Eu compartimentalizo. Nada se torna gatilho pra eu desistir ou fazer alguma coisa por conta de algum evento traumático ou importante de alguma forma. Eu compartimentalizo, embrulho, enterro e sigo em frente. Não tenho idéia de como outras pessoas lidam com isso, porque uma pessoa mais sensível provavelmente teria abandonado tudo naquele dia.</p>
<p>Eu já tive que ouvir outras pessoas ventilando mais do que seria profissional, mas naquele nível, felizmente foi a primeira e última vez. Eu não sei fazer as coisas como as outras pessoas esperam que eu faça. Se eu coloco uma coisa na cabeça, quero tentar fazer, independente do trabalho que vou ter. Foi o que falei no video de Por que fazer o que Ama, só que não. Eu não faço as coisas que eu gosto, eu faço as coisas porque eu gosto de saber se consigo fazer.  Depois que consigo, perco o interesse, e procuro outra coisa.</p>
<p>Na faculdade eu tava empolgado com UNIX, com Delphi, com Java,  HTML, Javascript, não muito diferente do que muitos de vocês hoje devem estar vendo. Talvez Python, que ainda não era popular na época. Mas na agência me pediram pra aprender a fazer CD-ROM com Director. Eu nunca tinha ouvido falar nisso até entrar lá, nunca tinha planejado gastar 1 ano fazendo CD-ROM. Mas quando ouvi essa proposta, coçou os dedos. Eu queria saber se conseguia fazer. E não só fazer, mas fazer de formas que não era comum. O preço disso era que eu ia varar noites, tomar comida de rabo, mas eu entregava. Essa sempre foi minha motivação: entregar.</p>
<p>Em paralelo eu fazia os sites estáticos, em HTML puro. Aliás, na época não existia CSS ainda, tá? Formatação era usando tags como &ldquo;font&rdquo; e atributos de estilo inline com &ldquo;style&rdquo;. Aos poucos fui mexendo em mais tecnologias Web. A internet começou a ficar um pouco mais rápida, pulamos pra modems de 56 kilobits por segundo, depois pra 128 kilobits quando o Speedy, Ajato e outros provedores de banda larga começaram a chegar. Daí migrei de Director pra Flash, e comecei a aprender ASP.</p>
<p>Por volta de 1998 eu fiz um pequeno trabalho pra construtora Camargo Correa que envolvia indexar vários documentos PDF que eles tinham pra fazer tipo um motor de busca, um search engine, usando o antigo Microsoft Index Server que depois acho que virou Indexing Services. Isso tinha no IIS que vinha nos antigos Windows NT 4. A idéia era fazer um pequeno site de intranet, que seria acessado só internamente, pra conseguirem pesquisar rapidamente a biblioteca de PDFs deles.</p>
<p>De novo, 1998 foi quando o Google tinha acabado de ser fundado, literalmente funcionando da garagem. Nessa época já existiam várias tecnologias pra pesquisar conteúdo. Todo mundo rapidamente começou a perceber que com a microinformática sendo largamente adotada, documentos digitais começando a ganhar peso, o volume de conteúdo aumentava exponencialmente e precisávamos dar um jeito de organizar tudo e facilitar pesquisa.</p>
<p>Eu sabia disso em 1998? Não tinha nem idéia, só viria a começar a usar Google talvez no ano 2000. Eu era assim: &ldquo;ow, tem que fazer um site pra pesquisar documentos&rdquo;. Eu sabia como? Não tinha nem idéia, daí ia fuçar como resolver. Microsoft era uma das poucas empresas que tinha boa documentação online no MSDN. Assim esbarrei em Index Server. Pra isso precisava aprender ASP, daí lá vou eu aprender ASP e ao mesmo tempo tinha que saber Microsoft SQL Server. Eu sabia o que era SQL? Não. Lá vou eu aprender. Tudo pra fazer esse um projetinho.</p>
<p>A gente já ouvia falar da tal da Oracle, que na época era uma das maiores gigantes no mundo de tecnologia com seu banco de dados que eu sabia toda grande empresa usava. Eu nunca tinha visto um, só sabia que era difícil. E não era como se desse pra ir no site e baixar. A licença custava milhares de dólares, vinha em pacote físico, com livros, CDs e tudo mais. Não era acessível pra meros mortais como eu. E foi aí que a Microsoft foi inteligente, porque um SQL Server, eu conseguia baixar, aprender e usar, tudo online. E foi assim que comecei a aprender sobre SQL.</p>
<p>Comecei com o SQL Server 6.5 e de curiosidade, o SQL Server começou como um port do antigo banco de dados da Sybase pra OS/2, em 16 bits, em 1989. Saiu a versão 4.2 pra NT em 1993 e o 6.0 saiu em 1995. A versão 7 sairia um pouco depois que eu comecei a aprender. Foi a versão que eu mais usei.</p>
<p>De qualquer forma, a vida daquela pequena agência tava chegando no fim por volta de 1998. Acho que trabalhei lá só uns 2 anos e nesse período aprendi HTML, Director, Flash, comecei a aprender ASP, SQL Server. Mas pelo jeito o dono não soube administrar bem a empresa, ela foi diminuindo, até que só sobrou eu e mais um outro funcionário e passamos a trabalhar da sala de professores na faculdade, na ECA. Fiquei pouco tempo lá, porque um amigo meu me chamou pra trabalhar na empresa dele. Como parecia que não tinha mais pra onde ir mesmo, resolvi aceitar.</p>
<p>Essa empresa foi a STI, um dos primeiros provedores de internet do Brasil. Começou como uma BBS e evoluiu pra internet. E lá trabalhava meu vizinho. A gente se conhecia desde adolescente e aprendemos a mexer em computador juntos. No episódio dos primeiros 5 anos eu falo dele, o Thiago Madeira, que teve sua própria BBS antes de ir pra STI enquanto eu ia pra faculdade e foi ele que tinha o contato que me colocou como monitor da sala de computação da USP pra baixar pirataria pra BBS dele. Contei essa história no outro video.</p>
<p>Enfim, já era quase meio de 1999 e a empresa tinha um problema. Por anos toda a administração era controlada por um software feito por um dos co-fundadores, no antigo Clipper de DOS, que eu conhecia e programava no começo dos anos 90. Ele controlava tudo: cadastro de cliente, faturas, cobranças, suporte técnico e  mais. Programas em Clipper eram feitos pra funcionar com um único usuário numa única máquina, mas ao longo dos anos 90 criaram várias gambiarras pra compartilhar o arquivo de banco de dados via redes, como em infraestrutura da antiga Novell Netware.</p>
<p>Dava pra ver que era a clássica empresa que nasceu em garagem e cresceu rápido: o servidor já tava perto do último suspiro, era um PC de gabinete aberto, com um ventilador apontado pra ele, ligado em rede pra todo mundo da empresa conseguir acessar. A forma de fazer isso era bloqueando o arquivo de banco de dados, fazendo alguma operação, daí desbloqueando pro próximo poder usar. Essa é a forma mais rudimentar de banco de dados que existia, mas funcionou por anos, até a empresa ter dezenas de funcionários e milhares de clientes.</p>
<p>Mas esse não era o maior problema, porque eles tinham dinheiro de sobra pra colocar tudo num hardware mais moderno. O problema era que Clipper foi feito nos anos 80, numa época onde 640 kilobytes de RAM era o máximo. Onde a gente literalmente escovava e economizava bits onde dava, em particular nos tipos de data. Pra que gravar 1980 se só gravar 80 já era suficiente? Economizava 2 bytes por registro fazendo isso. Daí na hora de mostrar era só concatenar &ldquo;19&rdquo; na frente e pronto. Quer saber quantos anos se passaram de 1990 até 1998? Só fazer 98 menos 90. Ponto.</p>
<p>Mas em breve, teríamos contas assim: 2000 menos 1998 dá quanto? Não dá pra fazer 00 menos 98. Dá pau. Esse é o famoso Bug do Milênio ou Y2K como chamamos hoje. A solução correta era recompilar num Clipper mais novo, que tinha correção de ano 2000, vasculhar o código-fonte onde faz contas com datas e checar se não tem nada hardcoded com 2 bytes e ir ajustando. Daí fazer uma versão mais nova que funcionaria depois do ano 2000.</p>
<p>Só que era uma empresa de tecnologia, nova, com pessoas novas, com um co-fundador técnico, coisa rara na época. Foda-se, vamos reescrever tudo em tecnologias mais modernas. Na época, era justamente pra fazer tudo em 32-bits, com a moderníssima linguagem ASP, pra funcionar em cima de SQL Server, num Windows NT, coisa profissa. Obviamente eu fiquei empolgado, afinal, era justo as coisas que eu tava começando a aprender por causa do último projeto na agência. Alguém vai me pagar pra eu continuar aprendendo? Bora.</p>
<p>O problema: tinha menos de 6 meses pra fazer as coisas funcionarem, já estávamos por volta de junho de 1999. Lembrem-se que existem coisas como plano semestral. Tem partes que já iam começar a falhar se fôssemos imprimir boletos no futuro. A partir de agosto de 1999 já ia passar a barreira pra janeiro de 2000. Eu não tinha idéia do trabalho que algo assim poderia dar, se tivesse talvez não tivesse concordado e sugerido um plano mais convencional como tentar ajustar em cima do código legado mesmo. Mas eu era um moleque de 22 anos que só queria a oportunidade de mexer com coisas novas.</p>
<p>Por sorte a equipe que foi formada era muito boa. Eu não era o melhor mas certamente era o mais arrogante, não tenha dúvidas disso. Na minha cabeça tudo dava. Eu não lembro mais de todos os detalhes, mas precisávamos fazer ferramentas de atendimento pra todo o pessoal do suporte técnico que atendia os clientes, tipo ferramenta de help desk, mais um banco de conhecimento com todos os truques que se sabia pra ajudar os novos atendentes. Precisava fazer ferramenta da parte financeira, consolidação de contas, impressão de boletos, gerenciar vendas e por aí vai. Era tipo um mini ERP dessa empresa.</p>
<p>Falando em Bug do Milênio, muita gente de fora achava que ia chegar 31 de dezembro de 1999 e na virada do ano tudo ia quebrar. Inocentes, tudo já ia começar a quebrar pelo menos 6 meses antes, em alguns lugares antes ainda. Que nem o caso de boletos que eu falei. Como você imprime um boleto datado pra janeiro de 2000? As empresas não estava às cegas assim não, todo mundo já tava tendo que lidar com esse problema muitos meses antes do que a população em geral imaginava.</p>
<p>Lembro até hoje de outro episódio &ldquo;what the fuck&rdquo; que passei. Se não estou enganado, todo mês imprimiam os boletos pra mandar por correio pra todos os milhares de clientes. E não lembro detalhes, mas justamente acho que se o cara contratava um plano semestral, já mandavam os 6 boletos de uma só vez. E por isso já por agosto ia ter o problema do ano 2000 que acabei de explicar. Em determinado momento de 1999 as pessoas já iam receber boletos datados pra pagar no ano 2000.</p>
<p>Lembrando também que falei que o sistema antigo em funcionamento era em Clipper, ou seja, com banco de dados que é só um arquivão gigante em formato DBF, sem servidor intermediando. Também falei que era um arquivão compartilhado numa rede Novell, que rodava em DOS com sistema de arquivos FAT16. Quem já lidou com isso sabe: esse sistema de arquivos não tem absolutamente nenhum tipo de funcionalidade de prevenção e correção de erros. Basta cair a luz uma vez pra começar a dar muita merda. Dados corrompidos era rotina.</p>
<p>Precisávamos fazer engenharia reversa desse arquivo pra dar carga no SQL Server. Só que à medida que abríamos esse arquivo dava pra ver que tinha registros corrompidos no meio do caminho. Povo de data science sabe o que significa &ldquo;limpar dados&rdquo;. Essa foi minha primeira experiência usando SQL como se não houvesse amanhã pra limpar e várias queries pra garantir que tava tudo certo. Diferente de data science, que se tiver algum errinho não costuma ser um grande problema porque dá pra lidar com margens de erro, quando falamos de contabilidade, não pode ter uma vírgula fora do lugar. Ninguém pode receber cobranças erradas. Qualquer pequeno volume de erros significava congestionamento no atendimento pra resolver.</p>
<p>Daí finalmente fizemos uma primeira versão que ia imprimir os novos boletos pela primeira vez. Não lembro, talvez agosto ou setembro de 1999. Fiz um monte de queries, ainda tinha uns bugs que eu não tava satisfeito, mas chegamos no momento de &ldquo;acho que tá bom o suficiente&rdquo;. Mandamos rodar e as impressoras no andar de baixo começaram a imprimir. Pensa que ia levar a noite inteira imprimindo pro serviço de entrega ir buscar as caixas na manhã seguinte.</p>
<p>O escritório do STI ficava numa cidade chamada Santana de Parnaíba, depois de Alphaville aqui de São Paulo, quase 30 quilômetros de distância da casa dos meus pais onde eu morava. 45 minutos de carro sem trânsito ou 2 horas, que era o que eu levava todo dia pra voltar. Eu passei o trânsito todo da volta com pulga atrás da orelha. Cheguei em casa, jantei e tal, deitei pra dormir e foi aí que me ocorreu: tinha um bug que ia foder todos os boletos!</p>
<p>Lembro que levantei no susto, peguei o carro sei lá, meia noite e fui correndo pro escritório. Eu tive meu momento de &ldquo;parem as máquinas!!!&rdquo; E passei a madrugada tentando corrigir o tal bug. Queria lembrar o que era exatamente, mas era um bug lazarento. Eu acho que consegui resolver e finalmente deu pra continuar imprimindo a tempo de acabar pra entrega de manhã. Eu tenho poucas memórias daquela época. Acho que deu certo porque não lembro de repercussões tão negativas. A gente sabia que podia ter um certo grau de erro, mas era importante não ser demais pra não congestionar o suporte.</p>
<p>Meus primeiros 10 anos seriam uma sucessão de eventos desse tipo: pegar desafios que eu não tinha idéia de como fazer, varar noite tentando resolver, causar muitos bugs que não sabia como corrigir, e arrancar os cabelos tentando descobrir. Muito me admira que eu ainda tenho cabelo. Enfim, acho que chegamos muito perto de conseguir substituir o sistema antigo pelo novo, mas aí aconteceu um evento inesperado: a STI foi adquirida por uma outra empresa maior, a PSINet.</p>
<p>Por causa desse merge mudou muita coisa, não sei se nosso sistema foi usado ou não ou se iam adotar outro, mas foi onde vi meu primeiro layoff, demissão em massa. Num merge de várias empresas, acaba que muitas posições ficam redundantes, daí demitiram muita gente de uma só vez. Ouvi falar que muitos ficaram descontentes, saqueram o escritório, levaram computador, monitor e coisas assim.</p>
<p>No meu caso foi diferente, porque minha equipe, que era próxima dos co-fundadores, foi levada pra montar outra empresa. Eu não tinha outra coisa pra fazer, fui junto. Montaram outro escritório e me pediram pra pegar um produtinho que eles compraram pra envio de email e falaram pra eu fazer uma interface gráfica pra ela. O problema que tinha que ser em PHP. Eu passei meses mexendo em ASP e tava super fluente, mas beleza, lá vou eu aprender outra coisa. Ainda bem que eu tinha aprendido um pouco de UNIX e Linux na faculdade porque agora ia precisar mexer com Linux e Apache.</p>
<p>Esse produtinho foi batizado de Internet Email Grátis ou ieG, um dos primeiros produtos independentes, que não era atrelado a um provedor, pra dar email grátis pra qualquer um. Pense um Gmail rudimentar, 6 anos antes do Gmail. Eu tava explorando a idéia de uma interface gráfica Web que seria parecido com um aplicativo nativo de Windows de verdade, daí fiz uma versão Web do Outlook Express, antes do Outlook pra Web sair de verdade. Ponto de comparação naquela época acho que já tinha Hotmail.</p>
<p>Esse produto foi fácil, daí formou uma nova equipe e nos pediram pra fazer outro produto: um Geocities brasileiro. Pra quem não sabe o que é Geocities, era um produto web pra qualquer um conseguir ter sua própria homepage pessoal gratuita. A contrapartida era deixar colocar um banner no topo pra monetizar. A nossa ia se chamar HomePage Grátis ou HPG. Quem começou a mexer com internet no começo dos anos 2000 vai se lembrar de HPG. Esse produto explodiu, todo mundo tinha um site hpg.com.br/alguma coisa. Pensa, era uma época que ainda não era difícil conseguir domínios de 3 letras.</p>
<p>Você podia andar num shopping center e ver a URL hpg da loja na vitrine, ou em outdoor, ou pintado nos ônibus. Esse produto explodiu. Eu participei da primeira versão, feita com PHP e Perl. E foi assim que aprendi Regular Expressions, porque todo mundo ficava tentando achar jeitos de burlar os banners que a gente colocava e eu passava o dia fazendo Regex pra tirar os truques. Povo posta no fórum do UOL e eu ficava vendo qual era o novo truque e fazia uma nova regex pra filtrar o HTML e tirar, por exemplo, o javascript que eles colocavam. Nem precisava tirar tudo, bastava fazer o javascript do cara quebrar pra ele tirar.</p>
<p>Eu saí quando começaram a fazer a funcionalidade de templates de sites, pra facilitar quem não sabia escrever HTML do zero. Eu tinha 23 anos e na minha cabeça esse produto não fazia sentido. Mesmo com banners era muito caro manter o site de todo mundo de graça. Infraestrutura era muito mais cara naquela época do que agora. Mas eu também tava sendo muito cético muito cedo. Eu fiz tudo isso em menos de 6 meses. Mas um conhecido da época daquela primeira agência que fechou foi trabalhar pra uma agência grande de verdade, a F/Nazca, e me convidou pra ir com ele. Dado que eu tava cético com o modelo de negócios, tinha visto os layoffs da PSINet antes, resolvi pular fora do barco.</p>
<p>Seis meses depois o HPG foi vendido pro iG, o que elevou o iG acho que do sexto lugar no ranking pra segundo lugar só atrás do UOL na época. Sabem o que eu falei nos videos sobre startups de engordar o porco? Pra mim isso era uma novidade naquela época, foi a primeira vez que vi o modelo de negócios de gastar muito sem dar lucro, criar hiper relevância, pra ser adquirido caro por alguém maior. Hoje em dia isso é o arroz com feijão das startups. Mas mesmo assim, isso dá certo pra menos de 1% de todo mundo que tenta. Mas os co-fundadores eram todos pessoas bem conectadas no mercado por conta da experiência da STI e do merge com a PSINet. Não eram amadores. Mas eu não conhecia eles pessoalmente, então não tinha noção disso.</p>
<p>Mas tudo bem, eu não tinha stock options nem nada, não ia ganhar nada com a venda de qualquer jeito. Eu era só um programador e acho que tomei uma boa decisão, especialmente porque nesse próximo lugar também ia poder fazer coisas diferentes. A F/Nazca era uma das maiores agências do Brasil na época onde as grandes eram nomes como W/Brazil ou Almap. Hoje são WMcCann, Publicis, Africa, DPZ&amp;T. A Publicis acho que comprou a F/Nazca anos atrás, mas em 2019 o fundador Fabio Fernandez, o &ldquo;F&rdquo; em F/Nazca, saiu e acho que iam fechar. O fim de uma era.</p>
<p>E o Fabio Fernandez era publicitário extravagante clichê da época. De novo, era ano 2000, estávamos caminhando rapidamente pro pico da Bolha da Internet. Ninguém sabia que era uma bolha ainda, especialmente porque ninguém sabia direito o que fazer na Web, muito menos agência publicitária. E pra ser o diferentão o Fernandes quis montar uma equipe tipo uma Tropa de Elite da Web, fora dos escritórios da agência. Era uma equipe pequena, nem meia dúzia de pessoas, focadas só em Web, e a gente ia ficar num escritório virtual no World Trade Center de São Paulo.</p>
<p>Pra ter uma noção do que eu quero dizer com extravagante, ele fez um anúncio pra empresa inteira na forma de cartas deixadas na mesa de todo mundo, dizendo que estavam demitidos. Aí acho que ia ter um evento no mesmo dia pra anunciar que na verdade tava todo mundo demitido da &ldquo;antiga&rdquo; agência publicitária tradicional mas estavam todos recontratados na &ldquo;nova&rdquo; agência Web. Entenderam? Puta piada de mau gosto que acho que rolou vários processos trabalhistas depois. Mas imaginem eu, era meu primeiro dia, e a primeira coisa que ouvi foi que tava demitido e recontratado. Eu achei engraçado na época, mas eu era só um moleque.</p>
<p>Enfim, nessa equipe eu trabalhei em algumas peças em Flash primeiro. Tive que desenferrujar meu Flash e fazer duas peças de campanha que eles iam mostrar em Cannes. Eram umas coisas bem idiotas. Só de exemplo, uma das peças era uma campanha das tintas Suvinil falando sobre suas novas máquinas de misturar tintas pra você ter a cor que quiser.</p>
<p>A idéia era o banner ficar fixo na tela e na verdade o navegador inteiro se mexer pra todos os lados simulando a máquina misturando a tinta. Isso era uma época que Javascript dava controle de tudo do navegador, incluindo a posição no desktop da pessoa. Imagina abrir um site e as janelas ficarem se mexendo do nada. Ainda bem que não pode mais fazer isso.</p>
<p>Enfim, meu chefe nessa época era um gêniozinho um ano mais novo que eu e que manjava muito de tecnologia, o Bruno Mosconi. Foi com ele que aprendi o conceito de que livro não é despesa, é investimento. Ele deixava a gente comprar os livros que precisasse. É uma prática que até hoje eu tenho na minha empresa por causa disso. Mas hoje em dia o acesso a informação desse tipo é muito mais fácil, tem de graça. Na época não tinha. Era ano 2000, Google mal tinha 2 anos ainda.</p>
<p>Lembro que foi a primeira vez que mexi com Python também por causa de um site de astrologia de um cliente, que ele queria implementar num gerenciador de conteúdo chamado Zope. Pra quem é de Python, o Zope depois se tornaria Plone. E foi com ele também que ouvi falar de Ruby pela primeira vez, mas não usei naquele ano ainda. F/Nazca foi o lugar onde trabalhei por menos tempo, só uns 3 ou 4 meses. No HPG também foi pouco, menos de 6 meses. De novo, minha memória não tá muito boa mas acho que essa operação Web não tava dando certo aí eu tive que procurar outro lugar.</p>
<p>Essa foi a primeira vez que realmente tive que procurar emprego. Postei meu currículo na minha homepage do HPG, até tive contatos por lá. Recrutador vasculhando qualquer site existe desde aquela época. Mas de novo, foi por causa dos contatos que fui fazendo ao longo desses primeiros anos que me levaram a algumas boas entrevistas e acabei entrando numa pontocom, que é como chamávamos as startups da época, que foi a PSN, ou Panamerican Sports Network.</p>
<p>Eu contei sobre eles nos episódios de Sua Linguagem Não é Especial, mas recapitulando, a empresa maior era a Hicks, Muse, Tate and Fürst. Pra quem é de futebol, vai lembrar que era a dona do Corinthians e do Cruzeiro no ano 2000. Embaixo tinha sites como a PSN.com junto com o canal de TV a cabo PSN, patrocinava o Alan Prost na Fórmula 1. Pois é, eu fui webmaster do Corinthians. Depois assistam esses outros episódios.</p>
<p>Lembro que cometi minha primeira grande gafe que todo iniciante arrogante faz. Logo na primeira semana, fui olhar o código deles e era um go-horse atrás de outro go-horse. O código foi feito por uma terceirizada americana e foi a primeira vez que entendi que só porque é gringo não quer dizer que é melhor. Puta código zoado da porra. Pensa um ASP macarrônico com HTML misturado com Basic tudo em arquivões de milhares de linhas. Escrevi um e-mail super textão com page downs e page downs de críticas e mandei pra todo mundo sem pensar. Descobri só quando tava pra sair que por causa daquele e-mail todo mundo me odiava no começo. Eu só repeti o que todo mundo já sabia. Uma nova equipe já tinha assumido a zona e já tava consertando, eu que peguei o bonde andando. Fica a dica: Não seja essa pessoa.</p>
<p>Na PSN eu fiquei pouco tempo também, até dezembro de 2001, cerca de 1 ano e meio. E foi lá que tive a oportunidade de ir pros Estados Unidos pela primeira vez, pra conhecer a equipe que trabalhava de Miami. Pra ter uma noção de como faz tempo, não existia celular com internet, pra me localizar eu tinha que imprimir mapas do site da prefeitura da cidade. E pra tirar foto eu tive que comprar uma câmera descartável numa farmácia e mandar revelar. Acabei perdendo essas fotos. Eu só voltaria a viajar pros Estados Unidos quando entrei na Locaweb em 2008, 7 anos depois. Mas em 2001 aconteceram outros dois episódios que me marcaram.</p>
<p>O primeiro foi em setembro de 2001 quando cheguei de manhã cedo no escritório e tava todo mundo na frente das TVs e eu fiquei confuso &ldquo;o que aconteceu?&rdquo; Aí vieram me contar &ldquo;você não viu?? jogaram um avião no World Trade Center&rdquo;. E eu paralizei e falei &ldquo;aqui do lado??&rdquo; Lembrando que na F/Nazca trabalhei de um escritório no World Trade Center, de São Paulo, que fica no bairro do Brooklin Novo, na famosa avenida Berrini que muitos já consideraram o Vale do Silício do Brasil. A PSN ficava num prédio a alguns quarteirões de distância. Pensa meu alívio quando falaram &ldquo;não, o de Nova Iorque!&rdquo; ahhhhh então tá, cadê meu café?</p>
<p>E o segundo episódio foi o famoso Crash da Bolha da Internet no mês seguinte, em outubro. Na verdade o pico da NASDAQ foi em março de 2001, onde tinha subido absurdos 400% desde 1995 e em 2001 caiu quase 80% de uma só vez. Ela ainda tentou subir de novo no meio do ano, mas aí veio a segunda perna do crash e a partir daí não parou mais de cair até quase o fim de 2002. Eu não tinha idéia do que isso significava. Na PSN nos disseram que descobriram que alguns executivos tavam roubando, negócios ruins, e o fechamento do canal de TV, das operações na Web. Eu quase apaguei a luz do escritório por último.</p>
<p>Eu não era muito informado com as notícias. Não acompanhava nada de mercado financeiro. Pra mim, essa bolha que começou em 1995, quando eu entrei na faculdade, parecia tudo normal. Só depois do fechamento abrupto da PSN que me toquei que na verdade eu tava no meio de uma bolha e nem tinha me dado conta. Notaram que desde 1996 eu fui indo de trabalho em trabalho sem nenhuma real dificuldade? Eu ia conhecendo pessoas, elas gostavam do meu trabalho, me indicavam ou me chamavam pro próximo negócio e eu só ia seguindo a vida assim.</p>
<p>E essa seria a segunda vez que eu ia ter que procurar emprego. Fiquei só uma semana desempregado. Mesmo com o crash da bolha, não significa que acabou todos os empregos. É isso que eu quis dizer no video do Crash da Bolha de agora também. Toda empresa, seja ela de tecnologia ou não, a partir de agora ia precisar manter essa tecnologia e evoluir, mesmo que fosse mais devagar.</p>
<p>De novo, mandei alguns emails e quem respondeu foi o Antelio, que eu falo no episódio de SAP, engenheiro que conheci naquele projetinho da agência na Camargo Corrêa. Ele saiu, virou consultor SAP e me chamou pra trabalhar. Ele ia me ensinar SAP e eu ia ensinar Web pra eles. Convenientemente, o escritório da consultoria era no mesmo prédio onde ficava a PSN que tinha acabado de fechar, só mudei de andar. Eu passei mais de meia década nessa região da Berrini.</p>
<p>Lembram do projetinho da STI pra resolver o problema de ano 2000? Obviamente ela não foi a única empresa com esse problema. Literalmente toda empresa que adotou tecnologia dos anos 80 e 90 tiveram que ajustar seus sistemas, ou investir em modernizar e substituir por coisas novas com eu fiz. Mas em empresas gigantes, não dava pra refazer tudo do zero. E foi aí que empresas como SAP ou Oracle ganharam terreno no Brasil. Foi a era de ouro das consultorias pra implementar novos ERPs não só pra resolver o problema no bug do milênio como implementar novos processos e tecnologias. Eu conto um pouco disso no episódio de SAP, depois dêem uma olhada.</p>
<p>E lá ia eu aprender mais uma plataforma que nunca tinha imaginado que ia ter que aprender: SAP. Mas tudo bem, de 1996 até  fim de 2001 eu tive que aprender Delphi, HTML, Javascript de primeira geração, Flash, ASP, PHP, Perl, SQL Server, MySQL, Apache, um pouco de Python. O que é um pouco de SAP? E nesse período entre 2002 a 2006 eu ia voltar a usar tecnologias Microsoft como ASP e finalmente usar Java comercialmente.</p>
<p>Durante a depressão na área de novas tecnologias que ia durar de 2002 a 2008 eu fiquei focado em mercado corporativo com integração de SAP com Web, depois migrei pra tecnologias open source com Ruby on Rails em 2006 e me preparando pra pegar a nova onda que eu nem sabia que ia recomeçar com mais força por volta de 2008. Foi quando começou a aparecer Twitter, Uber, Airbnb, Pinterest, Foursquare, Spotify, Netflix e todos os nomes que vocês conhecem hoje.</p>
<p>De novo, não é porque teve crash da bolha que a tecnologia parou. Foi entre 2002 a 2008 que as sobreviventes se consolidaram. Google e Amazon viraram gigantes nesse período de seca. Foi nesse período que blogs e redes sociais nasceram. Muitos tentaram e morreram, Orkut, MySpace, e aí apareceu o Facebook, depois o Instagram. Mas o ecossistema maior mesmo só apareceria depois do Crash da Bolha Imobiliária de 2008. A correção desse crash criaria o ambiente propício de juros baixos e dinheiro fácil pra investimento que seria o combustível pra bolha que duraria até agora. De novo, assista minha playlist &ldquo;Eu Avisei&rdquo; onde explico detalhes de porque.</p>
<p>Eu não sou um guru, não prevejo o futuro, nem nada disso, eu sou um animal muito simples: eu gosto de tecnologia, alguém quer me pagar pra mexer com tecnologia, eu vou, só isso. Foi só isso durante toda minha carreira. Veja: minha carreira nasceu numa época que precede o conceito de influencers, de cursos online, de redes sociais. O primeiro evento de programação que eu participei foi a RailsConf nos Estados Unidos em 2008. Eu já tinha 31 anos e fazia 13 anos que entrei na faculdade. Só aí passei a interagir mais com as comunidades de desenvolvimento de software. É o que eu conto no video da História do Ruby on Rails.</p>
<p>Eu entendo o problema de todos vocês hoje: sofrem de information overload. Tem informação demais, pior, muita informação conflitante e ruim mesmo. Um influencer diz pra seguir caminho X, outro influencer diz pra seguir caminho Y, o grupo do Discord fala que caminho X é uma bosta, pessoal do Telegram fala que caminho Y é uma bosta, na sua timeline do Twitter tem caminhos de A a Z e nenhum consenso. Eu consigo imaginar o turbilhão de incertezas infladas que tem na sua cabeça nesse momento.</p>
<p>Pare um segundo e pense: eu, Akita, estou perto de aposentar uma  carreira que começou em 1990. Informação naquela época era muito cara, de difícil acesso. Porra, se eu não tivesse me dedicado sério a aprender inglês, como conto no video sobre inglês, não teria conseguido fazer nada do que resumi nesse video. Tudo que eu aprendia só tinha disponível em inglês, não tinha a opção de português. Conseguem imaginar isso?</p>
<p>Mais do que isso: só conhecia outros programadores que trabalhei junto nessas empresas e projetos. Não conhecia outros programadores de fora, então não tinha nenhum modelo, ninguém pra me influenciar e, felizmente, ninguém que eu achava que precisava seguir. Eu simplesmente fazia as coisas por pura intuição.</p>
<p>Mais felizmente ainda: não existiam coaches falando bullshitagem sobre coisas como networking. Eu aprendi a fazer networking de verdade. Por exemplo, na época da STI e HPG tenho dois exemplos: tinha dois programadores júniors como eu na equipe. Um se chamava Fernando Nemec. Depois do HPG ele foi trabalhar como programador na recém criada parte web do jornal Folha de São Paulo. Hoje ele é o diretor de tecnologia da Folha Online.</p>
<p>O outro se chamava Adriano Caetano. Depois do HPG ele abriu seu próprio ecommerce, um dos primeiros do Brasil, chamado LinuxMall. Eu comprei muitos CDs de Linux com ele. Hoje ele é Sócio Diretor da VTEX, uma das primeiras plataformas de ecommerce e uma das maiores do Brasil. Coincidentemente saiu um video dele contando essa história no YouTube, vou deixar o link na descrição.</p>
<p>Vocês ficam olhando pra caras como eu e esquecem que o júnior da sua própria equipe, colega da sua faculdade, vai ser o próximo founder, CTO, CEO da startup inovadora de amanhã. Ele confia no resultado do seu trabalho hoje o suficiente pra te chamar pra trabalhar com ele? Se você não consegue impressionar nem o júnior que trabalha do seu lado, porque você acha que eu me interessaria? Só porque você fez mandou um email engraçadinho no LinkedIn? Ou porque ficam só no blá-blá falando que é esforçado? Sério?</p>
<p>É difícil resumir mais de 5 anos em um video curto como esse, mas meu ponto era mostrar o seguinte: principalmente no começo de carreira, eu nunca me defini como &ldquo;programador ASP&rdquo; ou &ldquo;programador Java&rdquo; ou &ldquo;administrador de SQL Server&rdquo;. Minha especialidade não era nenhuma dessas ferramentas. Sem planejar muito, eu só me especializei em resolver problemas de tecnologia. Minha arma secreta foi Aprender a Aprender. Eu simplesmente gosto de tecnologia e de resolver problemas com tecnologia.</p>
<p>Nunca parei pra pensar: &ldquo;será que esse tal de ASP vai ter carreira pros próximos 10 anos?&rdquo; ou pior &ldquo;será que esse tal de Director e CD-ROM é uma boa carreira pros próximos 10 anos?&rdquo;. Eu literalmente aprendia e produzia numa plataforma nova todo ano durante esse período. Se em 1996 eu tivesse pensado &ldquo;puts, esse tal de ASP é muito novo, não dá pra ter uma carreira nisso, vou ficar no Clipper, vou ficar no Director&rdquo;, e daí se toda vez eu esperasse 2 ou 3 anos &ldquo;pra ver se ia vingar&rdquo;, teria perdido a primeira Bolha da Internet, pior, teria sido mais uma vítima do crash.</p>
<p>Eu passei totalmente ileso. Quando migrei de pontocom com ASP pra mundo corporativo com Java e SAP, na minha cabeça isso não era um passo pra trás ou um downgrade. Era só mais uma página. Porque eu não era definido pela linguagem, ou modelo de negócio. Vejam como o Java que fui aprendendo aos poucos desde 1996 viria a se tornar útil em 2002 quando entrei em consultoria. Vejam como o ASP que aprendi de sopetão em 1999, deixei de lado pra aprender PHP em 2000, voltaria em 2001 na PSN. Não existe uma receita. E não existe falta de oportunidade, existe falta de vontade de pegar pra resolver. Ah, vou fazer um curso, quando eu aprender daí vou procurar. Aí já é tarde demais, o bonde já andou e você ficou no fim da fila.</p>
<p>No episódio da Sua Linguagem Não é Especial, eu mostrei como não ficava também só fazendo o que o trabalho exigia. Em 2000 eu tava um pouco empolgado com .NET que tava pra sair, acho que tava em Beta nessa época. No trabalho ninguém ia usar .NET, mas fiz minha própria versão de um mini framework ASP.NET só que em ASP clássico, só pra ver se dava. Que não foi diferente de quando tentei aplicar orientação a objetos no Lingo de Director alguns anos antes. Eu não fazia o que o livro dizia, só queria ver o que dava pra fazer. Na minha cabeça nunca teve o conceito de &ldquo;não é assim que todo mundo faz&rdquo;. Eu sempre tô cagando e andando pro que &ldquo;todo mundo&rdquo; faz.</p>
<p>Notem outra coisa: em nenhum momento eu cito cursos. Porque eu nunca fiz nenhum. Primeiro que não existia Udemy nos anos 90. Segundo porque intuitivamente entendia: porra, Java saiu ano passado, obviamente não tem curso pra isso. Flash acabou de sair enquanto eu tô aqui fazendo Director, óbvio que não tem curso pra isso. Eu nunca esperava que fosse ter um curso. Eu via que tinha um livro, em inglês, ia na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Avenida Paulista, a única que eu sabia que dava pra encomendar livro importado, esperava um mês pra chegar e era isso. Amazon foi só a partir do ano 2000.</p>
<p>Outra coisa: quando falei que tava aprendendo sobre orientação a objetos. O livro de Design Patterns do Gang of Four tinha acabado de ser lançado em 1994. UML também tinha acabado de ser inventado. Essas coisas ainda não eram consenso. Existiam várias metodologias antes da Rational. Eu, por exemplo, tinha um livro de uma metodologia chamada Fusion. Mas pelo jeito não fez sucesso porque como isso precede o Google, nem tem registro se pesquisar a respeito.</p>
<p>O Manifesto Ágil seria assinado em 2001 que é quando eu termino minha história nesse video. Tudo sobre o assunto só seria publicado depois. O ponto é: eu, aluno de faculdade em 1995, não tinha como saber que essas coisas se tornariam relevantes anos depois. O você de hoje tentando escolher a ferramenta &ldquo;ideal&rdquo; não tem idéia do que realmente vai ser importante daqui 5 anos. Não tente adivinhar agora, é perda de tempo. E não, nenhum guru, influencer, coach, nem mesmo eu, tenho como dizer o que vai ser relevante daqui 5 anos especificamente pra sua carreira, porque a carreira de cada um vai ser diferente.</p>
<p>E antes que alguém vá encher o saco na bolhadev, quando eu falo que varava noite na época, não foi pra vangloriar que trabalhar a noite é admirável. Pelo contrário, eu varava noite porque eu não era bom e prometia mais do que conseguia entregar. Eu só era sem noção mesmo. Isso é pessoal, não recomendo ninguém copiar. Vai de cada pessoa. Com cabeça de hoje, talvez tivesse dito mais &ldquo;não&rdquo;. Mas por outro lado talvez não tivesse aprendido tanta coisa tão rápido.</p>
<p>Com 20 anos, meu objetivo não era ter qualidade de vida, era aprender tudo que pudesse aprender porque minha única motivação era resolver problemas novos. Cada pessoa tem motivações diferentes, nunca use minha história como parâmetro pra sua. As épocas são completamente diferentes. Vocês tem mais opções hoje do que eu tinha nos anos 90.</p>
<p>Falando do povo comentar, não sei se notaram, mas nenhuma das empresas que eu trabalhei nesse período existem mais. Eu literalmente saía pra outro trabalho porque onde eu tava ia fechar. Uma vez só eu saí por conta própria, mas de 1996 até 2002 esse foi o padrão. Foi bizarro, já tava achando que eu tinha pé frio. Magina, mandar meu currículo e o recrutador ver que nenhum lugar existe mais. Mas não foram só as empresas que eu passei, no Crash, várias outras foram fechando ao longo do tempo. Muitas das empresas que a gente conhecia naquela época não existem mais. É a vida.</p>
<p>De qualquer forma, se pudesse mudar alguma coisa que fiz desde os anos 90, não mudaria nada. São as experiências que passei, boas ou ruins, que formam o que sou hoje. Foi fazendo merda, aprendendo a consertar e persistindo, que me definiu. Agora cada um de vocês tem que achar o que define vocês, e não vai ser me copiando. Os anos 90, infelizmente, acabaram. Os anos 2000 acabaram. Os anos 2010 acabaram. Os anos 2020 acabaram de começar, é nesse contexto que você existe.</p>
<p>Finalmente, alguns poderiam ficar impressionados. Pode parecer que fiz muita coisa nesse meu começo de carreira. Mas nem tanto, num outro extremo, lembram que falei que 1997 foi quando Steve Jobs retornou pra Apple? Pois bem, nesse meio tempo, ele limpou a casa, tirou a Apple da beira da falência, modernizou a linha de hardware lançando os famosos iMacs coloridos, finalmente conseguiu matar o antigo MacOS 9 e lançar o MacOS X que é a base dos Macs até hoje, e no ano que a bolha estourou, lançou o iPod, que mudaria a indústria de música pra sempre. Tem um documentário chamado The iPod Revolution que conta exatamente esse trecho da história, depois assistam, é fascinante.</p>
<p>Muito ou pouco é relativo. Parem de ficar se comparando, que coisa chata. Façam sua própria carreira, do seu jeito, e evoluam cada dia pra não se arrepender do dia anterior, só isso. Eu não virei o Steve Jobs, e tá ótimo, o que eu consegui fazer por mim durante minha carreira me deixa satisfeito. Poderia ter feito muito mais. Sempre dá pra fazer mais. Mas Akita, o que você recomenda pra mim? É a pergunta que eu mais recebo, e repetindo pela enésima vez, veja meu video de Não Terceirize suas Decisões e a playlist de carreira.</p>
<p>Eu sei que mesmo dizendo isso vocês ainda vão continuar me perguntando o que devem fazer, ou falar que vão tentar me copiar, mesmo eu falando não. Mas vamos aos fatos: eu disse pra vocês fazerem imersão de inglês em casa, substituir tudo por inglês. Acabei de mostrar a diferença que fez no meu começo de carreira. Como anda o inglês de vocês?</p>
<p>Agora o mais óbvio, em vez de perguntar o que eu fazia, que tal perguntar o que eu não faria? Uma coisa que me lembrei escrevendo esse episódio é que a primeira balada que eu fui foi só por volta de 2002 ou 2003. Foi quando comecei a beber socialmente também. Lembrem, entrei na faculdade em 1995. Fui em uma festa na faculdade, uma única cervejada. Não participei de nenhum evento, festa ou balada de 1996 até 2002, que é o período que cubro neste video.</p>
<p>Por que? Primeiro porque não tinha dinheiro. Eu começar a sair coincide com minha transição de júnior pra pleno e ganhar salário de consultor corporativo. Faz muita diferença. Além disso tinha tanta coisa tão interessante acontecendo no trabalho toda hora, cada hora um bug mais cabeludo pra resolver, eu passava minhas noites dormindo no escritório. E não porque me mandavam, mas porque eu não queria ter que perder tempo indo pra casa e tendo que voltar depois. Meu PC do escritório na época era sempre melhor que meu PC de casa. E não tinha laptop acessível, então tinha que usar lá mesmo. Eu preferia ficar lá.</p>
<p>E mais, que séries eu maratonava na TV nos anos 90? Literalmente não consigo me lembrar de nenhuma. Depois que entrei na faculdade, quase não assistia TV. Recomecei a ver séries só lá por 2004 ou 2005 com Os Sopranos e 24. Lembram que falei que não tinha nenhum influencer que seguia? Vocês perdem horas e horas diariamente acompanhando gente desinteressante e irrelevante que não contribui em absolutamente nada na sua carreira. Eu não tive isso, portanto tive a vantagem de não perder meu tempo com gente inútil. Eu só gastava tempo comigo mesmo.</p>
<p>Teria sido melhor se essas coisas existissem naquela época? Google sim, sem sombra de dúvida, pra pesquisar as coisas mais rápido. Stackoveflow também. Todo o resto, principalmente a bolhadev? Absolutamente inútil. A opinião aleatória dos outros é inútil. Ninguém sou eu. Eu teria conquistado menos da metade do que fiz nesse período.</p>
<p>Podcasts de 3 horas, vai se fuder. Em 3 horas eu li a documentação inteira de uma nova linguagem. 3 horas todo dia? Porra. Quando você vai no banheiro? Ah, mas é quando eu tô no metrô voltando pra casa ou no trânsito. Ouça audiobooks de livros clássicos, de mais de 10 anos que ainda são relevantes hoje, não ebookzinho de influencer bosta que nem tem 10 anos de carreira direito. Já leu algum livro do Stroustrup, criador do C++? Ou do Dennis Ritchie, criador do C? Por que ainda não leu os originais em vez de ler as cópias baratas? Fica só falando de IA, IA, já leu alguma coisa do Marvin Minsky? Não né.</p>
<p>E esse foi o episódio do meu começo de carreira, que coincidiu com a ascenção e queda da primeira Bolha da Internet. E como podem ver, eu continuei crescendo sem parar. A próxima fase, pra quem quiser ver como foi, é o video de SAP, depois o video de Ruby on Rails. E por hoje é isso aí, se ficaram com dúvidas mandem nos comentários abaixo, quem quiser relembrar mais coisas dos anos 90 não deixem de mandar também, se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de compartilhar o video com seus amigos. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>pessoal</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #132 - Rant: A Bolha de Startups Estourou?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2022/11/22/akitando-132-rant-a-bolha-de-startups-estourou/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2022/11/22/akitando-132-rant-a-bolha-de-startups-estourou/</guid><pubDate>Tue, 22 Nov 2022 10:15:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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<p>2o Semestre de 2022: todo mundo está vendo toda grande tech startup e emrpesa de tecnologia fazendo demissões em massa depois de apresentar resultados ruins. Isso ainda pode continuar? Por que isso está acontecendo agora? O fim dos lockdowns não deveria ter melhorado tudo?</p>
<p>Hoje vamos entender o que eu tentei avisar em Junho de 2019, sem saber que uma pandemia iria acontecer. E o que você, se preparando pra entrar no mercado, precisa entender sobre sua carreira.</p>
<p>== Capítulos</p>
<ul>
<li>00:00 - Intro - Demissões em Massa em Tech</li>
<li>02:21 - Cap 1 - De Onde Vinha o Dinheiro? Venture Capital</li>
<li>06:15 - Cap 2 - Os Efeitos da Pandemia - Casa de Cartas</li>
<li>16:51 - Cap 3 - Pós-Pandemia e a Falta de Programadores - Excessos</li>
<li>21:14 - Ferramentas de Avaliação Financeira</li>
<li>27:15 - Cap 4 - O Escândalo da FTX - Criptomoedas</li>
<li>35:22 - Cap 5 - NÃO ACREDITEM EM INFLUENCERS - Cancelem Cursos</li>
<li>40:12 - Cap 6 - Estamos no Fim ou só no Começo? Crash de 2001?</li>
<li>43:48 - Bloopers</li>
</ul>
<p>== Links</p>
<ul>
<li>Tech Layoff Tracker (<a href="https://www.trueup.io/layoffs"target="_blank" rel="noopener">https://www.trueup.io/layoffs</a>)</li>
<li>TradingView (<a href="https://www.tradingview.com/"target="_blank" rel="noopener">https://www.tradingview.com/</a>)</li>
<li>Qualtrim Insights (<a href="https://qualtrim.com/insight"target="_blank" rel="noopener">https://qualtrim.com/insight</a>)</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Estamos no fim de 2022 e todo mundo deve ter visto o tanto de demissões em massa em empresas de tecnologia. No fim de novembro a Amazon anunciou a demissão de 10 mil funcionários, boa parte  engenheiros. Pouco antes, tio Zuckerberg anunciou o resultado horrível da Meta e seguiu cortando 11 mil pessoas, boa parte engenheiros. Na mesma época tio Elon Musk comprou o Twitter e na sequência já cortou metade dos funcionários da empresa, mais de 3 mil pessoas. A Salesforce cortou 2 mil pessoas, a Netflix até que cortou pouco, só umas 450. A corretora Robinhood cortou 20% dos funcionários, a Snap cortou 20%, até a Intel que costuma ser mais estável cortou 20%. Só nas Big Tech dos Estados Unidos, foram pra lá de 120 mil demissões.</p>
<p>Vocês se lembram deste meu video de Junho de 2019 onde eu dizia que a bolha ia estourar? E depois este outro de Junho de 2021 onde  explico o que a pandemia causou na economia e o que ia acontecer em breve? Alguns aqui assistindo devem ter ouvido influencers, coaches, vendedores de curso uniesquina, todos falando que o Akita é negativo, que tá só espalhando medo, que é teoria da conspiração, terra planista. Pois bem, senhoras e senhores, não vou dizer que eu estava certo, mas pelo menos até agora tá próximo disso. E agora vou explicar como te enganaram até hoje.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Que o mercado de big tech estava inchado não era novidade pra ninguém que é sério. Vamos ver um exemplo que ilustra bem isso. Esta é a evolução do preço das ações do Facebook, agora Meta. De 2013 até meados de 2018, meros 5 anos, essa empresa valorizou mais de 500%. O preço da ação foi de 34 dólares pra mais de 200 dólares. Se fosse só ela poderíamos achar que foi uma exceção. Mas não, todo mundo tava assim. Vamos ver mais uma.</p>
<p>Se pegarmos o mesmo período, 2013 até 2018, as ações da Amazon subiram mais de 600%, pulando de 14 pra mais de 100 dólares. Imagina que sensacional, você investe 1400 dólares em 2013 e sai com 10 mil em 2018 sem fazer nada. E tava todo mundo assim, Microsoft, Apple, Google, Salesforce, Uber, Lyft, Netflix. Não é à toa que de repente o mundo de tecnologia se tornou as meninas dos olhos de Wall Street. O crescimento foi absurdo.</p>
<p>O que acontece é que todo mundo ao redor quer ver esse crescimento aumentando ainda mais, a qualquer custo. Então os fundos de investimento, os venture capitalists ou VCs, entraram no jogo pra alavancar todo mundo. É onde se vê nomes como Sequoia, Redpoint, Tiger, Softbank e outros. Toda hora a gente vê nas notícias, SoftBank colocou X milhões em startup fulano. SoftBank colocou Y milhões em em startup ciclano. Mas a gente olha pra essas startups e pensa &ldquo;cara, não é possível, esse business não vale tudo isso nem aqui, nem na China&rdquo;.</p>
<p>Ironia já que o dono da SoftBank, o Masayoshi Son se tornou famoso por ter apostado em Jack Ma do Alibaba antes dele ter virado gigante. Assim como o fundo de investimento Sequoia ficou famoso por ter acreditado no Mark Zuckerberg no começo do Facebook. É sempre assim que funciona: eles conseguem tirar a sorte grande, saem discursando como são mais inteligentes que todo mundo por terem sido visionários, e o resto do mundo, idiotas, acreditam que eles tem o toque de Midas e tudo que tocam vira ouro, sendo que a explicação mais simples e mais racional é sempre a mesma: só tiveram um tiro de sorte. Que inteligência você acredita que um ganhador da Loteria tem? Nenhuma. É a mesma coisa.</p>
<p>Só que nesse discurso eles atraem outros investidores pra junto deles. Assim como o Masa Son resolveu criar um segundo grande fundo, o Vision Fund, com objetivo de levantar nada menos que 100 bilhões de dólares pra investir em startups inovadoras. Onde ele conseguiu esse dinheiro? Com milionários do petróleo e sheiks do Oriente Médio. Todo mundo tava acreditando nesse papo de guru financeiro.</p>
<p>Os últimos 12 anos foram anormais. Tudo começou na última crise financeira de 2008, quando estourou a bolha imobiliária e muitos anunciavam que poderíamos estar pra reviver os anos negros da Grande Depressão de 1929. Justamente daquela época o que muito se critica o governo americano de Herbert Hoover foi ter demorado muito pra intervir e não ter intervido o suficiente. E em 2008 o presidente do Federal Reserve, o FED, Ben Bernanke, estava determinado a não cometer o mesmo erro e copiou a mesma estratégia do Banco do Japão de 2001, o que ficou conhecido como Quantitative Easing, ou QE.</p>
<p>QE é a compra e remoção dos ativos podres do mercado, pra agilizar a recuperação. Foi a compra massiva dos Mortage Backed Securities ou MBS que tinham contaminado todo o sistema financeiro em 2008. Na prática é imprimir muito, mas muito dinheiro, bilhões e bilhões, brrrrrrr. Não só isso mas também baixar as taxas de juro. Taxa de juros é o que você vê na TV quando falam em taxa Selic no Brasil. É o que se usa pra calcular, por exemplo, os juros que você paga quando financia uma casa ou pede empréstimo no banco. Quanto maior essa taxa, mais caro se paga em cada parcela que deve ao banco.</p>
<p>A queda na taxa de juros estimula a economia porque torna o crédito barato. Ao mesmo tempo diminui a rentabilidade de investimentos considerados seguros como papéis do Tesouro, CDB, Renda Fixa no caso de Brasil. Some essas duas coisas e acontece o seguinte: você é um fundo de investimento, se deixar a grana parado em papéis do tesouro, não vai render nada. As taxas de juro em determinado momento, chegaram muito perto de zero e todo mundo tava até cogitando o que ia acontecer se chegasse no elusivo caso de juros negativos. Literalmente o governo ia te pagar pra pegar dinheiro com eles, que é o que acontece no Japão.</p>
<p>Se não rende nada deixar em renda fixa, sua única alternativa é o mercado de risco, de ações, startups e coisas assim. É por isso que nos últimos 12 a 10 anos o mercado de tech explodiu: tinha muito, mas muito dinheiro sobrando. Todo fundo de investimento, hedge fund, family office saiu caçando todo mundo com montanhas de dinheiro parado, prometendo valuations absurdas no nível de Facebook ou Amazon pra todo mundo. E todo mundo acreditou.</p>
<p>Por 10 anos ficaram jogando dinheiro em tech startups esperando o momento de terem retorno desse investimento, quando abrissem IPO, que é quando a empresa se torna pública e seus papéis são negociados na bolsa de valores, atraindo ainda mais investidores. Mas chegou 2019 e veja o caso da Lyft por exemplo, concorrente do Uber e bem usado nos Estados Unidos. Todo mundo tinha expectativas que valorizaria muito. A ação abriu custando uns 88 dólares no dia 25 de março de 2019 e 1 ano depois, em março de 2020 tinha caído pra 20 dólares. O que aconteceu?</p>
