<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"><channel><title>Pessoal | AkitaOnRails.com</title><link>https://akitaonrails.github.io/tags/pessoal/</link><description>Blog do Fabio Akita do Canal do YouTube 'Akitando' falando sobre tecnologia, carreira e coisas geek.</description><generator>Hugo -- gohugo.io</generator><language>pt-BR</language><lastBuildDate>Mon, 19 Oct 2026 23:20:48 +0000</lastBuildDate><atom:link href="https://akitaonrails.github.io/tags/pessoal/index.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>Off-Topic: Não tenha esperança com Política - Como se tornar imune</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/07/01/rant-nao-tenha-esperanca-com-politica-como-se-tornar-imune/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/07/01/rant-nao-tenha-esperanca-com-politica-como-se-tornar-imune/</guid><pubDate>Wed, 01 Jul 2026 11:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aviso antes que alguém finja que não entendeu:&lt;/strong&gt; isto é opinião pessoal. Não é conselho financeiro, jurídico, tributário, eleitoral, matrimonial, espiritual, nem receita de bolo. Se for mexer com empresa, patrimônio, imposto, casamento, herança, residência fiscal ou qualquer coisa que possa ferrar sua vida, fale com contador e advogado de verdade. Não comigo. Não com influencer. Não com thread de Twitter.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Eleições chegando e a internet brasileira já virou arquibancada.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<blockquote>
  <p><strong>Aviso antes que alguém finja que não entendeu:</strong> isto é opinião pessoal. Não é conselho financeiro, jurídico, tributário, eleitoral, matrimonial, espiritual, nem receita de bolo. Se for mexer com empresa, patrimônio, imposto, casamento, herança, residência fiscal ou qualquer coisa que possa ferrar sua vida, fale com contador e advogado de verdade. Não comigo. Não com influencer. Não com thread de Twitter.</p>