<p>Na época que postei o video se a Bolha das Startups ia estourar, que foi Junho de 2019, eu tinha na cabeça que se fosse vir uma correção, era provável que seria por volta de 2020 ou 2021. Por isso postei o video achando que estava avisando com 6 meses a 1 ano de antecedência. Mas o que nem eu e nem ninguém fora da China podia imaginar é que em Março de 2020 estaríamos fazendo um lockdown mundial por causa de uma pandemia global, coisa que não se via faz mais de um século.</p>
<p>A pandemia veio nos 45 do segundo tempo, na prorrogação, e salvou o mundo da tecnologia do crash iminente. Foi um efeito colateral inesperado. E os sinais ficavam mais claros no fim de dezembro de 2019, quando a NASDAQ teve sua primeira grande queda em 10 anos. Mas a pandemia chegou bem a tempo de impedir essa correção. O que aconteceu foi simples: tranca todo mundo em casa. Esse movimento teve como efeito aumentar exponencialmente a demanda por todo tipo de serviço online possível.</p>
<p>Todo mundo que vendia infraestrutura, como VPNs, software de cooperação e comunicação como Zoom, Slack, com trabalho tendo que virar remoto, a demanda por soluções pra isso explodiu. Todo mundo precisa comer, serviços como iFood aumentaram absurdamente. Ninguém mais podia sair pra se entreter em cinema, bar ou balada, então serviços de streaming como Netflix, Disney+ e outros aumentaram absurdamente. Não dá pra ir nas lojas, mas continuamos precisando comprar coisas, então lojas online como Mercado Livre, Amazon e outros aumentaram absurdamente. E pra conseguir atender toda essa nova demanda massiva, precisava de mais infraestrutura, mais engenheiros, e a demanda por programadores, devops, infosec, data scientists e tudo mais ao redor, também aumentou absurdamente.</p>
<p>Tudo na economia caiu, comerciantes de rua, restaurantes, hotéis, viagens, menos tecnologia, que cresceu a níveis extraordinários. Se a casa de cartas já tava alta e prestes a colapsar no fim de 2019, a gente aumentou mais andares ainda em cima dessa casa. O caso clássico foi a Netflix, que atingiu seu All Time High, ou seja o preço mais alto já negociado nas suas ações em Junho de 2018,  negociado na faixa de 420 dólares. Desde então caiu um pouco, tentou subir, caiu de novo e em setembro de 2019 tava baixo na faixa de 240 dólares. Uma queda de quase 40% em 1 ano. Mas aí chegou a pandemia.</p>
<p>Em novembro de 2021, mais de 1 ano depois do começo oficial dos lockdowns, as ações dela foram pra quase 700 dólares, um aumento de mais de 160%. Mas ela foi conservadora. Veja o Zoom, que todo mundo passou a usar pra trabalhar remoto. Saiu da faixa de 80 dólares no começo de 2020 pra quase 600 dólares no fim de 2020, um aumento absurdo de quase 800%.  Amazon subiu 120%, Google subiu quase 200%, a Meta foi uns 180%, Apple foi uns 200%. Todo mundo tava subindo 200% ou mais nesse período.</p>
<p>Por causa da pandemia todos os governos do mundo literalmente seguiram a cartilha do &ldquo;A Economia a gente vê depois&rdquo;. Os níveis de Quantitative Easing que foram feitos pra salvar o mercado financeiro em 2008, na crise que muitos consideravam que poderia ser o fim do capitalismo, foi fichinha comparado com a quantidade de dinheiro impresso entre 2020 e 2021, foram trilhões e trilhões, o equivalente ao PIB desses países. É como se você se endividasse num valor muito superior ao que ganha de salário durante o ano todo, de uma só vez, só que no nível de países. Se alguém era fã de Universal Basic Income, essa foi a maior distribuição de renda diretamente pra pessoas que já se viu na história. Máquina de imprimir dinheiro nunca fez tanto brrrrrrrrrrr</p>
<p>Isso deveria ter feito a inflação explodir, mas como tava todo mundo preso em casa, boa parte dessa inflação ficou contida. Mas não no mercado financeiro. Esses aumentos de preço de ações que eu falei, 200% ou mais, foi justamente isso: inflação. Mas o que todo mundo viu nas notícias foi que era possível imprimir dinheiro e não ter inflação, parecia um milagre, no meio de uma pandemia. 2020 foi um ano bizarro. Só porque você não vê não significa que não existe, só que você não sabe onde olhar. Alguns de nós sabíamos.</p>
<p>Aí chegamos no fim de 2021, começo de 2022. A pandemia chegou ao fim, a maior parte dos lockdows impostos pelo mundo foram derrubados. Todo mundo voltou à vida normal. E os efeitos da gastança desenfreada começaram a aparecer. É impossível imprimir dinheiro e não ter inflação e foi o que aconteceu nos Estados Unidos. Pra quem não acompanha, pela primeira vez em não sei quantas décadas a inflação lá está maior do que aqui no Brasil. Já pararam pra imaginar isso? 7% lá contra 4% aqui. Americano não sabe lidar com isso não. Eles chegaram perigosamente próximos de ter inflação de 2 dígitos, uma catástrofe.</p>
<p>E só pra piorar o tio Putin resolveu lidar o foda-se e começar uma Guerra. Bora lá invadir a Ucrânia, por que não? Todos os líderes mundiais do Ocidente são os maiores bundões que já se viu na história tudo de uma só vez. Trudeau, Macron, o senil do Biden. De imediato isso causou sérios problemas no preço da energia, petróleo e principalmente gás natural. A Europa, em particular a Alemanha, que tomou a decisão estúpida de fechar usinas nucleares, ficou na mão da Rússia. Tivemos todo o imbróglio do Nordstream. Com tudo isso, o FED foi obrigado a subir as taxas de juros. Lembram? As taxas que tava perigando ficar negativo, começou a subir, 25 pontos, 50 pontos, em toda reunião do FOMC e agora já está em na faixa de 3% e pode subir mais.</p>
<p>Some a isso que todas as apresentações de resultados de empresas de tecnologia em 2022 foram ruins. Lockdown acabou, demanda diminuiu. E lógico, resultados ruins se comparados ao pico da pandemia um ano antes. A demanda por serviços caiu à medida que as pessoas puderam parar de ficar presas em casa. Serviços de delivery, vendas online, streaming, tudo caiu. Quanto eu falei que o Netflix subiu no pico da pandemia? 160%? Até agora, em novembro de 2022, ela perdeu 55% do seu valor.</p>
<p>Alguém pode pensar, &ldquo;ah, se cresceu 160% e perdeu só 55%, não é tão ruim assim&rdquo;. Isso porque você não sabe pensar em percentual. Quando seu preço é faixa de 280 dólares e crescer 160%, vai pra quase 700 dólares, é crescimento de quase 2.5x. Cada 100% a mais é dobrar. Mas quando cai, cair 50% significa perder metade do valor. Então essa queda de 55% devolveu o Netflix pra níveis semelhantes de antes da pandemia, pra faixa de 300 dólares. Pra recuperar não é subir os mesmos 55% mas sim 100%. Se você perdeu metade do valor, pra recuperar agora precisa dobrar. Todo a valorização que ela ganhou durante a pandemia, se perdeu em 2022. Só tem um problema: eles contratarm bastante gente e investiram mais. Então você tá valendo a mesma coisa de antes só que gastando muito mais.</p>
<p>E isso aconteceu com todo mundo. Veja a Amazon, cresceu 120% mas em 2022 caiu quase 50% e mesma coisa, voltou pro mesmo patamar de antes da pandemia. Veja o Zoom, que cresceu quase 800%, em 2022 perdeu 85% do valor, novamente, voltando pros patamares de antes da pandemia. Literalmente todo mundo de tech teve comportamento semelhante, salvo alguns poucos que tem excelência em gestão como a Apple, que ainda retém boa parte do crescimento que teve.</p>
<p>Portanto temos a tempestade perfeita pra retomar o crash que deveria ter acontecido no começo de 2020, a que eu estava avisando em 2019: uma alta drástica na demanda que fez todo mundo investir mais e contratar mais durante 2020 e 2021, seguida de uma baixa na demanda, que derrubou a receita de todo mundo, seguida de taxas de juros elevadas, o que faz muitos dos investidores que antes eram obrigados a investir em mercado de risco a voltar pra investimentos mais seguros como papéis do tesouro. Seguido dos resultados ruins de todo mundo durante o ano e o que temos é o que vocês estão vendo agora: demissões em massa.</p>
<p>Como listei no começo do video, Amazon teve que demitir 11 mil funcionários. Meta com seu fracassado plano de Metaverso, que já consumiu 8 bilhões de investimento sem ter nenhum resultado, teve que demitir outros 11 mil funcionários. E assim segue todas as Big Tech, deixando na rua mais de centenas de milhares de pessoas, que já é mais demissões do que tivemos no pico do Crash da Bolha da Internet de 2001. E essa ainda parece ser só a primeira perna desse crash. Muitos acreditam que ainda vamos ter um segundo crash nessa faixa de 50% antes de podermos declarar que atingimos o fundo.</p>
<p>A tal SoftBank, que era a menina dos olhos do mundo de startups, que teve sorte uma vez com o Alibaba, fez investimento ruim atrás de investimento ruim. O mais notável foi a queda da WeWork, nas mãos do hipster louco do Adam Newmann. Da abertura do IPO até agora ela perdeu 70% do valor. Nunca gerou nenhum valor pros investidores e manchou pra sempre a reputação da SoftBank. E o antes guru genial Masayoshi Son agora deve 4 bilhões de dólares pro Vision Fund que ele ajudou a criar e deixa o cargo de CEO depois tanta aposta ruim.</p>
<p>Caso semelhante foi o fundo de investimento Arkk Innovation que só investia em startups de risco que eles categorizam como altamente inovadores. A guru do investimento Cathie Wood atraiu muito investidor e durante a pandemia também teve um crescimento meteórico de quase 400%. Só que como todo mundo, em 2022, perdeu 75% desse valor. Todos os grandes gurus foram massacrados este ano. Todos foram expostos como tendo tido sorte durante um período econômico favorável e não porque eram gênios. Um verdadero gênio estaria ganhando dinheiro em 2022 onde todo mundo perdeu. E nenhum deles conseguiu isso.</p>
<p>Durante os últimos 10 anos, em particular nos 2 anos de pandemia, a demanda por programadores atingiu All Time High, a maior demanda da história ever. Toda tech startup minimamente competente conseguia atrair investidores a rodo. Tinha dinheiro sobrando, alta liquidez. E todo mundo tinha ânsia de crescer rápido, conseguir chegar no tão sonhado IPO e virar bilionário. Então estavam contratando como se não houvesse amanhã. Logo começou a faltar programadores no mercado.</p>
<p>Eu senti isso na pele. Entre 2020 e 2021, a demanda pelos programadores da minha empresa aumentou de forma absurda. Sério, tinha fila de gente querendo contratar. Todos os dias alguém queria mais programadores. Mesmo eu aumentando preços, nem assim eles desistiam. Se eu tivesse sido ganancioso e aproveitado a ocasião pra, por exemplo, consolidar e comprar concorrentes menores, dobrar o número de colabores, eu teria alocado todos com facilidade pelo dobro do preço. Ainda bem que não fiz isso, porque senão agora eu estaria na mesma lista de todo mundo que tá precisando fazer demissão em massa.</p>
<p>Por isso cursos foram um excelente negócio durante esse período, porque realmente estava razoavelmente fácil qualquer empresa contratar qualquer programador, independente do nível técnico dele, pela simples escassez do mercado. Bootcamps, cursos com marketing de &ldquo;estude 6 meses e tenha emprego garantido&rdquo; estava muito fácil. Se soubesse inglês então, todo mundo conseguia ir pro Canadá, pra Alemanha, pra todo lugar. Só que num mercado em crise como agora, quem você acha que vai ser cortado primeiro? Pois é.</p>
<p>Muita gente pensa, &ldquo;porra, olha os números da Meta. Os caras faturaram quase 30 bilhões de dólares&rdquo;. E é assim todo trimestre. Olha só como eles ganham bem pra caramba. Pra que precisava demitir 11 mil funcionários? Opa, calma lá, eles investiram muito e tiveram muitas despesas nesse período. O que realmente sobra de dinheiro, é o que chamamos de Free Cash Flow, fluxo de caixa livre. É o dinheiro que realmente se tem em caixa. E como investidor é o que você precisa prestar atenção. Deixa eu explicar como esses números realmente funcionam.</p>
<p>No caso da Meta, olha que ridículo. Até o fim de 2021 só crescia, chegou a sobrar 12 bilhões de dólares em caixa. Mas olha 2022. Caiu pra 8 bilhões, depois 4 bilhões e o último relatório diz que agora sobrou só 320 milhões. Pra dar dimensão pra vocês, pensa em dezembro de 2021 sobrando 12 mil reais de grana no saldo da sua conta. Agora você olha em setembro de 2022 e sobrou só 320 reais. Sim, não 3 mil e 200, 320 reais. Você ficaria preocupado?</p>
<p>Mas isso não é tudo. Principalmente nos Estados Unidos, engenheiros de software não costumam ser pagos só em dinheiro. Boa parte do que atraía eles pra trabalhar numa tech startup era ganhar as tais stock options, que quando era liberado, dava a oportunidade deles poderem comprar ações da empresa a preço mais baixo do que o mercado. É a estratégia pra manter você motivado já que faz você sentir que sua performance vai te dar mais lucro no futuro e também pra te reter já que options tem período de vesting, onde só se recebe essa opções de compra depois de alguns meses ou anos.</p>
<p>Só que ela tem outra vantagem: compensação com stock options é considerado non-cash expenditure ou gastos não em dinheiro, portanto não subtrai da conta de fluxo de caixa livre. Vamos voltar pro gráfico de cash flow da Meta. Como disse antes, vem caindo, mas pelo menos tá sobrando dinheiro, certo? 320 milhões dá pra pagar bastante gente. Nope, nessa ferramenta que estou usando posso mostrar o que foi gasto com stock options e olha só, na realidade eles tão no negativo! 320 milhões de fluxo de caixa nesse trimestre contra nada menos que mais de 3 bilhões em compensação de stock options!</p>
<p>A Meta tá efetivamente no negativo. Eles dobraram a quantidade de funcionários, boa parte sendo engenheiros, e pra atrair tanto engenheiro numa época onde programador tava em falta e super valorizado, ofereceram muita stock option como compensação. Isso significa que os investidores estavam sendo diluídos, o que diminui o valor de cada ação. Eles precisam rebalancear isso logo. E justamente por isso se justifica a demissão em massa que tiveram que fazer e os novos planos de tirar o foco do metaverso e tentar monetizar outros produtos como o Whatsapp. É assim que se lê os números de uma empresa.</p>
<p>Falando em ferramenta, antes que me perguntem, estou usando duas neste video, a primeira é a famosa TradingView que todo mundo que acompanha bolsa de valores usa todo dia. A versão gratuita é suficiente e ela facilita acompanhar e visualizar a evolução de preços de ações do mundo todo, fazer price discovery e análise técnica com as ferramentas gráficas. Todo dia eu bato o olho em diversas ações que gosto de acompanhar pra saber como anda o mundo.</p>
<p>A segunda ferramenta eu descobri num canal de YouTube, do Joseph Carlton. Eu passei a acompanhar ele porque gosto das análises. É um seguidor do livro de Warren Buffett, e é o oposto dos grafistas que acompanham só gráficos. Ele prefere o estilo mais fundamentalista de investir em empresas que tem fundamentos bons, que parecem bem administrados e tem bom histórico de retorno. É um estilo bem mais conservador, que eu gosto.</p>
<p>Eu não tenho vocação pra ser super arriscado fazendo day trading. Prefiro colocar meu dinheiro em empresas confiáveis e deixar lá por anos. Enfim, ele criou essa ferramenta pra facilitar avaliar os dados publicados por essas empresas. A ferramenta se chama Qualtrim Insight e pra ter acesso precisa assinar o Patreon dele. Achei super barato e a ferramenta é eficiente, então assinei.</p>
<p>Pra análise fundamentalista, precisa saber minimamente ler os números da empresa. As empresas públicas com ações negociadas na bolsa de valores precisam publicar esses relatórios todo trimestre, como manda a regulamentação, é por isso que temos esses dados. Deixa eu mostrar como é uma empresa pública de administração exemplar. A melhor que eu conheço é a Apple. E não porque eu sou fanboy, nem uso produtos Apple mais, mas pelos números mesmo. Primeiro no Trading View. Como todo mundo, ela também caiu esse ano, mas enquanto muitas caíram 50%, 70% ou mais, a Apple desvalorizou só pouco mais de 15%, o que é excelente.</p>
<p>Vamos ver faturamento, receitas e olha só isso. Ano após ano, a receita cresce muito. Em 2022 são quase 400 bilhões de dólares. Mas só faturar muito não significa nada se a empresa tá excessivamente endividada, então vamos ver fluxo de caixa livre e olha só, sobra dinheiro. Este ano ela tem em caixa mais de 100 bilhões. Dá pra comprar 2 Twitters e ainda sobra troco. Mas e compensação com stock options? Ela não fez a mesma coisa que a Meta e contratou a rodo?</p>
<p>Não, olha isso que coisa linda, 9 bilhões de compensação em options contra 111 bilhões de free cash flow. Tem 10x mais dinheiro líquido do que diluição das ações. Ela sabe contratar muito bem. Ela gera muito dinheiro, por isso mesmo distribuindo stock options, proporcionalmente, é muito pouco. Além disso veja como ela distribui dividendos e sempre vai aumentando ao longo do tempo, que todo investidor gosta. Ao mesmo tempo a quantidade de shares outstanding está diminuindo, o que significa que ela recompra as próprias ações. A Apple faz o oposto de diluir, ela valoriza as ações.</p>
<p>Empresas que alavancam às custas de investidor aumentam shares outstanding, ou seja, vendem mais ações e diluem os investidores atuais, diminuindo o valor de cada um. Quando a empresa recompra as ações, ela tira as ações de circulação, recupera mais controle da empresa ao mesmo tempo que valoriza quem investiu nela. Como investidor eu sempre quero ver empresas que distribuem dividendos, recompram ações, mas ao mesmo tempo não deixam de investir em melhorar o negócio.</p>
<p>Que é exatamente o que a Apple faz. Veja com as despesas dela aumentaram. Isso pode ser compra de outras empresas menores, pode ser pesquisa e desenvolvimento. É desse dinheiro que ela faz fábricas e desenvolve os novos chips M1 e M2. Mas ela continua aumentando esses gastos, ou seja, continua investindo no futuro da empresa. E faz isso sem ter que diluir investidor, aumentando fluxo de caixa e veja o lucro líquido, sempre crescendo. A Apple é o modelo que toda empresa gostaria de ser. Pouquíssimas empresas no mercado tem esse perfil, em qualquer área, não só tech.</p>
<p>Agora vamos ver uma que eu não ficaria confortável em investir, o oposto de uma Apple. Vamos ver a Shopify, plataforma de e-commerce que abriu IPO não faz muito tempo, por volta de 2016. Como todas as outras, teve crescimento meteórico, o preço das ações foi de uns 3 dólares pra mais de 160, crescimento absurdo de mais de 5 mil porcento! Mas nem preciso dizer o que aconteceu em 2022 né? Caiu mais de 80%. Continua com preço acima do IPO, o que não é ruim considerando todos os fatores, mas a história não acaba aqui.</p>
<p>Ela trabalha direitinho, veja as receitas, crescendo trimestre após trimestre, o que é sempre bom de ver. Ela sempre teve um Ebitda baixo, mas pelo menos era positivo. Em 2020 e 2021 foi quando ela explodiu pelos efeitos da pandemia que expliquei antes. Ebitda excelente, mas chegou 2022 e ela despencou espetacularmente no negativo. Números horrorosos.</p>
<p>E por que? Olhe os gastos e investimentos, vieram crescendo substancialmente e constantemente. E o fluxo de caixa livre? Uma grande bosta. Negativo em 2022, mais de 200 milhões negativo no último trimestre. Essa é uma empresa que sempre se orgulhou dos engenheiros que tem, portanto eles são muito bem compensados com stock options e, de fato, nesse mesmo último trimestre pagou quase 150 milhões de dólares em stock options. É a tendência oposta que um investidor gostaria de ver: olhe a curva de stock options subindo e a de fluxo de caixa decaindo, inversamente proporcionais, horrível.</p>
<p>E não é só isso, sendo uma empresa nova, ela ainda não distribui nenhum dividendo e vem pagando todas essas despesas em boa parte com dinheiro de investidor, diluindo as ações. Veja como shares outstanding só cresce também. Em julho ela demitiu 10% dos funcionários. Essas pessoas tiveram um pouco de sorte porque isso foi antes das demissões em massa das outras big techs, então a maioria conseguiu se recolocar com menos concorrência.</p>
<p>Mas olhando esses gráficos, eles não demitiram o suficiente ainda. Pelo jeito acreditam que o mercado pode virar no curto prazo, mas eu não contaria com isso. Essas contas precisam ser desesperadamente rebalanceadas logo. Eles incharam pra uns 5 mil funcionários. É gente demais. Em setembro demitiram só um pouquinho, meros 70. Mas pra rebalancear precisam cortar muito mais.</p>
<p>Se sairmos olhando todas as tech startups do mercado, todas se parecem com a Shopify, ou muito pior, e passam longe da excelência da Apple. Por isso estão já demitindo em massa ou muito em breve vão ter que demitir. Os fundos de investimentos estão secos. Não tem mais SoftBank pra ficar salvando startup ineficiente. Com os juros altos e inflação alta, vai ser bem mais caro conseguir dinheiro no mercado. E sem fluxo de caixa livre, é questão de tempo pra não conseguirem mais pagar funcionários.</p>
<p>Pra piorar mais ainda, agora em novembro de 2022 também tivemos o crash da corretora FTX de criptomoedas, que expôs diversos defeitos e corrupção em partidos políticos e no governo americano. Em resumo, a FTX de Sam Bankman-Fried cometeu fraude no nível do lendário Bernie Madoff, desfalcou milhares de investidores em bilhões de dólares e causou um efeito dominó que deve estourar em diversas outras tech startups e fintechs, não só de criptomoedas.</p>
<p>Basicamente, quem queria comprar criptomoedas e tokens nessa corretora fazia depósito em dólares pro banco que é parceira deles, a Alameda Research, cujo dono também é o próprio Sam. Ele deixou a ex namorada retardada dele no comando, uma figura que ficava tweetando como é legal tomar anfetaminas. E esse animal era responsável por gerenciar 10 bilhões de dólares. A FTX tinha um token, a FTT, que era negociado na FTX e servia como incentivo pro pessoal continuar transacionando lá e mantendo seus ativos dentro da corretora. Provavelmente aquele esquema de quanto mais tempo você deixa seu dinheiro lá, mais tokens vai ganhando, daí os trouxas não tiram.</p>
<p>O Sam pegava 10 milhões de dólares equivalentes em tokens FTT e usava como colateral, como garantia, pra pedir empréstimo pro banco Alameda. Por exemplo, me empresta 100 milhões de dólares reais e fica com esses 10 milhões em token que eu tirei do Koo, como garantia. E com esse dinheiro ele comprava políticos e celebridades. Vejam, ele chegou a ter um estádio em Miami com seu nome, a FTX Arena. Eles patrocinavam a Mercedes na F1, todo mundo que acompanha viu nos bonés deles. O Sam era parça do Bill Clinton, Leonardo DiCaprio, os típicos manés que todo fraudador adora andar junto e foi um dos maiores patrocinadores da campanha do senil do Joe Biden. Pensem nisso por 2 segundos. E o comercial de TV da FTX tinha ninguém menos que Tom Brady e Gisele Bundchen. Um papelão.</p>
<p>Pois bem, o Sam resolveu criar esse personagem idiota de bilionário nerd do bem. Inventou esse bullshit chamado &ldquo;altruísmo efetivo&rdquo;. Eu nem tô brincando &hellip; Que todo mundo da mídia amava, porque o discurso era que ele queria maximizar quanto dinheiro ganhar pra conseguir maximizar quanto podia doar. A mídia amava ele patrocinando campanhas pró-vacinação de Covid. Era o queridinho da América, capa da Forbes, Fortune e tudo mais. E se envolveu em querer ditar pro Congresso Americano como regulamentação do mercado de criptomoedas deveria ser.</p>
<p>Isso é muito inteligente. Se não dá pra evitar ter regulamentação, a melhor coisa é pagar pra políticos pra desenhar uma que fode ele pouco mas fode bastante toda a concorrência. E nisso, a Binance, a número um desse mercado, não ficou feliz. No começo da FTX, a fundador da Binance, o lendário CZ, fez um bom investimento pra ajudar eles. Mas depois que o Sam começou a apunhalar pelas costas, falando mau deles pra comissão de regulamentação, o CZ resolveu devolver à altura: tweetou que ia liquidar todos os tokens que ganhou pelo investimento na FTX. Um dump colossal.</p>
<p>Quando uma baleia faz um dump desse tamanho, um ativo que era pra ser escasso passa ter em excesso, ou seja, o preço instantaneamente implode e cai como se não houvesse amanhã, e isso gera uma corrida aos bancos, porque ninguém quer ser o último segurando esse token depois que todo mundo vender antes. O valor da FTX, que era todo em cima desse token, despencou de uns 15 bilhões pra menos de 1 bilhão no espaço de poucas horas.</p>
<p>Daí travaram os saques da corretora, vazamentos começaram a acontecer, e descobriram que a corretora não tinha o dinheiro dos investidores na conta. Pior, eles sequem tinham os bitcoins que vendiam, nenhum. O Sam gastou o dinheiro. No desespero, o Sam descobriu que pagar celebridade não serve pra nada, porque na hora do aperto todo mundo some. E foi obrigado a ligar pra ninguém menos que o próprio CZ pedindo pra comprar ele. O CZ tweetou que estava considerando mas no dia seguinte tweetou de novo dizendo que não tinha mais interesse depois de avaliar os números que teve acesso. Foi o prego no caixão.</p>
<p>No mesmo dia a FTX abriu falência. E não eram só duas empresas, a FTX e a Alameda, mas um conglomerado de umas 100 entidades jurídicas que ele criou em torno dessa fraude, um monte de empresas fantasmas pra lavar dinheiro. Uma fraude em proporções bíblicas. E essa novela ainda tá em andamento, o Sam continua foragido, todo mundo tá coçando a cabeça se questionando como confiaram num banco de moleques drogados de 25 anos que praticavam orgias no Bahamas com dinheiro dos outros.</p>
<p>Até o Kevin O&rsquo;Leiry, investidor do programa Shark Tank se ferrrou porque ele investiu e fazia propaganda a favor da FTX. Agora tá se lamentando no TikTok. Puta papelão. Por isso eu falo: nunca acreditem nessa história do fundador shark tank gênio guru abraçador de árvores que quer salvar o planeta, esse é o discurso padrão de todo charlatão ladrão vendendo óleo de cobra. Foi a mesma coisa com o Adam Newmann que fundou a WeWork e fodeu com a SoftBank. Foi a mesma coisa com a Elizabeth Holmes e a Theranos anos antes.</p>
<p>Aliás, Holmes que finalmente foi sentenciada agora no fim de novembro a ter que cumprir 11 anos de prisão. Se não conhecem a história da Theranos tem vários documentários a respeito já, podem procurar. E comparado com a FTX, a Theranos foi brincadeira de criança. O Sam precisa ser condenado a no mínimo o dobro disso sem direito a condicional. Mas sabemos que ele não vai, porque se meteu demais com política. Ou ele termina foragido e some pra sempre ou aparece o corpo com nota de suicídio em breve em algum lugar no sudeste asiático.</p>
<p>Ele fez o papel dele tão direitinho que olha só como a impressa tem tratado esse ladrão. Reuters: Sam Bankman Fried fez um favor ao sistema financeiro. Brincadeira. Na Forbes: Rainha Caroline, a jovem de 29 anos amante de riscos enroscada no colapso da FTX. Forbes virou uma piada. The Washington Post: O colapso da FTX prejudica os esforços do fundador pra prevenir outra pandemia. Caraca, esse povo virou mesmo terra planista. Notem, nenhum chama eles de ladrões ou fraudadores. Estão com pena deles! Agora veja o que o próprio Sam conversou com repórter da Vox quando foi questionado sobre seu discurso sobre ética: ele disse literalmente, é assim que se constrói reputação, nesse jogo idiota ocidental de woke, nós dizemos todas as merdas que eles querem pra que eles gostem da gente.</p>
<p>Todo discurso de sinalização virtuosa é cuidadosamente produzido pra atrair os idiotas online, políticos e celebridades pra ficarem a seu favor. Até um drogado ladrão de 25 anos sabe disso. E todo mundo continua caindo nesse discursinho de salvador da pátria, abraçador de árvore. Vocês são muito burros.</p>
<p>O problema é que nos últimos 10 anos surgiram dezenas de Sams, Adams, Elizabeths e todo mundo investiu bilhões e bilhões, porque tinha dinheiro fácil. De onde vinha esse dinheiro? Nos Estados Unidos toda aposentadoria é privada, tem fundos de pensão que administram o dinheiro de trabalhadores pra eles poderem se aposentar no futuro. No caso da FTX, por exemplo, o fundo de pensão dos professores de Ontario, do Canadá, se ferraram, perderam todo o dinheiro.</p>
<p>E não foi porque eram excessivamente gananciosos. O problema como eu disse é que a taxa de juros americana tava no zero, quase negativo, ou seja, não tinha nenhum investimento seguro como papéis do tesouro pra deixar o dinheiro rendendo. Então todos se viram obrigados a colocar esse dinheiro junto com hedge funds, como uma SoftBank, como uma Sequoia, Tiger, e dezenas de outras. Era só ver os gráficos: toda tech startup só subia, independente se tinha fluxo de caixa livre ou não, era um milagre. Por isso que tinha tanto hipster idiota falando que ninguém mais precisava trabalhar e o governo só deveria imprimir e distribuir mais dinheiro de graça pra todo mundo.</p>
<p>Mas agora a conta chegou. A conta sempre chega. Não existe isso de distribuir dinheiro infinito a custo zero. Fazer discurso bonitinho lacrador não trás fluxo de caixa livre. E no fim é só isso que interessa: fluxo de caixa livre: faturar mais do que gasta. Essa é a conta mais fundamental de todas. Não precisa ser analista cocainado de Wall Street nem engenheiro da Nasa pra entender essa conta: nunca gaste mais do que ganha. Só isso. Fiquem espertos, toda empresa que precisa gastar mais do que ganha, com o discurso que agora é a hora pra conseguir crescer e atingir o bilhão, é um charlatão, e vai implodir em breve.</p>
<p>Veja alguns sinais meio óbvios. O dinheiro tá secando. Investidor tá vazando. Como conseguir mais dinheiro? Começa a vender criptomoeda. Vende bitcoin mas diz que não pode sacar, tem que manter na plataforma. Foi o que a FTX fez. Quem comprou Bitcoin lá nunca realmente teve Bitcoin, a FTX sequer tinha os bitcoins pra eles. Era tudo mentira. Depois invente um NFT, Token, stablecoin ou qualquer coisa assim, mais papel que não vale nada, e bote umas celebridades reconhecidas pra fazer propaganda pra você. Todo mundo que segue esse caminho termina na merda. Escrevam o que estou dizendo, vocês foram avisados. Not your keys, not your coins. Se  não está na carteira que você, e só você controla a chave privada, então essas moedas não existem.</p>
<p>E o que acontece agora? Pra nossa realidade, de programadores, o cenário é o pior possível. Faça as contas. Se todo mundo tá demitindo ou deixando de contratar, vai ficar muito, mas muito mais difícil e concorrido conseguir boas vagas. Quem entrou no mercado faz poucos meses precisa botar a mão na consciência. Todo influencer que vende curso veio com esse discurso idiota de &ldquo;é fácil, faça um bootcamp de 6 meses e tenha emprego garantido ganhando 10 mil reais&rdquo;. Já era balela antes, mas dava pra enganar porque todo mundo via que toda empresa contratava qualquer um sem parar. Era muito fácil cair nesse conto do vigário.</p>
<p>Mas agora não tem mais essa mamata. Eu venho dizendo isso desde que comecei o canal: não acreditem em influencers, e era especificamente influencers que vendem cursos e sonho de emprego garantido que ganha muito fazendo pouco esforço. Teve milhares de programadores que foram demitidos agora, muitos deles formados em faculdades renomadas como Stanford, MIT, Harvard. Esses vão se recolocar fácil.</p>
<p>Todo mundo que só estudou alguns cursos por aí, vai pro fim da fila. Pro fim da fila que vai ter centenas de milhares de pessoas. É óbvio. Se agora a empresa tem opção de contratar alguém que fez 4 anos de faculdade e alguém que fez 4 meses de curso, quem acha que vão escolher? Pior, lembra a idéia de mudar de país? A empresa da Europa, que agora se vê obrigado a cortar custos e demitir. Entre manter um funcionário nascido no mesmo país e um imigrante, quem você acha que eles vão cortar primeiro? Precisa desenhar?</p>
<p>Pra todo jovem que tava em dúvida, ansioso porque via todo influencer botando pressão, falando que fazer faculdade era inútil, que bastava pagar o curso dele que você tava garantido. Acabou a ansiedade. Bloqueie esse influencer, cancele todos os cursos, e vá pra uma faculdade de verdade com boa reputação. Abandone as uniesquinas. Aprenda inglês direitinho. Esqueça os atalhos e caminhos mais curtos. Vai levar uns 2 anos ou mais pro mercado começar a se recuperar, uns 5 anos ou mais pra voltar a crescer como antes. Se você achava que não tinha tempo, agora tem bastante tempo.</p>
<p>Lembra o que eu falei no video de Dimensão do Tempo? Sim, você estava mesmo atrasado pra surfar esse último ciclo. Ele já acabou, mas talvez esteja adiantado pra conseguir surfar o próximo ciclo. E pra isso precisa estar muito melhor preparado que todo mundo, porque a concorrência aumentou exponencialmente. Por um lado isso é ótimo, porque todo freeloader, aproveitador, que só dizia que sabia alguma coisa mas realmente nunca precisou trabalhar de verdade, agora vai ser massacrado pela concorrência massiva. Vai ser o maior tapa na cara da história, e vai doer. E isso vai filtrar o mercado. É uma lei da natureza: seleção natural.</p>
<p>Eu não nasci pra ser cantor, nem artista, nem médico, nem chef, nem nada disso. Eu jamais desrespeitaria essas áreas dizendo que são fáceis e qualquer um pode virar médico ou artista. Porque isso não é verdade. Poucos tem aptidão e principalmente suportam a dor do esforço pra isso. Mesma coisa pra programação, nem todo mundo nasceu pra ser programador. E isso não é um defeito, é a vida. Programação não é fácil. Eu fiz um video inteiro explicando isso. Esqueça o que um influencer vendedor de curso diz: não é fácil. Ele vai sempre te dizer que é, porque obviamente, quer enfiar um curso goela abaixo. Não engula, não consuma mais esses cursos.</p>
<p>Sabe aquela história de programador que diz que é só front-end e não quer aprender nada de back-end? Vai acabar essa mamata também. O full-stack vai voltar a ser a preferência mais valorizada. Programador é programador e não meio-programador. Sabe backend que fala que não quer saber nada de devops? Acabou. Lembra o que eu sempre falo? Numa crise, quem sabe aprender rápido, não ficar só reclamando e sabe se virar, é quem não vai ter problemas. Todo mimizento, limitado, e crocodilo, da boca grande e braço curto, se fodeu. Já não era sem tempo.</p>
<p>Na pior das hipóteses, o crash de 50% que tivemos este ano é só a primeira perna. No crash da Internet de 2001 tivemos uma primeira correção como agora, daí o mercado rapidamente voltou a crescer, o otimismo começou a voltar, e na sequência tivemos uma segunda perna de crash muito pior. Veja nesse gráfico como foi. Essa foi a primeira queda, seguida de otimismo, e uma segunda queda. As coisas só começaram a voltar de novo depois de 2004. Por isso eu falo que pode levar de 2 a 4 anos pro crescimento de verdade voltar. Ou seja, o pior ainda pode estar por vir.</p>
<p>Na melhor das hipóteses, quem sabe o FED realmente consiga controlar a inflação, consiga evitar que o mercado entre em recessão, e com isso comece a baixar as taxas de juros, o que facilitaria acesso a investimentos de novo. Mas eu não vejo isso acontecendo tão cedo. No mínimo, 2023 vai ser um ano perdido pra empresas de tecnologia. Com sorte 2024 pode ser melhor, mas eu não contaria com isso.</p>
<p>Veja o índice NASDAQ que concentra as principais empresa públicas de tecnologia. Em maio atingiu o ponto mais baixo do ano, acumulando queda de 40%. Mas durante o ano ficou subindo e descendo mas já recuperou quase 40%, totalizando queda no ano de só 20%. Se você for otimista, pode argumentar que o mercado vai se recuperar logo. Mas eu acho que estamos em tempo emprestado. O volume de consumo ainda não caiu porque muita gente tá terminando de gastar o que tinha economizado durante a pandemia, somado ao diversos planos de ajuda dos governos. Essas economias tão acabando. Lembra da 2a perda que expliquei sobre a Bolha de 2001? Isso se parece com o otimismo curto antes da 2a perna do crash. Que eu acho que é o mais provável.</p>
<p>Em todos os videos que fiz falando do crash iminente, a idéia não era tentar prever nada, muito menos com exatidão, mas sim explicar o que os dados me diziam, que dados são esses, e mais ou menos como eu estava interpretando, como eu fiz neste também. Dei só alguns poucos exemplos, mas acho que dá pra entender como extrapolar pra avaliar todas as outras empresas mais importantes do mercado e ver se as conclusões são as mesmas. Novamente, não odeiem o mensageiro, eu só entrego as mensagens. É muito possível que eu esteja completamente enganado e daqui 1 ano tudo volta ao normal. Era impossível adivinhar que teríamos uma pandemia em 2020, vai saber o que pode acontecer em 2023.</p>
<p>Eu não tenho prazer nenhum em dar más notícias. Simplesmente descrevo as evidências à medida que elas se apresentam. Eu também trabalho nesse mercado, não é interessante ver ele regredindo. Por outro lado, parte de mim gosta de ver o filtro acontecendo e quem nem é programador mas ficava se achando começar a tomar no Koo. Não sentiremos sua falta. E quem estava sério de verdade na área, vai voltar a ser valorizado como deveria, sem agendas políticas, só resultados.</p>
<p>A dica é simples: a empresa que você trabalha tem fluxo de caixa livre positivo? Então pode ficar menos preocupado. Senão, o que está esperando pra estudar mais? A fila da concorrência tá só crescendo. Se ficaram com dúvidas deixem nos comentários abaixo, se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal, compartilhem com seus amigos. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>mercado-de-tecnologia</category><category>economia</category><category>startups</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #100 - Mercado Financeiro Pós-Pandemia: A Tempestade Perfeita?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2021/06/22/akitando-100-mercado-financeiro-pos-pandemia-a-tempestade-perfeita/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2021/06/22/akitando-100-mercado-financeiro-pos-pandemia-a-tempestade-perfeita/</guid><pubDate>Tue, 22 Jun 2021 12:07:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;/div&gt;
&lt;h2&gt;DESCRIPTION&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#description" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;p&gt;Depois de mais de 1 ano de pandemia, quais foram os efeitos causados na nossa Economia? Por que parece que os mercados de Tech, principalmente, estão tão super-aquecidos? Já nos recuperamos? Tudo passou bem? Vamos entender!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este vídeo é a terceira e última parte dos dois vídeos que publiquei 1 ano atrás:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;O que vem depois da COVID-19? (&lt;a href="https://www.youtube.com/watch?v=Hrg0MnyE2jM"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.youtube.com/watch?v=Hrg0MnyE2jM&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;A COVID-19 Matou minha Startup? (&lt;a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y8SaMX30X1g"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.youtube.com/watch?v=Y8SaMX30X1g&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h3&gt;Conteúdo&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conteúdo"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#conte%c3%bado" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;00:00 - Intro&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;01:17 - Disclaimer 1&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;01:35 - Março de 2020 - Como eu vi a pandemia chegando&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;03:17 - Meu Primeiro Video&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;03:59 - Primeiros efeitos no mercado&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;06:15 - Wallstreetbets vs Wall Street: Gamestop&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;09:59 - A Baleia de Nasdaq: Softbank&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;12:40 - A pergunta que ninguém fez: Por que agora?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;15:08 - O Efeito Colateral de Distribuir Dinheiro&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;17:01 - Hiperinflação no Mercado Financeiro&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;18:29 - Estímulos: O Novo Zero&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;19:43 - Inflação no Mundo Real Começou&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;22:27 - O Brasileiro era mais Rico alguns anos atrás??&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;24:06 - Bolha de Tech 1: Venture Capital&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;32:43 - Bolha de Tech 2: SPAC&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;37:49 - A Agulha da Bolha? A TEMPESTADE PERFEITA&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;41:39 - O que dá pra fazer?&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h3&gt;Links&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;Sam Zell calls SPAC craze largely ‘rampant speculation’ reminiscent of 1990s dot-com bubble (&lt;a href="https://www.cnbc.com/2021/02/09/sam-zell-calls-spac-craze-largely-rampant-speculation-reminiscent-of-1990s-dot-com-bubble.html"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.cnbc.com/2021/02/09/sam-zell-calls-spac-craze-largely-rampant-speculation-reminiscent-of-1990s-dot-com-bubble.html&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;The Bubble Is Starting to Burst in the SPAC IPO Boom: Chart (&lt;a href="https://news.bloomberglaw.com/securities-law/the-bubble-is-starting-to-burst-in-the-spac-ipo-boom-chart"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://news.bloomberglaw.com/securities-law/the-bubble-is-starting-to-burst-in-the-spac-ipo-boom-chart&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Inflation and the Commodities Bounce (&lt;a href="https://www.reuters.com/article/sponsored/inflation-commodities-bounce"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.reuters.com/article/sponsored/inflation-commodities-bounce&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Companies sound alarm over commodity price hikes (&lt;a href="https://apnews.com/article/financial-markets-prices-health-coronavirus-business-7d3b979e1fc8f7c9cde7822131b0e014"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://apnews.com/article/financial-markets-prices-health-coronavirus-business-7d3b979e1fc8f7c9cde7822131b0e014&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;ROBINHOOD&amp;rsquo;S REVENUE INCREASED BY 514% YOY- $682M IN 2020 (&lt;a href="https://financialit.net/news/trading-systems/robinhoods-revenue-increased-514-yoy-682m-2020"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://financialit.net/news/trading-systems/robinhoods-revenue-increased-514-yoy-682m-2020&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Robinhood Filing Shows Enormous Growth in Controversial Revenue Source (&lt;a href="https://www.barrons.com/articles/robinhood-filing-shows-enormous-growth-in-controversial-revenue-source-51620065477"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.barrons.com/articles/robinhood-filing-shows-enormous-growth-in-controversial-revenue-source-51620065477&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Insider: SPACs are the ‘Scummiest’ Thing on Wall Street | Arvid Ali Clip (&lt;a href="https://www.youtube.com/watch?v=lmrtWKYMz9E"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.youtube.com/watch?v=lmrtWKYMz9E&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&amp;ldquo;This Is Unsustainable&amp;rdquo;: 2021 SPAC Issuance Will Surpass Entire 2020 Total Before End Of March (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/unsustainable-2021-spac-issuance-will-surpass-entire-2020-total-end-march"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/unsustainable-2021-spac-issuance-will-surpass-entire-2020-total-end-march&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;SEC Drops Accounting Bomb, Blows Up SPAC Boom (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/sec-drops-accounting-bomb-blow-spac-boom"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/sec-drops-accounting-bomb-blow-spac-boom&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Melvin Capital, hedge fund targeted by Reddit board, closes out of GameStop short position (&lt;a href="https://www.cnbc.com/2021/01/27/hedge-fund-targeted-by-reddit-board-melvin-capital-closed-out-of-gamestop-short-position-tuesday.html"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.cnbc.com/2021/01/27/hedge-fund-targeted-by-reddit-board-melvin-capital-closed-out-of-gamestop-short-position-tuesday.html&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;This Hedge Fund Made $700 Million on GameStop (&lt;a href="https://www.wsj.com/articles/this-hedge-fund-made-700-million-on-gamestop-11612390687"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.wsj.com/articles/this-hedge-fund-made-700-million-on-gamestop-11612390687&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Are We in a SPAC Investment Bubble Now? (&lt;a href="https://www.thestreet.com/investing/is-the-spac-bubble-about-to-burst"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.thestreet.com/investing/is-the-spac-bubble-about-to-burst&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Hey Fed, Explain Again How Making Billionaires Richer Creates Jobs (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/economics/hey-fed-explain-again-how-making-billionaires-richer-creates-jobs"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/economics/hey-fed-explain-again-how-making-billionaires-richer-creates-jobs&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Hyperinflation Can Happen Much Faster Than You Think (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/hyperinflation-can-happen-much-faster-you-think"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/hyperinflation-can-happen-much-faster-you-think&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&amp;ldquo;This Is Not Transitory&amp;rdquo;: Hyperinflation Fears Are Soaring Across America (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/not-transitory-inflation-fears-are-soaring-across-america"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/not-transitory-inflation-fears-are-soaring-across-america&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Commodities Are Soaring 25%: That&amp;rsquo;s Consistent With Headline Inflation Of Almost 4% (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/commodities-are-soaring-25-thats-consistent-headline-inflation-almost-4"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/commodities-are-soaring-25-thats-consistent-headline-inflation-almost-4&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Inflation speeds up in April as consumer prices leap 4.2%, fastest since 2008 (&lt;a href="https://www.cnbc.com/2021/05/12/consumer-price-index-april-2021.html"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.cnbc.com/2021/05/12/consumer-price-index-april-2021.html&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;SEC Investigating SoftBank After NASDAQ Gamma Squeeze, FOIA Reveals (&lt;a href="https://www.zerohedge.com/markets/sec-investigating-softbank-triggered-nasdaq-gamma-squeeze-foia-reveals"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.zerohedge.com/markets/sec-investigating-softbank-triggered-nasdaq-gamma-squeeze-foia-reveals&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h2&gt;SCRIPT&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;p&gt;Olá pessoal, Fabio Akita&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<h2>DESCRIPTION<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"></span>
    <a href="#description" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Depois de mais de 1 ano de pandemia, quais foram os efeitos causados na nossa Economia? Por que parece que os mercados de Tech, principalmente, estão tão super-aquecidos? Já nos recuperamos? Tudo passou bem? Vamos entender!</p>
<p>Este vídeo é a terceira e última parte dos dois vídeos que publiquei 1 ano atrás:</p>
<ul>
<li>O que vem depois da COVID-19? (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Hrg0MnyE2jM"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=Hrg0MnyE2jM</a>)</li>
<li>A COVID-19 Matou minha Startup? (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y8SaMX30X1g"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=Y8SaMX30X1g</a>)</li>
</ul>
<h3>Conteúdo<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conteúdo"></span>
    <a href="#conte%c3%bado" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li>00:00 - Intro</li>
<li>01:17 - Disclaimer 1</li>
<li>01:35 - Março de 2020 - Como eu vi a pandemia chegando</li>
<li>03:17 - Meu Primeiro Video</li>
<li>03:59 - Primeiros efeitos no mercado</li>
<li>06:15 - Wallstreetbets vs Wall Street: Gamestop</li>
<li>09:59 - A Baleia de Nasdaq: Softbank</li>
<li>12:40 - A pergunta que ninguém fez: Por que agora?</li>
<li>15:08 - O Efeito Colateral de Distribuir Dinheiro</li>
<li>17:01 - Hiperinflação no Mercado Financeiro</li>
<li>18:29 - Estímulos: O Novo Zero</li>
<li>19:43 - Inflação no Mundo Real Começou</li>
<li>22:27 - O Brasileiro era mais Rico alguns anos atrás??</li>
<li>24:06 - Bolha de Tech 1: Venture Capital</li>
<li>32:43 - Bolha de Tech 2: SPAC</li>
<li>37:49 - A Agulha da Bolha? A TEMPESTADE PERFEITA</li>
<li>41:39 - O que dá pra fazer?</li>
</ul>
<h3>Links<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"></span>
    <a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li>Sam Zell calls SPAC craze largely ‘rampant speculation’ reminiscent of 1990s dot-com bubble (<a href="https://www.cnbc.com/2021/02/09/sam-zell-calls-spac-craze-largely-rampant-speculation-reminiscent-of-1990s-dot-com-bubble.html"target="_blank" rel="noopener">https://www.cnbc.com/2021/02/09/sam-zell-calls-spac-craze-largely-rampant-speculation-reminiscent-of-1990s-dot-com-bubble.html</a>)</li>
<li>The Bubble Is Starting to Burst in the SPAC IPO Boom: Chart (<a href="https://news.bloomberglaw.com/securities-law/the-bubble-is-starting-to-burst-in-the-spac-ipo-boom-chart"target="_blank" rel="noopener">https://news.bloomberglaw.com/securities-law/the-bubble-is-starting-to-burst-in-the-spac-ipo-boom-chart</a>)</li>
<li>Inflation and the Commodities Bounce (<a href="https://www.reuters.com/article/sponsored/inflation-commodities-bounce"target="_blank" rel="noopener">https://www.reuters.com/article/sponsored/inflation-commodities-bounce</a>)</li>
<li>Companies sound alarm over commodity price hikes (<a href="https://apnews.com/article/financial-markets-prices-health-coronavirus-business-7d3b979e1fc8f7c9cde7822131b0e014"target="_blank" rel="noopener">https://apnews.com/article/financial-markets-prices-health-coronavirus-business-7d3b979e1fc8f7c9cde7822131b0e014</a>)</li>
<li>ROBINHOOD&rsquo;S REVENUE INCREASED BY 514% YOY- $682M IN 2020 (<a href="https://financialit.net/news/trading-systems/robinhoods-revenue-increased-514-yoy-682m-2020"target="_blank" rel="noopener">https://financialit.net/news/trading-systems/robinhoods-revenue-increased-514-yoy-682m-2020</a>)</li>
<li>Robinhood Filing Shows Enormous Growth in Controversial Revenue Source (<a href="https://www.barrons.com/articles/robinhood-filing-shows-enormous-growth-in-controversial-revenue-source-51620065477"target="_blank" rel="noopener">https://www.barrons.com/articles/robinhood-filing-shows-enormous-growth-in-controversial-revenue-source-51620065477</a>)</li>
<li>Insider: SPACs are the ‘Scummiest’ Thing on Wall Street | Arvid Ali Clip (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=lmrtWKYMz9E"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=lmrtWKYMz9E</a>)</li>
<li>&ldquo;This Is Unsustainable&rdquo;: 2021 SPAC Issuance Will Surpass Entire 2020 Total Before End Of March (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/unsustainable-2021-spac-issuance-will-surpass-entire-2020-total-end-march"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/unsustainable-2021-spac-issuance-will-surpass-entire-2020-total-end-march</a>)</li>
<li>SEC Drops Accounting Bomb, Blows Up SPAC Boom (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/sec-drops-accounting-bomb-blow-spac-boom"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/sec-drops-accounting-bomb-blow-spac-boom</a>)</li>
<li>Melvin Capital, hedge fund targeted by Reddit board, closes out of GameStop short position (<a href="https://www.cnbc.com/2021/01/27/hedge-fund-targeted-by-reddit-board-melvin-capital-closed-out-of-gamestop-short-position-tuesday.html"target="_blank" rel="noopener">https://www.cnbc.com/2021/01/27/hedge-fund-targeted-by-reddit-board-melvin-capital-closed-out-of-gamestop-short-position-tuesday.html</a>)</li>
<li>This Hedge Fund Made $700 Million on GameStop (<a href="https://www.wsj.com/articles/this-hedge-fund-made-700-million-on-gamestop-11612390687"target="_blank" rel="noopener">https://www.wsj.com/articles/this-hedge-fund-made-700-million-on-gamestop-11612390687</a>)</li>
<li>Are We in a SPAC Investment Bubble Now? (<a href="https://www.thestreet.com/investing/is-the-spac-bubble-about-to-burst"target="_blank" rel="noopener">https://www.thestreet.com/investing/is-the-spac-bubble-about-to-burst</a>)</li>
<li>Hey Fed, Explain Again How Making Billionaires Richer Creates Jobs (<a href="https://www.zerohedge.com/economics/hey-fed-explain-again-how-making-billionaires-richer-creates-jobs"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/economics/hey-fed-explain-again-how-making-billionaires-richer-creates-jobs</a>)</li>
<li>Hyperinflation Can Happen Much Faster Than You Think (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/hyperinflation-can-happen-much-faster-you-think"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/hyperinflation-can-happen-much-faster-you-think</a>)</li>
<li>&ldquo;This Is Not Transitory&rdquo;: Hyperinflation Fears Are Soaring Across America (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/not-transitory-inflation-fears-are-soaring-across-america"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/not-transitory-inflation-fears-are-soaring-across-america</a>)</li>
<li>Commodities Are Soaring 25%: That&rsquo;s Consistent With Headline Inflation Of Almost 4% (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/commodities-are-soaring-25-thats-consistent-headline-inflation-almost-4"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/commodities-are-soaring-25-thats-consistent-headline-inflation-almost-4</a>)</li>
<li>Inflation speeds up in April as consumer prices leap 4.2%, fastest since 2008 (<a href="https://www.cnbc.com/2021/05/12/consumer-price-index-april-2021.html"target="_blank" rel="noopener">https://www.cnbc.com/2021/05/12/consumer-price-index-april-2021.html</a>)</li>
<li>SEC Investigating SoftBank After NASDAQ Gamma Squeeze, FOIA Reveals (<a href="https://www.zerohedge.com/markets/sec-investigating-softbank-triggered-nasdaq-gamma-squeeze-foia-reveals"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/markets/sec-investigating-softbank-triggered-nasdaq-gamma-squeeze-foia-reveals</a>)</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Vou dar uma pausa na saga de HDs e filesystems pra fazer um video não-técnico desta vez. Apesar de tudo, temos motivos pra comemorar, este é oficialmente o centésimo video do canal!! Daqui 1 mês o canal vai completar 3 anos. Quando lancei meu primeiro video em agosto de 2018 eu sabia que ia levar alguns anos, talvez com quase nenhuma view, até o canal ganhar alguma audiência.</p>
<p>Hoje quero atualizar os videos falando de economia que eu fiz em março e abril do ano passado, pouco mais de um ano atrás, mais especificamente sobre nosso nicho de mercado de tech. Foram videos onde eu comecei falando o que achava que podia acontecer com o estopim da pandemia. Já vou dizendo que tirando poucos pontos que errei, no geral tá caminhando como falei.</p>
<p>Como esse tipo de assunto sempre pode gerar desentendimento é bom deixar um disclaimer aqui: eu não sou economista, absolutamente nada do que disser aqui ou o que falei nos outros vídeos é recomendação financeira nem nada. São só minhas opiniões, e eu sempre falo que opinião é que nem bunda, todo mundo tem um. Então ouça tudo com quantidades saudáveis de cloreto de sódio e não esqueça do chapéu de papel alumínio. Avisos dados, vamos lá!</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Vou evitar falar a palavra certa de coronga ou mostrar escrito porque no video que eu fiz em março o YouTube me desmonetizou e o Instagram não deixava nem mostrar a thumb porque detectava a palavra. Vamos ver se falando só &ldquo;coronga&rdquo; passa. De qualquer forma esse deve ser o último video que vou mencionar desse assunto.</p>
<p>Uma coisa que não contei nos outros videos foi como eu vi a chegada da pandemia. Em 9 de março de 2020 eu e meu sócio Rodrigo fomos fazer nossa viagem anual pros Estados Unidos pra visitar clientes. A gente pousa em Los Angeles, faz reuniões, no mesmo dia já pega um vôo doméstico pra São Francisco e vai fazendo isso de costa a costa até acabar em Miami pra finalmente voltar pra casa.</p>
<p>Ano passado a gente ia ficar alguns dias a mais pra ir num evento no Texas, a South by Southwest, que eu sempre tive curiosidade de ir. Mas logo que chegamos, todo lugar ficamos ouvindo sobre essa nova pandemia que tava se alastrando rápido. Parecia que à medida que íamos da costa oeste em direção ao meio do país, a pandemia tava vindo atrás.</p>
<p>O evento acabou sendo cancelado em cima da hora. Chegamos em Austin, no Texas e ainda faltavam mais cidades pra ir na semana seguinte. Mas quando vimos que os Estados Unidos tavam proibindo vôos vindos de Londres, as chances de começar a proibir vôos de outros lugares podia ser iminente. Meu sócio mandou bem em tomar a decisão de cancelar tudo, ir direto pra Miami e pegar o vôo de volta pro Brasil.</p>
<p>Dia 12 de março eu acho que declararam que iam fechar os vôos indo e vindo do Brasil. Eu disse que meu sócio mandou bem porque se tivesse atrasado mais um dia, a gente não ia conseguir o vôo de volta. Acho que saímos de Miami, no dia 13 de março, no penúltimo vôo de volta pro Brasil. Foi tipo nos 45 do segundo tempo mesmo.</p>
<p>Nesse mesmo dia, do aeroporto, mandei email pra todos os colaboradores da empresa declarando o home office imediato a partir de segunda, dia 16. Eu acho que no Brasil só declararam quarentena, mandando fechar tudo, uma semana depois, lá pro dia 23. Felizmente meu ramo de negócio já era com todo mundo espalhado em várias cidades do país trabalhando remoto pra clientes, ou pra São Paulo ou pros Estados Unidos, então o impacto foi mínimo.</p>
<p>Uma semana depois que voltamos foi quando publiquei o primeiro video falando dos efeitos da pandemia na economia. Uma coisa que eu errei foi ao falar sobre cloroquina por exemplo. Antes de alguém falar que eu segui o Bozo, não foi. Eu já tava lendo sobre isso durante a viagem, artigos dos Estados Unidos, lá pelo dia 10. Muito antes de começarem a falar sobre isso por aqui.</p>
<p>Como disse naquele video, eu não sou médico, muito menos infectologista, e mesmo dentro dos vários que são, até hoje ainda não existe consenso de tudo. Depende de quem você acompanha. A mesma coisa vale pros efeitos nos mercados. Economia não é uma fórmula que funciona perfeitamente porque tem centenas de variáveis e muitos deles são não-lineares. Política então, nem quero discutir.</p>
<p>Um dos efeitos imediatos que eu falei no video do ano passado foi que minha carteira de investimentos desvalorizou por volta de meio milhão de reais. Num período de meros vinte e um dias entre 19 de fevereiro de 2020 até 23 de março onde tivemos sequências de quedas que somaram 45% de crash. Foi crash nível das piores crises. E foi sistêmico, não foi só em empresas de tech, por exemplo, foi o mercado inteiro.</p>
<p>Mesmo assim, o mercado financeiro recuperou muito rápido. Aqui no Brasil levou 184 dias pra Ibovespa voltar pro mesmo patamar de antes do crash, por volta do começo de dezembro de 2020 já. E isso foi a Ibovespa. Já a NASDAQ, que representa empresas de tech nos Estados Unidos, recuperou muito mais rápido. Em 26 de maio, só 1 mês e meio depois, já tinha voltado pro mesmo nível.</p>
<p>E como se isso já não fosse impressionante, do dia 28 de março do ano passado, até fim de maio deste ano, só uns 250 dias, o mercado de tech ainda subiu quase 50%. Ou seja, nós investidores não só recuperamos as perdas daquele crash, mas nossos ativos valorizaram absurdamente nesse período.</p>
<p>Sem entender nada de finanças, qualquer um deveria pensar que isso é estranho. Você pensaria, &ldquo;claro, todo mundo ficando em casa, aumentou o número de assinantes na Netflix, por isso valorizou. Com lojas de rua e shopping centers fechados, todo mundo tá comprando muito mais online na Amazon, Mercado Livre, então lógico que ecommerces valorizaram.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Com restaurantes fechados todo mundo tá pedindo delivery de comida nos iFood e Uber Eats da vida. Com escolas e faculdades fechadas, plataformas de edtech valorizaram então todo curso online como um Skillshare da vida deve ter subido. E finalmente, com todo mundo gastando mais online, toda fintech valorizou junto&rdquo;.</p>
<p>Isso de fato explica uma parte, mas não é a maior parte. A essa altura, todo mundo que poderia assinar uma Disney+ já assinou. Toda mundo que precisa comer já tá num iFood. Depois de poucos meses, essa demanda já foi toda atendida. Não vai crescer exponencialmente num curto espaço de tempo, mas mesmo assim todas essas ações continuam subindo bastante.</p>
<p>Além do mais tem outro fator, os níveis de desemprego chegaram a números que não se via em décadas e muita gente continua desempregada. Fábricas inteiras precisaram parar por bastante tempo. Comércio no geral ainda tá longe de voltar ao normal. E mesmo assim, ações continuam subindo.</p>
<p>Tem uma história que ajuda a ilustrar essa contradição. A partir do meio de janeiro deste ano, mais ou menos, as ações da Gamestop nos Estados Unidos subiram nada menos que 1370 porcento! Num período de só 10 dias! Se você não entende porcentagem, isso significa o valor da ação se multiplicar por 15, indo de 23 até 347 dólares.</p>
<p>Gamestop é uma reconhecida cadeia de lojas de videogames e acessórios que em algum momento já foi tipo a Blockbuster nos anos 90, mas justamente por causa de compras online, também má administração, ela vinha definhando e morrendo aos poucos. Claro, ainda vai levar alguns anos pra realmente morrer se não fizer nada. Mas ainda tem bastante coisa que ela pode fazer.</p>
<p>Hedge funds vinham apostando contra ela faz algum tempo. E a forma de apostar contra uma empresa de capital aberto é fazendo short. - Akita do futuro editando, vou reexplicar este trecho porque não tinha ficado claro - Bem a grosso modo funciona assim. Você como o fundo vende uma opção de compra no mercado. Opções são baratas e você não precisa ter a ação da empresa. Quando a opção vencer e o preço estiver baixo, o fundo pode comprar barato no mercado e cumprir a promessa de venda ao preço mais alto e ele ganha. Mas como os preços subiram astronomicamente num espaço curto, ele agora fica obrigado a comprar caro no mercado e vender barato como tinha prometido na opção.</p>
<p>O caso da Gamestop foi assim: um grupo de investidores de varejo, e eu chamo de varejo porque não são instituições ou fundos e sim pessoas físicas como eu e você, entraram no Reddit e criaram um grupo chamado wallstreetbets. Eles resolveram apostar juntar a cauda longa de pequenos investidores que, sozinhos, não tem como influenciar o mercado, mas juntos poderiam coordenar e atacar uma única estratégia de uma só vez, talvez desse alguma coisa.</p>
<p>Impressionantemente deu certo! Num espaço curtíssimo de tempo eles apostaram a favor da Gamestop, bem quando os shorts de um determinado fundo iam vencer, daí o fundo que tava apostando contra foi obrigado a cobrir caro. É isso que se chama de short squeeze, que é literalmente apertar os shorts. O grupo do Reddit começou a comprar sistematicamente, fazendo os preços irem de 23 dólares até os absurdos 347 dólares.</p>
<p>Digamos que o preço subiu de 23 pra 50 logo de cara. Ninguém tava esperando isso. Quem tava shorteando, e alavancado, agora vai tomar chamada de margem da corretora. Muita gente não vai ter como cobrir e vai ficar endividado com a corretora. É o momento que quebra as pernas de todo mundo que entrou ambicioso demais e apostou o que não podia. Até um grande fundo pode ser pego desprevenido e tomar chamadas de margem milionárias.</p>
<p>O fundo em questão que sofreu o ataque foi a Melvin Capital. Tentaram consertar isso por baixo dos panos, mas era tarde demais, o prejuízo foi de nada menos que 3 bilhões de dólares. O grupo do Reddit começou bem antes na real, mas começou devagar, quando o preço tava mais baixo a uns 4 dólares lá por agosto, e levou uns seis meses pra ir de 4 até os 23 dólares, mas quando bateu 23 aí foi de uma vez só pra cima. Eles não esperavam que uma ação defunta dessas pudesse movimentar tão drástico assim.</p>
<p>Esse caso ficou super famoso em Janeiro porque pareceu mais uma história de Davi e Golias, o povo quebrando as pernas de Wall Street e toda essa baboseira. Foi divertido de acompanhar. Apesar da estratégia de short squeeze fazer sentido, não é novidade e acho que se uma empresa fizer algo assim é até ilegal. A gigante Softbank, famosinha por investir em tudo que é startup, é uma das que joga sujo no mercado. Vide o escândalo da WeWork que é só um exemplo.</p>
<p>Lembra que eu falei que a NASDAQ se recuperou super rápido logo depois de março? Parece que a Softbank deu uma mãozinha. Ela deveria ser um fundo de investimento em startups mas depois de prejuízos astronômicos como com a WeWork, começou a manipular o mercado financeiro pra cobrir um pouco desse prejuízo. Em resumo foi assim, tendo participação em dezenas de empresas, através delas ele distribuiu a compra de calls, opções de compra na ordem de 4 bilhões. 4 bilhões em calls comprados de forma indireta. Já entendeu né?</p>
<p>A Softbank pode ter causado uma gamma squeeze. Parecido com o que o grupo wallstreetbets fez contra a Melvin Capital. Pensa assim, você comprou a opção de compra de alguém. Agora esse alguém te vendeu porque acha que a ação vai cair. Mas digamos que começa a subir. Quem te vendeu precisa se proteger caso suba demais e uma das formas de fazer isso é comprar a própria ação antes que ela suba demais, pra minimizar o prejuízo. Então muita opção de compra pode incentivar mais gente a comprar mais ação que, por sua vez, aumenta o preço. Por sua vez isso faz aparecer mais opções de compra e um vai puxando o outro rápido pra cima. Em grande volume isso é um gamma squeeze.</p>
<p>Todo mundo sabia que uma ou mais baleias, que é como chamamos algum investidor milionário fazendo operações em grande volume pra influenciar preços começou a comprar calls em empresas de tech como se não houvesse amanhã. Mas ninguém sabia quem tava por trás. Em setembro seguiram o rastro do dinheiro e descobriram que a baleia da Nasdaq tinha grandes chances de ser a Softbank.</p>
<p>Eu acho que ela tava ou ainda tá sendo investigada pela SEC porque isso seria manipulação do mercado. Ela supostamente manipulou via volumes obcenos de opções de compra usando o nome de outras empresas como fachada, causando esse gamma squeeze e a impressão que empresas de tech se recuperaram muito rápido. E o problema de gamma squeezes é que elas podem crashear o preço da ação do nada. Eu falava isso anos atrás e continuo falando: suspeito de tudo que a Softbank bota as mãos. E não são só eles, vamos continuar.</p>
<p>Aqui eu tô chutando mas talvez seja isso que tenha feito a Nasdaq cair e acumular uma queda de 12%, que é mais que uma correção, no começo de setembro do ano passado. Isso fez a Nasdaq ficar volátil andando de lado e com tendência de queda até o fim de dezembro, quando começou a onda de otimismo com o novo presidente dos Estados Unidos, o Biden, e a promessa de novos estímulos à economia.</p>
<p>Mas tem outra pergunta importante, porque agora? De onde veio tanto dinheiro que o povo do Reddit usou pra fazer essas apostas? Não sei se você teve a sensação que parece que tem muito mais gente fazendo investimentos hoje. Pessoas física mesmo. Até aqui no Brasil aumentou. De repente você vê muito mais youtuber falando de investimentos, mais cursos de investimento aparecendo, mais fintechs de investimento. Eu não acho que é coincidência. E antes de sair metralhando nos comentários, a partir daqui considere tudo uma especulação da minha parte.</p>
<p>Vou falar mais dos Estados Unidos porque é onde os números são mais interessantes, mas entenda. Por causa das quarentenas os governos do mundo começaram a aprovar pacotes de ajuda e estímulos. Um monte de gente ficou sem emprego do dia pra noite. Seria um caos. Então fazia sentido distribuir dinheiro direto pras pessoas pra elas não irem pra baixo da ponte nem morrer de fome, o que só aumentaria o problema da pandemia em si.</p>
<p>Pra ter uma noção da quantidade de dinheiro, basta dizer que metade dos dólares em circulação na economia foi impressa no período de 1 ano. Consegue entender essa ordem de grandeza? Cada uma nota de 1 dólar ganhou um copy e paste automático. É de onde você vê aquele meme de gif animado do presidente do FED, o banco central americano, Jerome Powell, imprimindo dinheiro brrrrrrr.</p>
<p>Eu disse no video de março que o primeiro grande efeito da pandemia é que gerou uma crise de falta de dólares no mundo. O dólar ficou instantaneamente mais caro. Mas aí o FED interviu e começou a imprimir dólares. Até hoje acho que já foi impresso mais de 5 trilhões de dólares. Dinheiro que apareceu do nada indo direto pra mão das pessoas. Se você acredita em pseudo-teorias como a MMT ou UBIs, esse foi o maior programa global de redistribuição de dinheiro da história.</p>
<p>Isso foi pras mãos de quem realmente precisava mas também foi pras mãos de quem não precisava tanto assim, que tinha alguma poupança ou possibilidade de continuar trabalhando. Mas ao contrário do que se poderia imaginar, isso não gerou inflação, porque tava todo mundo trancado em casa, com medo, e não aumentou a demanda de compra de produtos e serviços na mesma proporção.</p>
<p>Então, por alguns meses, parecia o País das Maravilhas. Poder imprimir dinheiro em alto volume sem inflação como efeito colateral: o sonho de todo político populista que quer ser posar de salvador da pátria. Apesar de não ter tido inflação significativa nos consumíveis durante o ano de 2020, a gente que investe viu a inflação aparecer imediatamente num mercado específico: o financeiro. Claro que a fórmula não é bonitinha assim, e eu estou só extrapolando. Mas vamos especular um pouco.</p>
<p>Milhões de pessoas que receberam os cheques de estímulo resolveram tentar multiplicar esse dinheiro extra. Muita gente associou com criptomoedas. Depois de mais de 2 anos num bear market, em queda, um Bitcoin não passava de 10 mil dólares e normalmenta tava abaixo. Em março, igual todo mundo ele caiu mais ainda, pra faixa dos 4 mil dólares e em poucos meses não só superou o pico histórico de 20 mil, como foi direto pra sessenta e cinco mil dólares! Mesmo com a recente queda de mais de 40%, ainda assim ele tá o dobro acima do pico histórico do ciclo anterior do final de 2017. Mas Bitcoin não foi o único e nem o maior destino do dinheiro dos cheques.</p>
<p>Veja a plataforma de corretagem Robinhood dos Estados Unidos, que foi feita pra atrair investidores de varejo com sua estratégia de não cobrar taxas de corretagem e em vez disso ganhar dinheiro com market makers vendendo order flows. De qualquer maneira a idéia do Robinhood é ser um app pra tornar negociar na bolsa de valores algo tão simples quanto chamar um Uber ou jogar Candy Crush.</p>
<p>E deu certo, pra uma plataforma que não cobra taxas dos usuários, a receita deles cresceu nada menos que 514%. Desde que foi fundada em 2014, levou 2 anos pra atingir a marca de 1 milhão de usuários. Só nos primeiros meses de 2020 mais de 3 milhões de novos usuários entraram na plataforma e ela já tem mais de 13 milhões no total. É um monte de gente injetando dinheiro no sistema financeiro.</p>
<p>O que acontece quando a oferta de um produto não muda tanto, o estoque, mas a demanda aumenta drasticamente? Lembra o episódios da falta de papel higiênico? Pois é, uma Apple ou Facebook continuam tendo o mesmo estoque de ações, não lançaram nenhum produto revolucionário nem nada. Mas o número de compradores aumentou drasticamente. Então todas as ações e produtos financeiros também aumentaram na mesma proporção.</p>
<p>É assim que você consegue ter empresas bizarras e cheias de promessas e com pouca entrega como umas Teslas e Nikolas da vida sendo super valorizadas. Mesmo a Gamestop, que todo mundo sabe que foi esse jogo entre grupos de Reddit e wallstreet, ainda tá com preço alto. Lembra que eu falei que tava de 4 a 23 dólares no fim de 2019 e foi até 347 em poucos dias? O preço continua alto ainda hoje, na faixa de 240 dólares, que ainda é mais de 10 vezes o que deveria ser.</p>
<p>É um fato: o mercado financeiro está em hiper-inflação faz meses. Ele já estava em inflação desde a &ldquo;resolução&rdquo; da crise de 2008, quando o banco central americano foi ao resgate pra evitar quebradeira dos bancos e começou o tal Quantitative Easing, que é o nome bonitinho pra imprimir dinheiro.</p>
<p>Eu expliquei isso nos outros videos, mas em resumo bancos centrais conseguem criar dinheiro quando quiser. O balance sheet deles é uma planilha Excel. Basta colocar um zero a mais. Na real o termo correto é aumentar a dívida. Todo banco central pode fazer isso. E você poderia se perguntar, porque a gente precisa pagar imposto então? Basta imprimir dinheiro infinitamente. Só que todo mundo sabe que se fizesse isso sem controle viria inflação na mesma proporção.</p>
<p>Só os Estados Unidos conseguem fazer isso porque o dólar ainda é a moeda de reserva do mundo, desde a história de Bretton Woods que eu contei. Todos os países do mundo estão endividados em dólar, então sempre existe demanda por mais dólar.</p>
<p>Mas nem isso significa que eles são imunes a inflação. O motivo de porque eu não acredito em pseudo-teorias como UBI ou Universal Base Income ou qualquer bullshit de Nova Teoria Monetária é exatamente por isso: qualquer valor de base que você cria - como os cheques de estímulo - no longo prazo se tornam o novo zero.</p>
<p>Vamos ver no curto prazo o que já aconteceu. E de novo, estou simplificando grosseiramente só pra explicar o conceito, lógico que tem bem mais nuance que isso. Mas vamos lá: março de 2020, quarentena entra em vigor, tudo fecha e passamos a ter índices recordes de desemprego. Governos começam a imprimir dinheiro e distribuir pra população. Nos Estados Unidos estamos falando de cheques de mil de quatrocentos dólares por pessoa. Meses depois, em alguns lugares, a situação vai melhorando. Inúmeros fatores, vacinas agora, sei lá. Várias empresas que sobreviveram agora tentam recontratar e obviamente estão com dificuldade.</p>
<p>Porque empregos mais de base, que não exigem preparação acadêmica nem nada disso, garçons, operários, chão de fábrica e coisas assim agora não vão trabalhar por menos do que o cheque que recebem. Ótimo, você pode pensar, agora esses empresários ambiciosos vão se ferrar e vão ter que pagar mais. O povo sai ganhando, não?</p>
<p>Nope, o preço dos produtos e serviços que eles produzem é que vai aumentar. Some a isso outro problema. Do nada todo mundo parou de produzir ou diminuiu drasticamente nas quarentenas. A gente de tech tá vendo isso no preço de componentes eletrônicos. Se você é gamer tá vendo que não tem como comprar placas gráficas. Lembram que eu comprei minha RTX 3080 dezembro do ano passado? Eu paguei super caro, uns 7 mil reais. Pois é, se você for no Mercado Livre em menos de 6 meses o preço subiu pra 21 mil reais, 3 vezes mais.</p>
<p>A culpa é desses mineradores de criptomoedas. Não é só isso. À medida que a economia vai abrindo rápido em algumas partes do mundo, a produção tá tentando aumentar. Os estoques já acabaram então precisa produzir rápido pra cobrir a demanda. Se toda fábrica do mundo aumenta a produção de uma só vez, vai faltar matéria prima pra todo mundo. Chips em particular a gente já sentiu. Fábricas fechadas por muito tempo e agora reabrindo ao mesmo tempo, falta de matéria prima e falta de mão de obra é que foram os fatores pra faltar vários tipos de produtos, incluindo placas gráficas.</p>
<p>Além de alta demanda, por vários fatores, como seca em partes do Brasil, estamos com falta de muitos tipos de commodities. De novo, falta de oferta, aumento rápido na demanda, significa que os preços sobem. O preço da madeira subiu 280 porcento. Lembra que fora do Brasil muito da energia vem de termoelétrica. Preço do cobre subiu mais de 100%. O milho subiu 80%, isso nos Estados Unidos, mas todo commodity tá super caro.</p>
<p>Por mão de obra mais cara, matéria prima mais cara, e demanda de compra aumentando com as reaberturas, dinheiro de estímulo sobrando, isso tá fazendo os preços de tudo subir. Recentemente empresas gigantes que fabricam quase tudo que a gente compra, de refrigente a pasta de dente, como Proctor &amp; Gamble, Kimberly-Clark, Coca Cola, todo mundo já anunciou que vai ter que subir os preços de todos os produtos.</p>
<p>Não é só a placa gráfica de gamer que tá cara, tudo já tá ou vai ficar mais caro. Nos Estados Unidos que inflação era na casa dos 2% já tá o dobro, acima de 4%. E isso porque o índice de preços ao consumidor deles, a CPI, faz alguns anos que não coloca na conta o preço de housing, preço de moradia, que já subiu bastante também.</p>
<p>Além de imprimir muito dinheiro, outra estratégia foi manter os juros base, o equivalente nossa da SELIC, em níveis baixos, pra facilitar acesso ao crédito. E as taxas de juros já estavam nos níveis mais baixos da história, perto de zero. Isso gera efeitos como mais financiamentos de coisas como casas. Com desaceleração de obras, oferta limitada de imóveis e mais compradores com acesso a mais crédito barato, significa que o preço de imóveis aumenta também.</p>
<p>Quando muita gente pensa &ldquo;ah, alguns anos atrás o brasileiro era mais rico&rdquo;, não significa que a gente tinha mais dinheiro no bolso. Significa que os juros eram mantidos baixo, isso faz o crédito parecer mais barato. Então o que tinha era mais facilidade das pessoas se endividarem. Todo mundo parece mais rico gastando dinheiro que não tem. Se você sobe a taxa básica de juros, os juros de todos os financiamentos crescem junto.</p>
<p>Uma das formas de desacelerar inflação causada por aumento na demanda de compra é aumentar a taxa de juros, porque aí a população pensa duas vezes antes de pegar um empréstimo no banco. Mas lembra como falei que o lance de imprimir dinheiro dos bancos centrais é criar dívida no balance sheet deles também? Quanto mais dívida mais difícil fica aumentar os juros, porque os juros aumentam pra todo mundo, incluindo pro governo.</p>
<p>E só o governo americano imprimiu mais de 5 trilhões de dólares de dívida. Eles nunca acumularam tanta dívida assim desde a Segunda fucking Guerra Mundial. Pensa: eles tão com mais dívida em um ano do que durante a Guerra. Então quando a hiper-inflação chegar, vai ter mais dificuldade de controlar.</p>
<p>A definição de hiper-inflação varia mas uma que li que pode servir de referência é quando os preços sobem 50% ou mais num único mês. E isso tende a acelerar rápido, então 50% num mês rápido vira 100% no outro, 1000 porcento e aí vira a porcaria da Venezuela rapidinho, ou o Brasil nos anos 80. E todo mundo corretamente morria de medo porque uma vez que você entra nessa espiral, pra sair é super difícil. O problema é que parece que todo mundo perdeu o medo.</p>
<p>Isso nos trás pro próximo assunto que chama a atenção. Se você for de tech em grandes centros urbanos já viu que a demanda por programadores aumentou bastante. Eu posso dizer isso pessoalmente porque eu nunca tive que lidar com tanta demanda por programadores em 10 anos. Nem no pico do mercado de startups aqui no Brasil que foi entre 2010 a 2015 mais ou menos.</p>
<p>Se você não tá vendo isso, talvez tenha visto como apareceu notícias de tantas startups de tech, fintechs, edtechs, e tudo mais, recebendo um tanto de investimentos novos. E isso se traduz em todos eles contratando muito mais. Isso deveria ser uma excelente notícia. Mas se você acompanha meu canal já deve imaginar onde quero chegar.</p>
<p>Porque aumentaram esses novos investimentos em tech? Tem motivos legítimos. Por todos os motivos que falei no começo, de fato, aumentou a demanda por mais serviços digitais. Finalmente o mundo se viu obrigado a levar home office a sério e a atender gente presa em casa. Só serviços digitais conseguem escalar pra atender demanda massiva assim.</p>
<p>Por outro lado, surgiu a oportunidade pra ganhar dinheiro rápido. A grosso modo o objetivo de se abrir uma empresa é produzir algo útil, que tenha demanda. Isso gera receita que, com uma boa administração, vai eventualmente gerar lucros, que é o que permite ir continuamente melhorando os produtos e serviços.</p>
<p>A necessidade de aumentar produtividade e qualidade é porque se esse mercado é bom, a demanda aumenta e com isso novos concorrentes vão aparecendo e forçando as outras empresas a continuamente melhorar pra oferecer melhores produtos a melhores preços. Essa é a dinâmica normal.</p>
<p>O problema é quando governos interferem. E em 2020 você nunca viu uma interferência tão grande na história, de todos os governos do mundo combinados. Eles injetaram uma quantidade de dinheiro sem igual na economia. Nesse ponto você esquece qualquer lei econômica, agora é a hora de &ldquo;dog eat dog&rdquo;, da cobra comer a própria cauda.</p>
<p>O que mais tem no mercado hoje é empreendedor de fundo de quintal, a grande maioria vai fracassar, e deveria mesmo porque não tem nada a oferecer que gere valor. Não tem como em poucos parágrafos explicar o mercado inteiro, mas vamos pegar os conceitos principais que eu entendo.</p>
<p>Pense primeiro numa tech startup. Uma das coisas que não deveria ser &ldquo;o&rdquo; objetivo e sim uma consequência é atrair investidores, particularmente venture capital. Venture Capital é um nome bonito pra administradores de dinheiro dos outros. Em qualquer mercado que deu minimamente certo, você vai ter muitos milionários, bilionários e não só isso, fundos de investimento que administram dinheiro dos outros. Por exemplo fundos de pensão, que é responsável por administrar dinheiro de aposentadoria dos outros.</p>
<p>Sem interferências, é normal ter investimentos de risco como investir em startups que ainda não se provaram. E você tem investimentos de hedge ou proteção, que costumam ser estáveis a longo prazo. Se você é administrador da aposentadoria dos outros, por exemplo, não vai sair comprando ações da Tesla em atacado, porque a chance de implodir é enorme, numa hora que o Musk tiver fumado e falar merda no Twitter.</p>
<p>Mas se você deixar o dinheiro na poupança, ou não vai crescer nada, ou pior, vai perder, seja pra inflação, seja pra taxas bancárias. Dinheiro parado no banco, embaixo do colchão, sempre vai desvalorizar. Nosso papel moeda não tem lastro em nada, banco central pode sair imprimindo como tá fazendo agora, e o valor do seu dinheiro vai pro ralo. O que você acha que significa 1 dólar valer 4 reais em 2019 e ir pra quase 6 reais em 2020? Significa que o real desvalorizou 50% em relação ao dólar. E só não foi mais porque o próprio dólar desvalorizou, mas moedas bosta como a nossa desvalorizam mais rápido. Ninguém no mundo quer reais. Venezuelano, argentino, talvez queiram. Mas você entendeu.</p>
<p>Enfim, você quer se proteger, fazer hedge, mas não quer e nem pode brincar de cassino no mercado de ações. Então você compra coisas como papel do tesouro, que é como emprestar dinheiro pro governo e ele ir te pagando os juros. Lembram como eu falei que os juros base tão super baixos? Significa que o papel do tesouro dá pouco retorno ou praticamente nenhum. Daí você voltou pra estaca zero.</p>
<p>Se a grosso modo, pra controlar inflação, um governo pode subir a taxa básica de juros, pra &ldquo;estimular&rdquo; entre aspas, ela baixa os juros. Isso faz mais dinheiro circular na economia, porque facilita o crédito. Por sua vez isso aumenta o investimento em empresas que, finalmente, aumenta oferta de empregos. E tudo dá volta porque mais empregos que pagam melhor significa mais gente consumindo e é isso que significa &ldquo;girar a economia&rdquo;. Mas diminuir a taxa de juros diminui o valor dos papeis do tesouro - que são investimentos considerados estáveis - e move esse dinheiro pro mercado de risco, em busca de mais retorno.</p>
<p>E dentro do mercado de risco existem níveis de risco. Pra você se arriscar pouco, pode comprar ações de empresas tradicionalmente consideradas responsáveis, que ao longo de décadas teve poucos deslizes. Siderúrgicas ou empresas de energia por exemplo. Elas tem problemas quando acontecem desastres naturais, sei lá um petroleiro afunda. Mesmo a porcaria nossa da Petrobrás, com o tanto de palhaçada que todos os governos fazem com ela, continua sendo um dos menos arriscados no nosso mercado. Ou se você gosta de tech, vai comprar coisas como IBM e não Facebook.</p>
<p>Mas no outro extremo do mercado de risco existe o de altíssimo risco, os que fazem investimento early stage, na fase embrionária de uma empresa, onde ela demonstra ter potencial mas ainda não demonstrou resultados. A desculpa é a história da Amazon, que passou quase 1 década sem dar lucro e se tornou o gigante de hoje porque dentre outras coisas, investiu milhões em logística e tecnologia pra ter uma eficiência que nenhum outro consegue ter. Literalmente criando o próprio sistema de entregas que é mais eficiente do que opções tradicionais como DHL ou UPS.</p>
<p>No Brasil aconteceu a mesma coisa com os Mercado Livre ou Magazine Luiza da vida. Praticamente criaram um mini-Correios que é mil vezes melhor que a droga dos Correios. Todo grande ecommerce precisa ter controle do sistema de entregas. Enfim, a Amazon meio que deu esse exemplo de investir tudo, não ter lucro, e superar todos os concorrentes pelo caminho. Independente se você gosta do modelo ou não, os números são impressionatnes.</p>
<p>Um venture capitalist é um gerente de banco glorificado. Ele chega em fundos de investimento, family offices, junta milionários que querem investir o dinheiro mas não querem ter que passar seus dias avaliando cada startup porcaria que aparece. O venture capitalist recebe uma comissão, um dinheirão por sinal, por ano, pra administrar isso. Entenda que um VC vai ganhar dinheiro independente se o investimento que ele fizer der certo ou não. Lógico que quando dá certo ele ganha mais.</p>
<p>Então seu objetivo é achar uma dúzia de startups que tenham algum potencial e injetar dinheiro pra pagar coisas caras como marketing, comercial de TV, tudo que um empreendedor sozinho, sem receita, não teria como. Tudo isso pra atrair mais clientes e abocanhar uma fatia significativa de um mercado que eles acreditam que vão crescer.</p>
<p>Num mercado estabilizado, teria pouco disso. Mas quando tem dinheiro sobrando isso aumenta. Mas mesmo dinheiro de VC só vai até um certo ponto. O objetivo é que eles consigam dar EXIT, saída. Ou melhor, que em algum momento o dinheiro investido dê lucro. Pra isso ou ele precisa conseguir vender pra outra empresa maior a um bom preço ou uma hora precisa abrir o capital, o famoso IPO.</p>
<p>Initial Public Offering ou IPO é o sonho molhado de toda startup e VC. É o sonho de ser o próximo Google, o próximo Facebook. É quando você ganhou notoriedade o suficiente pra fazer investidor de varejo comprar ações caras acreditando que vão multiplicar de valor porque a empresa demonstrou que quanto mais dinheiro você põe nela, mais cresce. Como uma Amazon ou Netflix.</p>
<p>Entenda que quando você compra ações, seja depois, seja durante um IPO, você tá pagando caro por ela. Quem pagou barato foi o investidor inicial, os VCs. E isso faz sentido. Num mercado normal, eles de fato tomaram o risco maior que ninguém mais queria tomar, então é justo que quando dá certo recebam um premium por isso. Se você acha o valor que eles ganham muito ou pouco não importa, porque você não teria investido nesse negócio quando ninguém mais acreditava nele.</p>
<p>Mas não estamos num mercado normal. Estamos com excesso de liquidez e excesso de investidores de primeira viagem. Pra um VC conseguir transformar uma startup amadora num IPO é um longo caminho de muitos anos. Empresas que você acha que são perfeitas como Uber ou Airbnb da vida levaram quase 1 década pra conseguir abrir suas ações ao público.</p>
<p>As bolsas pelo mundo funcionam com diversas regras e leis muito duras. Depois de tanta crise financeira que tivemos na história, uma CVM no Brasil ou SEC nos Estados Unidos realmente tem o dever de evitar que empresas fraudulentas apareçam na bolsa com o objetivo de roubar dinheiro dos investidores, então o processo pra abrir um IPO costuma ser demorado mesmo, e bem caro.</p>
<p>Eu vou tirar a próxima explicação de outro video que vou deixar linkado abaixo pra você assistir inteiro, do canal do Jake Tran entrevistando Arvid Ali. Não importa tanto quem eles são, mas só que a informação não tá errada. Aliás, tangente, nunca associe a validade ou invalidade de uma informação baseado na reputação da pessoa que tá falando. Informação que depende da pessoa falando tem pouco valor.</p>
<p>Enfim, revisar uma empresa pra abrir IPO é complicado, porque ele pode ter dezenas de fornecedores, milhares de funcionários, centenas de ativos, passivos e uma contabilidade complicada e tudo precisa passar pelo escrutínio de uma SEC pra abrir IPO numa Nasdaq. Então você sabe que se o IPO aconteceu, algum mínimo de cuidado foi tomado antes de você pode entrar numa XP da vida ou Robinhood e efetivamente comprar a ação.</p>
<p>A grosso modo o que o Ali explica é: e se desse pra criar uma empresa de fachada. Alguns milionários celebridade se juntam, colocam um X de capital inicial, e abrem essa empresa pro público via IPO. Como não tem funcionários, máquinas, ativos nem nada, o processo de revisão fica muito mais simples. Só que aí vem o truque, agora essa empresa pode comprar uma outra menor, uma dessas startups podres, de origem duvidosa que não passariam pra um IPO normalmente. Mas como agora ela foi comprada por essa empresa de fachada, que é pública, essa startup se torna pública.</p>
<p>Entenderam o truque? É o que se chamaria de &ldquo;loophole&rdquo; ou brecha nas leis que permitia esse tipo de manobra. A startup sozinha jamais passaria pelo escrutínio do SEC. Mas ela sendo adquirida, automaticamente passa a fazer parete de uma empresa com capital aberto e que você poderia agora comprar ações na bolsa de valores.</p>
<p>Pra você ter uma noção, de 2013 a 2019 tinha 2, talvez 3 IPOs de SPACs. No melhor ano que foi 2019 teve 13. Em 2020 esse número foi pra 77, que é mais que todos os SPACs que teve desde 2013 somado! E em 2021 já deve mais de 50. Por isso que do fim do ano pra cá parece que o número de investimentos aumentou dramaticamente.</p>
<p>Em vez de só virar um VC e investir em startups em começo de carreira, essas SPACs abrem capital baseado na reputação dos seus fundadores, usar pra comprar essas startups e captar dinheiro de investidores incautos. Exemplo é uma AJAX I cujo time inclui nomes como Kevim Systrom, co-fundador do Instagram, Jim McKelvey, co-fundador da Square ou a Reinvent Technology Partners que tem o fundador da Zynga, Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn; ou a Altimeter Growth Corp que tem o Brad Gerstner que ficou famoso por ter investido no Facebook, Airbnb, Uber e Unity.</p>
<p>Eu falei que se aparece o nome Softbank em algum lugar suspeito, e se aparecer o nome de uma SPAC em algum lugar eu atravesso a rua e saio correndo. Desde a recuperação da crise de 2008 tudo só vem crescendo. E depois dessa crise eles tem a convicção que se algo der errado, papai banco central vai imprimir mais alguns bilhões e salvar todo mundo. Porque tem aquela desculpa de que se empresas X ou Y falirem vai causar disrupção em algum serviço considerado importante pelos eleitores, vai causar demissões em massa, e nenhum político gosta disso.</p>
<p>Pra ter esse nível de proteção, a melhor coisa que essas empresas podem fazer é inflar rápido, gastar como se não houvesse amanhã pra ficar grande e difícil de ignorar, mesmo sem ter nem um plano pra gerar lucro. E esse dinheiro vai vir de mim, de você, dos seus pais. Seja diretamente vendendo essas ações pra gente ou indiretamente quando o governo fizer bail neles e comprar os ativos sujos, como fez com os ativos imobiliários radioativos que eram os MBS 10 anos atrás. E como tá acontecendo agora.</p>
<p>Na década onde redes sociais se tornaram ubíquitas, nasceram celebridades instantâneas e no mundo de empreendedorismo levou nomes como os Elon Musk da vida a nível de deuses gregos que tem o toque de Midas. Se ele falou que dá dinheiro, eu compro. Só isso já foi suficiente pra inflar a corrida pelas startups e uma década de crescimento sem parar. Num mercado que tudo cresce, é fácil você ser guru, só falar que tudo cresce. Assim que aparece umas Cathie Wood da vida.</p>
<p>Daí você decide ir pro próximo nível, captar Mais dinheiro Mais fácil, daí aparece nomes como Chamath Palihapitiya que aparece falando coisas muito razoáveis, e se coloca na posição de dizer como o mundo de VCs é corrupto e como ele só ele é o salvador da pátria, impulsionando um segmento ainda mais controverso, pra dizer o mínimo, que são SPACs. Muitos consideram SPACs literalmente golpes a céu aberto. E eu não tenho muitos motivos pra discordar.</p>
<p>E agora você cria a tempestade perfeita. Uma pandemia, quarentenas e ondas massivas de pânico que abrem os cheques em branco de todos os governos, emitindo volumes massivos dinheiro. Aumentando ainda mais a inflação no mercado financeiro, que já tava inflacionado. Por isso você tem tanta nova startup recebendo investimento. Muitos querendo abrir IPO o quanto antes pra aproveitar a onda ou se vender pra algum SPAC.</p>
<p>A lei do dia é captar dinheiro da população, seja diretamente ou indiretamente convencendo instituições como fundos de pensão. E eles não tem muita opção porque a taxa básica de juros tá no zero e investimentos mais seguros como renda fixa e tesouro tão rendendo pouco ou nada. Só resta ir pro mercado de risco. Entenderam como as coisas vão fechando?</p>
<p>Eu fico sempre suspeito de empresa que aumentou sua propaganda do nada falando &ldquo;olha como nossos números são da hora&rdquo;. O marketing funciona assim: você não tem lucro, então chama &ldquo;despesa&rdquo; de &ldquo;investimento&rdquo; e vai falando assim: nossos investimento aumentaram em X milhões, aumentamos o número de funcionários pra Y milhares, nossa fatia do mercado aumentou Z porcento. Mas você não vê menção à palavra &ldquo;lucros&rdquo; ou &ldquo;quando&rdquo; pretendem dar lucro.</p>
<p>E outro sintoma fácil de ver é quando, de repente, certa empresas começam a publicar como tem roadmaps de investimento e começam a contratar a rodo. É o que eu chamo de engordar o porco antes do abate. Já que não tem lucro, já que talvez a receita não seja grande coisa, faz parecer que você é a próxima Amazon, contrata gente como se não houvesse amanhã pra parecer que é uma empresa muito melhor do que realmente é, preparando pra vender pra alguém. E agora que tem um monte de SPAC, aumentou o número de compradores.</p>
<p>E as outras grandes empresas tradicionais também querem comprar pra aumentar o valor das ações. Não se engane, o que todo mundo tá correndo pra fazer é engordar esse porco o mais rápido possível pra aproveitar esse momento do mundo onde todos as estrelas se alinharam pra facilitar. A tempestade perfeita.</p>
<p>Não fiquem surpresos de serem convidados pra uma startup promissora, com um roadmap bonito, e bla bla pra depois ver ela sendo vendida e os donos dando exit e saindo o mais rápido possível. O objetivo nunca foi criar bons produtos e bons serviços e ter lucro, mas sim alavancar o que tem, passar batom no porco pra você se convencer que tá indo pra próxima Amazon. As coisas não são fáceis assim. E aqui vale aquele velho ditado: se a esmola é muita até o santo desconfia.</p>
<p>Dependendo de quem você ler, vão te dizer que essa mamata de SPACs que inflaram ano passado tão estourando agora. Segundo a Bloomberg o volume de IPOs normais voltou a superar os de SPACs que, até março deste ano, ainda era gigante. Olha nesse gráfico, a parte amarela é o número de IPOs e em branco o de aquisições por SPACs, os famosos negócios de cheque em branco. Em Abril crasheou a níveis que não se via a meses. Não dá pra dizer ainda, mas é possível que o dinheiro que muita gente contava vai secar. Provavelmente pode ter a ver com notícias de que a SEC finalmente começou a investigar essas possíveis fraudes.</p>
<p>Alguns comparam essa bolha de tech com a das pontocoms do começo do século. Por menos que isso a bolha estourou. Já passamos desse ponto faz algum tempo. Ou você acredita que uma Tesla vale o que vale? No começo de 2020 uma ação da Tesla valia 80 dólares. Em maio de 2021 tava valendo 630 dólares. É mais de 600%. É a empresa que mais engorda o porco. Promessas e mais promessas. O Musk aprendeu como lidar com redes sociais e fazer propaganda. Entre um produto que funciona ela inventa meia dúzia que é só promessa. E assim vai indo.</p>
<p>Esses são alguns sintomas que vejo só ao meu redor. Eu como investidor até que conservador, fico longe de VC ou SPAC. Hoje não é dia ainda de falar de criptomoedas, mas com todos os governos imprimindo dinheiro como se não houvesse amanhã e inflação chegando, obviamente parte do meu investimento eu deixo em criptomoedas, metais (ouro, prata) e commodities. Em momentos assim é importante ter alguma coisa que não tem como multiplicar do nada. Se uma hiper-inflação chegar, são os ativos que não vão perder valor.</p>
<p>Se você não tem dinheiro sobrando pra investir, não tente multiplicar fácil fazendo manobras arriscadas que você certamente não entende e nenhum video de youtube vai conseguir ensinar. Como mexer com opções, derivativos ou investimento com margem. Isso é cassino mil vezes piorado. É 100% de certeza que você vai perder e ainda vai ficar devendo pra alguém.</p>
<p>A única coisa que eu considero sensível agora é evitar ficar empolgado e fazer financiamentos de longo prazo. Embora os juros pareçam razoáveis, os preços de tudo tão inflacionados. É receita pra dar ruim. E eu tomaria muito, mas muito cuidado com promessas de ir pra fora do país. Todo mundo tá engordando o porco, cansei de ver empresas desconhecidas de fora oferecendo isso. Eles ganharam tempo por causa das quarentenas e fronteiras fechadas. Na hora do vamos ver, dão pra trás.</p>
<p>O momento agora é de acumular fundos e não de gastar a menos que realmente precise. Se não deu pra surfar esta onda, vão vir outras, mas o risco é você cair em FOMO - que é fear of missing out -, de ver os outros se dando bem e só você não, daí entrar numa aposta arriscada fraudulenta e perder tudo. Nunca invista em nada que você não estudou muito bem. E nunca, nunca, jamais siga gurus financeiros. Não existe riqueza fácil.</p>
<p>Assim como aconteceu em outras bolhas, milhares ou milhões de investidores de varejo não só estão comprando ações de empresas que eles viraram fãs, como Tesla da vida, mas estão comprando opções de compra. Foi o que já expliquei: você vê a ação hoje custando 200 dólares, mas como é fã do Musk, acha que vai chegar fácil em mil dólares, então compra opção de compra alavancado. Porque quando expirar  você tá apostando que vai estar mil, mas aí só tem que pagar os 200 que é o preço de hoje.</p>
<p>O problema é se a ação cair, digamos pra 100 dólares. Agora você continua sendo obrigado a pagar os mesmos 200 e tomar prejuízo. Se investiu com margem, vai tomar chamada de margem e vai se endividar ou quebrar. Isto é uma recomendação: não brinque com opções e muito menos combinado com margem, é receita pra desgraça. Nem todo mundo nasceu pra ser trader. E é isso que pode acontecer se a bolha estourar: milhões de pessoas tomando chamada de margem ao mesmo tempo, sem tempo pra fazer nada a não ser ver o colapso multiplicando seu prejuízo, causando um efeito dominó de crash.</p>
<p>E não custa avisar de novo: nada do que falei é recomendação financeira. Não compre ou venda nada por causa do que falei. Quando eu falo de cassino fica parecendo que sou anti-apostas, mas nada disso, sou totalmente a favor. Se ninguém se arriscasse, tudo seria mil vezes mais devagar porque de fato, no meio de mil lixos, sai uma Apple da vida de vez em quando. Alguém teve que apostar nos novecentos e noventa e nove outros que deram errado.</p>
<p>Todo mundo é adulto e se você se arrisca e perde, a culpa é 100% sua, de mais ninguém. Ninguém botou uma arma na sua cabeça pra fazer a aposta. Existem formas de fazer investimentos mais seguros, mas pra isso você precisa fazer o mesmo que em qualquer profissão: sentar a bunda na cadeira e estudar. Isso leva anos.</p>
<p>Este canal não é feito pra ninguém que acredita em leprechauns e pote do ouro no fim do arco íris, só em estudo e trabalho, então se ficaram com dúvidas mande nos comentários abaixo, se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal e clique no sininho, e compartilhem o video pra ajudar o canal. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>economia</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>startups</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #90 - O que os Cursos NÃO te Ensinam sobre Mercados</title><link>https://akitaonrails.github.io/2021/01/06/akitando-90-o-que-os-cursos-nao-te-ensinam-sobre-mercados/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2021/01/06/akitando-90-o-que-os-cursos-nao-te-ensinam-sobre-mercados/</guid><pubDate>Wed, 06 Jan 2021 10:30:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;a href="#descri%c3%a7%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;p&gt;Esta é a edição da palestra que dei no evento #DoWhile da Rocketseat no dia 15/12/2020. Ela serve como um resumo de vários assuntos importantes do canal então aproveito pra deixar como introdução pra quem está chegando agora. Durante o vídeo vou mostrando as thumbnails dos diversos videos onde entro em detalhes sobre cada assunto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E sendo o 1o vídeo do ano, deixo meu FELIZ 2021!! 🥳🎊🎉&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<h2>DESCRIÇÃO<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Esta é a edição da palestra que dei no evento #DoWhile da Rocketseat no dia  15/12/2020. Ela serve como um resumo de vários assuntos importantes do canal então aproveito pra deixar como introdução pra quem está chegando agora. Durante o vídeo vou mostrando as thumbnails dos diversos videos onde entro em detalhes sobre cada assunto.</p>
<p>E sendo o 1o vídeo do ano, deixo meu FELIZ 2021!! 🥳🎊🎉</p>