</blockquote>
<p>Eleições chegando e a internet brasileira já virou arquibancada.</p>
<p>De um lado, camisa vermelha. Do outro, camisa amarela. No meio, gente adulta se comportando como se eleição fosse final de campeonato. Grita, xinga, cola adesivo, compartilha recorte conveniente, chama parente de burro no WhatsApp e depois acha que está &ldquo;participando da democracia&rdquo;.</p>
<p>Grande coisa.</p>
<p>Depois de 50 anos vendo esse filme, minha recomendação é simples: pare de torcer. Trate política como risco que se administra, do mesmo jeito que você lida com chuva, trânsito e câmbio. O partido é, no máximo, um fornecedor de política pública. A eleição é um evento no calendário. Sua vida adulta precisa se sustentar sozinha, sem pendurar nada disso no papel de pai, família ou escudo.</p>
<p>Não estou dizendo pra ser alienado. Leia notícia. Entenda risco. Vote se quiser votar. Eu voto. Só não entregue sua sanidade pra isso. A sua ansiedade diária, seu textão, sua briga no grupo da família e seu voto individual não vão consertar uma estrutura que foi montada ao longo de décadas.</p>
<p>Não vão.</p>
<p>Se melhorar, ótimo. Mas planeje como se não fosse melhorar.</p>
<h2>Política virou futebol<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="política-virou-futebol"></span>
    <a href="#pol%c3%adtica-virou-futebol" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Brasileiro entende muito bem lealdade de time. Corinthians, Palmeiras, Flamengo, São Paulo. Seu time perde, contrata mal, faz dívida, cai pra segunda divisão, e você continua lá. Porque é identidade. Camisa. Tribo.</p>
<p>O problema é carregar essa cabeça pra política.</p>
<p>No futebol, tudo bem, é entretenimento. Na política, isso vira burrice organizada. A pessoa defende um escudo em vez de uma política pública. Quando aparecem números ruins, dobra a aposta em vez de rever a posição. Ignora dívida, imposto, inflação, câmbio, previdência, produtividade, educação, segurança jurídica, e só quer saber se &ldquo;o meu lado&rdquo; ganhou.</p>
<p>Isso não serve pra nada.</p>
<p>Pior: deixa você vulnerável. Porque você começa a planejar a vida em cima de esperança.</p>
<p>&ldquo;Agora vai.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Dessa vez muda.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Se tal pessoa ganhar, melhora.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Se tal pessoa perder, acaba.&rdquo;</p>
<p>Pare.</p>
<p>Planeje como adulto. Seu plano precisa funcionar com qualquer presidente, qualquer Congresso, qualquer ministro da Fazenda, qualquer maluquice nova que inventem em Brasília.</p>
<h2>A conta sempre chega<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-conta-sempre-chega"></span>
    <a href="#a-conta-sempre-chega" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O Brasil tem dívida alta, gasto público alto, imposto alto, serviço ruim e regra demais. Nenhuma eleição apaga isso por decreto.</p>
<p>Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral fechou 2025 em <strong>78,7% do PIB</strong>, perto de <strong>R$ 10 trilhões</strong>. Você pode discutir metodologia, critério FMI, título na carteira do Banco Central, o que quiser. Faça isso se gosta do assunto. O ponto prático continua: a conta é grande.</p>
<p>Quando o Estado gasta mais do que arrecada por tempo demais, a conta aparece. Aparece em imposto. Aparece em juros. Aparece em inflação. Aparece em moeda fraca. Aparece em serviço ruim. Aparece em burocracia. Aparece em investimento que não veio.</p>
<p>Populismo é sedutor porque promete benefício agora e manda a conta pra depois. Só que &ldquo;depois&rdquo; chega. Chega como IPCA. Chega como dólar mais caro. Chega como juro alto. Chega como salário que não acompanha custo de vida.</p>
<p>Uma confusão comum: dizer que inflação é &ldquo;causada por aumento de preços&rdquo;. Isso é inverter causa e consequência. O próprio <a href="https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/oqueinflacao"target="_blank" rel="noopener">Banco Central</a> define inflação como aumento de preços e perda do poder de compra. Essa é a forma como ela aparece. A raiz, quando a inflação é persistente e espalhada, envolve moeda, crédito, demanda, expectativa e situação fiscal. O <a href="https://www.clevelandfed.org/-/media/project/clevelandfedtenant/clevelandfedsite/publications/economic-commentary/1999/ec-19990801-money-growth-and-inflation-how-long-is-the-long-run-pdf.pdf"target="_blank" rel="noopener">Fed de Cleveland</a> explica a relação de longo prazo entre crescimento de moeda e nível de preços. O FMI chama um dos casos extremos de <a href="https://www.imf.org/-/media/files/publications/dp/2021/english/apdfea.pdf"target="_blank" rel="noopener">dominância fiscal</a>: quando a dívida e o déficit começam a mandar mais que a política monetária.</p>
<p>Preço de supermercado subindo é o sintoma, e a maioria confunde o sintoma com a raiz.</p>
<p>Claro que um produto pode subir por petróleo, safra ruim, guerra, câmbio, imposto, cartel, logística. Mas abuso localizado não explica perda generalizada de poder de compra por décadas. Transformar empresa em bode expiatório é conveniente pra político. Conveniente não quer dizer verdadeiro.</p>
<p>Nos últimos 20 anos, pelo SGS do Banco Central, o <a href="https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.433/dados"target="_blank" rel="noopener">IPCA acumulado de julho de 2006 a maio de 2026</a> ficou perto de <strong>197%</strong>. Preços quase triplicaram. A <a href="https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.1/dados"target="_blank" rel="noopener">PTAX venda</a> saiu de cerca de <strong>R$ 2,16 por dólar em 30/06/2006</strong> pra cerca de <strong>R$ 5,18 em 30/06/2026</strong>. O Real passou a comprar muito menos dólar.</p>
<p>Não precisa de teoria sofisticada. Basta lembrar quanto custava um mercado, um carro, um aluguel, uma escola, um plano de saúde.</p>
<h2>O Brasil não vira Suíça em quatro anos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-brasil-não-vira-suíça-em-quatro-anos"></span>
    <a href="#o-brasil-n%c3%a3o-vira-su%c3%ad%c3%a7a-em-quatro-anos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Outra fantasia: &ldquo;agora o serviço público vai melhorar&rdquo;.</p>
<p>Tomara. Sério. Eu torço pra que melhore. Mas não planejaria minha vida apostando nisso.</p>
<p>Saúde pública? Se você depende dela, espero honestamente que seja bem atendido. Mas eu não montaria meu plano familiar contando com milagre. A <a href="https://www.gov.br/ans/pt-br/acesso-a-informacao/perfil-do-setor/dados-gerais"target="_blank" rel="noopener">ANS</a> contava cerca de <strong>52,9 milhões</strong> de beneficiários em planos privados médico-hospitalares em março de 2026. O <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37235-populacao-do-pais-chega-a-203-1-milhoes-de-habitantes-aponta-censo-2022"target="_blank" rel="noopener">Censo 2022</a> mediu o Brasil em <strong>203,1 milhões</strong> de pessoas. A maioria depende direta ou indiretamente do SUS e da infraestrutura pública.</p>
<p>Quando o sistema falha, falha em cima de gente real. O G1 noticiou em junho de 2026 o caso de <a href="https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/06/22/homem-que-morreu-na-antessala-de-upa-no-df-passou-mais-de-12-horas-no-local-veja-imagens.ghtml"target="_blank" rel="noopener">Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, que morreu na antessala de uma UPA no DF</a>. Também noticiou em Sorocaba a morte de <a href="https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/06/30/camara-cobra-explicacoes-da-prefeitura-apos-morte-de-adolescente-que-esperou-18-horas-em-upa-veja-o-que-se-sabe-sobre-o-caso.ghtml"target="_blank" rel="noopener">um adolescente de 14 anos que, segundo a família, esperou 18 horas em UPA</a>. Não estou usando dois casos como estatística nacional. Estou lembrando que abstração vira corpo quando dá errado.</p>
<p>Educação pública? Se você tem filhos, seja brutalmente honesto: você quer apostar 15 anos da formação deles esperando uma revolução educacional que talvez nunca venha?</p>
<p>No <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/educacao/noticia/2023-12/pisa-less-half-brazilian-students-know-basic-math-science"target="_blank" rel="noopener">PISA 2022</a>, o Brasil fez <strong>379 em matemática</strong>, <strong>410 em leitura</strong> e <strong>403 em ciências</strong>, contra médias da OCDE de <strong>472</strong>, <strong>476</strong> e <strong>485</strong>. Isso é base fraca de verdade, bem longe de ser só uma disputa ideológica.</p>
<p>Eu sei que a maioria não consegue pagar plano privado e escola privada. Esse é justamente o problema. O país é caro, o serviço público é ruim, e a alternativa privada também é cara.</p>
<p>Negar a realidade não melhora a realidade.</p>
<h2>Eu vi o dinheiro derreter<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="eu-vi-o-dinheiro-derreter"></span>
    <a href="#eu-vi-o-dinheiro-derreter" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Eu cresci nos anos 80. Vi hiperinflação. Preço mudava no mesmo dia. Dinheiro derretia na mão. Família precisava fazer conta de sobrevivência. Depois veio Collor e o confisco.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/2026/07/01/politica-imune/turma-monica-inflacao.webp" alt="Turma da Mônica explicando inflação para crianças"  loading="lazy" /></p>
<p>Pra quem é jovem, parece história antiga. Pra mim é memória.</p>
<p>Hiperinflação tem causa conhecida e bem documentada. Normalmente começa com governo gastando mais do que pode, dívida que ninguém quer encarar e a tentação de cobrir buraco imprimindo dinheiro. Parece esperto por cinco minutos. Depois vira imposto invisível em cima de todo mundo.</p>
<p>Mas mesmo no caos tem gente ganhando dinheiro, e é gente que entende a mecânica, não que seja mais virtuosa que o resto.</p>
<p>Pensa num comércio simples. Ele recebe à vista hoje e paga fornecedor em 30 dias. Se compra <strong>Cr$ 1 milhão</strong> em mercadoria e só paga o fornecedor no mês seguinte, com inflação de <strong>30% no mês</strong>, aqueles <strong>Cr$ 1 milhão</strong> pagos depois já compram muito menos. Enquanto isso, ele vende o estoque a preço reajustado. O cliente acha que o comerciante ficou rico porque &ldquo;subiu preço&rdquo;. Às vezes ele só sobreviveu no intervalo. Às vezes ganhou muito no intervalo.</p>
<p>Agora pensa no dinheiro parado por alguns dias. Empresa recebe boletos no dia 5 e paga folha no dia 30. Se ficam <strong>Cr$ 10 milhões</strong> no caixa por 25 dias e o overnight rende perto de <strong>1% ao dia</strong>, isso vira mais ou menos <strong>Cr$ 12,8 milhões</strong> antes da folha. A folha nominal continua ali. O ganho veio do tempo. Do float.</p>
<p>Banco fazia isso em escala muito maior. Captava dinheiro pagando uma taxa, emprestava ou aplicava cobrando outra, e girava volumes enormes todos os dias. Se a diferença parecia pequena, tipo alguns pontos no mês, em cima de bilhões virava fortuna. Spread e float. Nome feio pra uma coisa simples: quem recebia antes, pagava depois e sabia estacionar o dinheiro no meio ganhava. Quem recebia salário no fim do mês e corria pro supermercado perdia.</p>
<p>E nem precisa ser banco. Um indivíduo organizado também podia jogar melhor. Se sabe que a moeda está derretendo, não deixa tudo parado em cruzeiro esperando virar pó. Compra dólar quando consegue. Compra ação de exportadora que ganha em dólar. Usa futuro ou opção pra se proteger, não pra brincar de cassino. Exemplo simples: você tem dinheiro que só vai usar em 30 dias. Se deixa parado em moeda podre, perde. Se compra proteção em dólar e o câmbio explode, você entendeu o jogo antes de todo mundo, e sorte não teve nada a ver. Claro: opção, forex e alavancagem quebram amador mais rápido que inflação. Que fique claro, isso não é convite pra brincar de trader. O ponto é mais simples: conhecimento financeiro transforma caos em oportunidade, enquanto ignorância transforma salário em pó.</p>
<p>É por isso que inflação destrói pobre e desorganizado primeiro. Quem vive de salário fixo chega atrasado na corrida. Quem entende prazo, estoque, dívida, caixa e moeda joga outro jogo.</p>
<p>Foi nesse ambiente que veio o Plano Collor. Pra tentar controlar a hiperinflação na marra, o governo fez algo brutal: tirou liquidez das pessoas à força. O <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2007/03/15/plano-collor-abertura-de-mercados-e-impeachment-marcaram-primeiro-governo-eleito-apos-o-regime-militar"target="_blank" rel="noopener">Senado resume</a>: a MP 168/1990 bloqueou por 18 meses valores acima de NCz$ 50 mil em contas, poupanças e aplicações financeiras. Na prática, famílias e empresas acordaram com o próprio dinheiro preso pelo Estado. Décadas depois, Collor voltou à política e foi <a href="https://www25.senado.leg.br/web/senadores/senador/-/perfil/4525"target="_blank" rel="noopener">senador por Alagoas</a>.</p>
<p>Essa é uma aula que brasileiro deveria tatuar na testa: não espere que &ldquo;a justiça&rdquo; venha. Não espere que quem destruiu vidas pague proporcionalmente. Não espere que o sistema reconheça seu esforço e te proteja.</p>
<p>O sistema protege o sistema.</p>
<p>Você protege você.</p>
<h2>Pare de terceirizar sua vida<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="pare-de-terceirizar-sua-vida"></span>
    <a href="#pare-de-terceirizar-sua-vida" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Seu plano não pode depender de eleição.</p>
<p>Se eu tivesse que resumir minha estratégia, seria algo assim:</p>
<ul>
<li>aprenda inglês de verdade;</li>
<li>construa uma profissão vendável fora do Brasil;</li>
<li>entenda imposto e contabilidade;</li>
<li>proteja patrimônio legalmente;</li>
<li>forme filhos sem depender do Estado, se isso for possível pra você;</li>
<li>conheça gente competente em áreas que você não domina.</li>
</ul>
<p>Nada disso é sexy. Não dá slogan. Não viraliza.</p>
<p>Funciona melhor que esperança.</p>
<h2>Inglês e dólar não são fetiche<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="inglês-e-dólar-não-são-fetiche"></span>
    <a href="#ingl%c3%aas-e-d%c3%b3lar-n%c3%a3o-s%c3%a3o-fetiche" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Inglês é oxigênio no mercado global. Muita gente ainda trata como diferencial chique, quando já virou requisito básico de sobrevivência.</p>
<p>Existe um motivo pra este ser um dos primeiros vídeos do meu canal: <a href="https://akitaonrails.com/2018/12/11/akitando-32-como-eu-aprendi-ingles-e-entendendo-padroes/"target="_blank" rel="noopener">Akitando #32 - Como eu aprendi inglês e entendendo padrões</a>.</p>
<p>Nem toda profissão brasileira é exportável. Programação é uma das que são. Mesmo com mercado remoto mais difícil, layoffs, concorrência global e IA bagunçando tudo, ainda existe caminho. Não é fácil. Nunca foi. Só parecia fácil na bolha.</p>
<p>Você começa local. Ganha experiência. Estuda mais do que os outros. Aprende a se comunicar. Melhora inglês. Aplica pra fora. Toma não. Aplica de novo. Continua.</p>
<p>Isso é trabalho de décadas, não uma virada de seis meses.</p>
<p>O objetivo é simples: aumentar sua chance de ser pago em moeda forte.</p>
<p>Por que dólar? Porque o dólar continua sendo o centro do sistema financeiro internacional, por mecânica pura, e não por eu torcer pelos EUA. Depois de Bretton Woods, e mesmo depois do fim da conversibilidade em ouro em 1971, ele continuou como principal moeda de reserva, comércio, dívida e liquidez. O <a href="https://www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt2212x.htm"target="_blank" rel="noopener">BIS</a> mostra que o dólar participa de quase <strong>90%</strong> das transações globais de câmbio e aparece em cerca de metade do comércio global faturado em moeda estrangeira.</p>
<p>Nos anos 80, o Acordo Plaza coordenou uma <strong>desvalorização do dólar</strong> frente a moedas como iene e marco alemão. Materiais do <a href="https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/files/FOMC19851105material.pdf"target="_blank" rel="noopener">FOMC de 1985</a> já registravam o dólar cerca de 14% abaixo contra o iene semanas depois. A história real mistura moeda, juros, comércio, geopolítica e dívida, bem longe da versão simplista de &ldquo;EUA imperialista&rdquo;.</p>
<p>Quando uma crise geopolítica aumenta petróleo, países importadores precisam de mais dólares pra comprar energia. A Reuters mostrou isso durante a guerra Irã-EUA: <a href="https://www.marketscreener.com/news/us-dollar-gains-as-iran-conflict-fuels-safe-haven-demand-higher-oil-ce7e5cdcdf81f324"target="_blank" rel="noopener">dólar subiu com demanda por safe haven, petróleo mais caro e risco no Estreito de Ormuz</a>. Sanções e alternativas existem, mas isso não prova o fim do dólar. Prova o contrário: todo mundo precisa contornar a rede dominante justamente porque ela é dominante.</p>
<p>Você não precisa gostar do dólar pra entender que ele manda no jogo.</p>
<p>O Real funciona mal como reserva de valor de longo prazo. Se você consegue manter parte da renda, patrimônio ou clientela em moeda forte, fica menos vulnerável. Simples assim.</p>
<h2>Imposto é parte da vida adulta<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="imposto-é-parte-da-vida-adulta"></span>
    <a href="#imposto-%c3%a9-parte-da-vida-adulta" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Brasileiro CLT acha que entende imposto porque abre o programa da Receita uma vez por ano e clica em &ldquo;próximo&rdquo;.</p>
<p>Não entende.</p>
<p>Parece simples porque a parte difícil ficou escondida. A empresa paga uma montanha antes de seu salário líquido aparecer. Depois você paga IR, contribuição, imposto embutido em produto, serviço, consumo, propriedade, cartório, ganho de capital, inventário.</p>
<p>A <a href="https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/estudos/carga-tributaria/carga-tributaria-no-brasil-2023"target="_blank" rel="noopener">Receita Federal</a> estimou a carga tributária em <strong>32,3% do PIB</strong> em 2023. O último Doing Business comparável do Banco Mundial colocava uma empresa-padrão no Brasil gastando <strong>1.501 horas por ano</strong> só com obrigações tributárias. O relatório foi descontinuado, então não use como ranking atual. Use como fotografia do tamanho do monstro.</p>
<p>E a maioria não sabe a diferença entre renda, patrimônio, ganho de capital, pró-labore, dividendo, offshore declarada, evasão, elisão, residência fiscal, holding, inventário, ITCMD, IRPF, IRPJ, ISS, ICMS, PIS, Cofins.</p>
<p>Mistura tudo.</p>
<p>Offshore não é automaticamente sonegação. Pode ser ilegal se for usada pra esconder patrimônio, omitir renda, fraudar credor ou lavar dinheiro. Mas uma estrutura internacional declarada, com beneficiário final identificado, contabilidade correta e imposto pago conforme a lei aplicável, não é crime por definição. Você pode achar feio. Pode achar injusto. Só não chame tudo pelo nome errado.</p>
<p>Na prática, o que importa é cumprir a lei real, não repetir meme de internet.</p>
<p>Você compra imóvel. Anos depois vende por mais reais nominais. Parece lucro. Às vezes é só inflação. Mesmo assim, se houver ganho de capital tributável pela regra fiscal, o governo cobra sobre a diferença nominal conforme as regras aplicáveis.</p>
<p>Exemplo simplificado: comprou uma casa por <strong>R$ 500 mil</strong> em 2006. Vendeu em 2026 por <strong>R$ 1,2 milhão</strong>. Parece ganho de <strong>R$ 700 mil</strong>. Com IPCA acumulado perto de <strong>197%</strong>, essa casa precisaria valer perto de <strong>R$ 1,485 milhão</strong> só pra preservar poder de compra. Antes de imposto, você já perdeu em termos reais.</p>
<p>No papel, &ldquo;lucro&rdquo;. Na vida real, perda.</p>
<p>Você morre. Seus herdeiros descobrem inventário, cartório, advogado, ITCMD, prazo, conflito familiar e custo.</p>
<p>Não estou dizendo que toda família precisa de holding. Estou dizendo que você precisa saber fazer a conta antes, não depois que alguém morreu.</p>
<h2>Patrimônio precisa de estrutura<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="patrimônio-precisa-de-estrutura"></span>
    <a href="#patrim%c3%b4nio-precisa-de-estrutura" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Aqui muita gente entende errado de propósito.</p>
<p>Fique claro que não estou falando pra esconder patrimônio, sonegar, fraudar credor, nem transferir bem depois de ser processado pra tentar escapar de execução. Isso é ilegal, anulável e idiota.</p>
<p>Estou dizendo pra estudar planejamento patrimonial antes de comprar coisa grande no impulso.</p>
<p>Pode fazer sentido usar holding, empresa patrimonial, estrutura societária, testamento, seguro, previdência privada, conta internacional, offshore declarada. Depende do caso.</p>
<p>&ldquo;Depende do caso&rdquo; é a frase mais importante. Não copie estrutura de influencer. Não abra empresa em Bahamas porque viu num vídeo. Consulte profissional.</p>
<p>Holding boa não é mágica tributária. Pode ter ITBI, ganho de capital, custo anual, contabilidade, obrigação acessória, regra antiabuso, risco de desconsideração se você fizer bagunça. Ela não deixa bem imune a credor, execução, partilha ou fraude contra credores.</p>
<p>Ela só troca improviso por governança.</p>
<p>O princípio é simples: tudo que está diretamente no seu CPF fica exposto ao seu CPF. Processo, divórcio, inventário, disputa familiar, erro tributário, confusão societária, dívida, acidente. Uma estrutura legítima organiza risco, sucessão, administração e imposto dentro da lei.</p>
<p>O importante é não improvisar patrimônio quando já é tarde demais.</p>
<h2>Casamento, filhos e contratos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="casamento-filhos-e-contratos"></span>
    <a href="#casamento-filhos-e-contratos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Casamento é amor, claro. Perante o Estado também é contrato.</p>
<p>E contrato ruim destrói patrimônio, família e paz.</p>
<p>No Brasil existem regimes de bens. Comunhão parcial, comunhão universal, separação convencional, separação obrigatória em alguns casos, participação final nos aquestos. Muita gente casa sem entender nada disso.</p>
<p>Eu considero separação total de bens a forma mais respeitosa de casar.</p>
<p>Separar bens é o oposto de amar menos: é confiar o suficiente pra não precisar prender o outro no bolso pra provar sentimento. Cada um mantém clareza sobre o que é seu, o que é do outro, o que é construído junto por decisão explícita.</p>
<p>Isso continua permitindo generosidade, comprar coisas juntos e construir uma vida em comum. Só evita fingir que afeto substitui contabilidade.</p>
<p>E filhos?</p>
<p>Se puder escolher, tenha filhos quando conseguir pagar saúde e educação privadas.</p>
<p>Eu sei que essa frase irrita. Melhor se irritar agora do que descobrir tarde demais que o Estado não vai entregar o que você imaginou.</p>
<p>Filho é gente inteira que depende de você, não acessório de adulto nem projeto de Instagram pra resolver no &ldquo;depois a gente vê&rdquo;.</p>
<p>Se você quer filhos, planeje. Plano de saúde, escola, moradia, reserva, idioma, segurança, tempo, família por perto. Se ainda não dá, trabalhe pra dar.</p>
<h2>Opcionalidade<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="opcionalidade"></span>
    <a href="#opcionalidade" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Não deixe sua vida pendurada num único ponto de falha.</p>
<p>Uma moeda só. Um banco só. Um empregador só. Um país só. Um documento vencido. Uma plataforma que pode te banir. Uma corretora que pode travar. Uma fonte de renda que pode desaparecer.</p>
<p>Isso é fragilidade disfarçada de simplicidade.</p>
<p>Ter passaporte válido, visto quando fizer sentido, conta internacional declarada, reserva em moeda forte, currículo vendável fora, rede de contatos fora da sua bolha e capacidade de trabalhar remoto não significa que você vai embora amanhã. Significa que você pode escolher.</p>
<p>Governo nenhum precisa te perseguir pra destruir sua vida. Às vezes basta mudar regra, travar conta, aumentar imposto, atrasar documento ou corroer moeda devagar.</p>
<p>Quem só tem uma opção obedece.</p>
<p>Quem tem várias opções negocia.</p>
<p>Todo programador entende backup. Faça backup da própria vida.</p>
<h2>Então por que não ir embora?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="então-por-que-não-ir-embora"></span>
    <a href="#ent%c3%a3o-por-que-n%c3%a3o-ir-embora" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Vá, se quiser e puder. Não há nada errado em emigrar.</p>
<p>Mas não trate isso como obrigação moral. Muita gente tem pais, irmãos, filhos, amigos, raízes. Nem todo mundo quer criar filho longe dos avós. Nem todo mundo quer transplantar uma vida inteira.</p>
<p>E existe uma vantagem prática: se você tem renda externa formalizada, declarada e tributada corretamente, e gasta em Real, o Brasil pode ser barato.</p>
<p>Serviço é mais barato. Aluguel pode ser mais barato. Comida pode ser mais barata. Diarista, encanador, dentista, restaurante, escola boa fora dos eixos mais caros: muita coisa fica acessível se sua renda vem de fora.</p>
<p>Eletrônico e hardware são caros por imposto e importação. Isso você resolve comprando fora quando fizer sentido, dentro das cotas, declarando e pagando o que for devido.</p>
<p>Qualidade de vida no Brasil pode ser muito boa se você tiver meios.</p>
<p>Esse é o ponto: não dependa da política pra ter meios.</p>
<h2>Gente competente vale ouro<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="gente-competente-vale-ouro"></span>
    <a href="#gente-competente-vale-ouro" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Durante sua carreira, não seja o nerd que só entrega tarefa e vai embora.</p>
<p>Empresa média ou grande tem financeiro, contabilidade, jurídico, vendas, operações, RH, diretoria. Faça amigos fora da sua bolha.</p>
<p>No Brasil, é muito útil conhecer pelo menos um bom contador e um bom advogado. Não pra pedir favor errado. Pra aprender a fazer certo.</p>
<p>O ambiente é hostil. Aqui e fora daqui. Sobrevive melhor quem acumula conhecimento, ferramentas e relações confiáveis.</p>
<p>Isso é survival of the fittest no sentido real: sobrevive o mais adaptado, aquele que se ajusta ao ambiente, e não o mais forte fisicamente.</p>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Eleição não é plano de vida.</p>
<p>Você pode acompanhar política se quiser. Acompanhe como risco ambiental, não como religião. Chuva, seca, terremoto, inflação, câmbio, imposto, regra nova. Você não controla o céu. Controla se constrói telhado.</p>
<p>Pare de esperar uma mudança brilhante no futuro próximo.</p>
<p>Planeje como se nada fosse mudar por muito tempo.</p>
<p>Aprenda inglês. Ganhe em dólar se puder. Entenda imposto. Estruture patrimônio legalmente. Proteja sua família. Faça amigos competentes. Use o Brasil a seu favor, sem acreditar no Brasil como promessa.</p>
<p>Quando você faz isso, eleição vira barulho de fundo.</p>
<p>E barulho de fundo não manda na sua vida.</p>
]]></content:encoded><category>politica</category><category>pessoal</category></item><item><title>20 Anos de Blog: Traduzindo Tudo pra Inglês</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/04/09/20-anos-de-blog-o-ano-em-que-a-ia-finalmente-me-deixou-traduzir-tudo/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/04/09/20-anos-de-blog-o-ano-em-que-a-ia-finalmente-me-deixou-traduzir-tudo/</guid><pubDate>Thu, 09 Apr 2026 08:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260409_20years_blog_celebration.png" alt="20 ANOS em letras grandes brilhantes em estilo neon-tech, com taças de champanhe, sparklers, confete e silhuetas de monitor CRT e código no fundo, paleta roxa com acentos ciano e magenta" loading="lazy" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quatro dias atrás, 5 de abril de 2026, meu blog completou 20 anos. Eu sei, eu atrasei o post comemorativo. Mas tem um motivo, e esse motivo é o assunto desse texto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu comecei em 2006 no Blogspot do Google, como a maioria fazia na época. Depois migrei pra um CMS em Rails 2.0 que já existia, passei pelo Typo3, e lá em 2012 &lt;a href="https://akitaonrails.github.io/2025/09/10/meu-novo-blog-como-eu-fiz/"&gt;fiz minha própria engine do zero em ActiveAdmin&lt;/a&gt;, que fui arrastando de Rails 3 até Rails 7. Só recentemente, em setembro de 2025, finalmente larguei essa engine própria e fui pro &lt;a href="https://akitaonrails.github.io/2025/09/10/meu-novo-blog-como-eu-fiz/"&gt;Hugo com o tema Hextra&lt;/a&gt;, que é onde esse post está rodando agora. Vinte anos carregando os mesmos posts de Textile, migrando de Less pra Sass, trocando Liquid por Markdown, e removendo lixo obsoleto ao longo do caminho.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260409_20years_blog_celebration.png" alt="20 ANOS em letras grandes brilhantes em estilo neon-tech, com taças de champanhe, sparklers, confete e silhuetas de monitor CRT e código no fundo, paleta roxa com acentos ciano e magenta"  loading="lazy" /></p>
<p>Quatro dias atrás, 5 de abril de 2026, meu blog completou 20 anos. Eu sei, eu atrasei o post comemorativo. Mas tem um motivo, e esse motivo é o assunto desse texto.</p>
<p>Eu comecei em 2006 no Blogspot do Google, como a maioria fazia na época. Depois migrei pra um CMS em Rails 2.0 que já existia, passei pelo Typo3, e lá em 2012 <a href="/2025/09/10/meu-novo-blog-como-eu-fiz/">fiz minha própria engine do zero em ActiveAdmin</a>, que fui arrastando de Rails 3 até Rails 7. Só recentemente, em setembro de 2025, finalmente larguei essa engine própria e fui pro <a href="/2025/09/10/meu-novo-blog-como-eu-fiz/">Hugo com o tema Hextra</a>, que é onde esse post está rodando agora. Vinte anos carregando os mesmos posts de Textile, migrando de Less pra Sass, trocando Liquid por Markdown, e removendo lixo obsoleto ao longo do caminho.</p>
<h2>Duas décadas, cinco eras<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="duas-décadas-cinco-eras"></span>
    <a href="#duas-d%c3%a9cadas-cinco-eras" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Uma coisa que poucos programadores param pra refletir é o quanto o mundo de tecnologia muda em 20 anos. Eu já falei sobre isso no <a href="/2019/01/30/akitando-37-a-dimensao-do-tempo-para-iniciantes-em-programacao-serie-comecando-aos-40/">Akitando #37 - A Dimensão do Tempo</a>. Quando eu abri esse blog em abril de 2006, eu já tinha 10 anos de experiência. Já tinha visto a bolha da internet subir e explodir em 2000. E desde então ainda vi mais umas quantas: a ascensão das redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter), a revolução do smartphone e do app móvel em 2008, a crise econômica de 2008, o nascimento do Bitcoin em 2009, a era da nuvem e do SaaS, agora a era da IA generativa.</p>
<p>Eu vi essas ondas estourarem na prática. Cada uma delas mudou completamente como a gente trabalha e quem sobrevive profissionalmente. Esse tipo de coisa a gente só enxerga olhando de longe, depois de acumular umas quantas viradas.</p>
<p>Minha carreira em si passou por viradas drásticas. Contei em detalhe nos <a href="/2019/09/12/akitando-61-meus-primeiros-5-anos-1990-1995/">Primeiros 5 Anos (1990-1995)</a>, mas resumindo: comecei em agências de multimídia, migrei pra <a href="/2018/12/26/akitando-34-voce-nao-sabe-nada-de-enterprise-conhecendo-a-sap/">consultoria enterprise trabalhando com SAP</a>, abandonei tudo em 2006 pra entrar em Ruby on Rails e open source, passei uma década organizando evento, principalmente a Rubyconf Brasil de 2007 até 2018, depois fechei a porta do evento e comecei o canal <a href="https://www.youtube.com/@Akitando"target="_blank" rel="noopener">Akitando no YouTube</a>, que cresceu pra mais de 500 mil inscritos. No meio disso teve a pandemia que reorganizou a vida de todo mundo. E agora, desde o começo de 2025, virei pesquisador e usuário em tempo integral de IA, rodando modelos localmente e quebrando coisas com Claude Code até elas funcionarem.</p>
<p>Olhando pra tag <a href="/tags/inteligencia-artificial/">/tags/ai</a>, eu escrevi 51 posts relacionados a IA só entre 2025 e 2026 — 19 em 2025 e mais 32 em 2026, que mal começou. Antes de 2025, entre 2018 e 2024, o blog basicamente virou o arquivo dos transcripts dos vídeos do Akitando. Eu filmava o vídeo, fazia o transcript, jogava no blog, e as pessoas liam lá. Mas desde que eu voltei a escrever ativamente, notei que tinha uma audiência leal que nunca foi embora, mesmo nos anos quietos. E foi esse feedback que me fez começar <a href="/tags/the-m-akita-chronicles/">The M.Akita Chronicles</a>, uma série mais pessoal contando os bastidores de projetos recentes.</p>
<h2>O problema que eu nunca resolvi<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-problema-que-eu-nunca-resolvi"></span>
    <a href="#o-problema-que-eu-nunca-resolvi" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Durante esses 20 anos, uma coisa me incomodava. Como o conteúdo é todo em português, fica inacessível pra todo mundo que não lê a língua. E faz uns bons anos que eu venho recebendo mensagens de leitores brasileiros morando fora (Portugal, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Canadá) pedindo alguma versão em inglês pra compartilhar com colegas gringos. Coisa tipo &ldquo;olha, eu mostraria esse texto pro meu time, mas só tá em português.&rdquo;</p>
<p>Eu sempre disse &ldquo;um dia eu traduzo.&rdquo; E nunca traduzi. Por quê? Porque são centenas de posts. Passei os últimos dois dias olhando os números: 727 arquivos <code>index.md</code> em português no repositório. Traduzir tudo à mão, um por um, ia tomar semanas se não meses de trabalho dedicado. Eu nunca ia ter fôlego pra isso. E a cada ano que passava, mais posts se acumulavam pra traduzir.</p>
<p>A ironia é que alguns posts do blog nasceram em inglês. Durante 2017 e 2018 eu tinha decidido escrever primeiro em inglês pra tentar alcançar audiência internacional. Uma série inteira de entrevistas, as &ldquo;<a href="/2008/01/09/conversando-com-hal-fulton/">chatting-with</a>&rdquo; com gente tipo Hal Fulton, Scott Hanselman, Chris Wanstrath (do GitHub), Blaine Cook (ex-Twitter), Adam Jacob (Chef), nasceram em inglês e ficaram lá. Faltava o inverso: pegar os posts em português e traduzir pro outro lado.</p>
<h2>O fim de semana que consertou 20 anos de dívida técnica<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-fim-de-semana-que-consertou-20-anos-de-dívida-técnica"></span>
    <a href="#o-fim-de-semana-que-consertou-20-anos-de-d%c3%advida-t%c3%a9cnica" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Na segunda passada eu abri o Claude Code dentro do diretório do blog. E pedi pra ele traduzir tudo pra inglês. Foi literalmente isso.</p>
<p>Começou na segunda-feira, dia 6 de abril, por volta das 18:30h. Eu deixei rodar. Fui dormir. Acordei terça, continuei rodando. Dormi de novo. Quarta de manhã cedo ele terminou. Contando o tempo total do primeiro commit de tradução até o último, foi algo como 39 horas. Mas não foi contínuo, teve noites, almoços, uma roda de café. Na prática, um fim de semana estendido de trabalho.</p>
<p>O resultado tá no repositório git, em commits que qualquer um pode inspecionar no <a href="https://github.com/akitaonrails/akitaonrails.github.io"target="_blank" rel="noopener">repositório público do blog</a>. Olhando rapidamente o log, dá pra ver a cadência: lote de posts de 2008 QCon. Lote de 2009 RailsConf. Lote de 2011 Objective-C. 2012 completo. 2015 série Elixir. 2016, 2017, 2018 completos. Lote depois de lote, organizados por ano e por série. Mais de 80 commits marcados como <code>i18n:</code> ou <code>EN translation:</code> entre o começo da noite do dia 6 e a manhã do dia 8. No final desse post, abri 354 arquivos <code>index.en.md</code> contra os 727 <code>index.md</code> originais. Quase metade do blog inteiro traduzido de um só golpe.</p>
<p>E olha, noventa por cento foi tranquilo. A tradução ficou boa, natural, fiel à minha voz no original — eu não imaginava que ia funcionar tão bem. Claude Code respeita o tom do texto se você der instruções boas de voz e estilo, e mostra respeito por ideias técnicas sem &ldquo;corrigir&rdquo; nada do que você escreveu. No pior caso, revisa alguns parágrafos. No melhor caso, a versão em inglês soa como se você tivesse escrito direto na outra língua.</p>
<p>Um parênteses sobre o custo do lado Claude. Eu sou assinante do plano Max 20x da Anthropic, que é o tier de uso pesado feito pra quem abusa do Claude Code o dia inteiro. Nunca tinha batido no teto dele antes, nem nas minhas sessões mais intensas de vibe coding. Esse fim de semana de tradução foi a primeira vez que eu realmente estourei o limite do Max 20x e continuei usando já no modo de &ldquo;uso extra&rdquo; (a Anthropic cobra por consumo acima do teto do plano mensal).</p>
<p>Pra ter uma ideia do estrago, esse é o painel da minha conta agora de manhã:</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260409_claude_usage_max20x.png" alt="Plano Max 20x com 91% da quota semanal ‘all models’ consumida e R$280,88 já gastos em uso extra"  loading="lazy" /></p>
<p><strong>91% da quota semanal &ldquo;all models&rdquo; consumida</strong>, já pra dentro do modo de uso extra, R$280,88 (uns $50 USD) gastos em cima da mensalidade fixa, e ainda falta um bom pedaço do ciclo. Faz sentido: ler o post inteiro, gerar a tradução, aplicar o humanizer em cima, repetir centenas de vezes seguidas. A quantidade de tokens envolvida é massiva. E hoje, enquanto eu escrevo esse texto, o Claude Code tá me dando com frequência crescente o erro <code>API Error: Request rejected (429) · Rate limited</code>, o que também faz sentido: deve ser um combo de quota do meu plano e do Anthropic aplicando backpressure geral, porque eu não devo ser o único fazendo loucura esses dias. Ok, normal. É o preço de ter usado a ferramenta pesado quando fazia diferença.</p>
<p>Os outros dez por cento foram uma história separada.</p>
<h2>Quando os LLMs comerciais dizem &ldquo;não&rdquo;<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="quando-os-llms-comerciais-dizem-não"></span>
    <a href="#quando-os-llms-comerciais-dizem-n%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Meia dúzia de posts antigos se recusaram a ser traduzidos. Tanto Claude quanto GPT, pela API, caíam num erro 400 com mensagem de política de conteúdo. Tentei várias vezes, em sessões frescas, com contexto limpo. Nada.</p>
<p>A hipótese é simples: esses posts tocavam em tópicos sensíveis pra content moderation automatizado. Um post de 2009 sobre o discurso do Steve Jobs em Stanford de 2005 (que menciona câncer, já que o Jobs estava falando do diagnóstico terminal que ele tinha recebido). Dois capítulos antigos da Ayn Rand, traduzidos por mim anos atrás, sobre direitos do homem e argumentação. Um post anti-nazista que ironicamente foi bloqueado provavelmente só porque a palavra &ldquo;nazi&rdquo; aparecia lá, mesmo com o contexto sendo crítico. Um post sobre o discurso do dinheiro do Atlas Shrugged. E um ensaio sobre democracia e ética que travava sistematicamente todas as tentativas.</p>
<p>A ironia dessa parte é que o único jeito de conseguir traduzir esses posts foi usando um modelo open source. Carreguei o <a href="https://qwen.ai"target="_blank" rel="noopener">Qwen 3.5 35B</a> no llama-swap, rodando localmente, sem filtros de política corporativa. O modelo leu, entendeu o contexto, e traduziu tudo sem drama. É o mesmo modelo que eu tinha <a href="/2026/04/05/testando-llms-open-source-e-comerciais-quem-consegue-bater-o-claude-opus/">testado extensivamente no meu último benchmark de LLMs</a>, e que eu avalio como um dos melhores open source disponíveis hoje.</p>
<p>Ou seja: um modelo chinês conseguiu traduzir posts que modelos ocidentais recusaram. Eu não consigo deixar de achar isso levemente hilário. Ah, claro, e não posso falar mal da China (sarcasmo). LLMs comerciais vão sempre ter o problema de política corporativa e censura preventiva aplicada com régua meio grossa. É um trade-off real pra quem quer usar eles em produção: você ganha fluência e capacidade de raciocínio, perde controle quando o tópico resvala no que a empresa decidiu que é sensível.</p>
<h2>O caso inverso: 2017-2018 traduzido pro português<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-caso-inverso-2017-2018-traduzido-pro-português"></span>
    <a href="#o-caso-inverso-2017-2018-traduzido-pro-portugu%c3%aas" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Enquanto eu estava ajustando o Claude Code pra gerar o conteúdo em inglês, aproveitei pra resolver o problema simétrico. Os posts que eu tinha escrito originalmente em inglês durante 2017 e 2018, mais a série inteira de entrevistas &ldquo;chatting-with&rdquo; de 2008, estavam parados lá sem versão em português. Claude Code rodou o reverso: leu o inglês, gerou o português. Então se você não leu os originais em inglês (porque a maioria do meu público é brasileiro mesmo), agora você tem acesso também. Dá uma olhada na <a href="/off-topic/">seção Off-Topic</a> pra ver o que apareceu de novidade.</p>
<p>Junto disso, o Claude Code também atualizou o script <code>generate_index.rb</code> pra entender a estrutura bilíngue do blog e gerar dois índices separados, um em português e outro em inglês. O seletor PT/EN no rodapé de cada post aparece automaticamente quando existe o arquivo <code>index.en.md</code> irmão. Tudo bem integrado ao Hugo, seguindo o padrão nativo de multilíngue dele.</p>
<h2>O ponto mais amplo<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-ponto-mais-amplo"></span>
    <a href="#o-ponto-mais-amplo" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Aqui tá o recado que eu queria deixar nesse post de aniversário. Tradução em escala, centenas de artigos, conteúdo seu, na sua voz, respeitando o tom do original, era um problema caro e chato. Agora é um problema de fim de semana. Isso já tá no ar, você tá lendo o resultado. A barreira que existia pra alcançar audiência fora do Brasil virou algo barato o suficiente pra eu não ter mais desculpa.</p>
<p>Então, vamos lá, recapitulando o aniversário. 20 anos. 727 posts em português, construídos ao longo de cinco eras diferentes de tecnologia. 354 novos posts em inglês gerados num fim de semana. Metade do blog agora é bilíngue. E o resto vai indo. Os que faltam são principalmente posts antigos de ActiveAdmin, Rails 2 e dicas obsoletas que já faz sentido deletar ou não traduzir de propósito.</p>
<p>Se você tem amigo gringo que já cansou de ver você postando link em português e precisa de uma desculpa pra mandar alguma coisa minha, manda. Os posts principais sobre IA, os <a href="/tags/the-m-akita-chronicles/">Chronicles</a>, benchmarks, rants e boa parte do arquivo histórico já tão disponíveis em inglês no mesmo domínio, é só trocar o toggle no rodapé. Obrigado a todo mundo que acompanhou esse blog por esses vinte anos. Tem leitores aqui que me conhecem desde o Blogspot. Vocês sabem quem são.</p>
<p>Vamos pra mais um ano.</p>
]]></content:encoded><category>blog</category><category>pessoal</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Akitando #141] Conversando sobre TDAH, Autismo, Ansiedade e Depressão | Tirando a Camisa de Força</title><link>https://akitaonrails.github.io/2023/04/25/akitando-141-conversando-sobre-tdah-autismo-ansiedade-e-depressao-tirando-a-camisa-de-forca/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2023/04/25/akitando-141-conversando-sobre-tdah-autismo-ansiedade-e-depressao-tirando-a-camisa-de-forca/</guid><pubDate>Tue, 25 Apr 2023 09:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
&lt;iframe
src="https://www.youtube.com/embed/yjhn2fjByNU"
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&lt;/iframe&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Assunto delicado mas importante. Muitos não sabem que podem ter transtornos neurológicos como TDAH, Autismo, que podem ser a razão de crises de ansiedade, depressão. E isso pode estar afetando seu aprendizado, sua carreira e seus relacionamentos. Vamos entender o que de fato são esses transtornos, como eles se manifestam, como funcionam e o que você poderia fazer.&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;Capítulos&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="capítulos"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#cap%c3%adtulos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;00:00:00 - Intro&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:00:33 - CAP 00 - Por quê? Objetivos&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:02:11 - CAP 01 - Definições - Introdução&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:04:07 - CAP 02 - Depressão - Você pensa assim?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:06:33 - CAP 03 - TDAH - Introdução a Deficit de Atenção&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:10:34 - CAP 04 - Espectros - Transtornos não são binários&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:12:31 - CAP 05 - Cérebro - Fisiologia do Transtorno&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:17:27 - CAP 06 - Efeitos do TDAH - O que o transtorno faz?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:22:44 - CAP 07 - Motivação - Você Procrastina?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:27:29 - CAP 08 - Ansiedade - Como Lidar?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:30:03 - CAP 09 - Sensitividade à Rejeição - Caminho pra Depressão&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:33:33 - CAP 10 - Por que temos esses Transtornos? Teoria Evolucionária&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:38:47 - CAP 11 - Genética + Ambiente - O que fazer?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:43:14 - CAP 12 - Qualidades de TDAH? Boas Notícias&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:46:24 - CAP 13 - Meu Espectro Autista - Como é pro Akita?&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;00:53:03 - CAP 14 - Conclusão - Próximos Passos&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;01:00:07 - Bloopers&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h2&gt;Links&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;Paper: Amygdala Abnormalities in Adults With ADHD (&lt;a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26964869/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26964869/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: The heritability of clinically diagnosed Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder across the life span (&lt;a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4071160/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4071160/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: Genomic analysis of the natural history of attention-deficit/hyperactivity disorder using Neanderthal and ancient Homo sapiens samples (&lt;a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7248073/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7248073/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: The Emerging Neurobiology of Attention Deficit Hyperactivity Disorder: The Key Role of the Prefrontal Association Cortex (&lt;a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2894421/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2894421/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: Associations of Irritability With Functional Connectivity of Amygdala and Nucleus Accumbens in Adolescents and Young Adults With ADHD (&lt;a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34724835/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34724835/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: Anxiety modulates the relation between attention-deficit/hyperactivity disorder severity and working memory-related brain activity (&lt;a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5581282/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5581282/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: Evaluating Dopamine Reward Pathway in ADHD (&lt;a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2958516/"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2958516/&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Paper: Hunter in a Farmer&amp;rsquo;s World (&lt;a href="https://www.longdom.org/open-access-pdfs/hunters-in-a-farmers-world-adhd-and-hunter-gatherers-2332-0915-1000150.pdf"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.longdom.org/open-access-pdfs/hunters-in-a-farmers-world-adhd-and-hunter-gatherers-2332-0915-1000150.pdf&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Livro: ADHD: A Hunter in a Farmer&amp;rsquo;s World (&lt;a href="https://www.amazon.com.br/ADHD-Hunter-Farmers-Thom-Hartmann/dp/162055898X"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.amazon.com.br/ADHD-Hunter-Farmers-Thom-Hartmann/dp/162055898X&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Livro: Adult ADHD: How to Succeed as a Hunter in a Farmer&amp;rsquo;s World (&lt;a href="https://www.amazon.com.br/Adult-ADHD-Succeed-Hunter-Farmers/dp/1620555751"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.amazon.com.br/Adult-ADHD-Succeed-Hunter-Farmers/dp/1620555751&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Dr. Tracey Marks (&lt;a href="https://www.youtube.com/@DrTraceyMarks"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.youtube.com/@DrTraceyMarks&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;HealthyGamerGG Channel (&lt;a href="https://www.youtube.com/@HealthyGamerGG"target="_blank" rel="noopener"&gt;https://www.youtube.com/@HealthyGamerGG&lt;/a&gt;)&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h2&gt;SCRIPT&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;p&gt;Olá pessoal, Fabio Akita&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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  <iframe
    src="https://www.youtube.com/embed/yjhn2fjByNU"
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<p>Assunto delicado mas importante. Muitos não sabem que podem ter transtornos neurológicos como TDAH, Autismo, que podem ser a razão de crises de ansiedade, depressão. E isso pode estar afetando seu aprendizado, sua carreira e seus relacionamentos. Vamos entender o que de fato são esses transtornos, como eles se manifestam, como funcionam e o que você poderia fazer.</p>
<h2>Capítulos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="capítulos"></span>
    <a href="#cap%c3%adtulos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>00:00:00 - Intro</li>
<li>00:00:33 - CAP 00 - Por quê? Objetivos</li>
<li>00:02:11 - CAP 01 - Definições - Introdução</li>
<li>00:04:07 - CAP 02 - Depressão - Você pensa assim?</li>
<li>00:06:33 - CAP 03 - TDAH - Introdução a Deficit de Atenção</li>
<li>00:10:34 - CAP 04 - Espectros - Transtornos não são binários</li>
<li>00:12:31 - CAP 05 - Cérebro - Fisiologia do Transtorno</li>
<li>00:17:27 - CAP 06 - Efeitos do TDAH - O que o transtorno faz?</li>
<li>00:22:44 - CAP 07 - Motivação - Você Procrastina?</li>
<li>00:27:29 - CAP 08 - Ansiedade - Como Lidar?</li>
<li>00:30:03 - CAP 09 - Sensitividade à Rejeição - Caminho pra Depressão</li>
<li>00:33:33 - CAP 10 - Por que temos esses Transtornos? Teoria Evolucionária</li>
<li>00:38:47 - CAP 11 - Genética + Ambiente - O que fazer?</li>
<li>00:43:14 - CAP 12 - Qualidades de TDAH? Boas Notícias</li>
<li>00:46:24 - CAP 13 - Meu Espectro Autista - Como é pro Akita?</li>
<li>00:53:03 - CAP 14 - Conclusão - Próximos Passos</li>
<li>01:00:07 - Bloopers</li>
</ul>
<h2>Links<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"></span>
    <a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>Paper: Amygdala Abnormalities in Adults With ADHD (<a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26964869/"target="_blank" rel="noopener">https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26964869/</a>)</li>
<li>Paper: The heritability of clinically diagnosed Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder across the life span (<a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4071160/"target="_blank" rel="noopener">https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4071160/</a>)</li>
<li>Paper: Genomic analysis of the natural history of attention-deficit/hyperactivity disorder using Neanderthal and ancient Homo sapiens samples (<a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7248073/"target="_blank" rel="noopener">https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7248073/</a>)</li>
<li>Paper: The Emerging Neurobiology of Attention Deficit Hyperactivity Disorder: The Key Role of the Prefrontal Association Cortex (<a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2894421/"target="_blank" rel="noopener">https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2894421/</a>)</li>
<li>Paper: Associations of Irritability With Functional Connectivity of Amygdala and Nucleus Accumbens in Adolescents and Young Adults With ADHD (<a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34724835/"target="_blank" rel="noopener">https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34724835/</a>)</li>
<li>Paper: Anxiety modulates the relation between attention-deficit/hyperactivity disorder severity and working memory-related brain activity (<a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5581282/"target="_blank" rel="noopener">https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5581282/</a>)</li>
<li>Paper: Evaluating Dopamine Reward Pathway in ADHD (<a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2958516/"target="_blank" rel="noopener">https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2958516/</a>)</li>
<li>Paper: Hunter in a Farmer&rsquo;s World (<a href="https://www.longdom.org/open-access-pdfs/hunters-in-a-farmers-world-adhd-and-hunter-gatherers-2332-0915-1000150.pdf"target="_blank" rel="noopener">https://www.longdom.org/open-access-pdfs/hunters-in-a-farmers-world-adhd-and-hunter-gatherers-2332-0915-1000150.pdf</a>)</li>
<li>Livro: ADHD: A Hunter in a Farmer&rsquo;s World (<a href="https://www.amazon.com.br/ADHD-Hunter-Farmers-Thom-Hartmann/dp/162055898X"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com.br/ADHD-Hunter-Farmers-Thom-Hartmann/dp/162055898X</a>)</li>
<li>Livro: Adult ADHD: How to Succeed as a Hunter in a Farmer&rsquo;s World  (<a href="https://www.amazon.com.br/Adult-ADHD-Succeed-Hunter-Farmers/dp/1620555751"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com.br/Adult-ADHD-Succeed-Hunter-Farmers/dp/1620555751</a>)</li>
<li>Dr. Tracey Marks (<a href="https://www.youtube.com/@DrTraceyMarks"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/@DrTraceyMarks</a>)</li>
<li>HealthyGamerGG Channel (<a href="https://www.youtube.com/@HealthyGamerGG"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/@HealthyGamerGG</a>)</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Imagino que o thumbnail deixou vocês preocupados de alguma forma, e tenho certeza que alguns vieram aqui pra saber que merda que o Akita vai cagar regra. Então deixa eu já começar com um enorme disclaimer: este video, de maneira nenhuma, deve servir de base pra diagnóstico de ninguém. Então qual o objetivo?</p>
<p>Quero falar um pouco sobre desordens psicológicas, que é um assunto muito importante, que afeta seu aprendizado, sua carreira, relacionamentos e sua vida em geral. Este video provavelmente vai ser o único onde vou falar sobre esse assunto, então vai ser denso como de costume.</p>
<p>&ldquo;Porra Akita, você não é psicólogo nem nada, vai cagar regra até nisso?&rdquo; Tem toda razão de pensar assim! Não é um assunto pra ser discutido sem cuidados. Nada do que vou dizer hoje é recomendação, muito menos substitui consultar um especialista licenciado. Nem este video, nem nenhum que você encontrar online, especialmente nos TikToks da vida, representa qualquer tipo de solução, só informação.</p>
<p>Lifehacks são divertidos de compartilhar, mas a intenção de hoje não é isso também. É aumentar awareness ao problema. Embora eu não goste da palavra em português, é contribuir na &ldquo;conscientização&rdquo;. Tentar ajudar a tirar o estigma e alguns mitos. Tudo isso tem base científica e tem toneladas de pesquisa pra entender.</p>
<p>Minha experiência e interesse existem porque ao longo de anos, sempre acabei me relacionando com pessoas neurodivergentes. E eu não gosto de não entender o que está acontecendo. Mais do que isso, eu mesmo sou neurodivergente. Sim, eu fui diagnosticado com T.E.A. transtorno do espectro autista, nível 1, por psicólogo, um ano atrás. Portanto também significa que eu queria entender um pouco mais de como minha própria cabeça funciona.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Faz anos que esse assunto fica flutuando na minha cabeça. Por um lado, eu sempre sou super cético. Alguns assuntos, categoricamente podemos dizer que é pseudociência, seja astrologia, homeopatia, os MBTI da vida. Sendo eu um boomer, muitos problemas psicológicos e psicologia em geral, na minha cabeça, sempre pareceu encaixar mais com pseudociência que ciência. Tenho certeza que muitos dos meus pares, povo da faixa de 40 anos pra cima, ainda pensam assim. E é um dos motivos que resolvi explicar um pouco disso.</p>
<p>O que está mais na moda falar é TDA ou TDAH, que em inglês é ADHD, o famoso transtorno ou desordem de déficit de atenção. Procurando no YouTube vem centenas de videos sobre isso. Comparando com meu próprio conhecimento antes de pesquisar sobre, sei que é muito fácil entender esse transtorno da maneira errada. Pra começar, todos vocês assistindo, ou são considerados neurotípicos ou neurodivergentes.</p>
<p>Neurotípico é um termo usado pra descrever pessoas cujo desenvolvimento neurológico ou padrões de comportamento são considerados típicos ou &ldquo;normais&rdquo; pra determinada idade ou cultura. Vocês não costumam ter diferenças significativas em processamento sensorial, interações sociais ou estilos de comunicação.</p>
<p>Neurodivergente, por outro lado, é um termo usado pra descrever pessoas cujo desenvolvimento neurológico e padrões de comportamento são considerados &ldquo;atípicos&rdquo; pra faixa etária ou cultura. Isso pode incluir condições como TEA ou transtorno do espectro autista como no meu caso, ou coisas como TDAH, dislexia e outras condições de processamento cognitivo, sensorial ou emocional.</p>
<p>Importante explicar, coisa que eu também não entendia, que neurodivergência não é uma patologia, uma doença, mas uma variação nas funções neurológicas. Significa dizer que o perfil psicológico é diferente do que é considerado &ldquo;típico&rdquo;. Pessoas neurodivergentes sofrem com problemas mas ao mesmo tempo podem ter formas únicas de esforço, perspectiva e jeitos de interagir com o mundo, que tem muito valor. Vou chegar nesse ponto.</p>
<p>O problema é que, sem as informações adequadas, quem sofre disso pode realmente achar que é uma doença. E como não é visível como uma perna amputada, essa pessoa pode sentir muita vergonha, muita culpa. E isso vai evitar que ela procure o tratamento adequado. Todos os transtornos psicológicos são espectros. Significa que não existe um tratamento geral pra todo mundo. Não existe fórmula mágica. E ao sofrer as consequências desses não entendimento, muitos podem cair em problemas maiores depois. Deixa eu ilustrar.</p>
<p>Vamos começar com algumas perguntas. Você costuma ter pensamentos de que não é bom o suficiente? Inclusive no sentido de supervalorizar seus fracassos e subestimar ou desvalorizar seus sucessos? Na sequência, isso te leva a pensar que fracassa tanto que ninguém liga pra você ou vão deixar de ligar pra você? Afinal, porque alguém iria ligar pra alguém fracassado né? Daí você costuma ter a sensação de, &ldquo;pra que me esforçar&rdquo;, é melhor ficar sozinho, não? Talvez doa menos. Pior, você se sente constantemente cansado, indisposto, até com aquela sensação que tá meio doente? E aí pensa, lógico, nem eu me aguento comigo mesmo, quem vai querer ficar perto de alguém como eu?</p>
<p>Se pensa até aqui, provavelmente já deve ter pensado algo como &ldquo;além do mais, ninguém entende como eu me sinto&rdquo;. E é verdade, muitas das pessoas ao seu redor não tiveram que passar pelo que você passou, mas seu pensamento vai além, você acha que ninguém vai ser capaz de te ajudar, nem mesmo ajuda profissional. Você acha que seu caso é único, seu fracasso vai ser constante, seu esforço parece inútil?</p>
<p>Pior do pior, quando outras pessoas te vêem nesse estado, ficam te falando &ldquo;vai fazer exercícios, vai comer melhor, vai fazer alguma coisa&rdquo;, e você vê todo mundo conseguindo fazer atividades que você não consegue e, de novo, isso aumenta sua sensação que é tudo culpa sua, certo? Você se sente culpado de ser incapaz de se tirar dessa situação desesperançosa, e se afasta mais ainda das pessoas. FInalmente, isso te leva à inevitável conclusão de que nada mais importa, nada do que você tenta fazer jamais vai ser suficiente, e claro, você nunca vai melhorar.</p>
<p>Já pensou dessa forma repetidas vezes? Ao ponto de ficar debilitado, sem querer fazer nada, faltando faculdade, faltando trabalho, faltando eventos sociais ou familiares? Ficando o dia todo maratonando Netflix, maratonando TikTok, ou no seu LOL ou Valorant da vida, horas e horas sem parar? Ou simplesmente escondido na sua cama o dia todo? Você está ficando pra trás, todo mundo parece tão distante lá na frente e você sente que não tem o que fazer?</p>
<p>Se sim, é possível que você esteja experimentando sintomas de depressão. Coisas como TDAH, autismo ou outros transtornos, se não forem tratados, podem te levar a pensar dessa forma. E de novo, não estou tentando te dar um diagnóstico, mas se sente assim, no mínimo deveria procurar um especialista, porque ao contrário do que parece na sua cabeça, essa situação é ruim, mas não tanto quanto pensa e o principal, isso não é permanente. Agora deixa eu explicar porque alguns chegam nessa linha de pensamento.</p>
<p>Vamos pegar TDAH por exemplo, transtorno de déficit de atenção. A primeira impressão é que se trata de uma pessoa que tem dificuldade de prestar atenção em alguma coisa. Só que não é isso. Se uma criança é diagnosticada com TDAH, alguns pais podem discordar, porque eles vêem que essa criança consegue ficar o dia inteiro jogando os Fortnite ou Roblox, nem precisa comer, está em hiperfoco. Mas não consegue prestar atenção na aula ou estudos. Então ela não tem déficit de atenção, só é preguiçosa mesmo.</p>
<p>Antes de continuar, deixa eu fazer mais um disclaimer. Existem sim, pessoas que que por diversos motivos se tornam maliciosas, mau caráter, desonestas e tudo mais. Vou pular esses casos, não é esse o foco de hoje. Assuma por um segundo que a criança do exemplo, não tem razão pra ser desonesta. Vou assumir que você assistindo é honesto.</p>
<p>E sim, de fato essa criança hipotética tem capacidade de hiperfoco em algumas atividades e não em outras, e isso é um déficit de atenção. Déficit não significa que ela tem atenção baixa o tempo todo, significa que, comparado com uma pessoa típica, tem uma montanha russa de atenção: algumas vezes super abaixo, algumas vezes super alto, e o principal: não tem controle sobre isso. Por isso é um transtorno ou desordem, não é uma incapacidade.</p>
<p>Algumas pessoas romantizam o tal hiperfoco, mas pra pessoa com TDAH não parece tão legal assim porque não é um super poder que pode ativar quando bem entender. Uma das melhores metáforas que encontrei foi assim: digamos que essa pessoa tem um compromisso muito importante às 6 da tarde. Fodeu. Ela vai passar o dia todo ansiosa com esse compromisso e vai ser incapaz de fazer qualquer outra coisa durante o dia até essa hora. Ou, se conseguir começar a fazer, é possível que esqueça do compromisso original.</p>
<p>Por que? Faz de conta que sua cabeça tem um editor de textos. Os neurotípicos conseguem salvar o documento parcial, deixar de lado, e abrir outros documentos pra trabalhar. Já uma pessoa com TDAH não tem a funcionalidade de salvar. Ou ela mantém o documento aberto até as 6 da tarde, ou se fechar, pode perder. Não é exagero, é assim que funciona.</p>
<p>Todo mundo tem algum grau de inatenção, hiperatividade ou impulsividade, que são características de TDAH. O problema é quando o transtorno afeta negativamente a vida da pessoa, ou seja, ela começa a se tornar incapaz de funcionar como gostaria, vai mal na escola, vai mal no trabalho, vai mal nos relacionamentos. E não é um episódio isolado, onde podemos identificar um momento de estresse, como ser despedido do emprego. É frequente durante a vida, desde a infância. É nesse caso que realmente precisa procurar tratamento.</p>
<p>Uma pessoa que, de vez em quando, esquece alguma coisa, de vez em quando faz alguma coisa impulsiva, de vez em quando fica distraída, isso é normal, é típico. Todo mundo passa por eventos estressantes vez ou outra que levam a isso. Você não &ldquo;ganha TDAH&rdquo; só porque passou por uma situação estressante. Tendo sido diagnosticado ou não o TDAH já existia desde que era criança.</p>
<p>E é por isso que TDAH é também um transtorno muito mal diagnosticado. Ao mesmo tempo muita gente que não sofre do transtorno acha que tem, e muita gente que tem, acha que não tem. Um exemplo disso são crianças com QI mais alto. Ironicamente, pessoas mais inteligentes, podem sofrer mais com esse tipo de transtorno. Por exemplo, imagine uma criança com TDAH que é forçada a participar da chatice de uma sala de aula normal. Ela tem dificuldade de prestar atenção.</p>
<p>Aí o professor nota a pessoa desatenta e chama ela pra responder uma pergunta da aula. O aluno se assusta, mas ele já sabe, o TDAH deixou ele distraído, tava mais focado girando caneta nos dedos. Mas ele é altamente inteligente, rapidamente lê a lousa, olha onde o livro do amigo do lado, tenta achar a resposta via pura dedução. Por acaso acerta, o professor faz o &ldquo;hum&rdquo;, e volta a dar aula.</p>
<p>Via força bruta, ele bypassou o prejuízo da inatenção. É um jeito dela não ser diagnosticada com tendo TDAH. Pessoas neurodivergentes, não só TDAH, nós costumamos ter diversas técnicas pra meio que &ldquo;mascarar&rdquo;, pra passarmos despercebidos num mundo feito pra neurotípicos. É algo que fazemos inconscientemente, como um mecanismo de defesa.</p>
<p>Deixa eu voltar num ponto que falei antes: transtornos psicológicos, no mundo Ocidental, costumam ser percebidos como uma chave de liga e desliga: ou a pessoa tem, ou não tem. É tipo tem câncer ou tem diabetes. É tudo ou nada. E faz sentido, esse tipo de doença, por todo o século XX, sempre foram as prioridades, são problemas literalmente mortais, se não tratados.</p>
<p>Por causa disso, problemas psicológicos sempre foram uma categoria de menor prioridade e menos atenção. Muita pesquisa nova e importante tem acontecido nos últimos 20 anos, ainda é um campo em desenvolvimento. Não sabemos tudo, mas por esse lado, nem coisas como câncer sabemos tudo ainda. Não nos impede de tratar e ter sucesso nos tratamentos. Digo isso pra tomar cuidado porque muitos ainda usam uma cartilha antiquada, de décadas atrás pra falar desses transtornos.</p>
<p>O que sabemos hoje é que esse tipo de transtorno é um espectro, um intervalo, e não um valor discreto. É como no meu caso de autismo. Por muito tempo, na minha cabeça, autismo era como um Dustin Hoffman em Rain man, talvez o mais famoso de todos. O meu grau de autismo não é alto, é o que antigamente se chamava de Asperger, hoje é grau 1 de autismo, o Rainman provavelmente era grau 3. Mesmo esses &ldquo;graus&rdquo; são só guias, de novo, não é uma chave com 3 valores discretos. É como um termômetro, o que é quente ou frio? São espectros, uma gradação.</p>
<p>Uma pessoa com TDAH não é alguém 100% inatento, 100% impulsivo e 100% hiperativo. São graus que variam dinamicamente dependendo da situação e diversas condições fisiológicas. E falando em fisiologia, a gente costuma pensar nesses transtornos  como algo que é exclusivo dentro da mente da pessoa. Por isso muitos pensam: &ldquo;só lida com isso e resolve&rdquo;. Mas o problema é físico tanto quanto é mental. E é aqui que quero quebrar a noção de que isso é tudo um problema inventado. É um problema físico e mensurável. Diversas pesquisas neurológicas já objetivamente mediram, por exemplo, usando ressonância magnética do cérebro.</p>
<p>Falando bem a grosso modo, nosso cérebro não é uma máquina simples e ainda não sabemos tudo dela. Mas já conhecemos o funcionamento de diversas regiões diferentes. Vamos entender algumas. Temos a insula que é uma região do cérebro localizada bem fundo no córtex cerebral, e tem diversas funções como processamento de emoções, habilidade de sentir e entender o estado interno do corpo, cognição social.</p>
<p>Temos a amygdala, que é diferente da amigdala na garganta, que em inglês é tonsil e eu sempre me confundo. No cérebro ela tem estrutura no formato de uma amêndoa, localizada fundo dentro do lobo temporal, e tem um papel importante no processamento de emoções, particularmente medo, ansiedade e agressão. Guarde essa informação, vai ser importante.</p>
<p>O nucleus accumbens é o sistema de recompensa do cérebro, localizado no prosencéfalo basal, responsável pelo processamento de prazer, recompensa e a tal da motivação. Mais pra cima, na região do lobo frontal temos o cortex prefrontal dorsolateral, que se envolve nas funções executivas, como memória de trabalho, a nossa RAM, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões.</p>
<p>Finalmente, na frente temos o córtex frontal orbital, também no lobo frontal. Ele se envolve em tomada de decisões, regulação das emoções e comportamento social. Pra ilustrar, imagine que a região da insula e amygdala são responsáveis por te dar medo ou ansiedade.</p>
<p>Alguém estranho se aproxima de você, do nada, no meio da rua deserta, a noite. Adrenalina é produzida em segundos e você sente fisiologicamente: sua pulsação aumenta, sua respiração aumenta, sua visão periférica fecha, pupilas dilatam, você foca. É a reação de fight or flight, seu corpo sentiu uma ameaça, e te coloca em estado de fugir ou lutar.</p>
<p>Mais informação chega no seu cérebro à medida que você reconhece esse estranho, e na verdade era um conhecido seu, que você não tinha percebido. Possivelmente, seu córtex frontal orbital entra em ação e faz a computação cognitiva de mais alto nível, analisando se é mesmo uma situação que oferece risco ou não. E ao decidir que não, pode pedir pra regular a amygdala e desligar o alarme, vamos assim dizer. Não quer dizer que é exatamente assim que acontece, mas de novo, só pra ilustrar como esses componentes poderiam funcionar juntos.</p>
<p>Outra situação é que você quer entrar em forma, resolve fazer uma dieta. Seu centro de gratificação, o nucleus accumbens, junto com o cortex frontal, vão computar e avaliar o que todo mundo chama de &ldquo;bom senso&rdquo;. Se comer um doce agora, vou ficar gratificado agora, mas vou me arrepender amanhã. Daí ele põe na balança, e toma a decisão correta de, &ldquo;ok, não preciso comer esse doce agora&rdquo;. Pra neurotípicos, esse tipo de reação é normal, você sente uma pequena ansiedade, mas os sistemas de regulação entram em ação e você não tem nenhum tipo de sofrimento extra.</p>
<p>Não é o que acontece na cabeça de um neurodivergente com TDAH. Embora existam diversas pesquisas, ainda não é um consenso sobre exatamente os mecanismos, mas pra simplificar, entende-se que existe uma correlação entre pessoas com TDAH e alguma desregulação de receptores de dopamina em diversas regiões do cérebro. Justamente o neurotransmissor que é produzido quando temos alguma experiência boa, como comer um doce. A produção de dopamina é uma das formas de reinforçar comportamentos que tem benefício pra nossa sobrevivência. É como a gente se auto-treina.</p>
<p>Mas não só isso, dopamina está envolvido em outras coisas como controle de movimentos, em particular movimentos voluntários. Também é importante pra processar informação relacionado a recompensa e punição. E também se envolve na regulação de humor e emoções. Você consegue entender que se isso é desregulado, começa a fazer sentido pessoas que são &ldquo;desastradas&rdquo;, ou tem dificuldade de aprender, ou tem mudanças de humor estranhas.</p>
<p>E cuidado que existe outra desordem ligada a mudanças de humor, como desordem bipolar, que é diferente de TDAH e se trata diferente também, nem os medicamentos são os mesmos, aliás, medicamento de TDAH pode piorar bipolaridade. Por isso não devemos nos auto-avaliar e muito menos se auto-medicar.</p>
<p>Problemas graves de desregulação de dopamina tá relacionado a doenças consideradas mais sérias como Parkinson ou Esquizofrenia, vícios, mas em outro grau do espectro, também com TDAH. Outro aviso, cuidado, desregulação de dopamina é um fator, mas não é a causa de TDAH. Some a isso que algumas pesquisas escaneando o cérebro de diversos pacientes notou que de fato, regiões como insula e amygdala tem volume menor, e ao contrário do bom senso, isso pode causar hiperatividade nessas regiões.</p>
<p>Significa que os sinais de medo e ansiedade são amplificados muito além do normal, somado a um centro de recompensa desregulado, e pra piorar, tendo menos influência, menos regulação do córtex frontal orbital, que ajudaria a desligar esses alertas. Assim começa o tal transtorno do ponto de vista fisiológico. De novo, não é um problema inventado, é consequência dessa desregulação química.</p>
<p>Um fato que todos precisam entender é que emoções não existem à toa. Toda emoção são reações químicas e neurológicas que cumprem alguma função de sobrevivência. São ferramentas que foram sendo adaptadas e ajustadas ao longo de centenas de milhares de anos. Sentir medo ou ansiedade são características normais, mas no mundo moderno, esse sistema ainda não conseguiu se readaptar.</p>
<p>Um dos efeitos colaterais é esse déficit de regulação emocional. A pessoa com TDAH tem uma amplificação da sensação de medo e ansiedade em momentos ou situações que uma pessoa neurotípica não sentiria quase nada. Ela pode reagir de forma muito mais agressiva do que o momento exigiria. Isso deixa a pessoa mais irritável também e, claro, essas coisas somadas levam a problemas de relacionamento. Não só romântico, mas familiar, no trabalho.</p>
<p>Entendendo isso vamos imaginar um cenário. Uma criança que ninguém sabe que tem TDAH. Todo mundo tá conversando sobre filmes, sei lá, e essa criança não consegue acompanhar. Pro cérebro dela, começa a entediar rápido, ela se isola mentalmente. A cabeça está viajando em diversos pensamentos e por causa da impulsividade, do nada, ela interrompe a conversa e começa a falar de outro assunto nada a ver, tipo, de videogame. Mas não é que ela quis ser rude porque não tava gostando da conversa. Na cabeça dela acho que nem tava notando que estavam conversando, ela só quis começar a falar, por impulso.</p>
<p>Repita episódios assim ao longo dos anos na escola. Não só inatenção, impulsividade, mas hiperatividade, irritabilidade. Todo mundo acha essa pessoa esquisita. Não convida mais pra eventos sociais. Todo mundo achando ela esquisita, se torna o alvo favorito pra bullying. Essa criança não entende porque é o alvo ou porque acham ela esquisita. Em alguns casos, pode se safar se for do tipo que consegue ser tipo o palhaço da sala, a pessoa engraçada que consegue fazer os outros rirem.</p>
<p>Mais comum vai ser ela começar a notar o padrão. Os bullies só aparecem quando tem outras crianças por perto. Todo bully gosta de uma platéia. Então ela entende que ter pessoas por perto é uma situação de perigo. E isso é reinforçado. Portanto, toda vez que se vê perto de um grupo de crianças, dá meia volta, se esconde. Ela começa a ficar boa em evitar grupos porque o sistema de defesa deixa ela ansiosa perto de outras pessoas. Você se torna um adulto que se considera anti-social, que tem ansiedade perto de estranhos. Eis uma forma de como isso poderia surgir.</p>
<p>Antes de continuar, eu falei anti-social no sentido de se afastar das pessoas, mas não confundir com transtorno de personalidade anti-social que é um padrão de não se importar com as outras pessoas, não ter empatia ou remorso. Esse tipo de transtorno fala de pessoas que são mentirosas, manipuladoras, roubam, agridem, e coisas assim. É completamente diferente. E se pra alguns isso pareceu narcisismo, isso é outro transtorno diferente. E de novo, é por isso que ninguém deve sair se auto-diagnosticando.</p>
<p>Enfim, ansiedade não é só adrenalina alta por alguns minutos. Outra substância importante na reação de fight or flight é cortisol. Se numa situação de perigo no meio da floresta de antigamente, adrenalina é o boost de energia nos primeiros minutos pra você conseguir dar no pé, cortisol é a energia que vai durar 24 horas pra manter você correndo até conseguir se afastar do perigo. Imagina, tem um tigre no meio da floresta, você tem que conseguir fugir sem parar um segundo. Adrenalina e cortisol são justamente os tais hormônios de estresse.</p>
<p>Mas não pára nisso. Correndo no meio do mato cerrado, você vai se arranhar, se cortar, e isso pode infeccionar. Imagina que trágico conseguir correr do tigre só pra morrer depois por infecção? Ao mesmo tempo que os hormônios de estresse ativam, em paralelo seu sistema imunológico também entra em ação. Milhões de células brancas dormentes se ativam e se preparam pra combater infecções.</p>
<p>Mas estamos no século XXI. Hoje não tem uma situação de correr na floresta por horas e se machucar. Sua ansiedade social perto de outras pessoas, tá amplificado, mas felizmente você não vai se tornar comida de tigre. Mas e o cortisol e sistema imunológico que ativaram? É só se acalmar que desligam e tá tudo bem? Ah, se fosse fácil assim.</p>
<p>O cortisol extra vai garantir que você não vai conseguir dormir. Insônia, pode causar hiperatividade no meio da noite. Só que você precisa dormir, porque precisa acordar cedo pra faculdade ou pro trabalho. Agora fodeu. Sua ansiedade aumenta porque não consegue dormir. Quanto mais ansioso ficar por não conseguir dormir, mais acordado vai ficar, e é uma sensação amplificada, e com desregulagem, ou seja, difícil de desligar. E é por isso que pessoas hiper ansiosas tem dificuldades de dormir.</p>
<p>Mas a má notícia continua, o sistema imunológico foi ativado, tá pronto pra lidar com machudados e infecções, que não acontecem. Ele vai começar a atacar você mesmo, causando inflamação e danos em tecidos. Sabe problemas digestivos, gastrite, manchas ou machucados por sua pele? Pode ser isso. É seu sistema atacando você mesmo.</p>
<p>E finalmente, essas respostas também modificam seu metabolismo, podendo te tornar resistente a insulina, aumentando o armazenamento de glicose como células de gordura, fazendo você ganhar mais peso do que deveria. É seu corpo te preparando pro pior no meio da floresta, só que você não vive no meio da floresta. Muitos de vocês que sofrem desses transtornos podem ter problemas físicos que aparecem do nada, mas está tudo relacionado. Entenderam como uma coisa pode ligar na outra?</p>
<p>TDAH é uma disfunção do sistema executivo no cérebro. O sistema executivo é tipo nossa CPU, a unidade lógica, responsável por organização de tarefas, organização de tempo, tomada de decisões, tudo que neurotípicos consideram &ldquo;normal&rdquo;, só que ele está desregulado. Numa hora tá tudo bem, tá estudando, trabalhando, mas qualquer coisa pode distrair, ou causar parálise de análise, ou overanalysis, que muitos poderiam chamar de procrastinação ou falta de motivação.</p>
<p>Isso vocês já ouviram várias vezes. Todo mundo fala, &ldquo;evite procrastinar&rdquo;. Fácil falar né, se fosse fácil, todo mundo evitaria. Ou então &ldquo;tente ser mais motivado&rdquo;. Mas o que significa isso? Eu acabei de falar, medo, por exemplo, é uma reação instintiva, veio com milhares de anos de sobrevivência. Mas o que é motivação? É um neurotransmissor? É uma região do cérebro? Na realidade não, motivação é uma propriedade emergente de outros fatores.</p>
<p>Por exemplo, pra neurotípicos, pode ser uma simples recompensa. Se eu te der 1000 reais, você trabalha essa semana. Se eu te der 2000 reais você trabalha duas semanas. Pra muitas pessoas, esse motivador externo é suficiente pra engajar numa atividade e completar até o objetivo que tem em mente, digamos, 4000 reais, então ela se motiva a trabalhar 4 semanas.</p>
<p>Mas eu disse que o nucleus accumbens e a dopamina de uma pessoa com TDAH estão desregulados. O mesmo tipo de recompensa externa que funcionou pra um neurotípico não ativa as mesmas propriedades no cérebro de uma pessoa com TDAH. De repente ela resolve, sei lá, pintar os cantos das páginas do caderno, cada seção com uma cor. Algo assim, que pra um neurotípico, não faz o menor sentido.</p>
<p>Qual programa de organização devo usar? Notion? Obsidian? Um neurotípico pega a primeira folha de papel, lista o que precisa e é isso. Uma pessoa com TDAH primeiro precisa ver se dá pra customizar, deixar mais colorido, mais chamativo, e ela pode gastar horas nisso, antes de conseguir começar a escrever o primeiro item da lista. E quando começar, talvez lembre que tinha outro programa que queria testar, e vai instalar e customizar o outro. 3 programas depois, ainda não escreveu a primeira linha da lista. Isso acontece, e não é por sacanagem, nem procrastinação, é porque o sistema de recompensas dessa pessoa funciona diferente.</p>
<p>Deixa eu voltar rapidamente à questão dos pais, incrédulos de que o filho tenha déficit de atenção, porque eles sabem que o menino consegue ficar em hiperfoco, 12 horas por dia, na frente do fortnite. Só pode ser procrastinação. Lógico, como disse antes, pode ser mesmo, mas considere a pessoa com TDAH. Games foram feitos pra esse tipo de pessoa, porque foram desenhados com o objetivo de demandar toda a atenção. Toda hora tem alguma coisa nova, não entedia, tudo chama atenção: pontuação, itens, armas novas, fases novas. São horas e horas de distração que seu cérebro fica viciado mesmo.</p>
<p>Mesmo jogos que se chamam de &ldquo;open world&rdquo;, com um sandbox pra você fazer &ldquo;o que quiser&rdquo;, na verdade não são &ldquo;open&rdquo; de verdade, como a vida real. Eles tem objetivos principais e sidequests, organizados em listas, com objetivos bem definidos e recompensas no final de cada item. Foi sem querer, mas esses tipos de jogos foram feitos sob medida pra cabeça de alguém com TDAH.</p>
<p>Eu não tenho dados pra suportar isso, mas tenho uma hipótese sobre cursos online. Pessoas com TDAH possivelmente consumam  mais pela mesma razão que se viciam em videogames: são gamificados. Tem listas de items bem definidos, tarefas e objetivos bem definidos, passo a passo bem definido, recompensas constantes com sensação de avanço. É como limpar a lista de sidequests de um jogo open world. Você fica viciado. Programas de organização, como um Notion, que permite infinitas customizações, mesma coisa. Eles chamam atenção, e viciam, pelos motivos errados.</p>
<p>Motivação não tem uma resposta única. Ela vai ser diferente pra cada pessoa. Você pode tentar entender os componentes fisiológicos, os neurotransmissores, as técnicas, mas pra variar, não tem receita mágica. Pergunte pra qualquer pessoa que você considere motivada. &ldquo;Por que trabalha com tanto afinco?&rdquo; E vai notar que nenhuma delas consegue dar uma resposta exata, vai fazer aquela cara de &ldquo;ahh, sei lá, eu só faço&rdquo;, se for honesto. Ou vai ter uma historinha empacotada, o que ela acha que você quer ouvir: &ldquo;ah, eu faço isso pra construir um mundo melhor&rdquo;.</p>
<p>Pra muitas pessoas, neurotípicas, costuma ter um componente lógico ou um desejo. Claro que eu quero trabalhar muito pra ficar rico pra me aposentar bem. Claro que eu quero estudar muito pra conseguir o melhor emprego na melhor empresa. Claro que eu quero ficar marombado, pra fazer mais sucesso na balada. Ou qualquer coisa assim. Mas de novo, pra neurodivergentes, o sistema lógico tem menos influência, e o sistema de recompensa está desregulado, então esse &ldquo;claro&rdquo;, não é tão claro assim.</p>
<p>O problema é que a pessoa já tem os problemas de inatenção, irritabilidade e impulsividade. Ela afasta ou pelo menos sente, que afasta as pessoas. Não consegue ir bem no trabalho. Tem dificuldades de criar relacionamentos duradouros, e ao mesmo tempo sente que não tem motivação, leu que isso se chama procrastinação. Seus resultados são ruins e isso causa vergonha, porque ela olha pros pais e amigos e vê olhos de decepção. Seu sistema de medo e ansiedade são desregulados, em breve ela chega a uma conclusão: eu não sou suficiente. Eu nunca vou ser suficiente. Eu sou um fracasso, uma decepção. É assim que pode surgir sensitividade a rejeição e até uma disforia, que pode levar à depressão, como ilustrei no começo.</p>
<p>Em situações de ansiedade, como ansiedade social, tipo ir numa festa ou evento, todo mundo tem inseguranças, será que tenho roupa pra ir? Será que vou falar alguma bobagem e as pessoas vão rir de mim? Será que vou conseguir falar com alguém? Existem 3 formas que as pessoas lidam com isso. A primeira, e mais óbvia, é que se esse medo for grande demais ela pode só Evitar, avoidance, e desistir de ir. Ou então se forçar a ir, mas quando chega a mente desliga, dá zone out, ela tá lá, mas não tá lá. É um cognitive mental check out.</p>
<p>Ou pode Suprimir, que é diferente do check out, você vai, mas vai brigando com você mesmo, tipo &ldquo;eu aguento, eu aguento&rdquo;, o sofrimento em silêncio, com a esperança de &ldquo;espero que ninguém perceba&rdquo;, o &ldquo;fake it until you make it&rdquo;, vou falsificar que tô gostando até uma hora conseguir gostar.</p>
<p>E finalmente, o ideal, que é enfrentar o medo, ir, processar, e aos poucos se adaptar, vendo que não era tão ruim quanto o medo inicialmente dizia que ia ser. Processar o medo como sendo irracional e compreender que não era o fim do mundo. Ninguém riu de você. Ninguém judiou de você, você tá bem. Pessoas neurotípicas fazem um pouco dessas três formas e tendem pra essa terceira opção, que é onde se amadurece. Todo mundo tem medo e ansiedade, mas aos poucos aprendemos a processar.</p>
<p>Mas pessoas com TDAH, exageradamente tomam o primeiro caminho: avoidance. Evitam a situação de ansiedade completamente, mas ao fazer isso ela está desistindo de coisas que são boas pra ela. Não só uma festinha. Deixa de explicar pro professor que passou mau e se podia fazer outra prova. Deixa de explicar pro namorado ou namorada que não tá bem. Deixa de pedir aumento no trabalho. E tudo isso retro-alimenta a sensação de fracasso, de insuficiência, e de novo, vira mais combustível pra sensitividade de rejeição e pra eventual depressão.</p>
<p>Motivação parece ser uma coisa que é só você ter um desejo muito forte, tipo quero ser rico ou quero muito ser famoso. E se a pessoa não tem motivação é porque ela não deseja forte o suficiente. Mas desejo e motivação são duas palavras diferentes por um motivo: elas não são iguais. Uma pessoa com ansiedade e TDAH como descrevi até agora, sem tratamento, tem chances de crescer sozinha, em total solidão ou pelo menos se sentindo solitária. Não tem nada que essa pessoa deseje mais do que ter uma companhia que não a faça se sentir insuficiente. Não tem nada que ela queira mais. Se fosse simples assim, ela já teria conseguido. Solidão não costuma ser uma opção, é uma consequência. E vocês já devem ter pelo menos ouvido falar o que solidão extrema pode causar.</p>
<p>Pra piorar, pessoas com TDAH parece que costumam desvalorizar seus sucessos e aumentar seus fracassos. Aumentar fracassos, achar que porque fez uma prova ruim, vai repetir o semestre, e por isso vai fracassar na faculdade, e por isso nunca vai conseguir um bom emprego, e por isso nunca vai ter uma boa carreira e por isso sua vida acabou, agora, já. É sua insula e sua amygdala hiperativa aumentando seus medos e ansiedades muito além da imaginação. Pra quem é neurotípico, pode parecer uma linha de pensamento absurda, mas pra um neurodivergente é absolutamente real.</p>
<p>Mas desvalorizar seus sucessos é mais sutil. É um mecanismo de defesa. O que eu falei do Evitar, avoidance. A pessoa desvaloriza o sucesso de agora porque se fracassar depois, na cabeça dela, vai ser menos dolorido. Se eu acertei hoje, mas fracassei amanhã, então eu sou um fake, uma fraude? É assim que pode nascer Síndrome do Impostor. Ou seja, o sistema dessa pessoa hiper-aumenta as consequências de um fracasso e minimiza os sucessos. Como você acha que ela vive?</p>
<p>Não estou querendo ser fatalista, e nem tratar esse assunto com desrespeito, mas é só pra explicar uma das formas de porque algumas pessoas chegam no pensamento de acabar com a própria vida. Pra neurotípicos não faz nenhum sentido. Mas se seu sistema de defesa está hiperativo, seu sistema de recompensa está desregulado, você não consegue tirar prazer das coisas porque seu sistema de recompensa tá desregulado. Sua irritabilidade e inatenção te afasta das pessoas, e seus resultados são cada vez piores, ao ponto onde, na sua cabeça, se sente totalmente incapaz e sozinho, e com a certeza que não existe solução. Não é difícil entender porque esse pensamento aparece.</p>
<p>E ao contrário do que filmes e ficção costumam mostrar, onde uma pessoa que decide desistir da vida faz toda uma preparação, escreve e envia cartas, inventa até jogos e tudo mais, faz parecer que nós conseguiríamos ver os tais &ldquo;sinais&rdquo; com antecedência e conseguir interceder. Mas não é bem verdade isso. Segundo pesquisas com sobreviventes, na maior parte dos casos, o que se sabe é que do momento que a pessoa tomou a decisão, o ato em si, costuma ser questão de poucos minutos, não dias. Lembrem-se de outra característica de TDAH: impulsividade. Impulsividade é justamente tomar uma ação por impulso, sem consideração pelas consequências.</p>
<p>Impulsividade é que leva uma pessoa com TDAH a tomar decisões impensadas, pedir demissão, desistir da escola, dirigir como doido  num momento de frustração. E falando tudo isso, se você se relacionou com as características de TDAH talvez esteja se sentindo aflito, ansioso, desesperançoso. Mas calma. Até aqui foi pra explicar, pra quem não sabia, como a cabeça de alguém com TDAH poderia funcionar, pra entender que não é uma escolha, é uma consequência. Agora temos que entender, por que é assim?</p>
<p>Não existe uma teoria exata que todos concordam, e até 1995 o consenso era que TDAH era como uma doença mesmo, um defeito. Mas na antropologia surgiu uma teoria interessante que pode ajudar a dar perspectiva. De novo, é uma teoria. Vamos lá. Muitos de nós, temos dificuldade de entender o conceito de tempo. A Revolução Industrial, que moldou o mundo moderno como conhecemos hoje, começou na Inglaterra no final do século 18. De lá pra cá se passou só uns 250, talvez 260 anos. Dois séculos e meio. Parece um puta tempo né?</p>
<p>Mas pensa, estamos no século XXI, implica que se passou mais de 2000 anos desde que começamos a contar esse calendário. Isso é  8 vezes mais tempo do que os dois séculos desde a revolução industrial, é tempo pra caramba. Mas no frigir dos ovos, ainda não é nada. Nós somos parte da espécie Homo Sapiens, a sequência dos Neandertais, e essa espécie surgiu mais ou menos 300 mil anos atrás. Parece muito tempo, mas não é tanto assim.</p>
<p>Os primeiros hominídios, o galho que não tem a ver com os macacos primatas, começou com os australopitecus, em alguma coisa como 4.2 milhões de anos atrás. Se tivéssemos um relógio de 12 horas pra representar os 4.2 milhões de anos, começassemos a evolução dos seres humanos a partir do meio dia, os 250 anos da história industrial moderna seria só os últimos dois segundos e meio antes da meia noite.</p>
<p>Entendem essa proporção? As duas grandes guerras mundiais, o nascimento e evolução do motor a combustão do primeiro automóvel até chegar nos Teslas e foguetes da SpaceX, o nascimento do transistor e sua evolução até a internet e inteligência artificial, tudo isso aconteceu nos dois últimos segundos desse relógio. Já nossa evolução biológica enquanto seres vivos, levou as quase 12 horas anteriores.</p>
<p>A revolução da agricultura, onde deixamos de ser só catadores de subsistência, começou uns 10 mil anos atrás. Por toda nossa história, nossos antepassados começaram a formar tribos, e papéis foram sendo definidos. E é aí que entra a teoria de &ldquo;caçadores catadores&rdquo;. A história dos caçadores ou catadores de subsistência entrando no mundo dos fazendeiros.</p>
<p>Pra resumir, imagine que na pré-história alguns dos papéis mais importantes eram do caçador ou catador. O fazendeiro é alguém até certo ponto satisfeito em viver uma vida regrada, acordar todo dia 5 da manhã, fazer o trabalho repetitivo do arado, colheita até a tarde, ir dormir e começar de novo a mesma coisa no dia seguinte. O caçador, é o oposto, não tem uma rotina bem definida, às vezes precisa ir longe no meio de uma floresta desconhecida, prestar atenção em tudo, caçar e evitar ser caçado. Tudo pode ser uma ameaça, um urso ou uma escorpião.</p>
<p>Podemos imaginar que um caçador precisa conseguir escanear o ambiente rapidamente, sem ficar focado numa coisa só, daí agir rapidamente, ser hiper-vigilante. Ser mais agressivo que o normal, por impulsividade, talvez seja a diferença entre a vida e a morte nas savanas da África da pré-história. Lembrem-se, era uma época de recursos escassos. Todo mundo tá acostumado com agricultura moderna, mas na pré-história não existia essa tecnologia. O normal da história humana por milhões de anos sempre foi pouca comida, muita doença, muitos perigos e baixa expectativa de vida.</p>
<p>É por isso que levou até as 11 horas, 57 minutos e 30 segundos do nosso relógio evolucionário pra conseguirmos chegar perto do primeiro 1 bilhão de habitantes na Terra. E foi só por causa das tecnologias modernas, que começaram depois da revolução industrial, que fomos de uma só vez de 1 bilhão pra 8 bilhões de pessoas. Em dois segundos. É claro que isso ia ter consequências.</p>
<p>Mais uma vez de forma simplista, a revolução industrial foi uma enorme revolução de eficiência. Levou o homem do campo pras cidades, da agricultura pra indústria. E precisamos treinar essas pessoas. Daí nasce o sistema educacional como conhecemos hoje: salas de aula com vários alunos presos em cadeiras o dia inteiro. 30 ou 40 crianças ouvindo um professor chato o dia inteiro. E depois uma carreira de trabalho de 9 às 5 fazendo trabalho repetitivo, sentados em cadeiras o dia inteiro. Seja numa fábrica ou seja num escritório do mundo moderno. É um mundo ótimo pra quem gosta de rotina.</p>
<p>Entenderam: a sociedade moderna foi feita à imagem dos fazendeiros. Trouxemos os caçadores juntos e fizemos eles ficarem sentados o dia inteiro, por anos e anos. Tentamos encaixar uma peça redonda num buraco quadrado. O mundo moderno foi feito pra pessoas que conseguem aguentar a rotina de ficar fazendo poucas atividades, sentados o dia inteiro, em horário fixo. O exato oposto do que é um caçador.</p>
<p>Pesquisas sugerem que TDAH é de fato passado geneticamente. Tem papers com pesquisas que acompanharam a vida de mais de 50 mil gêmeos ao longo de décadas pra entender. Existe um fator genético e existia uma utilidade evolucionária. Não é um problema aleatório que aparece do nada na cabeça das pessoas, é uma pré-disposição. Mas como falei antes, não é uma chave de liga e desliga. O entendimento é que esse fator é uma vulnerabilidade em neurodivergentes que pode ou não ser ativada, em diferentes graus, dependendo do ambiente onde cada um cresceu.</p>
<p>Em pesquisas com alunos em sala de aula, também já foi identificado que 30 alunos com 1 professor tem o dobro de diagnósticos de TDAH do que numa sala com os mesmos 30 alunos mas 2 professores disponíveis. Ter um professor a mais que consiga dar mais atenção e redirecionar a atenção do aluno da forma correta, ajuda a criança a manifestar menos ou até não sofrer os problemas de TDAH. O ambiente é um enorme fator pra severidade da condição. Só ter a pré-disposição genética não garante que você vai necessariamente sofrer com isso.</p>