<p>ERRATA: no tweet do cara investindo e calculando juros errados, dependendo de como interpretar o texto dele (e aqui fica pior, porque além de tudo ele tem dificuldade de explicar) fica ainda pior a matemática. Se considerar que ele achou que dividindo o dinheiro dele, digamos 70 mil reais, em 7 fundos, colocando 10 mil em cada, e cada um a 0.5%, não vai ser 7 x 0.5% obviamente e sim um total de &hellip; 0.5% porque isso é juros simples. Eu ainda superestimei ele levando pra juros compostos. Enfim, esse tweet é um completo desastre não importa como você interprete.</p>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Agradecimentos pelo convite de participar neste evento da RocketSeat e de poder compartilhar algumas idéias com todos vocês. Imagino que muitos estão começando a estudar e muitos também tentando reciclar conhecimentos e aprender coisas novas pra se diferenciar. Hoje eu quero dar um passo atrás e tentar abrir um pouco os horizontes.</p>
<p>Pra quem não me conhece, eu sou desenvolvedor de software há quase trinta anos. Desenvolvedor do que? Front, back, infra, segurança, mobile, gerente, PO, consultor, se tem alguma posição no mundo TI eu provavelmente passei por ele. E nos últimos dez anos administro minha própria empresa de outsourcing de desenvolvimento, que hoje tem quase cem desenvolvedores, com um dos menores índices de turn over do mercado, atuando em projetos daqui e maioria nos Estados Unidos.</p>
<p>Nos últimos dois anos comecei um canal no YouTube como hobby pra compartilhar as experiências e conhecimentos que acumulei durante esse tempo todo, então não deixem de seguir o canal Akitando pra ter mais detalhes do que vou falar hoje. Se já assiste meu canal, vou repetir um pouco o que contei nos vídeos, mas vale relembrar.</p>
<p>Depois de passar anos pensando a respeito, se tem uma coisa importante que eu acho que pouca gente entende, seja iniciante ou seja experiente, é o conceito da lei de oferta e procura. Aí você pensa, “como assim, lógico que eu sei, se um produto tem muita procura mas não se consegue fabricar rápido o suficiente, tipo o novo Playstation 5, então o preço vai subir absurdamente”. Exatamente, está correto, e o inverso também é verdade. Se existisse mais Playstations do que tem de demanda por ele, os preços iriam cair mais rápido.</p>
<p>Pense em você fazendo cursos. Parece fácil, faça dois ou três cursos, gaste seis meses estudando, e parece que quase garantido tem uma oferta de emprego já pra você. Isso não é normal, é um momento do mercado de alta demanda. Só que alta demanda nunca dura pra sempre, ela vem em ciclos. Tem ciclos de abundância e ciclos de depressão e dica pra vocês: estamos saindo do último ciclo de abundância, que começou uns 10 anos atrás.</p>
<p>Agora pense, com a quantidade enorme de cursos aparecendo, se tá tão fácil criar centenas de novos programadores a cada seis meses ou um ano, significa que a oferta de programadores  iniciantes em breve vai ultrapassar a demanda. E portanto, o valor de cada um de vocês vale menos e menos. Porque é fácil qualquer um saber o que você sabe.</p>
<p>Outro dia eu vi um tweet que me deixou horrorizado. Alguém tava fazendo um investimento num fundo imobiliário porcaria. Ele tava super animado porque ofereciam rendimentos de meio porcento ao mês. E ele entrou em sete fundos, cada um oferecendo esse meio porcento, ou seja, na cabeça dele seria 7 vezes zero ponto cinco que dá três e meio “porcento” ao mês e vezes doze meses, daria quarenta e dois porcento!! Imagina, investe dez mil reais em janeiro e no fim do ano vai ter catorze mil?? Investimento da China!</p>
<p>Cara, se você ouviu o que eu acabei de falar e se perdeu todo nos números, ou pior, se concordou com o raciocínio do cara, fica preocupado, aliás, fica BEM preocupado porque isso é juros compostos e ao final de doze meses não é quarenta e dois porcento e sim perto de seis porcento só. Pior, se subtrair a inflação anual de uns quatro porcento, se tirar a taxa de administração dos fundos, se sobrar um porcento no fim de um ano vai ser muito. Ou seja, o cara tava imaginando que em dezembro ia ter mais de quatro mil reais de lucro mas na realidade seriam só uns cem reais. Se você chegou nesse resultado de cabeça também, parabéns, talvez você tenha futuro.</p>
<p>Durante trinta anos eu vim acompanhando programadores, de iniciantes até virarem seniors, em todos os tipos de linguagens, em todos os tipos de projetos, com todos os tipos de formação diferentes e o que mais me deixa assustado é como a grande maioria faz contas que nem o cara desse tweet. É com esse nível de raciocínio que vocês engolem propostas salariais de startups, acreditando em números ilusórios. A realidade é que a grande maioria dos programadores não sabe matemática básica, de nível ginasial.</p>
<p>Isso porque a maioria das pessoas nunca teve vontade de aprender e simplesmente se aproveitou de um sistema de ensino que manda você decorar meia dúzia de coisas, dá perguntas simples de múltipla escolha pra resolver, metade chutando, e no final te dá um certificado e você acredita que aprendeu alguma coisa. Agora some isso com um momento de mercado aquecido, que tá contratando qualquer coisa, de qualquer qualidade, e você vai ter um exército de pessoas mal qualificadas que vai ficar surpreso de porque com o passar do tempo tá ficando mais e mais difícil conseguir aumentos ou mesmo ser aprovado em posições maiores em outras empresas.</p>
<p>Porque seu valor é diretamente proporcional à sua produtividade, ao seu raciocínio rápido, à sua capacidade de receber problemas, que nem podem ser consideradas difíceis, como esse tweet que acabei de falar e imediatamente chegar na resposta correta. Essas coisas não vêm de graça. É a diferença de quem estudou e ralou quatro anos num curso de ciências da computação e quem passou fácil em provas fáceis em cursos de seis meses. É incomparável. Mas, cuidado, com o que eu acabei de dizer, vocês podem achar que estou dizendo pra obrigatoriamente fazer faculdade. Lembrando, eu mesmo não me formei, mas os dois primeiros anos que fiz de ciência, onde só tinha matérias de matemática, economizaram alguns anos na minha formação de autodidata.</p>
<p>Isso porque existem dois tipos de cursos: os que te ensinam ferramentas e os que te ensinam a aprender. Os que ensinam ferramentas tem validade super curta, os que te ensinam a aprender duram anos a fio. Infelizmente você só vai entender de verdade essa diferença depois de muitos anos. Quem é jovem talvez só conheça um mundo onde parece que a internet sempre existiu e sempre vai continuar existindo igual. Povo da minha geração lembra de uma época onde a internet não existia. Faz muita diferença ter perspectiva de tempo, de longo prazo.</p>
<p>Por exemplo, nos anos 90 as linguagens mais disputadas eram totalmente diferentes das de agora. Talvez fossem Visual Basic, Delphi e Java. Você gastou seis meses estudando Visual Basic, agora você se acha o fodão. Passa a virada do século vinte e a demanda por programadores de Visual Basic cai dramaticamente, agora as linguagens mais demandadas talvez fossem PHP, ASP, talvez Flash até.</p>
<p>Agora, você de Visual Basic gasta mais tempo irritado, dizendo como esses moleques de PHP e ASP não entendem as qualidades do Visual Basic e que essa tal de Web é só uma moda e já já vai passar. Daí passa mais dez anos, agora as linguagens mais desejadas eram Objective-C, Ruby, Javascript. E como foi ficando o cara de Visual Basic, que era o rei dos anos 90? Cada vez sem opções e perdendo todas as ondas de novas tecnologias. Ele perdeu a primeira onda da Web, a onda das redes sociais, a onda do mobile, a onda dos e-commerces e assim por diante. Hoje as linguagens mais demandadas talvez sejam Python e frameworks como Flutter ou React. O que acontece nos próximos dez anos? Eu não contaria que as coisas vão continuar iguais, porque a tecnologia está em constante evolução. Não tenta adivinhar, é perda de tempo.</p>
<p>Sabe o que não envelhece, saber fazer continhas bestas como a dos rendimentos de investimento que eu acabei de contar do tweet. Só que nenhum curso oferece formação em matemática básica, cálculo, álgebra linear, estatística e probabilidade. Sabe por quê? Porque nenhum aluno tem nem a paciência pra fazer e nem acha que devia pagar pra aprender contas porque fazer contas é chato. E ainda acha que programação é saber seguir tutoriais, passo a passo e copiar e colar pedaços de código de sites como stackoverflow. Programação é ensinada como se fosse montagem de Legos, e tá longe disso, muito longe.</p>
<p>É muito fácil seguir tutorial, óbvio, já tá descrito passo a passo tudo que tem que fazer. Copia o comando tal, cola no terminal, dá enter e cruza os dedos. Deu certo? Agora digita outro comando, dá enter e vai aparecer outra mensagem e assim vai indo. O que você aprendeu? A ler, copiar e colar. Todo curso baseado em seguir tutorial te ensina só copiar e colar coisas e mais nada. Você não sabe porque tá digitando esses comandos nessa ordem, você não sabe porquê essas ferramentas existem e quais problemas resolvem de verdade. Você não sabe que alternativas existem e que combinações diferentes pode fazer pra ter resultados melhores, porque cursos não ensinam você a raciocinar, apenar a seguir.</p>
<p>E no começo não tem nenhum problema, todo mundo precisa começar de algum lugar e eu comecei igual, seguindo tutoriais. Eu comecei a programar quando adolescente, talvez aos catorze ou quinze anos. Passei quase um ano lendo um livro da linguagem da época, dos anos 80, dBase, e conseguia fazer programinhas e até comecei a fazer uns trabalhos de freelancer. Algumas vezes dava uns bugs que eu não tinha ideia porque, mas mexia de um lado, mexia de outro, do nada começava a funcionar e fui seguindo assim. Aos dezessete resolvi entrar na faculdade de ciências da computação e foi um choque absurdo.</p>
<p>Eu entendi que tudo que eu sabia não servia pra quase nada. Primeiro porque a linguagem dBase praticamente já tinha morrido quando entrei na faculdade, descobri que existiam coisas como C ou Pascal, e fiquei chocado que não tinha quase nada de programação durante dois anos inteiros da faculdade, ou seja, metade do curso de quatro anos era integral só de matérias de matemática. E como todo mundo, eu fiquei abismado porque sempre achei um conhecimento inútil que eu nunca ia precisar.</p>
<p>Levou uns cinco anos pra eu de fato começar a entender porque aprendi toda aquela matemática. De repente eu precisava desenvolver sistemas que tinham funcionalidades como pesquisar palavras no banco de dados, e os códigos que eu achava pra copiar e colar eram lentos quando o banco de dados crescia e eu sabia entender porque. Eu lia as documentações, código fonte e conseguia criticar matematicamente a complexidade e saber porque um select like de SQL que todo mundo faz sem pensar é horrível em comparação a usar coisas como Elastic, especialmente com alto volume de dados.</p>
<p>Quando começaram a falar de data science e machine learning, imediatamente me relembrou as coisas que aprendi na faculdade. Eu sabia que machine learning é basicamente um pacote de tudo que eu aprendi em estatística e probabilidade. Até em assuntos da atualidade, como epidemiologia de Covid, me relembrou coisas como o teorema de Bayes, que é uma das coisas que se usa em machine learning. Você simplesmente não tem como escolher a ferramenta certa pra usar em cada caso se sequer sabe fazer continha básica de juros compostos de rendimentos.</p>
<p>Por isso muita gente vai pras ferramentas mais simples de aprender, as que é só encaixar um botão na tela e não pensar muito além disso. Trabalho de encaixar peça de Lego. Mas sendo a coisa mais fácil, é o que todo mundo vai pensar primeiro também, então se forma um volume grande de pessoas procurando emprego em mercados que, apesar de aquecidos agora, tendem a diminuir no médio a curto prazo. Quando a demanda cair, a prioridade não vai ser só sair produzindo funcionalidades novas a rodo e sim em otimizar e aumentar a qualidade do que foi produzido até agora, pra conseguir lucrar mais com a mesma coisa.</p>
<p>Agora você precisa de gente que sabe raciocinar e não só seguir passo a passo, que sabe pegar o que já existe e tirar mais valor sem aumentar quantidade de código. Não tem uma solução pronta pra otimizar coisas, pra fazer o mesmo software funcionar duas vezes mais rápido, ou pra fazer a mesma infraestrutura aguentar três vezes mais usuários sem ficar adicionando mais máquinas. Coisas como melhorar o software pra oferecer de primeira o produto que o usuário tá procurando no menor número de cliques. Tudo isso exige capacidade de aprender rápido.</p>
<p>Mudar ferramentas, seja bibliotecas, frameworks ou a linguagem que você gosta é difícil. Todo mundo tende a se apegar à primeira ferramenta que aprende, e tenta resolver todos os problemas com ela, mesmo quando não é a mais adequada. Porque é mais cômodo. Quando a situação claramente exige mudar de ferramenta, os iniciantes tendem a ficar na defensiva, justificando e defendendo um time que já perdeu, tipo o cara de Visual Basic dos anos 90 que falei antes. É o sinal de que você perdeu o controle e nunca controlou a ferramenta e sim a ferramenta te controlou, você se tornou escravo de ferramentas e de marcas de produtos.</p>
<p>Só que um programador de verdade é promíscuo, tem zero lealdade a ferramentas e marcas. Não fica defendendo Angular, ou Google. Tecnologia não é time de futebol, não é pra ter torcida organizada, ficar tatuando marca de tecnologia ou sair na rua pra defender. Ferramenta é só isso, ferramenta. Você já viu uma discussão de alguém defendendo martelo e outro defendendo chave de fenda? Não faz sentido né? Então defender Python e Javascript é a mesma coisa. Python é um martelo, Javascript é uma chave de fenda. Se precisar bater um prego, usa Python, se precisar girar um parafuso usa Javascript e ponto final. E pensando nisso? Se você só sabe martelo o que acontece? Todos os problemas pra você parecem pregos. E daqui a pouco você tá batendo um parafuso com martelo, que nem um idiota.</p>
<p>A profissão de programação é muito maior do que sua linguagem favorita. Infinitamente maior. Pra onde sua carreira pode ir? Pra onde você quiser, não tem como saber hoje o que vai precisar daqui dez anos. Mas se tem uma certeza absoluta é que se daqui dez anos você ainda estiver usando a mesma ferramenta que aprendeu hoje, você certamente limitou sua carreira demais e perdeu todas as oportunidades de evoluir.</p>
<p>Recentemente tivemos notícias de crimes de internet no Supremo Tribunal Federal e no Ministério da Saúde. Quando eu vejo essas notícias, preciso até pausar um segundo e colocar a mão na cabeça pra acreditar no que tô lendo. Coisas crassas, imbecis, como senha de conexão de banco de dados trafegando no javascript no front-end. Senhas de usuários sendo gravados em banco de dados como texto aberto. Se você não entende a gravidade do que isso significa, você ainda tem muito pra aprender.</p>
<p>Ninguém em sã consciência grava senha de usuário em banco de dados. Seria igual um cirurgião achar que é opcional lavar as mãos antes da cirurgia. Já pensou? Se qualquer site que você visitar te oferecer a opção de receber a senha que você esqueceu por e-mail, não precisa pensar duas vezes, esse site tá inseguro e o programador que fez é um amador completo. O do vazamento de dados do Ministério da Saúde foi um amador completo. Hoje em dia é fácil invadir sites, não precisa ser nenhum gênio. Programadores assim já deixa tudo aberto.</p>
<p>Lá por 2004 eu era um dos consultores num dos maiores projetos da Vivo, que tinha se formado fazia pouco tempo. Pra quem não sabe ou não lembra, a Vivo foi a unificação de meia dúzia de telecoms de vários estados do Brasil, em São Paulo era a antiga Telesp Celular. Esse projeto se chamava Atena e ia unificar os bancos de dados e sistemas de todos eles, coisa gigante que levou mais de dois anos e centenas de programadores e consultores.</p>
<p>Pois bem, quando cheguei lá recebemos ordens de usar um framework proprietário. Se você é de Java, pensa um Spring feito do zero. Se você é de Javascript pensa um Express e Angular feitos do zero. Esse framework foi desenvolvido pela BEA que foi comprada pela Oracle, pra facilitar imagina só a Oracle, que é gigante. Quando eu fui vendo como esse framework funcionava eu senti um cheiro de podre, na minha cabeça pensei, puts, esse troço nunca libera toda a memória que aloca. Pra tirar a dúvida fiz um teste de stress nele num servidor e dito e feito, o framework alocava memória sem parar e nunca devolvia pro sistema e crasheava meu teste. Eu mandei e-mail pro meu chefe avisando e ele marcou uma reunião com os arquitetos da Oracle.</p>
<p>Eu fui acusado de estar tentando falar mal do projeto deles porque eu era de outra consultoria e como ele era o fodão, porque era arquiteto certificado da Oracle e bla bla bla. Vou fazer o que, fiquei quieto e pensei “bom, eu avisei, não é problema meu”. Passou alguns meses, minha alocação lá acabou e depois troquei ideia com meu antigo chefe pra perguntar se os sistemas tinham ido pro ar. E ele me falou, “pois é, a gente precisa rebootar os servidores em produção a cada meia hora”. Obviamente, eu tava certo.</p>
<p>Quando eu falo sobre matemática, o povo fica intimidado e com medo, porque todo mundo odeia ver aquele monte de número e montes de equações. Nem eu gosto disso. Eu gosto do pensamento matemático, de como a gente aprende a enxergar os dados e todas as formas que eu posso manipular esses dados, como enxergar funções, que são basicamente equações, e acostumar a pensar não em como são feitos, mas como são delimitados, definir os limites, a complexidade, e como manipular os dados com funções diferentes. Pensamento matemático é aprender a não seguir procedimentos cegamente e enxergar as possibilidades diferentes do procedimento, incluindo como detectar erros como no caso que contei agora.</p>
<p>Pense assim, você sofreu lavagem cerebral por mais de dez anos da sua vida. Do fundamental até sair da faculdade, sua rotina foi receber um currículo bem definido, com cada matéria exata que era obrigado a estudar. Sempre tinha um professor cagando regra do que você tinha que fazer. As provas eram previsíveis, bimestrais, com a matéria exata que cai em cada uma. Mesmo se você fosse o preguiçoso do preguiçoso, você sabia o que ia cair na prova. E foi fazendo assim, estudando o suficiente pra tirar 5 e passar de ano.</p>
<p>Agora você virou adulto e tá no mundo real. Não tem mais currículo que diz o que precisa estudar daqui pra frente. Não tem mais um professor que te diz o que fazer. Os problemas da vida aparecem do nada, sem aviso. Provas que você não sabe o que vai cair, mas precisa resolver sem ter um bimestre de aviso pra estudar antes. É totalmente estressante, porque depois de sair da faculdade você não tá diferente do moleque do fundamental, no primeiro ano de novo. Ninguém te ensinou como o mundo real funciona e como ele é diferente da escola.</p>
<p>O que seu instinto manda você fazer? Procurar cursos, que têm currículo bem definido, professor pra te dizer o que fazer, e provas fáceis com data pré-marcada e matéria pra estudar bem definida, tudo que te dá a ilusão de estar progredindo. E você fica frustrado quando tenta aplicar na vida real e tem dificuldade. Na sua cabeça o mundo da programação realmente é difícil, porque você tá tendo muita dificuldade, e a vida real provavelmente está errada porque os projetos não são bem definidos, seus chefes não são como seus professores que te dão instruções exatas do que fazer, e você se sente injustiçado e cada vez mais frustrado.</p>
<p>Isso porque até você assumir que te induziram a aprender errado a vida inteira, tudo vai ser difícil, você sempre vai enxergar o mundo como um lugar que te maltrata, onde mesmo que você se esforce pra seguir a matéria, o mundo continua te dando situações que não tinha no curso, e seus colegas e chefes dificultam sua vida te dando problemas que você nunca aprendeu a resolver. Só que a realidade é que você simplesmente tá vendo as coisas do jeito errado, não é o mundo que é difícil, é você que ainda não aceitou que tá fazendo as coisas do jeito errado.</p>
<p>Aprender não é decorar matérias e fazer uma prova. É enxergar o problema e aceitar que te falta conhecimento, procurar você mesmo por esse conhecimento, testar hipóteses e falhar, assumir o fracasso e criticar o que você fez de errado, pra no próximo problema saber lidar melhor e assim sucessivamente, um pequeno passo de cada vez, ao longo de anos, sem nunca poder dizer que “sabe tudo” de qualquer coisa. Programação é uma profissão cujo estudo não termina quando você se forma na faculdade ou quando tira certificados nos cursos. Ele só começa a partir dali pra você estudar sozinho e saber descobrir sozinho o que estudar primeiro.</p>
<p>Eu estou nessa carreira faz uns trinta anos, desde o fim dos anos 80. Apesar de ter me tornado empresário eu continuei programando tempo integral em projetos até quase dois anos atrás. Nesse período eu aprendi uma dúzia de linguagens, frameworks, bibliotecas. A cada geração deixei pra trás todas as ferramentas que tinha aprendido e ia aprendendo coisas novas. E quanto mais eu fazia isso, mais aprender coisas novas ia ficando mais e mais fácil.</p>
<p>Hoje eu consigo aprender uma linguagem nova, a ponto de ficar minimamente produtivo, em um mês. Antigamente levava pelo menos um ano. E isso só é possível porque desde o começo eu tive o primeiro choque quando entrei na faculdade, de entender que eu não sabia nada do que achava que sabia e ver a minha primeira linguagem, que demorei dois anos pra aprender, se tornando obsoleta e ficando pra trás. Aprendi a desapegar e a ter humildade de entender que eu não sabia nada.</p>
<p>Pior, antigamente, eu tinha dois, três livros à minha disposição. Não tinha Amazon pra consultar e pedir online. Porra, não tinha internet, então não tinha fórums, não tinha comunidades pra pedir ajuda. Hoje, se você quiser aprender a base da ciência da computação pode entrar nos sites de grandes universidades como Stanford, Harvard e tem as aulas gravadas de cálculo, álgebra e tudo mais que qualquer boa faculdade ensina. É só ter a disposição pra sentar a bunda na cadeira por 2 anos e aprender.</p>
<p>Faculdades, cursos, e qualquer tipo de instituição de ensino tradicional não são ruins. Mas elas são rodinhas na bicicleta. Se você entender isso, não tem nenhum problema. O problema é você achar que na vida real dá pra ir muito longe com rodinhas. Quanto mais cedo tirar as rodinhas e começar a cair, mais cedo vai aprender a levantar e pedalar sozinho. Aprender de verdade dói, e dói bastante. Mas tem que doer, exatamente por causa da lei da oferta e da procura. Tudo que é muito fácil, qualquer um pode aprender, e por isso mesmo, vale muito pouco. Tudo que não tá doendo, por um longo período de tempo, tem muito pouco valor e quase nenhuma evolução lá na frente.</p>
<p>Não é só a vida que é injusta, talvez seja pouco esforço mesmo. Lembre-se, é muito fácil ganhar bem num momento temporário de mercado que tá aquecido. Quem realmente tem valor é quem aprendeu a aprender sozinho e a se virar e consegue nadar num mercado em depressão. Dado tempo suficiente, os mercados naturalmente filtram os caras que são bons daqueles que só tiveram a sorte de entrar no mercado quando tava aquecido. Mas esse ciclo vai inverter em breve, e se eu fosse vocês ficaria preocupado.</p>
<p>Como alguém que lidou com contratações e treinamentos e viu a evolução de literalmente centenas de desenvolvedores. É muito triste ver alguém que ainda é iniciante, sendo incorretamente super valorizado num mercado aquecido, ficando cego achando que já é bom, e congelando a evolução, fazendo a mesma coisa por muito tempo e ficando pra trás quando o mercado muda de direção. Daí ele fica sem entender porque antes era valorizado mas depois não consegue mais subir. E não entende que o mundo real não é estático, não fica parado. Ele tem altos e baixos. Quem nasceu na alta não entende a baixa. Só quem já caiu é que enxerga e valoriza as oportunidades.</p>
<p>Com tudo isso dito, espero que alguns de vocês tenham ficado preocupado o suficiente pra repensar o que estão fazendo agora, correndo atrás de recompensa fácil e tomando atalhos, ou tá se preparando pra enfrentar o desconhecido que o mundo do futuro vai te apresentar e conseguir finalmente surfar as grandes altas quando elas voltarem. Por hoje é isso aí, espero ter ajudado a aumentar os horizontes do que vocês imaginavam, se curtiram o video mandem um joinha e convido vocês a verem o meu canal pra ouvir os detalhes de todas as coisas que acabei de contar. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>aprendizado</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #52 - 10 Mitos sobre Tech Startups | Parte 1</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/06/25/akitando-52-10-mitos-sobre-tech-startups-parte-1/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/06/25/akitando-52-10-mitos-sobre-tech-startups-parte-1/</guid><pubDate>Tue, 25 Jun 2019 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;errata: no começo do vídeo eu falo &amp;ldquo;positivismo&amp;rdquo; mas na realidade queria dizer &amp;ldquo;otimismo&amp;rdquo;. não tem nada a ver com a filosofia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tema de hoje vai ser dividido em 2 episódios. Vamos cobrir os primeiros 5 mitos dos 10 sobre Tech Startups e continuamos o resto na semana que vem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desta vez eu resolvi pegar uma palestra que apresentei nos últimos anos chamado &amp;ldquo;Desmistificando Mitos de Startups&amp;rdquo; e adaptei pro formato de video do canal, depois digam se gostaram disso.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<p>errata: no começo do vídeo eu falo &ldquo;positivismo&rdquo; mas na realidade queria dizer &ldquo;otimismo&rdquo;. não tem nada a ver com a filosofia.</p>
<p>O tema de hoje vai ser dividido em 2 episódios. Vamos cobrir os primeiros 5 mitos dos 10 sobre Tech Startups e continuamos o resto na semana que vem.</p>
<p>Desta vez eu resolvi pegar uma palestra que apresentei nos últimos anos chamado &ldquo;Desmistificando Mitos de Startups&rdquo; e adaptei pro formato de video do canal, depois digam se gostaram disso.</p>
<p>Infelizmente até hoje ainda repetem muitos mantras e dogmas errados e muitos jovens estão perdendo tempo seguindo as celebridades de &ldquo;empreendedorismo de palco&rdquo; e o objetivo de hoje é quebrar esses dogmas.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>A Brief History of Mankind (<a href="https://erenow.com/common/sapiensbriefhistory/69.html"target="_blank" rel="noopener">https://erenow.com/common/sapiensbriefhistory/69.html</a>)</li>
<li>The Myth of The Million-Dollar App (<a href="https://medium.com/swlh/the-myth-of-the-million-dollar-app-62e733d8b07a"target="_blank" rel="noopener">https://medium.com/swlh/the-myth-of-the-million-dollar-app-62e733d8b07a</a>)</li>
<li>Why The Best Idea Doesn’t Always Win (<a href="https://scottberkun.com/2014/why-the-best-idea-doesnt-always-win/"target="_blank" rel="noopener">https://scottberkun.com/2014/why-the-best-idea-doesnt-always-win/</a>)</li>
<li>Vida de Programador - Ninja (<a href="https://vidadeprogramador.com.br/2013/04/10/ninja/"target="_blank" rel="noopener">https://vidadeprogramador.com.br/2013/04/10/ninja/</a>)</li>
</ul>
<p>=== Script</p>
<p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Continuando no tema dos episódios anteriores, eu estou aqui pra tentar equilibrar as coisas. O que você mais vê hoje em dia é positivismo excessivo, ou o que eu chamei de exuberância irracional no penúltimo episódio. Por um lado sim, de vez em quando é muito bom poder se inspirar em alguma coisa mesmo que seja numa fantasia, e eu sou totalmente a favor disso. Tem filmes de ficção que me inspiram muito mais do que a grande maioria das pessoas de verdade.</p>
<p>No episódio de hoje quero explorar algumas coisas que eu considero como mitos no mundo de startups e empreendedorismo em geral. Em particular, eu odeio empreendedorismo de palco. Gente que sequer fundou uma empresa lucrativa enganando as pessoas com pura retórica, sem nenhuma substância além de falar alto e de forma impressionante.</p>
<p>Eu gosto de sempre tentar separar o que é realidade, o que é ficção, o que é wishful thinking e o que é puramente fraude. Em particular, eu sou praticante de uma profissão, no caso programação. E eu fico pessoalmente irritado ao ver fraudes ao meu redor neste mercado de tecnologia. Mas no final das contas eu acho que o fraudador está no seu direito de tentar fraudar. “Vai que cola?” E quem insiste em querer ser enganado, muitas vezes conscientemente ignorando os fatos, merece continuar ser enganado. Querer ser enganado também é um direito, e eu não faço nenhuma questão de achar que adultos devem ser protegidos, pelo contrário.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Eu seria um péssimo investidor. Em particular porque eu não vejo muita graça no jogo de apostas. Outras pessoas são muito melhores do que eu em achar boas apostas e influenciar os resultados, então não me perguntem no que eu apostaria ou não. Apostadores não necessariamente apostam com o único objetivo de ganhar. Claro que ganhar é parte da equação mas eu acho que muitos apostam pela adrenalina do risco, da incerteza. Pura e simplesmente. Assim como pular de paraquedas ou de bungie jump ou mergulhar do lado de tubarões brancos. Nesse sentido eu sou mais conservador, e eu não estou nem de longe dizendo que estou certo. Eu até invejo quem consegue ter e aproveitar esses picos de adrenalina, porque eles realmente servem pra te fazer coisas que você não faria normalmente.</p>
<p>Por experiência própria eu posso dizer que é muito mais fácil arriscar tudo quando você tem muito pouco ou nada a perder, ou pelo menos a sensação de que não tem nada a perder, do que quando você realmente consegue sentir falta do que perderia. Por isso muita gente nos 20 aos 30 anos se sente nessa posição. Depois que você se acostuma com uma rotina, família, bens e patrimônio, daí seria mais a abstinência da falta de adrenalina que levaria a uma decisão de alto risco sem garantias de retorno. Na prática, pessoas diferentes fazem apostas que parecem absurdas por motivos muito diferentes. Egocentrismo de achar que está mais certo que os outros, narcisismo de precisar demonstrar que estava mais certo que os outros, ganância de querer ter mais do que poderia, ou puro esporte mesmo.</p>
<p>Eu não sou contra nada disso. Mas existe uma outra categoria importante, e muito grande, de gente que escolhe empreender porque sente FOMO, o que no mundo de investimentos o pessoal chama de Fear Of Missing Out, ou seja, Medo de perder o bonde. E esse é o pior motivo de todos: cargo cult, seguir os outros só pra não se sentir de fora.</p>
<p>Eu apresentei esse tema como palestra nos últimos anos em alguns eventos e quero condensar em vídeo, dividido em duas partes. Esta vai ser a primeira vez que vou acessar material direto das minhas palestras no episódio, então depois me digam nos comentários abaixo se gostaram. Antes de começar a listar os Mitos, eu queria deixar um pensamento que li no livro Sapiens, de Yuval Harari:</p>
<p>O momento mais marcante e definitivo dos últimos 500 anos veio às 05:29:45 do dia 16 de julho de 1945.
Nesse exato segundo, cientistas americanos detonaram a primeira bomba atômica em Alamogordo, Novo México. A partir desse ponto, a humanidade ganhou a capacidade não somente de mudar o curso da história, mas de encerrá-la.
O processo histórico que levou até Alamogordo e até a Lua é conhecida como a Revolução Científica. A Revolução Científica não foi uma revolução de conhecimento. Ela foi sobretudo uma revolução da ignorância. A maior descoberta que lançou a Revolução Científica foi a descoberta que humanos não sabem todas as respostas pras mais importantes questões.</p>
<p>A intenção de episódios como este não é dar as respostas de tudo mas sim questionar o que achamos que sabemos e com isso incentivar as pessoas a procurarem com mais cuidado em vez de acreditar em receitas mágicas e salvadores da pátria. Isso tudo dito, vamos começar com o Mito número 1, que muita gente repete “Basta ter uma boa idéia”</p>
<p>Falando em Yuval Harari, acho que foi dele também que eu vi o seguinte trecho: Blade Runner (1982) é um filme magnífico, mas há algo de estranho nele. A heroína, Rachael, parece ser uma pessoa jovem e linda. Na realidade, ela é um pedaço de tecnologia. Um robô orgânico (uma replicante) construída pela organização Tyrell. Ela tem a mente de um ser vivo, incluindo memórias extraídas de um ser humano. Tão sofisticada que é impossível de distinguir de um humano sem equipamento especializado. Ela até mesmo “acredita” que é uma humana. O detetive Deckard (Harrison Ford) da polícia de Los Angeles sabe a verdade, que ela é uma inteligência artificial tão perfeita que ele mesmo acaba se apaixonando. Mesmo assim, quando ele quer convidar Rachael para tomar um drink, o que ele faz?
Ele liga de um orelhão!</p>
<p>Existe uma revelação nesse contraste de tecnologias - o milagre biotécnico que é Rachael e esse videofone caricato. Não é que Blade Runner fracassou no futurismo em antecipar o smartphone. Isso é perdoável, e esse nem foi o único filme futurista que errou nisso. Mas quando nos pedem pra imaginar como novas invenções podem moldar o futuro, nossas imaginações tendem a dar saltos tecnológicos que são sofisticados além da compreensão. Imediatamente imaginamos inteligência artificial nível Skynet, ou fazer download da mente humana nível Matrix. Mesmo assim, se nos perguntam como seria nosso dia a dia mundano num mundo sofisticado com androids biológicos, nossa imaginação emperra.</p>
<p>Em 1980, Milton Friedman apresentou sua visão de como os livres mercados poderiam trazer paz mundial numa série de 10 horas do canal PBS chamado “Free to Choose”. Em um clip do seu show, Friedman apresenta seu clássico argumento numa parábola de 2 minutos e meio sobre um objeto bem mundano. Felizmente estamos no YouTube e eu posso só linkar o vídeo dele aqui em cima, mas o ponto é que você dificilmente vai inventar alguma coisa totalmente do zero.</p>
<p>Uma das maiores invenções da humanidade foi a prensa de Gutemberg, que ele inventou em 1440. Até então livros eram artigos de extremo luxo porque precisavam ser escritas à mão, cada cópia era única. Ninguém vai negar a revolução cultural que a prensa causou. Porém lembrem-se de uma coisa: pra existir livros precisamos de papel. E o papel foi inventado na China ~105 AC - e levaria mais mil anos para começar a ser usado fora da China. A própria escrita foi inventada ~3000 AC. Invente a prensa antes da existência da produção de papel e a prensa não vai servir de muita coisa.</p>
<p>Vamos dividir o entendimento em duas palavras que nos confundem. Invenção não é Inovação. Muita gente ainda tem essa concepção de que a idéia é a parte mais importante de tudo. E nada está mais longe da verdade. Qualquer idéia pode ser uma invenção. E invenção pode ser qualquer coisa. São coisas baratas, facilmente patenteáveis. Mas patentes não tem nenhuma atribuição de valor a uma idéia. Idéias são banais e baratas, lembrem-se disso. Mas se é esse o caso e inovações?</p>
<p>A única coisa que realmente importa é a “execução”. Invenção é a parte menos importante da inovação. Inovação aparece quando uma invenção encontra um mercado. Tem um artigo meio antigo de um tal Josiah Humphrey que vou deixar linkado nas descrições que elabora um pouco mais sobre isso, e eu concordo com as conclusões dele. Em particular pra parar de ter medo da sua idéia ser roubada. Se sua idéia tiver algum valor, ela vai ser roubada de qualquer forma. Você não é a Apple, pare de ficar inventando NDA ou non-disclosure agreements antes de falar da sua idéia pra qualquer um, em particular investidores. Lembre-se disso: ninguém está interessado na sua idéia. A única coisa que interessa é a qualidade de execução dessa idéia.</p>
<p>Na minha cabeça um NDA é simplesmente um preço barato pra adquirir uma idéia, se ela realmente fosse boa. E se for caro demais, eu simplesmente não assino. Em praticamente todos os casos que já vi, nenhum vale sequer meu tempo assinando um NDA. Se não quer me mostrar a idéia, não precisa, eu não estou interessado em ver. E já estamos em 2019, por favor não invente mais um Uber de qualquer coisa. Já temos tanto disso que a maioria não vale nada. Por outro lado pouca gente consegue de fato executar e criar o ecossistema que permite um verdadeiro Uber de X, um dos últimos foi os Rappi da vida, que de fato vem funcionando e por isso atraiu uma Softbank. Não foi a idéia, foi a execução. Isso dito, vamos pro Mito 2, o que também todo mundo fala de “basta ter um bom produto”.</p>
<p>Em seu livro “Mitos da Inovação” o autor Scott Berkun, no capítulo 4 que vou deixar o trecho linkado nas descrições abaixo, fala de um dito popular nos Estados Unidos que diz que “se você construir a melhor ratoeira o mundo vai abrir caminho até sua casa” que é a interpretação errada de que a qualidade do seu produto ou da sua idéia fala por ele mesmo. A ilusão de que todo mundo vai disputar lugar na frente da sua casa por sua idéia. Isso nunca vai acontecer, desista dessa noção. Completamente.</p>
<p>Inclusive, sobre a ratoeira do ditado, nos Estados Unidos são cadastrados 400 novas patentes de ratoeiras todo ano, e temos certeza que ninguém tá indo lá bater na porta desses inventores. Existem mais de 4000 patentes de ratoeiras, e mesmo assim só uns 20 chegaram a ser produtos lucrativos. O equivalente das ratoeiras seria “fazer um website ou app melhor do que os que existem”. A única forma de ter alguma chance não é fazer um produto um pouco melhor, a chance é conseguir convencer os outros a se juntar à idéia, como investidores, fornecedores, funcionários, varejistas, clientes e até mesmo competidores. Sim, porque se sua idéia é tão cretina que sequer seus competidores acham que vale a pena o tempo deles, você tá perdido. Não é a idéia, como eu disse antes, é a execução e não tem nada mais importante na primeira etapa do que criar uma rede.</p>
<p>Berkun lista oito fatores que são determinantes no sucesso ou fracasso de uma idéia. Só porque uma idéia parece tecnicamente boa, não existe nenhuma garantia de seu sucesso. Vamos ver alguns desses fatores que ele cita:</p>
<ol>
<li>Cultura - armas de fogo foram inventadas primeiro no Japão antes dos Europeus, mas no Japão a cultura valorizava a espada, o artesanato, a honra. A invenção foi condenada como uma forma desonrada de matar.</li>
<li>Design dominante - quando Christopher Scholes inventou a primeira máquina de escrever ele só queria um design de teclado que não emperrasse. Mas agora na era do computador, poderíamos usar um design melhor, mas o custo de aprendizado é muito grande frente ao design dominante do QWERTY</li>
<li>Qualidade - podemos vender muito até mesmo produtos ruins para o meio ambiente e para a saúde se executado direito (vender fast-food em embalagem de isopor, por exemplo), pensa que qualquer fast food vende muito mais que sua idéia de salvar o planeta.</li>
<li>Gosto - Beta tinha melhor qualidade mas VHS tinha mais tempo de conteúdo, e a prioridade dos consumidores foi tempo mais que qualidade de imagem</li>
</ol>
<p>No final das contas você precisa aceitar que não importa tanto o que você acha da sua idéia. Obviamente o criador da idéia sempre vai achar que ela vale mais do que todo mundo acha. Essa dissonância faz sentido, claro, o seu trabalho é convencer todo mundo que sua idéia é a melhor, através da execução, e parte dessa execução é como você vai convencer as pessoas. Você vai ter que ligar pra pessoas, vai escrever sobre ela, vai falar sobre ela, vai fazer propaganda, vai ter que marketar mesmo, não tem outro jeito.</p>
<p>O Mito número 3 é um favorito pessoal. Digamos que você chegou no ponto em que de alguma forma juntou algum capital, seja via family and friends, bom e velho empréstimo, ou achou algum investidor. Chegou a hora de construir a primeira versão ou protótipo dessa sua idéia. E como todo mundo você faz anúncios procurando bons programadores pra se juntar à sua equipe. E é impressionante como até hoje todo mundo continua escrevendo bullshit como “Estamos procurando um programador ninja ou jedi”. Se você não sabia disso vou te explicar: isso soa como uma piada.</p>
<p>Em 2013 fiz uma sugestão pro Vida de Programador que faz tirinhas de piadas sobre nosso mundo de TI que você pode ver nos links na descrição abaixo. Ele ilustrou perfeitamente o que eu penso sobre programadores Ninja. Programador Ninja é aquele que quando tudo começa a dar errado ele solta uma bomba de fumaça e desaparece.</p>
<p>Todo mundo gostaria de contratar os lendários programadores à la Mr. Robot, que sozinhos começam a digitar qualquer coisa e, com a motivação certa, em 60 segundos conseguem invadir a CIA. Obviamente programadores assim não existem, caso alguém esteja em dúvida. Mas mesmo assim você já ouviu falar de muitos programadores de verdade que se destacam como John Carmack ou Linus Torvalds, programadores que são os equivalente Neymar no mundo de código. Todo programador deveria mesmo aspirar se tornar tão bom quanto eles. Requer muita disciplina, muito estudo, muita prática. Você não costuma ver um John Carmack ou Linus Torvalds perdendo tempo participando de discussão idiota sobre política ou mimimi de porque ficou ofendidinho com qualquer imbecilidade que viu no Twitter. Porque nada disso interessa se seu objetivo é ser o melhor.</p>
<p>Muita gente fala sobre ser um desenvolvedor 10x. De fato existe essa noção de que é possível um desenvolvedor ser 10 vezes melhor ou mais produtivo do que os outros. Nem tanto porque esse indivíduo é 10x melhor, mas eu diria que é mais porque a grande maioria dos programadores faz 10x menos do que poderia. E não to dizendo por pura preguiça, mas porque fazem muitas escolhas erradas de prioridade e não focam no que estão fazendo. Um programador que decide se focar por 30 minutos produz mais do que um que fica dando alt-tab pra discutir política no Twitter o dia inteiro. Quanto mais claro está a tarefa que precisa ser feita, e quanto menos interrupções um programador tiver, tanto causadas por ele mesmo quanto fatores externos, mais vezes produtivo ele vai ser. É só isso.</p>
<p>E pra você que quer contratar esses “rockstar” ou “Jedi”, pare um segundo e pense: porque você acha que alguém como o Torvalds trabalharia pra você? Certamente não será pelos seus olhos verdes, muito menos por causa dos seus anúncios procurando Jedis, então pare de passar vergonha.</p>
<p>O Mito 4 é outro que é “cringe” de ouvir, dá até vergonha de ouvir alguém realmente dizendo isso em público. O famoso “Seja seu próprio chefe” ou pior “Siga seus próprios sonhos” ou pior ainda “Faça o que Ama”. Existe essa noção idiota de que você trabalhar pra alguém é estar sendo usado pra realizar o sonho dos outros. Vamos destruir essa noção primeiro.</p>
<p>Não existe isso de estar sendo escravizado e trabalhando pros outros de graça. Quando foi a última vez que seu chefe colocou uma arma na sua cabeça? Você trabalha acorrentado? Se você é remunerado pelo seu trabalho, não existe nada de negativo nisso. Aliás, salários sempre é um assunto complicado de explicar mas sempre parta do seguinte princípio: tirando poucas exceções você normalmente recebe exatamente quanto devia receber.</p>
<p>Não vou explicar isso hoje, mas reflita sobre isso: você sempre pode ganhar mais, se arriscar mais. Abrir uma empresa própria é um enorme risco, especialmente no Brasil, especialmente se você não tem idéia de como fazer isso e não está disposto a gastar o tempo pra aprender da forma certa. Dependendo de onde você buscar pesquisas sobre mercado, o número costuma estar perto de no mínimo 6 de 10 empresas novas que abrem, vão fechar antes de completar 5 anos. A pergunta que você deve fazer não é se “eu ganho pouco” mas sim “eu tenho a capacidade de fazer uma empresa do jeito que eu acho que devia ser?” Se sim, abra sua própria empresa e prove. Porque bla bla bla é barato, mão na massa, sangue frio, é pra poucos.</p>
<p>Sobre a frase auto-ajuda de “persiga seus próprios sonhos” ou “faça aquilo que ama” eu fiz um vídeo inteiro só sobre isso. Então não vou repetir aqui de novo, recomendo que assista no link acima. Em resumo, não fique eternamente procurando alguma coisa que absolutamente ama fazer pra fazer só isso, nem fique se iludindo pensando que já achou esse alguma coisa, porque o que você ama hoje é temporário, você só gosta de algum assunto momentaneamente. E entenda que sua vida inteira vai ser lotada de coisas que você não ama fazer como pagar impostos, limpar sua casa, dirigir pro trabalho e coisas assim, e na vida de um adulto essas coisas vão existir quer você goste delas ou não.</p>
<p>Um estado constante de felicidade simplesmente não existe. Você tem sorte se tem coisas que fazem você ser feliz, mas um estado permanente de adrenalina e montanha russa é um lugar que só existe pros viciados em LSD.</p>
<p>E muita gente confunde ser feliz com trabalhar num ambiente familiar. O melhor caso é o literalmente com sua família que, se você for de famílias que são tradicionalmente empreendedoras, como os antigos italianos ou judeus, que tem linhagens de muita experiência e tradição e, principalmente, técnica e networking, então sim, pode dar muito certo nesta geração também. Mas caso contrário eu diria que o jeito mais fácil de perder família e amigos é justamente trabalhando junto com eles. Recomendação: não faça isso. A menos que tenha tradição, eu diria que o pior que um empreendedor amador pode fazer é envolver família com negócios.</p>
<p>Agora, o outro lado disso, empresas que chamam todo mundo de família. Entenda isso de uma vez por todas: sua empresa não é sua família, você já tem uma família, e ela não é sua empresa. Já devia estar mais do que óbvio a esta altura que empresas que tentam criar ambientes que substituem sua casa não fazem isso porque consideram você um membro da família. Eles colocam Xbox no escritório mas o mais óbvio é que você devia ganhar o suficiente pra comprar o seu próprio Xbox pra deixar na sua própria casa. Pra que serve um Xbox comunitário? Pra absolutamente nada a não ser ostentação. Piscinas de bolinha não tornam o escritório sua casa e seus colegas e chefes não são membros da sua família.</p>
<p>E já que começamos falando disso, vamos pro próximo mito, o número 5 de Trabalhe 24 por 7. Assistindo meus outros vídeos falando sobre a profissão dá a impressão que eu estou dizendo que você deve trabalhar todas as horas do seu dia e noite e fins de semana e feriado e não fazer outra coisa além de trabalhar. E pior ainda se você acredita que está fazendo o que ama então você só devia estar trabalhando porque qualquer coisa fora disso são coisas que você não ama.</p>
<p>E não, nunca faça isso. Trabalhar horas extras deve ser reservado pra momentos excepcionais. Esses momentos realmente existem, acidentes de percurso que a gente consegue resolver varando uma noite. Muitas vezes vale a pena. Porém eu sou totalmente contra tornar isso uma rotina. Seja você um funcionário que quer mostrar serviço ou seja você um empreendedor achando que precisa trabalhar o máximo possível pra atingir seus sonhos. Vocês estão errados.</p>
<p>Eu já varei muitas noites por diversos motivos. E até hoje ainda faço isso. Porém na minha cabeça toda vez que eu preciso fazer hora extra ou varar noite só existe um motivo constante: que eu ainda não sou bom o suficiente. Se eu fosse bom, faria 100% de tudo caber nas 8 horas de trabalho. Se eu não consigo fazer isso com certa frequência só quer dizer que eu sou incompetente, e não que eu sou esforçado. Existe uma linha muito clara entre pessoas incompetentes e pessoas esforçadas. Esforço vem junto com inteligência e eficiência.</p>
<p>Varar noite só por varar noite, sem um resultado excepcional em um momento excepcional pra justificar, você só está colaborando pra aumentar a receita da Redbull e dos fabricantes de anti-depressivos. Tempo é dinheiro, e os melhores profissionais, seja você um funcionário, seja você um empreendedor, são aqueles que sabem usar esse recurso escasso da forma mais eficiente possível. Fazer o menos possível pra ter o maior resultado possível, é assim que você precisa estar constantemente pensando.</p>
<p>Uma coisa que eu aprendi assistindo sobre fotografia, não lembro onde foi, foi quando falaram sobre o frame da foto, as bordas. Num mundo ideal, a fotografia poderia enquadrar o máximo do cenário quanto possível. Mas isso é impossível. A melhor fotografia é o que consegue enquadrar o melhor daquele cenário no espaço limitado do frame da foto. Por isso, a melhor parte de toda fotografia é esse frame ou a melhor parte de toda pintura é o quadro. As restrições é que vão expor seu real talento.</p>
<p>Uma das restrições que temos que lidar todos os dias são prazos. Todo mundo odeia prazos, e aqui vemos mais uma das coisas que você nunca vai fazer amando, que é gerenciar prazos. E um desses prazos é o limite de 8 horas de trabalho por dia, 5 dias úteis por semana. Quanto você consegue colocar dentro desse prazo, melhor que os outros?</p>
<p>Uma definição de agilidade que eu venho explicando nos últimos 10 anos é o seguinte. No estilo Go-horse de trabalhar, existem aqueles que resolvem dar um gás, fazer horas extras, trabalhar fim de semana. E no começo você de fato entrega muito mais do que quem está trabalhando só 8 horas por dia. Faça isso só por alguns dias e muito rápido, mesmo trabalhando muitas horas o resultado final é pouco. Pior do que ser pouco, é de baixa qualidade, cheio de bugs. Daí você resolve esticar mais horas ainda, vara noite, fica sem dormir mais 2 ou 3 noites. De repente sua produtividade vai pra zero, ou negativo porque você está constantemente tendo que consertar os bugs que acumularam da última vez que você varou noite. E aquela produtividade mágica que começou em pico no começo, chega no zero em pouco tempo e daí em diante você vai ficar constantemente correndo atrás do próprio rabo e nunca conseguindo avançar.</p>
<p>Ser ágil é ser consistente. Se comparar com o cara fazendo hora extra, no começo o agilista é comparativamente mais devagar. Ele faz um código, faz testes nesse código, só sobe o que funciona e vai fazendo um passo de cada vez, todo dia. Acabou o dia, ele vai pra casa e descansa e começa no dia seguinte, descansado, e continua naquela velocidade que pode ser baixa se comparado a quem está fazendo hora extra todo dia. Porém, ao longo do tempo, enquanto o cara varando noite começa rapidamente a entrar em decadência, entregando só coisas de baixa qualidade, em velocidade cada vez menor, apesar da maior quantidade de horas. Já o agilista continua entregando na mesma velocidade do primeiro dia, e na mesma qualidade. E ele é capaz de manter esse ritmo por semanas ou meses a mais, enquanto o cara que só acelera a toa vai estar quebrado antes disso. Consistência, é a única coisa que interessa, não produtividade máxima na maior quantidade de horas possível.</p>
<p>É assim que nasce o desenvolvedor 10x que eu falei antes: não é que ele faz 10 vezes melhor que todo mundo, é que todo mundo se coloca nessa posição de ser 10 vezes mais ineficiente gastando mais horas e tendo que desistir antes porque chega num ponto onde não consegue mais avançar.</p>