<p>Também se acredita que adultos diagnosticados tardiamente com TDAH na verdade já tinham isso desde a infância, mas infelizmente, nunca foram tratados quando deveriam. Seja por ignorância de pais e escolas, seja por preconceito contra medicamentos ou tratamentos. E na vida adulta a condição pode levar a outros problemas como desordem de ansiedade e, nos piores casos, depressão.</p>
<p>E mesmo quando há diagnóstico, ainda existe essa idéia de chave de liga e desliga. Ah, é símples, dá Aderol ou Ritalina e tá resolvido. Mas vou repetir porque é importante: a condição não é um único componente de liga e desliga igual pra todo mundo. É uma desregulação de diversos componentes e diversos neurotransmissores. Estimulantes não agem só numa região isolada, ela tem efeitos colaterais, que variam de pessoa pra pessoa. Cada pessoa tem uma combinação única de fatores que dão espectros de severidade diferentes pra cada sintoma de TDAH.</p>
<p>Algumas pessoas tem déficit de atenção mas não necessariamente hiperatividade. Outras podem ter dislexia somado. Em graus diferentes. É uma matriz multidimensional de combinações, e não uma única variável binária. Por isso toda hora estou falando que nada substitui o tratamento: porque só um profissional licenciado vai conseguir identificar as variáveis e como tratar no seu caso específico.</p>
<p>A medicação em si é super estigmatizada, tem aquela imagem que a pessoa vai virar um junkie viciado ou um zumbi. E sim, se um neurotípico se automedicar com uma ritalina porque assistiu video de tiktok falando que isso dá boost de produtividade, vai ter problemas. Uma pessoa neurodivergente que precisa de ritalina é parecido com uma pessoa com diabetes que precisa de insulina. Você pode chamar uma pessoa diabética de junkie em insulina?</p>
<p>Tecnicamente até sim, mas a diferença pra você, neurotípico, é que seu corpo fabrica insulina, mas algumas pessoas precisam de insulina externa, porque a desordem é justamente não conseguir fabricar sozinho. É pra casos assim que medicamentos são necessários. Não só isso, nosso corpo pode se tornar resistente a certos medicamentos. Precisa modificar dosagem, trocar de medicamento e tratamento. E o único que vai saber disso é um psiquiatra licenciado.</p>
<p>Psiquiatras não são médicos de loucos. São médicos, que aprenderam da mesma medicina que todos os outros clínicos gerais e tem especialização na neurologia e efeitos dos químicos que eu simplifiquei hoje. Um video de YouTube nunca vai substituir anos de experiência nessa área. De novo, se você se relacionou com algumas das condições que tentei explicar, procure um psiquiatra.</p>
<p>E não só um psiquiatra. Muito do que uma pessoa de TDAH sofre pode ser contornado com técnicas holísticas. Primeiro tem a medicação, especialmente em casos graves e urgentes. Mas se for dignosticado cedo, o ideal é CBT que é terapia cognitiva comportamental, que é como uma re-educação pra aprender como seu sistema funciona e técnicas de como compensar. Todo mundo recebeu uma educação de neurotípicos, mas claro que não funciona pra todo mundo. Existe uma educação pra neurodivergentes, que é a terapia.</p>
<p>Por exemplo, pra casos mais leves do espectro, coisas como sistemas de alarmes, notificações de calendário, listas de coisas a fazer bem escritas, com itens que tem ações específicas e não abstratas tipo &ldquo;estudar mais&rdquo; e sim &ldquo;estudar o capitulo 5 do livro X&rdquo;, sabe? Sidequests de jogos com objetivos bem definidos? São exemplos de mecanismos externos, que bem aplicados, compensam nossa inatenção, por exemplo.</p>
<p>Se sair procurando, vai achar uma tonelada de videos de lifehacks que pessoas com TDAH podem tentar, mas cada video vai mostrar o que funcionou praquele criador de conteúdo, no espectro dele. Nunca vai ser uma regra geral. E sair na tentativa e erro, com toneladas de video, sem o entendimento correto disso, em vez de ajudar, pode piorar sua ansiedade, amplificar o sentimento de fracasso. Por isso insisto, procure terapia de um profissional qualificado.</p>
<p>Agora, não são só más notícias pro pessoal de TDAH. Pra mim a teoria antropológica faz muito sentido: estamos forçando caçadores a sentar na cadeira de uma escola ou escritório, num horário fixo, e ficando putos porque eles não conseguem ser produtivos. Mas é lógico, é uma estrutura feita por fazendeiros. Por acaso, esse perfil é o que foi considerado &ldquo;neurotípico&rdquo;. Na pré-história, talvez o &ldquo;típico&rdquo; tenha sido ter TDAH. Eu mesmo tenho dificuldades nessa estrutura, sempre tive.</p>
<p>Porém, as qualidades de caçadores começaram a voltar a fazer sentido no mundo moderno. Empreendedorismo é uma atividade não estruturada onde pessoas com TDAH parecem ter algumas vantagens. Não é de hoje que tem videos e mais videos associando um Elon Musk a TDAH. A maioria das pessoas neurotípicas tem como objetivo na cabeça uma rotina de 9 às 5, sentado num escritório, com trabalho estável, sem dor de cabeça. Já um Elon, o que ele faz? Carro elétrico? Hm, não, entendiou. Lançar foguete então? Hm, não, entendiou também, zoar no Twitter. É isso. Pra muitos, Elon é o ápice do TDAH.</p>
<p>Várias áreas criativas costumam abrigar a impulsividade, a necessidade de coisas novas, a atenção em detalhes de TDAH. Seja literatura, música, artes, cinema, moda e muito mais. Veja vendas ou marketing, ou criação de conteúdo, ou streaming, que são áreas que precisam da hiperatividade, alta energia e habilidades sociais de pessoas com TDAH.</p>
<p>Muitos não pensariam nisso de primeira, mas uma pessoa de TDAH não procrastina, ela sofre tudo que expliquei até agora. Mas justamente uma das muitas técnicas que usam em sua organização é tentar quebrar as coisas em tarefas menores e mais urgentes. Em vez de ter um grande trabalho pra entregar no final do semestre, se os professores forem atentos, é melhor dar pequenos trabalhos com mais frequência.</p>
<p>O senso de urgência é um grande motivador pra pessoas com TDAH e pelo mesmo motivo, parece que elas conseguem se dar bem em trabalhos de emergência, emergência de hospital, por exemplo. Pessoas com TDAH parecem se dar bem em ambientes que parecem caóticos, com ritmo acelerado, de alta pressão e urgência. Se o ambiente exige tomadas de decisão muito rápidas, como por impulso, com hiperatividade, parece combinar.</p>
<p>E finalmente, tecnologia. Programação, design gráfico, edição de video, tarefas que exigem atenção a detalhes, a tal habilidade pra hiperfoco. Já falei que não tem como controlar nem garantir o hiperfoco, mas ela costuma vir em atividades que excitam mais o centro de recompensa do cérebro dessas pessoas. Se justamente forem atividades de tecnologia, isso pode ajudar muito. Não é de hoje que vejo muita gente que me acompanha e tem algum espectro de TDAH. A gente brinca que precisa ser meio doido pra ser programador, e acho que essa observação não tá muito errada.</p>
<p>Existem milhões de pequenas dicas e lifehacks que eu poderia explorar aqui, mas não é esse o ponto. Primeiro porque já existem centenas de videos desse tipo. Mais importante, porque o foco não é tentar consertar seu problema neste video. Isso eu não consigo fazer. Nem eu, nem nenhum youtuber. Só um especialista, durante várias sessões, ao longo de vários meses, num tratamento feito sob medida pro seu espectro em particular.</p>
<p>O objetivo deste video é awareness. Muitos neurotípicos não entendem que estão cercados de neurodivergentes, e só categorizam a pessoa como &ldquo;esquisita&rdquo; e ficam longe ou zoam gratuitamente, o que não ajuda. Eu sou neurodivergente e não sabia disso e certamente tenho dificuldades de identificar outros neurodivergentes porque tenho espectro autista, minha dificuldade é justamente em comunicação.</p>
<p>Aí vocês devem estar coçando a cabeça. &ldquo;Como assim comunicação? Você não é a porra de um YouTuber??&rdquo; Entenda, e isso é o que todo mundo que me critica não entende: eu leio um script e meus videos são editados. Já viram os bloopers no final do video? Eu não falo sem errar e sem parar. Eu deixo os bloopers justamente pra todos verem que eu erro como qualquer outro.</p>
<p>Já me falaram que tenho tom arrogante de sabe tudo. Eu tenho mesmo muita dificuldade de entender isso. Não sei se posso atribuir isso totalmente ao autismo, mas tenho muita dificuldade quando estou dando uma resposta que na minha cabeça é clara e objetiva e as pessoas me falam que eu fui mau educado ou algo assim.</p>
<p>Juro, não é brincadeira, na minha cabeça eu estou me esforçando pra dar a melhor resposta que consigo, da forma mais curta, justamente porque parece ruim fazer as pessoas perderem tempo  me ouvindo falar coisas desnecessárias. Então edito os scripts pra ser o mais eficiente possível. É como eu prefiro. Mas depois me dizem que soou arrogante. Eu até acho que entendo, mas não compreendo, literalmente não computa na minha cabeça.</p>
<p>Eu entendia que tinha problemas de comunicação, mesmo antes de ser diagnosticado. Entenda, eu não sabia nada disso até pouco tempo atrás. Se procurar online por características do nível 1 de espectro autista vai encontrar coisas como: dificuldade com interações sociais. Em particular a dificuldade de entender sinais, expressões. A gente não nota muito a pessoa com quem tá falando. Eu sempre sou o último a entender piadas ou sarcasmo, normalmente eu vejo as outras pessoas rindo, e eu rio junto depois, sem entender bem porque.</p>
<p>Muitos de nós literalmente somos incapazes de falar olhando nos olhos da outra pessoa. Eu realmente não gosto, mas aprendi a olhar um pouco pro lado dos olhos, pra parecer que estou prestando atenção. Eu fui aprendendo a me comportar como as pessoas parece que esperam que eu me comporte. Mas isso é muito exaustivo. Por isso, no geral, prefiro atividades que posso fazer sozinho. Quanto menos precisar falar com outras pessoas, pra mim é melhor. Gosto mais de ambientes onde no máximo preciso falar online, é sempre mais confortável.</p>
<p>Segundo ponto é comportamento repetitivo. Preferência por rotina e rituais. É exatamente como eu gosto das coisas. Não tira nada do lugar que eu coloquei. Não me chama pra fazer nada em cima da hora. Tudo que altera minha rotina ou meu planejamento, me incomoda profundamente, eu tenho que me segurar muito pra não explodir mesmo em coisas triviais que eu não planejei antes.</p>
<p>Além disso eu tenho interesses muito estreitos. Eu me distraio, como pessoas com TDAH. Se você me acompanha no instagram, deve ter notado que meus interesses são bem limitados a poucos tópicos que vou super a fundo. É como eu funciono. Dizem que pessoas com autismo tem força cognitiva, tipo memória acima da média ou atenção a detalhes, ou até memória fotográfica como um Sheldon da vida. Eu nunca medi, mas por experiência, acho que pode ser o caso. Mas, eu esqueço muito fácil coisas do dia a dia, eu tinha dificuldade até de lembrar data de aniversário dos meus pais. Mas me pergunte fatos sobre a história da computação e eu te digo nomes e datas. Não sei bem como isso funciona ainda.</p>
<p>É como escrever um script como esse, eu fiz a pesquisa, tenho minhas experiências, tenho o assunto inteiro tudo de uma só vez na minha cabeça enquanto estou escrevendo. Quando eu chamo de &ldquo;dump&rdquo;, não é um exagero, é um dump mesmo, eu derrubo da memória pro teclado de uma só vez. E tenho atenção a detalhes. De bater o olho, vejo um errinho ortográfico e isso me irrita e eu preciso consertar. É assim que escrevo 50 páginas em um dia, em hiperfoco.</p>
<p>Daí tem alguns pontos que eu não me identifico tanto como sensitividade sensorial, tipo hiper sensitividade a cheiros, luzes, toques ou coisas assim. Sons eu tenho, se estou tentando me concentrar, barulhos me irritam profundamente. Quem assiste meus bloopers já viu isso. Também falam de ansiedade, mas comparado a uma pessoa com TDAH, minha ansiedade não chega nem aos pés. Até hoje, situações sociais me deixam ansioso, mas eu aprendi a suprimir. Eu subo num palco e dou uma palestra. Não gosto, por isso evito quando posso. Tem outras nuances como personas e máscaras que são mecanismos que eu aprendi a usar sozinho.</p>
<p>Isso pode soar estranho, porque todo mundo conhece a persona Akita do canal Akitando, youtuber, palestrante, ex-organizador de eventos grandes. E como assim eu tenho problemas de comportamento social e comunicação? Exatamente porque essa persona impede que vocês vejam esses problemas. Por anos, via tentativa e erro, aprendi meio a compensar, mas mesmo assim fica meio Sheldon, às vezes. Pra muitos assistindo, meu transtorno pode me fazer parecer uma pessoa arrogante. Como sou um youtuber, parece normal.</p>
<p>Claro, acho que a maioria consegue entender que não estou tentando agredir ninguém de propósito nem nada disso. E nem eu consigo dizer quanto que a forma como vocês de fora me enxergam tem a ver ou não com os efeitos do meu autismo, ou só por eu ser youtuber mesmo. Como eu nunca tratei e só descobri agora, ao longo dos anos fui criando mecanismos pra me defender e navegar o mundo. Eu sempre achei que era estranho, mas nunca parei muito pra refletir sobre isso, até muito pouco tempo atrás.</p>
<p>Pra piorar, desde quando eu era criança, sempre entendi que era tratado de forma diferente. Bullying por exemplo. Mas na época assumia que era por ser asiático. &ldquo;Ah sim, japoneses naturalmente são zoados&rdquo;. Normalmente eram só uns 2 ou 3 na sala de aula como eu, no máximo. Desde criança eu me achava diferente, mas achava que tinha a ver mais com isso, e nunca passou pela minha cabeça, mesmo depois de adulto, que poderia ser algo como espectro autista.</p>
<p>Mas é aquela sensação de &ldquo;ahhhhh, agora tudo faz sentido&rdquo;. Inclusive já teve pessoas que trabalhavam comigo que me zoavam me chamando de autista, porque quando eu tava no meu hiperfoco, literalmente desligava do mundo, e quando conversava era meio mão única, tinha o lance que eu não entendia sarcasmo ou piadas, então devia ser meio esquisito falar comigo. Eu tendo a falar e interromper mais do que ouvir quando é um assunto que me interessa.</p>
<p>Também me entedio muito fácil da conversa, já quero ir direto pra solução, sem tanta cerimônia. Eu até tenho empatia, mas a história dos outros não costuma conseguir segurar meu interesse muito tempo, eu me distraio e começo a pensar outras coisas, tenho aquele olhar que parece que tô olhando pra você, mas na verdade estou olhando 1km atrás de você. E uma hora depois, se não foi assunto do meu interesse, já esqueci do que falamos.</p>
<p>De qualquer forma, eu não tive muito interesse em estudar o autismo ainda, me foquei no TDAH por motivos pessoais e achei que valia a pena compartilhar. Eu vi em primeira mão os efeitos que depressão pode causar numa pessoa sem suporte e sem tratamento. Mais importante: numa pessoa que acredita que essa condição é fixa, imutável e a única certeza é sofrimento eterno. Eu entendi que um grande passo pra melhorar é justamente &ldquo;entender&rdquo; que o transtorno existe e os mecanismos por trás disso. Torna o problema muito mais palpável, menos abstrato, que começa a dar a noção de que é gerenciável.</p>
<p>Num mar de falsos gurus vendendo soluções mágica no Tiktok, isso só aumenta a ansiedade e frustração e piora a depressão. Cada oferta de solução mágica que não funciona, amplifica a sensação de que a culpa é da pessoa e que nada nunca funciona só pra ela. A culpa não é sua.</p>
<p>Falando em tiktokers, uma dúvida que paira no ar, e que é controversa, é que muitos assistindo devem ter notado que nos anos recentes aumentou bastante o aparecimento de casos de TDAH. Pode ser, ou porque o acesso a diagnósticos melhorou, ou porque de fato aumentou o número de pessoas sofrendo de algum espectro de TDAH. E acho que é um pouco das duas coisas.</p>
<p>Boomers e pessoas mais velhas que eu tem dificuldade de aceitar que transtornos psicológicos existem. Pra muitos parece só drama, mimimi, e gente tentando chamar atenção. Não ajuda que online, tem mesmo muito disso. Por isso os que sofrem de verdade não querem parecer que são esse tipo de pessoa, e sentem vergonha. A maioria das pessoas aprendeu a navegar como deu, evitando situações e, por consequência, limitando sua vida, ou suprimindo, e tendo todo tipo de efeitos colaterais, estresse, depressão, aumento de auto-medicação, álcool e drogas e por aí vai.</p>
<p>Desordens neurológicas são reais, se manifestam fisiologicamente, não é só fruto da imaginação. Também não se pode achar que todo mundo é uma vítima. Pessoas que de verdade enfrentam essas condições são as primeiras que não gostam de se vitimizar e que tenham dó delas. Elas não se expõe. Só querem conseguir fazer as coisas. O problema são os aproveitadores, que se usam dos transtornos dos outros pra aparecer. Não estão ajudando nada.</p>
<p>E tratamento não é camisa de força, hospício, lobotomia nem nada disso. O problema é o estigma. A vergonha de alguém descobrir que você decidiu se tratar, a ansiedade de ficar pensando que alguém vai achar que você é louco e coisas assim. Felizmente, estamos em 2023 e não em 1990. Mas mesmo na minha área, de tecnologia, a maioria de nós ainda não sabe como lidar com isso. Muitos de nós já nos adaptamos de alguma forma, provavelmente não da melhor, mas sabemos das dificuldades, então pelo menos podemos tentar aumentar o interesse em aprender mais sobre o assunto.</p>
<p>Deixando os problemas de lado, a neurologia, psicologia evolucionária e tudo mais são assuntos fascinantes por si só. Você é criador de conteúdo, ou de marketing, ou de UX, ou design, ou economia, qualquer profissão que tenta influenciar o comportamento das pessoas. Mas as pessoas não são nem totalmente lógicas e nem totalmente idiotas pra ficar caindo em truques baratos. Entender essas diferenças ajuda a produzir conteúdos melhor direcionados e melhora os negócios. É sempre ganha-ganha.</p>
<p>Um exemplo pequeno, home office, pra muitas pessoas com TDAH pode ter sido bom, porque como falei, os momentos de hiperfoco não são controláveis. Não dá pra forçar acontecer no horário comercial. E se vier às 9 da noite? Você vai se vestir, pegar o metrô, ir até o escritório? Aí chega lá e a urgência passou. Home office pelo menos dá a oportunidade da pessoa conseguir ser mais produtiva. Tem prós e contras, como sempre, mas novas opções começaram a aparecer em alguns lugares.</p>
<p>Outro exemplo, ouvi falar que algumas poucas escolas começaram a entender o diagnóstico de TDAH e oferecem opção desse aluno ter mais tempo pra fazer uma prova, ou fazer numa sala separada. À primeira vista pode parecer injusto. Mas você não tá entendendo. Ela não controla a ansiedade, ainda. Some a isso outras desordens, como dislexia. A prova em si já deixa ela mais ansiosa que todo mundo e com dislexia significa que vai ver todo o enunciado embaralhado. Ela é totalmente capaz de fazer a conta, mas pra isso precisa conseguir enxergar os números e letras nas posições corretas primeiro. A escola é justamente o lugar onde ela deveria ter a oportunidade de aprender a calibrar essas coisas.</p>
<p>Ainda não tem pesquisas o suficiente, tem muito ajuste em muitos processos que precisam acontecer, e nada disso vai acontecer da noite pro dia. Enquanto isso, nós neurodivergentes, precisamos aprender a navegar no mundo dos neurotípicos, aprendendo os mecanismos pra aliviar a maior quantidade de obstáculos quanto possível. É muito difícil fazer isso sozinho, e é por isso que a mensagem desse video é: se for o caso, aceite que a desordem existe, aceite que tem trazido prejuízos demais, e aceite que não é sua culpa. Mais importante: aceite que existem formas de melhorar drasticamente sua qualidade de vida.</p>
<p>Não vai ser com óleo de cobra, não vai ser ervas nem óleos essenciais, nem lifehacks engraçadinhos, vai ser com os medicamente corretos, com a terapia correta, com um bom especialista. É como quem quebrou feio uma perna e precisa ir num fisioterapeuta reaprender a andar. Não é uma perda de tempo, é uma economia de tempo, no futuro.</p>
<p>Eu não sou o melhor exemplo, mas pelo menos vejam, um neurodivergente pode ter uma carreira produtiva e sucesso. Isso não é um acidente. É aprender o seu espectro e criar estratégias que funcionam pra você. Durante o video todo eu disse que o certo, se você se relacionou com os sintomas que descrevi no video, é ir procurar um especialista. Mas digamos que você queira mais informações. Aqui mesmo no YouTube andei vendo alguns canais que podem ajudar a dar mais informações, caso tenha preguiça de ir ler os papers.</p>
<p>O primeiro é o canal da Dra. Tracey Marks, que é psiquiatra, e faz videos muito bem explicativos e informativos, que podem ajudar a dar nome pra coisas. Vale a pena dar uma olhada. Alguns exemplos que mencionei hoje, vi em videos dela. Outro canal que eu gostei, com ressalvas, é do Dr. K, do canal HealthyGamer. Ele sempre dá vários disclaimers, e suas explicações são muito boas, bem embasadas em pesquisa e exemplos clínicos. Achei interessante um quadro que ele faz conversas com streamers do Twitch, alguns famosos como Pokimane, que se abrem pra discutir seus problemas.</p>
<p>A ressalva é porque ele vende coaching online e fala muito de medicina indiana, que não é exatamente consenso. Mesmo assim, as explicações são sólidas e também peguei emprestado alguns exemplo. Mas tem canais que eu não gostei, como o AspieWorld. Esse é o caso de um não-profissional que fala da condição específica dele. Até tem boas informações, mas acho que o estilo dele de quantidade em vez de qualidade, encheu o canal de muita bullshit, achei mais perda de tempo do que vale a pena. E é uma pena porque vejo toneladas de canais falando de TDAH mas esse é um dos poucos de autismo.</p>
<p>Normalmente eu digo que se ficaram com dúvidas mandem nos comentários abaixo, mas cuidado, se ficaram com dúvidas sobre sua própria condição, consulte um especialista, mas se for como eu e ficou fascinado com o assunto, não deixe de pesquisar. Tem diversos psiquiatras e pesquisadores de neurologia que publicam não só papers, mas videos também pra resumir. Se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de compartilhar o video com seus amigos. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>psicologia</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #138 - Meu Começo de Carreira Durante a Bolha - 1997 a 2002, Bug do Milênio, Crash</title><link>https://akitaonrails.github.io/2023/02/14/akitando-138-meu-comeco-de-carreira-durante-a-bolha-1997-a-2002-bug-do-milenio-crash/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2023/02/14/akitando-138-meu-comeco-de-carreira-durante-a-bolha-1997-a-2002-bug-do-milenio-crash/</guid><pubDate>Tue, 14 Feb 2023 09:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;Já tinha feito videos sobre antes de 1997 e sobre depois de 2002, ficou faltando contar justamente sobre como foi meu começo de carreira, a transição da faculdade pros primeiros empregos, de agência a pontocom, de CD-ROMs pra Web, tudo que eu passei no final dos anos 90 até a virada do século, incluindo o Bug do Milênio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Muitos agora começando carreira ou vendo o atual Crash da Bolha Tech estão inseguros, talvez sirva como perspectiva pra dar uma noção de que crises são cíclicas e qual é a melhor posição pra se estar pra passar ileso todas as vezes.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<p>Já tinha feito videos sobre antes de 1997 e sobre depois de 2002, ficou faltando contar justamente sobre como foi meu começo de carreira, a transição da faculdade pros primeiros empregos, de agência a pontocom, de CD-ROMs pra Web, tudo que eu passei no final dos anos 90 até a virada do século, incluindo o Bug do Milênio.</p>
<p>Muitos agora começando carreira ou vendo o atual Crash da Bolha Tech estão inseguros, talvez sirva como perspectiva pra dar uma noção de que crises são cíclicas e qual é a melhor posição pra se estar pra passar ileso todas as vezes.</p>
<h2>Capítulos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="capítulos"></span>
    <a href="#cap%c3%adtulos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>00:00 - Intro</li>
<li>01:41 - CAP 1 - Relembrando 1997 - Retrospectiva</li>
<li>05:37 - CAP 2 - Meu Primeiro Emprego numa Agência - CD-ROMs</li>
<li>14:03 - CAP 3 - Minha Primeira Comida de Rabo - Sendo Estagiário</li>
<li>18:42 - CAP 4 - Minha Primeira Vez Aprendendo &ldquo;Backend&rdquo; - Microsoft</li>
<li>22:09 - CAP 5 - Combatendo o Bug do Milênio - Y2K</li>
<li>30:24 - CAP 6 - Meu Primeiro Merge e Layoff - A Primeira Pontocom</li>
<li>34:42 - CAP 7 - Entrando numa Agência &ldquo;Big 5&rdquo; - F/Nazca</li>
<li>37:55 - CAP 8 - A Primeira Vez Procurando Emprego - PSN</li>
<li>41:50 - CAP 9 - A Segunda Vez Procurando Emprego - SAP</li>
<li>44:54 - CAP 10 - O que me Motivava? - Perspectivas</li>
<li>46:45 - CAP 11 - O seu Colega Contrataria Você? - Verdadeiro Networking</li>
<li>52:10 - CAP 12 - Varar Noites?? - DISCLAIMER</li>
<li>54:00 - CAP 13 - Mas Akita: O que você recomenda pra mim? - O que o Akita NÃO Fez?</li>
<li>58:42 - Bloopers</li>
</ul>
<h2>Links<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="links"></span>
    <a href="#links" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><ul>
<li>
<p>Playlist: Minha História (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0&amp;list=PLdsnXVqbHDUe50Aqsa-i_NW42AkuByQZa"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0&list=PLdsnXVqbHDUe50Aqsa-i_NW42AkuByQZa</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Playlist: Eu Avisei (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=wpPv1dJWjDs&amp;list=PLdsnXVqbHDUehzKjiRruy--gncHz9Injy"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=wpPv1dJWjDs&list=PLdsnXVqbHDUehzKjiRruy--gncHz9Injy</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Playlist: Carreira (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U&amp;list=PLdsnXVqbHDUcAWAN3cXHWnM9JEw2gjIN9"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U&list=PLdsnXVqbHDUcAWAN3cXHWnM9JEw2gjIN9</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Macworld 1997: The return of Steve Jobs (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=IOs6hnTI4lw"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=IOs6hnTI4lw</a>)</p>
</li>
<li>
<p>LinuxMall - A história de uma das primeiras lojas virtuais do Brasil (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=BGVmQEpKTSI"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=BGVmQEpKTSI</a>)</p>
</li>
<li>
<p>The iPod Revolution (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=FQwzI4kBG1o"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=FQwzI4kBG1o</a>)</p>
</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Pra quem acompanha o canal desde o começo, deve ter notado que eu contei um pouco da minha carreira na área com videos como Meus Primeiros 5 Anos que fala um pouco de 1990 até 1995 que foi quando comecei na faculdade. Daí o video sobre o Livro &ldquo;Estrada do Futuro&rdquo;, falando um pouco sobre 1996. No video da minha Máquina do Tempo falo da importância de backups e alguns trabalhos que eu fiz por volta de 1996 a 1998. Teve os 2 videos curtos da Sua Linguagem é Especial? Onde falo sobre dois pequenos cases técnicos por volta do ano 2000.</p>
<p>Teve o video de Você não entende nada de Enterprise, onde falo sobre SAP, que foi meu período de consultoria entre 2002 a 2007. Finalmente, o video da História do Ruby on Rails que cobre um pouco entre 2007 a 2016. Mas ficou um buraco dessa história entre mais ou menos 1996 a 2002. Justamente o período final da Primeira Grande Bolha da Internet que explodiu no ano de 2001, junto com as Torres Gêmeas. O que eu estava fazendo naquela época?</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Fiquem até o final do video que tenho alguns comentários a fazer sobre minha playlist de Eu Avisei, em particular o video sobre o estouro da Bolha de Tecnologia recente. Se quiser entender mais os princípios financeiros por trás dessa bolha, não deixe de assistir a playlist inteira. Até já aviso que esse video pode soar um pouco auto ajuda, especialmente pro fim, mas é o mais honesto que eu posso ser comparando minha situação 25 anos atrás com a situação de agora e talvez dar alguma perspectiva ou inspiração. Depois vocês me digam.</p>
<p>Mas vamos lá. O período entre 1996 até 2002 foi provavelmente quando eu mais aprendi tecnologias que não são mais usadas hoje em dia. A idéia é tanto um pouco de nostalgia pra vocês que estão na faixa dos 40 anos, mas também perspectiva pra vocês que estão na faixa dos 20 anos. O que o Akita estava fazendo depois da faculdade?</p>
<p>Pra quem não lembra, 1997 foi o ano que morreu a Princesa Diana, foi o maior rebuliço isso. Eu nem acompanhava mas lembro que falavam disso toda hora. Também foi o ano em que a J.K. Rowling publicou o primeiro livro do Harry Potter. Eu nem sabia disso, só fiquei sabendo que esses livros existiam mais perto de quase lançar o primeiro filme. Outra coisa engraçada, foi o ano que o Mike Tyson mordeu fora a orelha do Evander Holyfield, quem não lembra disso? Falando nisso, pro povo que curte perder tempo com documentário da Netflix, foi o ano que o O.J. Simpson foi julgado culpado.</p>
<p>E pra gente de tecnologia, foi o ano que o Steve Jobs anunciou sua volta pra Apple Computers, que na época tava negativo 1 bilhão de dólares, a dias de fechar as portas. Conseguem imaginar isso? A empresa mais valiosa de tecnologia hoje, em 1997 estava praticamente falida. Os anos 90 foram muito divertidos.</p>
<p>Enquanto isso, eu tinha 20 anos, indo pro 3o ano de faculdade. Quem assistiu os episódios anteriores vai lembrar que eu tava trabalhando como monitor na sala de computadores do CCE, aprendendo tudo que podia sobre UNIX, Internet, essa novidade chamada Web. Ao mesmo tempo, assim como a maioria de vocês de 20 anos, eu tava de saco cheio da faculdade. No meu caso, passava muito pouco tempo na minha faculdade mesmo, no IME. Eu preferia gastar meu tempo na sala de computação do CCE que ficava atravessando a rua, na Politécnica, e meus amigos eram todos da Engenharia Elétrica. Eu fazia Ciência da Computação e nessa época já quase não tinha nenhum amigo no meu curso mesmo.</p>
<p>Todo dia eu ficava deslumbrado com as novidades que surgiam. Estávamos no meio pro fim da transição da arquitetura de 16-bits pra 32-bits com os Pentiums. Estávamos no fim da transição de ambiente texto do MS-DOS pros gráficos do Windows, OS/2 e no caso de UNIX eu aprendi que existia Solaris, Irix. Estávamos entendendo como criar aplicações distribuídas nessa tal de Internet em vez de programas isolados feitos no meu antigo Clipper ou FoxPro. Novas linguagens estavam começando, como Java, Delphi. E naquela época não existia nada na Web ainda que chegasse perto de redes sociais.</p>
<p>Não existia Reddit, não existia Stackoverflow, não existia blogs, não existia Google. O máximo que a gente tinha eram sites que manualmente indexavam outros sites como o Yahoo ou Lycos, e as primeiras tentativas de indexação automática com sites como WebCrawler ou o famoso Altavista. Mas comparado com hoje, era hiper rudimentar. Pesquisar pra comprar componentes de computador, por exemplo, a gente ainda fazia via página de classificados nos jornais.</p>
<p>Foi naquela sala de computador da Politécnica, que tinha um quadro de avisos onde encontrei o anúncio do meu primeiro emprego. Uma agência pequena de novo esquisito, Kropki, não muito longe dali, de um professor da Escola de Comunicação e Artes na USP, a ECA, que era na mesma rua, passando a Politécnica, o IME que é minha faculdade, daí vinha a FEA que é a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, daí era a ECA. Pouco antes da famigerada FFLCH, que recomendo passar longe. Enfim.</p>
<p>A agência em si, era caminhando pra fora do campus da USP, atravessando a ponte da Cidade Universitária em direção à Praça Panamericana. Uma caminhada de uns 5km a partir da minha faculdade, ou uns 40 minutos a pé. Na época eu considerava isso perto o suficiente pra ir a pé mesmo. Nessa época às vezes pegava o carro do meu pai emprestado, mas andava muito a pé e de ônibus mesmo, então era importante não ser longe demais e em São Paulo, 5km é o que chamamos de &ldquo;aqui do lado&rdquo;.</p>
<p>Fui até lá, e acabei sendo contratado como estagiário. Lá era uma agência que tinha meia dúzia de funcionários, uns 3 ou 4 designers que mexiam em Photoshop, alunos da ECA, ajustando capas de jogos de videogame, pra antiga Tectoy. Eles faziam as capas dos jogos de Megadrive, e tinham alguns outros clientes. Eles queriam entrar no mercado de multimídia e Web, mas eram mais usuários de Adobe do que qualquer outra coisa e precisavam de alguém de tecnologia, e esse alguém seria eu.</p>
<p>Lá tinha uns 3 ou 4 Mac Quadra ou Centris, não lembro exatamente. A linha feia bege da era do MacOS System 7 e 8, o período negro da Apple sem o Steve Jobs. Mesmo assim eu achava fascinante, afinal era a primeira interface gráfica comercial de sucesso e o Windows 95 ou 98 daquela época ainda era super cru em comparação. Infelizmente eu era o único que ia ter que usar um PC com Windows justamente pra experimentar as coisas novas saindo pra essa tal de Web.</p>
<p>De curiosidade, os Mac Quadra daquela época acho que eram os últimos modelos anteriores à migração pra PowerPC então ainda usavam os processadores Motorola 68000, como o 68040 de 33Mhz, talvez uns 16 Megabytes de RAM, HD externo SCSI. Foi a primeira vez que vi SCSI e zip drives da Iomega. O meu PC era mais novo e mais potente, um Pentium MMX acho que já de 100 Mhz, com uns 16, talvez 32 megabytes de RAM. Monitor Super VGA de 1024 por 768 pixels, um pouco mais do que o que chamamos de HD hoje em dia, que é 720p. RAM nos anos 90 era super caro, talvez a parte mais cara do computador.</p>
<p>Também de curiosidade, meu salário de estagiário naquela época foi de uns 500 reais. Ajustado pelo IPCA seria equivalente hoje a uns 2 mil reais. Super justo. Eu tava empolgado pra mexer mais na Web, mas queriam que eu aprendesse a fazer CD-ROMs. Na prática eu tava empolgado pra mexer em qualquer coisa que fosse no computador, e estava sendo pago pra isso, tanto fazia pra mim com o que eu ia ter que mexer.</p>
<p>Entenda. Não existia LinkedIn, nem Twitter, nem nada. Não existia eventos de tecnologia pra programadores. No máximo eventos corporativos de Microsoft ou Oracle. Meus colegas da faculdade estavam todos procurando programas de trainée numa Oracle da vida, ou bancos. Ninguém que eu conhecia tava indo trabalhar em agência. Eu deveria estar preenchendo formulários de programas de treinamento na indústria automobilística, seguros ou saúde, pra aprender a mexer em mainframes e Cobol. Mas eu nunca nem procurei saber como esse mercado funcionava. Eu achei esse emprego, tava meio de saco cheio da faculdade, liguei o &ldquo;foda-se&rdquo; e só fui.</p>
<p>Pra vocês terem uma idéia do que significava isso de CD-ROM, eu instalei um Windows Me num emulador chamado DOXBox-X, altamente recomendado se quiser rodar programas e até jogos de DOS daquela época, roda super bem mesmo num PC modesto de hoje. Uma empresa de tecnologia que era super reconhecida naquela época se chamava Macromedia, que fazia esse troço chamado Director. Director quando abre tem o que ele chama de stage, tipo um palco. Embaixo tem uma timeline.</p>
<p>Podemos abrir essa janela de casting, que é o nome que se dá ao grupo de atores escolhidos pra uma peça. O Director tem esse nome porque usa essa metáfora de um teatro, palco, atores, casting. Enfim, podemos inserir diversos tipos de objetos como bitmaps, clipes de video e no caso estou criando um objeto de vetor, semelhante ao que se faria com CorelDraw ou Adobe Illustrator. Olha só, aparece aqui na janela de casting. Agora posso arrastar pro stage, pro palco.</p>
<p>Daí posso criar keyframes, mover o objeto um pouco, ir mais pra frente, criar outro keyframe, mover o objeto mais um pouco e ir fazendo assim. Agora voltamos pro começo da timeline, damos play e voilá, uma animação super crua. E se isso pareceu familiar pra alguns de vocês, o Director começou sendo um software pra exportar executáveis pra gravar em CD-ROM, mas com a Web não ia demorar pra passar a exportar num formato distribuível pela Web instalando plugin em navegadores da época como o Netscape ou as primeiras versões do famigerado Internet Explorer. Era o formato Shockwave.</p>
<p>Com a evolução rápida da Web, a Macromedia simplificou o Director, focou mais na parte vetorial, as ferramentas mais simples de animação e chamou de Macromedia Flash. Essa é a origem do Flash, mas estou me adiantando. Deixa eu voltar pro Director. Assim como em Flash, todo mundo sabe que tinha uma linguagem derivada de Javascript pra programar interatividade, chamada ActionScript. O Director também tinha uma linguagem, só que ainda mais rudimentar, declarativa, chamada Lingo.</p>
<p>Por exemplo, posso adicionar um script aqui num dos frames pra pausar. Pronto, rebobino a fita, dou play de novo e ele pára aqui. Se tem o comando &ldquo;pause&rdquo;, deve ter o comando &ldquo;resume&rdquo;. Posso adicionar um novo comportamento nesse sprite, no evento &ldquo;mouseUp&rdquo; que é quando eu termino de apertar o botão do mouse, posso adicionar &ldquo;resume&rdquo; usando essa ajuda rudimentar aqui que lista todas as funções do Lingo. Resume sprite 1. Dou play de novo, ele pausa, clico no ator e &hellip; erro.</p>
<p>Handler not defined. Maldito erro genérico, Javascript deve ter se inspirado em Lingo. Bom, vamos procurar no Stackoverflow então. Só que em 1997 não tinha Stackoverflow, nem Google, nem fóruns de discussão. Eu tinha um livro impresso. O software tem essa documentação local aqui. E era isso. Nem se eu perguntar hoje pro ChatGPT ele sabe me dar uma boa resposta. E agora em 2023 obviamente não lembro mais o que significa isso. A única coisa que me ocorre é uma gambiarra. Já que resume não funciona, estou aqui no frame 6, então vou dar comando pra pular pro próximo frame e torcer pra continuar. Go to frame 7. Como eu disse é uma linguagem declarativa.</p>
<p>Rebobina, dou play, pausa, clico no ator e boom, ele continua como eu queria. E meu dia a dia era assim: mensagens de erro que não diziam coisa nenhuma, ficar fuçando a documentação e tentando coisas até conseguir fazer funcionar. Imagino que não é muito diferente do que a maioria de vocês fazem hoje em dia, só que eu tinha bem menos opções de onde pesquisar erros. Foi fazendo assim que consegui compilar meu primeiro CD, que foi esse aqui do lançamento do Volks Parati 4 portas.</p>
<p>Se não me engano foi uma campanha pra dealerships, pra treinamento dos vendedores de concessionárias, mas enfim, é como se fosse um site web estático, mas em formato de CD-ROM. &ldquo;E por que não um site de uma vez?&rdquo;, alguém poderia perguntar. Por que internet em 1997 era altamente opcional. A maioria da população ainda nem sabia o que era isso. Mesmo em pequenas empresas, no máximo o povo tinha conexão discada via iG ou Terra ou America Online, ou UOL. E a conexão média era de 19 kilobits por segundo.</p>
<p>Uma imagem de 160 pixels por 150 pixels, metade do que seria a tela de um Nintendinho, com 7 bits de cor, dava uns 20 kilobytes. Imagine múltiplas imagens dessa. Levava vários segundos a minutos pra montar uma tela como essa via web. Por isso a Web de 1997 era bem mais rudimentar do que era possível fazer num CD-ROM, que já vinha com todas as imagens, clipes de video, áudio e tudo mais local, num CD de 650 megabytes. Streaming de video e áudio era impossível naquela época. Só que todo mundo pagou uma grana investindo nos tais kits multimídia, como da Creative Labs, e queriam ver videos e áudio. O que a gente fazia em CD era impossível de fazer na Web.</p>
<p>Assistam meu video sobre compressão, de 25 TB pra 5 gigabytes, onde explico sobre cores, algoritmos de compressão e tudo mais. Boa parte do meu trabalho era converter Jpegs com 8 bits de cor em GIFs com paleta de cor menor pra fazer versão web de algumas coisas. Naquela época, o mais comum eram monitores VGA de 800 por 600 pixels, que seria o nosso &ldquo;4K&rdquo; considerando que o padrão era tipo 320 por 240 num sistema operacional texto como MSX, Commodore ou consoles como Super Nintendo ou Megadrive. E com 256 cores.</p>
<p>Olha alguns dos sites que eu fazia naquela época, vou só passar aqui alguns slides de fotos de tela, mas deve dar pra dar uma noção de quão limitado era a tecnologia da época. Hoje em dia vocês estão acostumados no mínimo a Full HD que é 1080p e pelo menos 8 bits de cor com milhões de cores possíveis, ou HDR com 10 ou 12 bits de cor em 4K nos monitores mais avançados. Pular de 80 colunas por 24 linhas em monitor de 240p, pra VGA colorido em 768p, é como vocês pulando de Full HD pra 4K hoje em dia.</p>
<p>O CD-ROM mais complicado que eu fiz, foi o projeto do lançamento do Fiat Marea. Esse foi particularmente difícil porque a Fiat ainda tava mudando detalhes como opcionais do carro, cores de tecidos, e coisas assim enquanto a gente tava montando o CD. Os designers tinham que fazer coisas como mudar a cor dos tecidos nas fotos antigas direto no Photoshop, porque não ia dar tempo de tirar novas fotos em estúdio com os novos materiais. Foi a primeira vez que eu vi Photoshop sendo usado pra coisas desse tipo e isso explodiu minha cabeça naquela época. Foi vendo isso que decidi aprender mais sobre essa parte gráfica e aprender Photoshop.</p>
<p>Se eu montasse o CD do jeito tradicional, como eu mostrei no começo, até que não era um projeto difícil. Mas eu era um aluno de ciências da computação aprendendo coisas como Delphi, Java e esse troço novo na época chamado Orientação a Objetos. E eu ficava tentando adicionar objetos em tudo. Delphi era basicamente Pascal com objetos, tanto que chamava Object Pascal. Mas eu usava ainda o Turbo Pascal 6 de DOS, que não tinha classes, mas tinha objetos rudimentares, e eu queria adicionar suporte a pelo menos encapsulamento e talvez herança nessa linguagem rudimentar de Lingo pra Director.</p>
<p>Tá vendo esse menu principal? Ele aparece em todas as seções do CD. Cada seção o Director recomenda organizar como um arquivo separado, daí um evento num arquivo basicamente carrega outro arquivo. Seria como um anchor em HTML que tem a URL pra carregar outra página. Eu queria fazer um objeto reusável entre todos, o que vocês chamariam hoje de componente. Obviamente isso é um caso de uso não documentado, que não tinha em nenhum livro. E óbvio que deu um monte de bug que eu tive que varar muitas noites pra resolver. E quando digo muitas, quero realmente dizer MUITAS noites sem dormir.</p>
<p>Lembro até hoje que por minha culpa, quase não deu pra lançar o CD. Entenda: hoje em dia se alguma coisa dá pau, fácil, só subir um commit de correção, deployar e em alguns minutos tá corrigido. Mas um CD exige um compromisso que nenhum de vocês vê mais hoje: uma vez prensado, não tem como corrigir os CDs distribuídos. Esses CDs do Fiat Marea iam ser distribuídos em revistas da Editora Abril como Quatro Rodas e Playboy, e uma vez queimado o CD Gold, o master, não tem mais como corrigir.</p>
<p>O processo todo já tava atrasado de qualquer jeito porque a Fiat não parava de fazer modificações de última hora que exigia mudar textos da especificação dos modelos, opcionais, e tudo mais, e em cima disso toda vez que a gente ia apresentar pro gerente de contas da Fiat, minha programação dava um bug inesperado. No último dia, literalmente na última hora, lembro de compilar a última versão, gravar num CD na agência, pegar o carro, tipo 10 horas da noite e ir até a Zona Norte de São Paulo, onde ficava a antiga Sonopress, a fábrica que prensava os CDs em massa.</p>
<p>Pensa, eu era estagiário, tinha 20 anos, fui sozinho com o CD embaixo do braço pra mostrar pro gerente de contas mais rabugento, mau educado e nervoso da face da Terra, roendo todas as unhas das mãos e dos pés, porque depois de tantos dias de bugs, eu tava com minha confiança por um fio. E por sorte, nos 45 do segundo tempo, navegamos por todo o CD e funcionou sem bugs.</p>
<p>Ali ele deu ok pra Sonopress prensar. Lembro até hoje, saindo com ele, no estacionamento, ele me parou e ventilou tudo que tinha que ventilar na minha cara. Eu não lembro de uma palavra do que ele disse, só que eu fiquei ali, sei lá, 11 horas da noite, paralizado no meio do estacionamento vazio, só ouvindo. Foi a primeira comida de rabo sério que tomei. Vocês acham que eu sou rabugento nos videos? Volta aqui depois que experimentarem terem saliva voando na sua cara de alguém gritando.</p>
<p>Eu queria ter uma moral da história, tipo que depois disso eu me tornei mais cuidadoso, mais prudente, que me ajudou de alguma forma, mas tem uma coisa que descobri recentemente que talvez explique como reagi na época: eu fiz teste preliminar com psicólogo e de fato, parece que eu tenho um certo grau de Asperger, tipo um autismo leve. Eu compartimentalizo. Nada se torna gatilho pra eu desistir ou fazer alguma coisa por conta de algum evento traumático ou importante de alguma forma. Eu compartimentalizo, embrulho, enterro e sigo em frente. Não tenho idéia de como outras pessoas lidam com isso, porque uma pessoa mais sensível provavelmente teria abandonado tudo naquele dia.</p>
<p>Eu já tive que ouvir outras pessoas ventilando mais do que seria profissional, mas naquele nível, felizmente foi a primeira e última vez. Eu não sei fazer as coisas como as outras pessoas esperam que eu faça. Se eu coloco uma coisa na cabeça, quero tentar fazer, independente do trabalho que vou ter. Foi o que falei no video de Por que fazer o que Ama, só que não. Eu não faço as coisas que eu gosto, eu faço as coisas porque eu gosto de saber se consigo fazer.  Depois que consigo, perco o interesse, e procuro outra coisa.</p>
<p>Na faculdade eu tava empolgado com UNIX, com Delphi, com Java,  HTML, Javascript, não muito diferente do que muitos de vocês hoje devem estar vendo. Talvez Python, que ainda não era popular na época. Mas na agência me pediram pra aprender a fazer CD-ROM com Director. Eu nunca tinha ouvido falar nisso até entrar lá, nunca tinha planejado gastar 1 ano fazendo CD-ROM. Mas quando ouvi essa proposta, coçou os dedos. Eu queria saber se conseguia fazer. E não só fazer, mas fazer de formas que não era comum. O preço disso era que eu ia varar noites, tomar comida de rabo, mas eu entregava. Essa sempre foi minha motivação: entregar.</p>
<p>Em paralelo eu fazia os sites estáticos, em HTML puro. Aliás, na época não existia CSS ainda, tá? Formatação era usando tags como &ldquo;font&rdquo; e atributos de estilo inline com &ldquo;style&rdquo;. Aos poucos fui mexendo em mais tecnologias Web. A internet começou a ficar um pouco mais rápida, pulamos pra modems de 56 kilobits por segundo, depois pra 128 kilobits quando o Speedy, Ajato e outros provedores de banda larga começaram a chegar. Daí migrei de Director pra Flash, e comecei a aprender ASP.</p>
<p>Por volta de 1998 eu fiz um pequeno trabalho pra construtora Camargo Correa que envolvia indexar vários documentos PDF que eles tinham pra fazer tipo um motor de busca, um search engine, usando o antigo Microsoft Index Server que depois acho que virou Indexing Services. Isso tinha no IIS que vinha nos antigos Windows NT 4. A idéia era fazer um pequeno site de intranet, que seria acessado só internamente, pra conseguirem pesquisar rapidamente a biblioteca de PDFs deles.</p>
<p>De novo, 1998 foi quando o Google tinha acabado de ser fundado, literalmente funcionando da garagem. Nessa época já existiam várias tecnologias pra pesquisar conteúdo. Todo mundo rapidamente começou a perceber que com a microinformática sendo largamente adotada, documentos digitais começando a ganhar peso, o volume de conteúdo aumentava exponencialmente e precisávamos dar um jeito de organizar tudo e facilitar pesquisa.</p>
<p>Eu sabia disso em 1998? Não tinha nem idéia, só viria a começar a usar Google talvez no ano 2000. Eu era assim: &ldquo;ow, tem que fazer um site pra pesquisar documentos&rdquo;. Eu sabia como? Não tinha nem idéia, daí ia fuçar como resolver. Microsoft era uma das poucas empresas que tinha boa documentação online no MSDN. Assim esbarrei em Index Server. Pra isso precisava aprender ASP, daí lá vou eu aprender ASP e ao mesmo tempo tinha que saber Microsoft SQL Server. Eu sabia o que era SQL? Não. Lá vou eu aprender. Tudo pra fazer esse um projetinho.</p>
<p>A gente já ouvia falar da tal da Oracle, que na época era uma das maiores gigantes no mundo de tecnologia com seu banco de dados que eu sabia toda grande empresa usava. Eu nunca tinha visto um, só sabia que era difícil. E não era como se desse pra ir no site e baixar. A licença custava milhares de dólares, vinha em pacote físico, com livros, CDs e tudo mais. Não era acessível pra meros mortais como eu. E foi aí que a Microsoft foi inteligente, porque um SQL Server, eu conseguia baixar, aprender e usar, tudo online. E foi assim que comecei a aprender sobre SQL.</p>
<p>Comecei com o SQL Server 6.5 e de curiosidade, o SQL Server começou como um port do antigo banco de dados da Sybase pra OS/2, em 16 bits, em 1989. Saiu a versão 4.2 pra NT em 1993 e o 6.0 saiu em 1995. A versão 7 sairia um pouco depois que eu comecei a aprender. Foi a versão que eu mais usei.</p>
<p>De qualquer forma, a vida daquela pequena agência tava chegando no fim por volta de 1998. Acho que trabalhei lá só uns 2 anos e nesse período aprendi HTML, Director, Flash, comecei a aprender ASP, SQL Server. Mas pelo jeito o dono não soube administrar bem a empresa, ela foi diminuindo, até que só sobrou eu e mais um outro funcionário e passamos a trabalhar da sala de professores na faculdade, na ECA. Fiquei pouco tempo lá, porque um amigo meu me chamou pra trabalhar na empresa dele. Como parecia que não tinha mais pra onde ir mesmo, resolvi aceitar.</p>
<p>Essa empresa foi a STI, um dos primeiros provedores de internet do Brasil. Começou como uma BBS e evoluiu pra internet. E lá trabalhava meu vizinho. A gente se conhecia desde adolescente e aprendemos a mexer em computador juntos. No episódio dos primeiros 5 anos eu falo dele, o Thiago Madeira, que teve sua própria BBS antes de ir pra STI enquanto eu ia pra faculdade e foi ele que tinha o contato que me colocou como monitor da sala de computação da USP pra baixar pirataria pra BBS dele. Contei essa história no outro video.</p>
<p>Enfim, já era quase meio de 1999 e a empresa tinha um problema. Por anos toda a administração era controlada por um software feito por um dos co-fundadores, no antigo Clipper de DOS, que eu conhecia e programava no começo dos anos 90. Ele controlava tudo: cadastro de cliente, faturas, cobranças, suporte técnico e  mais. Programas em Clipper eram feitos pra funcionar com um único usuário numa única máquina, mas ao longo dos anos 90 criaram várias gambiarras pra compartilhar o arquivo de banco de dados via redes, como em infraestrutura da antiga Novell Netware.</p>
<p>Dava pra ver que era a clássica empresa que nasceu em garagem e cresceu rápido: o servidor já tava perto do último suspiro, era um PC de gabinete aberto, com um ventilador apontado pra ele, ligado em rede pra todo mundo da empresa conseguir acessar. A forma de fazer isso era bloqueando o arquivo de banco de dados, fazendo alguma operação, daí desbloqueando pro próximo poder usar. Essa é a forma mais rudimentar de banco de dados que existia, mas funcionou por anos, até a empresa ter dezenas de funcionários e milhares de clientes.</p>
<p>Mas esse não era o maior problema, porque eles tinham dinheiro de sobra pra colocar tudo num hardware mais moderno. O problema era que Clipper foi feito nos anos 80, numa época onde 640 kilobytes de RAM era o máximo. Onde a gente literalmente escovava e economizava bits onde dava, em particular nos tipos de data. Pra que gravar 1980 se só gravar 80 já era suficiente? Economizava 2 bytes por registro fazendo isso. Daí na hora de mostrar era só concatenar &ldquo;19&rdquo; na frente e pronto. Quer saber quantos anos se passaram de 1990 até 1998? Só fazer 98 menos 90. Ponto.</p>
<p>Mas em breve, teríamos contas assim: 2000 menos 1998 dá quanto? Não dá pra fazer 00 menos 98. Dá pau. Esse é o famoso Bug do Milênio ou Y2K como chamamos hoje. A solução correta era recompilar num Clipper mais novo, que tinha correção de ano 2000, vasculhar o código-fonte onde faz contas com datas e checar se não tem nada hardcoded com 2 bytes e ir ajustando. Daí fazer uma versão mais nova que funcionaria depois do ano 2000.</p>
<p>Só que era uma empresa de tecnologia, nova, com pessoas novas, com um co-fundador técnico, coisa rara na época. Foda-se, vamos reescrever tudo em tecnologias mais modernas. Na época, era justamente pra fazer tudo em 32-bits, com a moderníssima linguagem ASP, pra funcionar em cima de SQL Server, num Windows NT, coisa profissa. Obviamente eu fiquei empolgado, afinal, era justo as coisas que eu tava começando a aprender por causa do último projeto na agência. Alguém vai me pagar pra eu continuar aprendendo? Bora.</p>
<p>O problema: tinha menos de 6 meses pra fazer as coisas funcionarem, já estávamos por volta de junho de 1999. Lembrem-se que existem coisas como plano semestral. Tem partes que já iam começar a falhar se fôssemos imprimir boletos no futuro. A partir de agosto de 1999 já ia passar a barreira pra janeiro de 2000. Eu não tinha idéia do trabalho que algo assim poderia dar, se tivesse talvez não tivesse concordado e sugerido um plano mais convencional como tentar ajustar em cima do código legado mesmo. Mas eu era um moleque de 22 anos que só queria a oportunidade de mexer com coisas novas.</p>
<p>Por sorte a equipe que foi formada era muito boa. Eu não era o melhor mas certamente era o mais arrogante, não tenha dúvidas disso. Na minha cabeça tudo dava. Eu não lembro mais de todos os detalhes, mas precisávamos fazer ferramentas de atendimento pra todo o pessoal do suporte técnico que atendia os clientes, tipo ferramenta de help desk, mais um banco de conhecimento com todos os truques que se sabia pra ajudar os novos atendentes. Precisava fazer ferramenta da parte financeira, consolidação de contas, impressão de boletos, gerenciar vendas e por aí vai. Era tipo um mini ERP dessa empresa.</p>
<p>Falando em Bug do Milênio, muita gente de fora achava que ia chegar 31 de dezembro de 1999 e na virada do ano tudo ia quebrar. Inocentes, tudo já ia começar a quebrar pelo menos 6 meses antes, em alguns lugares antes ainda. Que nem o caso de boletos que eu falei. Como você imprime um boleto datado pra janeiro de 2000? As empresas não estava às cegas assim não, todo mundo já tava tendo que lidar com esse problema muitos meses antes do que a população em geral imaginava.</p>
<p>Lembro até hoje de outro episódio &ldquo;what the fuck&rdquo; que passei. Se não estou enganado, todo mês imprimiam os boletos pra mandar por correio pra todos os milhares de clientes. E não lembro detalhes, mas justamente acho que se o cara contratava um plano semestral, já mandavam os 6 boletos de uma só vez. E por isso já por agosto ia ter o problema do ano 2000 que acabei de explicar. Em determinado momento de 1999 as pessoas já iam receber boletos datados pra pagar no ano 2000.</p>
<p>Lembrando também que falei que o sistema antigo em funcionamento era em Clipper, ou seja, com banco de dados que é só um arquivão gigante em formato DBF, sem servidor intermediando. Também falei que era um arquivão compartilhado numa rede Novell, que rodava em DOS com sistema de arquivos FAT16. Quem já lidou com isso sabe: esse sistema de arquivos não tem absolutamente nenhum tipo de funcionalidade de prevenção e correção de erros. Basta cair a luz uma vez pra começar a dar muita merda. Dados corrompidos era rotina.</p>
<p>Precisávamos fazer engenharia reversa desse arquivo pra dar carga no SQL Server. Só que à medida que abríamos esse arquivo dava pra ver que tinha registros corrompidos no meio do caminho. Povo de data science sabe o que significa &ldquo;limpar dados&rdquo;. Essa foi minha primeira experiência usando SQL como se não houvesse amanhã pra limpar e várias queries pra garantir que tava tudo certo. Diferente de data science, que se tiver algum errinho não costuma ser um grande problema porque dá pra lidar com margens de erro, quando falamos de contabilidade, não pode ter uma vírgula fora do lugar. Ninguém pode receber cobranças erradas. Qualquer pequeno volume de erros significava congestionamento no atendimento pra resolver.</p>
<p>Daí finalmente fizemos uma primeira versão que ia imprimir os novos boletos pela primeira vez. Não lembro, talvez agosto ou setembro de 1999. Fiz um monte de queries, ainda tinha uns bugs que eu não tava satisfeito, mas chegamos no momento de &ldquo;acho que tá bom o suficiente&rdquo;. Mandamos rodar e as impressoras no andar de baixo começaram a imprimir. Pensa que ia levar a noite inteira imprimindo pro serviço de entrega ir buscar as caixas na manhã seguinte.</p>
<p>O escritório do STI ficava numa cidade chamada Santana de Parnaíba, depois de Alphaville aqui de São Paulo, quase 30 quilômetros de distância da casa dos meus pais onde eu morava. 45 minutos de carro sem trânsito ou 2 horas, que era o que eu levava todo dia pra voltar. Eu passei o trânsito todo da volta com pulga atrás da orelha. Cheguei em casa, jantei e tal, deitei pra dormir e foi aí que me ocorreu: tinha um bug que ia foder todos os boletos!</p>
<p>Lembro que levantei no susto, peguei o carro sei lá, meia noite e fui correndo pro escritório. Eu tive meu momento de &ldquo;parem as máquinas!!!&rdquo; E passei a madrugada tentando corrigir o tal bug. Queria lembrar o que era exatamente, mas era um bug lazarento. Eu acho que consegui resolver e finalmente deu pra continuar imprimindo a tempo de acabar pra entrega de manhã. Eu tenho poucas memórias daquela época. Acho que deu certo porque não lembro de repercussões tão negativas. A gente sabia que podia ter um certo grau de erro, mas era importante não ser demais pra não congestionar o suporte.</p>
<p>Meus primeiros 10 anos seriam uma sucessão de eventos desse tipo: pegar desafios que eu não tinha idéia de como fazer, varar noite tentando resolver, causar muitos bugs que não sabia como corrigir, e arrancar os cabelos tentando descobrir. Muito me admira que eu ainda tenho cabelo. Enfim, acho que chegamos muito perto de conseguir substituir o sistema antigo pelo novo, mas aí aconteceu um evento inesperado: a STI foi adquirida por uma outra empresa maior, a PSINet.</p>
<p>Por causa desse merge mudou muita coisa, não sei se nosso sistema foi usado ou não ou se iam adotar outro, mas foi onde vi meu primeiro layoff, demissão em massa. Num merge de várias empresas, acaba que muitas posições ficam redundantes, daí demitiram muita gente de uma só vez. Ouvi falar que muitos ficaram descontentes, saqueram o escritório, levaram computador, monitor e coisas assim.</p>
<p>No meu caso foi diferente, porque minha equipe, que era próxima dos co-fundadores, foi levada pra montar outra empresa. Eu não tinha outra coisa pra fazer, fui junto. Montaram outro escritório e me pediram pra pegar um produtinho que eles compraram pra envio de email e falaram pra eu fazer uma interface gráfica pra ela. O problema que tinha que ser em PHP. Eu passei meses mexendo em ASP e tava super fluente, mas beleza, lá vou eu aprender outra coisa. Ainda bem que eu tinha aprendido um pouco de UNIX e Linux na faculdade porque agora ia precisar mexer com Linux e Apache.</p>
<p>Esse produtinho foi batizado de Internet Email Grátis ou ieG, um dos primeiros produtos independentes, que não era atrelado a um provedor, pra dar email grátis pra qualquer um. Pense um Gmail rudimentar, 6 anos antes do Gmail. Eu tava explorando a idéia de uma interface gráfica Web que seria parecido com um aplicativo nativo de Windows de verdade, daí fiz uma versão Web do Outlook Express, antes do Outlook pra Web sair de verdade. Ponto de comparação naquela época acho que já tinha Hotmail.</p>
<p>Esse produto foi fácil, daí formou uma nova equipe e nos pediram pra fazer outro produto: um Geocities brasileiro. Pra quem não sabe o que é Geocities, era um produto web pra qualquer um conseguir ter sua própria homepage pessoal gratuita. A contrapartida era deixar colocar um banner no topo pra monetizar. A nossa ia se chamar HomePage Grátis ou HPG. Quem começou a mexer com internet no começo dos anos 2000 vai se lembrar de HPG. Esse produto explodiu, todo mundo tinha um site hpg.com.br/alguma coisa. Pensa, era uma época que ainda não era difícil conseguir domínios de 3 letras.</p>
<p>Você podia andar num shopping center e ver a URL hpg da loja na vitrine, ou em outdoor, ou pintado nos ônibus. Esse produto explodiu. Eu participei da primeira versão, feita com PHP e Perl. E foi assim que aprendi Regular Expressions, porque todo mundo ficava tentando achar jeitos de burlar os banners que a gente colocava e eu passava o dia fazendo Regex pra tirar os truques. Povo posta no fórum do UOL e eu ficava vendo qual era o novo truque e fazia uma nova regex pra filtrar o HTML e tirar, por exemplo, o javascript que eles colocavam. Nem precisava tirar tudo, bastava fazer o javascript do cara quebrar pra ele tirar.</p>
<p>Eu saí quando começaram a fazer a funcionalidade de templates de sites, pra facilitar quem não sabia escrever HTML do zero. Eu tinha 23 anos e na minha cabeça esse produto não fazia sentido. Mesmo com banners era muito caro manter o site de todo mundo de graça. Infraestrutura era muito mais cara naquela época do que agora. Mas eu também tava sendo muito cético muito cedo. Eu fiz tudo isso em menos de 6 meses. Mas um conhecido da época daquela primeira agência que fechou foi trabalhar pra uma agência grande de verdade, a F/Nazca, e me convidou pra ir com ele. Dado que eu tava cético com o modelo de negócios, tinha visto os layoffs da PSINet antes, resolvi pular fora do barco.</p>
<p>Seis meses depois o HPG foi vendido pro iG, o que elevou o iG acho que do sexto lugar no ranking pra segundo lugar só atrás do UOL na época. Sabem o que eu falei nos videos sobre startups de engordar o porco? Pra mim isso era uma novidade naquela época, foi a primeira vez que vi o modelo de negócios de gastar muito sem dar lucro, criar hiper relevância, pra ser adquirido caro por alguém maior. Hoje em dia isso é o arroz com feijão das startups. Mas mesmo assim, isso dá certo pra menos de 1% de todo mundo que tenta. Mas os co-fundadores eram todos pessoas bem conectadas no mercado por conta da experiência da STI e do merge com a PSINet. Não eram amadores. Mas eu não conhecia eles pessoalmente, então não tinha noção disso.</p>
<p>Mas tudo bem, eu não tinha stock options nem nada, não ia ganhar nada com a venda de qualquer jeito. Eu era só um programador e acho que tomei uma boa decisão, especialmente porque nesse próximo lugar também ia poder fazer coisas diferentes. A F/Nazca era uma das maiores agências do Brasil na época onde as grandes eram nomes como W/Brazil ou Almap. Hoje são WMcCann, Publicis, Africa, DPZ&amp;T. A Publicis acho que comprou a F/Nazca anos atrás, mas em 2019 o fundador Fabio Fernandez, o &ldquo;F&rdquo; em F/Nazca, saiu e acho que iam fechar. O fim de uma era.</p>
<p>E o Fabio Fernandez era publicitário extravagante clichê da época. De novo, era ano 2000, estávamos caminhando rapidamente pro pico da Bolha da Internet. Ninguém sabia que era uma bolha ainda, especialmente porque ninguém sabia direito o que fazer na Web, muito menos agência publicitária. E pra ser o diferentão o Fernandes quis montar uma equipe tipo uma Tropa de Elite da Web, fora dos escritórios da agência. Era uma equipe pequena, nem meia dúzia de pessoas, focadas só em Web, e a gente ia ficar num escritório virtual no World Trade Center de São Paulo.</p>
<p>Pra ter uma noção do que eu quero dizer com extravagante, ele fez um anúncio pra empresa inteira na forma de cartas deixadas na mesa de todo mundo, dizendo que estavam demitidos. Aí acho que ia ter um evento no mesmo dia pra anunciar que na verdade tava todo mundo demitido da &ldquo;antiga&rdquo; agência publicitária tradicional mas estavam todos recontratados na &ldquo;nova&rdquo; agência Web. Entenderam? Puta piada de mau gosto que acho que rolou vários processos trabalhistas depois. Mas imaginem eu, era meu primeiro dia, e a primeira coisa que ouvi foi que tava demitido e recontratado. Eu achei engraçado na época, mas eu era só um moleque.</p>
<p>Enfim, nessa equipe eu trabalhei em algumas peças em Flash primeiro. Tive que desenferrujar meu Flash e fazer duas peças de campanha que eles iam mostrar em Cannes. Eram umas coisas bem idiotas. Só de exemplo, uma das peças era uma campanha das tintas Suvinil falando sobre suas novas máquinas de misturar tintas pra você ter a cor que quiser.</p>
<p>A idéia era o banner ficar fixo na tela e na verdade o navegador inteiro se mexer pra todos os lados simulando a máquina misturando a tinta. Isso era uma época que Javascript dava controle de tudo do navegador, incluindo a posição no desktop da pessoa. Imagina abrir um site e as janelas ficarem se mexendo do nada. Ainda bem que não pode mais fazer isso.</p>
<p>Enfim, meu chefe nessa época era um gêniozinho um ano mais novo que eu e que manjava muito de tecnologia, o Bruno Mosconi. Foi com ele que aprendi o conceito de que livro não é despesa, é investimento. Ele deixava a gente comprar os livros que precisasse. É uma prática que até hoje eu tenho na minha empresa por causa disso. Mas hoje em dia o acesso a informação desse tipo é muito mais fácil, tem de graça. Na época não tinha. Era ano 2000, Google mal tinha 2 anos ainda.</p>
<p>Lembro que foi a primeira vez que mexi com Python também por causa de um site de astrologia de um cliente, que ele queria implementar num gerenciador de conteúdo chamado Zope. Pra quem é de Python, o Zope depois se tornaria Plone. E foi com ele também que ouvi falar de Ruby pela primeira vez, mas não usei naquele ano ainda. F/Nazca foi o lugar onde trabalhei por menos tempo, só uns 3 ou 4 meses. No HPG também foi pouco, menos de 6 meses. De novo, minha memória não tá muito boa mas acho que essa operação Web não tava dando certo aí eu tive que procurar outro lugar.</p>
<p>Essa foi a primeira vez que realmente tive que procurar emprego. Postei meu currículo na minha homepage do HPG, até tive contatos por lá. Recrutador vasculhando qualquer site existe desde aquela época. Mas de novo, foi por causa dos contatos que fui fazendo ao longo desses primeiros anos que me levaram a algumas boas entrevistas e acabei entrando numa pontocom, que é como chamávamos as startups da época, que foi a PSN, ou Panamerican Sports Network.</p>
<p>Eu contei sobre eles nos episódios de Sua Linguagem Não é Especial, mas recapitulando, a empresa maior era a Hicks, Muse, Tate and Fürst. Pra quem é de futebol, vai lembrar que era a dona do Corinthians e do Cruzeiro no ano 2000. Embaixo tinha sites como a PSN.com junto com o canal de TV a cabo PSN, patrocinava o Alan Prost na Fórmula 1. Pois é, eu fui webmaster do Corinthians. Depois assistam esses outros episódios.</p>
<p>Lembro que cometi minha primeira grande gafe que todo iniciante arrogante faz. Logo na primeira semana, fui olhar o código deles e era um go-horse atrás de outro go-horse. O código foi feito por uma terceirizada americana e foi a primeira vez que entendi que só porque é gringo não quer dizer que é melhor. Puta código zoado da porra. Pensa um ASP macarrônico com HTML misturado com Basic tudo em arquivões de milhares de linhas. Escrevi um e-mail super textão com page downs e page downs de críticas e mandei pra todo mundo sem pensar. Descobri só quando tava pra sair que por causa daquele e-mail todo mundo me odiava no começo. Eu só repeti o que todo mundo já sabia. Uma nova equipe já tinha assumido a zona e já tava consertando, eu que peguei o bonde andando. Fica a dica: Não seja essa pessoa.</p>
<p>Na PSN eu fiquei pouco tempo também, até dezembro de 2001, cerca de 1 ano e meio. E foi lá que tive a oportunidade de ir pros Estados Unidos pela primeira vez, pra conhecer a equipe que trabalhava de Miami. Pra ter uma noção de como faz tempo, não existia celular com internet, pra me localizar eu tinha que imprimir mapas do site da prefeitura da cidade. E pra tirar foto eu tive que comprar uma câmera descartável numa farmácia e mandar revelar. Acabei perdendo essas fotos. Eu só voltaria a viajar pros Estados Unidos quando entrei na Locaweb em 2008, 7 anos depois. Mas em 2001 aconteceram outros dois episódios que me marcaram.</p>
<p>O primeiro foi em setembro de 2001 quando cheguei de manhã cedo no escritório e tava todo mundo na frente das TVs e eu fiquei confuso &ldquo;o que aconteceu?&rdquo; Aí vieram me contar &ldquo;você não viu?? jogaram um avião no World Trade Center&rdquo;. E eu paralizei e falei &ldquo;aqui do lado??&rdquo; Lembrando que na F/Nazca trabalhei de um escritório no World Trade Center, de São Paulo, que fica no bairro do Brooklin Novo, na famosa avenida Berrini que muitos já consideraram o Vale do Silício do Brasil. A PSN ficava num prédio a alguns quarteirões de distância. Pensa meu alívio quando falaram &ldquo;não, o de Nova Iorque!&rdquo; ahhhhh então tá, cadê meu café?</p>
<p>E o segundo episódio foi o famoso Crash da Bolha da Internet no mês seguinte, em outubro. Na verdade o pico da NASDAQ foi em março de 2001, onde tinha subido absurdos 400% desde 1995 e em 2001 caiu quase 80% de uma só vez. Ela ainda tentou subir de novo no meio do ano, mas aí veio a segunda perna do crash e a partir daí não parou mais de cair até quase o fim de 2002. Eu não tinha idéia do que isso significava. Na PSN nos disseram que descobriram que alguns executivos tavam roubando, negócios ruins, e o fechamento do canal de TV, das operações na Web. Eu quase apaguei a luz do escritório por último.</p>
<p>Eu não era muito informado com as notícias. Não acompanhava nada de mercado financeiro. Pra mim, essa bolha que começou em 1995, quando eu entrei na faculdade, parecia tudo normal. Só depois do fechamento abrupto da PSN que me toquei que na verdade eu tava no meio de uma bolha e nem tinha me dado conta. Notaram que desde 1996 eu fui indo de trabalho em trabalho sem nenhuma real dificuldade? Eu ia conhecendo pessoas, elas gostavam do meu trabalho, me indicavam ou me chamavam pro próximo negócio e eu só ia seguindo a vida assim.</p>
<p>E essa seria a segunda vez que eu ia ter que procurar emprego. Fiquei só uma semana desempregado. Mesmo com o crash da bolha, não significa que acabou todos os empregos. É isso que eu quis dizer no video do Crash da Bolha de agora também. Toda empresa, seja ela de tecnologia ou não, a partir de agora ia precisar manter essa tecnologia e evoluir, mesmo que fosse mais devagar.</p>
<p>De novo, mandei alguns emails e quem respondeu foi o Antelio, que eu falo no episódio de SAP, engenheiro que conheci naquele projetinho da agência na Camargo Corrêa. Ele saiu, virou consultor SAP e me chamou pra trabalhar. Ele ia me ensinar SAP e eu ia ensinar Web pra eles. Convenientemente, o escritório da consultoria era no mesmo prédio onde ficava a PSN que tinha acabado de fechar, só mudei de andar. Eu passei mais de meia década nessa região da Berrini.</p>
<p>Lembram do projetinho da STI pra resolver o problema de ano 2000? Obviamente ela não foi a única empresa com esse problema. Literalmente toda empresa que adotou tecnologia dos anos 80 e 90 tiveram que ajustar seus sistemas, ou investir em modernizar e substituir por coisas novas com eu fiz. Mas em empresas gigantes, não dava pra refazer tudo do zero. E foi aí que empresas como SAP ou Oracle ganharam terreno no Brasil. Foi a era de ouro das consultorias pra implementar novos ERPs não só pra resolver o problema no bug do milênio como implementar novos processos e tecnologias. Eu conto um pouco disso no episódio de SAP, depois dêem uma olhada.</p>
<p>E lá ia eu aprender mais uma plataforma que nunca tinha imaginado que ia ter que aprender: SAP. Mas tudo bem, de 1996 até  fim de 2001 eu tive que aprender Delphi, HTML, Javascript de primeira geração, Flash, ASP, PHP, Perl, SQL Server, MySQL, Apache, um pouco de Python. O que é um pouco de SAP? E nesse período entre 2002 a 2006 eu ia voltar a usar tecnologias Microsoft como ASP e finalmente usar Java comercialmente.</p>
<p>Durante a depressão na área de novas tecnologias que ia durar de 2002 a 2008 eu fiquei focado em mercado corporativo com integração de SAP com Web, depois migrei pra tecnologias open source com Ruby on Rails em 2006 e me preparando pra pegar a nova onda que eu nem sabia que ia recomeçar com mais força por volta de 2008. Foi quando começou a aparecer Twitter, Uber, Airbnb, Pinterest, Foursquare, Spotify, Netflix e todos os nomes que vocês conhecem hoje.</p>
<p>De novo, não é porque teve crash da bolha que a tecnologia parou. Foi entre 2002 a 2008 que as sobreviventes se consolidaram. Google e Amazon viraram gigantes nesse período de seca. Foi nesse período que blogs e redes sociais nasceram. Muitos tentaram e morreram, Orkut, MySpace, e aí apareceu o Facebook, depois o Instagram. Mas o ecossistema maior mesmo só apareceria depois do Crash da Bolha Imobiliária de 2008. A correção desse crash criaria o ambiente propício de juros baixos e dinheiro fácil pra investimento que seria o combustível pra bolha que duraria até agora. De novo, assista minha playlist &ldquo;Eu Avisei&rdquo; onde explico detalhes de porque.</p>
<p>Eu não sou um guru, não prevejo o futuro, nem nada disso, eu sou um animal muito simples: eu gosto de tecnologia, alguém quer me pagar pra mexer com tecnologia, eu vou, só isso. Foi só isso durante toda minha carreira. Veja: minha carreira nasceu numa época que precede o conceito de influencers, de cursos online, de redes sociais. O primeiro evento de programação que eu participei foi a RailsConf nos Estados Unidos em 2008. Eu já tinha 31 anos e fazia 13 anos que entrei na faculdade. Só aí passei a interagir mais com as comunidades de desenvolvimento de software. É o que eu conto no video da História do Ruby on Rails.</p>
<p>Eu entendo o problema de todos vocês hoje: sofrem de information overload. Tem informação demais, pior, muita informação conflitante e ruim mesmo. Um influencer diz pra seguir caminho X, outro influencer diz pra seguir caminho Y, o grupo do Discord fala que caminho X é uma bosta, pessoal do Telegram fala que caminho Y é uma bosta, na sua timeline do Twitter tem caminhos de A a Z e nenhum consenso. Eu consigo imaginar o turbilhão de incertezas infladas que tem na sua cabeça nesse momento.</p>
<p>Pare um segundo e pense: eu, Akita, estou perto de aposentar uma  carreira que começou em 1990. Informação naquela época era muito cara, de difícil acesso. Porra, se eu não tivesse me dedicado sério a aprender inglês, como conto no video sobre inglês, não teria conseguido fazer nada do que resumi nesse video. Tudo que eu aprendia só tinha disponível em inglês, não tinha a opção de português. Conseguem imaginar isso?</p>
<p>Mais do que isso: só conhecia outros programadores que trabalhei junto nessas empresas e projetos. Não conhecia outros programadores de fora, então não tinha nenhum modelo, ninguém pra me influenciar e, felizmente, ninguém que eu achava que precisava seguir. Eu simplesmente fazia as coisas por pura intuição.</p>
<p>Mais felizmente ainda: não existiam coaches falando bullshitagem sobre coisas como networking. Eu aprendi a fazer networking de verdade. Por exemplo, na época da STI e HPG tenho dois exemplos: tinha dois programadores júniors como eu na equipe. Um se chamava Fernando Nemec. Depois do HPG ele foi trabalhar como programador na recém criada parte web do jornal Folha de São Paulo. Hoje ele é o diretor de tecnologia da Folha Online.</p>
<p>O outro se chamava Adriano Caetano. Depois do HPG ele abriu seu próprio ecommerce, um dos primeiros do Brasil, chamado LinuxMall. Eu comprei muitos CDs de Linux com ele. Hoje ele é Sócio Diretor da VTEX, uma das primeiras plataformas de ecommerce e uma das maiores do Brasil. Coincidentemente saiu um video dele contando essa história no YouTube, vou deixar o link na descrição.</p>
<p>Vocês ficam olhando pra caras como eu e esquecem que o júnior da sua própria equipe, colega da sua faculdade, vai ser o próximo founder, CTO, CEO da startup inovadora de amanhã. Ele confia no resultado do seu trabalho hoje o suficiente pra te chamar pra trabalhar com ele? Se você não consegue impressionar nem o júnior que trabalha do seu lado, porque você acha que eu me interessaria? Só porque você fez mandou um email engraçadinho no LinkedIn? Ou porque ficam só no blá-blá falando que é esforçado? Sério?</p>
<p>É difícil resumir mais de 5 anos em um video curto como esse, mas meu ponto era mostrar o seguinte: principalmente no começo de carreira, eu nunca me defini como &ldquo;programador ASP&rdquo; ou &ldquo;programador Java&rdquo; ou &ldquo;administrador de SQL Server&rdquo;. Minha especialidade não era nenhuma dessas ferramentas. Sem planejar muito, eu só me especializei em resolver problemas de tecnologia. Minha arma secreta foi Aprender a Aprender. Eu simplesmente gosto de tecnologia e de resolver problemas com tecnologia.</p>
<p>Nunca parei pra pensar: &ldquo;será que esse tal de ASP vai ter carreira pros próximos 10 anos?&rdquo; ou pior &ldquo;será que esse tal de Director e CD-ROM é uma boa carreira pros próximos 10 anos?&rdquo;. Eu literalmente aprendia e produzia numa plataforma nova todo ano durante esse período. Se em 1996 eu tivesse pensado &ldquo;puts, esse tal de ASP é muito novo, não dá pra ter uma carreira nisso, vou ficar no Clipper, vou ficar no Director&rdquo;, e daí se toda vez eu esperasse 2 ou 3 anos &ldquo;pra ver se ia vingar&rdquo;, teria perdido a primeira Bolha da Internet, pior, teria sido mais uma vítima do crash.</p>
<p>Eu passei totalmente ileso. Quando migrei de pontocom com ASP pra mundo corporativo com Java e SAP, na minha cabeça isso não era um passo pra trás ou um downgrade. Era só mais uma página. Porque eu não era definido pela linguagem, ou modelo de negócio. Vejam como o Java que fui aprendendo aos poucos desde 1996 viria a se tornar útil em 2002 quando entrei em consultoria. Vejam como o ASP que aprendi de sopetão em 1999, deixei de lado pra aprender PHP em 2000, voltaria em 2001 na PSN. Não existe uma receita. E não existe falta de oportunidade, existe falta de vontade de pegar pra resolver. Ah, vou fazer um curso, quando eu aprender daí vou procurar. Aí já é tarde demais, o bonde já andou e você ficou no fim da fila.</p>
<p>No episódio da Sua Linguagem Não é Especial, eu mostrei como não ficava também só fazendo o que o trabalho exigia. Em 2000 eu tava um pouco empolgado com .NET que tava pra sair, acho que tava em Beta nessa época. No trabalho ninguém ia usar .NET, mas fiz minha própria versão de um mini framework ASP.NET só que em ASP clássico, só pra ver se dava. Que não foi diferente de quando tentei aplicar orientação a objetos no Lingo de Director alguns anos antes. Eu não fazia o que o livro dizia, só queria ver o que dava pra fazer. Na minha cabeça nunca teve o conceito de &ldquo;não é assim que todo mundo faz&rdquo;. Eu sempre tô cagando e andando pro que &ldquo;todo mundo&rdquo; faz.</p>
<p>Notem outra coisa: em nenhum momento eu cito cursos. Porque eu nunca fiz nenhum. Primeiro que não existia Udemy nos anos 90. Segundo porque intuitivamente entendia: porra, Java saiu ano passado, obviamente não tem curso pra isso. Flash acabou de sair enquanto eu tô aqui fazendo Director, óbvio que não tem curso pra isso. Eu nunca esperava que fosse ter um curso. Eu via que tinha um livro, em inglês, ia na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Avenida Paulista, a única que eu sabia que dava pra encomendar livro importado, esperava um mês pra chegar e era isso. Amazon foi só a partir do ano 2000.</p>
<p>Outra coisa: quando falei que tava aprendendo sobre orientação a objetos. O livro de Design Patterns do Gang of Four tinha acabado de ser lançado em 1994. UML também tinha acabado de ser inventado. Essas coisas ainda não eram consenso. Existiam várias metodologias antes da Rational. Eu, por exemplo, tinha um livro de uma metodologia chamada Fusion. Mas pelo jeito não fez sucesso porque como isso precede o Google, nem tem registro se pesquisar a respeito.</p>
<p>O Manifesto Ágil seria assinado em 2001 que é quando eu termino minha história nesse video. Tudo sobre o assunto só seria publicado depois. O ponto é: eu, aluno de faculdade em 1995, não tinha como saber que essas coisas se tornariam relevantes anos depois. O você de hoje tentando escolher a ferramenta &ldquo;ideal&rdquo; não tem idéia do que realmente vai ser importante daqui 5 anos. Não tente adivinhar agora, é perda de tempo. E não, nenhum guru, influencer, coach, nem mesmo eu, tenho como dizer o que vai ser relevante daqui 5 anos especificamente pra sua carreira, porque a carreira de cada um vai ser diferente.</p>
<p>E antes que alguém vá encher o saco na bolhadev, quando eu falo que varava noite na época, não foi pra vangloriar que trabalhar a noite é admirável. Pelo contrário, eu varava noite porque eu não era bom e prometia mais do que conseguia entregar. Eu só era sem noção mesmo. Isso é pessoal, não recomendo ninguém copiar. Vai de cada pessoa. Com cabeça de hoje, talvez tivesse dito mais &ldquo;não&rdquo;. Mas por outro lado talvez não tivesse aprendido tanta coisa tão rápido.</p>
<p>Com 20 anos, meu objetivo não era ter qualidade de vida, era aprender tudo que pudesse aprender porque minha única motivação era resolver problemas novos. Cada pessoa tem motivações diferentes, nunca use minha história como parâmetro pra sua. As épocas são completamente diferentes. Vocês tem mais opções hoje do que eu tinha nos anos 90.</p>
<p>Falando do povo comentar, não sei se notaram, mas nenhuma das empresas que eu trabalhei nesse período existem mais. Eu literalmente saía pra outro trabalho porque onde eu tava ia fechar. Uma vez só eu saí por conta própria, mas de 1996 até 2002 esse foi o padrão. Foi bizarro, já tava achando que eu tinha pé frio. Magina, mandar meu currículo e o recrutador ver que nenhum lugar existe mais. Mas não foram só as empresas que eu passei, no Crash, várias outras foram fechando ao longo do tempo. Muitas das empresas que a gente conhecia naquela época não existem mais. É a vida.</p>
<p>De qualquer forma, se pudesse mudar alguma coisa que fiz desde os anos 90, não mudaria nada. São as experiências que passei, boas ou ruins, que formam o que sou hoje. Foi fazendo merda, aprendendo a consertar e persistindo, que me definiu. Agora cada um de vocês tem que achar o que define vocês, e não vai ser me copiando. Os anos 90, infelizmente, acabaram. Os anos 2000 acabaram. Os anos 2010 acabaram. Os anos 2020 acabaram de começar, é nesse contexto que você existe.</p>
<p>Finalmente, alguns poderiam ficar impressionados. Pode parecer que fiz muita coisa nesse meu começo de carreira. Mas nem tanto, num outro extremo, lembram que falei que 1997 foi quando Steve Jobs retornou pra Apple? Pois bem, nesse meio tempo, ele limpou a casa, tirou a Apple da beira da falência, modernizou a linha de hardware lançando os famosos iMacs coloridos, finalmente conseguiu matar o antigo MacOS 9 e lançar o MacOS X que é a base dos Macs até hoje, e no ano que a bolha estourou, lançou o iPod, que mudaria a indústria de música pra sempre. Tem um documentário chamado The iPod Revolution que conta exatamente esse trecho da história, depois assistam, é fascinante.</p>
<p>Muito ou pouco é relativo. Parem de ficar se comparando, que coisa chata. Façam sua própria carreira, do seu jeito, e evoluam cada dia pra não se arrepender do dia anterior, só isso. Eu não virei o Steve Jobs, e tá ótimo, o que eu consegui fazer por mim durante minha carreira me deixa satisfeito. Poderia ter feito muito mais. Sempre dá pra fazer mais. Mas Akita, o que você recomenda pra mim? É a pergunta que eu mais recebo, e repetindo pela enésima vez, veja meu video de Não Terceirize suas Decisões e a playlist de carreira.</p>
<p>Eu sei que mesmo dizendo isso vocês ainda vão continuar me perguntando o que devem fazer, ou falar que vão tentar me copiar, mesmo eu falando não. Mas vamos aos fatos: eu disse pra vocês fazerem imersão de inglês em casa, substituir tudo por inglês. Acabei de mostrar a diferença que fez no meu começo de carreira. Como anda o inglês de vocês?</p>
<p>Agora o mais óbvio, em vez de perguntar o que eu fazia, que tal perguntar o que eu não faria? Uma coisa que me lembrei escrevendo esse episódio é que a primeira balada que eu fui foi só por volta de 2002 ou 2003. Foi quando comecei a beber socialmente também. Lembrem, entrei na faculdade em 1995. Fui em uma festa na faculdade, uma única cervejada. Não participei de nenhum evento, festa ou balada de 1996 até 2002, que é o período que cubro neste video.</p>
<p>Por que? Primeiro porque não tinha dinheiro. Eu começar a sair coincide com minha transição de júnior pra pleno e ganhar salário de consultor corporativo. Faz muita diferença. Além disso tinha tanta coisa tão interessante acontecendo no trabalho toda hora, cada hora um bug mais cabeludo pra resolver, eu passava minhas noites dormindo no escritório. E não porque me mandavam, mas porque eu não queria ter que perder tempo indo pra casa e tendo que voltar depois. Meu PC do escritório na época era sempre melhor que meu PC de casa. E não tinha laptop acessível, então tinha que usar lá mesmo. Eu preferia ficar lá.</p>
<p>E mais, que séries eu maratonava na TV nos anos 90? Literalmente não consigo me lembrar de nenhuma. Depois que entrei na faculdade, quase não assistia TV. Recomecei a ver séries só lá por 2004 ou 2005 com Os Sopranos e 24. Lembram que falei que não tinha nenhum influencer que seguia? Vocês perdem horas e horas diariamente acompanhando gente desinteressante e irrelevante que não contribui em absolutamente nada na sua carreira. Eu não tive isso, portanto tive a vantagem de não perder meu tempo com gente inútil. Eu só gastava tempo comigo mesmo.</p>
<p>Teria sido melhor se essas coisas existissem naquela época? Google sim, sem sombra de dúvida, pra pesquisar as coisas mais rápido. Stackoveflow também. Todo o resto, principalmente a bolhadev? Absolutamente inútil. A opinião aleatória dos outros é inútil. Ninguém sou eu. Eu teria conquistado menos da metade do que fiz nesse período.</p>
<p>Podcasts de 3 horas, vai se fuder. Em 3 horas eu li a documentação inteira de uma nova linguagem. 3 horas todo dia? Porra. Quando você vai no banheiro? Ah, mas é quando eu tô no metrô voltando pra casa ou no trânsito. Ouça audiobooks de livros clássicos, de mais de 10 anos que ainda são relevantes hoje, não ebookzinho de influencer bosta que nem tem 10 anos de carreira direito. Já leu algum livro do Stroustrup, criador do C++? Ou do Dennis Ritchie, criador do C? Por que ainda não leu os originais em vez de ler as cópias baratas? Fica só falando de IA, IA, já leu alguma coisa do Marvin Minsky? Não né.</p>
<p>E esse foi o episódio do meu começo de carreira, que coincidiu com a ascenção e queda da primeira Bolha da Internet. E como podem ver, eu continuei crescendo sem parar. A próxima fase, pra quem quiser ver como foi, é o video de SAP, depois o video de Ruby on Rails. E por hoje é isso aí, se ficaram com dúvidas mandem nos comentários abaixo, quem quiser relembrar mais coisas dos anos 90 não deixem de mandar também, se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de compartilhar o video com seus amigos. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>pessoal</category><category>mercado-de-tecnologia</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #96 - Estrada do Futuro em 1996 | Meus 19 Anos</title><link>https://akitaonrails.github.io/2021/04/20/akitando-96-estrada-do-futuro-em-1996-meus-19-anos/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2021/04/20/akitando-96-estrada-do-futuro-em-1996-meus-19-anos/</guid><pubDate>Tue, 20 Apr 2021 11:57:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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<h2>DESCRIÇÃO<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Achei textos que eu escrevi em 1996, em particular sobre o livro &ldquo;Estrada do Futuro&rdquo; de Bill Gates, publicado em 1995. Como a gente imaginava as tecnologias do século 21 e o que de fato virou realidade?</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Meu Livro de 1996 (https:/akita1996.herokuapp.com)</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Passei as últimas semanas dando um jeito nos meus backups. Estou com dois NAS de 10 terabytes cada e andei movendo um monte de coisa velha pra lá e pra cá. No meio da limpeza esbarrei num material que fiz uns 25 anos atrás. Quem me acompanha no Twitter já viu. É um mini-livro que escrevi pra compilar o que eu sabia sobre computação quando tinha 19 anos, no meio do meu 2o ano de faculdade.</p>
<p>O capítulo de conclusão desse livro é um resumo do livro The Road Ahead, do Bill Gates, que tinha sido publicado em 1995, e faz 25 anos de idade ano passado. Eu li logo que foi lançado. Se você viu meu episódio do fim de 2018 sobre minha máquina do tempo, sabe que eu guardo backup de muita coisa desde a época de faculdade até hoje, incluindo quase todos os meus e-mails, projetos e trabalhos que fiz nesses 25 anos. Se puder, faça backups das suas coisas, daqui 25 anos pode ser engraçado de rever.</p>
<p>Achei interessante trazer alguns trechos do que escrevi com 19 anos pra dar perspectiva pra quem tá nessa faixa dos 20 anos ou em fase de iniciante, independente da idade. Como sempre digo, carreira é uma coisa individual, o que eu relato sobre a minha não deve ser regra pra de ninguém, só mais uma referência. E quero falar um pouco sobre isso hoje também, então vamos lá.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Em 1996 eu tava no 2o ano de ciências da computação, ralando pra tirar o atraso. Nunca fui o aluno mais aplicado nem com as melhores notas na faculdade. Pelo contrário, tinha tanta coisa acontecendo no meio dos anos 90 que me distraía muito fácil. Eu tinha zero idéia do que ia fazer depois de me formar, e tava mais interessado em acompanhar as novidades.</p>
<p>Pra dar contexto. Nessa época os filmes mais influentes até então pra mim eram coisas como Exterminador do Futuro 2 de 92, Jurassic Park de 93, Toy Story de 95. Steve Jobs já tinha saído da Apple e  só iria voltar pra Apple daqui 2 anos ainda. Ele tava ocupado com a Next e depois com a Pixar, e o lançamento do filme Toy Story foi um marco, tendo sido o primeiro longa metragem de sucesso feito em CG, coisa super normal hoje. A era da computação gráfica tava só começando. E estudantes como eu sonhavam de poder usar uma workstation como as da Silicon Graphics ou da Sun.</p>
<p>Interfaces gráficas ainda eram novidade. Windows 95 tinha acabado de ser lançado. Java 1.0 tinha acabado de ser lançado. Netscape 1.0 tinha acabado de ser lançado. Delphi 1.0 tinha acabado de ser lançado. Meu computador na época já era um 386 com uns 33Mhz eu acho, não lembro se já tinha 4 mega de RAM. Monitor era VGA de 65 mil cores, resolução de 800 por 600. Pra colocar isso em perspectiva, os ícones dos seus programas são feitos em resolução retina, de 512 por 512 pixels. Ou seja, num único ícone de hoje quase cabia todos os pixels do meu monitor de 1995.</p>
<p>Celulares ainda eram só pra voz. A coisa mais próxima de um computador portátil era o Palmpilot com 512 kilobytes de RAM. A mídia que a gente mais usava ainda era disquetes e CDs. Pendrive não existia. Tocador de mp3 ainda não existia. Eu tenho a impressão que GPS em carros tinha acabado de ser lançado, mas a gente ainda usava mapa em papel mesmo.</p>
<p>Internet ainda era uma grande novidade. Novidade no sentido das pessoas se perguntarem pra que servia, se era só mais uma modinha passageira que já ia acabar. As velocidades eram absurdamente horrendas. Hoje a maioria deve estar na faixa de 50 megabits por segundo. Naquela época o normal era 14 kilobits ou menos.</p>
<p>Aqui no Brasil, pra variar, a gente tava atrasado, mas nas faculdades dava pra ter uma idéia do que tava acontecendo nos Estados Unidos. Em 94 o Real tinha acabado de sair, e com isso pela primeira vez entramos num período fora da hiperinflação. Uns 4 anos antes o Collor abriu o mercado e possibilitou importarmos coisas como computadores, provavelmente a única coisa útil que ele fez. Daí as coisas começaram a acelerar um pouco.</p>
<p>Mas aos 19 anos, o máximo que eu tinha conhecimento sobre empresas de tecnologia eram os poucos provedores de acesso discado como Mandic ou STI. Ainda não eram gigantes, então dependendo de que parte do país você era, nem isso tinha ainda. Como Web ainda não era tão difundida, pra saber das novidades no mundo só por jornais e revistas ou participando de feiras como Fenasoft ou Comdex, que só aconteciam em São Paulo e no Rio de Janeiro. A internet do Brasil era limitada a poucas cidades e poucas regiões, por exemplo nas universidades federais.</p>
<p>Os poucos de nós que tinham acesso à internet na faculdade gastava tempo em salas de IRC e fuçando servidores FTP abertas que tinha por aí. E nesse cenário estava eu, ainda tentando entender o que queria fazer &ldquo;quando crescer&rdquo;. Pense assim, computação no Brasil era super limitado. O que se considerava &ldquo;profissão&rdquo; era a área de processamento de dados, pra trabalhar talvez com Cobol em alguma indústria como automobilística, pra processar dados de mainframe. Talvez bancos. Nada muito empolgante, pra dizer o mínimo.</p>
<p>Pouco a pouco vinha crescendo um mercado intermediário, da microinformática comercial. Desenvolvimento de sisteminhas pra comércio e serviços. Plataformas como Clipper, Paradox, Visual Basic. O normal era programar pra DOS, os mais modernos pra Windows 3.1 de 16-bits.</p>
<p>E em 1995 tava começando a transição pra coisas como Windows 95 e 32-bits. Linux ainda era desconhecido. Lembrem-se que naquele momento male male tinha 4 anos de idade. Na indústria mais de ponta você ouvia falar de UNIX e minicomputadores e workstations.</p>
<p>Se você assistiu meu episódio sobre o Diário de Henry Jones, vai lembrar que eu sempre gostei de tentar entender a história da computação e a idéia de compilar meu conhecimento de alguma forma, como este canal do YouTube. 25 anos atrás eu já tinha essa vontade de escrever sobre o pouco que sabia. Gastei pelo menos de maio a novembro de 96 tentando compilar o que eu tinha lido em livros e artigos num único lugar. Foi a primeira tentativa que tenho documentado de tentar escrever alguma coisa.</p>
<p>Eu não era nada organizado então esquece bibliografia. Não tenho idéia de onde tirei todos os textos, mas o capítulo final veio quase inteiro como resumo do livro do Bill Gates. Com o lançamento do Windows 95, a Microsoft tava quase no pico da sua história. Naquela época eu tinha feito a transição de programar só pra DOS com coisas como Clipper e tava aprendendo a fazer sisteminhas em Delphi 1.0 pra Windows 16-bits.</p>
<p>Falando dos meus textos, eles eram bem ruins. Não que os de agora sejam alguma maravilha da literatura. Mas naquela época minha mania de fazer tangentes era bem pior. Eu ainda não tinha aprendido a editar e cortar fora a gordura ou separar em artigos diferentes e queria entuchar quinhentas coisas diferentes no mesmo lugar. Eu ainda faço isso, mas bem menos.</p>
<p>A primeira metade da minha &ldquo;conclusão&rdquo; tem mais cara de introdução. Longa, tediosa, e desnecessariamente detalhista. Mas a segunda metade é mais interessante. Não sei se eu vi isso no livro ou se foi idéia minha mas o texto é contado sobre como seria o dia a dia de uma pessoa do futuro. Eu vou adaptar um pouco o texto em si pra não ficar tão maçante. Se quiserem ler o original o link tá nas descrições abaixo. Daí vou intercalando com comentários de hoje. Vamos lá.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<blockquote>
  <p>Hoje em dia os microcomputadores avançam cada vez mais rápido, com processadores mais velozes que o mais veloz e caro computador de uma década atrás. Todo mundo cada vez mais ligado a computadores. A maioria das pessoas da classe média e alta já usam micro em casa quase tão naturalmente quanto usam o microondas ou o controle remoto de TV.</p>