<p>Nunca trabalhe numa rotina de horas extras. Isso não é ser bom, é só demonstrar incapacidade de gerenciar suas próprias horas. Quando eu faço isso, eu não me sinto “o bom”, eu faço quando preciso, mas como consequência de alguma coisa que eu fiz errado antes, e agora esse é o castigo. Especialmente ruim quando eu vejo algum funcionário meu trabalhando horas extras. Se você é um chefe que constantemente vê sua equipe tendo que fazer horas extras, só significa que você é um péssimo chefe.</p>
<p>E chegamos ao fim da parte 1. Recapitulando, não se esqueça que só uma idéia não é uma inovação. Uma idéia é barata, não vale quase nada. Pelo mesmo motivo, não basta só ter um bom produto, se a execução for uma droga, seu produto não vale nada. Pare de procurar programadores ninja, você não quer programadores ninja. Esqueça essas idéia de auto-ajuda de ser seu próprio chefe ou perseguir seus sonhos. E finalmente, trabalhe de maneira eficiente. Quantidade de horas não reflete eficiência, o importante é ser consistente, não mostrar que trabalha muito.</p>
<p>Se ficaram com dúvidas não deixem de mandar nos comentários abaixo, se curtiram o vídeo mandem um joinha, assinem o canal e não deixem de clicar no sininho pra não perder a parte 2 deste episódio. Compartilhem com seus amigos pra ajudar o canal. A gente se vê semana que vem, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>startups</category><category>negocios</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #50 - A Bolha de Startups vai Estourar? | Winter is Coming</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/06/11/akitando-50-a-bolha-de-startups-vai-estourar-winter-is-coming/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/06/11/akitando-50-a-bolha-de-startups-vai-estourar-winter-is-coming/</guid><pubDate>Tue, 11 Jun 2019 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;Você está iniciando neste mercado de tecnologia ou está atuando nele faz menos de 10 anos.&lt;/p&gt;
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<p>Você está iniciando neste mercado de tecnologia ou está atuando nele faz menos de 10 anos.</p>
<p>Primeiro, quero introduzir um pouco minha filosofia do que é ser um &ldquo;profissional&rdquo; de desenvolvimento de software; tema que vou explorar mais nos próximos episódios.</p>
<p>Segundo (17:25), quero apresentar uma análise sob a ótica de quem está neste mercado desde os anos 90 e tentar explorar uma possibilidade que mais e mais está se solidificando: a de que estamos chegando ao fim de um período de bolha de tech startups.</p>
<p>Será que o Inverno está chegando para o mercado de tecnologia? E como você deveria se preparar se for esse o caso?</p>
<p>Disclaimer: tudo que estiver neste vídeo é uma opinião pessoal baseada na análise e experiência do autor. As previsões não tem nenhuma garantia e não devem ser usadas para operar em mercados de ações.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Tech Startups, Is It A (Bubble) Wrap? (<a href="https://www.forbes.com/sites/cognitiveworld/2019/02/25/tech-startups-is-it-a-bubble-wrap/#5c3cfe296d37"target="_blank" rel="noopener">https://www.forbes.com/sites/cognitiveworld/2019/02/25/tech-startups-is-it-a-bubble-wrap/#5c3cfe296d37</a>)</li>
<li>Why Has Seed Investing Declined? And What Does this Mean for the Future? (<a href="https://bothsidesofthetable.com/why-has-seed-investing-declined-and-what-does-this-mean-for-the-future-6a9572357130"target="_blank" rel="noopener">https://bothsidesofthetable.com/why-has-seed-investing-declined-and-what-does-this-mean-for-the-future-6a9572357130</a>)</li>
<li>Why 2019 could be the year of another tech bubble crash (<a href="http://theconversation.com/why-2019-could-be-the-year-of-another-tech-bubble-crash-109468"target="_blank" rel="noopener">http://theconversation.com/why-2019-could-be-the-year-of-another-tech-bubble-crash-109468</a>)</li>
<li>Air Is Coming Out Of The Silicon Valley Startup Bubble (<a href="https://realinvestmentadvice.com/air-is-coming-out-of-the-silicon-valley-startup-bubble/"target="_blank" rel="noopener">https://realinvestmentadvice.com/air-is-coming-out-of-the-silicon-valley-startup-bubble/</a>)</li>
<li>If Silicon Valley’s unicorn bubble bursts, what legacy will it leave? (<a href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/feb/03/if-silicon-valleys-unicorn-bubble-bursts-what-legacy-will-it-leave"target="_blank" rel="noopener">https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/feb/03/if-silicon-valleys-unicorn-bubble-bursts-what-legacy-will-it-leave</a>)</li>
<li>Another tech bubble could be about to burst (<a href="https://www.ft.com/content/43d5e972-2098-11e9-b2f7-97e4dbd3580d"target="_blank" rel="noopener">https://www.ft.com/content/43d5e972-2098-11e9-b2f7-97e4dbd3580d</a>)</li>
<li>The Startup Bubble Is A Derivative Of The Stock Market Bubble (<a href="https://www.zerohedge.com/news/2018-11-16/startup-bubble-derivative-stock-market-bubble"target="_blank" rel="noopener">https://www.zerohedge.com/news/2018-11-16/startup-bubble-derivative-stock-market-bubble</a>)</li>
<li>Silicon Valley tech bubble is larger than it was in 2000, and the end is coming (<a href="https://www.cnbc.com/2018/05/22/tech-bubble-is-larger-than-in-2000-and-the-end-is-coming.html"target="_blank" rel="noopener">https://www.cnbc.com/2018/05/22/tech-bubble-is-larger-than-in-2000-and-the-end-is-coming.html</a>)</li>
<li>Some Startup Founders Leave Silicon Valley ‘Bubble’ and Head East (<a href="https://www.wsj.com/articles/some-startup-founders-leave-silicon-valley-bubble-and-head-east-11553506201"target="_blank" rel="noopener">https://www.wsj.com/articles/some-startup-founders-leave-silicon-valley-bubble-and-head-east-11553506201</a>)</li>
<li>China Created a New Tech Unicorn Every 3.8 Days Last Year (<a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-01-28/china-creates-fewer-tech-unicorns-as-economy-slows-down"target="_blank" rel="noopener">https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-01-28/china-creates-fewer-tech-unicorns-as-economy-slows-down</a>)</li>
<li>Computer Science Demand Is Soaring Due To Tech Bubble 2.0 (<a href="https://moguldom.com/175683/computer-science-demand-is-soaring-due-to-tech-bubble-2-0/"target="_blank" rel="noopener">https://moguldom.com/175683/computer-science-demand-is-soaring-due-to-tech-bubble-2-0/</a>)</li>
<li>Yes, It&rsquo;s a Tech Bubble. Here&rsquo;s What You Need to Know (<a href="https://www.inc.com/james-ledbetter/2018-inc5000-us-economic-growth-jobs.html"target="_blank" rel="noopener">https://www.inc.com/james-ledbetter/2018-inc5000-us-economic-growth-jobs.html</a>)</li>
<li>Opinion: Uber and Lyft IPOs mean the cheap rides are coming to an end (<a href="https://www.marketwatch.com/story/uber-and-lyft-ipos-mean-the-cheap-rides-are-coming-to-an-end-2019-05-09"target="_blank" rel="noopener">https://www.marketwatch.com/story/uber-and-lyft-ipos-mean-the-cheap-rides-are-coming-to-an-end-2019-05-09</a>)</li>
</ul>
<p>=== Script</p>
<p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Finalmente estou de volta! Passei um mês fora do canal, duas semanas foi viajando a trabalho e duas semanas de pausa mesmo.</p>
<p>Antes de começar, quero aproveitar pra convidar todo mundo pro evento que eu e minha empresa Codeminer, junto com a InfoQ Brasil, organizamos todo ano. A The Conf, que está com a grade completa e com ingressos à venda. Veja mais sobre o evento nesse vídeo linkado acima e nas descrições.</p>
<p>Se você ainda não assistiu a série anterior com conceitos básicos de computação, recomendo que cliquem no link acima pra acessar a playlist, também vou deixar nas descrições abaixo. O canal está acumulando vídeos sobre o que eu acho essencial que todo programador deveria saber.</p>
<p>Sendo bem honesto voltar pro canal tem sido bem difícil. Andei passando por um bloqueio criativo e ainda não estou muito seguro sobre quais temas quero falar nos próximos episódios, se vocês tiverem sugestões não deixem de mandar na seção de comentários abaixo pra me ajudar a decidir.</p>
<p>Enquanto isso, continuando um pouco na vibe dos episódios anteriores, queria falar um pouco sobre assuntos que deveriam preocupar quem está iniciando na carreira de programador. O episódio de hoje vai ser dividido em duas partes, primeiro uma parte mais filosófica, segundo uma parte mais prática. Se você já é programador experiente talvez queira ir direto pra segunda parte nesse tempo aqui embaixo. Se você tem pouco mais de 20 anos, talvez você não consiga enxergar o que está acontecendo.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Vamos começar do começo. Alguém que se forma chef provavelmente gosta de cozinhar, gosta de preparar boa comida, escolher bons ingredientes, e criar uma boa experiência pros seus clientes. Alguém que se forma músico, gosta de sons, melodias, arranjos e instrumentos, e criar uma boa experiência pra quem está escutando. Alguém que se forma um esportista gosta de se exercitar, puxar limites, pontuar e competir, e criar uma boa experiência pros seus fãs. Alguém que se forma programador gosta de programar, de combinar tipos diferentes de código, solucionar problemas com código, e resolver problemas reais pros seus clientes.</p>
<p>E é simplesmente isso. Para ser um bom programador o mais importante é gostar de programar, ser obcecado pela pura atividade de fazer código somente pelo código. Experimentar diferentes combinações, experimentar diferentes ferramentas, diferentes hardwares. Tudo que tem a ver com a arte de combinar códigos diferentes para se chegar na mesma solução de formas mais eficientes ou simplesmente esteticamente diferentes. Programar pelo ato de programar.</p>
<p>Claro, como em qualquer profissão de prática, existem diversos outros aspectos que podem chamar a atenção. Aspectos sociais, aspectos políticos, aspectos financeiros. Mas tudo isso é secundário. A função de um programador é a programação. Ou você aprecia a prática de programar ou nunca será um bom programador. Desde o fim dos anos 80 eu sempre gostei de experimentar código. Simplesmente digitar código mesmo que não tivesse nenhum fim a não ser eu ver ele sendo executado logo depois de ter digitado. Quando eu comecei a programar eu nunca programei com o objetivo de ser bem remunerado ou qualquer outro objetivo.</p>
<p>Escrever código é uma coisa muito simples. Qualquer idiota consegue copiar e colar algum código, modificar algumas poucas coisas e fazer rodar. É extremamente simples. Alguém que nunca programou, se não for muito burro, é capaz de seguir um tutorial na internet e escrever algum código. Isso não o torna um programador.</p>
<p>Cozinhar é uma coisa muito simples. Qualquer idiota consegue abrir um livro de receitas, separar ingredientes, jogar tudo numa panela, ligar o fogo e no final, se não for muito burro, vai ter alguma coisa minimamente comestível. É extremamente simples e milhões de pessoas fazem isso todos os dias de alguma forma. Alguns até cozinham todos os dias, o mesmo arroz com feijão e ovo frito. Obviamente não tem nada de errado nisso, mas isso não o torna um cozinheiro profissional, nem muito menos um chef.</p>
<p>Um Michelin 3 Estrelas é um reconhecimento para poucos. As 3 estrelas num restaurante indicam que a Michelin acha que se você viajar para um país somente para ir nesse restaurante, é uma experiência de valor e recomendada. É o reconhecimento de anos, décadas de treinamento deliberado, desde a fase de descascar batatas todos os dias, cozinhar dia e noite em dezenas de restaurantes como ajudante, tudo em benefício de refinar a própria arte, até o ponto de ser capaz de montar, administrar, e entregar uma experiência diferenciada no seu próprio restaurante. Não só com um menu fora do comum, mas a experiência completa, do momento que se cruza as portas na entrada até o pagamento na saída. Alguém que simplesmente sabe seguir receitas, não importa se cozinhou todos os dias nos últimos 10 anos, continua milhas de distância de ser um Chef Michelin 3 Estrelas.</p>
<p>No mundo da programação um Turing Award talvez seja o mais próximo de um Michelin 3 estrelas, e novamente é um reconhecimento para poucos. O que eu quero dizer é que do ponto onde se começa, seguindo uma receita sem saber muito bem porque está seguindo esses passos até uma premiação rara existe uma distância gigantesca que é para poucos.</p>
<p>A grande maioria dos cozinheiros do mundo nunca vai chegar nem perto de um Alain Ducasse ou Gordon Ramsay da mesma forma que a grande maioria dos programadores, eu incluso, nunca vamos chegar a um Djkstra ou Knuth ou Tim Berners-Lee e ganhar um Turing Award. Mas eu acho importante ter essa noção de que existe essa distância entre o começo e o fim.</p>
<p>Por alguma razão, eu sempre gostei de usar a carreira de um chef como metáfora à carreira de um programador. Ambas são o que eu chamo de profissão de prática. Existem profissões onde o teto é bem baixo, onde você aprende um procedimento e com pouquíssimo tempo de prática você já consegue trabalhar e não importa quanto mais praticar a partir desse ponto, seu resultado nunca vai ser muito melhor do que quando começou. Sem querer menosprezar, mas qualquer trabalho de repetição é assim: seja um caixa de supermercado, um operário numa linha de produção, ou um motorista de táxi.</p>
<p>Um programador se torna melhor quanto mais pratica; mais importante, quanto mais pratica deliberadamente como eu expliquei nos meus episódios sobre Talento: Matando Semi-deuses. Assim como um chef nunca vai sair do lugar se fizer o mesmo ovo frito todos os dias, também um programador nunca vai sair do lugar fazendo o código do mesmo jeito todos os dias. O mesmo vale pra qualquer profissão de prática: seja um esportista, um músico, um escritor, um pintor, um fotógrafo, um jornalista. É a enorme diferença em dedicação deliberada entre um jogador de futebol de várzea de fim de semana e de um jogador de seleção profissional.</p>
<p>Eu faço questão de explicar dessa maneira porque muitos não entendem isso quando está começando. Por exemplo, muita gente ainda associa que programar é algo que você só faz durante o horário de trabalho. Que você precisa ser remunerado para começar a digitar o código. E que esse código, depois que está pronto, é algo que precisa ser preservado. Muita gente é resistente a apagar o próprio código, muita gente é resistente a aceitar críticas sobre o próprio código. “Eu sou formado em computação” eles pensam “lógico que meu código é bom, como ousa questionar?”.</p>
<p>Uma coisa comum em toda profissão de prática é que tudo que você faz nos primeiros anos é basicamente porcaria. Aceite essa realidade. Não estou dizendo 100% mas uma parte considerável de tudo que você produzir nos primeiros anos, talvez na primeira década, vai ser medíocre. E se você não tomar cuidado, não estiver prestando atenção, não estiver consciente e deliberadamente treinando, tudo que você produzir vai ser lixo. Pense seu primeiro dia numa cozinha de restaurante, tendo que atender dezenas de pedidos e entregando tudo no tempo certo e na qualidade certa. É absurdamente difícil, a pressão é enorme, e você não pode errar. Com o tanto de reclamação e mimimi que eu ouço de programadores que trabalham em lugares com ar condicionado e café quente, batendo cartão das 9 às 5, eu diria que nenhum deles aguentaria trabalhar um dia na cozinha de um restaurante de verdade, mesmo se fosse só lavando pratos.</p>
<p>A primeira coisa que você precisa separar é o código que você faz no trabalho e o código que você faz fora do trabalho. E sim, precisa ter os dois. Seja no seu primeiro ano de carreira, seja no décimo ano. Ou você acha que no começo de carreira, um Gordon Ramsay só treinava no horário de trabalho? Durante o horário de serviço de um restaurante você já tem que saber exatamente o que tem que fazer, ou seria impossível entregar os pratos certos, na qualidade certa, no tempo certo. Durante o trabalho você precisa entregar o melhor resultado do seu treinamento prévio. Mas aí a questão é, quando você treina? E a resposta não é agradável pra quem entrou nessa área sem realmente gostar: é em todo tempo que tiver disponível, especialmente no começo da carreira.</p>
<p>Quando as pessoas falam que as faculdades não te preparam pro mercado de trabalho, especialmente as mais voltadas à ciência da computação, e muita gente prefere os cursos técnicos porque você sai com mais facilidade pra conseguir trabalhar, a percepção não está errada mas a o pensamento está errado. De fato, quando você se forma como bacharel em ciências da computação, se a única coisa que você fez foi aparecer nas aulas, estudar o suficiente pra tirar 5 nas matérias e passar na média, você não sabe fazer nada quando se forma. Se por outro lado você usou esse tempo pra estudar pra tirar 10, participou de todas as opcionais que pôde, fez grupos de prática com seus amigos e professores, e praticou o quanto pôde, ainda assim você ainda não vai estar pronto, mas vai saber uma coisa que seus colegas da média não sabem: como praticar.</p>
<p>O que ninguém nunca vai ter quando sai da faculdade se chama prática. Óbvio, pra ter prática, você precisa praticar. Se você treinou uma hora, todo dia, o ano todo, no máximo praticou umas 300 horas. Isso é extremamente pouco. Pra comparar, um mês de trabalho de 8 horas são apenas 170 horas.</p>
<p>Quantas horas você acha que precisaria praticar pra conseguir cozinhar pratos diferentes durante as 5 horas do serviço de almoço de um restaurante? Quantas horas você acha que precisaria praticar pra conseguir competir num jogo profissional de campeonato e não passar vergonha? Quantas horas você acha que precisaria praticar escrevendo pra conseguir ter nível suficiente pra publicar um livro que não fique pegando pó nas prateleiras? E por que você acha que com programação seria diferente?</p>
<p>Agora, profissões de prática tem uma armadilha. Eu chamo da armadilha dos 80/20 e eu já falei disso em outros episódios mas vou repetir hoje de novo. Digamos que você está começando a programar, você notou que essa bibliotecas open source do Facebook, o React.js, tem uma boa demanda. Você resolve fazer um curso ou mesmo estudar aulas online sozinho. Com umas 40 horas de aulas você já é capaz de realizar tarefas simples. Se você tiver a oportunidade de integrar uma equipe em alguma empresa e se não for muito burro, com alguns dias apanhando você já será capaz de entregar algumas tarefas de verdade.</p>
<p>Em algumas semanas você vai ganhar confiança nesse assunto, aprender mais alguns truques. Em dois a seis meses, se você não for muito incompetente, já vai ter adquirido uma boa fluência. SIm, é pra ser assim rápido mesmo. Na minha metáfora da cozinha, é como você comprar um livro de receitas, ou fazer um curso rápido de cozinha, se você não for do tipo que reprova num teste psicotécnico e souber seguir instruções básicas, até você vai conseguir montar, digamos, alguns tipos diferentes de sushi em poucos dias. É muito simples. Em algumas semanas você pode até estar preparando pros seus amigos e alguns deles podem até gostar.</p>
<p>Em profissões de prática, sabendo muito pouco, você se torna capaz de entregar alguma coisa. Você se sente empoderado. E isso é um sério problema. Aceite a realidade, que nesse estágio, você continua não sendo muito melhor que um hobista amador. Está longe, mas milhares de milhas de distância longe, de ser melhor que um profissional em nível junior. Claro que não existem tempos pré-definidos, algumas pessoas são mais dedicadas do que outras, mas no geral, ninguém deixa de ser júnior em menos de 1 ano. E não se sinta um sênior antes de 5 anos pra mais se, e somente se, você se expõe a muitos cenários diferentes de prática deliberada.</p>
<p>Muitos que não são da área podem ficar impressionados com o que você entrega e isso é óbvio, porque quem está elogiando não é ele mesmo um praticante, então tudo que um amador faz já parece impressionante. Mas um sênior de verdade sabe identificar facilmente e sem ambiguidade um outro sénior, assim como um jogador profissional nunca vai ser enganado em campo por um amador. Basta chutar a bola pra ele no meio da pressão do jogo e ver como ele se sai.</p>
<p>No começo de carreira, pare de ficar neurótico com questões de remuneração. Primeiro de tudo aceite outra noção: não existe média salarial. Eu quero falar disso em outro episódio, mas todo mundo tem mania de querer aplicar média em tudo. Média não se aplica em tudo. Média só se aplica em eventos independentes. Altura de uma população, notas numa prova. Salários não são eventos independentes. Diversas variáveis influenciam todos os salários por todo o mercado ao mesmo tempo. Salários se distribuem numa curva diferente da gaussiana. Apesar de não ser estatístico eu diria que elas se aproximam mais de distribuições Power Law, uma distribuição cuja característica é não ter média.</p>
<p>Você já viu distribuições assim, o 80/20 de Paretto que foi usado pra descrever como 80% das propriedades estão na mão de 20% das pessoas. Essa distribuição é o que define quase tudo no mundo real. Por exemplo, seguidores em redes sociais. Não existe média de seguidores. Você tem 20% das celebridades acumulando 80% dos seguidores. A mesma coisa pra séries de TV mais assistidas, 20% das séries produzidas acumulam 80% da audiência. A mesma coisa pra música. A mesma coisa pra qualquer coisa do mundo real. E salários é a mesma coisa. Se você pegar mesmo dentro de uma mesma empresa você vai ter essa distribuição do maior pro menor salário, 20% das pessoas podem receber 80% da folha de pagamento, ou algo nessa proporção.</p>
<p>Não parece justo como seria numa distribuição gaussiana, que tem média. E não é pra ser justo, o mundo não é justo. Por outro lado significa que seu salário não precisa crescer de forma linear, constante. Ou seja, se você ganha hoje 1000 reais e ganhou um aumento de 100 reais depois de um ano, não é verdade que você só tem como aumentar mais 10% ano que vem. Você pode dar salto maiores, 15%, 20%. Você tem a oportunidade de dar saltos grandes quando conquistar seu lugar pela sua competência. Essa é a beleza dos mercados. Se 80% da riqueza está na mão de apenas 20% das pessoas, também significa que os acomodados e os que gostam da zona de conforto vão ficar eternamente disputando os 20% que sobram dessa riqueza com os outros 80% acomodados.</p>
<p>Voltando ao assunto, eu disse que com pouco conhecimento, digamos 20% do que você deveria saber, você esteja nos 80% dos menores salários. É óbvio que uma hora você vai ficar impaciente e frustrado por nunca ganhar mais. Mas claro, você acha que sabe o suficiente porque sempre consegue entregar o que te pedem. Mas você só consegue entregar poucos tipos de coisas. Você é um cozinheiro que toda vez que te pedem ovo frito, você entrega o ovo frito. Só que você só sabe fazer ovo frito. Quando te pedem salada, você se esconde atrás de “eu não faço pratos vegetarianos”. É como o junior de React que falei acima quando pedem pra subir um Docker “eu sou front-end, não faço devops”. Bem vindo aos 80% da população.</p>
<p>Notem que no começo eu tentei descrever um tipo muito particular de profissional: os que respeitam e apreciam a prática, não os que querem aprender meia dúzia de truques e ganhar salários que magicamente sobem todo ano. Um diploma, um certificado, uma validação de alguém, ou entregar o básico, não te garantem nada, absolutamente nada. Você nunca vai subir na carreira fazendo sempre variações da mesma coisa, do mesmo tipo de código, do mesmo tipo de prato.</p>
<p>Faça a conta mais básica: se chegar nesse ponto foi razoavelmente fácil pra você, também é fácil pra milhares de outras pessoas que estão ingressando todos os dias no mercado de trabalho e estão se tornando seus competidores. Você fica feliz de ver que a barreira de entrada está cada vez menor, e que toda hora todo mundo gosta de ficar cantando como é fácil qualquer um ser programador? Preocupe-se. Lembre-se da lei mais básica do mercado: a lei da oferta e da procura. Quanto maior é a oferta de programadores, se a demanda do mercado não cresce na mesma proporção, tecnicamente a remuneração desse tipo de programador tende a cair.</p>
<p>Se não ficou claro nos meus últimos vídeos, eu contei a história de como até 2001 programadores ruins eram remunerados muito acima do que deveriam, porque todo mundo investia nas ponto com como se fossem minas de ouro. Foi a grande era da exuberância irracional na tecnologia. Daí a bolha da internet estourou e de repente programadores ficaram sem emprego. Some a isso a terceirização em massa pra Índia e a profissão sofreu uma queda enorme, principalmente nos Estados Unidos. Demorou anos pro mercado se estabilizar e voltar a crescer.</p>
<p>Daí em 2008 e 2009 tivemos a grande crise do sistema financeiro que causou uma queda global em todos os mercados e a recuperação que tivemos no mercado de tecnologia também sofreu uma queda. Ao mesmo tempo, durante a crise, muitos começaram a acreditar que inovações da época nos mundos de cloud, big data, coletar dados massivos dos usuários, e a recém-inaugurada era dos apps mobile por causa da revolução do iPhone, poderiam se tornar grandes investimentos.</p>
<p>Mas ao mesmo tempo iniciou uma era de novas tech startups que 10 anos depois se tornaram unicórnios. Uber, Airbnb, GitHub, Instagram, Snap, Pinterest, Netflix, e dezenas de outros. Se você só vivenciou este mercado a partir de mais ou menos 2009, você cresceu dentro de uma bolha onde parece que tudo vai crescer pra sempre. Sinto lhe informar que em breve essa bolha vai estourar, como sempre estoura. Não é um talvez, é só uma questão de quando exatamente.</p>
<p>Deixe eu ilustrar. O Google tem uma ferramenta que eu acho muito interessante. O Google Trends que mostra um gráfico com o interesse por um certo termo ao longo do tempo. Se procurarmos “tech startups”, você vai ver que como eu falei, depois de 2008 a tendência veio sendo de alta, mas já faz alguns anos que parou de crescer, está andando de lado, em breve deve cair.</p>
<p>Se procurarmos por “Techcrunch” que é uma das principais publicações sobre tech startups, você vai notar que, se antecipando à tendência, desde pouco antes de 2008 ele veio crescendo, atingiu pico em 2011 mas desde então já reverteu e só vem caindo. Mesmo se procurarmos sobre o famoso Node.js do mundo de Javascript, você vê que desde 2009 ele veio crescendo em interesse até bater o pico por volta de 2014 e 2015 e desde então já reverteu a tendência.</p>
<p>Dependendo do que procurar sobre o assunto, vai ver que as tendências vieram crescendo e já atingiram um pico e estão revertendo ou estão começando a confirmar uma resistência. Se eu tivesse que chutar eu diria que o mercado pode começar a ficar muito diferente a partir de 2021 já. Talvez leve ainda um pouco mais de tempo. Eu venho esperando por esse novo ciclo faz tempo já e no fim do ano passado, quando a Nasdaq sofreu uma queda que pegou muitos de surpresa, todos os analistas financeiros começaram a concordar com esse cenário. A partir de fevereiro deste ano você podia ver na Forbes, Financial Times, Washington Post, The New York Times, CNBC, todo mundo chegando às mesmas conclusões. Os investimentos no mercado de tecnologia estão crescendo de forma desenfreada faz 10 anos, existe liquidez excessiva no mercado. Só em 2018 surgiu um novo unicórnio - que são empresas avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares, a cada 4 dias. São mais de 300 unicórnios pelo mundo somando mais de 1 trilhão de dólares em valuation.</p>
<p>Pra piorar, os IPOs desses unicórnios vem se provando muito abaixo das expectativas. Segundo a CNBC, o IPO do Snap que saiu em março de 2017 começou a 17 dólares por share, chegou a dar um pico positivo de 44% no primeiro dia mas desde então caiu pra 11 dólares por share. A Blue Apron abriu IPO com 10 dólares por share em junho e agora está a 3 dólares. A Fitbit abriu em 2015 a 45 dólares por share e agora está a 5 dólares.</p>
<p>Duas estrelas dessa geração de unicórnios, a Lyft abriu IPO este ano com shares a 88 dólares e hoje está na faixa de 61 dólares. Mesmo o Uber começou em queda e está perto do mesmo preço de abertura, nada bombástico. Antes do IPO tinha um valuation de mais de 80 bilhões de dólares, os otimistas esperavam que depois de abrir capital ele subisse pra 120 bilhões, mas isso não se concretizou. E ela representa o tipo de startup que veio sendo criado nesses últimos anos: com receita de 11 bilhões, prejuízo operacional de 3 bilhões e déficit de 8 bilhões. A exuberância irracional dessa bolha criou empresas que trabalham com cash flow negativo.</p>
<p>Vamos colocar dessa forma: eu tomaria cuidado em apostar numa tech startup que opera com cash flow negativo, ou seja, que não dá lucro e não tem planos no curto prazo pra reverter. Especialmente se você estiver apostando morar fora do país ou algo assim. Esses planos vão ser cortados muito em breve. Ninguém é capaz de prever o futuro, tudo isso pode não se concretizar. Mas ser antifrágil significa apostar em alguma coisa que, se você perder, não vai fazer falta, mas se ganhar vai ser muito. Se você for sentir falta do que perder, não aposte. É a regra básica de todo investidor.</p>
<p>Segundo a Forbes as valuations de unicórnios estão ridiculamente inflados. Quão inflado? Um estudo de 135 unicórnios americanos, os que foram avaliados valendo mais de 1 bilhão de dólares, sugere que depois de ajustar termos que inflam valuation como diferentes classes de ações, pelo menos metade, 65 dos 135 perdem o status de unicórnio. Como a Forbes descreve, é um monte de mulas disfarçadas.</p>
<p>Uma das desculpas pra essas valuations absurdas é que a prioridade número 1 é aquisição de clientes e data mining dos dados dos usuários. Muitos tem considerado isso até mais importante do que receita e lucro. Você ficou chocado com o vazamento dos dados da Cambridge Analytica no escândalo do Facebook? Você trabalha em tech startups de cashflow negativo? Parabéns, você faz parte do modelo de negócios de acumular e vender dados de usuários.</p>
<p>Assim como foi no ano 2000, pré crash da bolha da internet, os empreendedores acreditam que simplesmente funding de venture capital é um modelo de negócios em si mesmo, o que é absurdo. Eles realmente acreditam em dinheiro que nasce em árvore. Considere que 80% das empresas que abriram capital ano passado não são lucrativos, o maior número desde o pico da bolha das ponto com em 2000 quando 81% das empresas que abriram capital naquela época não tinham lucro.</p>
<p>Foi em 2009 que você viu surgindo o movimento de Lean Startups por causa do livro de Eric Ries, o surgimento acelerado de co-workings como WeWork, incubadoras, e venture capital que começou a aparecer. Pense que por coincidência tudo convergiu nesse momento. As tecnologias de internet ganharam escala principalmente depois do surgimento da AWS em 2006, a idéia de web applications que competem com aplicativos nativos de desktop depois do Gmail também de 2006. O crescimento exponencial das redes sociais por causa do boom do Facebook. A revolução do iPhone em 2007 e do lançamento da App Store em 2009. Tecnologias de geolocalização, a possibilidade de big data, o barateamento da banda larga e de armazenamento possibilitou coisas como Dropbox.</p>
<p>Tivemos a crise de 2008 e 2009 onde o sistema financeiro entrou em colapso e deixou milhões desempregados e a inovação tecnológica permitiu muita gente se recolocar como motoristas de Uber ou Lyft ou alugar suas casas vai Airbnb, plataformas como Shopify, Wix, Square, tornou mais fácil pras pessoas abrirem micro-empresas. Plataformas de compra coletiva como Groupon explodiram entre 2010 e 2011. A tecnologia nesse ponto ganhou figura de salvador da pátria e o mercado de SaaS ganhou força como a fundação desse novo crescimento.</p>
<p>Mas tudo isso já está chegando ao fim. Como diria George Santayana, aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repetí-la. E de fato, eu lembro da devastação que foi o crash da bolha das ponto com. O mercado perdeu todo o seu valor, levou 2 décadas pra recuperar e hoje já mais que ultrapassamos o pico da exuberância irracional daquela época. E novamente citando ditos populares: quanto maior o tamanho, pior vai ser a queda.</p>
<p>Eu gosto de ser conservador, eu detesto ser otimista demais porque os otimistas são os primeiros a cair quando uma crise aparece, especialmente uma que já está dando sinais cada vez mais claros. Eu sou um cético pragmático. Eu já sobrevivi a 2 ou 3 grandes crises. Sobrevivi os anos 90, os anos 2000 e os anos 2010, cada década teve uma crise e eu realmente nunca tive grandes problemas durantes esses períodos de transição. E o ponto de dizer tudo isso é porque durante minha carreira eu segui exatamente a descrição acima sobre a minha profissão. Quando o mercado acumula gente demais e de repente a demanda some, quem você acha que as empresas mantém e quem você acha que elas abandonam?</p>
<p>Se você se manteve firme na sua profissão, acumulou conhecimento, acumulou prática, e começou pouco a pouco a ser capaz de manter expectativas, ou seja, você é o tipo que promete o que entrega, do jeito que prometeu, no custo que prometeu, no tempo que prometeu e na qualidade que prometeu, e ainda é do tipo que às vezes consegue surpreender entregando mais do que prometeu e consegue fazer isso com consistência, ao longo de muito tempo, sem nunca se valer de muletas como desculpas e histórias pra esconder seus erros, você sempre vai ter empregos bem remunerados. Independente se está num período de crise ou não.</p>
<p>Se por outro lado você associa sua profissão diretamente com brindes imbecis como um nespresso ou piscina de bolinhas ou sala de xbox, que acha que já é bom o suficiente porque alguém te dá feedbacks positivos com frequência, que acha que sua “qualidade de vida” de trabalhar menos de 8 horas por dia é a prioridade e por isso só programa durante o horário de trabalho, e ainda programa pouco porque procrastina a maior parte do tempo fazendo fofoca no whatsapp. Gosta de ir em evento porque é mais um dia que não precisa trabalhar e ainda ganha pra isso. Fica mudando de emprego com frequência porque outra empresa te paga um pouco melhor pra fazer a mesma coisa. Bom, boa sorte pra você na próxima crise.</p>
<p>A maior recompensa sempre vem praqueles que jogam o jogo do longo prazo. Os que procuram ganhos de curto prazos tendem a ser varridos da história. Sua profissão é programação, espero que você goste de programar. Pare de ouvir auto-ajuda glorificada de celebridade de startup ou fake coach ou fake mentor. As contas precisam sempre fechar, gastos desenfreados, sem um retorno sustentável, é claramente uma bolha. Ou você acha que piscina de bolinhas serve pra alguma coisa a não ser ostentação? Aliás, aproveitando, da próxima vez que você ver um “coach de inovação”, me façam um favor, perguntem pra ele quantas patentes ele tem. Ou se achar um mentor de empreendedorismo, perguntem pra ele quantas empresas lucrativas de mais de 10 anos ele tem.</p>
<p>O recado é muito simples, se você for um aventureiro especulador e quiser navegar na onda de dinheiro fácil, ainda é possível. Os aproveitadores de plantão estão todos fazendo isso. Mas se você está no papel de quem está acreditando em papai noel e em dinheiro infinito, negligenciando sua carreira em troca de promessas de stock options ou algo assim, sinto dizer que a maioria de vocês vai perder. Aliás, nunca caiam no golpe das stock options. Em resumo muito resumido, o conceito é te pagar menos em troca do direito de ter opções de compra das ações quando a empresa abrir capital. Porém, quando isso acontecer, você tem a opção da compra que você precisa exercer, … duh comprando as ações. Só que você veio ganhando menos do que normal e ainda vai precisar acumular dinheiro pra exercer essa compra. E nada garante que você vai se dar bem. Veja os casos da Amazon ou do Uber. Entenda uma coisa: os únicos que vão ganhar dinheiro de verdade são os venture capitalists, e eles não estão errado. Você com sua stock option, ainda pode ser diluído e o que for exercer não valer quase nada. Problema seu que acredita em conto de fadas.</p>
<p>E apesar de parecer uma mensagem apocalíptica, se o cenário que eu descrevi acontecer, eu consideraria uma correção saudável. Nenhum mercado se beneficia de crescimento constante. Mercados precisam de correção. Mesmo depois do crash das pontocoms e centenas de empresas falindo e milhares de desempregados, o resultado ainda assim foi bom. O legado da exuberância do ano 2000 foi a colossal infraestrutura de fibra ótica que foi construído no meio da loucura acelerada. Foi isso que possibilitou as redes de banda larga cabeadas e wireless e a exploração das tecnologias de smartphones. Como disse a The Guardian, alguma coisa positiva sobrou de toda a loucura. Mas esta atual bolha? Já que ela não construiu grande coisa, o que vai deixar pra trás vai ser só um sorrisinho amarelo, como em Alice no País das Maravilhas.</p>
<p>A maioria dos grandes unicórnios surgiu no vácuo da crise financeira de 2008 e 2009. Porém, chegaram no ponto onde eles precisam abrir capital pra continuar crescendo no ritmo absurdo de agora. E é quando o capital é aberto que a verdade aparece e todos vão ver que a valuation que acreditavam na verdade não existe e isso gera desespero e uma corrida pra vender e estancar o sangramento, e quando isso começa a acontecer de forma generalizada, é quando vamos ter o crash. O fato é que a grande maioria dos unicórnios de hoje não valem uma fração do que os investidores acham que vale. Em algum momento essa conta tem que fechar, e não vai. E sob as cinzas dessa geração é que vai surgir o ciclo dos próximos 10 a 20 anos. Eu mal posso esperar.</p>
<p>A idéia do episódio de hoje foi delinear um pouco da filosofia que eu vejo em profissões de prática por gostar da prática em si. E não em profissão enquanto aprender procedimentos rápidos pra ganhar dinheiro rápido, cego por estar num mercado com alta demanda, num ciclo que pode estar acabando. O recado é muito simples: você está vivendo hoje num mercado que globalmente paga mais do que se deveria, fique esperto, essas coisas nunca duram. Se você está sentindo dificuldades hoje, vai ficar pior. Por outro lado, quem está conseguindo se enganar surfando na onda, vai tomar um caldo muito em breve.</p>
<p>Nos próximos episódios vou encorpar um pouco mais minha definição de um profissional de desenvolvimento de software em particular. O assunto ainda não está terminado e tem várias coisas estou deixando pros próximos episódios, mas se quiser discutir o assunto mande nos comentários abaixo. Se gostou do vídeo mande um joinha, assine o canal e clique no sininho pra não perder os próximos, e não deixe de compartilhar com seus amigos pra ajudar o canal. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>startups</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>carreira</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #37 - A Dimensão do TEMPO para Iniciantes em Programação | Série "Começando aos 40"</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/01/30/akitando-37-a-dimensao-do-tempo-para-iniciantes-em-programacao-serie-comecando-aos-40/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/01/30/akitando-37-a-dimensao-do-tempo-para-iniciantes-em-programacao-serie-comecando-aos-40/</guid><pubDate>Wed, 30 Jan 2019 17:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Este é o 2o episódio da série &ldquo;Começando aos 40&rdquo; e hoje quero ajudar a aliviar um pouco a ansiedade dos programadores iniciantes.</p>
<p>Começando agora você não sabe por onde começar. Devo aprender mobile? Devo aprender Web? Se for Web, devo aprender PHP? Ou então Java? Mas e Machine Learnine? E Big Data?</p>
<p>Antes de tentar explicar um pouco desses assuntos vocês precisam entender como chegamos até aqui.</p>
<p>Mais importante, entender porque fazer planos de longo prazo nesta carreira e fixar &ldquo;ideais&rdquo; pode não ser uma boa idéia.</p>
<p>É um tema meio &ldquo;abstrato&rdquo; mas eu acredito que antes de começar de verdade, seja você um jovem de 20 ou um novo-jovem de 40, vocês precisam entender a dimensão do &ldquo;TEMPO&rdquo; na nossa carreira.</p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Fiquei muito contente com a recepção do primeiro episódio desta mini-série. Se você ainda não viu clique no link acima e não deixe de ler as histórias das pessoas que comentaram. Recapitulando, a idéia dessa série veio porque me perguntaram, como uma pessoa de 40 anos poderia ingressar neste mercado. Seria muito fácil mandar meia dúzia de links de cursos online e cagar regra do tipo “eu acho que você tem que estudar Python ou Javascript”. Mas ser um programador profissional é muito mais do que isso.</p>
<p>No episódio de HOJE eu quero falar sobre um assunto que alguém de 40 anos provavelmente já tem mais noção e contrastar com alguém de 20 anos que está começando agora. O fator TEMPO.  Eu detesto dizer dessa forma porque me faz me sentir MUITO velho, mas preciso pontuar o fato que a maioria dos jovens ainda não tem noção do que TEMPO significa. Vou explicar.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>O tempo é realmente relativo. Mas em outro sentido. Vamos pegar o caso de uma pessoa com 20 anos. Significa que na sua cabeça o conceito de “minha vida inteira” tem 20 anos.</p>
<p>Pra ser mais prático, eu diria que a maioria das pessoas pode desconsiderar os primeiros 10 anos porque era só um bebê ainda, sem muita consciência de si mesmo e do mundo ao redor. Então, na realidade, o que você chama de “sua vida inteira” é a segunda metade: um período extremamente curto de 10 anos.</p>
<p>Se você tem 20 anos agora, nasceu entre 1998 e 1999. Aliás, como alguém twitou no ano novo, este ano marca o fim de todas as crianças ou menores de idade que nasceram no século XX. Todo mundo que tem menos de 18 anos já nasceu no século 21!</p>
<p>Na sua cabeça, 10 anos pode parecer um tempo longo, muito longo, e é lógico, afinal “sua vida inteira” foram só esses 10 anos. Agora, se você é como eu e já está nos 40 anos, então nós já vivemos o equivalente a 2 vidas a mais. Conseguem entender essa dimensão? Tudo aquilo que você de 20 viveu, aprendeu, sofreu, riu e chorou, coube em 10 anos. Nós de 40 vivemos isso 3 vezes já! E o que dizer de quem já tem 50 ou 60 anos? Não vou especular porque eu ainda não cheguei lá, mas a vida é bem mais longa do que parece.</p>
<p>Você de 20, tente se imaginar voltando aos 10 anos de idade, com todas as memórias dos 20, e tendo que repetir tudo de novo mais 2 vezes. Agora vem a primeira armadilha que você vai enfrentar na sua vida: nós somos matematicamente ruins, eu vou falar sobre matemática em outro episódio, mas por hoje só aceite o seguinte: você está pegando “sua vida inteira” de meros 10 anos e projetando no futuro até os 40 ou 50 anos achando que é possível imaginar como você vai ser. Mas isso é impossível.</p>
<p>Aos 20 você está só idealizando seu futuro. Fantasiando. E é tudo uma ilusão. Praticamente nada do que você está projetando pro seu futuro vai se concretizar do jeito que você imagina agora. E se quando chegar aos 40 você olhar pra trás e disser “sim, tudo aconteceu exatamente como eu tinha imaginado aos 20 anos” eu sinto dizer que você provavelmente limitou muito suas opções e viveu muito abaixo do seu potencial.</p>
<p>Veja a razão inicial desta série: dar dicas a pessoas de 40 anos mudando de carreira. Ninguém com 20 imagina que, 20 anos depois, vai estar fazendo uma virada de 180 graus na vida.</p>
<p>Novamente, eu estou generalizando. Cada um teve histórias e circunstâncias muito diferentes, e lógico que é impossível cobrir todos os casos. Mas o fato é que você está congelando sua situação e a situação do mundo ao seu redor e imaginando que o mundo no futuro vai ser mais ou menos parecido com o que é hoje. Você as notícias de possível recessão no mundo, conflitos na faixa de Gaza,a destruição da Venezuela, fome, pobreza, manifestações. E você acha que o mundo sempre foi assim e que sempre vai continuar sendo. Foi o motivo de porque eu falei sobre Hans Rosling no meu vídeo “O mundo hoje é pior?” que você pode assistir clicando no link acima. Mas spoilers: não o mundo está constantemente melhorando. Você vai ter MUITO mais oportunidades amanhã do que tem hoje. Não só um pouco, você vai ter oportunidades inimagináveis e isso vale pra você de 20 e pra você de 40.</p>
<p>Vamos fazer um exercício pra demonstrar isso. Digamos que você tivesse 20 anos em 1985. Nesse ano estávamos saindo da ditadura militar. Estávamos com uma hiperinflação absurda no Brasil que destruía todo nosso poder de compra. A Guerra Fria ainda era uma coisa real. A revolução dos microcomputadores male male tinha 10 anos nesse ponto, os micros mais potentes dessa época eram coisas como o Commodore 64, com poderosos 64 kilobytes de RAM!  Modems ainda não eram difundidos e a Internet basicamente não existia. Linux não tinha sido inventado ainda. Windows ainda não existia. MS-DOS ainda era uma novidade. Nessa época assistíamos filmes em fitas Betamax, usávamos fitas cassette e vinil ainda pra ouvir música.</p>
<p>Digamos que o você de 20 anos em 1985  decidisse seguir carreira de programador. Você aprenderia Basic, aprenderia C, talvez Cobol em alguma grande indústria, em breve você estaria aprendendo coisas novas como dBase III ou Clipper ou Dataflex.</p>
<p>Agora vamos pular pra 1995, ano que eu entrei na faculdade e tinha 18 anos. O Plano Real estava sendo um razoável sucesso nesse ponto, tínhamos quase paridade de 1 pra 1 com o dólar, e com a abertura dos mercados na época do Collor em 1991, podíamos importar muita coisa nessa época. O mundo estava diferente já, com a queda do muro de Berlin e o fim da União Soviética também em 1991, as coisas estavam caminhando bem apesar de outras guerras acontecendo como no Iraque de Sadam Hussein. O Windows 95 tinha acabado de ser lançado. A internet comercial estava só começando com cerca de Um Porcento da população experimentando a “ultra” velocidade de modems discados de Cinquenta e Seis kbps. Muitas novidades estavam sendo lançadas nesse ano, como os primeiros navegadores como Netscape, linguagens como Delphi e Java e LiveScript que viraria Javascript. O famoso Macromedia Flash iria sair só no ano seguinte.</p>
<p>Digamos que o você de 20 anos em 1995 decidisse seguir carreira de programador. Você provavelmente iria pro lado de Visual Basic, Visual C, Borland C++, Borland Delphi, talvez quisesse tentar uma carreira em ambiente Unix como Solaris e Java da então amada Sun, ou com minicomputadores IBM programando REXX em OS/2. Web sequer era uma carreira de verdade ainda. Sabe o dBase ou Clipper ou Dataflex de 10 anos atrás? Já estavam no caminho de queda.</p>
<p>De 1995 vamos pra mais 10 anos no futuro, agora você tem 20 anos mas no novo século, em 2005. O mundo era um lugar muito diferente depois do atentado terrorista de 11 de setembro. Nesse momento o mundo web já tinha chegado chegando e explodido na bolha das ponto e muitos até duvidaram sobre o futuro da internet. As redes sociais tinham acabado de começar, Orkut, Friendster, MySpace. Ruby on Rails tinha acabado de ser lançado e ninguém estava dando muita bola. Flash se tornou ubíquito. Estávamos ainda a pelo menos 1 ano da Amazon lançar o AWS, YouTube, Instagram, Pinterest, nada disso existia ainda, e nessa época a Apple já tinha se levantado das cinzas, dominado o mundo com seus iPods, e estava pra iniciar a migração dos processadores PowerPC pra Intel, abrindo o caminho pros desenvolvedores adotarem Macs pra programar.</p>
<p>Digamos que o você de 20 anos em 2005 decidisse seguir carreira de programador. Você provavelmente iria pro lado de C# ou Java ou PHP ou fazer sites em Flash e Wordpress. Navegadores eram todos incompatíveis e coisas como JQuery viraram necessidade na briga entre Firefox e Internet Explorer. O Google Chrome ainda seria lançado só daqui 3 anos, nem o Gmail tinha sido lançado ainda. Sabe o Visual Basic e Delphi e a Borland de 10 anos atrás? Já estavam no caminho de queda.</p>
<p>Nosso último salto é de 2005 pra 2015, mais 10 anos. O mundo mudou completamente pra nós. Passamos por uma das maiores crises econômicas entre 2008 e 2009 que quase levou o mundo financeiro ao colapso. Ao mesmo tempo as redes sociais se consolidaram, Facebook saiu na frente dominando e vários outros como Orkut e MySpace ficaram pra trás. A Apple surpreendeu o mundo lançando o iPhone em 2007, o Google lançando o Android pouco tempo depois e de repente todo mundo já tinha smartphones nos bolsos, uma das adoções de tecnologia mais rápida da história.</p>
<p>A Amazon trouxe o conceito de infraestrutura como serviço e somando ao mundo de smartphones criamos o conceito de “Cloud”. Também por causa do surgimento do mundo mobile e das redes sociais começamos a falar sobre Software as a Service ou SaaS e o mundo de escalabilidade, concorrência e de repente tínhamos mais dados do que poderíamos jamais precisar e inventamos mais ferramentas como a categoria NoSQL de bancos de dados como MongoDB, Redis, Cassandra. E tivemos uma explosão em novas linguagens como Scala. Javascript começou a ganhar relevância quando Steve Jobs matou o Flash e agora todos queriam Apps.</p>
<p>Também de repente todo mundo precisou rebuscar Objective-C pra programar pra iPhones, Javeiros ganharam nova casa em Android, o mundo C# ganhou um boost também em gaming com iniciativas como Unity. Depois de zonear o mundo, Steve Jobs acabaou morrendo em 2011 e com ele as inovações da Apple. A Microsoft finalmente voltou aos eixos com o Windows 10 e a linha Surface. Certamente esses 10 anos foram um dos mais movimentados na nossa história.</p>
<p>Digamos que o você de 20 anos em 2015 decidisse seguir carreira de programador. Você provavelmente estaria ferrado em escolher entre tantas opções. E eu provavelmente estou ferrado também pra explicar mais sobre isso em outros episódios. E isso porque eu nem vou mencionar tudo mais que surgiu entre 2015 e hoje, meros 4 anos.</p>
<p>E vocês acham que a história terminou? Vamos voltar pra década entre 1985 a 1995. Nessa época jovens programadores gostariam de estar escrevendo em revistas especializadas da época como Micro Sistemas ou escrever livros de papel mesmo. Entre 1995 e 2005 acho que muitos estavam fazendo seus websites pessoais, gerenciando grupos de Orkut, e começando a explorar esse troço novo chamado Blogs. De 2005 a 2015 que surgiram vários outros canais como redes sociais, YouTube e cursos online. Agora todo mundo se tornou um semi-profissional nessa nova categoria chamada geração de conteúdo.</p>
<p>Portanto um jovem de 20 anos em 1985 ou 1995 que era o meu caso, jamais poderia imaginar até onde iria a revolução dos microcomputadores e que uma parcela considerável da população mundial teria computadores, muito menos conectados à internet 24 horas por dia. Não poderíamos imaginar que teríamos smartphones e que uma parcela considerável da população mundial teria smartphones.
Não poderíamos imaginar que filmes, músicas, livros e todos os conteúdos estariam disponíveis em serviços como Netflix e que um terço do volume de dados trafegados na internet seria deles.
Não poderíamos imaginar que as pessoas teriam a opção de se tornar blogueiras ou virar celebridades num canal que viria a ser maior e melhor do que a TV no caso do YouTube.