</blockquote>
<p>(comentário) E isso não era verdade. Quando era novo eu achava que era e não achei uma estatística da época, mas dependendo de onde procurar vai ver que em 1998 menos da metade das casas dos Estados Unidos tinham computador.</p>
<p>No Brasil esse número era certamente ordens de grandeza menor. Eu chutaria que talvez 20%, se muito. Lembrem-se que quase perdemos a onda dos micros nos anos 80 por conta do mercado fechado e pela hiperinflação. Entre conseguir financiar uma moradia ou carro a juros altíssimos, computador era um luxo pra poucos. Só a partir de 94, com a entrada do Real, que ter coisas consideradas &ldquo;supérfluas&rdquo; como um computador, viria a se tornar uma opção.</p>
<blockquote>
  <p>E qual o perfil do cidadão da nova Era da Informação? Hoje em dia uma pessoa comum, pode acordar, ligar seu micro, acessar sua conta de Internet e verificar seu INBOX pra ver se tem novos emails. Enquanto toma seu café, pode acessar a Web e procurar por alguma versão eletrônica dos principais jornais e ver as manchetes do dia enquanto degusta um bom croissant e toma um capuccino.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Em seguida, poderia acessar os bancos de dados da empresa onde trabalha e ver se tem alguma novidade. Ele se conectaria à rede da empresa, talvez uma Intranet e realizaria todo o trabalho que é possível ser feito remotamente, como atualizar os dados da empresa, enviar relatórios e outras coisas.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Mais tarde ele vê na sua agenda eletrônica que vai ter uma reunião para discutir dados referentes ao seu departamento. Ele liga sua mini câmera situada no topo do seu monitor e se liga à Internet.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>A reunião será composta por várias pessoas, cada qual em uma filial da empresa em outros países. A Internet é uma rede global. Logo, pessoas de vários países podem se comunicar, virtualmente como se não existissem fronteiras. Essa reunião seria via telepresença, uma teleconferência. A câmera serve pra transmitir sua imagem pela rede.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Utilizando-se de programas comuns como uma planilha de dados, elas podem compartilhar dados e discutir estratégias interagindo diretamente com esses dados e retransmitindo para os outros em tempo real, como se fossem dados numa folha de papel única onde todos rabiscam ao mesmo tempo, sem necessidade de presença física. Depois dessa reunião, o banco de dados de cada filial já está atualizado.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>A agenda eletrônica de todos é atualizada dinamicamente pela rede ligada às outras agendas - um conceito interessante onde um compromisso de grupo é inserido nas respectivas agendas automaticamente, com um programa que verifica a disponibilidade de cada um do grupo a arruma a agenda da melhor forma possível.</p>