E, no caso de nós programadores, não era simples de imaginar que cada nova linguagem que aprenderíamos numa década se tornaria obsoleta já na década seguinte e teríamos que aprender mais e mais linguagens e tecnologias novas. Entenderam agora porque eu constantemente falo tanto sobre “Aprendendo a Aprender”?</p>
<p>Pra você que tem 20 anos e está entrando agora numa carreira que envolve tecnologia. Veja meus vídeos sobre “Sua Linguagem NÃO É especial”. Apaixone-se pelo processo de aprender e usar as tecnologias, nunca pelas tecnologias em si e as empresas por trás. Nos anos 90 a marca Sun era reconhecida pelos seus produtos inovadores como os workstations, o Solaris, pessoas como James Gosling e Bill Joy. De repente tudo mudou, em 2009 ela foi vendida pra Oracle e desde então ninguém mais se lembra dela. De repente a Apple era um gigante nos anos 80, quase morreu nos 90, fez um retorno triunfante nos 2000 e então estamos na ressaca da morte de Jobs desde 2011. A Microsoft teve altos e baixos iguais, sendo hegemônica nos anos 90, quase se desintegrando no processo anti-truste de 2000, sendo ostracizado nos anos 2000 e perdendo o bonde dos dispositivos de música e smartphones e só agora retornando de forma triunfal. Hoje você é fã do do Facebook, de unicórnios como Uber, Netflix, Spotify.</p>
<p>Toda startup inovadora de ontem se torna o enterprise de amanhã. Entenda essa verdade. A parte cruel de ter sucesso é se tornar quem se queria superar. São ciclos, é assim que as coisas funcionam. Eu conheci o GitHub em 2008, era um escritório pequeno, poucas pessoas. Hoje vale bilhões, basicamente dominou todo o código open source do planeta e foi comprada pela Microsoft. Nada permanece igual por mais de uma década neste nosso mundo de tecnologia.</p>
<p>E essa percepção não é nova, todo mundo falava da famosa Lei de Moore, do grande Gordon Moore, a “lei” que na verdade era só uma observação que o poder de computação dobrava pelo mesmo preço a cada 18 a 24 meses. Essa lei já morreu neste século quando batemos num teto de clock e passamos a adotar multi-cores. Mas existe outro Gordon, Gordon Bell e a Lei de Bell de 1972 que descreve como classes de computadores se formam, evoluem e podem eventualmente morrer.</p>
<p>Bell considera essa lei parcialmente um corolário da Lei de Moore. A definição é: Mais ou menos a cada década uma nova classe de computadores de menor custo se forma baseada em uma nova plataforma de programação, rede e interface resultando em uma nova usabilidade e o estabelecimento de uma nova indústria.</p>
<p>A Lei Bell fala sobre uma nova classe de computadores, e pode ser do mainframe pros minicomputadores para workstations para desktop para dispositivos móveis pra cloud computing e assim por diante. Faz 50 ou 60 anos que isso vem acontecendo, e só na minha curta história de 4 décadas eu diria que vi isso acontecer com meus próprios olhos. Não acredita em mim? Se você tem 20 anos talvez não tenha essa memória tão viva, mas se você tem 40 certamente vai se lembrar de quando em 2005 o Papa Benedito 26 foi escolhido, essa era a multidão assistindo no Vaticano. Então, menos de 10 anos depois, ele resignou e em seu lugar um novo papa foi escolhido, Papa Francisco, e esta é a multidão no Vaticano em 2013. Sim, o mundo mudou, e ele vem mudando constantemente.</p>
<p>A vocês de 20 anos fica a dica: planeje sua carreira mas estabeleça planos ou objetivos fixos. Você tem a fantasia de viver sendo feliz e fazendo as coisas que gosta, seja lá o que isso for, e eu já expliquei no meu vídeo “Procure o que você Ama, só que não” porque esse pensamento vai limitar suas opções.</p>
<p>A vocês de 40 anos, vou só confirmar o que vocês já sabem: a vida muda. Vocês provavelmente já entenderam que o importante não é fazer o que ama, mas amar o processo e aproveitar as chances que a vida vai te dando, sem ficar olhando muito pra trás. Por alguma razão os jovens tem vivido mais no passado do que os mais velhos, olhando muito pros nomes e ideologias falidas do passado. Livrem-se de ideologias e dogmas, elas não servem pra nada, pois quem vive de museu é passado.</p>
<p>Vou repetir, sua linguagem de programação não te define. As empresas de tecnologia não te definem. Seu salário atual não te define. Suas ideologias nunca deveriam te definir, porque você vai mudar todas elas em breve. Seus objetivos não te definem, porque à medida que o mundo vai mudando, seus objetivos vão mudar também. A única coisa que é constante é gostar do jogo e gostar do seu próprio esforço, seja lá no que esteja fazendo.</p>
<p>O objetivo do episódio de hoje era dar perspectiva. Antes de eu sair dizendo “vá aprender tecnologia X ou vá fazer curso Y” eu acho importante que todos você entendam onde vocês estão, no espaço e no tempo. Essa perspectiva vai ajudar vocês a terem mais dimensão. Quando você se pergunta, será que estou atrasado? Será que ainda tem tempo? Será que estou indo muito devagar? Pare pra pensar na perspectiva desse episódio. Talvez, talvez você esteja atrasado, pra década passada, mas uma nova década já se abriu.</p>
<p>No próximo episódio prometo que vou começar a tocar em alguns assuntos mais práticos tanto pro curto quanto pro longo prazo. Não deixem de assinar o canal e clicar no sininho pra não perder, se curtiram mandem um joinha e compartilhem suas histórias de perspectiva nos comentários abaixo. A gente se vê semana que vem, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>historia-da-computacao</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>carreira</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #36 - O Mercado de TI para Iniciantes em Programação | Série "Começando aos 40"</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/01/23/akitando-36-o-mercado-de-ti-para-iniciantes-em-programacao-serie-comecando-aos-40/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/01/23/akitando-36-o-mercado-de-ti-para-iniciantes-em-programacao-serie-comecando-aos-40/</guid><pubDate>Wed, 23 Jan 2019 17:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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&lt;a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;p&gt;O ano virou e eu resolvi tirar 2 semanas de &amp;ldquo;férias&amp;rdquo; pra mim mesmo, mas agora estou de volta!&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal <a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener">Akitando</a>. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.</p>


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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>O ano virou e eu resolvi tirar 2 semanas de &ldquo;férias&rdquo; pra mim mesmo, mas agora estou de volta!</p>
<p>Me fizeram uma pergunta interessante: como uma pessoa de 40 anos pode mudar de carreira e entrar no mercado de programação?</p>
<p>Não dá pra responder isso de forma curta, então resolvi tentar produzir uma mini-série, e hoje vou iniciar com o Primeiro Episódio apresentando rapidamente um panorama do mercado como um todo e algumas considerações sobre remuneração e carreira.</p>
<p>Nos próximos episódios quero tentar explicar mais sobre o que é a profissão de programador e como você pode começar a aprender na ordem mais eficiente.</p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Desculpem por per pulado algumas semanas. Vou tentar voltar com episódios semanais. E desta vez me fizeram uma pergunta difícil. O que uma pessoa de 40 anos precisa saber pra se tornar um programador? Parei pra pensar sobre isso e resolvi fazer uma pequena série pra responder. Não dá pra responder só em um vídeo.</p>
<p>Mesmo se você tem 20 anos ou 30 anos, tudo que eu disser mais ou menos se aplica. A intenção desta série não é dar uma receita de bolo detalhada pra ser seguida ao pé da letra.</p>
<p>Primeiro de tudo, pode uma pessoa de 40 anos de repente mudar de profissão completamente? Claro. Qualquer um vai dizer que sim. Eu tenho mais de 40 anos, eu tenho uma boa idéia do que isso significa.</p>
<p>Na parte motivacional mais clichê, sim, qualquer um pode ser o que quiser. Mas eu não vejo isso acontecendo todo dia. Mudanças assim exigem uma pessoa madura o suficiente pra engolir o próprio ego por alguns anos, quanto mais velho mais isso é verdade. Se seu ego é frágil e se você se apega às aparências ou depende muito da validação de outras pessoas, eu diria que é impossível mudar de profissão. Por isso vocês vão notar que eu falo tanto sobre individualismo, porque eu tenho zero paciência com pessoas que são parasitas da validação dos outros.</p>
<p>A primeira coisa que você tem que aceitar é que a partir de agora você tem o mesmo nível de um estudante de faculdade no primeiro ano, menos ainda que um traineé ou estagiário. Antes de falar da profissão em si, HOJE vou começar falando um pouco sobre o mercado de TI em geral. Vamos lá.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>O mercado de tecnologia, no geral, é altamente competitivo. Anos no mesmo emprego não tem muito valor. O que tem valor é sua capacidade de resolver problemas. O fato de ser um mercado não regulamentado trás como vantagem que se você realmente for bom, você avança, e quem é acomodado fica pra trás. É um mercado ainda razoavelmente meritocrático. O código não se importa com seu gênero, sua raça ou sua posição social. Código é código. Ou você resolve o problema melhor que os outros ou alguém vai resolver melhor que você. E não importa se VOCÊ acha que vale mais, você normalmente ganha exatamente o que merece.</p>
<p>É exatamente por isso que tecnologia sempre foi um terreno fértil, porque a gente tá cagando pra status quo. Se você acha que ganha mal nesse mercado e não é valorizado, é um problema seu e só seu, que não consegue enxergar as centenas de oportunidades que existem. E não estou dizendo fora do seu emprego. Tenho certeza que a maioria sequer olha ao redor pra ver o que tem.</p>
<p>E você acha que pode fazer melhor que seu empregador? Cadê você abrindo sua própria empresa e fazendo melhor então? Não precisa de certificação, não precisa de nenhuma licença especial pra operar. Não existe CREA, não existe CRM, não existe OAB.
Não existe &ldquo;me pague primeiro que eu mostro o que posso fazer&rdquo;. Só existe &ldquo;eu sou melhor que você e posso provar&rdquo;. Portanto nesse mercado as empresas não tem um padrão regulamentado pra seguir, todas são diferentes.</p>
<p>A gente tende a seguir algumas boas práticas muito óbvias, mas no geral cada empresa estrutura sua área de tecnologia como quiser, então só porque você viu sendo feito de um jeito numa empresa, se outra fizer diferente não quer dizer nem certo nem errado. Você precisa ver o histórico de resultados reais (não o que aparece só na propaganda e muito menos em eventos). Não seja arrogante de achar que sabe tudo, especialmente no começo de carreira, você não sabe nada ainda. Em 5 anos, talvez, vai começar a entender a dinâmica do mercado como um todo. É muito fácil tirar conclusões precipitadas olhando pro próprio umbigo, então aprenda a ter paciência primeiro.</p>
<p>Claro, estou dizendo isso conceitualmente e generalizando. Localmente você sempre tem lugares que vão praticar do jeito corporativista ou até monopolista, mas se fizer isso muito tempo um novo concorrente vai aparecer do lado, ser mais eficiente, mais barato, e aí já era. Um mercado livre (ou semi-livre no nosso caso) auto regulado, tende a convergir pro lado certo: premiando quem é mais eficiente e punindo quem não é. Não existe segurança se você for acomodado ou incompetente, você só vai ficar pulando de galho em galho até não ter mais lugar pra você. Mesmo um país de leis trabalhistas toscas e medievais como o Brasil não vai segurar gente incompetente no mesmo lugar por muito tempo.</p>
<p>Programação, no geral, não é uma profissão de procedimento mas sim uma profissão de prática, mas vou explicar mais sobre isso em outro vídeo. Como eu disse, nosso mercado não é regulamentado, e os critérios pra projetos e empresas públicas costumam ser altamente defasados e ineficientes, então nunca servem de referência pra muita coisa no mundo de verdade. Não existe uma ordem pré-definida nem critérios totalmente objetivos.</p>
<p>Isso é sensacional. Eu sempre pude dar um passo pra trás pra poder dar dois pra frente. Quando trocava de emprego eu aceitava ganhar menos por uma oportunidade em algo que eu não tinha experiência porque tinha confiança que ia aprender rápido e compensar esse passo pra trás muito rápido, justamente porque não existe carreira pré-definida pra gente. Se você for devagar, inseguro e ineficiente, nunca vai sair do lugar.</p>
<p>Dentro da nossa indústria existem diversos tipos de empresas. E repetindo, aviso que é impossível detalhar cada uma só num episódio, então eu vou de propósito cometer o pecado de generalizar. Lógico que existem exceções mas quero dar um panorama geral a partir do meu ponto de vista, não levem tudo ao pé da letra. Se alguém quiser complementar ou mesmo descrever exceções ao que vou dizer, fiquem à vontade nos comentários, a intenção não é iniciar nenhum flame war. Lembrando que o público pra este tema é alguém que ainda não conhece quase nada desta indústria.</p>
<p>Primeiro, como disse antes, existem as empresas públicas. No Brasil sempre é uma opção pra quem é inseguro demais e precisa mortalmente de garantias. Se você é esse tipo de pessoa, então sugiro ver o currículo de concurso público. Eu não posso te ajudar aqui. Eu não gosto por princípio e em particular porque são concorrência desleal, inibem o crescimento de empresas de verdade na região, estão sempre tecnicamente defasados e politicagem vale mais do que mérito. Pra uma pessoa com 40 anos eu acho que é uma opção ruim mesmo porque você provavelmente precisaria ter um diploma pra se enquadrar, e eu realmente não recomendo uma faculdade nesse caso.</p>
<p>Em segundo lugar, existem as empresas de grande porte, sei lá, marcas reconhecidas, mais de 1000, 2000 funcionários, onde no geral você vai ser só mais um e vai ter que engajar numa hierarquia rígida e provavelmente viciada em politicagem. Pra programadores vai existir a constante manutenção do que chamamos de sistemas de back-office, literalmente os sistemas que ficam por trás dos processos de todos os departamentos da empresa. Financeiro, Compras, Recursos Humanos, Atendimento ao cliente e assim por diante. Você pode passar a vida inteira só criando  relatórios, ajustando uma regra de negócio nova ou atendendo alguma nova legislação, ou um formulário novo e nunca vai sair muito disso. Não é necessariamente ruim, e eu acho até importante conhecer uma dessas por dentro, mas não ficar tempo demais pra não se tornar defasado. Nessa categoria você encontra empresas de todas as indústrias. Seja sistema administrativo de um hospital, de uma fábrica automotiva, do setor agrícola, comércio exterior e por aí vai. Se você precisa ter alguma estrutura ao redor, pode ser uma boa opção pra começar.</p>
<p>Em terceiro lugar existem as empresas mais desejadas, vamos assim dizer, as famosas empresas de produtos. Pense assim, o software dessa empresa é o core-business dela ou não? Ou seja, a empresa é definida pelo software? Por exemplo, se você apagar o código do aplicativo do iFood, ela continua sendo o iFood? Não né, portanto ela é uma empresa de produtos. Muitos dos maiores e-commerces como Magazine Luiza ou Submarino, as novas fintechs como Nubank, C6. Meios de pagamento como Pagseguro, Pagar.me ou os apps que você usa todo dia como iFood, 99.</p>
<p>Muitas empresas de grande porte que eu falei, criaram sub-empresas ou departamentos que são mais ágeis do que tinham antes, caso da Magazine Luiza que criou o Luiza Labs, ou o Itau que criou divisões mais ágeis e investe em iniciativas como o Cubo. Como eu disse, competição: pra se manterem competitivas, atrair talentos, muitas das empresas da categoria anterior foram obrigadas a se tornar mais eficientes. É a importância de existir concorrência mesmo num mercado que é semi-livre. E pelo mesmo motivo que disse antes, se você precisa de alguma estrutura ao seu redor, também são boas opções pra iniciantes.</p>
<p>Em quarto lugar existem as terceirizadas. Essa categoria é meio uma zona mas eu diria que existem pelo menos 3 grandes categorias. Primeiro temos as pequenas agências. Muitas empresas que ou precisam ser mais ágeis ou não sabem como lidar com tecnologia procuram por agências. Seja pra manter seu website principal ou mesmo e-commerces e outros sistemas que chamamos de &ldquo;white-label&rdquo; ou seja softwares pré-prontos que são customizados pra cada empresa. Costuma ser um bom lugar pra iniciantes mais arrojados porque costumam ser empresas pequenas, com pouca ou até nenhuma estrutura. Muitas são bagunçadas e desorganizadas, vendem mal e por isso pagam mal e você é obrigado a fazer muitas horas extrass. Mas isso não importa, você não vai ficar pra sempre lá, mas eu acho importante sentir esse tipo de ambiente na pele pra aprender a ter jogo de cintura. É muito fácil se acostumar mesmo num lugar desses então tome cuidado.</p>
<p>Ainda na categoria de terceirizadas, em segundo lugar, temos os body-shops. Qualquer empresa, física ou remota, que aloca você POR PROJETO ou seja, que não te contrata em tempo integral e não te dá o suporte mínimo ou que demite se ficar algum tempo sem projeto. Muitas ainda contratam você por um pacote mínimo de horas e você preenche planilhas ou sistemas de controle de horas e é pago por hora. A função dessas empresas é basicamente achar pessoas no mercado, manter um banco de currículos, e quando os clientes pedem algum perfil eles tentam fazer um match. É um tinder de pobre pra empregos.</p>
<p>Eu fortemente desaconselho iniciantes nesse tipo de empresa, porque você ainda não está preparado. Iniciantes precisam de outras pessoas mais experientes ao redor pra crescer. Esse tipo de empresa funciona pra quem já tem alguma experiência e sabe se vender sozinho, freelancers. Talvez, se for pra alocação remota  pode fazer sentido pra quem quer morar numa região distante sem mercado local e quer home office, por exemplo. Ou pra quem quer cobrar mais caro alocado num cliente sem ter vínculo empregatício com ela. Novamente, funciona bem pra quem já tem experiência e pode ser uma boa alternativa mas repito: não deveria ser seu primeiro emprego. Quem vira freelancer rápido demais perde muita oportunidade de crescer antes do tempo. Você perde mais tempo preocupado se vai ter um próximo projeto. Como não tem experiência vai acabar trabalhando demais por pouco resultado e não vai ter ninguém pra realmente orientar o trabalho pra ser mais eficiente. No começo pode parecer que vai ganhar mais, mas você não cresce e fica estagnado muito rápido. É uma armadilha.</p>
<p>Finalmente, na categoria de terceirizadas, existem as consultorias propriamente ditas. Cuidado que muitos body-shops se auto-intitulam consultorias mas não são. Se você não é empregado como funcionário em tempo integral, independente se tem ou não projeto pra te alocar, então é um body-shop. Consultorias tendem a viver de reputação, então costumam ter alguma formação inicial, costumam ter acompanhamento com cliente e se forem boas, selecionam bem os funcionários. A grande vantagem: você vai ter suporte da empresa e de seus pares, e vai ter a oportunidade de trabalhar com diversos tipos diferentes de clientes e projetos, de todas as categorias que mencionei anteriormente. Mesmo as famigeradas fábricas de software não deixam de ser consultorias, elas vendem um processo mais estruturado e com menos margem pra você ter autonomia, mas para iniciantes vale a pena se eles oferecem algum treinamento e mínimo de segurança.</p>
<p>Resumindo, no geral eu falei que o mercado é dividido em pelo menos 4 grandes categorias:
1, as empresas públicas, 2, as grandes empresas com manutenção de sistemas back-office, 3, as tech startups ou empresas grandes com produtos ou departamentos de inovação, 4. as terceirizadas.</p>
<p>E nas terceirizadas temos pelo menos 3 tipos diferentes de terceirização: 1, as agências que vendem pequenos projetos e customização de pequenos produtos como websites ou pequenos e-commerces, 2. os body-shops e sistemas pra freelancers, 3. as consultorias e fábricas de software.</p>
<p>Agora, fiquem espertos. Não ache que você vai conseguir aprender tudo só no trabalho. No trabalho você vai aplicar o que aprendeu estudando. Se você tentar entrar no ritmo de aprender enquanto faz, a tendência é ir muito devagar. Os primeiros empregos devem servir primeiro pra você aplicar a parte técnica que aprendeu na teoria via livros e cursos e em segundo pra aprender os protocolos de comunicação, como conversar com seus pares, como conversar com seus chefes, como conversar com seus clientes, entender as expectativas de cada um e como você pode demonstrar resultados práticos e eficientes.</p>
<p>Eu já disse antes que um programador não é definido pelas tecnologias que escolheu. E eu digo que o programador também não é definido por aquilo que ganha. Se você acha que ganha pouco, mas sabe que é bom e aprende rápido, isso é temporário, você vai ganhar mais. Porque um programador é definido pela eficiência como consegue resolver problemas reais. Quem só reclama a maior parte do tempo não é um bom profissional, porque como eu já disse, quem gasta a maior parte do tempo reclamando obviamente não está resolvendo nada. Então no ambiente de trabalho, fuja dos coleguinhas que ficam o dia inteiro só lamentando da vida, eles não vão te ajudar a subir na carreira, só vão te atrapalhar. Nunca se preocupe em ficar julgando os outros, se os outros forem ruins como você diz, eles não vão subir na vida e você sim. Caso contrário, assuma que suas premissas é que estavam erradas. Entendeu? Eu já disse que se você é iniciante e está irritado que os outros não fazem do seu jeito, considere que pode ser o seu jeito que está errado. Não foque no seu jeito ou jeito dos outros, foque em resolver o maldito problema. E se não tem solução, solucionado está, pule pro próximo problema.</p>
<p>Dê preferência a empresas que te contratam do jeito certo. Apesar de eu odiar a CLT, a lei vigente é CLT então temos que cumprí-la. A lei trabalhista mudou ano passado e agora permite contratar PJs para funções principais da empresa. Mas saiba identificar quando uma empresa oferece a opção de PJ só pra te pagar menos ou quando ela faz isso realmente pra te repassar mais. Na dúvida, dê preferência a quem contrata CLT cheio, carteira assinada, 13o, férias e benefícios como plano de saúde e vale refeição. E quando você sai de uma empresa, seja uma pessoa ética, avise com antecedência, cumpra seu aviso prévio. São coisas meio básicas que se você quer ser um profissional sério já deveria saber.</p>
<p>Resumindo o que eu falei, como iniciante, toda oportunidade é uma oportunidade. Uma pessoa muito nova tem o problema de não chamar nenhuma atenção. Não tem muito jeito, se você tem 20 anos, está na faculdade, ainda não teve muita experiência, não importa o que faça no seu currículo, ele simplesmente não se destaca. Por isso você precisa adicionar coisas que os outros não tenham, por exemplo fluência em inglês.</p>
<p>Se você tem 40 anos, uma vantagem é que seu currículo, de imediato, até se destaca ao lado de vários de 20 anos. Mas a falta de experiência na área também não vai ajudar. 20 ou 40 vocês precisam dar algum jeito de se destacar na multidão. E se você realmente leva a sério começar a montar sua carreira, vá até as empresas, procure as pessoas, não fique passivamente só esperando alguém te ligar.</p>
<p>Entenda que o mercado tem excesso de programador iniciante e falta de programador realmente bom. Existe uma saturação de gente que customiza e-commerce, que se diz front-end, freelancers que não são tão bons. Todo mundo saiu da faculdade sabendo algum Java ou algum .NET. Então além da idade, você estará no bolo onde tem mais gente, onde a reputação da categoria é a mais baixa, e portanto é onde se paga pior. Obviamente isso faz sentido. Por isso eu digo que iniciantes não devem se preocupar com salário, porque realmente tanto faz nessa etapa.</p>
<p>Você precisa sim, querer sair do bolo da maioria e ir pra camada mais escassa, onde as empresas estão competindo por você e oferecendo valores maiores. Mas você acha que você vai pra essa camada só por causa dos seus olhos azuis? Porra nenhuma, você precisa começar a passar por várias empresas da camada mais baixa, agências, body-shops, empresas tradicionais, e ir acumulando boas referências, boas experiência e networking de verdade. Aliás, Networking não é só ir em evento, trocar cartão e adicionar no LinkedIn. Sabe o que eu faço com panfleto e cartão de evento? Jogo tudo no lixo, desculpa, nunca usei pra nada.</p>
<p>Networking de verdade começa no seu emprego, no seu projeto, no seu cliente, você constantemente demonstrar capacidade de resolver problemas, consistentemente ao longo do tempo, de tal forma que as pessoas começam a contar com você. Quando seus pares saem do grupo que você está, e vão pra outro lugar, eles vão lembrar de você. Não se esqueça, o estagiário de hoje pode ser o diretor de amanhã, e isso aconteceu comigo. Muita gente que eu conheci como júnior ou mesmo estagiário, hoje viraram gerentes de projeto, diretores, CTOs ou mesmo fundadores das próprias empresas. Isso é networking, acesso a pessoas de influência porque eles confiam em você e não porque você adicionou no LinkedIn.</p>
<p>Não pense em salário nos primeiros anos, porque é uma conta inútil, a menos que você planeje ficar só na camada baixa. Pense só em estudar sem parar e trabalhar sem parar pra conseguir subir da base da pirâmide pro meio e depois pro topo. Se for pra fazer conta, faça a conta mais óbvia: oferta e procura, quanto mais oferta existe, menor o valor. No começo você acaba precisando ir pra onde a “maioria” está porque não tem muita opção mesmo. Mas deixe a “maioria” pra trás o quanto antes, não se conforme por muito tempo, não se acostume com validação. Seja mais esperto e veja onde está mais escasso. Com certeza é escasso porque é difícil, mas você não quer ganhar mais?</p>
<p>Em termos de remuneração, todo mundo só pensa no tempo zero, o t0, mas esquece do Delta T, o resto do caminho. Quem pensa errado, fica toda hora procurando validação, só tenta pegar atalhos, e reclama mais do que faz, vai desacelerar. É mais ou menos como nesse gráfico.
Quem tem paciência, estuda, fica quieto e ouve, faz mais do que fala, e não dá muita bola pro que os outros ficam julgando, tende a ter um começo mais difícil, mas em pouco tempo é isso que acontece. Entenderam? É só uma questão de tempo, delta T.</p>
<p>Neste primeiro episódio eu queria explicar um pouco como se divide o mercado e uma visão bem geral do que esperar. No próximo episódio quero falar mais especificamente sobre o papel do programador e como começar quase do zero. O que é ser um programador? Não percam os próximos episódios e pra isso assinem o canal e cliquem no sininho. Se curtiram mandem um joinha e discutam nos comentários abaixo! A gente se vê semana que vem, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>negocios</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #35 - Pequena retrospectiva 2018 e previsões 2019</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/01/04/akitando-35-pequena-retrospectiva-2018-e-previsoes-2019/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/01/04/akitando-35-pequena-retrospectiva-2018-e-previsoes-2019/</guid><pubDate>Fri, 04 Jan 2019 10:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;Este episódio está saindo um pouco atrasado por causa do recesso de fim de ano :-)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta semana será um pouco curto mas quero deixar minhas impressões de alguns episódios chave de 2018 que sinalizam o que está por vir em 2019 e 2020.&lt;/p&gt;
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<h2>DESCRIPTION<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"></span>
    <a href="#description" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Feliz 2019!</p>
<p>Este episódio está saindo um pouco atrasado por causa do recesso de fim de ano :-)</p>
<p>Esta semana será um pouco curto mas quero deixar minhas impressões de alguns episódios chave de 2018 que sinalizam o que está por vir em 2019 e 2020.</p>
<p>Obviamente eu não ganhei o poder da onisciência ainda, então não posso prever o futuro, mas achei interessante deixar gravado minhas impressões pra comparar quando for 2020. Vamos ver.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>
<p>U.S. Economy Will Slow in 2019, May Enter Recession in 2020, Economists Forecast. Trump Administration Disagrees (<a href="http://fortune.com/2018/11/21/us-economy-slow-2019-recession-2020-economist-forecast/"target="_blank" rel="noopener">http://fortune.com/2018/11/21/us-economy-slow-2019-recession-2020-economist-forecast/</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Silicon Valley&rsquo;s year of reckoning (<a href="https://techcrunch.com/2018/12/24/silicon-valleys-reckoning/"target="_blank" rel="noopener">https://techcrunch.com/2018/12/24/silicon-valleys-reckoning/</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Uber, Pinterest and the rest of the 2019 IPO class emerged from the ashes of the Great Recession (<a href="https://www.recode.net/2018/11/28/18114790/2019-ipos-recession-uber-airbnb-pinterest-lyft-slack"target="_blank" rel="noopener">https://www.recode.net/2018/11/28/18114790/2019-ipos-recession-uber-airbnb-pinterest-lyft-slack</a>)</p>
</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Primeiramente, Feliz 2019!</p>
<p>Eu devia ter lançado este vídeo no dia 2. Já tinha escrito o script dias atrás, mas resolvi usar o feriadão prolongado pra ficar largado no sofá tirando o atraso do Netflix. Aliás, pequena dica: Bird Box é uma droga, vejam meu review no Facebook, o link está na descrição. E finalmente estou assistindo Lucifer, já estou na terceira temporada. Agora vocês sabem porque eu não lancei este vídeo no dia 2.</p>
<p>Segundamente, sendo primeiro vídeo do ano, muita gente espera algum tipo de retrospectiva ou previsões. Até poucos dias atrás eu não sabia se tentaria fazer algo assim ou não. Bom, what the hell, vamos tentar.</p>
<p>Deixando claro que o objetivo não é fazer uma retrospectiva detalhada. Eu tenho zero vontade de discutir publicamente sobre política, então eleições, posse, ou qualquer dessas hashtags temporárias que já morreram, zero espaço. Zero vontade de ter que ficar apagando trolls esta semana.</p>
<p>Se for pra resumir rapidamente. Dispositivos, eletrônicos, nada de realmente importante. Tudo evoluções incrementais. Samsung S8 pra S9, iPhone X pra XS, bla bla bla.</p>
<p>Super tendências, Big Data, Inteligência Artificial, Realidade Virtual, Carros elétricos. Nada de interessante. Tudo que era hype 1 ano atrás, continua sendo hype agora. E vai continuar sendo pelos próximos anos. Não espere nada demais nessas áreas que já não sabemos.</p>
<p>Linguagens? Frameworks? Pff nada de interesante que vale a pena mencionar. Mesma coisa que em 2017, mesma coisa que em 2016, essa parte anda super estagnada e, de novo, só updates incrementais.</p>
<p>Vamos pra um dos meus assuntos favoritos. Criptomoedas. Se vocês ainda não assistiram, recomendo ver os vídeos que fiz da minha peregrinação blockchain aqui no canal. Em 2018 fui ver pessoalmente como andam as coisas em Seoul na Coréia do Sul, na Ilha de Malta e em São Francisco. Relaxem, o mercado está em queda mas ele tá longe de ter quebrado.</p>
<p>Uma coisa que já deixo de dica: se você segue qualquer grupo no Facebook, fóruns, grupos de whatsapp ou telegram ou perfil de twiteiro hipster que quer ganhar like falando mal. Bloqueie todos eles. Se tem uma coisa que eu fiquei tolerando o ano inteiro de 2018 foi o lixo que sai desses lugares. Mas realmente, nada de útil. Eu parei de seguir quase tudo, porque é bem inútil mesmo. Faça o mesmo. No máximo gente chutando previsões sem base nenhuma, ou propaganda, ou mais tentativas de aplicar golpes e pirâmides. A única coisa que eu ando acompanhando de leve são os gráficos. Atenha-se aos fundamentos.</p>
<p>Criptomoedas não é nada de mágico. São mercados financeiros, como qualquer outro. Todo mundo que fica se gabando &ldquo;ahhh o bitcoin fracassou, era tudo pirâmide mesmo, a bolha estourou, bla bla bla&rdquo; é um imbecil, porque o comportamento de 2018 era esperado. Eu estava prevendo que o preço poderia cair pra baixo dos USD 2000 ainda em 2018 e o suporte ficou na casa dos USD 3700. E sim, eu tenho muitos bitcoins em HOLD, que não pretendo mexer tão cedo porque também não tenho paciência pra ficar fazendo micro trades.</p>
<p>O que vocês esperavam, na real? No fim de 2017 todo mundo viu o rali parabólico que levou os preços a absurdos USD 20 mil. Foi rápido demais, tudo que sobe rápido demais, também cai rápido. Estamos repetindo o ciclo que aconteceu entre o fim de 2014 até começo de 2016. Se quiser comparar com outros ciclos, é menos ruim do que o crash da internet de 2001 até 2003. O mesmo de 2008 até 2010.</p>
<p>Eu diria que estamos num cripto winter que deve durar no mínimo até o meio de 2019, sendo mais realista, até 2020. Se você fez a besteira de comprar quando os preços estavam acima dos USD 10.000, se ferrou. Não é este ano que você vai realizar a menos que alguma coisa muito cisne negro aconteça.</p>
<p>Mas não foi só criptomoedas. Agora você precisa colocar as coisas em perspectiva. TUDO caiu no fim de 2018. Desde 2010 tudo vem subindo, ano após ano, consecutivamente melhor que o anterior. Como tudo vem se comportando desde a crise de 2008?</p>
<p>Veja a Alphabet/Google, ….. Despencou.</p>
<p>Veja a Apple, subiu, bateu o 1 trilhão e … despencou.</p>
<p>Até a Microsoft que eu diria que foi a empresa de tecnologia que deu as melhores notícias do ano, subiu, subiu, e …. também caiu.</p>
<p>O índice NASDAQ veio se recuperando desde o crash de 2001, subiu bem mas aí a crise de 2008 chegou, e caiu tudo de novo, então veio subindo, subindo e agora caiu tamb’em</p>
<p>O DOW JONES despencou espetacularmente.</p>
<p>O S&amp;P, o Standards &amp; Poor 500 despencou tambem!</p>
<p>Não foi só criptomoedas que despencou, tudo vem despencando, a economia como um todo. Tem várias teorias da conspiração do apocalipse econômico que vem por aí, se não em 2019, em 2020. Os juros estão altos, sinais de recessão nos Estados Unidos vem aumentando.</p>
<p>Eu não sou muito de acreditar em previsões de apocalipses, mas claro, cisnes negros realmente acontecem. Eu prefiro aceitar que ciclos econômicos existem. E é bom, porque quando está tudo em crescimento é muito fácil declarar sucesso. Mas é na correção do mercado que separamos o joio do trigo. Quem sobrevive ao longo inverno. A mamata acabou.</p>
<p>Em 2018, o  Google deu uma sucumbida em discussões controversas que tiraram o foco do que eles deveriam estar fazendo. O Facebook, só vem se dando mau com relações públicas, ano após ano, principalmente com o escândalo da Cambridge Analitica. A Apple vem desapontando ano após ano desde a morte de Jobs. A Microsoft é uma das poucas empresas de tecnologia que tem se mantido razoavelmente bem aos olhos do público. Claro, o market cap de todos eles continua gigante, mas a tendência dos papéis está se invertendo. Google ou Facebook, que outrora eram os bastiões da inovação e dos bons costumes estão cada vez mais aparecendo em pasquim de fofoca e mostrando suas verdadeiras cores. Eu não perderia meu tempo evangelizando nada delas.</p>
<p>A Microsoft está fazendo o que toda empresa de seu porte precisa mesmo fazer: saindo às compras. Depois de desastradas aquisições como a Nokia, ela vem adquirindo empresas interessantes. Em 2016 a Microsoft adquiriu a Xamarin, foi um passo extremamente importante e foi quando eu comecei a ficar mais otimista com a Microsoft. Esse merge ainda vem acontecendo internamente. Todo mundo está tentando avançar do .NET Framework pro .NET Core e toda a linha de produtos de desenvolvimento vem evoluindo até que rápido, como o Visual Studio Code que hoje é uma das melhores IDEs pra desenvolvedores.</p>
<p>O maior objetivo certamente foi a possibilidade de se ter uma plataforma .NET que consegue entregar aplicativos que são cross-plataforma, que rode em Windows, desktop Linux, Android e iOS. Soa familiar? Parece o antigo objetivo da Sun em “write once, run anywhere” ou “escreva uma vez, rode em qualquer lugar” que era o slogan do Java dos anos 90. No fim não funcionou exatamente assim, mas a Microsoft quer tentar. 2 anos depois ainda não chegamos exatamente lá no .NET Core também. Talvez leve 2 anos ou mais pra realmente chegar lá 100%.</p>
<p>E em junho de 2018 a Microsoft surpreendeu de novo adquirindo o gigante Github por nada menos que USD 7.5 bilhões. Falei da aquisição da Xamarin porque o novo CEO no lugar do fundador Chris Wanstrath será o fundador da Xamarin e atual Microsoft Corporate Vice President Nat Friendman, e o Chris Wanstrath vai reportar pra outro veterano da Microsoft, Scott Guthrie. Ainda é muito cedo pra dizer o que pode realmente acontecer com o futuro do Github. A transição parece tranquila até agora.</p>
<p>Pra outra uma perspectiva, vamos lembrar que nos últimos 10 anos todos nós ajudamos o Github a se tornar o maior repositório de código open source do planeta. Parece que foi ontem que eu conheci o Chris e o Tom Preston em 2009 em São Francisco. O Google tentou lançar seu próprio repositório, a própria Microsoft tentou, a Atlassian tentou, mas foi o suporte massivo da comunidade Ruby on Rails que ajudou a elevar a plataforma nos primeiros anos.</p>
<p>É irônico pensar que nos anos 90 a Microsoft era o inimigo número 1 do mundo open source. Quem não se lembra do julgamento antitruste dos Estados Unidos versus Microsoft em 2000 que levou Bill Gates ao banco dos réus e quase dividiu a empresa em 3 partes?</p>
<p>E quase 20 anos depois o maior repositório de código open source é agora propriedade da Microsoft. Essa nova geração sob liderança do Satya Nadella realmente está nos surpreendendo. Resta torcer pra eles terem aprendido a lição depois da Nokia, Skype e LinkedIn. Porém, é claro que o objetivo é alinhar as soluções de desenvolvimento como Visual Studio Code, alguma coisa do .NET Core, e as soluções de cloud da Azure. Ninguém faz caridade, e os stakeholders vão querer ver resultados de uma aquisição tão cara.</p>
<p>Em outubro, a IBM surpreendeu o mercado fazendo uma de suas aquisições mais caras. Nada menos do que USD 34 bilhões por ninguém menos que a RedHat. A idéia principal é elevar a IBM no jogo de Hybrid Cloud adquirindo plataformas do portfolio da RedHat como o OpenShift. Mas além disso a RedHat trás um portfolio amplo de soluções, incluindo o sistema operacional, soluções JBoss, Ansible e muito mais. Novamente, ainda é cedo pra dizer o que realmente vai acontecer mas a IBM vai querer vitaminar suas soluções de cloud corporativo usando esse portfolio. E, de novo, é uma das aquisições mais caras da IBM, os stakeholders vão querer ver resultados disso logo.</p>
<p>Eu achei esses episódios muito interessantes porque Xamarin, RedHat, Github são empresas de sucesso que surgiram justamente da guerra do mundo proprietário contra o mundo open source nos anos 90 e começo dos 2000. E 20 anos depois são os mesmos gigantes dos anos 90 que estão adquirindo essas empresas. Está acontecendo um shift no mundo open source que não pode ser ignorado.</p>
<p>Significa que muitos dos principais desenvolvedores do mundo open source, agora, estão na folha de pagamento de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, incluindo na lista também Google, Facebook, Apple, Intel e outras. E isso inclui pessoas como Linus Torvalds, que trabalham pra Linux Foundation cujas contas também são pagas por essas mesmas Microsoft, IBM, Google, Intel, Apple e dezenas de outras.</p>
<p>Assista meu vídeo sobre a Controvérsia da Lerna vs a ICE, mas o mundo de Free Software nasceu com uma ideologia e uma cultura subversiva própria, que privilegia sempre o software, nunca grupos politizados, qualquer politização do código é errado. Open source sempre foi e sempre deverá continuar sendo meritocrático onde a qualidade do código se sobressai a qualquer outra coisa. Esse ideal se acelerou durante a primeira bolha da Internet do fim dos anos 90, tivemos a depressão do começo do século XXI e agora essa nova bolha de tech startups que começou a acelerar principalmente depois de 2010.</p>
<p>As principais tecnologias que usamos hoje começaram a se consolidar entre 2006 e 2010, isso inclui coisas como Ruby on Rails, Git, o amadurecimento do próprio movimento Ágil, o surgimento disso que hoje chamamos de “cloud”, o nascimento do mundo mobile moderno, a consolidação da web em cima do Chrome.</p>
<p>Mais uma década se passou depois disso, passamos pela crise de 2008/2009 e desde então iniciamos um crescimento sem parar. 10 anos depois finalmente estamos vendo consolidações. Por causa desse ritmo de abundância, nossa cultura de Free Software veio sendo corrompida.</p>
<p>Se o povo do mundo financeiro estiver correto, estamos meio próximos de uma nova correção de todos os mercados. Como eu mostrei antes, os mercados de tecnologia, como um todo, atingiram seus picos e todos dão sinais de correção. Não só em tecnologia, no mercado imobiliário se especula se estamos em outra bolha. Muitos especulam que a economia norte-americana pode entrar em recessão até 2020.</p>
<p>Nem tudo são más notícias, na última grande crise econômica de 2008 e 2009, uma nova classe de startups se iniciou. Ano que vem muitas delas planejam abrir seus IPOs, incluindo Uber, Lyft, Pinterest, Slack e talvez Airbnb. Startups que nasceram das cinzas de uma crise e se tornaram unicórnios.</p>
<p>Os IPOs de 2030 podem ser das empresas que consigam nascer e crescer da próxima grande crise. Crises não são fins do mundo, pra muitos são excelentes oportunidades de crescer com menos competição. Ciclos econômicos são inevitáveis.</p>
<p>Eu não sou profissional financeiro, mas pelo histórico e pela intuição, minha recomendação pessoal: agora não é o momento de fazer grandes compromissos financeiros. Se você já tem dinheiro, por outro lado, em breve será o momento de comprar barato. Imóveis ou investimentos. Se você não tem dinheiro, eu guardaria, porque podemos estar pra entrar numa recessão em 1 ou 2 anos.</p>
<p>Se você iniciou sua carreira em menos de 10 anos pra cá, você começou bem num mercado que estava em constante crescimento, portanto sempre tivemos boas oportunidades em todos os lugares. Agora é hora de refletir se sua carreira veio subindo por sua própria competência ou porque você conseguiu surfar um momento em que tudo estava subindo sozinho?</p>
<p>Em termos de carreira na nossa área de tecnologia, estamos num momento de consolidação. Como disse antes, eu não vejo nada particularmente interessante que valha a pena focar todas as suas energias. Já faz pelo menos uns 5 anos que nada de realmente interessante aparece, só vaporware, só hype, mas nada que se provou ainda. Então, não acredite em nenhuma propaganda que se auto-intitula a salvação da lavoura, porque não tem. Só consolidações. A diferença é que eu espero que você tenha investido nos seus estudos nos últimos anos porque se o mercado se retrair, a competição vai aumentar, a demanda vai cair, e o mercado vai começar a separar o joio do trigo.</p>
<p>Por acaso, a entrada no século XXI foi marcado por um grande crash e uma depressão em 2001. Quase 10 anos depois em 2008/2009. E agora em 2019 ou 2020 já temos sinais de que estamos pra passar por algo similar.</p>
<p>Sabe aquela conclusão errada que todo mundo toma? Qual tecnologia tem mais gente? Deve ser porque é a que tem mais oferta de emprego. É o que todos pensam, eu já disse isso antes e repito, é o pior lugar que você pode estar se as previsões se tornarem realidade, porque onde tem gente demais é justamente onde o valor vai cair mais quando a demanda geral cair.</p>
<p>Resoluções pra 2019? Se a recessão não chegar este ano, aceite a sorte. Use este ano pra investir o máximo que puder nos seus estudos. Em 2020 você vai precisar disso.</p>
<p>E claro, como eu disse, especialista ou não especialista, ainda não existe ninguém que pode prever o futuro com certeza, nem especialista financeiro, nem cartomante. Mas, os sintomas estão aí. Vai bobear? Ah sim, e mudar de país não resolve o problema, porque essa tal próxima crise pode ser global e justamente os países hipster que a molecada gosta vão ser os primeiros a ser afetados.</p>
<p>E é isso aí, eu sei que pra um começo de ano eu não trouxe exatamente boas notícias, e espero que eu esteja errado, mas eu não pretendo pagar pra ver. Eu já passei por pelo menos 3 ou 4 grandes crises mundiais neste século e nos anos 90 e 80. Essas coisas são naturais e precisam mesmo acontecer, não existe crescimento infinito, existem ciclos, toda grande subida deve seguir com uma grande queda.</p>
<p>Eu disse no episódio do Dia das Crianças que o mundo está ficando cada vez melhor, e apesar do que eu disse aqui, é verdade. Crises são naturais, elas precisam acontecer e toda vez nós voltamos melhores do que estávamos antes. Não estamos nem falando de extinção em massa ou o fim da humanidade nem nada remotamente perto disso. Estudem história, vejam por exemplo que a Terra já passou por diversos episódios de extinção em massa como a Extinção Cambriana, a Extinção Permiana, a Extinção Triássico-Jurássico e várias outras, e o planeta continua aqui. Não se preocupem, se a crise vier, a humanidade vai continuar crescendo depois. Quer fazer parte do grupo que vai sobreviver? Aprenda a ser anti-frágil - talvez eu fale disso em outro episódio.</p>
<p>E vocês, concordam? Discordam? Deixem nos comentários abaixo o que vocês acham que vai ser 2019. Se curtiram deixem um joinha, compartilhem com seus amigos, não deixem de assinar no canal e clicar no sininho. A gente se vê semana que vem, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>mercado-de-tecnologia</category><category>economia</category><category>negocios</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #21 - Entendendo Blockchain em São Francisco</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/10/25/akitando-21-entendendo-blockchain-em-sao-francisco/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/10/25/akitando-21-entendendo-blockchain-em-sao-francisco/</guid><pubDate>Thu, 25 Oct 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Finalmente, para finalizar minha &ldquo;Peregrinação Blockchain&rdquo; pelo mundo, eu termino em São Francisco. Participei do evento Epicenter do SF Blockchain Week nos dias 8 e 9 de Outubro de 2018.</p>
<p>Neste episódio, além de descrever a situação atual dos Estados Unidos do ponto de vista de investidores ocidentais e orientais, vou explicar conceitos que NINGUÉM explica da forma certa em nenhum canal do Brasil. Os evangelistas brasileiros precisam aumentar o nível.</p>
<p>Esqueça canal de YouTuber financista, não sabem o que estão dizendo. Vamos aumentar o nível dessa conversa neste canal.</p>
<p>Neste episódio vamos falar de alguns dos problemas da discussão de Proof of Work e Proof of Stake e inclusive mencionar outras formas de consenso como Proof of Space-Time.</p>
<p>Vamos entender o que são secure enclaves, zero knowledge proofs, porque isso é importante.</p>
<p>Vamos também conhecer quem são as pessoas importantes que você deveria seguir (dica: nenhuma do Brasil) como Michael Arrington, Ella Zhang, Chengpeng Zhao, Vincent Zhao, Alex Shin e muitos outros, prestem atenção.</p>
<p>No final deste vídeo quero compartilhar com vocês minha enorme frustração com quem está representando o mercado de criptomoedas no Brasil: não temos ninguém aqui que tem uma fração da visão dos gigantes que eu vim conhecendo da Ásia, Europa e Estados Unidos.</p>
<p>Compartilhem este vídeo com todo mundo que você conhece que está interessado nesse mundo de blockchains e criptomoedas. Já passou da hora de alguém começar a separar o joio do trigo aqui no Brasil.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>The Secrets to FBG Capital’s Success May Not be So Secret (<a href="https://www.cryptoinvestor.asia/the-secrets-to-fbg-capitals-success-may-not-be-so-secret/"target="_blank" rel="noopener">https://www.cryptoinvestor.asia/the-secrets-to-fbg-capitals-success-may-not-be-so-secret/</a>)</li>
<li>How Binance Conquered The Cryptocurrency World With Help Of A Utility Token (<a href="https://www.forbes.com/sites/darrynpollock/2018/10/08/how-binance-conquered-the-cryptocurrency-world-on-the-back-of-a-utility-token/#4a0d264d33ef"target="_blank" rel="noopener">https://www.forbes.com/sites/darrynpollock/2018/10/08/how-binance-conquered-the-cryptocurrency-world-on-the-back-of-a-utility-token/#4a0d264d33ef</a>)</li>
<li>Proof-of-Stake &amp; the Wrong Engineering Mindset (<a href="https://medium.com/@hugonguyen/proof-of-stake-the-wrong-engineering-mindset-15e641ab65a2"target="_blank" rel="noopener">https://medium.com/@hugonguyen/proof-of-stake-the-wrong-engineering-mindset-15e641ab65a2</a>)</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Terça falei de Malta, hoje é dia de São Francisco. Esta é a última parte da minha peregrinação blockchain. Em vez de quebrar em muitos episódios, preferi colocar tudo num único vídeo pra facilitar quem está interessado. Peço um pouco de paciência porque este vídeo vai ser mais longo que o normal.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Originalmente eu estava planejando ir só pra Malta e até ia descansar um dia em Roma voltando a tempo pro Brasil Game Show semana retrasada. Mas aí fiquei sabendo que iria ter o Blockchain Week em São Francisco então mudei o itinerário em cima da hora e aí virou uma zona. A viagem de Malta pra São Francisco foi terrível. Era pra ser um simples vôo de Malta pra Roma, de Roma pra Dallas e dali pra São Francisco. O Vôo de Roma pra Dallas atrasou, me ofereceram pra Londres e dali direto pra São Francisco. Daí esse vôo atrasou, tive que ir pra Chicago e de lá pra São Francisco. Daí esse vôo também atrasou e eu tive que passar a noite em Chicago. No total levou mais tempo do que ir do Brasil pra Coréia do Sul.</p>
<p>O Blockchain Week foi uma semana inteira de vários eventos. Eu participei de apenas um deles, o San Francisco Blockchain Week Epicenter, mas antes teve o ETH San Francisco e na sequência teve o CESC que foi o Crypto Economics Security Conference, e ao redor deles diversas empresas fizeram meetups próprios, empresas como a Ultrain, ICON, ou Shyft.</p>
<p>Eu só posso falar do Epicenter. E mesmo o Epicenter foi um evento dividido em 5 trilhas paralelas. Eu fiquei no Main stage que era o auditório maior e com os nomes mais pesos pesados, mas teve em paralelo a trilha Titans of Tech e Building Blocks que me pareceu mais voltado à apresentação das empresas patrocinadoras e painéis com investidores. E ainda teve 2 trilhas mais de workshop técnico chamado Blockchain Academy que era hands on nas diversas soluções que os patrocinadores estavam apresentando.</p>
<p>Pelo que foi explicado, o evento aconteceu ano passado também, e teve cerca de 300 pessoas. Por causa do boom do fim do ano passado o interesse cresceu muito, este ano parece que chegou a ter quase 2000 inscritos.</p>
<p>Um grande contraste com todos os outros eventos de blockchain, em Seoul, em Malta, e mesmo os do Brasil, o de San Francisco tinha um peso muito maior de programadores e produtos centrados em tecnologia. Só o fato de ter 2 trilhas inteiras de workshops técnicos já diz muito de porque Silicon Valley ainda é Silicon Valley.</p>
<p>Infelizmente foi impossível assistir todas as apresentações, então vou compilar as principais idéias que eu ouvi.</p>
<p>Assisti só 2 palestras na trilha de Titans of Tech. Uma empresa que eu ficaria de olho é a chinesa SV Insight. Eles fizeram uma pesquisa sobre o mercado global de criptomoedas, aplicações de blockchain em diversas indústrias e ICOs. Eles disseram que iam liberar o whitepaper completo dia 15 de Outubro que já passou, até o momento onde gravei este episódio ainda não achei pra baixar. Não ajuda muito que o site deles é em chinês, se alguém encontrar o report, não deixe de mandar nos comentários.</p>
<p>Um exemplo do problema do mercado geral de tech startups usando blockchains foi a sessão sobre TCR ou Token Curated Registries. Na prática imagine qualquer registro editado publicamente como Wikis ou mesmo listas de recomendação como Yelps ou similares. No caso a idéia vem de listas de ICOs que publicam endereços de wallets para enviar tokens para participar desses ICOs, uma lista editável podia ficar à mercê de agentes maliciosos colocando endereços falsos induzir as pessoas ao erro e roubar os tokens. Em vez de correr esse tipo de risco tiveram a idéia de inventar um registro público onde a edição é baseada em stake. Ou seja, se você quer editar uma informação você coloca seus tokens como garantia, se sua informação for votada como falsa, você perde seus tokens. Ë como o Proof of Stake para votos que muitos blockchains tem perseguido mas no caso para editar registros públicos. O painel teve representantes de duas startups a Dirt Protocol e a Messari. Ambos estão ainda em desenvolvimento, a Messari está em fase de protótipo. Ou seja, ainda não existem de verdade. E muito da falta de credibilidade do mundo de ICOs é justamente esse: muitas promessas mas muito pouco pra realmente se ver.</p>
<p>Do painel um insight que eu já ouvi antes: o maior problema desse tipo de solução é como conseguir adoção em massa? Um dos maiores problemas é a falta de usabilidade para uma pessoa comum. Já é difícil pra uma pessoa não técnica entender a idéia de custodiar suas chaves privadas. Mais difícil ainda fazer essas pessoas instalarem plugins como Metamask em seus navegadores para conseguir usar Dapps como esses baseados em TCR. Usabilidade é um dos problemas mais graves pra adoção em massa e a razão de porque exchanges centralizadas e custodiantes em forma de wallets centralizadas meio como uma Coinbase ainda vão fazer sentido e porque soluções como Exchanges Descentralizadas, as chamadas DEX, ainda tem um longo caminho a perseguir.</p>
<p>As sessões na Main Stage foram estruturadas na maioria como Fireside chats, basicamente painéis moderados com vários nomes e empresas conhecidas como John Burbank da Passport Capital, Jeff Schumacher da BCG Digital Ventures, Michael Arrington da XRP Capital e assim por diante. Não vou descrever um a um mas no geral os temas eram os mesmos que já ouvi em outras conferências.</p>
<p>Esses temas giram em torno das regulamentações, security tokens e tokenização de assets, blockchain sendo usados como balas de prata onde não precisa, governança das blockchain públicas e os problemas de credibilidade e adoção em massa.</p>
<p>Investidores como Michael Arrington deixam muito claro que odeiam regulamentações, em particular porque nos Estados Unidos a SEC classifica todo token como uma security e isso dificulta todo o ecossistema. O Arrington disse em alto e bom som: Fuck the SEC.
Se não me engano foi Naval Ravikant da Angellist que explicou isso melhor. Ano passado as criptomoedas quase conseguiram quebrar a barreira pra se tornar mainstream, pagamentos quase aconteceram, Wall Street quase entrou. Mas o bull run rápido demais foi péssimo. A febre incentivou ICOs ruins que falharam e queimaram o dinheiro de muito investidor.</p>
<p>O objetivo era correto, mas como tudo aconteceu rápido demais, o mercado caiu em busca de correção e todo mundo entrou em modo de defesa. China baniu ICOs. Coréia do Sul não chegou a banir as ICOs porque tem tanto investidor que mais de 200 mil fizeram um abaixo assinado ao governo para não banir, mas eles mantiveram uma recomendação para desencorajar ICOs. Japão também baniu ICOs e os Estados Unidos classificaram quase tudo como security, ficando à mercê da SEC.</p>
<p>Initial Coin Offerings tem como objetivo baixar a barreira de entrada para investidores individuais. Eu falei isso em outro episódio mas em Initial Public Offerings ou IPOs o investidor de varejo, as pessoas comuns, só tem a oportunidade de entrar depois que todos os grandes VCs e fundos de investimentos já fizeram a compra inicial mais barata e estão protegidos. Com ICOs qualquer um poderia entrar no começo. Mas com todas as incertezas regulatórias, nenhum ICO pode mais arriscar lançar em público, então a única outra saída é fazer lançamento privado, entre quatro paredes, somente para os grandes investidores, então os ICOs acabaram indo pelo mesmo caminho das IPOs e o investidor comum novamente ficou sem acesso. Esse é o resultado de regulamentação restritiva, as pessoas comuns são “protegidas” tanto de perder dinheiro quanto de ficar mais rico.</p>
<p>A idéia dos blockchains é que qualquer um pudesse ser um nó na rede e minerar via proof of work. Mas tanto Bitcoin como Ethereum acabaram crescendo rápido demais e a dificuldade de mineração por PoW centralizou o controle da mineração na mão de poucos pools que usam hardware caro e não acessíveis, que você compra de empresas como Bitmain. Então um usuário em casa não tem mais a possibilidade de participar do processo de mineração. Substituir proof of work por proof of stake significa que em vez de hardware específico você precisa colocar seus tokens em stake pra participar da votação da mineração, mas se esses coins não podem ser adquiridos por qualquer um e só podem ser obtidos por private sales, significa que nesse caso também vai haver centralização de quem teve possibilidade de adquirir muitos tokens na fase de pré-venda fechada.</p>
<p>Além desse problema da quebra da descentralização ainda tem o problema da credibilidade. Como eu expliquei nos episódios de Seoul, lá eles criaram uma estrutura informal conhecida como Syndicates. A forma de levar os tokens pras mãos das pessoas é via listing, ou listagem desses tokens nas principais exchanges como Bithumb ou Binance. Todo mundo quer ser listado. Mas pra isso você precisa passar pelos syndicates. Um dos painéis mais interessantes foi de novo com Michael Arrington fazendo perguntas à Jack Lee da HCM Capital, Alex Shin da Hashed, Shinhae Lee da GBIC, David Lee da Refactor Capital.
Era um painel de investidores do Ocidente vs investidores do Oriente. E o Arrington, como sempre sem travas na língua, levantou de cara essa questão: nós sabemos que existe essa estrutura, quanto vocês cobram pros ICOs listarem seus tokens? E de fato, o fee pode ir de 500 mil ou 1 milhão de dólares, e os syndicates chamam isso de budget de marketing (!!) Na prática, pra você conseguir listar sua startup numa Nasdaq também não vai sair nem um pouco barato. Achei engraçado porque nesse mercado existem várias estruturas desse tipo que todo mundo sabe que existe mas ninguém comenta oficialmente. É como uma máfia mesmo.</p>
<p>Também achei interessante o Alex da Hashed dizer que eles são uma crypto fund que investe em cerca de 65 startups mas somente 5 são da Coréia do Sul e dessas umas 3 são de amigos de faculdade dos fundadores. Faz você pensar sobre como os asiáticos estão investindo, onde estão investindo.</p>
<p>Nessa discussão também soltaram que por causa das pressões governamentais muitas empresas saíram da Coréia pra outros países como Singapura. Mas eles não recomendam Cingapura a menos que você seja asiático, não é um lugar fácil para abrir empresa, você só vai pra lá se não tem outra opção. Novamente, a falta de regulamentação clara tem causado várias empresas a peregrinarem de país em país, como eu disse no episódio anterior com a Binance relocando pra Malta onde as leis ficaram mais flexíveis. E isso porque na Coréia do Sul ganhos em cripto não são taxados.</p>
<p>Em paralelo, em outro painel tivemos Ella Zhang co-fundadora da Binance e a cabeça da Binance Labs, um fundo de investimento de 1 bilhão de dólares que estava anunciando uma incubadora em São Francisco, que já recebeu 500 aplicações e selecionaram 50 para iniciar no programa e estão filtrando pra 8 que devem ver se vão se tornar investimento ou não. Eles tomam 7% de equity por um seed de 100 mil dólares. No mesmo painel estava Vincent Zhou da famosa FBG Capital da Coréia do Sul. Vincent é exatamente o que os coreanos perseguem: ele era um trader que iniciou com um capital de 10 mil dólares alguns anos trás e transformou esse investimento em 100 mil dólares antes de 2017, chamou amigos pra investir mais e transformou isso em 200 milhões, e com isso abriu a FBG Capital onde 50% dos lucros ainda é em trading.</p>
<p>Eu achei interessante a quantidade de asiáticos nessa conferência, de sul coreanos a chineses até alguns japoneses. A Ásia não está ignorando o Ocidente, pelo contrário, eles querem um pedaço do jogo agora. Apesar dos Estados Unidos ser um dos lugares menos amigáveis pra ICOs eles precisam estar lá para influenciar o mercado e, por consequência, as agências reguladoras. Isso porque apesar de tudo o Japão, por exemplo, tende a querer jogar mais seguro e no final seguir o que os Estados Unidos fazem. E a Coréia do Sul tende a seguir o Japão.</p>
<p>Muitos tem restrições com lugares como Malta ou Chipre por conta da corrupção e lavagem de dinheiro. Então parece que a chave de tudo vai voltar a ser Silicon Valley. No momento em que os Estados Unidos conseguirem colocar uma regulamentação clara, o Japão, a Coréia do Sul e talvez a própria China sigam mais rápido na sequência, causando um efeito dominó do Ocidente para o Oriente. Então o mundo neste momento parece estar em estado de espera.</p>
<p>Apesar de não ser muito prático o que me fascina mais nessas conferências todas é ver a disputa de forças entre investidores ocidentais e orientais, a parte macroeconômica da coisa. Mas pra sair um pouco dessa discussão, vou rapidamente falar de outros assuntos diversos que ouvi por lá.</p>
<p>Ainda sobre modelos de negócio com blockchain, teve outro painel bacana com duas pessoas do mundo do entretenimento. A ex-youtuber Michelle Phan que as mulheres devem conhecer já que foi uma das mais famosas no mundo de estilo e maquiagem e o DJ Justin Blau. A Michelle explicou sua carreira e como os primeiros youtubers tiveram a vantagem de começar numa plataforma nova, mas depois dos primeiros 10 anos hoje youtubers de audiência similar a deles na época recebem 75% menos receita de ads. Por isso o modelo não é mais faturar com ads e sim com patrocínio tradicional, plataformas externas como Patreon. Justin também explicou os custos envolvidos no mundo da música, pesquisas dizem que o artista acaba levando no máximo 12% de tudo que gera. Aliás, eu acho fascinante ver artistas como Justin com um bom conhecimento de blockchains e token economics, coisa que eu nunca vi por aqui.
Enfim, existem muitos intermediários entre os geradores de conteúdo e os patrocinadores e por isso a discussão em plataformas como a Ara Blocks onde a idéia é meio como um security token, eu já falei isso nos vídeos da Coréia.</p>
<p>Falando em mais casos de uso, outro interessante foi o painel com Stephane de Baes da Elevated Returns e o Slava Rubin da Indie Gogo. O Stephane faz parte de um grupo que tem diversos imóveis. Justamente imóveis como o próprio nome diz, é um dos maiores armazéns de valor do mundo, trilhões de dólares. Mas eles são imobilizados, altamente Ilíquidos. Eles fizeram uma das primeiras tokenizações de um imóvel de verdade. Eles pegaram um resort que tem em Aspen, gerenciado pela Merriot, e tokenizaram uma porcentagem, não lembro se falaram 10%. Usaram o Indie Gogo pra fazer isso. Foi um negócio de uns 20 milhões de dólares sobre um imóvel lucrativo de 200 milhões, podem até pagar dividendos aos compradores dos tokens. A curiosidade é que 40% dos compradores são da Ásia, o raciocínio é que as pessoas da Ásia também querem se proteger e uma das formas de fazer isso é escolhendo comprar partes de um resort de Aspen, que é um imóvel americano, é mais ou menos a mesma coisa que estar num país de moeda fraca (como a nossa) e se proteger via exposição a dólar, mas desse jeito tem muito menos intermediários e qualquer um pode participar. É justamente uma das idéias de se usar tokens e blockchains para securitizar ativos, o que chamamos de digital assets.</p>
<p>Outro painel interessante foi novamente moderado pelo Arrington, tendo a participação da Cred, Uphold e Pricewaterhouse anunciando mais uma stablecoin, a Universal Dollar. A idéia é competir com moedas como o Tether e assim como ele estar lastreado no dollar. A Gemini se não me engano também tem uma assim e mais e mais empresas estão indo nessa direção. A parte interessante é que somente grandes fundos podem fazer isso porque você precisa garantir a liquidez desse token. Cada token emitido precisa ser auditado - e por isso a pricewaterhouse - pra garantir que ninguém está imprimindo dinheiro sem lastro. Cada 1 token precisa de 1 dollar. A vantagem? Nesse formato é como se você pudesse trafegar dollar livremente pelo mundo sem passar por bancos ou outras instituições. Todo mundo menos os Estados Unidos gostam dessa idéia. Fora isso você pode usar stablecoins como essa pra ser a moeda de meios de pagamento, eu falei disso nos vídeos da Coréia. E nesse caso específico eles tão mirando no mercado de crédito e empréstimos. Com isso você consegue encontrar no mundo todo quem quer emprestar e também no mundo todo quem precisa de crédito. Além disso eles querem padrozinar tudo no padrão ERC20 pra tokens via smart contracts na rede do Ethereum, e coins como Bitcoin poderiam ter um wrapper de ERC20 por cima deles, novamente convertendo 1 bitcoin pra 1 token deles e assim tudo trafegaria pelo mesmo protocolo, facilitando a interoperabilidade.</p>
<p>Pra quem é da área técnica um aspecto constantemente discutido é o problema da velocidade dos blockchains. Está claro que nenhum blockchain como Bitcoin, Ethereum ou derivados jamais vai ter capacidade pra ser de fato um meio de pagamento viável pra maioria das pessoas. Seja porque a velocidade é muito baixa, seja porque as taxas ficam caras demais quando há muito volume. Existem pesquisas e tentativas para melhorar isso direto nos protocolos. Por exemplo, o Ethereum quer lançar a versão Casper daqui algum tempo, que promete, entre outras coisas, substituir o atual Proof of Work por Proof of Stake ou pelo menos um híbrido entre os dois.</p>
<p>Eu expliquei acima porque Proof of Stake não é uma bala de prata.  Mas uma solução mais prática que não requer modificação direta nos protocolos é a utilização de side-chains ou layer-2 como os projetos da Plasma em Ethereum ou Lightning Network pro Bitcoin que, sim, continua em beta por mais algum tempo ainda. A idéia é simples: segurança e performance costumam ser um trade-off, eles são mutuamente exclusivos. Você não pode ter segurança absoluta e performance máxima ao mesmo tempo. Então você precisa diminuir a segurança pra ganhar performance. Numa rede como Lightning você pré-carrega um canal secundário com alguns dos seus coins favoritos, mas não tudo, o montante maior fica no layer-1 que é o protocolo original, mais lento, como Bitcoin. É que nem carregar um cartão pré-pago. Nesse layer-2 você tem alta performance, mas corre um risco maior de perder essa pré-carga, mas não tem problema, é o custo do negócio. É impossível ter zero risco em tudo, isso é gerenciar o risco e conseguir performance sem mudar o blockchain.</p>
<p>Falando nisso, começa a aparecer uma coisa meio óbvia: Proof of Work é caro demais mas é extremamente seguro, em particular nos casos excepcionais. Muitos estão forçando a substituição por Proof of Stake, mas isso eu acho barato demais ao ponto que é inseguro. Proof of Stake funciona no geral mas é muito fraco nos casos excepcionais Stake é basicamente colocar seu dinheiro na linha pra ter direito de assinar o bloco, se for votado que você fraudou, então você perde esse Stake. Vale a pena eu fazer uma tangente porque muita gente que só sabe ler headline assume que “ah, quando o Ethereum mudar de proof of work pra proof of stake, ele vai matar o bitcoin que consome energia demais”.</p>
<p>A maioria das pessoas é péssimo em pensar nos cisnes negros. Um sistema que tem a pretensão de ser usado pelas próximas décadas e ter garantias de integridade dos seus dados precisa ser resistente ao futuro e proteger o passado. Bitcoin de fato atinge isso. Na prática, todo nó minerador é um mini-fork da rede. A rede se reconcilia o tempo todo e a cadeia mais longa de blocos costuma vencer e os outros sincronizam dele. E podemos confiar no processo porque pra assinar um bloco alguém precisou gastar muito dinheiro para calcular o hash. Em proof of stake quem assina o bloco é quem tem o maior stake. No caso do bitcoin seria o equivalente a quem tem 51% do hash power da rede, que são atualmente os 3 maiores pools do mundo. E mesmo assim, não é possível reescrever a história fácil, é necessário recalcular o hash de todos os blocos do passado até o ponto que você quer, isso não só custa muito dinheiro mas custa muito tempo. 1 bloco hoje leva 10 minutos. Imagine recalcular 10 mil blocos. É bom ter um Fukushima no quintal pra isso. Em proof of stake você não tem essa proteção, qualquer um que controle o maior stake - apesar de muito improvável - tem poder ilimitado de reescrever a história se a rede não tem checkpoints ou pode causar um split da rede no caso de redes que tem checkpoint como o Casper do Ethereum. Em ambos os casos, proof of stake se mostra inferior ao proof of work em manter a integridade dos dados e da rede. O custo de energia não é à toa como muitos pensam e nem é tão caro assim se levar esses pontos em consideração. O próprio Vitalik, no seu painel, já fala em um possível 99% de Proof of Stake e 1% de Proof of Work para balancear melhor esse trade-off. E outras equipes estão procurando alternativas a Proof of Work e Proof of Stake como Proof of Space-Time.</p>
<p>Outras palestras técnicas interessantes falaram mais sobre outros aspectos da segurança de blockchains, nas palestras de David Chaum da Elixxir e Dawn Song da Oasis Labs. Por exemplo, por se falar em criptografia, dá impressão que os dados são “privados” mas na verdade é o contrário: o blockchain é transparente e público, é possível tirar muita informação somente pelos metadados e pelo rastreamento. Mais do que isso, um blockchain é um registro preciso de tempo, baseado em timestamps, então existe outro dado muito importante: a ordem das transações. É um dos motivos de porque blockchains não são bons pra eleições com voto secreto. Por isso existem outros tipos de blockchains como Dash, Zcash ou Monero que tentam adicionar uma camada a mais de anonimidade. Fica dica que em Zcash você precisa escolher fazer um wallet ser anônimo, ele não é anônimo por padrão. E no mundo do Ethereum, por causa disso existem as tentativas para implementar algo similar como zero knowledge proofs, particularmente zkSnarks. O conceito parece simples, onde você consegue saber se uma pessoa tem determinado segredo sem trafegar o segredo. Imagine um sistema que sabe que você sabe a senha sem que você precise dizer a senha. Mas a matemática e a implementação disso é extremamente difícil. Se você é cientista da computação, eis um excelente desafio.</p>
<p>Além disso você tem outros conceitos pra vocês pesquisar. Por exemplo, Homeomorphic encryption, pense um tipo de encriptação onde você pode realizar operações no dado encriptado e o resultado será igual às mesmas operações realizadas no texto não-encriptado. Dessa maneira você não precisa decodificar a encriptação e ainda assim pode operar nele. E isso sem falar em hardwares de segurança, como as instruções Intel SGX que permitem lidar com dados de segurança mesmo em computadores que foram comprometidos. Pense um lugar onde você poderia guardar sua chave privada no seu computador que não estaria vulnerável a nenhum vírus ou exploit porque está totalmente fora do controle do sistema operacional. A chave ficaria numa área de memória isolada que o sistema operacional simplemente não tem acesso, são os enclaves. E isso já existe hoje, caso vocês não saibam. Como cientista da computação essa é outra área que me atrai muito porque ficamos falando só de web, web e não vemos como existem várias outros algoritmos e hardware à nossa disposição que nunca nem discutimos a respeito.</p>
<p>Como podem ver, os painéis da San Francisco Blockchain Week foram bem mais interessantes do ponto de vista técnico do que o Delta Summit de Malta ou o Beyond Blocks de Seoul. Pelo menos em San Francisco eles estão mais preocupados com a implementação das coisas, nos outros países eles estão muito ainda em “o que é possível”. Por isso eu reitero o que disse no vídeo anterior de Malta: não existem experts nesse mercado. Ignore qualquer um que se entitule expert. Estamos ainda no estágio de early adopters. Eu venho repetindo isso faz tempo e ouvi sendo repetido nos eventos: é como se estivéssemos no começo dos anos 90, antes da invenção do browser, antes de saber que vai existir Amazon ou Facebook. Se você acredita em futuro, é um dos lugares mais fascinantes pra se estar.</p>
<p>Infelizmente o Brasil, pra variar, está atrasado e ficando mais e mais atrasado. Um dos maiores problemas é que os “top influencers” desse mercado são completamente diferentes de tudo que eu vi pelo mundo. Assim como na Ásia e norte da Europa, muitos aqui tiveram a sorte de apostar antes do bull run e ficaram ricos com criptomoedas. Porém diferente do que eu vi, eles não estão reinvestindo num ecossistema, e em vez disso estão com a cabeça minúscula de se fechar em seus próprios feudos. Um exemplo disso? Nós já temos perto do mesmo número de corretoras que se tem em Seoul ou Japão. Só que o volume de cripto negociado em todas as corretoras do Brasil é uma fração de somente 1 corretora da Ásia. É um número ridículo. E essa fragmentação acontece porque nenhuma das corretoras com maior volume tem a mínima noção de tecnologia. E todo mundo sabe disso, tanto que eu por exemplo acho mais fácil fazer a minha própria corretora do que confiar em qualquer uma que é lider do mercado, e pelo jeito eu não estou sozinho. E também por causa disso o exemplo que a população em geral tem é essa: pessoas que deram sorte mas não sabem o que estão fazendo. Completamente diferente de um CZ da Binance ou Vicent Zhao da FBG Capital. Outro exemplo? Nenhuma crypto fund foi fundada no Brasil ainda. E mesmo nesse estágio primário que estamos já existem fundos de investimento tradicionais vendendo fumaça como se fosse criptomoeda, sedimentando ainda mais a noção que os principais envolvidos no mercado de criptomoedas do Brasil estão interessados em dinheiro rápido e tem zero interesse em realmente criar uma economia de criptomoedas. Eu sou empresário, e por causa de exemplos como o que temos nesse mercado do criptomoedas do Brasil, eu não consigo discordar de quem fala mal de empresários brasileiros no geral. O que eu vi no mundo não tem nada nem parecido por aqui ainda. E isso porque eu disse que eles mesmos se consideram ainda early adopters num mercado que está só começando. Agora aqui o que eu vejo? Experts.</p>
<p>Enfim, isso conclui meus relatos sobre essa peregrinação blockchain. Vejam meus vídeos sobre a Coréia do Sul se ainda não assistiram, pra ter uma visão mais completa. Coloquem nos comentários se vocês já sabiam de tudo que eu relatei. Se gostaram do vídeo mantem um joinha, assinem o canal e cliquem no sininho. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>bitcoin-e-criptomoedas</category><category>economia</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #5 - Liberdade Econômica, Cripto no Brasil, e para onde aponta o futuro?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/08/28/akitando-5-liberdade-economica-cripto-no-brasil-e-para-onde-aponta-o-futuro/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/08/28/akitando-5-liberdade-economica-cripto-no-brasil-e-para-onde-aponta-o-futuro/</guid><pubDate>Tue, 28 Aug 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Estamos quase lá! Penúltimo episódio da minha série sobre Seoul e as conferências de criptomoedas. Neste episódio vamos dar mais contexto sobre a principal finalidade do mundo de criptomoedas: Liberdade Econômica.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Spotniks (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=TO8yBl48DTQ"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=TO8yBl48DTQ</a>)</li>
<li>How Africa is Becoming China&rsquo;s China (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=zQV_DKQkT8o&amp;t=1s"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=zQV_DKQkT8o&t=1s</a>)</li>
<li>Hans Rosling&rsquo;s Factfulness (<a href="https://www.amazon.com/Factfulness-Reasons-World-Things-Better/dp/1250107814"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com/Factfulness-Reasons-World-Things-Better/dp/1250107814</a>)</li>
<li>Coin Trade Monitor (<a href="https://www.cointradermonitor.com/preco-bitcoin-brasil.php"target="_blank" rel="noopener">https://www.cointradermonitor.com/preco-bitcoin-brasil.php</a>)</li>
<li>Coin Dance (<a href="https://coin.dance/volume/localbitcoins"target="_blank" rel="noopener">https://coin.dance/volume/localbitcoins</a>)</li>
<li>Futuro Descentralizado (<a href="https://www.facebook.com/futurodescentralizado/videos/480546089063148/"target="_blank" rel="noopener">https://www.facebook.com/futurodescentralizado/videos/480546089063148/</a>)</li>
<li>OmniTrade (<a href="https://omnitrade.io"target="_blank" rel="noopener">https://omnitrade.io</a>)</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>No episódio anterior vimos sobre a diferenciação de Security Tokens e Utility Tokens E o caminho que muitos países têm tomado em torno das regulamentações.</p>
<p>Essa discussão não tem uma conclusão “final” porque em última instância depende do congresso de cada país passar as regulamentações, mas mais e mais o discurso tem sido menos agressivo e mais razoável em torno de criptomoedas, em particular no lançamento das ICOs. O fator que freia todo mundo são episódios como o crescimento parabólico do ano passado, que não é bom pra ninguém, nem mesmo pros crypto funds, porque você cria um cenário irreal para investimento. Todos concordam que foi bom a correção ter acontecido logo, preparando o terreno para um novo bull run em breve. O fim do ano passado foi só uma prévia do que está por vir e um aviso para os interessados na infraestrutura estarem preparados.</p>
<p>Nos discursos de vários palestrantes, notoriamente como de Roger Ver - principal evangelista do Bitcoin Cash - é a liberdade econômica que esse novo mercado de criptomoedas proporciona. Uma forma de troca de valor que não depende de um banco central nem de um governo, moedas que podem cruzar fronteiras e inclusive quebrar a soberania de países. Muitos podem ser céticos quanto a isso, mas pergunte a um Venezuelano quais opções ele tem.</p>
<p>Obviamente é consenso entre os participantes dessa comunidade que security tokens não deveriam ser proibidos. E que, no mínimo deveriam ser diferenciados os tokens que representam investimento numa startup e outras que tem utilidade para coisas como pagamentos. Muitos inclusive apostam que estamos por ver ainda uma nova era de Security Tokens.</p>
<p>Liberdade econômica é a principal promessa de um mundo movido a criptomoedas. Dar acesso a qualquer um de participar de startups que no futuro se tornem a próxima Amazon ou o próximo Paypal. Hoje em dia, o cidadão comum não tem acesso a esse tipo de investimento - só depois de um IPO, quando muitos dos investidores iniciais - que compraram barato - já inclusive saíram do investimento e realizaram lucros seguros às custas do risco que a população em geral vai incorrer quando as ações vão a público.</p>
<p>Assim como criptomoedas são a resposta ao monopólio do controle monetário dos bancos centrais e o terrível oligopólio dos bancos privados, ICOs são a resposta ao mercado de securities, bolsas, corretoras de fundos de investimentos tradicionais. Assim como não é do interesse dos bancos concorrer com criptomoedas - e por isso toda vez que você ver um banco falar mal de criptomoedas você sabe porque. Também não é do interesse de fundos tradicionais ou outros intermediários do mundo das bolsas ver ICOs funcionando fora do seu controle, por isso também quando você vê um JPMorgan falando mal de ICOs, você também sabe porque.</p>
<p>Diversos projetos famosos nasceram de ICOs, incluindo o grande Ethereum, o recente EOS, e outros como Telegram, Bluzelle, até o famigerado Petro e muitos outros. Só em termos de criptomoedas, que englobam os conhecidos Bitcoin, Litecoin, Ripple e ademais, existem perto de 2.000 moedas. Muitas delas vão morrer, claro, mas no futuro próximo, a visão não é que vão existir menos moedas. Segundo Chengpeng Zhang (mais conhecido como CZ) e fundador da monstruosa Binance, no futuro haverão milhares de mais moedas. O desafio das corretoras será ofertar ao público dezenas de milhares de digital assets. Não só moedas, mas tokens em geral.</p>
<p>A Binance é um case nesse sentido, em 1 ano, sendo uma corretora exclusivamente negociando pares de criptos, sem incluir moedas fiat (fiduciárias), eles tem hoje 10 milhões de usuários. Nasceram na China mas a Ásia em geral adora eles. CZ é praticamente um Steve Jobs, o povo queria tirar selfies e pedir autógrafo. A afirmação do CZ que o mundo pode ter milhões de criptomoedas ou tokens faz muito sentido!</p>
<p>E eu tendo a concordar. Pense comigo. Por causa do episódio Napster e depois os dias de BitTorrent com casos como The Pirate Bay, o consenso foi que para distribuir assets digitais como música a única forma é através de um intermediário que controla a distribuição, o famoso modelo iTunes iniciado pela Apple e replicado com sucesso em outros jardins fechados como a Apple App Store, Google App Store, Steam, Netflix, Amazon Prime e assim por diante, pulando de modelos de compra para modelos de assinatura, mas o principal: com a identidade e unicidade da distribuição ou do uso, controlado por uma entidades privadas centralizadas.</p>
<p>A idéia de mecanismos como blockchain é permitir a transferência de propriedade de um asset digital de forma única, com consenso que independe de centralização. É isso que muda tudo.</p>
<p>E num mundo onde esse mecanismo se torna ubíquito, qualquer coisa é tokenizável. Pense seus créditos de Playstation Store, Xbox Store, pontos da Smiles, qualquer coisa que hoje representa um valor e é controlado por uma entidade centralizada poderia ser facilmente um asset digital negociável. Você poderia livremente negociar suas milhas por créditos de XBox. E isso é um caso de uso pequeno.</p>
<p>Parece que nesse momento, no pós-crash de 2017, incluindo a reação de diversas instituições dos diversos governos, estamos falando mais em como criar um ecossistema sustentável de ICOs, com algum nível de regulamentação, mas nada draconiano que ferem as liberdades econômicas dos indivíduos.</p>
<p>Enquanto alguns governos estão patinando nessa discussão, outros países estão mais dispostos a experimentar os riscos. Nos Estados Unidos, no Brasil e outros países, ICOs que sejam categorizados como distribuição de security tokens devem ser registrados na SEC ou na CVM aqui.</p>
<p>Como vai acontecer: em vez de abrir uma empresa em países regulados, você pode simplesmente abrir em países não regulamentos ou explicitamente amigáveis a ICOs como Estônia, Rússia, Ilhas Cayman, Gibraltar e oferecer os coins lá. Listar em corretoras abertas em países igualmente abertos, principalmente se for uma corretora que só opera cripto-para-cripto como a Binance.</p>
<p>Em países regulados, você pode negociar suas moedas fiduciárias em corretoras que negociam pares de fiat-para-cripto e mover suas coins para corretoras de fora. E assim participar do mercado de ICOs como bem quiser. Sem necessidade de alguém autorizando ou não.</p>
<p>Por isso os países restritivos vão precisar rever seus conceitos logo, porque a idéia de criptomoedas é justamente romper as barreiras geopolíticas. Em seu mundinho pequeno, você pode achar que não tem valor nenhum para você. Mas pergunte a um venezuelano e ele vai lhe dizer como a vida dele seria muito mais difícil sem criptomoedas. O governo destruiu a Venezuela, em 1 ano eles cortaram 11 zeros da moeda. O preço de imprimir a moeda ficou mais caro do que a moeda em si. Esse é o nível da hiperinflação que assola o país. E mais um aviso de porque governos populistas são os menos confiáveis. Você não tem nenhuma garantia que seu dinheiro na poupança vai existir daqui 10 anos. Por isso mesmo, quem pode nunca deixa todo seu dinheiro num país só. Você acha que não deveria confiar em criptomoedas? Eu acho que não se deveria confiar em governos da América Latina, ponto. Eu jamais deixaria todos os meus ativos acumulados no Brasil, e é por isso que estou tão interessado na Ásia.</p>
<p>Os ocidentais até tem uma noção disso, mas a Ásia é muito mais populosa que o Ocidente. Se você não tem idéia. Pense assim, as América tem 1 bilhão de pessoas. A Europa tem 1 bilhão de pessoas. O continente africano tem 1 bilhão. 4 bilhões estão na Ásia. A taxa de crescimento populacional nas américa, Europa e Ásia já estabilizou. Em alguns anos será a África a crescer demasiadamente, então vamos ficar com 1 bilhão nas Américas, 1 bilhão na Europa, 3 a 4 bilhões na África e 4 bilhões na Ásia.</p>
<p>Seu mundo é muito pequeno se você pensa só nas Américas e na Europa. Qualquer coisa que vai ter impacto global, seja economicamente, climaticamente ou qualquer coisa assim vai vir primeiro da Ásia e depois da África. Você sabia que sabendo disso, hoje a África é a China da China? Veja este vídeo.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zQV_DKQkT8o"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=zQV_DKQkT8o</a></p>
<p>Moedas são um conceito financeiro. Você provavelmente ou viveu ou lembra seus pais falando da hiperinflação que passamos nos anos 80 até meio dos 90. O “remédio” para isso envolveu a criação de uma segunda “moeda”, em termos atuais, uma “stable coin” que serviu para nos “ensinar” a viver numa economia estável, sem grandes variações de preço. Foi uma moeda virtual paralelo no dia a dia da economia que poderia ser o equivalente a uma Bitcoin hoje. Ela foi a URV, que ajudou a limpar o caminho antes da entrada do Real. Se você não conhece a história recomendo a assistir este filme brasileiro que conta um pouco dessa história.</p>
<p>Voltando ao ponto, em resumo, a maior parte das conferências ficou centrado em muitas das startups abrindo ICO apresentando porque você deveria investir nelas - e eles fazendo pitch para as corretoras para ver se eles conseguem ser listados numa Binance. E a discussão de representantes de diversos países discutindo a situação atual de regulamentação, incluindo um pitch forte para países irem ver como está Taiwan, Malta, Suíça, Cingapura, por exemplo. E um recado aos países Ocidentais que se eles ficam relutantes por muito tempo, vai ser tarde porque a Ásia e o Leste Europeu estão acelerando.</p>
<p>Eu fiz algumas pesquisas, a América do Sul é um caso vergonhoso de adoção de criptomoedas. Como sempre, estamos uns 5 anos pra trás de todo mundo. Veja o Brasil, se você procurar saber quão o volume de transações digamos que num dia normal sejam registrados cerca de 700 BTC negociados por dia. Em todas as corretoras.</p>
<p>Isso é ridículo. A Venezuela sozinha negocia isso numa única corretora. O mesmo vale pra Colômbia e se não me engano até no Peru. Uma única corretora negocia isso por dia. Uma única pequena corretora dos Estados Unidos negocia 5 a 10 vezes isso por dia, e isso porque eu disse no vídeo anterior que só 1% da população tem criptomoedas de alguma forma.</p>
<p>No Japão? Só a bitflyer que é uma das maiores corretoras negocia quase 300 mil bitcoins por dia. O mesmo vale pra Coréia do Sul. A Binance, sozinha negocia quase 50 mil BTC por dia. Estamos falando de volumes nunca vistos na América do Sul.</p>
<p>Some a isso ao fato que nosso mercado é pobre em tecnologia e em visão de negócios. Desses 700 BTC eu não ficaria surpreso de confirmar que metade do valor é basicamente nulo, são negociações automatizadas para inflar o volume, sem equivalente em lastro de criptomoedas. Então o Brasil como um todo, se negociar 300 BTC por dia, é muito.</p>
<p>Para um país que tem quase 4 vezes o PIB da Colômbia, nosso resultado em criptomoedas é vergonhoso, pra dizer o mínimo. E ICO? Vc já ouviu falar de alguma, onde são negociadas? Quais os modelos??? Realmente temos um longo caminho a perseguir.</p>
<p>O povo em geral não gosta de riscos mas gosta de superstições, messias e salvadores da pátria. É um povo acostumado a terceirizar seu futuro a figuras folclóricas que acham que vai fazer melhor do que ele. De chavistas, a castristas, a peronistas, ninguém aprende com a história e continua apostando seu futuro num messias. Asiáticos e Norte Americanos tendem a ser mais individualistas: meu futuro é meu, deixa que eu cuido. Se eu fizer merda, perco tudo, mas eu que perdi, não um falso messias que perdeu por mim. Por outro lado, se eu ganhar horrores é tudo meu, que ninguém venha me tirar. Esse é o correto e o que garante a contínua evolução da humanidade.</p>
<p>Outro ponto importante que foi levantado na palestra de Jason Han da Kakao. Quando o browser foi inventado no começo dos anos 90, já existia 2% da população mundial usando a Internet de alguma forma, mesmo que bem primária como troca de e-mail e vendo páginas de conteúdo de universidades. O uso de criptomoedas no mundo ainda está nos 0.2%. E mesmo assim já temos o market cap de agora. Estamos caminhando para os 2%, imagine o crescimento exponencial a partir dali. Eu já disse isso em outros canais e repito aqui: estamos na era pré-browser, pré-amazon, pré-google, imagine as possibilidades.</p>
<p>Nossa missão? Chegar aos 2%, nesse ponto vamos começar a ver a matemática exponencial começar a gerar resultados mais palpáveis para a maioria da população. Este é o começo, você tem a oportunidade de entrar logo no começo. Os próximos 10 anos prometem.</p>
<p>No próximo episódio eu vou concentrar a maioria das startups que estavam presentes nos eventos numa montagem mais rápida para finalizar o assunto da Coréia. O que acharam deste episódio? Não deixem de comentar abaixo, dêem um joinha se gostaram e assinem o canal e cliquem no sininho para não perder nenhum episódio!</p>
]]></content:encoded><category>bitcoin-e-criptomoedas</category><category>economia</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>Off-Topic: Por que Estamos Todos Migrando para Longe da Apple?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2017/01/12/off-topic-por-que-estamos-todos-migrando-para-longe-da-apple/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2017/01/12/off-topic-por-que-estamos-todos-migrando-para-longe-da-apple/</guid><pubDate>Thu, 12 Jan 2017 11:37:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;&amp;ldquo;Todo mundo que é alguém acompanhou a Apple nas últimas décadas. Ame ou odeie, a única coisa que você não pode fazer é ignorá-la.&amp;rdquo; - esse sempre foi o consenso geral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os profissionais &amp;ldquo;criativos&amp;rdquo; (como se &amp;ldquo;criativo&amp;rdquo; fosse restrito a pintores e ilustradores) sempre foram os seguidores mais fiéis da Apple, e com razão. A plataforma foi o berço de ferramentas essenciais como Photoshop, QuarkXPress, PostScript, PDF e QuickTime. A Apple estabeleceu os padrões da criação de mídia, e qualquer um que era alguém usava essas ferramentas.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>&ldquo;Todo mundo que é alguém acompanhou a Apple nas últimas décadas. Ame ou odeie, a única coisa que você não pode fazer é ignorá-la.&rdquo; - esse sempre foi o consenso geral.</p>
<p>Os profissionais &ldquo;criativos&rdquo; (como se &ldquo;criativo&rdquo; fosse restrito a pintores e ilustradores) sempre foram os seguidores mais fiéis da Apple, e com razão. A plataforma foi o berço de ferramentas essenciais como Photoshop, QuarkXPress, PostScript, PDF e QuickTime. A Apple estabeleceu os padrões da criação de mídia, e qualquer um que era alguém usava essas ferramentas.</p>
<p>A Microsoft focava no mercado corporativo, não nos criativos. O Linux ainda engatinhava, e a maioria dos desenvolvedores nem sabia a diferença entre CMYK e RGB. Ficavam satisfeitos em ter um bitmap tosco na tela.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/587/918d80cb21131a7a62e6ccaf71229960.jpg" alt="Old Macintosh"  loading="lazy" /></p>
<p>Tenho uma teoria: achamos que dominávamos a tecnologia no final dos anos 90, que estávamos no topo do mundo. Essa euforia era fruto da Bolha da Internet, que estourou junto com o 11 de setembro. A depressão que se seguiu desperdiçou os próximos 3 a 4 anos enquanto todo mundo tentava descobrir o que fazer a seguir.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/588/1dot.jpg" alt="Dotcom burst"  loading="lazy" /></p>
<p>A Apple teve a sorte de escapar da explosão. Ela já estava no fundo do poço desde 1997. A reorganização do portfólio de hardware e o lançamento do iPod criaram uma bolhinha própria. Steve Jobs havia voltado e trouxe bons desenvolvedores que fizeram do OS X um prazer de usar, não só para criativos, mas também para desenvolvedores.</p>
<p>O processo antitruste contra a Microsoft em 2000, o estouro da Bolha da Internet em 2001, o lançamento do iPod em 2001, a transição do System 9 para o OS X/BSD em 1999, a troca do PowerPC para Intel em 2005, o lançamento do desejadíssimo Titanium PowerBook G4 em 2001. Tudo isso junto deu à Apple uma vantagem enorme. E enquanto todo mundo estava em baixa, a Apple parecia maior do que realmente era.</p>
<p><a href="http://www.economist.com/node/2535519"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/589/Microsoft.gif" alt="Microsoft Antitrust"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Aí vieram 2007 e 2008 com um novo impulso: o iPhone, a App Store e a necessidade de usar o Xcode, disponível apenas em computadores Apple. Diferente de ficar preso ao Windows por causa do Visual Studio, usar o Xcode era um motivo a mais para comprar um Mac.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/590/SteveJobsUnveilsiPhone.jpg" alt="iPhone announcement"  loading="lazy" /></p>
<p>As distros Linux ainda sofriam. Até então, estávamos presos ao <a href="https://www.youtube.com/watch?v=RIctzAQOe44"target="_blank" rel="noopener">maldito X11</a>. Se o núcleo de um sistema Linux era moderno, o X11 em cima era o pior dos mundos. A Apple foi esperta o suficiente para não adotá-lo e criou o Quartz do zero, melhorando-o a cada nova versão do OS X. Levou cinco anos para estabilizar direito. Só agora, em 2017, estamos finalmente saindo do X para o Wayland/Weston.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/591/steve-ballmer.jpg" alt="Steve Ballmer"  loading="lazy" /></p>
<p>A Microsoft também sofreu depois que Bill Gates passou as rédeas para Steve Ballmer. A trajetória do XP até o Windows 10 passou pelos desastres do Vista, do Windows 8 e do Windows Mobile, além das inúmeras tentativas de ressuscitar o Internet Explorer, o maior Walking Dead da história da tecnologia. A era Ballmer foi um desastre.</p>
<p>Aí veio o iPad. E Steve Jobs morreu.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/592/hi-steve-jobs-memorial-0139.jpg" alt="Jobs Dies"  loading="lazy" /></p>
<h3>A Apple está presa em 2010.<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-apple-está-presa-em-2010"></span>
    <a href="#a-apple-est%c3%a1-presa-em-2010" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>E nós também.</p>
<p>As grandes distros Linux, a Microsoft, os fabricantes de hardware para PC, as viradas de grandes empresas (Nokia, Blackberry, Motorola), o começo da era das GPUs, o fim das guerras de clock da Lei de Moore em direção à computação paralela, a ascensão do ARM. Levou dez anos para a poeira baixar, e foi preciso a Apple ficar parada por seis anos para que todos os outros conseguissem alcançá-la.</p>
<p>Ballmer passou o bastão para Satya Nadella. A Microsoft adquiriu a Xamarin, deu passos enormes em direção ao open source e até o <a href="http://www.akitaonrails.com/2016/07/26/o-ano-do-linux-no-desktop-esta-usavel"target="_blank" rel="noopener">Ubuntu passou a rodar nativamente no Windows 10</a>.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/593/THE_END_TIMES_ARE_HERE-399de53540c79757ac9af535579cdad9.jpg" alt="Satya Nadella"  loading="lazy" /></p>
<p>E os asiáticos. Samsung, LG, Huawei, sul-coreanos e chineses forçaram os norte-americanos a se mexerem mais.</p>
<p>Um último legado da era Steve Jobs foi matar o Adobe Flash (finalmente!) e impulsionar as tecnologias HTML 5, comprimindo dez anos de evolução em cinco. Foi por causa do iPhone que a Web é o que é hoje.</p>
<p><a href="https://web.archive.org/web/20170114150212/http://www.apple.com/hotnews/thoughts-on-flash/"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/594/flash-dead.jpg" alt="HTML 5 kills Flash"  loading="lazy" /></a></p>
<p>O Google entrou em campo e assumiu o espaço deixado pelo Internet Explorer. O WebKit se tornou a referência obrigatória de navegadores. O JavaScript se transformou na nova plataforma de aplicações, impulsionado pelas redes sociais em constante evolução.</p>
<p>Para o bem ou para o mal, as redes sociais forçaram o surgimento de uma nova geração de aplicações web complexas e interativas. O Gmail e a Web 2.0 serviram de exemplo, e com o novo ambiente mobile, tudo convergiu para aplicações multiplataforma e ubíquas.</p>
<p>Hoje é mais fácil do que nunca trocar de sistema operacional no desktop, porque já treinamos o hábito de pular entre desktop e dispositivos móveis.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/599/alldevices.jpg" alt="All devices"  loading="lazy" /></p>
<p>Por que ficou fácil migrar entre macOS, Windows ou distros Linux? Ou entre macOS e iOS, ou entre Linux e Android? Porque a maior parte do software está &ldquo;na nuvem&rdquo;. O Linux domina o mundo da nuvem que a Amazon estreou em 2006 com S3 e EC2, seguida de perto pelo Google Cloud, Microsoft Azure e outros competidores menores.</p>
<p>Porque em qualquer plataforma existe pelo menos um bom Chrome.</p>
<p>Porque os apps que usamos são majoritariamente web: Gmail, Spotify, Slack, Hangout, Twitter, Facebook, YouTube, Netflix, Amazon. E a outra metade está disponível nativamente no iOS ou Android: WhatsApp, Waze, Swarm, Snapchat, Instagram.</p>
<p>Dez anos atrás, com o lançamento do iPhone, a indústria de tecnologia finalmente começou a se organizar.</p>
<p>Foi um jogo de gato e rato até uns cinco anos atrás, quando as coisas começaram a se estabilizar.</p>
<p>Depois que Jobs morreu, ainda tínhamos a expectativa de que a Apple continuaria avançando, ainda que num ritmo mais lento sem o chicote do Jobs.</p>
<p>Não aconteceu. Foram decisão ruim atrás de decisão ruim, e a sensação é de que voltamos ao início dos anos 90, na era de Scully, Spindler ou Amelio.</p>
<p><a href="https://web.archive.org/web/20170116083256/http://uk.businessinsider.com/wired-1997-save-apple-predictions-pray-2015-5"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/595/wired_cover.jpg" alt="Apple, Prey"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Mas agora existem alternativas sólidas disponíveis: o Windows 10 Anniversary Edition é finalmente um Windows competente, recuperando a glória dos meados dos anos 90. E as grandes distros Linux são coesas, exigindo pouco ou nenhum ajuste nerd em arquivos de configuração obscuros, empurradas pela Canonical, para o bem ou para o mal.</p>
<p>E a maioria dos apps que usamos no dia a dia está disponível. Dá até para encontrar um bom editor de texto multiplataforma baseado na web na forma do Atom.</p>
<p>A Apple também deixou o legado da compilação multiplataforma ubíqua na forma do <a href="https://www.infoq.com/br/presentations/novas-linguagens-o-que-vem-depois-do-ruby"target="_blank" rel="noopener">LLVM</a>. Serviu às próprias necessidades deles de ter Objective-C disponível em PowerPC, Intel, ARM e nos processadores Apple Ax. Mas o LLVM é agora a melhor espinha dorsal para permitir que linguagens como Rust, RubyMotion e Crystal existam e criem binários rápidos em múltiplas plataformas.</p>
<p><a href="https://www.tesla.com/blog/welcome-chris-lattner"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/596/11-1484116910-chris-lattner-01.jpg" alt="Chris Lattner leaves Apple to Tesla"  loading="lazy" /></a></p>
<p>&ldquo;O conselho da Apple precisa ir embora.&rdquo; &ldquo;Tim Cook precisa renunciar.&rdquo; Tenho certeza que muita gente grita isso por aí, mas não tem Steve Jobs esperando para voltar. A Apple é grande o suficiente para que a inércia sozinha a mantenha andando por mais alguns anos, mas ela corre o risco real de cair na irrelevância.</p>
<p>Outras indústrias como energia, saúde e genética evoluem do jeito delas, mas a tecnologia da computação está num perigoso marasmo.</p>
<p>As linguagens de programação pararam de evoluir em meados dos anos 90. Todas as linguagens &ldquo;novas&rdquo; são amálgamas de recursos que já existiam desde os anos 70 e 80. Os processadores estão presos em fazer transistores menores e mais eficientes em termos de energia. E já chegamos lá: <a href="https://www.kickstarter.com/projects/1598272670/chip-the-worlds-first-9-computer"target="_blank" rel="noopener">computadores de US$ 9</a> são suficientes para tarefas triviais como navegar na web. A ponto de estarmos colocando processadores em tudo: inclusive numa escova de dentes bluetooth que registra suas sessões de escovação.</p>
<p><a href="https://www.dezeen.com/2017/01/06/ara-first-toothbrush-artifical-intelligence-kolibree-ces/"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/597/smart-video-toothbrush-ces.jpg" alt="Bluetooth Toothbrush"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Viu os produtos da CES 2017? Travesseiros e camas que monitoram seu sono e sincronizam com um app. Máquinas de lavar. Aspiradores de pó. Dispositivos fitness. Dispositivos de saúde. Assistentes pessoais como a Alexa. Tudo captura dados seus e sincroniza na nuvem.</p>
<p>A nuvem também chegou ao pico. É ubíqua, acessível e barata. A tecnologia em geral está absurdamente barata hoje em dia.</p>
<p>Wearables e VR são boas novidades, mas mesmo que se tornem ubíquos, continuam sendo apenas uma extensão dos casos de uso que a revolução do iPhone iniciou.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/600/3017180-inline-mg5205.jpg" alt="Baby monitor"  loading="lazy" /></p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/601/iswimband-drowning-prevention-510px.jpg" alt="iSwimband"  loading="lazy" /></p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/602/6e752109eac4d37830078517b2aefd583d52722a.jpg" alt="mobile"  loading="lazy" /></p>
<p>Mobile, wearables, redes sociais, só deixaram as pessoas mais ansiosas. Dar &ldquo;voz&rdquo; a todo mundo online não melhorou as coisas, só aumentou a ansiedade geral. Opiniões estão em oferta tão grande que valem cada vez menos.</p>
<p>Cada pessoa online é agora uma fonte de terabytes de informação inútil para gerar pseudo-estatísticas que não servem para quase nada. <a href="http://www.techrepublic.com/article/the-dark-side-of-wearables-how-theyre-secretly-jeopardizing-your-security-and-privacy/"target="_blank" rel="noopener">Cada pessoa é agora definida por um monte de dados na nuvem</a>.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/603/donald-trump-twitter-president.jpg" alt="Trump"  loading="lazy" /></p>
<p>Não faço ideia para onde vamos daqui. Como testemunha da história, tenho que dizer que sinto falta da empolgação de explorar novas fronteiras. Tivemos isso a partir dos meados dos anos 90. Demos uma pausa depois do estouro da Bolha da Internet, mas recuperamos com tudo em 2004. Perdemos depois de 2010.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/598/20150824-bill-gates-microsoft-windows-95-launch.0.jpg" alt="Windows 95 launch"  loading="lazy" /></p>
<p>2010 foi o ano mais longo que já vivi. Talvez estabilizar seja uma coisa boa. Quem sabe?</p>
]]></content:encoded><category>apple</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>pessoal</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Uma Nova Era para a Microsoft</title><link>https://akitaonrails.github.io/2016/03/31/off-topic-uma-nova-era-para-a-microsoft/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2016/03/31/off-topic-uma-nova-era-para-a-microsoft/</guid><pubDate>Thu, 31 Mar 2016 16:10:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Atualização 07/04: &lt;a href="http://thehackernews.com/2016/04/how-to-run-ubuntu-on-windows-10.html"target="_blank" rel="noopener"&gt;o preview já saiu&lt;/a&gt; antecipando o lançamento em Junho. Se você for membro do programa Insider, baixe e teste já. Deixe suas impressões nos comentários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem foi um dia histórico para a Microsoft. Na minha visão pessoal, pode ter sido um divisor de águas. Desde ontem venho tentando pensar em como deixar isso registrado para a posteridade.&lt;/p&gt;
&lt;h3&gt;Prólogo - 1995 a 2005, 1a Década&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="prólogo---1995-a-2005-1a-década"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#pr%c3%b3logo---1995-a-2005-1a-d%c3%a9cada" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;p&gt;Digo isso para nós, desenvolvedores de software. Já conhecemos alguns divisores assim na história: o lançamento do Turbo Pascal em 1983, o do Visual Basic em 1991, o do Java em 1995, as primeiras distros de Linux como o Slackware a partir de 1993, o lançamento do OS X em 2000 e a transição de PowerPC para Intel em 2005.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Atualização 07/04: <a href="http://thehackernews.com/2016/04/how-to-run-ubuntu-on-windows-10.html"target="_blank" rel="noopener">o preview já saiu</a> antecipando o lançamento em Junho. Se você for membro do programa Insider, baixe e teste já. Deixe suas impressões nos comentários.</p>
<p>Ontem foi um dia histórico para a Microsoft. Na minha visão pessoal, pode ter sido um divisor de águas. Desde ontem venho tentando pensar em como deixar isso registrado para a posteridade.</p>
<h3>Prólogo - 1995 a 2005, 1a Década<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="prólogo---1995-a-2005-1a-década"></span>
    <a href="#pr%c3%b3logo---1995-a-2005-1a-d%c3%a9cada" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Digo isso para nós, desenvolvedores de software. Já conhecemos alguns divisores assim na história: o lançamento do Turbo Pascal em 1983, o do Visual Basic em 1991, o do Java em 1995, as primeiras distros de Linux como o Slackware a partir de 1993, o lançamento do OS X em 2000 e a transição de PowerPC para Intel em 2005.</p>
<p>Os anos 80 e 90 foram conturbados, uma época de crescimento acelerado em que tudo ficava obsoleto muito rápido. Numa década, de 1989 até 1999, passei de Basic para dBase, Clipper, Fox Pro, Visual Basic, Delphi, Java, multimídia (Flash, Director/Shockwave) e Internet (HTML, Javascript, ASP, PHP, Perl). Nunca vi uma década andar tão rápido. Fui de um XT de 4 MHz para um Pentium III de quase 1 GHz nesses dez anos.</p>
<p>Chegamos ao fim do século no ápice da Bolha da Internet, tivemos o 11 de Setembro em 2001 e o crash. Mas a Internet chegou para ficar, e os dispositivos começaram a despontar com os Palms e iPods. Em 2001 a Microsoft lançou o Windows XP e passaria a década seguinte carregando esse legado nas costas.</p>
<p>Um ano antes, a pequena Apple iniciava seu levante com os novos iMac, iBook e iPod, além do OS X baseado em BSD UNIX. Um passo de cada vez, ela montava um sistema pensado tanto para consumidores quanto para desenvolvedores, a promessa da NeXT ganhando forma uma década depois de sua concepção.</p>
<p>Então, em 2005, a Apple forjaria aliança com uma das mais antigas parceiras da Microsoft, a Intel, e finalmente os Macs rodariam no mesmo processador que o Windows, dando um salto estratosférico em adoção. E isso abria mais uma porta: como o OS X foi feito agnóstico de processador, era questão de tempo até rodar em chips ARM, menores e mais eficientes. Foi o que aconteceu em 2007 com o lançamento do iPhone. O resto é história.</p>
<h3>2005 a 2015 - 2a Década<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="2005-a-2015---2a-década"></span>
    <a href="#2005-a-2015---2a-d%c3%a9cada" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Enquanto isso, a Microsoft ficou para trás. Fracassou na promessa do Windows Vista, entregou um Windows 7 competente e emendou no controverso Windows 8. Só com o Windows 10, anunciado no fim de 2014, é que as coisas começaram a mudar. E os efeitos da morte de Steve Jobs, no fim de 2011, ficavam mais aparentes: a Apple parou.</p>
<p>De 2011 até hoje, só tivemos novas versões. Nada significativo, nada novo. O último grande iPhone foi o 5, de 2012. O último grande felino do OS X foi o Mountain Lion, de 2011. Enquanto isso, o Google passou à frente no mundo mobile quando o KitKat saiu em 2013, para mim a primeira versão do Android em pé de igualdade com o iOS.</p>
<p>De 1999 até 2005, no geral, o desenvolvedor de software enterprise tinha duas opções: Java e .NET. O PHP tinha boa adoção, mas na maioria como customização de Wordpress e Magento, longe da mesma categoria de Java ou .NET; o resto era nicho. A partir de 2006 surgiu uma nova geração de desenvolvedores para a chamada Web 2.0, o mundo pós-Google, com SEO, UX, iterações rápidas e Agilidade com &ldquo;A&rdquo; maiúsculo. Foi ali que Ruby, Python e depois Node aceleraram exponencialmente.</p>
<p>A partir de 2010, o mundo mobile acelerou, e em particular um tipo de desenvolvimento integrado: baseado em &ldquo;Cloud&rdquo;, em que uma &ldquo;app&rdquo; nativa fala com serviços em servidores remotos, sobretudo da Amazon AWS, que havia estreado não fazia muito tempo, em 2006.</p>
<p>A Microsoft ficou de fora desse movimento e gastou os dez anos seguintes correndo atrás, na ressaca do Vista. Manteve a liderança em mercados puramente enterprise, com licenças de SQL Server e Office, mas à margem do &ldquo;cutting-edge&rdquo; do desenvolvimento de software.</p>
<p>Na verdade, eu diria que o divisor de águas veio em 2013, com a <a href="http://web.archive.org/web/20160404073120/http://olhardigital.uol.com.br/pro/noticia/mercado-reage-bem-a-saida-de-ballmer-da-microsoft/36992"target="_blank" rel="noopener">saída de Ballmer</a> e o fim da &ldquo;Era Estendida de Gates&rdquo;, abrindo espaço para a <a href="http://www.businessinsider.com/microsoft-year-in-review-2015-12"target="_blank" rel="noopener">entrada de Satya Nadella</a>. A Microsoft é uma entidade gigante, muitos cérebros já pesquisavam isso fazia anos, e boa parte só apareceu agora. Mas falo em &ldquo;Eras&rdquo; num sentido simbólico: o fim da cultura Highlander da Microsoft, o &ldquo;there can only be one&rdquo;.</p>
<p>A <a href="http://1995blog.com/2015/05/24/the-internet-tidal-wave-20-years-on/"target="_blank" rel="noopener">profecia de 1995</a>, de que a Internet destruiria a hegemonia do Windows, se cumpriu. E chegamos ao mundo pós-Moore, em que a computação ficou acessível e ubíqua. Pense nisso: em 1995, ter um cluster de &ldquo;super&rdquo; computadores para computação distribuída de alto processamento era coisa de universidade ou grande corporação. Hoje, você cria um cluster de quantas dúzias de máquinas quiser no EC2 por um mês pelo preço de um videogame.</p>
<p>Fui usuário de DOS desde 1988, mudei para o Windows 95 assim que saiu e passei quase dez anos desenvolvendo primariamente em Windows, em ambiente corporativo. Fui de Visual Basic para ASP e para .NET ao mesmo tempo que mexia com Java e PHP. Mas eu queria poder usar Perl, PHP, Python e Ruby nativos de Linux, sem abrir mão de Office e Photoshop.</p>
<p>A resposta que já esperávamos era o OS X. Com o lançamento do Tiger, a coisa ficou séria. Eu mesmo experimentei com um Mac Mini G4 em 2004. Era excepcional ter uma usabilidade muito melhor que a do Windows XP e acesso a tudo de UNIX numa única máquina.</p>
<p>Quando a Intel lançou o Core Duo e depois o Core 2 Duo de 64 bits, e o Tiger passou a rodar em Intel em 2005, não havia o que pensar: era hora de migrar. Passaria a década seguinte num ambiente puramente OS X, desenvolvendo em outro tipo de plataforma, com outras ferramentas e outra cultura. Foi toda a minha história com Ruby e OS X nesses dez anos, que vocês conhecem bem se acompanham o blog.</p>
<h3>2015 em diante, Epílogo<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="2015-em-diante-epílogo"></span>
    <a href="#2015-em-diante-ep%c3%adlogo" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>2015 chegou, quatro anos depois da morte de Steve Jobs. Foi um intervalo importante, porque deu tempo para as plataformas não-Mac se equipararem e superarem o OS X em muitas áreas. Estamos definitivamente na Era do Software como Serviço. Não &ldquo;compramos&rdquo; mais nada, &ldquo;assinamos&rdquo; serviços.</p>
<p>Passamos da Era Pós-PC. Passamos da Era do Smartphone. Estamos na Era dos Serviços, em que tudo é um serviço. Nossa identidade é um perfil do Facebook, nossa voz é o Zap Zap, e tudo o que fazemos gera dados. Estamos na Era do Big Data, um monte de dados inúteis que nenhum SQL Server do mundo dá conta de manter.</p>
<p>Precisamos de coisas novas para lidar com esse paradigma: Cassandra, Riak, Hadoop, HBase, Spark, Elasticsearch, Go, Rust, Elixir. Todos eles &ldquo;rodam&rdquo; em Windows, mas alguém precisa gastar tempo fazendo ports, criando patches de compatibilidade e empacotando instaladores. E o principal: a maioria dos desenvolvedores dessas tecnologias está em Linux ou em OS X, quase ninguém desenvolve essa nova geração de ferramentas dentro do Windows. Todos usam Emacs, Vim ou Sublime Text, quase ninguém quer o Visual Studio.</p>
<p>E isso volta ao começo do post: é uma nova Era para a Microsoft. Ela passou os últimos dez anos correndo atrás e, pela primeira vez, parece ter chances reais de dar a volta por cima e voltar a ser relevante para o desenvolvedor não-.NET.</p>
<p>Para isso, duas coisas aconteceram ontem.</p>
<h3>2016 - O Ano do Linux no Desktop<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="2016---o-ano-do-linux-no-desktop"></span>
    <a href="#2016---o-ano-do-linux-no-desktop" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Primeiro, o anúncio de que o <a href="http://thehackernews.com/2016/03/ubuntu-on-windows-10.html"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Bash está chegando ao Windows&rdquo;</a>. Que na prática é muito mais do que o Bash: é uma parceria com a Canonical, que já vinha se desenhando desde o anúncio do <a href="http://web.archive.org/web/20160415160138/http://www.microsoft.com/en/server-cloud/sql-server-on-linux.aspx"target="_blank" rel="noopener">SQL Server rodando em Linux</a>. Na prática, é um <a href="http://blog.dustinkirkland.com/2016/03/ubuntu-on-windows.html"target="_blank" rel="noopener">subsistema Linux</a> rodando em paralelo à kernel do Windows, traduzindo chamadas de sistema Linux para Windows.</p>
<p>A ideia original veio do falecido Projeto Astoria, ou Windows Bridge for Android, que na época queria permitir apps Android rodando em Windows. Tecnicamente o Android é um tipo de Linux, então o salto para ontem foi curto.</p>
<p>Assim, será possível pegar um binário feito para Ubuntu e rodá-lo no Windows sem modificar nada.</p>
<p>Desde que começamos a desenvolver com Ruby, muita gente que usa Windows queria rodar Ruby nativamente. Existe uma <a href="http://rubyinstaller.org/"target="_blank" rel="noopener">distribuição</a>, mas não é boa, e a culpa não é dos mantenedores. O Ruby, assim como Python e PHP, foi feito para funcionar em Linux.</p>
<p>Para portar para Windows é preciso fazer &ldquo;wrappers&rdquo;, e ainda falta um ambiente com compiladores como o GCC para compilar pacotes de extensões. Tudo isso é trivial no Linux e uma dor de cabeça no Windows. Não valia o trabalho, então a única saída era rodar uma máquina virtual (como o VirtualBox) com algo como o Vagrant para facilitar e usar o Ruby de Linux de verdade.</p>
<p>Tudo de Linux que &ldquo;funciona&rdquo; em Windows, seja Python ou PHP, nunca funcionou 100%, e a gente simplesmente se acostumou com isso.</p>
<p>O que a Microsoft vai lançar no Anniversary Update é uma camada muito fina de tradução no nível mais baixo, e não uma máquina virtual ou um hypervisor: de uma kernel Linux &ldquo;virtual&rdquo; para a kernel do Windows. Tudo vai pensar que está rodando em Linux. É o que o projeto Wine tenta fazer para rodar aplicações Windows no Linux, só que ao contrário. Também é diferente do Cygwin, que exige recompilar tudo do Linux para ter um ambiente semi-Linux sobre o Windows.</p>
<p>Provavelmente não haverá ambiente gráfico secundário num primeiro momento, então nada de X, nada de GNOME ou KDE. E nem precisa: estamos num mundo Web, nosso ambiente gráfico agora é HTML e Javascript, e Chrome e Firefox já existem nativos no Windows. Para coisas como compilar gems com extensões nativas, até o GCC vai funcionar. É exatamente o mesmo binário, no mesmo ambiente, com tudo a que estamos acostumados no UNIX. Ter Bash e SSH no Windows é só a ponta do iceberg.</p>
<p>O segundo anúncio é o <a href="http://techcrunch.com/2016/03/31/thanks-to-microsoft-small-teams-can-now-get-xamarins-ide-and-core-tools-for-free"target="_blank" rel="noopener">lançamento das ferramentas Xamarin de graça e como open source</a>! A Microsoft adquiriu a Xamarin, de Miguel de Icaza, há pouco tempo. Eles desenvolveram o .NET open source por pura engenharia reversa, reimplementando tudo em código aberto, e agora a Microsoft fez a coisa inteligente: além de comprá-los, abriu as ferramentas. A última coisa que ainda prendia um desenvolvedor no Mac era precisar do Xcode, que já vem no OS X, para desenvolver para iOS. Agora dá para fazer isso no Windows de graça.</p>
<p>Portanto, a conta ficou bem mais simples. O Windows 10 é a primeira versão respeitável de Windows desde o breve intervalo do 7. Vamos esquecer que o 8 existiu, do mesmo jeito que já esquecemos do Vista. O XP finalmente morreu, levou mais de uma década, junto com os horrorosos Internet Explorer 6, 7 e 8. O Google nos fez o favor de tornar o Chrome ubíquo, e serviços como o Facebook forçaram os usuários a migrar mais rápido.</p>
<p>Com o <a href="http://arstechnica.com/information-technology/2016/03/windows-10-270-million-users-binbash-supporting-anniversary-update-coming-summer/"target="_blank" rel="noopener">Windows 10 Anniversary Update</a>, provavelmente vamos poder fazer:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><pre><code>apt-get install build-essential
\curl -sSL https://get.rvm.io | bash
rvm install 2.3.0
bundle install</code></pre></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>E tudo deve funcionar.</p>
<p>No mesmo ambiente, ainda vamos poder usar o Xamarin Studio e, com um pouco de esforço para relembrar os músculos de C#, criar apps iOS e Android. Vamos poder usar o Office 365 nativo, todas as ferramentas mais recentes do Adobe CS6 e até jogar The Division, tudo na mesma máquina.</p>
<p>De uma só vez, o Windows 10 vira a escolha com o melhor custo-benefício: comodidade de uso, opções de desenvolvimento e hardware competente na forma de Surface Book, Lenovo Yoga 3 e Razer Blade Stealth, que finalmente alcançaram e passaram o lendário acabamento dos MacBook.</p>
<p>2016 é finalmente o famigerado Ano do Linux no Desktop, só que não do jeito que o pessoal de Free Software gostaria. Não dá para ter tudo.</p>
]]></content:encoded><category>microsoft</category><category>ferramentas-de-desenvolvimento</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Tech Startups, superlotação de B2C. Boring.</title><link>https://akitaonrails.github.io/2013/11/14/off-topic-tech-startups-superlotacao-de-b2c-boring/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2013/11/14/off-topic-tech-startups-superlotacao-de-b2c-boring/</guid><pubDate>Thu, 14 Nov 2013 14:29:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Quando &lt;a href="http://www.akitaonrails.com/2012/11/05/viagem-a-sao-francisco-parte-1-techcrunch-disrupt"target="_blank" rel="noopener"&gt;estive em São Francisco em 2012&lt;/a&gt;, participei da Techcrunch Disrupt (pessoalmente, &lt;em&gt;boring&lt;/em&gt;). Dentre as poucas coisas que me lembro, uma foi um comentário de &lt;a href="http://techcrunch.com/2012/09/10/reid-hoffman-next-wave-of-tech-ipos-will-be-enterprise-with-consumer-flare-arrington-yawns/"target="_blank" rel="noopener"&gt;Reid Hoffman&lt;/a&gt;, fundador do LinkedIn. Não lembro a frase exata, mas em resumo era algo assim:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
"Todos estão fazendo startups B2C, quase ninguém está resolvendo o problema 'Enterprise', o mercado B2B de bilhões de dólares."