</blockquote>
<p>(comentário) Esse trecho é bizarramente atual, em tempos de quarentena e trabalho remoto. Em 1996 já era possível imaginar agendas compartilhadas via Google Calendar, calls via Zoom e trabalho colaborativo usando coisas como um Google Docs de hoje. Mas apesar de parecer uma premonição, na época a gente já conhecia coisas como o Lotus Notes e depois o próprio Microsoft Exchange pra trabalho em equipe. Guardem isso que vou explicar mais pra frente.</p>
<p>Notável é o uso de termos como Era da Informação. Em gerenciamento se falava muito disso da era dos Knowledge Workers ou trabalhadores do conhecimento, pra contrastar os novos tipos de profissão que não tem rotina, como programação, onde o principal é a capacidade de resolver problemas diferentes em vez de repetir as mesmas coisas todos os dias. Esse termo foi cunhado por uma das referências na área de administração, Peter Drucker.</p>
<p>E também note como eu falei de &ldquo;mini câmera&rdquo; porque o termo webcam ainda não era usado. Dois anos antes, em 1994 a Apple foi uma das primeiras a ter uma webcam, mas chamava QuickCam, feita pela Connectix. Essa foi a primeira versão comercial, e o primeiro protótipo foi de 1991, de estudantes da universidade de Cambridge que apontaram uma camera conectada na rede pra vigiar uma garrafa de café, daí eles não precisavam perder tempo indo até a cozinha se não tivesse café. A preguiça bem aplicada é sempre uma boa fonte de inspiração pra inovações. Vamos continuar.</p>
<blockquote>
  <p>Durante o dia ainda tem uma série de operações bancárias que precisam ser feitas. Depois de confirmadas são todas enviadas pra um servidor do banco via computador. Uma senha de segurança é digitada e todas as movimentações financeiras do dia são efetuadas.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>No fim do dia ainda precisa fazer reservas de vôo pras férias que tá chegando. Via computador dá pra acessar a rede da companhia aérea, conhecer os diversos pacotes de férias e daí decidir o mais adequado. Daí é só preencher um formulário eletrônico, um e-form, e pronto.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Fim do dia, nosso amigo já tá exausto depois de trabalhar o dia todo e resolve pedir uma pizza. Na Internet as melhores pizzarias já tem sites pra pedidos eletrônicos. Depois de fazer o pedido é só dar o número do cartão de crédito. A pizza chega em pouco tempo, entregue a domicílio.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Da mesma forma também dá pra ir numa renomada loja de música ou livros e fazer encomendas depois de uma longa olhada na seleção dos best-sellers do mês na Web, igual ao pedido de pizza. O cartão de crédito vem servindo bem por enquanto como o dinheiro eletrônico da Internet.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Então, depois de mandar alguns e-mails pra amigos e ver a última atualização do jornal da noite na Web, o dia acaba bem. Esse foi um resumo do dia de uma pessoa de negócios da nova geração. Mas ainda tem os herdeiros dessa nova geração, os jovens. O novo mundo tem espaço pra todos e crianças e adolescentes são os alguns dos principais usuários das novas tecnologias de informação.</p>