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Deixa eu simplificar. Estou tratando &amp;ldquo;B2C&amp;rdquo;, business to consumer, como todos os sites comuns que vemos hoje: redes sociais, instant messaging, content management, tudo cujo público alvo final é a massa de consumidores pessoas físicas. E &amp;ldquo;B2B&amp;rdquo;, business to business, como as soluções em software que resolvem tanto problemas internos de uma corporação quanto problemas que interligam várias corporações, onde o público alvo são pessoas jurídicas. É uma simplificação, mas serve ao meu propósito.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando <a href="http://www.akitaonrails.com/2012/11/05/viagem-a-sao-francisco-parte-1-techcrunch-disrupt"target="_blank" rel="noopener">estive em São Francisco em 2012</a>, participei da Techcrunch Disrupt (pessoalmente, <em>boring</em>). Dentre as poucas coisas que me lembro, uma foi um comentário de <a href="http://techcrunch.com/2012/09/10/reid-hoffman-next-wave-of-tech-ipos-will-be-enterprise-with-consumer-flare-arrington-yawns/"target="_blank" rel="noopener">Reid Hoffman</a>, fundador do LinkedIn. Não lembro a frase exata, mas em resumo era algo assim:</p>
<blockquote>
"Todos estão fazendo startups B2C, quase ninguém está resolvendo o problema 'Enterprise', o mercado B2B de bilhões de dólares."
</blockquote>
<p>Deixa eu simplificar. Estou tratando &ldquo;B2C&rdquo;, business to consumer, como todos os sites comuns que vemos hoje: redes sociais, instant messaging, content management, tudo cujo público alvo final é a massa de consumidores pessoas físicas. E &ldquo;B2B&rdquo;, business to business, como as soluções em software que resolvem tanto problemas internos de uma corporação quanto problemas que interligam várias corporações, onde o público alvo são pessoas jurídicas. É uma simplificação, mas serve ao meu propósito.</p>
<p>Vou repetir uma coisa que twitei recentemente: &ldquo;empreendedor&rdquo; é um estado, não uma carreira nem uma profissão. Qualquer pessoa, física ou jurídica, por definição, empreende. Até um estudante empreende, construindo o próprio conhecimento para resolver algum problema no futuro. Uma diarista é empreendedora, e hoje algumas ganham em escala subcontratando outras e distribuindo serviços.</p>
<p>Portanto, não são só os desenvolvedores de software que, por acaso, ganharam esse &ldquo;privilégio&rdquo;. Na prática, não há nada de especial em ser empreendedor, basta não ser um procrastinador.</p>
<p>Muitos jovens, muitos ainda nem na faculdade, estão iludidos pelo falso &ldquo;glamour&rdquo; desse curto período, que pode até ser uma bolha, ou pelo menos uma anomalia temporária de mercado. Se você está nesse grupo, recomendo meu artigo anterior, a tradução do post de Alex Payne, <a href="http://www.akitaonrails.com/2013/10/31/traducao-carta-para-um-jovem-programador-considerando-uma-startup"target="_blank" rel="noopener">Carta para um Jovem Programador Considerando uma Startup</a>.</p>
<p>O exercício aqui é simples. Por que vocês acham que a maioria esmagadora das tech startups investe em aplicações Web B2C? E por que quase todas são tão parecidas entre si? Basicamente, se você trocar o logotipo, o nome e algumas cores, muitas ficam praticamente idênticas. Ecommerces são óbvios. Redes sociais verticais. Misture um componente de rede de conhecidos a verticais como empregos, classificados, transporte (táxi), exercícios e saúde.</p>
<p>A resposta é assustadora de tão simples: é tudo o que uma pessoa inexperiente conhece. O dia a dia dela se resume a usar Facebook, Instagram, Medium e Tumblr. A pegar ônibus e metrô. A ir num pronto-socorro ou fazer alguns exames. A ir na academia. A frequentar uma universidade. E tudo isso do ponto de vista do consumidor, nunca do provedor ou produtor. Por isso tudo sai mais ou menos igual.</p>
<h2>O Mundo Corporativo é Muito Chato<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-mundo-corporativo-é-muito-chato"></span>
    <a href="#o-mundo-corporativo-%c3%a9-muito-chato" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O efeito colateral mais assustador é que as &ldquo;tech startups&rdquo; e a pseudo-carreira de &ldquo;empreendedor&rdquo; chegam como a salvação de quem leu blogs, tweets e posts de Facebook falando como é &lsquo;horrenda&rsquo; a vida de quem trabalha numa agência, numa grande empresa, numa corporação. A burocracia, a politicagem, a estrutura hierárquica. Tudo isso foi pintado como se arranjar um emprego fosse andar pelo corredor da morte, e como se estar empregado numa corporação fosse ser torturado diariamente de formas cruéis.</p>
<p>E o pior: a maioria dos jovens e inexperientes acredita nisso. <a href="http://www.urbandictionary.com/define.php?term=tl%3Bdr"target="_blank" rel="noopener">TL;DR</a>: não é inteiramente verdade.</p>
<p>Para piorar, de fato aparecem <a href="http://www.akitaonrails.com/2008/10/09/off-topic-entendendo-a-crise-econ-mica"target="_blank" rel="noopener">Cisnes Negros</a> pelo caminho. Facebook, Tumblr, Snapchat, Twitter. Isso dá a impressão de que é possível repetir o feito. Não entender a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_dos_grandes_n%c3%bameros"target="_blank" rel="noopener">Lei dos Grandes Números</a> pode ser fatal.</p>
<p>Em resumo: dados milhões de pessoas tentando ganhar na loteria, uma eventualmente ganha. Mas não existe processo repetível que leve até ali. É um beco sem saída de aleatoriedade. Agradeça a Bernoulli e Poisson por nos avisarem disso, embora poucos saibam hoje.</p>
<p>Não quero dizer que não exista valor em B2C. Claro que existe, só que muito mais limitado do que se imagina. O outro lado da moeda, o mundo corporativo, é quase imune a startups. Conhecemos os grandes nomes: SAP, Oracle, Microsoft, Totvs. Do lado puramente técnico, são softwares de baixíssima qualidade que, &lsquo;magicamente&rsquo; para alguns, movimentam bilhões de dólares. E é um mercado que vê pouca ou quase nenhuma disrupção há décadas.</p>
<p>O motivo é simples: poucos pararam para entender como esse mundo funciona. Pense em quem tenta entrar no mundo de ecommerce. O entendimento raso é que um ecommerce é uma &ldquo;loja virtual&rdquo;. Eu vejo diferente: entendo ecommerce como mais um <a href="http://www.investopedia.com/terms/d/distribution-channel.asp"target="_blank" rel="noopener">canal de distribuição</a>.</p>
<p>Por trás existem inúmeros processos consolidados que qualquer um que trabalhou em varejo (<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Retail"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;retail&rdquo;</a>) conhece bem. Centros de distribuição, Supply Chain, estratégias de precificação, tributação e transporte de materiais, aprovação de compras, inventário e warehouse management. Território conhecido para quem já trabalhou com Sales and Distribution. Alienígena para qualquer outro.</p>
<p>Sites de empregos. Poucos entendem o que isso significa, mas é uma perna pequena da área conhecida como HR, Recursos Humanos. Significa entender CLT, liability trabalhista, benefícios, recrutamento e seleção, treinamento, folha de pagamento, timesheet, viagens.</p>
<p>Entenda: você não tem a mínima condição de oferecer nada ao mercado corporativo sem ter participado ativamente dele. Para quem nunca esteve lá, uma corporação é uma caixa preta. E a maioria das pessoas imediatistas costuma se afastar do que não entende, em vez de explorar. Um &ldquo;hacker&rdquo; faz o oposto: quebra caixas pretas. Quem apenas consome continua um script kid achando que é mais do que é.</p>
<p>Quando você passa por várias empresas, vários contextos e situações, processos diferentes em etapas diferentes, só então começa a entender o domínio do problema. Faça isso algumas vezes e talvez comece a enxergar como melhorar ou, melhor ainda, &ldquo;inovar&rdquo; nesse segmento.</p>
<p>Inovação no mercado corporativo começa com otimização simples de processos, e pode terminar na substituição completa de um processo antigo ou na criação de uma vertical inteiramente nova. Mas inovação, por si só, é um processo, com etapas que precisam ser vencidas uma a uma. E a primeira etapa é invariavelmente adquirir conhecimento.</p>
<p>Não há atalhos. Mesmo no B2C me admira ver alguém tentar criar um produto para as massas sem entender as técnicas de convencimento acumuladas no corpo de conhecimento chamado &ldquo;marketing&rdquo;.</p>
<p>O atalho de criar tech startups copy-cat, acreditando cegamente numa promessa inexistente, está formando uma geração que desconhece os processos que regem esse mercado enorme. E algumas coisas dependem de tempo. Eu me aproveitei dessa vantagem ao entrar cedo no mercado, com o objetivo de descobrir como suas engrenagens funcionam.</p>
<p>Quando você é o mais novo, erros pesam menos e acertos são supervalorizados. Quando passou da idade, erros ficam intoleráveis e acertos viram o normal esperado. E quanto mais tarde, menos chance você tem de entender como o mundo funciona, com mais e mais portas fechadas.</p>
<p>Obviamente estou generalizando. Existem casos excepcionais em que isso funciona diferente, mas se você ainda não sabe se é um caso excepcional, as chances são de que não seja.</p>
<p><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Serendipity"target="_blank" rel="noopener">Serendipidade</a> só acontece quando você se expõe à maior variedade de situações possível, criando oportunidades. Numa única startup, num único produto, numa única ideia não provada, as chances de serendipidade despencam.</p>
<p>A vantagem de uma SAP, nas suas várias décadas de existência, foi acumular o conhecimento de todos os processos, de todas as indústrias, varrendo quase tudo que existe de importante no mundo corporativo. E mesmo assim há áreas que ela ainda não toca direito, o que abre espaço para uma Salesforce.com se sobressair. Imagine quem está artificialmente se limitando.</p>
<p>Mais do que isso: sem conhecimento nenhum e com a ilusão de que &ldquo;erros&rdquo; são bons porque viram aprendizado, esquecemos o óbvio. Errar é humano. Errar o que já é notoriamente errado é burrice, pura e simplesmente.</p>
<p>Cobrar um cliente sem ter assinado contrato antes, e depois chamá-lo de desonesto por não pagar tudo, demonstra a estupidez de quem não assinou o contrato. Gastar o dinheiro adiantado como &ldquo;investimento&rdquo; e depois ter problema com a folha de pagamento é amadorismo de quem desconhece o básico de fluxo de caixa.</p>
<p>Reescrever sistemas inteiros sem saber quanto vai custar em horas de desenvolvimento, treinamento de usuários, integrações, migração de dados e custo de oportunidade é outra burrice enorme de quem não sabe fazer análise básica de custos. Tudo isso é simples burrice, não precisa errar para aprender. Bastava ter visto acontecer uma vez: toda empresa faz isso há décadas, muito antes de você nascer.</p>
<p>Isso é inexperiência, algo normal, ninguém nasce sabendo tudo. Por isso adquirir experiência importa tanto. Sem ela você fica sempre em desvantagem, porque quis um atalho que imaginava economizar 5 anos e vai deixá-lo 10 anos atrasado.</p>
<p>O mundo B2C está super-saturado. O mundo B2B vai continuar isento de startups importantes por mais alguns anos, já que esta geração também desperdiça tempo e esforço de formas ineficientes, jogando fora tudo que já sabemos há anos. E lembre-se: evitar desperdício, que eu me lembre, é o pilar do &ldquo;Lean&rdquo;.</p>
]]></content:encoded><category>startups</category><category>negocios</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Zona de conforto: sair às ruas não é a única solução</title><link>https://akitaonrails.github.io/2013/07/23/off-topic-zona-de-conforto-sair-as-ruas-nao-e-a-unica-solucao/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2013/07/23/off-topic-zona-de-conforto-sair-as-ruas-nao-e-a-unica-solucao/</guid><pubDate>Tue, 23 Jul 2013 14:20:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Publicado pela 1a vez em &lt;a href="http://web.archive.org/web/20150404181526/http://startupi.com.br/2013/07/zona-de-conforto-sair-as-ruas-nao-e-a-unica-solucao/"target="_blank" rel="noopener"&gt;2013-07-23T09:17:20+00:00&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sair às ruas não é a única solução.&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;“Nunca na história do mundo ninguém nunca alcançou nada de bom e valioso por meio de orações e súplicas” – J.P. Morgan&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/509/34strikebloody-thursday-fighting.jpg" alt="" loading="lazy" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não quero julgar nem analisar os movimentos #vemprarua que tomaram as ruas do país neste passado recente. É um emaranhado que deixo para cientistas políticos e historiadores desembaraçarem. Quero elaborar sobre um pensamento que deriva desse tipo de movimento e aparece no nosso dia a dia: a &lt;em&gt;“reivindicação”&lt;/em&gt;, o ato de &lt;em&gt;“reclamar, exigir”&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Publicado pela 1a vez em <a href="http://web.archive.org/web/20150404181526/http://startupi.com.br/2013/07/zona-de-conforto-sair-as-ruas-nao-e-a-unica-solucao/"target="_blank" rel="noopener">2013-07-23T09:17:20+00:00</a></p>
<p>Sair às ruas não é a única solução.</p>
<blockquote>“Nunca na história do mundo ninguém nunca alcançou nada de bom e valioso por meio de orações e súplicas” – J.P. Morgan</blockquote>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/509/34strikebloody-thursday-fighting.jpg" alt=""  loading="lazy" /></p>
<p>Não quero julgar nem analisar os movimentos #vemprarua que tomaram as ruas do país neste passado recente. É um emaranhado que deixo para cientistas políticos e historiadores desembaraçarem. Quero elaborar sobre um pensamento que deriva desse tipo de movimento e aparece no nosso dia a dia: a <em>“reivindicação”</em>, o ato de <em>“reclamar, exigir”</em>.</p>
<p>É muito comum esta nova geração cair no erro de achar que reivindicar é a melhor solução para os problemas. Estão errados. Fora os casos extremos, essa é sempre a pior solução possível. No cotidiano do homem comum, reivindicar é só a declaração da própria incompetência.</p>
<p>Vamos considerar nosso mercado de tecnologia no geral:</p>
<ul>
<li>Reivindicar melhores condições de trabalho: ninguém mais trabalha em fábricas sujas, esfumaçadas, junto com ratos e esgoto. Ora, ninguém sequer trabalha 8 horas por dia sem parar, no máximo 4 horas esticadas em 8.</li>
<li>Reivindicar melhores salários: é um livre mercado, com dezenas de empresas de tecnologia de todos os tamanhos e categorias. A mobilidade é simples. Claro, só consegue se mover de uma empresa para outra ganhando mais quem tem capacidade para isso. Quem fica no mesmo lugar, descontente, e só sabe “demandar” para ganhar mais já demonstra seu baixo caráter.</li>
<li>Reivindicar investimentos: parece que os ‘empreendedores’ de startups hoje viram apenas ‘mendigos profissionais’, convencidos de que só dá para ir pra frente quando um investidor lhes der dinheiro.</li>
</ul>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/508/10.jpg" alt=""  loading="lazy" /></p>
<p>O pensamento de “reivindicar” leva ao outro pensamento, o do “reclamador barato”, aquele que joga a culpa em todos menos nele mesmo.</p>
<ul>
<li>“O que estão pedindo é impossível de fazer nesse tempo e custo.” O pensamento por trás: “não consigo imaginar uma maneira, portanto deve ser impossível.”</li>
<li>“Os usuários do produto são burros, o problema não está no produto.” O pensamento: “se fui eu que fiz, só pode ser bom; se estão reclamando, os burros são eles.”</li>
<li>“O mercado é injusto: eu manjo mais e ganho menos do que deveria.” O pensamento: “sei que manjo muito, por que não me pagam o quanto eu quero?”</li>
<li>“Só me criticam, e o outro que também não fez?” Ninguém gosta de ser criticado, mas sem crítica não há avanço. Pior ainda quando a primeira reação diante da crítica é comparar com o erro do outro ou justificar jogando a culpa nos demais. Esse perfil jamais vai longe. Elogio não contribui para a evolução de ninguém, ainda mais elogio barato.</li>
</ul>
<p>A Geração “Me me me” é a mais sensível que eu já vi. Deveria se chamar “Geração Porcelana”, porque quebra fácil demais.</p>
<p>Na Revolução Industrial as pessoas eram literalmente duras como ferro. Não havia opção: muitas morriam nas fábricas, e o conceito de “condições de trabalho” nem existia. Na era da agricultura, trabalhavam de sol a sol, ganhando muito pouco e carregando toneladas nas costas.</p>
<p>Agora esta era digital tem uma resistência estereotipicamente Emo (nada a ver com a origem do hardcore punk): riscou a unha, já entra em desespero. A adolescência está sendo esticada, e a fase adulta só se manifesta depois dos 30 (antigamente, aos 16 já era boa idade para assumir uma posição adulta).</p>
<p>Isso até deveria ser bom, porque significa que elevamos o conforto a um patamar jamais visto em milênios de história humana. Mas veio um efeito colateral: a nova geração cresceu sem entender a dificuldade de chegar até aqui.</p>
<p>Tudo isso pode levar à pergunta: “quer dizer que devo engolir tudo de que não gosto?”. De jeito nenhum. E aqui entra um gancho com meu artigo anterior <a href="http://www.akitaonrails.com/2013/04/01/off-topic-restricoes-sao-libertadoras-menos-e-mais"target="_blank" rel="noopener">“Restrições são Libertadoras: menos é mais”</a>.</p>
<p>Assuma sempre esta premissa: ninguém vai te dar o que você quer ou precisa, muito menos além disso. Se você não conquistou, não merece o que está pedindo, e ninguém tem obrigação nem de ouvir o que você tem a dizer. Cabe a você, e só a você, resolver o próprio problema, com o próprio suor e as próprias lágrimas.</p>
<p>Para mim, a diferença entre uma criança e um adulto é simples: o adulto resolve os próprios problemas com as próprias mãos e nunca espera que resolvam de graça para ele. E “resolver” quer dizer resolver de verdade, sem jogar a culpa nos outros, sem demandar ou exigir, sem esconder o problema debaixo do tapete.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/507/340857.jpg" alt=""  loading="lazy" /></p>
<p>E quando o problema parece “impossível” é que aparece a melhor oportunidade de inovar. Inovação nasce justamente de uma situação impossível. Uma coisa é impossível quando não dá para realizá-la com o que sabemos até hoje. Só dá para resolvê-la por um caminho diferente, um caminho que ainda ninguém conhece.</p>
<p>Os adolescentes que se formam hoje nas faculdades veem essa moda das “Startups” e querem ser “empreendedores”. Tudo o que aprendem a fazer é montar PowerPoints para Demo Days. Acreditam que a “formação” (que é pouca, não importa o MBA ou PhD) e a “ideia” bastam para se intitular “empreendedor”. É pouco, extremamente pouco.</p>
<p>“Empreendedor” que assume baixo risco e baixo sacrifício é só um funcionário médio com nome pomposo. Uma “ideia” e um possível investimento resolvem muito pouco.</p>
<p>Primeiro trabalhe numa indústria de verdade para aprender como ela funciona e, quem sabe, achar uma solução que ninguém tentou. Porque essa é outra verdade: qualquer ideia que você tenha, provavelmente alguém já teve antes e já tentou de várias formas. As chances de você ter uma ideia inédita são baixas.</p>
<p>Só quando você cai numa situação impossível, em que já se tentou de tudo, é que aparece a chance de tentar algo novo e talvez inovador. Ao tentar resolvê-la, você pode acabar encontrando uma solução que já existia e descobrir que o seu “impossível” era só desconhecimento do que já se sabia. Aí é pular para o próximo problema.</p>


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<p>Estava assistindo à série do History Channel <a href="http://web.archive.org/web/20130717090520/http://www.seuhistory.com/programas/gigantes-da-industria.html"target="_blank" rel="noopener">“Gigantes da Indústria”</a>, que mostra, de forma romanceada, parte da história de como os Estados Unidos conquistaram e mereceram o posto de maior potência econômica do mundo. A história começa como a nossa: ninguém lhes deu nada, tudo teve que ser conquistado. Ela traz alguns bons exemplos que gosto de citar.</p>
<ul>
<li>Era impossível transportar mercadorias pelo país inteiro somente a cavalo ou mesmo a navio; cada vez mais foi preciso achar maneiras de encurtar esse tempo. Foram as ferrovias de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cornelius_Vanderbilt"target="_blank" rel="noopener">Vanderbilt</a> que ligaram todos os estados do país.</li>
<li>Era impossível ter uma corporação tão grande e massiva como a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Standard_Oil"target="_blank" rel="noopener">Standard Oil</a> foi no passado, mas Rockefeller inovou o que hoje conhecemos como estruturas corporativas, muitas de suas práticas depois consideradas ilegais. Se você já encheu o tanque num posto Esso aqui no Brasil, vale lembrar onde tudo começou.</li>
<li>Era impossível atravessar o grande Rio Mississipi com uma ponte de ferro. Ligar o Leste e o Oeste do país parecia impossível. Foi preciso um Andrew Carnegie executar a ideia de uma indústria de aço acessível em larga escala para resolver esse problema. Formou-se a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Carnegie_Steel_Company"target="_blank" rel="noopener">Carnegie Steel</a>, que depois se tornaria a US Steel.</li>
<li>Era impossível ter eletricidade distribuída em todas as casas do país. Foi preciso literalmente o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/War_of_Currents"target="_blank" rel="noopener">“sangue”</a> de gênios como Edison, Tesla, Westinghouse e Morgan para atingir esse objetivo. Hoje nem pensamos nisso, porque todo mundo assume que eletricidade é algo “natural”. Não era.</li>
<li>Era impossível melhorar as condições brutais de trabalho nas fábricas e ao mesmo tempo ter produtividade. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_Ford"target="_blank" rel="noopener">Henry Ford</a> mudou esse conceito com o refinamento da sua linha de produção. Aliás, lembrem que o modelo que o tornou famoso foi o Ford Modelo T; para chegar ao “T”, ele começou no modelo “A”.</li>
</ul>
<p>Esses e outros <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Self-Made_Men"target="_blank" rel="noopener">“self-made men”</a> mudaram o mundo de um jeito só: resolvendo um problema de cada vez, sem reivindicar, reclamar ou exigir. E quanto mais “impossível” era o problema, mais “revolucionária” era a solução. É assim que se formam grandes empreendedores: resolvendo os próprios problemas com as próprias mãos.</p>
<p>A frase de abertura do artigo resume seu conteúdo, e a próxima o define:</p>
<blockquote>“Visão sem execução é alucinação” – Thomas Edison</blockquote>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>startups</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Maldita Lei de Regulamentação está de volta!</title><link>https://akitaonrails.github.io/2009/08/22/off-topic-maldita-lei-de-regulamenta-o-est-de-volta/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2009/08/22/off-topic-maldita-lei-de-regulamenta-o-est-de-volta/</guid><pubDate>Sat, 22 Aug 2009 17:01:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Update 08/09/2009:&lt;/strong&gt; Pequena menção numa notícia do &lt;a href="http://web.archive.org/web/20090919011125/http://br.noticias.yahoo.com:80/s/02092009/25/tecnologia-projeto-quer-exigir-diploma-profissao.html"target="_blank" rel="noopener"&gt;Yahoo! Notícias&lt;/a&gt; sobre este assunto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Update 26/08/2009:&lt;/strong&gt; Excelente análise histórica sobre uma boa proposta de lei que já havia sido recusada uma vez, pelo &lt;a href="http://web.archive.org/web/20090828015946/http://www.gizmodo.com.br:80/conteudo/made-brazil-regulamentacao-de-analistas-de-sistemas-ja-foi-discutida-pelo-congresso-e-o-qu-0"target="_blank" rel="noopener"&gt;Gizmodo&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Update: 25/08/2009:&lt;/strong&gt; Acabei de colocar um longo texto de argumentação sobre a Lei neste artigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Está nas &lt;a href="http://web.archive.org/web/20090826104306/http://www.tiinside.com.br:80/News.aspx?ID=143390&amp;amp;C=265"target="_blank" rel="noopener"&gt;notícias&lt;/a&gt;:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;A proposta que regulamenta o exercício da profissão de analista de sistemas foi aprovada nesta quarta-feira, 19, pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. O projeto de lei (&lt;a href="http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/Detalhes.asp?p_cod_mate=82918"target="_blank" rel="noopener"&gt;PLS 607/07&lt;/a&gt;), de autoria do senador &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u582101.shtml"title="PR-RO"target="_blank" rel="noopener"&gt;Expedito Júnior&lt;/a&gt;, segue agora para análise da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), em decisão terminativa.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Update 08/09/2009:</strong> Pequena menção numa notícia do <a href="http://web.archive.org/web/20090919011125/http://br.noticias.yahoo.com:80/s/02092009/25/tecnologia-projeto-quer-exigir-diploma-profissao.html"target="_blank" rel="noopener">Yahoo! Notícias</a> sobre este assunto.</p>
<p><strong>Update 26/08/2009:</strong> Excelente análise histórica sobre uma boa proposta de lei que já havia sido recusada uma vez, pelo <a href="http://web.archive.org/web/20090828015946/http://www.gizmodo.com.br:80/conteudo/made-brazil-regulamentacao-de-analistas-de-sistemas-ja-foi-discutida-pelo-congresso-e-o-qu-0"target="_blank" rel="noopener">Gizmodo</a></p>
<p><strong>Update: 25/08/2009:</strong> Acabei de colocar um longo texto de argumentação sobre a Lei neste artigo.</p>
<p>Está nas <a href="http://web.archive.org/web/20090826104306/http://www.tiinside.com.br:80/News.aspx?ID=143390&amp;C=265"target="_blank" rel="noopener">notícias</a>:</p>
<blockquote>
  <p>A proposta que regulamenta o exercício da profissão de analista de sistemas foi aprovada nesta quarta-feira, 19, pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. O projeto de lei (<a href="http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/Detalhes.asp?p_cod_mate=82918"target="_blank" rel="noopener">PLS 607/07</a>), de autoria do senador <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u582101.shtml"title="PR-RO"target="_blank" rel="noopener">Expedito Júnior</a>, segue agora para análise da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), em decisão terminativa.</p>
<p>Pelo substitutivo anteriormente aprovado pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) e acolhido pelo relator na CCJ, senador <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL67360-5601,00.html"title="PSDB-GO"target="_blank" rel="noopener">Marconi Perillo</a>, somente profissionais com diploma superior em análise de sistemas, ciência da computação ou processamento de dados poderão exercer a profissão de analista de sistemas.</p>

</blockquote>
<p>Recomendo que todos releiam <a href="/2008/04/19/off-topic-vamos-todos-impedir-a-regulamenta-o-da-profiss-o-de-analista-de-sistema/">meu artigo do ano passado</a> sobre esse tema. Essa lei é uma grande palhaçada, criada pelo tal <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u582101.shtml"title="PR-RO"target="_blank" rel="noopener">Expedito Júnior</a> e acolhida pelo tal <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL67360-5601,00.html"title="PSDB-GO"target="_blank" rel="noopener">Marconi Perillo</a>.</p>
<h2>Texto da Proposta de Lei<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="texto-da-proposta-de-lei"></span>
    <a href="#texto-da-proposta-de-lei" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Resolvi analisar o texto com mais calma. A proposta original foi o fracassado Projeto de Lei nº 1.947, de 2003, do Eduardo Paes, felizmente arquivado. Não contente, o Expedito Júnior apresentou o <strong>desastroso</strong> Projeto de Lei nº 607, de 2007. Recomendo ler a versão original primeiro, disponível em PDF <a href="http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/getTexto.asp?t=11569&amp;c=RTF"target="_blank" rel="noopener">neste link</a>.</p>
<p>A primeira análise foi na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática, publicada em <strong>05/03/2008</strong>. Não é totalmente ruim, mas tem vários pontos falhos de interpretação, e prefiro não julgar se por má-fé ou por preguiça. O relatório começa citando a SBC, a Sociedade Brasileira de Computação:</p>
<blockquote>
  <p>Segundo informação divulgada pela própria SBC, o importante na regulamentação da profissão é a observação de determinados princípios como o livre exercício dos ofícios relacionados à área de informática. Assim, nenhum conselho de profissão poderia criar qualquer impedimento ou restrição ao princípio acima, devendo a área ser auto-regulada.</p>

</blockquote>
<p>Está correto, e acho que todos na área concordam com isso. Só que no parágrafo seguinte a interpretação já erra, obviamente feita por alguém de fora do ramo:</p>
<blockquote>
  <p>No caso em tela não se trata disso, pois o art. 2o estabelece que “poderão” exercer a profissão de Analista de Sistemas, Ciência da Computação ou Processamento de Dados, o que amplia sobremaneira as possibilidades de enquadramento profissional, abrangendo praticamente todos os cursos superiores na área de informática.</p>

</blockquote>
<p>Para deixar claro, o art. 2o diz o seguinte:</p>
<blockquote>
  <p>Art. 2° Poderão exercer a profissão de Analista de Sistemas no País:</p>
<p>I – os possuidores de diploma de nível superior em Análise de Sistemas, Ciência da Computação ou Processamento de Dados, expedido por escolas oficiais ou reconhecidas;</p>
<p>II – os diplomados por escolas estrangeiras reconhecidas pelas leis de seu País e que revalidarem seus diplomas de acordo com a legislação em vigor;</p>
<p>III – os que, na data de entrada em vigor desta Lei, tenham exercido, comprovadamente, durante o período de, no mínimo cinco anos, a função de Analista de Sistemas</p>

</blockquote>
<p>Ou seja, a interpretação deixa de fora autodidatas e estudiosos que escolheram não se formar por vários motivos (vide meu artigo <a href="/2009/04/17/off-topic-devo-fazer-faculdade/">Devo fazer Faculdade?</a>). O artigo exclui boa parte dos profissionais mais qualificados.</p>
<p>Mesmo o inciso III não deixa claro o que significa exercício comprovado por cinco anos ou mais. Vale carteira assinada? Vale nota fiscal de serviços de informática prestados a clientes? Quais são os critérios?</p>
<p>A análise prossegue com a afirmação:</p>
<blockquote>
  <p>O art. 4o do projeto, ao estabelecer quais as suas atividades e atribuições, não restringe a atuação de outros profissionais. Também não é estabelecida nenhuma exclusividade ou fixado que determinada atividade ou atribuição será privativa do portador de diploma das profissões antes referidas.</p>

</blockquote>
<p>O art. 4º define atividades como definição, gerenciamento e coordenação de projetos de software, incluindo explicitamente a “codificação”. Ou seja, tudo que fazem gerentes de projeto, arquitetos, programadores e afins. E o mesmo artigo traz:</p>
<blockquote>
  <p>Parágrafo único. É <strong>privativa</strong> do Analista de Sistemas a responsabilidade técnica por projetos e sistemas para processamento de dados, informática e automação, assim como a emissão de laudos, relatórios ou pareceres técnicos.</p>

</blockquote>
<p>Posso estar interpretando errado, mas me parece claro que esse parágrafo é exclusivo e, de novo, deixa de fora os programadores autodidatas. A análise então recorre a um <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fear,_uncertainty_and_doubt"target="_blank" rel="noopener">FUD</a>:</p>
<blockquote>
  <p>Não se imagina que o centro de processamento de dados de um órgão público, de instituições do sistema financeiro ou mesmo de empresas privadas possa prescindir de responsabilidade técnica de caráter profissional, considerada a interface e a sinergia que se cria com os cidadãos, clientes e consumidores.</p>

</blockquote>
<p>Essa é a justificativa errada que aparece na maioria dos argumentos a favor da lei: a de que um profissional formado é sempre muito superior a um autodidata mais experiente. É toda a base do que argumentei no <a href="/2008/04/19/off-topic-vamos-todos-impedir-a-regulamenta-o-da-profiss-o-de-analista-de-sistema/">meu artigo do ano passado</a>. Recomendo a leitura com atenção.</p>
<p>Para não dizer que a análise só tem defeito, ela ao menos sugeriu retirar as partes mais graves:</p>
<ul>
<li>supressão dos artigos 7o até o art. 33, que criam o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Informática;</li>
<li>exclusão, no inciso III do art. 2o, da oração “… e que requeiram o respectivo registro aos Conselhos Regionais de Informática”;</li>
<li>exclusão, no inciso II do art. 3o, da oração “… e que requeiram o respectivo registro aos Conselhos Regionais de Informática”;</li>
</ul>
<p>Chegamos então à confusão da vez: a aprovação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, publicada em 19/08/2009. A proposta passou com todas as modificações sugeridas pela Comissão de Ciência e Tecnologia listadas acima.</p>
<p>Felizmente, a supressão dos artigos 7o. até o art. 33 foi mantida:</p>
<blockquote>
  <p>… há <strong>inconstitucionalidade</strong> de natureza formal nos dispositivos que versam sobre a fiscalização e o exercício da profissão, bem como sobre o registro dos profissionais e o pagamento de taxas … Dessa forma, os citados artigos estão marcados pela eiva de inconstitucionalidade, pois é vedada a iniciativa parlamentar para criar órgãos públicos e atribuir-lhes funções, por força do supramencionado preceito da Lei Maior …</p>

</blockquote>
<p>Traduzindo, isso <strong>retira</strong> os capítulos que criavam os órgãos fiscalizadores: o Conselho Federal de Informática, os Conselhos Regionais, o registro e a fiscalização profissional, as anuidades, os emolumentos e taxas e, por fim, as infrações e penalidades. Seriam as partes mais danosas se implementadas. Espero que fiquem de fora mesmo.</p>
<h2>O Sétimo Elemento<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-sétimo-elemento"></span>
    <a href="#o-s%c3%a9timo-elemento" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Desde 20/08/2009 o substitutivo tramita aguardando relator na Comissão de Assuntos Sociais, onde pode ser aprovado ou arquivado. Pelo andar da carruagem, deve ser aprovado sem grandes problemas, o que é <strong>péssimo</strong>!</p>
<p>Continuam valendo meus argumentos no artigo <a href="http://www.akitaonrails.com/2008/04/19/off-topic-vamos-todos-impedir-a-regulamenta-o-da-profiss-o-de-analista-de-sistema"target="_blank" rel="noopener">Vamos impedir a Regulamentação</a> do ano passado. Mesmo abrindo mão dos artigos que criavam toda a máquina burocrática e as penalidades, ainda é uma lei péssima para o mercado. Pior: o art. 7º do substitutivo atual me deixa <strong>muito</strong> apreensivo:</p>
<blockquote>
  <p><strong>Art. 7o</strong> O Poder Executivo responsabilizar-se-á pela fiscalização e supervisão do exercício da profissão de Analista de Sistemas, e pelo registro dos profissionais da Informática.</p>

</blockquote>
<p>Esse único artigo substitui os artigos 7º ao 33 sem definir nada, deixando em aberto e arbitrário o que o Executivo fará quanto à fiscalização e ao registro dos profissionais. No fundo, tudo que foi retirado continua implicitamente válido.</p>
<p>Esse artigo não existia na versão de 2008 da Comissão de Ciência e Tecnologia. Foi a única coisa acrescentada na versão da CCJ aprovada em 19/08/2009 e, na minha opinião, é o que mais fez o texto regredir. No relatório se lê:</p>
<blockquote>
  <p>Por outro lado, para dar viabilidade ao objetivo da iniciativa, desejamos acrescentar também um artigo com vistas a remeter ao Poder Executivo função de deliberar sobre as questões tratadas nos artigos aqui suprimidos. Assim, acolhemos o Substitutivo oferecido pela Comissão de Ciência e Tecnologia, com acréscimo de um dispositivo.</p>

</blockquote>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Se a Comissão de Assuntos Sociais aprovar essa lei, será um enorme retrocesso no mercado nacional de informática. Ela tem potencial para ser ainda mais destrutiva que as leis de reserva de mercado dos anos 80, que nos deixaram quase uma década atrás do Primeiro Mundo em modernização.</p>
<p>Como a própria SBC lembrou, esse mercado deve ser livre e autorregulado, o que ele já é na prática. Não existe necessidade de uma regulamentação dessas.</p>
<p>Já disse antes que podemos conversar sobre um texto mais realista. Mas esse texto específico é danoso demais para ser considerado. Ele precisaria ser reescrito do zero por profissionais experientes da área, junto com toda a nova geração de desenvolvedores.</p>
<p>Não conheço paralelo dessa lei em lugar nenhum do mundo (se alguém conhecer, comente aqui). Ela restringe a atividade partindo da <strong>premissa errada</strong> de que profissionais formados são sempre melhores que autodidatas, o que, por experiência própria, é muito falso. Alguns dos melhores com quem trabalhei nesses últimos 15 anos não tinham diploma.</p>
<p>A maioria das pessoas a favor se divide em dois grupos: as que leram a proposta e suas tramitações e as que não leram. As que não leram simplesmente não sabem do que estão falando.</p>
<p>As que leram e ainda assim concordam são justamente os maus profissionais que não competem com os autodidatas e querem usar só a força das “credenciais” como critério. Esse mercado se autorregula à medida que os maus profissionais são naturalmente empurrados para atividades de menor importância.</p>
<p>Também se confunde as carreiras de “codificador” e “desenvolvedor”. O codificador é um commodity, próximo de um datilógrafo, que apenas traduz diagramas e requisitos em código, sem qualquer atenção à qualidade. O desenvolvedor é um arquiteto nato, com controle total sobre a própria criação. Um é commodity; o outro é a “nata” da categoria, que sobe no mercado por pura meritocracia e seleção natural via networking. Com algumas exceções, eu diria que é uma implementação razoável de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Laissez-faire"target="_blank" rel="noopener">Laissez-faire</a>.</p>
<p>Nossa área sequer tem uma metodologia de trabalho consolidada. Ainda estamos transitando do Taylorismo-Fordista da Engenharia Clássica de Software, baseada em Waterfall, para o movimento Ágil pós-Toyotista de Lean, Scrum, XP e outros. As ferramentas de hoje e as de dez anos atrás são bem diferentes, e a internet mudou completamente o rumo da profissão.</p>
<p>São mudanças rápidas demais para tentar regular. Nesse tipo de cenário, o livre mercado é a melhor forma de lidar com o problema.</p>
<p>Por tudo isso, continuo veementemente contra essa proposta e espero que haja gente sensata na Comissão de Assuntos Sociais, com o bom senso de ouvir a sociedade e a nós, a categoria afetada, para arquivar esse texto de uma vez por todas.</p>
]]></content:encoded><category>leis-e-regulacao</category><category>carreira</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>off-topic</category></item></channel></rss>