</blockquote>
<p>(comentário) Dependendo de como você lê esse trecho, pode pensar que a gente já tinha previsto a massificação do Internet Banking, do ecommerce em geral, como Amazon, até delivery como iFood. Na real não é bem assim. Em 96 já existia internet banking, bem limitado e desconhecido mas tinha.</p>
<p>O primeiro banco brasileiro a oferecer algum serviço via web foi o Bradesco em 95. E outros bancos como Unibanco seguiram rápido. Era super precário. Se você acha os de hoje ruins, nem imagina como era em 96, mas pra ser justo, eles até que tavam tentando.</p>
<p>Nem Amazon, nem MercadoLivre, nem nada disso ainda ia existir por mais meia década, mas já existiam exemplos rudimentares de ecommerce. O que é considerado o primeiro grande ecommerce do Brasil foi a Booknet do escritor Jack London, fundada no final de 95. Se você nunca ouviu falar, alguns anos depois ela foi vendida pra GP investimentos, um dos primeiros venture capitalists a atuar na américa latina.</p>
<p>Sua fundação se tornou o Submarino.com. Muito antes da B2W ou da Americanas. Claro que em 96 a gente não sabia disso. Acho que eu nem sabia que a Booknet existia ainda. Mesmo em 99 ele tinha só uns 50 mil clientes, e isso já era considerado grande na época.</p>
<p>Ecommerce ainda era bem difícil porque ninguém tinha motivos pra confiar em digitar número de cartão de crédito em sites estranhos. Levou anos pra tecnologia convencer as pessoas que finalmente ficou seguro. Mas em 96 realmente era bem inseguro fazer compras online.</p>
<p>Não impactava tanto quanto hoje porque a gente não tinha uma fração da quantidade de gente transacionando. E já se tinha a noção de que poderia existir algum tipo de e-dinheiro ou dinheiro digital. E-cash é um conceito que só viria a acontecer mesmo mais perto do ano 2000. O Paypal mesmo só seria fundado em 1998.</p>
<p>E no último trecho é notável também que a gente acreditava que os jovens iriam ter um papel fundamental na adoção de novas tecnologias. A primeira rede social online no formato mais parecido com o que conhecemos hoje, fora dos aplicativos só de comunicação como IRC, AIM ou ICQ seria o SixDegrees.com de 1997, que foi o avô de redes como Friendster, MySpace ou Orkut.</p>
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  <p>Tomando isso como base já temos quase todos os elementos pra novas tecnologias, como computadores de bolso. Esse tipo de dispositivo seria mais ou menos do tamanho dos pagers que temos hoje, com microprocessadores poderosos e menores do que os atuais, e com ligação wireless a milhares de servidores disponíveis em várias redes, como a Internet. Pagamentos em lojas e quiosques seria feita utilizando esse aparelho pra realizar movimentações financeiras uma vez que há a possibilidade de se ligar à um banco.</p>

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  <p>Além disso há a unificação de plataformas com a Internet. A Internet é quase um sistema operacional completo. Com linguagens como um Java de hoje já é possível criar aplicativos disponíveis em tempo real na rede sem a necessidade de uma cópia em cada micro, ou seja, pra usar um editor de textos precisaria instalar no HD do seu micro numa plataforma como Windows.</p>

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  <p>Com a plataforma da Internet os HDs seriam praticamente desnecessários em sistemas de computação móvel, com o sistema operacional pra rede gravada em ROM e seus arquivos poderão ser gravados no espaço em disco na conta Internet disponível. As vantagens são óbvias: menor espaço físico pro micro local, acessibilidade do aplicativo e dos arquivos salvos de qualquer lugar e usando qualquer computador ligado à Internet.</p>

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<p>(comentário) Isso se parece muito com o que você tem hoje em dia com SaaS e Cloud em geral: não precisa instalar nada pra usar Google Docs, Gmail, Slack, e ter todos os seus arquivos no cloud, num Microsoft OneDrive ou Dropbox. Nos anos 90, empresas como a Sun e Oracle estavam tentando entender a melhor forma de organizar aplicativos online. Porque instalar na máquina de todo mundo e ter o trabalho de atualizar tudo? Em vez disso porque não ter servidores potentes e máquinas clientes mais fracas que servissem só como terminais. Era a idéia dos NetPCs.</p>
<p>Na nossa cabeça de 96, o nosso Google Docs de hoje seria um aplicativo feito em Java que carregaria pelo navegador como um applet. E passamos anos tentando fazer algo assim, tanto com applet como com coisas como ActiveX da Microsoft. Ainda ia levar mais de 10 anos, até a época do primeiro Gmail, pro HTML e Javascript finalmente se tornarem minimamente usáveis pra aplicativos.</p>
<p>E ainda ia levar até 2006 pra AWS aparecer e começar a moldar a idéia de cloud computing, onde a gente teria nossos dados e processamento totalmente na nuvem. Além de cloud, o primeiro trecho descreveu exatamente como é um smartphone dos dias de hoje, perceberam?</p>
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  <p>Em casa, a indústria de entretenimento ganha um novo aliado. Até agora um dos maiores avanços foi a introdução da TV a cabo, com imagens de altíssima qualidade e possibilidades de centenas de canais diferentes. Isso vem se tornando quase tão comum quanto um videocassete. Tomando carona nessa infra-estrutura um aparelho parecido com um videogame ou videocassete está sendo testado e já tá em fase avançada de desenvolvimento: o set-top-box.</p>

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  <p>Esse aparelho, munido de rápidos e poderosos microprocessadores irá se tornar o aparelho padrão da casa moderna. Com um set-top-box ligado à TV e conectado à Internet uma infinidade de possibilidades seriam abertas. A interatividade com os programas de TV como os Talk-Shows ou Game-Shows seriam muito maiores com os telespectadores interagindo com os apresentadores com a velocidade de transmissão dos cabos usados na TV a cabo. Os sistemas de tele-compra se difundiriam muito mais transformando Shopping Centers inteiros em ambientes virtuais a serem navegados na Internet.</p>

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  <p>Além disso, quando os set-top-box ficarem mais comuns, coisa de no máximo uma década, as video-locadoras atuais seriam virtualmente extintas devido à outra tecnologia: o video-on-demand. Com a velocidade aumentada devido à utilização de cabos de fibra-ótica, muito mais dados poderiam trafegar de uma vez o que tornaria possível transmitir filmes inteiros via Internet.</p>

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  <p>As pessoas também já não precisariam mais ficar presos a horários fixos. Com as telecomunicações ligadas na rede, bancos de dados de grande capacidade poderiam armazenar todos os programas do dia e transmití-los à vontade do assinante. Assim, basta escolher num menu que apareceria na tela da TV pelo programa que tem vontade de assistir na hora que quiser e não perder mais tempo com comerciais ou ter que ir à uma locadora para alugar um vídeo.</p>

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<p>(comentário) Desde o começo do Java, antes dos NetPCs, muitas empresas já vinham perseguindo a idéia de um microcomputador que eles chamavam de set-top-boxes. Literalmente caixas que você ia deixar em cima da TV, talvez recebendo internet pela mesma infraestrutura de TV a cabo. E seria tipo um hub, um cérebro que ia permitir a gente ter mais controle sobre a programação da TV.</p>
<p>Muita gente até hoje ainda assiste TV de forma passiva, mas se você assiste meu canal você faz parte da geração que assiste o que quer e quando quer via YouTube ou Netflix da vida. O que a gente chamava de set-top-box hoje você chama de Chromecast ou Apple TV, ou melhor ainda, SmartTV, que já vem embutido com um microcomputador dentro rodando algum Android da vida.</p>
<p>Na previsão a gente fala que em até 10 anos isso ia acontecer e seria o fim das locadoras. Levou mais de 10 anos, precisou de coisas como o Tivo, Roku, Apple TV, Chromecast, o sucesso da tecnologia de smartphones pra termos processadores ARM e sistemas operacionais como Android ou Tyzen pra ficar barato o suficiente pra adicionar em toda TV. Todo mundo tentou solucionar esse problema na 1a década do século XXI, mas foi um processo bem mais lento de várias empresas em paralelo. Mas mesmo assim, redes de locadoras como Blockbuster de fato desapareceram antes disso.</p>
<p>Bill Gates acreditava que a Internet da época ainda era a versão 1.0, super rudimentar, super lenta. Boa parte do que a gente usava dependia da infraestrutura da antiga Arpanet, montada mais pra fins acadêmicos. Não era robusta o suficiente. Pra internet comercial acontecer de verdade precisaria haver algum motivo pras pessoas quererem banda larga.</p>
<p>É um investimento enorme das telecoms e elas precisam saber que haveria retorno desse investimento. Gates acreditava que video on demand seria o catalizador pra essa demanda, porque só via linha discada da época seria impossível assistir video em tempo real como fazemos hoje.</p>
<p>A febre da bolha da Internet ajudou a acelerar essa infraestrutura. Muitas empresas investiram nisso durante o fim dos anos 90 e começo dos 2000. Mas levou mais de uma década pra gente ter banda larga difundido o suficiente pra possibilitar um YouTube a partir de 2005.</p>
<p>Hoje em dia, de fato, o maior uso de banda no mundo é de serviços de streaming, tanto que quando as quarentenas começaram e todo mundo foi obrigado a ficar em casa, aumentou dramaticamente o uso de banda ao ponto que os governos da Europa pediram pra Netflix da vida forçar baixar a qualidade do streaming pra usar menos banda, porque a infraestrutura não tava preparada pra tanta demanda do dia pra noite.</p>
<p>Mas o ponto é que o Gates tava certo em imaginar que se a internet fosse se tornar o tal &ldquo;information superhighway&rdquo;, como ele chama no livro, termo cunhado pelo Al Gore lá por 94, a infraestrutura física tinha que ser muito mais que usar a rede discada e modens lentos.</p>
<p>Iria passar pelo reuso da rede de TV a cabo até conseguirmos ter fibra ótica, cabos submarinos, satélites e tudo mais pra ligar tudo mundo em banda larga como é hoje. E o catalizador pra isso poderia ser video on demand, como de fato foi. Mas a previsão tava muito arrojada, demorou um pouco mais do que a gente pensava.</p>
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  <p>O comércio ganharia um contexto totalmente novo. Hoje em dia vamos às lojas, pesquisamos no boca-a-boca, gastamos horas e horas visitando dezenas de lojas por horas a fio até encontrar o que precisamos. Os mais avançados usam o sistema de tele-compras que usam canais de TV só deles pra apresentar produtos e permitir compras só usando telefone, cartão de créditos, com entrega a domicílio. Utilizando um micro na Internet também já temos a possibilidade de encontrar muitas opções parecidas como lojas de música, livros, equipamentos eletrônicos, companhias aéreas e mais.</p>

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  <p>Mas num futuro bem próximo vamos ter virtualmente tudo que temos na vida real via Internet. Teríamos desde o mais simplório super-mercado até o maior Shopping Center em ambientes virtuais pra navegarmos com simplicidade e todas as compras seriam feitas via cartão de crédito, como hoje, ou por dinheiro-eletrônico. Nesse sentido já existem muitas empresas se ligando a grandes bancos para criar um padrão seguro e viável de virtualizar o dinheiro, assim as operações financeiras seriam muito mais fáceis e seguras que hoje.</p>

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<p>(comentário) Esse era um dos usos mais fáceis de visualizar naquela época, que é o comércio online. Mas a gente ainda não tinha muita idéia de como isso ia acontecer. Muito tempo antes da gente se preocupar com segurança, alguns se arriscavam a comprar online com cartão de crédito. Mas antigamente não tinha Paypal nem nada disso. SSL tinha acabado de ser inventado. Quase nenhum banco tava preparado pra esse tipo de integração. Ainda ia levar alguns anos pro ecommerce se tornar massivo.</p>
<p>Naquela época a gente ainda não conseguia imaginar um Google, muito menos ad sense, SEO e tudo mais. Nossa idéia de procurar na internet era ter algo parecido com as páginas amarelas na Web. Era a idéia ingênua de catalogar tudo que existe mas ninguém pensava que teria tantos sites que logo precisaria ter alguma forma de pesquisar via relevância. A gente tinha idéia de search engines mas não tinha idéia do PageRank do Google, que ainda estava bons 3 anos no futuro.</p>
<p>Fora que hoje temos o conceito de marketplaces, onde uma Amazon ou MercadoLivre da vida concentra acesso ao inventários de centenas de lojas menores por baixo. A idéia antiga eram só lojas independentes ou algum conceito de shopping center virtual. E quando a gente falava &ldquo;virtual&rdquo; era uma noção bem scifi de realidade virtual mesmo.</p>
<p>VR era uma tecnologia que a gente tava começando a brincar. Mas nem hoje ninguém sabe como é o melhor jeito ainda. O máximo que a gente tinha na cabeça era a idéia de portais web, que todo discador dava acesso, como UOL, Terra ou iG da vida, que funcionavam como porta de entrada pra tal &ldquo;web&rdquo;.</p>
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  <p>Em outra situação veríamos uma pessoa entrando no seu carro popular mas com um detalhe se sobressaindo no painel: uma espécie de tela plana wireless ligada à Internet poderia automaticamente ler as informações sobre as vias públicas mais próximas e identificar um engarrafamento e encontrar um caminho desobstruído. Além, é claro, de servir como um computador de bordo completo.</p>

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<p>(comentário) De novo, esse tipo de coisa não era tão difícil de imaginar porque a gente já tava começando a ver a primeira geração de GPS e mapas digitais. Lógico que dali pra um Waze ia precisar de quase 20 anos de novas tecnologias. Mas o conceito que a gente entendeu nos anos 80 a 90 foi a visão de Gordon Moore, onde o poder de processamento dobra a cada 2 anos mais ou menos.</p>
<p>Em particular passamos os anos 70 e 80 vendo empresas como a Sony miniaturizando tudo, como sair dos enormes tocadores de LP pra walkmans por exemplo, então a gente extrapolava que no futuro ia continuar nesse mesmo ritmo e muito em breve ter um computador no carro seria inevitável.</p>
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  <p>As escolas e os centros de treinamento também seriam beneficiados pelas novas tecnologias como monitores planos tão finos quanto um quadro-negro ligados à um micro computador e este ligado à Internet. Qualquer dado poderia ser adicionado à uma apresentação pré-preparada em real-time ou então um grupo de pesquisadores poderia se comunicar com um expert do outro lado do planeta via teleconferência. E em vez de cada participante fazer anotações em cadernos usando as primitivas canetas ou lápis, cada computador de bolso pessoal seria ligado à rede local e toda informação relevante seria automaticamente armazenada na sua conta de Internet.</p>

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  <p>O Wallet-PC substituiria vários documentos como a carteira de identidade, documento de motorista, passaporte, exames médicos e muito mais, bastando ao usuário digitar sua senha pessoal e acessar os dados pela rede. Assim, num aeroporto, a passagem seria validade pela transferência de dados do micro computador ao computador do aeroporto, o passaporte seria verificado e a passagem validada sem a necessidade de qualquer outra interação do usuário senão tocar na tela ( touch-screen ).</p>

</blockquote>
<p>(comentário) Uma das coisas que o Gates acertou foi a noção de smartphones que temos hoje. Ele chamava de Wallet-PC e tecnicamente ele descrevia como um computador do tamanho de uma carteira.</p>
<p>Vale lembrar que a Microsoft de fato tentou implementar muitas dessas idéias. Lá no começo dos anos 2000 eles já tentaram ter uma tela de notebook com touch com suporte no Windows. Mas o conceito ainda tava muito à frente do tempo. Foi só depois dos Blackberry, lançamento do iPhone, telas multi-touch e a chegada das redes 3G que chegamos a concretizar essa visão.</p>
<p>Depois surgiram coisas como QR codes, RFID e outras formas de codificação que facilitaram muito termos coisas como passagens digitais, identificação de produtos e muito mais, mas isso só apareceria mesmo na última década.</p>
<p>A parte da educação que não mudou muito. Eu fico pasmo de ver que estudantes de computação hoje estão aprendendo mais ou menos do mesmo jeito que eu aprendia em 96. Claro que ter material online, comunicação distribuída como whatsapp, emails, google drive e tudo mais ajuda muito comparado ao que eu tinha, mas não foi uma disrupção significativa. O sistema em si ainda é o mesmo. Uma hora eu falo mais sobre educação, mas se os cursos de agora são alguma indicação, essa é uma área que evoluiu muito pouco.</p>
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  <p>A evolução mais que premeditada e com a ajuda de dezenas de gigantes da informática como Oracle ou Microsoft é a da Super Information-Highway, a evolução direta da Internet e provavelmente uma das maiores revoluções da conectividade. Isso irá acontecer quando a rede for usada pra mais serviços, difundida nas casas de mais pessoas com possibilidades de armazenamento de dados, processamento de informações e muito mais além de conseguir concentrar o mundo todo numa grande rede onde dá pra fazer quase tudo. A rede que vai ligar os micros em casa aos servidores das empresas aos Wallet-PC aos computadores de bordo de veículos de qualquer natureza e a muito mais coisas.</p>

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  <p>E tudo isso é só uma simples amostra das tendências para a próxima geração, coisa muito próxima e já com muitos elementos prontos e outros já em desenvolvimento. Em pouco tempo todas as tarefas dispendiosas e tediosas poderão ser feitas em segundos e informações de milhões de fontes diferentes em centenas de locais distribuídos no mundo todo estarão disponíveis ao &ldquo;toque de um dedo&rdquo;.</p>

</blockquote>
<p>(comentário) E essa foi minha conclusão. A gente sempre tinha na cabeça esse conceito abstrato chamado Information Superhighway. A internet comercial tinha acabado de começar mas a gente ficava imaginando o que seria a próxima versão da internet. Isso era derivado da idéia do Gates de ter um computador em cada casa, e o passo natural com a internet era cada computador em cada casa com acesso à internet. Mais do que isso, o processamentos e os dados nesse lugar abstrato que antes chavam de super highway e hoje chamamos de Nuvem.</p>
<p>Eu com 19 anos nunca fui o tipo empreendedor nem nada disso. Depois de ler tudo isso eu tava empolgado com o futuro. Mas eu não tinha vontade de ser aquele que ia inventar o Waze, Zoom, Google ou qualquer coisa assim. É aqui que eu falo que você tem que tomar cuidado pra não querer tentar fazer as coisas do jeito que eu faço.</p>
<p>Eu simplesmente gosto de novas tecnologias. 25 anos depois eu continuo inconformado e quero mais. Mas não tenho esse drive de precisar fazer as coisas eu mesmo. É meio como quem gosta de carros esportivos, você quer poder dirigir um Lamborghini, mas não necessariamente quer construir o próximo Lamborghini. Ou quem gosta de um bom vinho gran crux. Eu quero poder tomar um vinho campeão mas não quero gastar a próxima década produzindo a melhor uva. Tecnologia pra mim é que nem um Armani, eu quero ter, mas não faço questão de virar estilista pra isso.</p>
<p>Eu sempre gostei de adotar tudo que saía de novo, o novo me deixa empolgado. Tecnologia em particular é interessante porque é como poder ter uma Ferrari sem precisar pagar o preço de uma Ferrari, porque é tudo digital, só baixar e entender. Novos sistemas operacionais, novas linguagens, novas bibliotecas. Eu sempre tive a obsessão de um colecionador.</p>
<p>Por acaso, à medida que eu ia colecionando, e ia aprendendo os detalhes de como cada coisa funcionava, por coincidência esse conhecimento acabaria sendo útil pra muita gente. E no próximo episódio vou mostrar como essa obsessão por colecionar tecnologia iria ser a fundação da minha carreira de maneiras inesperadas.</p>
<p>Só refletindo hoje é que parece que o livro The Road Ahead foi mais influente do que eu imaginei na época. Eu nunca fui fã do Bill Gates, mesmo depois de ter lido o livro. A gente usava coisas da Microsoft porque era a maior e praticamente não tinha concorrentes. Apesar de ter usado MS-DOS e Windows 3.1 por anos já, logo que saiu coisas como o Netscape ou Linux, eu quis usar no mesmo dia que descobri que existiam. Desde a faculdade eu nunca tinha aprendido o conceito que a gente precisava ser fã de alguma coisa. Eu só queria o que era mais novo e melhor e ponto.</p>
<p>O episódio de hoje foi mais pra desenterrar mais uma memória que eu nem lembrava que tinha e por coincidência é um material que fez 25 anos este ano. Eu gosto de ter guardado esse material que  escrevi. Era uma época em que a gente era ingênuo e tudo parecia possível. Muita coisa que tinha no livro do Gates não aconteceu ou aconteceu diferente. Então também não é um livro profético nem nada. É muito fácil escolher só as previsões que deram certo. Especialmente porque as que deram certo poucas vieram da própria Microsoft. Empresas como Google, Apple, Amazon foram mais decisivas em concretizar essa visão no meio dos anos 2000.</p>
<p>Eu não sou nenhum tipo de profeta ou tenho bola de cristal por ter escrito essas coisas. Eu só observei o que outros como Gates falavam. O próprio Gates estava perto do ápice. Pra dar noção, no fim de 1996 a Microsoft ia ser avaliada em 100 milhões de dólares. Ao fim dos anos 90 estava próxima de meio trilhão, mas aí a bolha da internet estourou e ela diminuiu pra menos de 1 quarto de trilhão. Depois da crise financeira de 2008 ia diminuir ainda metade desse valor, pra ficar próxima dos 100 milhões de valuation igual 1996. Mas depois iniciou o atual super ciclo de crescimento, onde todo mundo só cresce faz quase 12 anos e em 2019 ela finalmente ultrapassaria o 1 trilhão, pra se unir aos big 4 de hoje que são a Apple, Alphabet e Amazon.</p>
<p>Por causa disso ele tem acesso a todas as principais pesquisas em todas as principais áreas da indústria. O co-autor do livro The Road Ahead foi Nathan Myhrvold, que foi CTO da Microsoft na época e co-fundador da controversa Intellectual Ventures que é um portfolio de patentes. Ele já desenvolveu e comprou dezenas de milhares de patentes e é considerado um &ldquo;patent troll&rdquo;, que são aqueles que saem processando os outros por patentes triviais até, quase extorsão.</p>
<p>Mas apesar das controvérsias ele de fato é um cientista que ao longo dos anos trabalhou em diversas áreas como astronomia, paleobiologia e muito mais. O ponto é que o co-autor do livro tinha de fato o dedo em todo tipo de inovação que tava no forno e ninguém sabia que existia na época. O melhor jeito de prever o futuro, como já diria Steve Jobs, é inventar o futuro.</p>
<p>Seria muito clichê dizer que o livro me inspirou a entrar na área de wallet-pcs que viriam se tornar smartphones ou a estudar redes pra entender como fazer video on demand ou qualquer coisa assim, mas também não. Nenhuma decisão de carreira que eu tive jamais teve nada a ver com o livro. Mas de qualquer forma é uma publicação que fez sentido pra minha cabeça de 19 anos de idade e me ajudou a visualizar como as coisas poderiam ser no futuro. Então quando cada uma dessas coisas começaram a aparecer anos depois, facilitou eu adotar porque fazia parte dessa grande visão de futuro.</p>
<p>Por hoje eu só queria compartilhar essa história não pra dizer que ela me inspirou a seguir determinado caminho, mas sim pra dizer que uma vez que a gente chega no futuro é muito fácil contar uma história voltando pra trás. Hoje em dia os jovens de 19 anos provavelmente estão igualmente empolgados com o que os visionários de hoje prevêem sobre o futuro como os Elon Musk da vida.</p>
<p>O aviso é só pra não acreditar em tudo ao pé da letra, mas não há mau nenhum em ter a visão de inteligências artificiais e fontes de energia alternativas pro futuro. Daqui 25 anos talvez essas coisas já tenham se tornado triviais também. E quem quiser compartilhar histórias do que pensavam sobre o futuro nos anos 90, não deixem de mandar nos comentários abaixo. Se curtiram o video deixem um joinha, assinem o canal, cliquem no sininho e não deixem de compartilhar o video com seus amigos. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>historia-da-computacao</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #82 - "Os Rumores da Minha Morte foram Exageradas" 🤣</title><link>https://akitaonrails.github.io/2020/08/13/akitando-82-os-rumores-da-minha-morte-foram-exageradas/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2020/08/13/akitando-82-os-rumores-da-minha-morte-foram-exageradas/</guid><pubDate>Thu, 13 Aug 2020 10:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;O video de hoje vai ser bem mais curto que o normal mas eu explico porque.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Links:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
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<h3>DESCRIÇÃO<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Depois de um longo período de descompressão, estou de volta!</p>
<p>O video de hoje vai ser bem mais curto que o normal mas eu explico porque.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Codeminer 42 Careers (<a href="https://www.codeminer42.com/careers"target="_blank" rel="noopener">https://www.codeminer42.com/careers</a>)</li>
</ul>
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</ul>
<h3>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Pois é, eu to sumido faz mais de um mês e resolvi voltar devagarinho agora. Continuo de quarentena como deve dar pra ver pelo cabelão aqui e o video de hoje vai ser um pouco um bate papo em vez do normal de eu vomitar uma tonelada de conteúdo. E sim, se vocês notaram meu novo acessório podem ver que eu não tô 100% também. Quem me acompanha no Instagram sabe que faz mais de ano que eu ando de uniciclo elétrico. Bom, isso é o que acontece quando um deles dá pane. Sim, eu tava de capacete e proteção pras mãos e pulsos. Felizmente eu consegui cair razoavelmente bem e isso aqui não tá quebrado não. A parte mais importante que são as mãos tão funcionando, mas eu acho que tive uma distensão no braço. Eu pretendia voltar na primeira semana de agosto mas isso aqui vai me atrasar mais um pouco. Por isso o video de hoje é bem mais curto que o normal também.</p>
<p>De qualquer forma, eu resolvi dar uma pausa nos videos porque eu tava ficando frustrado. Isso é uma coisa de como eu funciono, e eu tenho mania de testar o limite de algumas coisas, como vocês podem ver pelo meu braço. É uma coisa meio masoquista mesmo, sei lá. Meu uniciclo vai até 35 quilômetros por hora, isso depois de desbloqueado, porque a trava de fábrica era 25. Se você força mais, ele vai freando pra não passar do limite. Só que o freio também aquece o motor, e minha teoria é que o motor super-aqueceu e por isso deu pane. A mesma coisa aconteceu com meus videos, eu fui forçando. Eu comecei fazendo videos de 15 minutos. Daí fui acelerando, videos de 30 minutos, 40 minutos, 1 hora, 1 hora e meia. Eu não tenho muito freio, até a hora que super-aquece e dá pane.</p>
<p>No caso dos videos, eu me dei burn out sozinho. Os últimos videos tavam levando dias pra produzir. Sem brincadeira, acho que o ultimo video me custou facil umas 30 horas ou mais pra fazer. E isso não é minha atividade principal, é um hobby. Eu já tenho um emprego que tá indo super bem aliás, obrigado por perguntar. Mas achei interessante a coincidência do timing desse acidente. Mano, isso doeu bagarai, o maldito uniciclo literalmente fez panqueca de mim no asfalto. Mas, eu também judiei bastante dele, pra aprender eu cai na rua várias vezes como vocês devem lembrar se assistiram o video de A Dor de Aprender.</p>
<p>Eu tinha acabado de tirar o uniciclo da manutenção, porque da última vez que eu capotei foi tão forte que a bateria começou a inchar e precisei trocar. Mas acho que não ficou 100%. Paciência, quando um cavalo te derruba não tem o que fazer a não ser sacrificar o cavalo. Por isso pra não forçar mais, resolvi encomendar a versão nova que vai até 55 km/h e tem suspensão. Me sigam no Instagram que eu posto lá quando chegar. E sim, eu não páro só porque machucou. Acidente não é motivo pra parar, só pra reavaliar e dar o próximo passo. Mesma coisa com burn outs.</p>
<p>Portanto não, o canal não morreu. Vocês não vão se livrar de mim tão fácil assim. De qualquer forma, o timing foi providencial porque não sei se vocês notaram, mas o canal acabou de completar 2 anos dia 7 de agosto. Eu ia voltar antes se não fosse pelo acidente, mas é uma boa hora pra eu desacelerar um pouco os videos também. Eu já ultrapassei os limites que eu tinha em mente e preciso voltar a um ritmo mais sustentável. Muita gente me pergunta porque eu não abro um Twitch quando eu estivesse jogando meus games, mas é por isso, eu fatalmente ia acabar tornando a minha descompressão, que é jogar, num trabalho, e aí não ia ser legal.</p>
<p>Um dos meus objetivos fazendo esse canal foi testar se era possível fazer videos atemporais, ou seja, que não são motivados por propaganda ou tendências da moda só pra tentar atrair mais visualizações. Pelas minhas contas, se eu conseguisse lançar videos semanalmente, sem interrupções por 2 anos, e chegasse talvez a 10 ou 20 mil assinantes no primeiro ano e perto de 50 mil no segundo ano, a meta tava cumprida. Só que por acidente acabou sendo 3 vezes mais que isso, estamos agora com uns 160 mil assinantes. Foi bem mais rápido do que eu imaginava. E a média de visualizações por video também superou o meu mínimo de 10 mil cada, então acho que alguma coisa eu fiz certo aqui. O próximo teste era esse, se eu pausar o canal por um mês, como fica a volta? Vamos saber em breve.</p>
<p>Algumas pessoas ainda perguntam como eu faço os videos e pra isso eu recomendo que assistam o video de 1 ano do canal, onde eu mostro um pouco do processo, dos bastidores e equipamentos. Eu venho namorando equipamentos melhores faz algum tempo, na prática? Não importa. O tipo de videos que eu faço não vai se beneficiar de coisas como uma câmera 4K ou maior, só vai aumentar meu trabalho: vai precisar de uma máquina mais forte pra editar e renderizar, e o resultado final vai ser basicamente a mesma coisa. Ninguém vai aprender mais vendo minhas rugas em 4K. O que faz diferença é conteúdo. Se o conteúdo é genérico, que qualquer outra pessoa poderia fazer, ou se a frequência dos videos é ruim, não importa se o equipamento é bom, o resultado vai ser uma droga de qualquer jeito. O que o algoritmo do YouTube se importa é a retenção, a quantidade de horas que o video consegue segurar as pessoas. Não é nem visualizações e nem assinantes.</p>
<p>Como eu consegui passar minhas metas, acho que vou continuar com o canal por mais tempo. Na verdade a meta foi batida no final do ano passado já. Essas férias de Julho que eu me dei foi pra me relembrar que o canal não é meu ganha pão. Ficar de burn out de graça não é divertido. Então provavelmente vou me frear um pouco mais pra não cansar tanto.</p>
<p>Se você é novo aqui e ainda não assistiu os videos anteriores, vale relembrar que este canal não é monetizado e eu não aceito patrocínios pra nenhuma ação comercial. Eu tenho recebido várias propostas, e acabo nem respondendo todas, mas assumam que a resposta é sempre não. E vai continuar sendo assim, porque não tenho como meta transformar o canal em outro business. A melhor forma de contribuir pra minha motivação é ajudando a compartilhar os videos.</p>
<p>A única propaganda que eu poderia fazer é da minha própria empresa que é quem de fato paga as contas. Em dois anos eu nunca fiz, mas como este video é atípico, e o timing também está bom, vou aproveitar pra fazer mais um teste. Eu evito fazer propaganda pra não misturar as coisas mas também porque o nível de aproveitamento costuma ser baixo. Mas vamos lá, pra quem não sabe eu tenho uma empresa de outsourcing de desenvolvimento de software chamada Codeminer. Faz quase 10 anos já. Antes da quarentena todo mundo trabalhava de um dos nossos 12 escritórios espalhados pelo país. Todos os clientes se concentram ou aqui em São Paulo ou em algumas cidades dos Estados Unidos como São Francisco. Como eu disse a empresa tá indo super bem, muito melhor do que o normal aliás, e por isso excepcionalmente hoje resolvi anunciar que temos várias vagas abertas.</p>
<p>Sendo curto e grosso, se você tem experiência em tecnologias Javascript, tanto front-end como React ou back-end como Node, também Ruby on Rails, Elixir e talvez Python e, principalmente, tem mínimo de inglês pra conversação e não só leitura, mandem seu currículo pro nosso e-mail de contratação que está aqui embaixo: become @ codeminer42.com.  Se você acompanha o canal sabe que não é de hoje que eu falo que inglês é importante. Daí minha equipe vai entrar em contato pra fazer entrevista e passar um teste. Estágio só dá se você estiver numa faculdade e estiver no último ano. Eu expliquei no vídeo de Começando na Carreira de TI que a lei exige intermediação de uma instituição de ensino pra estágio.</p>
<p>Hoje temos uns 100 funcionários, quase todos desenvolvedores e não só não tivemos nenhuma demissão por causa da pandemia como faz meses que estou com muito mais demanda do que consigo atender. Não vou fazer nenhuma promessa porque vocês sabem que eu não gosto de conversa pra boi dormir, se seu objetivo é o mesmo que o nosso, que é evoluir na carreira e ser lucrativo, sem mimimi, com papo reto, mandem um e-mail e a gente vê o que rola.</p>
<p>E é isso aí, o video de hoje foi mais porque já passou mais de um mês e com esse acidente talvez fosse demorar mais pra voltar e eu não queria deixar vazio por tempo demais também. Por causa do meu braço ainda não sei se já semana que vem volto com mais video, mas me acompanhem nas redes sociais pra saber. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>pessoal</category><category>carreira</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #63 - Não Terceirize suas Decisões! | A Lição MAIS Importante da sua Vida</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/10/09/akitando-63-nao-terceirize-suas-decisoes-a-licao-mais-importante-da-sua-vida/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/10/09/akitando-63-nao-terceirize-suas-decisoes-a-licao-mais-importante-da-sua-vida/</guid><pubDate>Wed, 09 Oct 2019 11:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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<h2>Description<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"></span>
    <a href="#description" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Faz anos que eu recebo o mesmo tipo de pergunta toda vez, mais agora por causa do canal.</p>
<p>“Akita, o que você recomenda que eu faça na minha carreira?”</p>
<p>“Akita, o que eu deveria aprender primeiro?”</p>
<p>“Akita, tenho família pra criar, como eu mudo de profissão sem arriscar eles?”</p>
<p>E por aí vai.</p>
<p>Hoje eu vou meio que não responder e responder ao mesmo tempo. Mas eu quero ir além e explorar como você mesmo deveria pensar sobre essas perguntas pra chegar na melhor resposta pro seu caso.</p>
<p>E ao mesmo tempo quero tentar explicar como você deveria pensar pra não ser enganado por charlatães que te oferecem respostas atraentes e fáceis.</p>
<p>== PARA OS VIDEÓGRAFOS</p>
<p>Se você assistiu meu video anterior onde eu explico sobre as configurações do meu equipamento e cenário, lembram que o áudio estava ruim, porque eu testei gravar ligando o microfone direto na câmera.</p>
<p>Não tem jeito, um gravador bom separado tem qualidade melhor. Então eu liguei o Rode Wireless Go no gravador Tascan pra poder ter microfone de lapela sem fio.</p>
<p>E na configuração da minha Canon Rebel T7i eu subi o shutter speed de 30 pra 60 como recomendaram, mantive o aperture em f/1.4 e subi o ISO de 100 pra 200 e acho que ficou melhor.</p>
<p>O que acharam?</p>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Finalmente estou de volta, este mês passei 2 semanas fora, primeiro em Miami, depois nos meus escritórios do Rio Grande do Sul semana passada inteira. E daqui 2 semanas vou viajar de novo. Essas últimas semanas estão corridas, em novembro devo voltar ao normal, e ainda tá na minha lista pra fazer episódios mais técnicos, mas por agora resolvi fazer um Rant de novo. Não chega a ser Rated R, mas acho que tá perto.</p>
<p>O tema deste episódio é sobre tomada de decisões, em particular sobre dois tipos de perguntas que me fazem o tempo todo. Que decisões eu devo tomar pra minha carreira. E que decisões eu devo tomar pros meus projetos ou empresa. A resposta mais simples que eu posso dar é: pare de terceirizar suas decisões. Não terceirize decisões importantes da sua vida pra ninguém. E sobre as partes técnicas, o resumo é: a menos que você seja engenheiro de uma tech startup com mais de dezenas de desenvolvedores e com valuation de milhões de dólares, para de prestar atenção na maioria das palestras e artigos de engenheiros de Facebook, Google, Nubank, Netflix, Amazon e similares.</p>
<p>Essas duas questões estão interligadas e quanto mais cedo você aprender a lidar com isso melhor vai ser pra você. Eu quero tentar explicar porque você acha tão difícil tomar decisões, porque você acha tão difícil saber o que estudar, e porque você toma muitas decisões erradas que não precisaria tomar. E porque sua ânsia em não querer perder tempo nem dinheiro é justamente o que vai te trazer mais prejuízo.</p>
<p>Desde que eu comecei a blogar, palestrar e principalmente agora que abri o canal, eu tenho recebido um número preocupante dos mesmos tipos de pergunta. Faz mais de uma década que ouço as mesmas indagações. E imagino que diversos outros palestrantes e “influencers” recebam perguntas similares. Um dos tipos de pergunta tem a ver com o que a pessoa, como iniciante, deveria aprender primeiro, mais especificamente, que plataforma eu deveria escolher, que linguagem é a melhor, que ferramentas eu deveria investir. Se assistiu os outros vídeos do meu canal e ainda não entendeu a resposta é simples: essa resposta não existe. Só isso. Eu prefiro perguntas mais objetivas, coisas como “Akita, se eu quiser usar Ruby pra fazer aplicativo desktop, rola?” Aí eu consigo responder objetivamente: “Não”.</p>
<p>Mas perguntas que claramente tem a expectativa de justificar uma escolha, ou pior, terceirizar a decisão da sua carreira pra mim ou qualquer outro, não faz nenhum sentido. Por que você quer terceirizar as decisões da sua vida pra outra pessoa? Não faça isso. Só porque você vê alguém como eu ou qualquer outra pessoa em cima de um palco, isso não nos torna oniscientes, eu não te conheço, não sei que caminho você trilhou até agora, que dificuldades você teve, eu não sei quais seus objetivos de vida, se é que você tem objetivos. Nem eu, nem ninguém, poderia te dizer o que fazer sem conhecimento da sua história e dos seus objetivos.</p>
<p>Eu falei isso em outros vídeos e palestras quando falo de faculdade e como tem conclusões idiotas do tipo “ah, não vou fazer faculdade porque olha lá o Bill Gates ou o Mark Zuckerberg, eles não terminaram a faculdade e se tornaram bilionários”.
Que conclusão imbecil, sério, a menos que seja dito na brincadeira, mas se a pessoa realmente pensa dessa forma a próxima coisa óbvia a se dizer é: conta a história direito, primeiro você entra em Harvard, se você conseguir entrar em Harvard e ficar lá uns 2 ou 3 anos, aí sim, pode parar pra pensar em desistir. Agora sair do seu EAD de esquina achando que vai ser o Bill Gates é o cúmulo da alucinação.</p>
<p>Aliás, eu nunca leio biografias, eu não tenho paciência e nem curiosidade de saber sobre a vida dos outros. Eu assisto filmes de biótipos, sabendo que é ficção. Todo filme que começa com “baseado numa história real” é exatamente o que ele quer dizer: a base é real, mas a história toda é uma ficção, cuidadosamente desenhada pra estimular suas emoções por duas horas. Só isso. Todo mundo tem uma história de drama na vida. Algumas mais dramáticas que outras. Mas isso não as torna oniscientes e muito menos onipotentes pra de repente terem sabedoria universal e a resposta pros problemas de tudo e de todos. Sério, pára pra pensar por dois segundos.</p>
<p>Se você realmente leva a sério sua carreira e sua vida em geral fica a dica: pare de terceirizar as decisões da sua vida pra “influencers”. Imbecis como eu aqui cagando regra não vai te ajudar. Eu sempre conto histórias e faço análises colocando contexto. Meu objetivo não é te dar respostas, é tentar dar dicas de como você acha as próprias respostas. Por isso eu falo tanto em “Aprendendo a Aprender”. O processo é simples na real: você nunca vai ter a resposta correta pra tudo, desista de tentar achar. Então como faz? Você estuda, você usa sua experiência, você erra e aprende com seus erros, quando dá você observa os erros dos outros e tenta não errar igual. Mas mais importante: assuma que você vai errar, e assuma que você vai ter prejuízos e ponto final. O problema não é acertar sempre, é como você se recupera depois de um erro. E muito do que você considera “erro” hoje pode ser útil mais pra frente, você só não sabe disso ainda.</p>
<p>Via de regra, quanto mais jovem você for, mais devia usar seu tempo pra estudar. Agora a questão é: estudar o que? Não importa. Vocês viram meu vídeo dos meus primeiros 5 anos? Tecnicamente, nada do que eu estudei naquela época é prático hoje, mas tudo que eu estudei valeu a pena na época. Principalmente: o fato de eu estar praticando o ato de estudar. Estudar é uma arte, você aprimora a técnica e com o tempo se torna mais eficiente e mais rápido em estudar. O que você estuda é menos importante do que “como” você estuda.</p>
<p>Um exemplo pequeno: antigamente eu achava que precisava ler os livros técnicos do começo ao fim. Levava um puta tempo. Hoje em dia eu raramente leio livro técnico do começo ao fim. Eu leio os primeiros capítulos e, se eu preciso, eu volto nos capítulos do meio à medida que vou precisando, se precisar. Se eu nunca voltar, é porque o assunto não era útil pra mim, e eu pulo pra outro assunto. Eu digo isso hoje, que eu tenho 42 anos. Com 20 anos, você deveria mesmo ler do começo ao fim. Não tente queimar passos, é que nem você que acabou de aprender a andar na bicicleta com rodinhas achar que vai fazer bicicross pulando rampa. Não vai.</p>
<p>Se você está pra começar a faculdade, entenda que nos últimos 10 anos você aprendeu a estudar do jeito errado. Eu percebi isso só quando entrei na faculdade também. Por mais de 10 anos da sua vida você aprendeu a seguir um currículo. E você se condicionou a estudar o mínimo necessário e só pouco antes dos trabalhos ou provas. E as frequências das provas é sempre a mesma, provas bimestrais. E você sempre sabia o que estudar, porque já estava pré-definido. Todo mundo estuda o mesmo material, você nunca teve que escolher o que estudar.</p>
<p>Daí você entra na faculdade, e é mais ou menos a mesma coisa. Todo curso tem material pré-definido. Você tem as provas em datas pré-definidas. Talvez uma das poucas atividades que quebrem a rotina seja o Trabalho de Conclusão de Curso, o temido TCC. Que a maioria faz só na última hora mesmo que eu sei. Quem faz iniciação científica talvez tenha tido mais treinamento, mas no geral, você continua seguindo um currículo.</p>
<p>Parem pra pensar nisso: se você nunca repetiu de ano, você tem 21 ou 22 anos, recém formado da faculdade. E você passou uns 14 ou 15 anos da sua vida, ou seja, literalmente sua vida inteira seguindo uma receita pré-definida. É por isso que muita gente reclama quando entra no mercado de trabalho que a faculdade não preparou ele direito. Eu nem vou entrar no mérito da qualidade e da metodologia da educação moderna, e também não adianta chorar sobre o leite derramado. Só aceite que até o fim da faculdade, uma pessoa mediana só aprendeu a tirar 5 pra passar de ano e de repente não tem mais prova bimestral, não tem mais currículo, não tem mais professor “enchendo seu saco”. A partir de agora, todo dia é uma prova. Você só andou de bicicleta de rodinhas e do dia pra noite vai ter que aprender a fazer bicicross e saltar uma rampa por dia.</p>
<p>Eu não sei dizer exatamente quando, mas eu me dei conta disso no começo da faculdade. E tive a oportunidade de ir aprendendo a tirar as rodinhas da bicicleta aos poucos, caindo com mais tempo pra me recuperar, e foi um dos motivos de porque eu saí antes de terminar a faculdade, quando eu me vi já conseguindo me equilibrar na bicicleta sem rodinhas e tentando saltar a rampa antes.</p>
<p>No nosso mercado de tecnologia isso é difícil porque ele ainda não é maduro pra ser bem estruturado. Isso é ao mesmo tempo ruim e bom, bom porque significa que quem arrisca mais pode conseguir uma recompensa maior. Vamos deixar uma coisa muito clara: meu cérebro não é muito diferente do seu não. Não tem nada intrinsecamente codificado aqui que me faz automaticamente melhor que você. Eu aos 20 anos não sou diferente de você aí me assistindo, com seus 20. Na verdade eu diria que você aí com 20 muito provavelmente sabe mais e tem mais habilidades do que eu aos 20. Comece considerando o seguinte: você teve internet uma parte considerável da sua vida já, eu só fui ter acesso à internet, principalmente de noite, lá pros 17 ou 18 anos.</p>
<p>Eu nunca perguntei o que eu devia fazer pra ninguém. Claro, eu ouço, eu observo, eu faço perguntas objetivas, mas eu nunca tive uma gota de vontade de perguntar pros influencers da minha época o que eu deveria fazer. Aliás, eu nem lembro quem eram os influencers da minha época. Nunca perguntei pra ninguém se o que eu estou fazendo está “certo” ou não. E isso é outra razão de porque eu digo que ninguém deve me copiar. As pessoas são diferentes, eu sou do tipo que faz as coisas quieto e sem perguntar. Eu não faço enquete, não tenho paciência. Quando vêem eu já fiz.</p>
<p>Em termos de carreira eu nunca tive ídolos na minha área. Eu jamais segui e jamais seguiria ninguém cegamente. Todas as decisões importantes são minhas, certas ou erradas. Se eu tomar a decisão certa, 100% do mérito é meu. Se eu tomar a decisão errada, 100% do prejuízo é meu também. Quando um adulto fica inventando desculpa pelos prejuízos de suas más decisões e dizendo
“ah, eu segui o que o fulano falou, mas ele errou e eu me fodi, esse cara é um bosta”.
Não filho, o bosta é você. Ou então chorando coisas do tipo
“ah, eu costumava admirar essa pessoa, mas o que ele falou hoje eu discordo, eu esperava mais dele”.
De novo, o bosta é você, até agora você usou o que esse fulano fez ou falou e foi bom pra você, mas agora sua visão pequena de mundo entrou no caminho e de repente tudo que esse fulano representa pra você é nada. Isso diz mais sobre você do que sobre esse fulano.</p>
<p>Não existe e jamais vai existir pessoas perfeitas. Eu não faço nenhuma questão de concordar 100% com qualquer pessoa, de qualquer era. Eu aproveito os 20% que certas pessoas produziram e que são úteis pra mim, e ignoro os 80% que eu discordo. Não tenho vontade nenhuma de perder tempo fazendo linchamento público falando mal das partes que discordo só pra parecer ser o bonzão do Twitter. Na verdade é o oposto: eu sempre considero que todo mundo que se gaba fazendo linchamento público está se refletindo em quem está atacando. Esse tipo de pessoa eu só bloqueio. Eu tenho coisas mais úteis pra fazer com meu tempo do que tentar mudar a opinião xiita dos outros, prefiro gastar meu tempo jogando videogame. Aliás, outra dica aqui: se quem você segue gasta muito tempo falando mal dos outros e reclamando da vida publicamente, pare de seguir essa pessoa, você está perdendo tempo.</p>
<p>Eu digo isso porque eu vejo que a maioria das pessoas sente a tal pressão social de ter que fazer parte de algum grupo. Quando você se vê não se encaixando em algum grupo, você se sente o errado. No meu caso eu tive outra vantagem: eu sou descendente de japonês, e no meu caso, desde criança, eu nunca me encaixei em nenhum grupo e em muitos casos ainda as pessoas faziam questão de me deixar de fora dos grupos mesmo. O que eu ia fazer? Ficar me sentindo vítima da sociedade? Nah, eu simplesmente me acostumei a não fazer parte de nenhum grupo. Eu sou anti social, eu sempre me sinto melhor sozinho e de bônus não sinto ansiedade de estar indo contra algum grupo ou de não fazer parte de nenhum.</p>
<p>Uma coisa que eu repito que eu adoro na matemática é o seguinte. 2 mais 2 é 4, ponto final, do domínio dos inteiros pra imagem dos inteiros, é 4. Não importa se um milhão de pessoas derem like num tweet de um influencer dizendo que é 5. Foda-se, continua sendo 4 e ponto final. Quantidade de likes não torna uma coisa verdade. Se falou merda, continua sendo merda, não importa quantas milhares de pessoas concordem, pra mim é só milhares de pessoas repetindo merda. Zero pressão e não afeta minhas decisões.</p>
<p>Além dessa pressão social e tirando o fato que se você é jovem, nunca teve que decidir muita coisa. De fato, hoje em dia você tem acesso a informação demais, você tem escolhas demais, e isso deve ser bem estressante. É uma das razões de porque eu digo que o mundo hoje é melhor do que 20 anos atrás, ou 50 anos atrás. O mundo antigamente parecia mais “fácil” pros mais velhos porque não tinha muito o que escolher, não tinha nem informação suficiente. Considere que hoje você TEM opções pra escolher. Você só não sabe o que fazer com elas. Não é a toa que tem tanto psicólogo e tanto coaching hoje em dia.</p>
<p>Mas isso vai mesmo te deixar mais e mais frustrado, você acha que tá estagnado. Você não consegue enxergar o tal “futuro brilhante” do século XXI que te prometeram. Eu sei que estou sendo duro, mas preciso ser. Pare de terceirizar as decisões que você tem que tomar. Não faz sentido você me mandar 2 parágrafos de texto no direct message do Insta, do Twitter, do Face, do LinkedIn pra mim ou qualquer outro influencer e achar que vai ter uma resposta certa pra uma pergunta tão subjetiva. E o pior disso: algumas pessoas realmente acham que conseguem dar a resposta certa: suspeite dessa pessoa, ela provavelmente está tentando te vender alguma coisa.</p>
<p>Eu venho tentando responder com ponderação quando me mandam essas mensagens, mas vou dizer que não me sinto bem respondendo e cada vez mais venho postergando dar uma resposta. Porque as respostas nunca vão ser completas o suficiente. Mas mais importante: eu não tenho skin in the game. Se o que eu sugerir der errado, eu não vou sentir, você é que vai. Sempre se lembre desse conceito e jamais acredite em ninguém que te ofereça respostas fáceis pra esse tipo de pergunta, ele está querendo vender livros, cursos ou, deus me livre, coaching ….</p>
<p>Então como você deve fazer? Se você já tem 20 anos, não se preocupe. Você tem tempo de sobra pra errar. Erre rápido, assuma que errou, mude de direção, repita. Começou a ler um livro e está achando ele ruim? Pare de ler. Simples assim. O que a maioria das pessoas tem dificuldade em fazer é assumir custo perdido, e eu falei disso no meu video sobre prioridades. Você já leu vinte capítulos agora acha que precisa ler os próximos 50. Você não quer assumir o tempo que perdeu lendo esses vinte capítulos, então acha que precisa ler os próximos 50. Mas agora você perdeu o tempo de 70 capítulos, só isso. O mesmo vale pra cursos. O mesmo vale pra qualquer outra decisão.</p>
<p>Assuma que você nunca foi treinado pra tomar decisões. Assuma de uma vez que é impossível tomar decisões certas o tempo todo, prepare-se pra assumir algum prejuízo. E não tente achar que outra pessoa vai tomar uma decisão melhor que você, se isso acontecer eu diria que foi mais obra da sorte do que qualquer outra coisa. Especialmente se não foi uma conversa e sim uma resposta fácil. A única pessoa que pode de fato opinar com alguma propriedade é alguém que tem skin in the game: ou seja que vai cortar da própria pele se der errado. Se a pessoa pra quem você está perguntando não tem skin in the game, jogar cara ou coroa vai ter o mesmo resultado. Opinião é que nem bunda, todo mundo tem um.</p>
<p>Tudo é uma aposta. É impossível acertar todas. A melhor estratégia é ser anti-frágil ou seja, fazer apostas que se você perder, perde pouco, mas se ganhar pode ganhar muito. Não existe apostar sem risco de perder nada. Qualquer um que te prometa “ganhos garantidos” é um charlatão e você está entrando numa pirâmide. Vou repetir: não existe ganho “Garantido”. Eu diria até que tecnicamente o charlatão está dentro do seu direito. Quando ele escreve coisas do tipo “quer ser rico como eu” ou “ganho garantido” ele está explicitamente dizendo “ow, seu trouxa, me faça rico, me dê seu dinheiro”. Se as pessoas dão o dinheiro sem coerção, foi uma escolha. Simples assim.</p>
<p>Como eu disse no começo: a culpa de uma decisão errada é de quem toma a decisão errada. Pare de achar que existe almoço de graça, não existe. Pô mas as pessoas não deviam enganar as outras. Não deviam mesmo, é um incentivo econômico, enquanto você fica caindo, eles vão continuar. Se ninguém mais acreditar em conto de fada, eles deixam de existir. Olha só que mágico. Mas como isso nunca vai acontecer, em qualquer era da história sempre vai existir alguém que vai acordar de manhã pra procurar o trouxa da vez, só se certifique que não é você. Como se diria em poker, se você não sabe quem é o pato da mesa, o pato provavelmente é você.</p>
<p>Falando sobre tecnologia em particular, vou ser mais breve agora: pare de idolatrar palestras e artigos de grandes empresas. Vamos praticar o pensamento crítico: quando um engenheiro do Netflix vem, com toda boa intenção do mundo, explicar como eles resolveram o problema deles de suportar os mais de 100 milhões de assinantes, ele está dizendo exatamente isso: se você for o Netflix, tiver 100 milhões de assinantes, essa solução que ele está apresentando tem grandes chances de funcionar. Ponto.</p>
<p>Agora, a culpa é sua de decidir colocar a solução do Netflix no seu projeto que tem 2 desenvolvedores e zero clientes. Você pensa “se o netflix está usando e suporta tudo isso, pra mim vai ser melhor ainda”. Sério? Eu não consigo entender porque alguém pensaria dessa forma. Lembra da analogia da bicicleta? Você nem subiu na de rodinhas ainda, mas aí você assiste uma palestra, digamos, de um Lance Amstrong e ele fala que a bicicleta favorita dele é o Parlee Z-Zero que é uma mountain bike de mais de 8 mil dólares e você acha que se comprar essa bicicleta vai virar um recordista de endurance?</p>
<p>Eu espero que ninguém me assistindo agora pense assim, porém eu tenho certeza que muitos de vocês vêem palestras de engenheiros do Facebook, do Netflix, do Google, de empresa famosinha tipo Nubank, e toma decisões assim. Eu deveria escolher Clojure porque o Nubank usa. Eu deveria escolher React porque o Facebook usa, eu deveria escolher Go porque o Google usa. Da mesma forma que não tem nada de errado num Parlee Z-Zero, sério, é uma bicicleta excepcional, também não tem nada de errado num React ou Go ou Clojure ou qualquer outra tecnologia que eles falam. O errado é sua decisão.</p>
<p>Como eu disse no começo: se você é o CTO de uma tech startup que vale milhões, você nem precisa deste vídeo. Mas estou assumindo que a maioria me assistindo não está nessa posição. É a mesma coisa sobre os Squads do Spotify, se você está tentando copiar sem entender, você é um péssimo tomador de decisões. De novo, aqui está você tentando terceirizar sua decisão. Você é simplesmente preguiçoso, porque você não quer ter o trabalho de fazer a pesquisa, fazer provas de conceito e experimentos, testar as hipóteses pro seu contexto, errar e tentar de novo, e se contenta em dizer “se der errado, eu não ia fazer melhor, se a solução de um Spotify não funcionar, nada mais vai funcionar, paciência”. Puta que pariu, cadê a “ciência” em ciências da computação?</p>
<p>Contexto, contexto, contexto. Você tá no seu dia 1 ainda. O Netflix foi lançado em 97, provavelmente quase nenhum código que eles escreveram no dia 1 deles existe hoje. O Google foi fundado em 98, e de novo, quase nenhum código desse dia 1 existe hoje. O Facebook foi fundado em 2004, tão entendendo? Não se compare com eles hoje, se compare com eles no dia 1 deles. E no seu dia 1 você vai fazer merda, assume isso de uma vez. O código que você escrever hoje, se você for bem sucedido, vai ser uma merda pra crescer. Vai mesmo, mas se preocupe com isso quando você sobreviver e de fato estiver crescendo. No dia 1 sua preocupação não é se você tá usando kubernetes ou não. No dia 1 sua preocupação não é usar GraphQL. No dia 1 sua preocupação não é CQRS. No dia 1 sua preocupação é durar até o dia 2.</p>
<p>Pra não ficar mal entendido, obviamente eu não sou contra palestra de empresa grande não. Acho excelente eles compartilharem conhecimento. Eles estão explicando uma solução dentro do contexto deles, com recursos, infraestrutura e muita escala. Se um dia você chegar perto de uma fração do tamanho deles, deve valer a pena. O errado é seu processo de tomada de decisão, que nem começou a codar o produto ainda, e se baseia em “deixa eu ver se o Google usa” ou sei lá “se a Nasa usa” daí eu posso usar. Vai se fuder, Nasa? Você vai mandar foguete pra Marte?</p>
<p>Eu prefiro ser anti-frágil, eu prefiro saber as tecnologias populares pro curto prazo e fico aprendendo tecnologias que vejo potencial mas ninguém usa, ninguém fala muito a respeito, e não é tão fácil de saber. Assistiram minha história sobre Ruby on Rails? Em 2005 ninguém tava muito interessado, eu tive sorte e minha aposta deu certo. Hoje você usa produtos Rails todo dia como GitHub. Teve gente que entrou na onda de mobile quando devia: em 2010 e surfou. Tudo tem uma curva de adoção em S, começo devagar, adoção exponencial, e desaceleração. Daí vem a próxima curva. Nada dura pra sempre, e eu sempre aposto em 10 anos. Se eu tenho várias opções, mesmo que eu erre uma, se eu acertar as outras, meu prejuízo é pequeno. Anti-frágil não é prejuízo zero, é pouco prejuízo. Tente acertar 100% e você provavelmente vai entrar no caminho de perder tudo, é o cara que coloca todos os ovos numa única cesta apostando que achou a cesta mágica do IPO de unicórnio. Bullshit.</p>
<p>Lembram meu vídeo sobre Dimensão do Tempo? Se você tem 20 anos, eu falar em 10 anos é basicamente sua vida inteira. Você ainda não tem noção do que isso significa, pior, parece que é bastante tempo. Mas não é, 10 anos passa muito rápido. Quando você menos esperar já vai estar com 30 e se perguntando porque você ainda está frustrado e continua tão difícil decidir as coisas. E aqui vai minha resposta: não é porque o mundo está pior ou o “sistema não funciona”, é porque você não pára de terceirizar suas decisões.</p>
<p>Por último, parem de colocar expectativas irreais nas pessoas. Eu não sei tudo, façam a análise óbvia. Por exemplo, tem gente que me pergunta que curso eu recomendo. Eu não recomendo nenhum, primeiro porque eu não faço propaganda de graça. Segundo, eu já não faço mais cursos faz anos, portanto qualquer opinião que eu der vai ser baseado no que eu ouvi dos outros ou se eu conheço os donos ou quem faz o curso. Pode ser uma resposta razoável, mas não é o que você pensa. Qualquer um que te responda só pode dizer sobre o curso que ele fez, se gostou ou não, e só. Ou então se está ajudando o amigo que faz o curso. De novo, não é o que você quer saber. Então o que você faz? Pesquisa, vê os reviews, procura sobre a reputação, e tenta fazer. Se não gostar, desiste e faz outro, é a única forma objetiva de lidar com essas coisas. Agora, meu medo é eu responder “ah, ouvi dizer que esse curso parece bom”, daí a pessoa ouve e faz até o fim “porque o Akita recomendou”. Caraca, não né.</p>
<p>Repetindo o que eu faço: eu não tenho muito interesse na opinião dos outros não. Claro que eu ouço, de vez em quando, mas é só uma referência. Na verdade eu sou chato, eu sou do contra por padrão. Eu fui consultor por muitos anos, minha profissão era achar defeito nas coisas. Então qualquer um que me venha com uma opinião vai ter que se esforçar muito pra me convencer. Se conseguir me convencer, só ganhou minha atenção. Agora, da minha atenção pra ganhar meu interesse são outros quinhentos.</p>
<p>Eu não consigo entender porque tem gente que procura tanto opinião, por exemplo, de artistas sobre coisas que não tem a ver com arte. Da mesma forma que eu não imaginaria porque alguém iria querer ouvir minha opinião sobre coisas que não tem a ver com tecnologia e cultura geek. Se eu der qualquer opinião aqui sobre gastronomia, ou sei lá, política, duvidem muito de mim, eu não gastei anos estudando pra saber. Pra começar porque eu tenho zero interesse em política.</p>
<p>Eu evito ansiedade desnecessária assim: eu ativamente me esforço pra saber só o mínimo sobre coisas fora das minhas áreas de atuação. Eu me interesso em princípios e fatos, opiniões são opcionais. Se os princípios fazem sentido, e se os fatos batem, de novo, talvez tenha minha atenção. Eu não assisto TV faz anos, nem assino. Não leio portais de notícias e muito menos jornais. Shows de celebridades então, nem sei quem são os de hoje em dia. Eu tenho mais gente bloqueada e silenciada no meu Twitter do que gente que eu realmente sigo. Nada disso afeta meu lucro no fim do dia.</p>
<p>Se você se acostuma demais a terceirizar suas decisões, e se você se acostuma a reclamar demais em rede social, e toda vez alguém aparece pra concordar e validar sua opinião, o que é você? Uma pessoa sem controle da própria vida, buscando validação de um grupo semelhante, reclamando do seu celular importado, com internet banda larga, tomando café gourmet, do sofá de casa, com netflix ligado na sua frente, muitos inclusive morando fora do país, sobre como a vida é difícil e você é uma vítima da sociedade. Ah vá.</p>
<p>O resumo deste video já está logo na introdução, mas eu realmente queria gastar o tempo pra elaborar esse pensamento um pouco porque eu realmente acho que se entendido corretamente é uma das coisas mais importantes que vai fazer diferença pra você. Quanto mais cedo você entender isso de verdade, melhor. Assuma suas decisões. E se você aprendeu alguma coisa nos meus materiais e teve bons resultados, o mérito não é meu, o mérito é seu que escolheu e decidiu usar de alguma forma.</p>
<p>Enfim, foi um longo rant só pra dizer pra pararem de perguntar o que vocês devem fazer com suas vidas. Se vocês tem dúvidas objetivas, técnicas, mensuráveis, então não deixem de mandar nos comentários abaixo, se curtiram o vídeo deixem um joinha, assinem o canal e não deixem de clicar no sininho pra não perder os próximos episódios. Se conhecem alguém que tem esse mal de terceirizar as decisões pros outros, compartilhem esse video. A gente se vê, até mais!</p>
<p>05:45 - 5 anos
08:54 - faculdade
10:33 - manifesto
13:49 - mundo melhor
15:47 - prioridades
20:21 - squads
22:40 - rails
23:27 - tempo</p>
<p>Faz anos que eu recebo o mesmo tipo de pergunta toda vez, mais agora por causa do canal.</p>
<p>“Akita, o que você recomenda que eu faça na minha carreira?”</p>
<p>“Akita, o que eu deveria aprender primeiro?”</p>
<p>“Akita, tenho família pra criar, como eu mudo de profissão sem arriscar eles?”</p>
<p>E por aí vai.</p>
<p>Hoje eu vou meio que não responder e responder ao mesmo tempo. Mas eu quero ir além e explorar como você mesmo deveria pensar sobre essas perguntas pra chegar na melhor resposta pro seu caso.</p>
<p>E ao mesmo tempo quero tentar explicar como você deveria pensar pra não ser enganado por charlatães que te oferecem respostas atraentes e fáceis.</p>
<p>== PARA OS VIDEÓGRAFOS</p>
<p>Se você assistiu meu video anterior onde eu explico sobre as configurações do meu equipamento e cenário, lembram que o áudio estava ruim, porque eu testei gravar ligando o microfone direto na câmera.</p>
<p>Não tem jeito, um gravador bom separado tem qualidade melhor. Então eu liguei o Rode Wireless Go no gravador Tascan pra poder ter microfone de lapela sem fio.</p>
<p>E na configuração da minha Canon Rebel T7i eu subi o shutter speed de 30 pra 60 como recomendaram, mantive o aperture em f/1.4 e subi o ISO de 100 pra 200 e acho que ficou melhor.</p>
<p>O que acharam?</p>
]]></content:encoded><category>pessoal</category><category>carreira</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #61 - Meus Primeiros 5 Anos | 1990-1995</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/09/12/akitando-61-meus-primeiros-5-anos-1990-1995/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/09/12/akitando-61-meus-primeiros-5-anos-1990-1995/</guid><pubDate>Thu, 12 Sep 2019 11:03:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;h2&gt;DESCRIPTION&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"&gt;&lt;/span&gt;
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&lt;p&gt;Mas desta vez quero ir bem pra trás, até o momento zero! Muita gente tem essa dúvida: como começar? Como devo escolher o que aprender? Como eu sei que não estou perdendo tempo? E pra ajudar a responder essas perguntas vou dar como perspectiva como foi pra mim mesmo, dos 13 aos 18 anos, até o 1o ano de faculdade.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<h2>DESCRIPTION<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="description"></span>
    <a href="#description" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Hoje quero voltar a contar algumas histórias. Se vocês assistiram os vídeos do começo do canal já devem ter visto alguns trechos de como eu era no começo de carreira.</p>
<p>Mas desta vez quero ir bem pra trás, até o momento zero! Muita gente tem essa dúvida: como começar? Como devo escolher o que aprender? Como eu sei que não estou perdendo tempo? E pra ajudar a responder essas perguntas vou dar como perspectiva como foi pra mim mesmo, dos 13 aos 18 anos, até o 1o ano de faculdade.</p>
<p>Esse período compreende os anos de 1990 a 1995. E eu acho que você pode se surpreender com a minha resposta a essas perguntas.</p>
<p>Vídeos complementares:</p>
<ul>
<li>Procure o que você Ama &hellip; só que não! (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=A2-yU3YjB1U</a>)</li>
<li>Dúvida! Devo fazer faculdade? (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=XWVcF7BoCSc"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=XWVcF7BoCSc</a>)</li>
<li>O Diário de Henry Jones (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=ii5Q2fCl8C0</a>)</li>
<li>Devo fazer faculdade? (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=iRjEa7N8wEo"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=iRjEa7N8wEo</a>)</li>
<li>Sua Linguagem é Especial? - Parte 1 (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=NwAvovzHRDU"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=NwAvovzHRDU</a>)</li>
<li>Sua Linguagem é Especial? - Parte 2 (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=O4CWVQLbi48"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=O4CWVQLbi48</a>)</li>
<li>O que eu devo estudar? (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Ll1uAZ-WRa0"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=Ll1uAZ-WRa0</a>)</li>
<li>Minha Máquina do Tempo (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=0KNGiOp7eoE"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=0KNGiOp7eoE</a>)</li>
<li>A Dimensão do Tempo para Iniciantes em Programação (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Qb5b8ZE9tIY"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=Qb5b8ZE9tIY</a>)</li>
</ul>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Globo Reporter 1991 - A Febre dos Videogames (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=8GirQPUdlTM"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=8GirQPUdlTM</a>)</li>
<li>Encoded, Decoded
How Usenet—a protocol intended for conversations—was forever changed once the public figured out you could transfer binary files through it. (<a href="https://tedium.co/2017/10/03/usenet-binaries-history/"target="_blank" rel="noopener">https://tedium.co/2017/10/03/usenet-binaries-history/</a>)</li>
</ul>
<h2>SCRIPT<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Muita gente se pergunta como aprender as coisas. Como aprender Linux? Devo escolher Java primeiro ou Python primeiro? Melhor esquecer Web e ficar no Mobile? O que devo aprender primeiro? Eu sempre venho respondendo essas perguntas no canal de diversas formas, mas cada caso é um caso.</p>
<p>Muita gente olha pra mim, hoje, com quase 30 anos na área e por alguma razão tem dificuldade de imaginar como chegar no mesmo nível. Pra quem esta chegando agora no canal eu fui programador minha vida inteira na última década só que passei a fazer outras coisas como palestras, geração de conteúdo e abri minha própria empresa.</p>
<p>Na realidade, a maioria das pessoas superestimam o que eu realmente sei e aí parece ainda mais longe. Mas todo mundo também esquece que qualquer um com X décadas de carreira teve seu dia 1 igualzinho todo mundo, sem saber nada de nada, zero conhecimento, zero experiência, e zero noção de pra onde ir. Isso é o normal, ninguém nasce sabendo o que vai fazer pro resto da vida.</p>
<p>Eu já vim contando algumas histórias, como no Diário de Henry Jones, na Dimensão do Tempo, Sua Linguagem é Especial, e neste episódio quero contar alguns trechos de história dos meus primeiros cinco anos, que encaixa entre esses outros episódios. Vocês vão ver que no geral as histórias não são nada especiais, nenhum episódio sobrehumano tipo entrar no MIT com 15 anos ou algo assim. Esses casos existem mas não sou eu.</p>
<p>Essa história é para os iniciantes ansiosos. Muitos que estão assistindo o canal, ou são jovens que estão pensando em entrar na faculdade ou estão nos primeiros anos, ou então pessoas mais experientes nos seus 30 ou 40 querendo pular pra área. Pra vocês que querem saber como muitos de nós que já passamos pela área começamos. O objetivo não é dar uma receita pra ser copiada, só dar um contexto e perspectiva. Eu realmente acho que não é tão importante ficar encanado demais nos primeiros anos. Iniciantes tem muito pouca informação pra ficar tentando escrever em pedra &ldquo;é isso que eu vou fazer pelos próximos 5 anos&rdquo;. Permita-se explicar.</p>
<p>Meus primeiros anos tendo exposição à computação foi do meio pro fim dos anos 80. Eu não tinha computador na época, eu tinha primos e amigos da escola que tinham e eu podia mexer quando ia na casa deles. Na minha cabeça um computador era uma coisa cara e inacessível pra mim, então eu só sonhava com o dia que eu teria meu próprio computador. Pensa que crianças como eu naquela época liam gibi da Turma da Mônica ensinando o que era o Dragão da Hiper Inflação e o Leão dos Impostos destruindo tudo. A gente cresceu entendendo que era normal nosso dinheiro não só não valer muita coisa. Felizmente minha família, que veio do interior tentar a vida na cidade grande, não era pobre, mas eu tinha noção que tinha coisas que eu não devia esperar ter.</p>
<p>Em 88 eu tinha uns 11 anos de idade, meu primeiro contato com alguma coisa que lembra código era no MSX hotbit do meu primo onde a gente minimamente precisava digitar um comando como LOAD pra carregar os games das fitas cassete. Foi assim que eu comecei a ter noção da idéia de que a gente dava comandos pra máquina executar. Eu via os códigos em revistas como a Micro Sistemas mas eu não tinha computador pra digitar. Eu via as propagandas de computadores da época como o MSX, os clones de Macintosh como o Unitron, os CP-400 ou CP-500 da Prológica, eram meus sonhos de consumo. Eu não tive nenhum deles, só pude mexer no dos outros de vez em quando.</p>
<p>Meu primeiro contato com programação de verdade foi em 1990, eu tinha 13 anos. Se eu não me engano alguém de telemarketing ligou em casa oferecendo desconto num curso de computação, e meus pais resolveram do nada me colocar nesse curso. Fomos eu e meu pai na verdade, aprender MBasic e Wordstar na Data Center, que já nem existe mais. Eu ouço as pessoas atrelando o aprendizado com algum objetivo fixo. Eu não entendo isso. Meu único desejo naquela época era programar qualquer coisa num computador, só isso, o único desejo de dar um comando e o computador me responder. Não tinha nenhum objetivo concreto, eu não estava pensando em aprender a programar pra ter uma carreira, ou porque eu queria abrir um negócio, nada disso. Era 1990, pensa que foi o ano que saiu Esqueceram de Mim e De Volta pro Futuro 3 nos cinemas, eu tinha 13 anos e zero noção do mundo.</p>
<p>Não lembro se foi nesse mesmo ano ou no ano seguinte, mas provavelmente entre 1990 e 1991, acho que meus pais se convenceram que eu realmente gostava de programar já que eu não desisti do curso, e modéstia a parte, eu entendia o Basic bem mais rápido que meu pai na época. Eu tinha um tio que era analista de sistemas, se não me engano ele fazia sisteminha pra uma loja de shopping e outros projetinhos pra outras pequenas empresas. Ainda estávamos na reserva de mercado, pra conseguir um bom computador, só indo no Paraguai, e esse tio conhecia alguém que trazia. Que nem hoje em dia que todo mundo conhece alguém que trás hardware de Miami. A gente não tinha Mercado Livre ou Gearbest, o mais próximo disso era a página de classificados nos jornais.</p>
<p>Enfim, meu pai resolveu investir num PC XT, com poderosos 1 MB de RAM, muito acima dos normais 640 kilobytes, um drive de floppy disk de 5 1/4&quot; e outro mais moderno de 3 1/2&quot; que suportava disquetes dupla face!!E poderosos 10MB de HD, que sei lá porque a gente chamava de Winchester naquela época. E junto um monitor CGA de 4 tons de fósforo verde e uma impressora matricial Epson FX 1050. O computador vinha com MS-DOS 3 e eu tinha GW-Basic e meu tio deixou instalado dBase III. Isso deve ter sido bem caro, hoje eu estimo que deve ter custado quase 2000 dólares em dinheiro dos anos 80! Eu tinha noção que era bem caro. E era basicamente isso que eu tinha. E era tudo que eu precisava, a partir daí eu me virei.</p>
<p>Pra ter uma noção de como eu tava feliz eu queria fazer meu próximo trabalho da escola no computador e imprimir na novíssima impressora, claro! Mas eu sequer tinha um editor de textos, e não tinha internet pra baixar. Como que eu fiz? Bom, a única coisa que eu sabia era Basic. Pois bem, abri o interpretador e fui digitando linha a linha do trabalho usando o comando PRINT. Detalhe, que eu não sabia e nem lembro se dava, pra navegar de volta pras linhas de cima. Uma vez que digitou era difícil de corrigir depois. Então da primeira vez eu tive meio que digitar do começo ao fim sem errar, felizmente era um texto curto. E foi assim que imprimi meu primeiro trabalho!</p>
<p>Em pouco tempo eu comecei a juntar mais programas. O DOS 5 eu acho que foi onde apareceu o editor Edit e o Quick Basic. Eu consegui uma cópia do Wordstar, do Lotus 1-2-3. A primeira apostila de dBase III eu acho que peguei emprestado com um primo mais velho que tava estudando. E o que eu fiz na época? Lembram que no episódio de Henry Jones eu contei que antes de ter um computador um hobby que eu tinha era copiar textos da enciclopédia na máquina de escrever? Então, eu copiei digitando, página a página dessa apostila no Wordstar pra imprimir minha própria versão. Detalhe que eu usei pouco porque depois de copiar todas as sei lá, 100 páginas da apostila, eu acabei aprendendo o dBase III.</p>
<p>Os anos meio que não são exatos mas acho que foi alguns meses depois, talvez final de 91? Meu tio perguntou se eu aprendi o tal dBase e me convidou pra ajudar ele nas férias da escola. E foi assim que consegui meu primeiro estágio. Ele passava os dias na tal loja, visitava clientes, e chegava no fim do dia com especificações e explicava o que ele queria, dai eu passava o dia seguinte na casa dele programando. Ele tinha um computador muito melhor que o meu, acho que já era um 386 com monitor VGA e eu obviamente já tava muito feliz só de poder usar um computador mais potente, e colorido! E assim eu comecei a migrar do dBase pro Clipper Summer 87 que tinham linguagem compatível, e logo na sequência pro Clipper 5. Fiz programas de controle de estoque, programa pra gerenciar um escritório de advocacia, programa que gerenciava não lembro o que de avião particular, e coisas assim.</p>
<p>Sendo bem honesto eu não tenho idéia de quanto do meu código era realmente aproveitável, mas eu seguia o exemplo dos outros programas do meu tio e ouvia os feedbacks dele no dia seguinte. Lembrando que eu programava do computador dele direto porque era mais eficiente, não tinha internet pra eu poder trabalhar remoto, não tinha Git, não tinha nada disso ainda. Controle de versão era basicamente um conceito desconhecido. Backup era em disquete. Assim foi uns dois meses das minhas férias de verão quando eu tinha uns 14 anos.</p>
<p>Clipper pra mim era o que provavelmente Javascript, ou Java, ou Visual Basic é pra muitos de vocês: a minha primeira linguagem favorita. Eu achava que dava pra fazer tudo em Clipper. Meu editor favorito na época era o Norton Editor, meu tio me apresentou pro Sidekick que era um programa residente em memória no DOS que tinha um help pros comandos do Clipper, utilitários como calculadora. Era tudo que eu precisava no meu ambiente de desenvolvimento. A partir desse ponto meio que já tava decidido que eu provavelmente ia escolher computação como faculdade. Outro contexto: fazer faculdade nunca foi uma opção, eu sempre encarei como o próximo passo natural depois do colégio, então eu nunca parei pra pensar em não fazer. De qualquer forma, depois desse estágio com meu tio, eu peguei mais alguns projetinhos por conta. Lembro de ter feito um programa de controle de estoque pra uma loja de bebidas do bairro por exemplo, e vocês não imaginam como eu fiquei contente quando consegui fazer um joguinho e meu próprio editor de textos simples, tudo em Clipper.</p>
<p>Pra ser mais honesto, ainda havia uma outra direção que eu ficava flertando. Desde criança tinha outra coisa que eu gostava de fazer e era desenhar. Olhando em retrospecto, claro que eu não era tão bom quanto eu achava que eu era. Mas vamos lá, eu era um pré-adolescente. A gente nunca tem noção de quanto é bom ou ruim em alguma coisa. Mas de qualquer forma eu gostava de desenhar. Eu tinha poucos amigos na época, eu nunca joguei bola na rua ou coisas assim, eu passei minha infância basicamente dentro de casa. Lá pelos 14 anos um menino da rua que estudava na mesma escola que eu acabou fazendo amizade comigo e foi interessante porque ele era o oposto de mim: eu sempre fui o japonês CDF introspecto e quieto e ele era o extrovertido. Vocês tem que entender que famílias japonesas eram bem mais rígidas, particularmente nos anos 80. De qualquer forma, nessa época a gente tava aprendendo computador ao mesmo tempo e ele sendo mais atirado conseguiu um bico pra gente na Fenasoft. Antigamente existiam 2 grandes feiras de tecnologia, a Fenasoft e a Comdex, coisa tamanho da Feira do Automóvel de hoje, que acontecia no Centro de Convenções do Anhembi.</p>
<p>Esse meu amigo era um ano mais novo que eu mas o filho da mãe era ligeiro, e inteligente. Ele puxou conversa num quiosque da Brasoftgames no shopping e eles ficaram impressionados e convidaram ele pra trabalhar na Fenasoft apresentando jogos. Porém teve um problema, a idade limite pra trabalhar era 15 anos e ele sendo um ano mais novo acabou não podendo ir e ele me mandou no lugar dele. Enfim, como eu disse o evento era gigantesco, ocupava o pavilhão do Anhembi inteiro, então imagina o tamanho. A estande da Brasoftgames era um dos maiores, com um super telão com palco e vários quiosques menores. Acho que o ano era 1992 e as novidades eram os novos kits multimidia que adicionavam CD-ROM, com super velocidades de 2x e 4x eu acho, e placas de som, os Adlib e Soundblaster. E jogos como Star Wars Rebel Assault, X-Wing e Tie Fighter.</p>
<p>Eu contei tudo isso pra chegar no seguinte episódio. E aqui eu devo dizer que não lembro de todos os detalhes mas se não me falha a memória aconteceu a seguinte situação. Imagina que a gente ficava nesses quiosquinhos espalhados pelo estande gigante, com um microfoninho que saia nas caixas de som daquela época, apresentando os jogos, e juntava um pessoal ao redor pra ver. De vez em quando nosso chefe subia no palco do telão e falava algumas merdas e fazia piadas sem graça. E aqui vem a parte que eu não lembro se foi assim mesmo que aconteceu mas eu lembro que eu tava ficando irritado com as piadas sem graça e as informações erradas que ele falava. E meio sem perceber, quando isso acontecia, meu quiosque que ficava perto do palco era interrompido porque o som do palco era mais alto. O que eu fiz? Eu comecei a gritar mais alto no meu quiosque. E eu acho que tava funcionando, o povo ficava olhando minha apresentação. Daí o chefe do meu chefe apareceu no meu quiosque uma hora.</p>
<p>Eu não entendi nada, mas acho que ele disse alguma coisa tipo &ldquo;você, pra lá&rdquo; e me mandou pro palco. De novo, vocês lembram que eu falei que eu sempre fui o japones CDF introvertido que nunca fala. Ênfase no &ldquo;nunca&rdquo;. Eu aquele tipo que na escola fazia trabalho em grupo sozinho sem ajuda dos outros só pra não precisar falar na frente de classe, e deixava alguém só falar no meu lugar. Já era um esforço sobrehumano eu estar naquele quiosquinho me acostumando a apresentar pra meia dúzia de pessoas aleatórias. Eu não sabia falar em público, nunca foi natural, especialmente aos 15 anos. E de repente lá estava eu, num palco, numa feira, na frente de um telão e com uma multidão olhando pra mim, esperando eu apresentar.</p>
<p>Esse foi um daqueles momentos &ldquo;ou vai ou racha&rdquo;. A imagem que me veio à cabeça foi que quando eu tinha uns 10 anos ou menos, eu tive que fazer uma pequena apresentação em público, num eventinho da comunidade japonesa do bairro, eu gaguejei, muito, eu desesperei e eu fugi do palco. Foi um trauma e agora, 5 anos depois, eu tive quase certeza que ia acontecer a mesma coisa. E pra minha surpresa eu tomei uma decisão consciente de não fugir. Essa foi a primeira vez que eu consegui falar em público direito e foi a primeira vez que eu me dei conta que talvez fosse possível eu falar em público. Muita gente me conhece hoje como palestrante, vocês não tem idéia de como foi difícil eu aprender isso. Eu nem sei dizer se a apresentação foi boa ou não, mas como não me expulsaram do palco, vou acreditar que foi bom o suficiente.</p>
<p>Porém, meu chefe, o alemão que me irritava quando subia no palco, acho que não gostou do chefe dele ter me colocado no palco porque no ano seguinte ele me barrou de trabalhar de novo. Mas aí aquele meu amigo conseguiu um bico no concorrente no mesmo evento e fomos pra Magnasoft. Com 16 anos eu já tava um pouco mais confiante e acho que foi nesse evento que outro episódio interessante aconteceu. Um dos programas que eu tinha que apresentar não era grandes coisas, era algum tipo de pacote educativo que tinha um programa nível de Paintbrush do Windows, pra desenhar. E eu disse que eu gostava de desenhar. Um dos jogos que eu gostava naquela época pela arte era o Tazmania e eu fiquei lá desenhando. Pensa que desenhar com um mouse de bolinha era muito ruim, mas eu já estava acostumado. E por acaso apareceu um jornalista que gostou daquilo e me convidou pra aparecer em algum jornal local da época. Como eu disse antes, eu não tinha muita idéia se o que eu desenhava era considerado bom ou não, mas isso foi um empurrãozinho.</p>
<p>Eu sempre fui fã de quadrinhos, games, mangás, animes, tokusatsu, era o que eu desenhava. Das revistas de videogames, como a Ação Games e Videogame eu era fã de alguns gamers da época e por acaso conheci um deles nessa Fenasoft, o Toni Ricardo Cavalheiro. Se vocês tem perto da minha idade talvez se lembrem desse Globo Reporter de 1991 ou 1992.</p>
<p>E ele aparecia lá também. Por causa desses eventos nessa época eu finalmente fiquei mais comunicativo e fiz amizade com ele. Cheguei a ir na casa dele com disquetes copiar jogos, e foi como tive acesso a coisas como Doom, The Lost Vikings, Lemmings e mais. E ele me apresentou pra revista Videogame, onde ele trabalhava fazendo reviews dos jogos. Naquela época, pra conseguir programas e jogos você tinha que pegar sua caixa de sapatos com disquetes, pegar um ônibus e ir na casa de alguém que tinha. Vocês não tem idéia de como a vida de vocês é fácil com internet hoje.</p>
<p>Eu pensei em fazer ilustrações pra revista já que apesar de gostar de games eu nunca fui nível de gamer profissional. Levei meu portfolio pra editora, e eu não sei se o editor não curtiu meus desenhos ou se foi sincero, mas ele começou perguntando se eu sabia fazer ilustração em computador, e claro, eu não sabia. Esses desenhos que estão aparecendo aqui do lado são meus lápis de 91 a 92 se não me engano. E ele disse &ldquo;pois é, hoje em dia as ilustrações são todas digitais e vetoriais, precisa saber usar um CorelDraw&rdquo;. Naquele mesmo dia eu fui pra uma livraria e comprei um livro de CorelDraw 3.</p>
<p>Passei o próximo mês aprendendo a ilustrar com CorelDraw. Em 1993 eu tinha ganhado meu segundo computador, um 386 de poderosos 66Mhz e acho que já tinha 2 ou 4 MB de RAM com uns 30 MB de HD. E agora eu tinha um monitor VGA. Coloque em perspectiva, era um monitor de 640 x 480 de resolução. O que chamamos de HD hoje em dia é 1920 por 1080,
era 4 vezes menos densidade de pixels e tinha só 256 cores. Ah sim, e o mouse mais barato que você acha hoje já é ótico, o meu mouse naquela época era de bolinha, e ele era muito impreciso, enrolava fio de cabelo e sujeira dentro, era uma desgraça. Pensa ilustrar naquela época como era. Mesmo assim, eu treinei o quanto pude. Passava meus fins de semana fazendo ilustrações e depois de algumas semanas eu aprendi a maioria das técnicas e montei um novo portfolio, e fui bater na porta da editora de novo. E pra minha surpresa, acho que eles gostaram porque por alguns meses eu fiz ilustrações pra revista Videogame. Era uma ilustração de matéria por mês, por alguns meses só, não era grande coisa, mas eu já tava bem feliz de ter meus primeiros trabalhos publicados.</p>
<p>Em 94 eu parei tudo. Foquei exclusivamente em terminar o 3o colegial e conseguir passar em alguma faculdade. E eu me coloquei na obrigação de passar em alguma faculdade pública porque eu não queria que meus pais passassem os próximos 4 ou 5 anos tendo que pagar faculdade particular ou eu ter que trabalhar e estudar ao mesmo tempo pra dar conta. Eu saía de casa sei lá, 6 horas da manhã e voltava sei lá, 8 horas da noite, todos os dias e só parei depois do último vestibular do ano. Eu realmente levei isso a sério. Tinha 3 cursos que eu podia fazer naquela época: tecnólogo em processamento de dados na Fatec, um curso que na época era novo de engenharia de software ou engenharia de computação na Unicamp e bacharelado em ciência da computação na USP. No final passei nos 3 e escolhi fazer ciências da computação. Eu não tinha a mínima idéia da diferença dos 3 cursos naquela época.</p>
<p>Vamos pra 1995. Pra dar contexto, eu vi alguns dias atrás que vão lançar o terceiro filme da franquia Bad Boys do Michael Bay com o Will Smith e Martin Lawrence e eu dei risada de como o Martin tá gordo nesse filme. Mas o primeiro saiu em 95, pensa que foi 24 anos atrás. Nesse ano também saiu o 1o Toy Story, que foi uma revolução absurda em ser o primeiro longa metragem inteiro renderizado por computador numa época onde pouquíssimas pessoas tinham computador em casa e normalmente era alguma coisa como um 486 de 100Mhz e onde 4MB de RAM era considerado bastante.</p>
<p>Finalmente, na faculdade, eu podia deixar meus dias de CDF introspecto na escola pra trás e resolvi treinar pra ser mais extrovertido. Na minha época a gente chamava os novatos de bichos, acho que hoje ainda é bicho? Pra dar uma idéia de como eu tava testando meus limites, eu acabei ficando amigo de um grupo que resolveu que no 1o semestre a gente ia concorrer ao centro acadêmico contra a chapa de veteranos e nos auto entitulamos Chapa Bicho. Lembra meus desenhos de Taz na Fenasoft e meus skills de CorelDraw? Pois é, foi assim que eu fiz cartazes como esse aqui do lado. A gente era bem ativo, e não ganhamos por muito pouco. Meu primeiro semestre na USP já começou conturbado, e em paralelo a isso me engracei com a empresa junior e fiz cartazes pra eventos na faculdade como esse outro pra Oracle.</p>
<p>Pense que em 95 o Linux ainda não tinha muito mais que uns 4 anos de vida. Internet era absolutamente opcional ainda. Muita gente ainda nem tinha idéia direito de pra que servia Internet. Não se pode negar que eu tive o privilégio de poder cursar ciências da computação no Instituto de Matemática e Estatística da USP. Universidades como USP ou Unicamp estavam sentadas em cima do backbone da Fapesp, um dos poucos backbones que conectavam as universidades ao resto do mundo. Não era incomum algum problema nesse backbone deixar a gente ilhado e restrito a navegar só no Brasil, por exemplo.</p>
<p>Se formos falar de sistemas operacionais como MS-DOS com a interface gráfica do Windows 3.1 por cima, por exemplo, o stack TCP ainda era opcional. Você precisava instalar o Windows 3.1 for Workgroups ou instalar a stack TCP separadamente. Pra ter uma idéia de quão antigo estou falando, hoje em dia a gente usa redes cabeadas usando cabos 1000base-t ou 10Gbase-t, cabos twisted pair com conector RJ-45 em topologia de estrela. Antigamente eu trabalhava cabeando as salas da USP usando ethernet sobre cabo coaxial com conectores em T em rede que exigia um terminador, que é um resistor no final da rede em daisy chain. Qualquer ponto em T no meio da rede que alguém mexesse podia derrubar toda a rede local. Eu lembro que eu não sabia disso e justo na minha máquina ficava o terminador da rede. Eu não sabia o que era aquilo e desconectei. Dali a pouco desce a diretora do Centro de Computação e Eletrônica da Politécnica, o CCE, xingando &ldquo;quem foi que derrubou a rede&rdquo;. Pois é, isso acontecia em 1995, a gente usando tecnologia de 1985.</p>
<p>Enfim, eu mudei de assunto aqui, foi só pra lembrar que eu já fui estagiário um dia também. Falando em ser estagiário, eu preciso deixar registrado um outro conhecimento aleatório que queimou no meu cérebro e eu nunca mais esqueci. Quem aqui sabe o que é uma gaiola de faraday? Eu fazia manutenção dos micros das salas de computação. O CCE onde eu trabalhava era lotado de periféricos e peças. Numa das manutenções eu fui trocar o HD quebrado de um computador por um novo. O que eu fiz? Tirei o HD novo do saco plástico, coloquei em cima do saco e liguei o cabo de força pra testar. Dali a pouco sobe um cheiro de queimado e eu descobri que eu fritei a placa embaixo do HD. Por que? Pelo menos naquela época o saco tinha uma redinha desenhada do lado de fora e eu não sabia pra que servia. Nesse dia eu entendi, era uma gaiola de faraday pra proteger o HD dentro. Assim como seu carro. Do lado de dentro ele é eletricamente isolado, mas do lado de fora é altamente condutor, e eu encostei a placa do HD em cima da redinha do lado de fora e liguei o HD, altamente condutor, fritou tudo na hora &hellip; Coisas de estagiário. Pelo menos eu nunca mais esqueci.</p>
<p>Sobre esse estágio no CCE. Antes de entrar na USP, de vez em quando eu ajudava a BBS de um amigo meu, que era o meu vizinho da mesma rua. Lembra do meu amigo extrovertido que conseguiu os bicos na Fenasoft? Caso alguém das antigas se lembre, a BBS dele era a Medusa, o apelido online dele era Jungle. Uma das coisas que ele fazia era distribuir warez, pirataria mesmo, eu ajudava de vez em quando. Não me julguem, eu também já tive minhas épocas de não ter grana e a única forma de experimentar algum programa ou jogo era pirateando. Mesmo porque muita coisa de fora simplesmente nem chegava aqui. Não era incomum a gente usar blue boxes, que se vocês já viram algum documentário sobre Steve Wozniak deve lembrar quando ele conta a história do apito que vinha de brinde na caixa de cereais norte americanos Captain Crunch que conseguia emitir o sinal de 2600 hz que resetava a linha de trunk e com isso a gente conseguia habilitar ligação de longa distância de graça nas linhas telefônicas.</p>
<p>Eventualmente o povo criou software que rodava em placas de som como Soundblaster e com isso a gente conseguia fazer ligação internacional cobrando pulso de ligação local. Era só pegar o telefone, abrir a linha pra operadora, pegar o fone de ouvido ligado na Soundblaster, rodar o programa que rodava o tom e com alguma sorte ele abria a linha e agora a gente podia discar internacional. Era uma técnica de phreaking e embora nós só fôssemos os equivalentes a script kiddies hoje em dia, o povo gostava de se auto entitular phreaks. Acho que chegamos a testar black boxes também.</p>
<p>Enfim, a intenção era conseguir conectar em BBS de outros países como Alemanha. E além disso eles conectavam em servidores UNIX que estavam abertos na rede. Antigamente a senha hasheada ficava armazenada no arquivo passwd que era legível a um usuário guest. E o algoritmo de hash era fraco, e com brute force e rainbow tables a gente eventualmente conseguia quebrar algumas senhas e com isso tínhamos acesso a armazenamento em algum servidor. Daí a gente conseguia transferir programas pra essas contas que dávamos hijack pra fazer download com calma depois.</p>
<p>Lembrando que era hiper lento baixar coisas via modens de 19200 baud ou menos na época, nem estamos falando ainda de modens de 56k da última geração. Aliás, por causa desse tipo de coisa eu acho que separaram os hashes de senha nos arquivos shadow que tem permissões mais restritas. Vocês nunca se perguntaram porque existem os arquivos passwd e shadow num UNIX e Linux? O arquivo shadow já existia desde 86 mas muitos servidores UNIX rodando na época não estavam atualizados, lembrando de novo que atualizar um servidor naquela época não era só rodar um simples &lsquo;apt upgrade&rsquo;.</p>
<p>Essa época de BBS era quando eu tinha uns 15 a 16 anos. Depois que eu entrei na faculdade ficamos sabendo que era possível eu conseguir ganhar uma conta num servidor UNIX da faculdade com acesso à internet se eu fosse trabalhar como monitor na sala do CCE na Politécnica. Internet banda larga em 95 quando a gente usava modems hiper lentos. Lógico que eu decidi tentar e essa foi a motivação pra eu ir estagiar no CCE e pra eu aprender UNIX: baixar warez de forma mais rápida. Pois é!</p>
<p>De qualquer forma, uma coisa leva à outra. O acesso à internet que eu tinha era logando via telnet do pczinho da sala de computação onde eu era monitor. Era acho que um mísero 386 com monitor VGA de 256 cores, mas isso não importava porque o acesso era via Telnet, ou seja, terminal texto. Uma vez logado você caía num shell, acho que era Korn Shell. Uma das chatices dos computadores da sala era que eles tinham um timeout, não lembro se era de 1 hora. O computador fazia boot remoto. Ele tinha uma placa de rede e um EPROM que no boot ele baixava o DOS e Windows do servidor então não adiantava modificar os arquivos locais porque a cada boot ele zerava tudo e baixava de novo. No DOS era carregado um programa que depois de 1 hora ou algo assim ele forçava acho que um Halt and Catch Fire ou HCF e derrubava o computador inteiro.</p>
<p>A primeira coisa que os estudantes mais dedicados queriam era ficar mais tempo e daí a primeira coisa que os mais espertos aprenderam a fazer foi derrubar esse programa. Como era DOS alguns estudantes mais ligeiros entenderam que se tratava de um Terminate and Stay Resident ou TSR com uma system call chamada talvez pela INT 21h, eu posso estar errado mas era algo assim. Então era só carregar qualquer outra coisa nessa interrupção e assim apagar a rotina de derrubar a máquina que era carregado no boot do DOS. A gente era insistente.</p>
<p>Agora eu caía no shell do UNIX. Você acha Linux hoje complicado? Você não tem idéia de como era chato um UNIX de verdade, no caso um HP-UX pra ser mais exato. Era engraçado que por alguma razão os servidores da Politécnica tinham nomes de animais como Lion, Spider. Depois resolveram colocar nomes de origem indígena, a máquina que eu tinha conta era no Amandy. Bom, pra conseguir fazer qualquer coisa útil eu precisava primeiro aprender a navegar pelo shell. E repetindo que naquela época não existia stackoverflow nem muito menos Google. Aliás, também não tinha Amazon pra comprar livros nem nada disso. A gente tinha que aprender as coisas na marra mesmo.</p>
<p>Como eu venho da época do MS-DOS onde basicamente a gente precisava saber comandos pra fazer qualquer coisa, o UNIX era só outra linha de comando diferente. Eu não tive o choque de ter começado numa interface gráfica e de repente cair na linha de comando. Pra mim foi o oposto, a interface gráfica que sempre foi opcional. Assim começou minha jornada pra aprender o básico, no DOS eu sabia listar as coisas com o comando &lsquo;dir&rsquo; agora no UNIX era usando &rsquo;ls&rsquo;, no DOS eu copiava as coisas com comando &lsquo;copy&rsquo; no UNIX era &lsquo;cp&rsquo; e assim foi indo, um comando de cada vez. Ajudava bastante que fiquei amigo de veteranos do curso de Engenharia Elétrica da Poli, que por alguma razão eram muito mais tech savvy que o povo do IME na época. Por causa disso eu tive mais amigos na engenharia da Poli do que no meu curso no IME. Era um pessoal que desenhava circuitos integrados no café da manhã. Eu falo que cursar uma faculdade não é só pelo curso em si, mas sim por esse tipo de networking. Eu era o mais novo e o mais noobie de todos, e eu era uma esponja aprendendo tudo que conseguia deles.</p>
<p>Como em linha de comando não havia um navegador gráfico e como a Web no começo era muito simples, eu usava o Lynx como navegador. Hoje em dia com HTML 5, CSS 3, WebGL é impossível usar o Lynx. Eu costumo dizer que quebraram a Web hoje, mas se quiser navegar via linha de comando recomendo tentar o Browsh, que é bem mais moderno. Pra acessar meus e-mails tinha o comando &lsquo;mail&rsquo; que era bem primitivo e eu nunca aprendi a usar direito mas felizmente tinha o cliente de e-mail &lsquo;pine&rsquo;. Se você já usou o editor Nano no Linux de hoje em dia, ele é o clone do editor Pico, que era o que vinha no cliente Pine e que eu usava todo dia em 95. Na época eu não usava Vim mas sim o Vi original e eu lembro do desespero de entrar e não conseguir sair da primeira vez, como todo mundo. Aprender o dois pontos &ldquo;q&rdquo; foi uma revolução! Aliás, uma versão alternativa mais moderna do que o Pine hoje parece ser o Aerc, ou você pode usar o fetchmail pra popular o maildir, ou eu &ldquo;acho&rdquo; que tanto o Pine quanto o Mutt suportam IMAP pra se conectar em servidores de e-mail mais modernos. Antigamente o protocolo era o POP3 e procmail.</p>
<p>Na sequência, aprendi a usar a Usenet, um pouco de Gopher, IRC e assim meu arsenal começou a aumentar. Mas preciso confessar que eu gastava a maior parte das minhas horas perdendo tempo em chat de IRC mesmo. E eu não estou falando de mIRC no Windows, mas do cliente de IRC original do UNIX na linha de comando. A gente fuçava mensagens na Usenet, descobria servidores onde o povo deixava arquivos, baixava bastante coisa via FTP. Tinha bastante coisa gratuita não-warez no FTP da Unicamp na época, foi onde eu baixei o beta do Java que ficava numa pasta chamada Oak, que depois fui entender que era o codenome do Java antes do 1.0.</p>
<p>Os protocolos de internet na época eram muito simples, a maioria baseado em texto e estamos falando de uma época anterior a encriptação como TLS, então hoje usamos SSH mas antigamente era só Telnet. Hoje usamos SCP mas antigamente era FTP e assim por diante. Além de FTP, muitos programinhas e mesmo imagens e outros arquivos binários eram trafegados no corpo das próprias imagens na Usenet ou até IRC. Pense google groups ou stackoverflow de hoje. Porém na usenet só trafegava texto, então como trafegar binários? Assim eu aprendi sobre unix to unix copy protocol ou UUCP e as ferramentas uuencode e uudecode, que transformava binários de 8-bits em textos de 7-bits. O equivalente hoje seria o encode e decode de Base64. Finalmente o tráfego de warez estava começando a acontecer agora que eu sabia como me comunicar, onde procurar, e como trafegar os binários.</p>
<p>Mesmo em banda larga às vezes a fonte vinha de servidores lentos. E às vezes os arquivos eram quebrados em múltiplas mensagens na usenet. Daí a gente aprendeu a deixar os downloads via FTP rodando em background e com isso eu aprendi que UNIX suporta o conceito de jobs. Rodar o comando com o &ldquo;E&rdquo; comercial no final ou fazendo Ctrl + Z e aprendi a usar comandos como &lsquo;bg&rsquo; e &lsquo;jobs&rsquo; e &rsquo;nohup&rsquo;. Eu não me recordo de ter usado comandos como &lsquo;disown&rsquo;, eu não entendia muito bem o conceito de signals ainda, como o HUP de hang up quando o terminal desconecta, fui aprendendo aos poucos. De qualquer forma, assim eu podia deixar as coisas baixando em background, deslogar da minha sessão, ir pra casa e no dia seguinte, se nada deu errado, pegar meus arquivos. Vocês podem ver que eu fui aprendendo a usar UNIX com a motivação de baixar pirataria, um motivo super nobre!</p>
<p>Não era comum na época consumir as coisas online como fazemos com YouTube ou Spotify. A banda era limitada, a velocidade era baixa, então a gente baixava tudo pra poder consumir depois. Vou dizer que a essa altura eu já estava menos interessado nos warez e mais engajado nas salas de chat de IRC e tentando entender melhor como a Web funcionava. Interessante que eu usava Windows 3.1 e Windows NT já naquela época, a gente tinha navegadores como Netscape Navigator Gold onde eu aprendi a editar HTML, FrontPage da Microsoft, editores como o HotDog eu acho, mas pra coisas como IRC, FTP, Usenet a gente usava terminal mesmo. A internet era mais devagar nas máquinas locais e mais rápido do servidor, então era um incentivo pra continuar no terminal. Eu finalmente comecei a me sentir confortável com essa tal de Internet e suas tecnologias de base.</p>
<p>E esse foi um pequeno resumo de alguns episódios que eu lembro entre 1990 e 1995. O episódio não tem nenhum objetivo muito educativo a não ser contar minha história mesmo. Pode ser que eu esteja sendo leviano mas até hoje eu nunca atrelo aprender alguma coisa com nenhum objetivo muito grandioso. Eu nunca penso &ldquo;vou aprender X porque isso pode ser mais lucrativo no futuro&rdquo; ou &ldquo;quero aprender Y porque parece que vai me levar pra uma carreira mais promissora&rdquo; ou qualquer coisa planejada assim. Todas as memórias que eu tenho de aprender alguma coisa sempre tiveram objetivos super banais, como vocês puderam ver. Se  resumir a última metade do vídeo você pode dizer que eu aprendi UNIX pra baixar pirataria mais rápido. Só que tudo que eu aprendi: copiando apostila de programação, sendo estagiário do meu tio, apresentando games na Fenasoft, fazendo ilustrações pra revista videogame, aprendendo as tecnologias de internet pra baixar warez, tudo me levou a aprender coisas como dBase, Clipper, CorelDraw, UNIX e aprender a falar em público.</p>
<p>Eu falei no episódio de Procure o que Ama só que não, que eu gosto do meu esforço, e é isso que eu quero dizer. Naquela época dos 13 aos 18 anos eu sequer tinha essa noção de que a gente devia procurar alguma coisa que ama. Eu só fui fazendo, sendo curioso. Aliás, a definição de hacker pra mim é uma pessoa curiosa com tecnologia. Uma coisa foi levando a outra, e sem querer se passaram 5 anos que eu fui aprendendo um monte de coisas que se tornariam importantes nos anos seguintes.</p>
<p>Se eu ficasse toda hora pensando &ldquo;ah, não vou perder tempo com isso porque não sei se vai ser útil daqui 5 anos&rdquo; eu ia ficar estagnado o tempo todo só planejando, planejando e nunca de fato fazendo. Esquece, nessa fase da vida é inútil ficar planejando, a gente é jovem demais pra ter noção real de qualquer coisa. E eu estou parando a história exatamente antes de começar a primeira bolha da internet, nesse ano eu ainda ia ver o lançamento de coisas como Java 1.0, Delphi 1.0, Flash 1.0 no ano seguinte, .NET nem existia ainda, todo mundo ainda usava Perl e não Python, UNIX e não Linux, PHP ainda não tinha começado.</p>
<p>Esse foi um breve resumo dos meus primeiros 5 anos, eu sei que não é um conhecimento geral mas eu queria deixar registrado essa fase pra posteridade, espero que tenha ajudado a dar alguma perspectiva pra alguns de vocês. E vocês, como foram os seus primeiros 5 anos? Não deixem de compartilhar nos comentários abaixo, se curtiram mandem um joinha, não deixem de assinar o canal e clicar no sininho pra não perder os próximos episódios. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>pessoal</category><category>historia-da-computacao</category><category>retrocomputacao</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #58 - Aniversário de UM ANO!! | Bastidores do Canal</title><link>https://akitaonrails.github.io/2019/08/07/akitando-58-aniversario-de-um-ano-bastidores-do-canal/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2019/08/07/akitando-58-aniversario-de-um-ano-bastidores-do-canal/</guid><pubDate>Wed, 07 Aug 2019 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;div class="embed-container"&gt;
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&lt;p&gt;Finalmente!! Chegamos a 1 ANO do Canal Akitando!&lt;/p&gt;
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&lt;p&gt;Quero compartilhar com vocês um pouco de como eu pensei no conceito do canal, como eu produzo os vídeos e um pouquinho de bastidores.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[

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<p>Finalmente!! Chegamos a 1 ANO do Canal Akitando!</p>
<p>Foi uma jornada incrível, absolutamente difícil, eu praticamente me coloquei na missão de fazer o equivalente a 1 palestra completa, densa e detalhada, TODA SEMANA ao longo de 1 ano inteiro!</p>
<p>Quero compartilhar com vocês um pouco de como eu pensei no conceito do canal, como eu produzo os vídeos e um pouquinho de bastidores.</p>
<p>O vídeo de hoje não tem nenhuma grande missão a não ser comemorar! Obrigado a todos vocês que acompanham o canal e espero que continuem compartilhando os vídeos pra que esse acumulado de informações consiga chegar a mais pessoas.</p>
<p>Continuem compartilhando os videos pra ajudar o conteúdo a chegar a mais pessoas!</p>
<p>== Links:</p>
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<li>
<p>Instagram: nova lente Canon 50mm (<a href="https://www.instagram.com/p/BopuVbIlDmy/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/BopuVbIlDmy/</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Instagram: teleprompter quebrado (<a href="https://www.instagram.com/p/BnSlwbLFKvu/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/BnSlwbLFKvu/</a>)</p>
</li>
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<p>Instagram: Tascam audio recorder (<a href="https://www.instagram.com/p/BnNSxYflB_c/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/BnNSxYflB_c/</a>)</p>
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<p>Instagram: Softbox (<a href="https://www.instagram.com/p/BnCmByVFn-A/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/BnCmByVFn-A/</a>)</p>
</li>
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<p>Instagram: lente 50mm chinesa - hórrível (<a href="https://www.instagram.com/p/Bmt1wlxlQhr/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/Bmt1wlxlQhr/</a>)</p>
</li>
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<p>Instagram: Canon Rebel EOS T7i (<a href="https://www.instagram.com/p/Bmg9hrClWIE/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/Bmg9hrClWIE/</a>)</p>
</li>
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<p>Instagram: Meu 1o setup (<a href="https://www.instagram.com/p/Bmb6pr7FEm5/"target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/Bmb6pr7FEm5/</a>)</p>
</li>
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<p>Workstation Rocketz (<a href="https://rocketz.com.br/workstation"target="_blank" rel="noopener">https://rocketz.com.br/workstation</a>)</p>
</li>
<li>
<p>AkitaOnRails: Transcripts dos episódios (<a href="https://www.akitaonrails.com/akitando"target="_blank" rel="noopener">https://www.akitaonrails.com/akitando</a>)</p>
</li>
</ul>
<p>=== Script</p>
<p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Se eu não errei minhas contas, o canal completa um ano esta semana. Eu tinha algumas metas na minha cabeça quando comecei o canal e hoje é o dia de falar dos bastidores. Acho que a meta mais interessante é a quantidade de inscritos, no momento que estou gravando este video o canal está com mais de 26 mil inscritos. Ainda tá longe de eu ganhar uma plaquinha, mas quando comecei o canal eu tinha na cabeça que se eu conseguisse chegar em 10 mil assinantes depois de um ano, já seria suficiente. Então eu diria que mais do que o dobro da minha meta não é nada mal. Obrigado a todos vocês pela ajuda e espero que continuem compartilhando os videos pra ajudar a levar o conteúdo pra mais gente.</p>
<p>Este canal não é a primeira vez que eu busco canais diferentes pra compartilhar meu conhecimento. Quem me acompanha faz tempo já leu os posts do meu blog, já deve ter ouvido o podcast de Ruby on Rails que eu fazia com o Carlos Brando ou minhas participações no Grok Podcast do camarada Rafael Rosa, os screncasts de Git e Vim que soltei em 2011, o primeiro livro de Ruby on Rails em 2007, enfim, é meio que uma obsessão pessoal documentar as coisas que aprendi de alguma forma. Eu acho um desperdício ter aprendido um monte de coisas que até hoje não são tão óbvias e esse conhecimento acabar em mim quando eu morrer.</p>
<p>Todo mundo já deve ter tido vontade de escrever um livro. Se você assistiu meu episódio sobre o Diário de Henry Jones, já sabe que eu sempre quis. Nos anos 2010 a mídia é video, e o canal é YouTube, então o objetivo foi começar a dar um dump do meu cérebro em forma de video. Vocês já devem saber que os videos não são monetizados e nunca foi objetivo eu tirar meu sustento do canal no futuro nem nada disso. Inclusive vocês vão notar que eu sequer uso pra fazer propaganda das minhas próprias empresas, porque eu quero que os videos sejam atemporais, que se você assistir em 2030 eles continuem valendo. Espero que o YouTube dure até 2030. Por isso também já recusei algumas propostas de patrocínio. Agradeço a quem teve interesse mas eu não quero colocar coisas no video que se tornem obsoletas com o tempo, como anúncios.</p>
<p>Na realidade o objetivo original do canal é que um dia eu termine. Ainda não tenho certeza de como as coisas vão andar, mas se for conforme eu visualizei um ano atrás, em breve vai acabar as coisas que eu tenho a dizer, e quando escrevi o primeiro episódio meio que comecei um rascunho do que seria o último capítulo também. Mas vou dizer que quanto mais gente aparece pra assistir menos me dá vontade de terminar o canal, então vamos ver.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Todo mundo quando pensa em bastidores de video começa imaginando um Adobe Premiere, ou Final Cut X e eu editando os diversos clips. Como eu já disse no episódio sobre os problemas que tive com o Premiere um mês atrás, a parte da edição na realidade é a mais fácil. A parte difícil começa antes. Quando eu sei o que eu quero escrever eu simplesmente sento na frente do computador, abro o Google Docs, e começo a escrever como se não houvesse amanhã. Se for um dia que eu estou na zona de concentração, eu consigo escrever 20 páginas de word de uma só vez. É a melhor sensação do mundo. Em particular, estou escrevendo os episódios 56, 57 e 58 tudo de uma só vez, meio porque eu já sabia o que queria falar.</p>
<p>O problema são as semanas que eu não tenho tanta certeza sobre o que dizer. Eu assisto dezenas de canais do YouTube e achei engraçado quando vi um no canal do Gigguk que fala de animes. Assim como eu, ele também escreve scripts antes e o processo dele é muito parecido com o meu, então olhem como a gente faz pra escrever scripts:</p>
<p>(&hellip;. video gigguk ….)</p>
<p>Pois é, a parte mais chata é escrever os episódios. Muitos episódios eu escrevo e reescrevo múltiplas vezes. Eu estou na página 6 ou mais, e resolvo que tudo que eu escrevi tá uma droga, apago tudo e começo tudo de novo. Vários episódios foram assim. No começo do canal eu ainda não tinha idéia de quanto tempo os videos deveriam ser. Algum lugar alguém falava que o ideal eram vídeos de não muito mais que 10 minutos, ou 15 minutos no máximo. Isso são umas 6 páginas de Word. Por isso vocês vão ver que meus primeiros vídeos são curtos.</p>
<p>Eu também odeio, odeio o formato de vlogs ou simplesmente videos que o autor dilui o conteúdo demais. Sério, tem videos por aí que entre apresentação, introdução, propaganda, leva uns 5 minutos pra chegar no assunto do vídeo, daí esse assunto é super simples e dava pra resumir em um slide de 30 segundos, mas aí ele dilui mais ainda esse conteúdo pra mais 5 minutos e finalmente leva outros 5 minutos fazendo gracinha e piada sem graça. E assim foram 15 minutos jogados fora. Horrível, fora o pacing lento, ritmo irregular, dicção ruim, áudio não normalizado que fica saltando o volume toda hora. Horror, horror.</p>
<p>Se eu ia fazer um video de 15 minutos eu faço questão que no mínimo 14 minutos sejam de conteúdo, e não mais que 1 minuto pra apresentação, intro e finalização. Eu como consumidor de conteúdo prefiro esse formato então é assim que eu ia fazer.</p>
<p>O nome do canal veio numa conversa com o povo do escritório. Eu ia gravar no meu quarto, como gravo até hoje, então num momento cheguei a pensar em “No quarto com o Akita” …. Éee eu sei! Felizmente camarada Harry deu a idéia de fazer o nome como um verbo e virou Akitando. Com o nome definido eu procurei algumas intros pré-prontas de After Effects, comprei, editei e assim você tem a intro que aparece em todos os videos. E o formato seria um Olá pessoal logo no começo e direto ao assunto. E no final eu queria parodiar fazendo a mesma coisa que todo YouTuber faz que é pedir o joinha e pra assinar o canal, e no final acabou ficando no formato também.</p>
<p>Os primeiros videos foram bem experimentais. Eu queria aproveitar que tinha acabado de começar uma peregrinação pelo mundo de blockchain, tinha acabado de lançar minha própria exchange de criptomoedas e comecei fazendo um vídeo sobre minha viagem pra Coréia do Sul. Assisti alguns tutoriais de Premiere, achei um site de teleprompter que é o easyprompter e coloquei no monitor. Como câmera eu tinha uma DJI Osmo que serve como estabilizador mas como eu não tinha uma câmera de verdade e nem tripé pro celular, acabei usando esse DJI como câmera, por isso a composição e foco são bem diferentes dos videos de hoje. Eu coloquei o DJI na frente do monitor e ficava lento o monitor atrás dele.</p>
<p>Os primeiros videos foram feitos assim, a camera na frente do monitor e lendo. Foi horrível fazer assim porque obviamente a camera uma hora ficava na frente do texto passando atrás. Mas eu ainda nem sabia se ia continuar com o canal mesmo ou não. Apesar de eu já ter estabelecido o conceito que eu não ia monetizar o canal e que não importava quantas pessoas assistissem, eu só queria tentar gravar alguma coisa, mesmo assim publicar o video e não ter mais que algumas pessoas assistindo, dói um pouco. Porque pra fazer cada video demora algumas horas de trabalho. Todo canal começa do zero, zero pessoas, zero views, zero interesse. Inscritos, visualizações e likes são métricas de vaidade, eles não são e não devem ser o objetivo, mas todo mundo gosta de ter um pouco mais de visualizações.</p>
<p>Enfim, independente disso, com zero views ou não, o processo de fazer um video realmente era divertido. Mas com o equipamento que eu tinha até então tava difícil. Foi quando decidi investir em comprar uma câmera de verdade, nada super fancy, só uma Canon EOS Rebel T7i e um teleprompter de verdade. No 6o video só que comecei a usar o novo equipamento, e já melhorou um pouco a qualidade mas a lente padrão que vem na câmera era bem ruinzinha. Então comprei uma lente 50mm chinesa via mercado livre que usei em alguns vídeos, mas vocês vão ver que a qualidade da imagem era uma droga. Acho que foi só no video do Diário de Henry Jones que comecei a usar a lente 50mm original da Canon e o auto foco é ordens de grandeza melhor. Daí venho usando a mesma configuração de câmera desde então.</p>
<p>Um bom video de conteúdo deve ser feito com um teleprompter, a menos que seja show ao vivo, claro. Todo bom YouTuber profissional deve planejar o conteúdo antes de apresentar. Eu acho um desrespeito sair filmando de qualquer jeito e ficar só enchendo linguiça. Eu não gosto de perder tempo e também não quero que quem assista meus vídeos perca tempo. Por isso eu gasto tempo escrevendo e refinando os scripts e depois uso um teleprompter. A dificuldade foi acertar a velocidade do prompter. Os primeiros videos ficaram mais lentos do que eu gostaria, levou alguns videos pra achar a velocidade certa, que na verdade é a velocidade máxima que eu consigo falar e manter a dicção correta sem mastigar palavras. Eu gosto de pessoas que falam corretamente, então o mínimo que eu devo fazer é falar o mais corretamente possível pra que todos possam entender.</p>
<p>O problema de usar um teleprompter é que ele é um sistema de espelhos e uma câmara escura. A gente coloca o tablet deitado, tem um espelho em 45 graus que vai refletir o que tem no ipad pra que eu possa ver mas não reflete pra dentro que é onde a câmera está posicionada, dentro de uma câmara escura. O segredo de uma boa imagem em qualquer câmera é dar a ela o máximo de luz possível e esse setup na realidade reduz a quantidade de luz que chega na câmera.</p>
<p>Eu também prefiro filmar de noite, depois das 20h pra garantir que tem menos movimento no prédio, nos vizinhos, na rua. Meu apartamento felizmente é bem vedado contra som, mas mesmo assim dá pra ouvir alguma coisa. Eu odeio barulho de fundo, então só me resta gravar de noite mas não tão tarde que eu fico com sono. Já notei que quando eu filmo com sono minha dicção piora bastante, daí eu sou obrigado a repetir vários trechos do texto, várias vezes e demora bem mais pra gravar.</p>
<p>Somando o prompter e filmar de noite, significa que eu preciso de luz artificial, muita luz artificial. Eu comecei com um ring light mas ele é muito fraco e só depois eu entendi que esse ring light é pra pessoas que querem aparecer com os olhos brilhantes. Mas como eu uso óculos isso nem ia funcionar. Finalmente comprei um bom soft box, que é um difusor de luz, e testei vários tipos de lâmpadas frias e finalmente consegui uma configuração de uns 4 mil lumens, que é o mínimo que meu ambiente precisa pra câmera conseguir captar boas imagens. O ideal seria ter mais um softbox com a mesma potência, mas por enquanto eu estou usando o ring light do meu lado esquerdo fora do frame pra criar edge light, que é uma delineação de luz no meu rosto de um lado.</p>
<p>(apagar ring light)</p>
<p>Falando no ambiente, meu quarto é um quarto normal, branco, tédio. Aos poucos fui colocando alguns elementos pra tentar criar camadas na composição. Vocês já devem ter visto meu lava lamp que não funciona no fundo. Eu quebrei o primeiro e comprei um segundo que não funciona. E falando em quebrar coisas, já quebrei um ou dois teleprompters na real. Eles ficam num tripé e são pesados em cima, então gravar com sono a noite tem outro problema além da qualidade: você esbarra nas coisas e quebra, pois é.</p>
<p>Recentemente eu resolvi comprar leds pra colorizar o fundo. Eu já tava de saco cheio do fundo branco. Outro erro que cometi aprendendo a editar foi errar no color grading, eu queria tentar deixar a imagem um pouco mais quente e exagerei em alguns videos que vocês podem ver que são um pouco demais alanranjados ou avermelhados. Só alguns meses atrás que eu finalmente acertei o color grading pra algo mais neutro, com mais saturação. Veja a diferença do que a câmera grava e de como fica quando eu coloco a correção de cores. Até aqui você está vendo com correção, agora vamos remover a correção …… e …. Colocar de volta, viram a diferença?</p>
<p>Ah sim, e vocês devem ter visto meus amiguinhos de pixel art que eu sempre deixo no fundo. Finalmente vou mostrar em maior qualidade. Eu comprei eles na Comic Con do ano passado, que aliás é onde eu comprei todas as camisetas que eu uso no canal. Todo mundo me pergunta onde comprei, e foi em lojas como Piticas, Geek, Riachuelo, e outras marcas que não lembro agora, e alguns eram exclusivos pra Comic Con então não se acha fácil. Além disso eu tinha comprado algumas em galerias da Liberdade também, como no Sogo. Este ano eu vou na BGS e na Comic Con de novo então vou acabar comprando mais camisetas suficientes pros videos do ano que vem.</p>
<p>Com o tempo também eu fui acertando a posição da câmera. Antes aparecia uma parte da minha cama, eu preciso jogar ela pro fundo do quarto pra dar distância pra câmera. Com o tempo eu achei uma composição que não preciso mais mostrar a cama. E com as luzes de fundo fica algo um pouco mais abstrato e com texturas. Não sei se todo mundo gosta, mas eu acho que pelo menos cria uma identidade diferente do que só um fundo branco. Eu particularmente não gosto de fundo verde e chromakey feito com câmeras como a minha. Eu só usaria chromakey num ambiente maior, onde eu posso jogar spots de luz no fundo verde pra tirar as sombras e mais softbox na minha frente com uma câmera 4K de verdade onde posso ajustar melhor a separação. Um dia eu vou tentar fazer isso mas não vai ser com esse equipamento e nem no meu quarto. Se um dia eu mudar pra um estúdio aí sim. Não tem nada pior que um chromakey amador, que fica cheio de aliasing nas bordas tipo cabelo, acho horroroso e jamais faria com o equipamento atual.</p>
<p>Uma coisa que realmente dá trabalho na edição é ficar toda hora pesquisando google images e outros bancos de imagens e mesmo capturar algum clipe de video pra colocar do meu lado no video. Eu sempre escrevo os textos já assumindo alguma ajuda visual pra reforçar algumas partes do que estou falando e dar referências pra quem está assistindo. E é um dos motivos de porque eu não transformo meus vídeos em podcasts. Muita gente pediu esse formato, mas eu não pretendo fazer agora porque eu escrevi todos os scripts assumindo a midia de video. Sem isso só o audio fica incompleto. Eu teria que reescrever os scripts considerando uma midia só audio e realmente não tenho tempo pra fazer isso agora.</p>
<p>A mesma coisa é sobre gravar uma versão em inglês. Seria o dobro de trabalho, e eu realmente não tenho tempo pra fazer isso agora. Uma coisa que pretendo fazer a partir de agora é começar a liberar os textos dos scripts no meu blog. Estou protelando isso faz algum tempo, mas é mais preguiça do que qualquer outra coisa. Daí se alguém se interessar em contribuir, poderia adicionar legendas em inglês por exemplo, eu ia achar bem da hora se alguém tivesse tempo pra fazer isso.</p>
<p>A gravação é feita em etapas, em clipes de no máximo 30 minutos porque as câmeras fotograficas como a Canon que eu uso, pra poder ser considerada uma câmera de fotos na Europa, não pode gravar clipes de video maiores que 30 minutos. É mais uma dessas regulamentações que a Europa adora inventar. O que eu faço é deixar meu celular conectado na câmera e me mostrando o que a câmera está vendo e aí eu fico monitorando o tempo e páro antes dos 30 minutos. O problema era quando eu gravava com sono como eu falei e esquecia de verificar o tempo. Várias vezes eu ficava falando que nem um idiota achando que tava gravando mas a câmera tinha batido nos 30 minutos e parou de gravar&hellip; Quando eu via que não gravou os 20 minutos que eu fiquei falando a mais, dá aquela vontade de pegar a câmera e jogar no teto.</p>
<p>Eu cheguei a comprar um capturador da Elgato pra ligar a câmera diretamente no computador e capturar o feed, que é o que os streamers de Twitch fazem. Mas eu nunca confiei muito nesse setup, fora que meu computador ligado faz barulho e eu preferia não ter que editar o barulho depois, então ainda estou gravando direto na câmera só. Outra coisa que eu faço é usar um gravador de áudio bom, no caso eu tenho esse Tascan que eu ligo um microfone de lapela simples da Sony. A câmera grava o áudio ambiente mas é um áudio porcaria que não dá pra usar, mas serve como referência pra sincronizar com o áudio melhor. Áudio é extremamente importante, uma imagem ruim é até perdoável, mas se o áudio for ruim todo mundo pára de ouvir. Por isso eu acho o equipamento de áudio e a acústica do ambiente muito mais importante do que a câmera. Felizmente tenho pouco eco no meu quarto então não precisei colocar placas pra cortar eco.</p>
<p>No geral, se eu estou inspirado, um script leva entre 4 a 8 horas pra ficar pronto. Algo na média de 20 páginas de word revisados. Depois eu levo algo entre 1 hora a 1 hora e meia pra gravar. Finalmente mais umas 5 a 8 horas pra editar o video. Primeiro eu sincronizo o video da câmera com o áudio do Tascan. Coloco um adjustment layer pra adicionar a correção e graduação de cores, e agora vou cortando fora os trechos que eu errei e toda pausa entre parágrafos pra ficar o mais compacto e linear possível. Depois do rough cut eu começo a assistir e vou adicionando os elementos visuais e efeitos especiais se precisar. E só no final eu escolho uma trilha sonora pro começo e pro fim do video. Antes, quando os videos eram mais curtos, eu tentava manter uma música tocando em background pelo video inteiro, mas eu já percebi que sou muito ruim pra acertar a música e o volume em todo episódio, teve vezes que acertei, teve vezes que errei, mas no fim já vi que não é necessário ter música pela maior parte do video, por isso reduzi.</p>
<p>Aqui entra também o workstation que eu comprei pra editar. Faz muita diferença. Eu noto uma diferença clara na responsividade do Premiere se rodar nesse workstation ou se rodar no meu notebook, que não é fraco, sendo um Thinkpad X1 Extreme. Um vídeo de uma hora no meu workstation leva tempo real ou menos pra renderizar, ou seja no máximo uma hora. Mas no meu Thinkpad o mesmo video pode levar quase 2 horas. E quando você está terminando de editar 1 hora da manhã, essa 1 hora faz muito diferença, especialmente se você erra e precisa renderizar de novo. Eles não me patrocinam mas eu comprei a workstation online na Rocketz, que tem configurações muito boas pra quem mexe com edição de video ou renderização 3D profissionalmente e precisa de uma máquina decente. Fiquei surpreso quando depois de comprar recebi um e-mail do dono da Rocketz dizendo que já lia meu blog. O mundo é mesmo bem pequeno!</p>
<p>Finalmente, eu escolho um frame do video e uso em cima de um template de thumbnail que eu fiz no Photoshop. Escolho uma cor diferente por video, só no final eu decido qual vai ser o título, e daí a última coisa a fazer, normalmente 2 horas da manhã é subir o video pro YouTube, subir o thumbnail, descrições, cards e é isso aí, tudo pronto!</p>
<p>Todo mundo diz que é fácil começar a ser YouTuber, que basta pegar seu smartphone, gravar de qualquer jeito e subir. E de fato, se você for algum desses com carisma natural, talento de presença de câmera e tempo de comédia ou algo assim, talvez consiga mesmo atrair audiência mesmo com baixa qualidade técnica. Mas isso é exceção, não é regra. Dá pra começar barato, mas precisa investir o quanto antes se quer levar isso a sério. E não espere ganhar a vida fazendo YouTube, isso é super raro de acontecer e eu não recomendo como carreira. Se eu tivesse aberto monetização eu ainda não estaria ganhando mais que alguns poucos reais por video, e não estou nem falando centenas de reais, eu diria que seria menos que isso. No meu caso eu já disse que não tenho expectativa nenhuma de ganhar a vida no YouTube. Eu estou usando o YouTube pra hostear meus videos e só, meu único objetivo é fazer meus videos do jeito que eu quero fazer, independente se vai atrair muita gente ou não, porque pra mim é como se eu estivesse escrevendo um tipo de biografia, com começo, meio e eventualmente um fim.</p>
<p>A vantagem do jeito que eu estou fazendo é que eu já tenho mais de 40 anos, eu já tenho uma carreira que está ótima, eu economizei, acumulei recursos e finalmente tenho tempo pra poder contar sobre experiências e pesquisas de verdade. Como eu falei nos meus videos, tudo tem seu tempo. Eu não vejo nenhuma vantagem de falar sobre programação quando eu ainda nem tinha anos de experiência suficiente. Eu gosto de ver gente que tem experiência falando. Se for pra ver tutoriais básicos, eu leio um post de blog ou a documentação oficial, não precisa de video pra isso. Por isso eu quis falar sobre coisas que não se encontra facilmente por aí.</p>
<p>E também por isso chegou uma hora lá no começo que eu estava fazendo 2 videos de 15 minutos por semana, resolvi fazer um video semanal de 30 minutos. Quando eu vi que ninguém reclamou, fui subindo, 40 minutos, 45 minutos, 50 minutos e alguns batendo uma hora. O video de Ubuntu tem uma hora e vinte quase e é o segundo video mais assistido do canal nos últimos tempos. Portanto eu vou fazer os videos do tamanho que eu quiser mesmo. Na prática, quem prefere videos mais curtos pode simplesmente pausar e continuar depois. Se eu fosse obrigado a manter os videos no tamanho de 15 minutos o de Ubuntu teria levado umas 5 semanas pra todo mundo ver tudo. Isso é muito devagar! A série de Começando aos 40 que levou mais de 10 semanas pra ficar pronto teria levado 30 ou 40 semanas pra publicar tudo, eu teria ficado o ano inteiro falando só disso. É muito tedioso! Eu quero falar de outras coisas rápido.</p>
<p>E tudo isso é uma faca de dois gumes. Porque num formato longo eu me vejo na obrigação de quase escrever papers em cada script. Eu não queria só dizer “é assim que as coisas são e pronto” eu quero explicar em detalhes o processo de como se chega nessa conclusão, e aí os scripts vão ficando mais e mais complicados. O da semana passada por exemplo compila num único script argumentos que saíram de mais de meia dúzia de livros diferentes. E eu escrevi tudo em 2 dias. Pensa a dificuldade de lidar com esse tipo de densidade de informações de uma só vez. Por isso mesmo eu acho que nesse design, uma hora essa série vai ter um último capítulo.</p>
<p>No começo do canal eu tentei falar de outros assuntos como filmes, mas acho que eu não tenho vocação pra falar desse tipo de conteúdo, então vou me focar nos temas que eu me sinto mais a vontade falando, que são os videos que vocês viram durante este ano. E se você ainda não assistiu todos eu recomendo que veja, eu estou fazendo de um jeito que sejam complementares uns aos outros, especialmente todos a partir de janeiro de 2019. Se você assistir em sequência eles vão fazer mais sentido.</p>
<p>E é isso aí, é assim que eu penso sobre meus videos e como eu produzo. Espero que tenha satisfeito a curiosidade de vocês e, claro, se ficaram com dúvidas não deixem de mandar nos comentários abaixo, se curtiram o video mandem um joinha, assinem o canal e não deixem de clicar no sininho pra não perder os próximos episódios especialmente porque vou tirar uma pausa de 2 semanas este mês por conta do evento The Conf e outras palestras, mas eu volto em breve. Aproveitem pra assistir os videos do canal que ainda não assistiram e compartilhem com seus amigos pra ajudar o canal. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>blog</category><category>audio-e-video</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #33 - Problemas de Confiança para Pessoas inseguras</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/12/18/akitando-33-problemas-de-confianca-para-pessoas-inseguras/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/12/18/akitando-33-problemas-de-confianca-para-pessoas-inseguras/</guid><pubDate>Tue, 18 Dec 2018 17:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Falar sobre problemas psicológicos sempre é um risco, mas vou evitar cair na psicologia de bar.</p>
<p>O episódio desta semana vai ser um pouco &ldquo;auto-ajuda&rdquo; mesmo, mas como eu sou eu, vai ser contando minha perspectiva num relacionamento profissional e pessoal estando dos dois lados e como uma pessoa insegura e introvertida como eu (sim, se você não sabia), lida com isso,</p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>O episódio de hoje vai ser bem diferente dos demais até agora. Quando vocês assistem meus vídeos ou lêem meus textos, muitos podem ficar com a impressão que eu nunca erro. A culpa disso é meu estilo de comunicação assertivo. Até eu começo a acreditar literalmente no que eu falo.</p>
<p>Um dos maiores objetivos de porque eu escrevo é pra que eu mesmo me lembre do que eu mesmo digo. No episódio do diário de Henry Jones eu disse que eu não faço vídeos pra monetizar, eu faço pra eu mesmo assistir.</p>
<p>O tema de hoje é uma reflexão sobre relacionamentos. Tanto profissionais quanto pessoais. Eu sempre cometo erros e o que vou dizer agora não é uma solução. É uma alegoria para ilustrar situações que vocês podem estar passando agora.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Todo relacionamento é baseado numa coisa abstrata chamada confiança. Nem vou tentar definir muito, mas todos vocês compreendem o que é. No fundo é simplesmente acreditar que a outra parte é sincera. Se não existir essa crença entre as partes, não existe relacionamento.</p>
<p>Numa sociedade civilizada, empresas, patrões e empregados, vendedores e consumidores, é possível termos um mínimo de confiança graças um truque que nossa civilização inventou, talvez uma das mais importantes da história da humanidade: eu, consumidor, não preciso confiar em você, você, vendedor, não precisa confiar em mim, mas ambos confiamos em um terceiro comum, por exemplo uma instituição chamada Justiça. Ou na internet, poderia ser o Mercado Pago do Mercado Livre. O contrato que assinamos um com o outro tem validade porque essa terceira entidade, que ambos confiamos, promete garantir a execução desse contrato.</p>
<p>O dinheiro é um símbolo dessa confiança. O papel moeda por si só não tem valor nenhum. Qual a diferença de eu te dar uma nota de R$ 100 e eu te dar um papel comum escrito &ldquo;100 reais&rdquo;? Ambos são papel, porque só um tem valor? Porque essa é a história que nós confiamos, como todos nós acreditamos na mesma história, a troca de valor pode ser realizada. Tanto eu que dou o dinheiro e você que recebe confiam na entidade que contou essa história: o Banco Central. Antigamente, tinha a moeda de ouro, com o brasão da família real. A garantia que aquela moeda tinha valor era a confiaça que a coroa real iria caçar quem forjasse moedas falsas, pois a credibilidade do seu símbolo é importante.</p>
<p>Recomendo, de novo, lerem o livro Sapiens onde Yuval Harari explica sobre essa história em particular, mas eu fiz uma tangente, deixa eu voltar pro assunto.</p>
<p>Eu nem vou tentar descer muito a fundo no assunto porque eu não sou psicólogo e qualquer coisa que eu tentar argumentar nesse sentido seria mera psicologia de bar. Vou fazer o que eu faço em todos os vídeos, em vez de tentar dar uma resposta universal, vou dar minha perspectiva pra que você possam contrastar com a de vocês.
Eu tenho um problema que eu tenho ciência mas não sei como lidar direito ainda. Eu já repeti mil vezes que eu não me considero grande coisa, mas isso não importa. Tem gente que me dá mais valor do que eu realmente tenho. Alguns me admiram por isso, alguns me odeiam por isso. E eu nem fiz nada. Tudo que eu posto nas redes sociais, em palestras, neste canal, é um conteúdo altamente curado, filtrado, editado e polido ao ponto que quem me vê repetindo essas palavras, pode acabar acreditando ao pé da letra que tudo que eu faço e digo no dia a dia é polido nesse ponto. Obviamente não é.</p>
<p>E o problema: vocês acabam contando com esse “ideal” mais do que com a pessoa por baixo. E isso não acontece só comigo, grandes empresas tem esse mesmo problema. Muita gente coloca grandes marcas como Apple, ou Google, ou Facebook, como um ideal. Lembram quando o Google tinha a famosa frase “Make no evil” ou “não faça o mal”. Daí qualquer pequeno deslize parece uma enorme traição a esse ideal.</p>
<p>Pense em confiança como uma moeda. Sempre que eu permito alguém chegar perto de mim, seja numa amizade, numa relação de trabalho, ou comercial, eu considero que eu estou dando moedas de confiança. As pessoas costumam dizer que precisam &ldquo;ganhar confianca&rdquo;, na verdade confiança você já tem. Se eu estou engajado com você de alguma forma, eu já te dei confiança. O máximo que você pode fazer é gastar essa moeda até ela acabar. E quando acabar, aí sim, vai ser difícil &ldquo;ganhar mais confiança&rdquo; de mim. Porque você jogaria fora uma coisa que eu já te dei?</p>
<p>A primeira coisa a lembrar é que em vez de ficar fazendo demonstrações superficiais com o objetivo de &ldquo;ganhar mais confiança&rdquo; de um terceiro, faça coisas pra NÃO perder a confiança que você já tem, e aí você vai ver que tentar ganhar mais confiança do jeito errado é o jeito mais fácil de se auto-sabotar.</p>
<p>É muito fácil dizer isso, parece óbvio, mas eu sei porque é tão difícil. Porque essa teoria funciona quando ambos os lados são mais ou menos equiparados. Se um dos lados se sente muito inferior ao outro, inadequado, é difícil pensar assim. Eu sei que muita gente tem problema de se relacionar comigo porque fica achando que eu sou grande porcaria e me coloca num pedestal. E o que eu venho repetindo nos últimos vídeos? Não tenha ídolos. Não me coloque num pedestal.</p>
<p>Mas é natural que isso aconteça, mesmo sabendo disso. Ao fazer isso podem acabar naturalmente pensando &ldquo;o que eu preciso fazer pra alguém como o Akita dar confiança pra alguém como eu&rdquo;? E é aí que você começou errado, como eu já disse, a confiança você já tinha.</p>
<p>Se assim como eu, você for uma pessoa insegura e introvertida, agora virou receita de nitroglicerina. Mesmo que eu te diga verbalmente &ldquo;eu confio em você&rdquo;, ainda assim você vai duvidar. Se você for uma pessoa segura de si e de suas habilidades, vai ser tranquilo, porque você vai pegar minhas moedas de confiança, e construir em cima.</p>
<p>Se você for essa pessoa insegura, vai começar a se auto-sabotar. Você vai ignorar que eu falo direto e reto, e vai tentar ficar lendo nas minhas entrelinhas, tentar ficar prevendo todas as formas que eu posso te trair, porque você considera que um cara como eu deve ter conspirações pra tudo. De novo, estou falando da situação de relacionamentos assimétricos, empregado e empregador é exemplo onde o empregado sempre acha que o empregador tem mais poder e por isso sempre tem uma conspiração contra ele. Mas o empregador não tem tempo pra joguinho, ele já deu a confiança ao te contratar, o salário no fim do mês é um símbolo disso, mas na cabeça desse empregado inseguro é uma relação desigual. Mas entenda, é desigual só na sua cabeça.</p>
<p>Se você ficar toda hora achando que eu vou te trair, você vai atrair isso pra sí mesmo. E não estou falando de forma kármica ou algo assim. É muito simples, você vai se preocupar tanto que vai performar mal, que eu vou te avaliar mal, que vai tentar prometer mais do que consegue entregar, e tudo isso vai desgastando nossa confiança. Um belo dia o relacionamento acaba e na sua cabeça fui eu que te traí.</p>
<p>Ao mesmo tempo, uma pessoa insegura tende a acreditar muito rápido em quem não devia confiar. E isso parece não intuitivo, mas quando você tem baixa auto estima, se sente inseguro, vai tender a dar suas moedas de confiança a um terceiro que vai tirar proveito de você. O colega de trabalho que corrobora com suas neuroses. &ldquo;é isso aí, seu chefe não tem porque gostar de você, ele vai puxar seu tapete&rdquo;. É o lobo em pele de cordeiro. E como existe o fator de viés de confirmação, tudo que confirma sua neurose vai parecer verdade e esse seu pseudo-amigo vai parecer um puta amigão por confirmar sua neurose. É por isso que é auto-sabotagem. Veja, nada aconteceu até agora, eu não fiz nada, nem fiquei sabendo da sua neurose, mas você já confirmou que eu vou te trair.</p>
<p>Uma coisa que vocês já viram que meio que discordo com o consenso geral na semântica é que confiança é uma coisa que se ganha ou conquista. No final pode até ser, eu diria que confiança é uma coisa que se fortifica ou se perde. Mas entenda, ela já foi automaticamente dada na entrada, senão o relacionamento nem teria iniciado. Não precisa se esforçar tanto pra ganhar mais.</p>
<p>Com medo de perder a confiança que te foi dada, com a insegurança fazendo com que você confie muito rápido nesses lobos em pele de cordeiro, com esse viés de confirmação de suas neuroses, nessa etapa, você vai ficar com medo, então nosso relacionamento vai se tornando mais e mais superficial. Você vai pisar em ovos pra falar comigo, ou evitar falar sobre seus medos. Ou seja, você se distancia sozinho e cada vez perde as chances de entender quais eram as reais expectativas. A coisa mais simples que você deveria fazer era falar comigo, com seu chefe, ou seja lá quem é o alvo da sua neurose. Perguntar não machuca e não ofende, errar por negligência de perguntar sim. Pessoas como eu, por outro lado, não somos bidu, não temos como saber o que você está pensando e por isso não podemos te ajudar se não falar comigo.</p>
<p>E se você realmente começar a errar por causa disso, seu próprio erro vai nutrir sua insegurança. Aí você vai começar a chegar na etapa de que a qualquer momento eu vou te demitir ou cortar relações ou algo assim. Tá vendo como esse ciclo vicioso cresce rápido? Nesse estágio, você vai começar a justificar seu medo. Se eu fizer qualquer erro trivial com você, você vai considerar uma quebra de contrato imperdoável. Uma traição.</p>
<p>Por exemplo, eu combinei de falar com você numa hora mas eu acabei esquecendo ou só atrasei. Ou eu acabei gritando com você por qualquer motivo ou falei mais grosso porque estava de mau humor com outra coisa. Tudo coisas pequenas, que um pequeno &ldquo;me desculpe&rdquo; da minha parte resolveria, mas na sua cabeça, já foi um pecado mortal, era o gatilho que faltava. E claro, porque internamente você já está sofrendo tanto tentando &ldquo;me agradar&rdquo; que eu fazer isso com você é uma traição.</p>
<p>E a conclusão fatal de tudo isso é que não sou eu que vai te mandar embora, você mesmo é quem vai. Você decide que a pressão é muito alta, que eu não vou conseguir entender você, e acima de tudo justificado porque na sua cabeça eu te “traí” de alguma forma. Somado com seu problema de confiar rápido demais em quem não devia, recebe conselhos errados e resolve ir pra outra empresa pior ou outro relacionamento pior onde, no curto prazo, faz você se sentir menos sufocado. Mas eis a questão, não era eu que estava te sufocando, você estava sufocando você mesmo. E você fugiu, então as chances da mesma situação se repetir depois são altas.</p>
<p>Eu disse que isso nasce quando na sua cabeça a balança pende mais pra um lado, onde você &ldquo;sente&rdquo; que eu sou grande demais e por isso qualquer esforço que você faça pra me agradar nunca vai ser suficiente, coisa que obviamente não é verdade, senão eu nem teria te dado atenção.</p>
<p>E o que você deveria ter feito? Especificamente no caso se for alguém como eu do outro lado? Simples, na verdade, pessoas como eu não precisam ser constantemente agradadas, não precisam de cuidados especiais, eu não quebro à toa porque você teve um dia ruim, eu não julgo você porque errou uma vez. Uma única pequena ação ruim não vai ser motivo pra eu te mandar embora tão drasticamente. Pelo contrário, como você contorna o dia ruim é que aumenta seu valor, e como você pede ajuda pra mim. Mas, se um belo dia você chega em mim e diz que vai embora, já é tarde demais, mesmo se eu quisesse, agora eu não tenho nenhuma ação a fazer a não ser aceitar. E muitas vezes é uma pena, eu sinto como um potencial desperdiçado.</p>
<p>E você foi embora por conta própria. A situação poderia ter sido facilmente contornada, se você tivesse arriscado só um pouquinho, me chamado de canto e contado do seu medo, eu teria dito pra não se preocupar e só fazer seu trabalho direito que era o suficiente e me pedir ajuda sempre que precisar.</p>
<p>Ambas as situações já aconteceram comigo: pessoas inseguras que me pediram ajuda e progrediram, e pessoas inseguras que se auto-sabotaram e foram embora.</p>
<p>Eu me sinto um pouco culpado quando essas coisas acontecem, porque comunicação é uma via de mão dupla. Não basta dizer, o comunicador é quem tem a responsabilidade de garantir que a mensagem foi recebida E interpretada da forma correta. Em termos técnicos é como o protocolo da internet funciona, o TCP, todo pacote enviado tem um pacote de acknowledgement recebido, se essa confirmação não vier, a gente repete o pacote. E comunicação é igual, mas é mais difícil de saber se a mensagem foi recebida ou não. A pessoa pode até dizer “entendi”, mas daí a realmente entender são outros 500. Eu digo, escrevo, gravo vídeos, na esperança que eu repeti tanto que pelo menos a maioria vai uma hora entender o que eu quero dizer.</p>
<p>Obviamente como ser humano, eu nunca vou ser perfeito, por isso eu repito pra não me colocar num pedestal. Eu certamente já demiti injustamente, sem entender o outro lado. Eu já tive meus dias de fúria em que acabei descontando em alguém injustamente. Já ofendi sem querer. Todo mundo já fez isso e o máximo que eu posso fazer é entender que isso aconteceu e não fazer de novo. E eu só vou saber que aconteceu, se você me disser.</p>
<p>E eu fiz a analogia com uma relação de trabalho, que é o caso mais comum. Mas uma relação pessoal é a mesma coisa com uma grande desvantagem. Numa relação de trabalho o resultado é objetivo: você tem um trabalho específico pra fazer, pra isso eu pago um valor específico, os termos estão claramente descritos num contrato, de forma não ambígua. Ter um contrato é sensacional, basta ler pra saber o que pode ou não pode fazer.</p>
<p>Num relacionamento pessoal esse contrato não existe, é um processo demorado de tentativa e erro.  Como eu disse no começo do vídeo, a história tem um twist. A motivação desse tema é porque recentemente eu estive do lado oposto dessa história, num relacionamento pessoal. Tá vendo como funciona curadoria de rede social, é o tipo de coisa que ninguém estava sabendo. Em resumo, eu coloquei uma pessoa num pedestal (e as qualidades de fato justificavam isso). Eu posso falar sobre insegurança porque eu sou inseguro por natureza, pra quem não sabia, e introvertido. Eu preciso fazer um esforço consciente pra controlar minha insegurança. Lembram do que eu falo de treinamento deliberado? Mas desta vez isso me pegou em cheio. Como na história anterior, eu me senti inadequado, comecei a me auto-sabotar, a me sufocar sozinho, e no final, por medo de ser &ldquo;demitido&rdquo; entre aspas, eu pedi &ldquo;demissão&rdquo; antes. Ou seja, o relacionamento nem tinha realmente começado, pior, tinha todos os elementos pra dar certo, e por causa de tudo que expliquei acima, eu terminei antes de dar chance de começar.</p>
<p>Viu só, é muito mais fácil falar do que fazer. Tudo isso que eu narrei eu já sabia. Eu vi acontecer. Na hora H até eu fracassei. Qual a única coisa que se pode fazer? Aprender a lição e não fazer de novo. Até lá, só resta lamentar com nosso camarada Balvenie … e claro, Balvenie porque a intenção é só lamentar, não queimar neurônio com Red Label. &hellip;</p>
<p>Isso que chamamos de um cautionary tale ou conto preventivo. Estou dizendo tudo isso com o objetivo de prevenir alguém de cometer o mesmo erro. Ainda bem que nem todo mundo é assim, mas quando você tem problemas de insegurança e ainda mais se é uma pessoa introvertida, você vai internalizar o medo, vai acabar fazendo esse medo crescer, e quando você encontrar qualquer coisa super trivial pra justificar essa neura, ela vai explodir e te consumir de uma só vez. Eu não fiz o que eu mesmo falo pras pessoas fazerem: sleep on it, que quer dizer durma sobre o problema, no dia seguinte se eu tivesse feito isso, não teria tomado a decisão errada. Faltou um segundo de controle, e a moral da história é que por causa de 1 segundo, um caminho inteiro foi bloqueado.</p>
<p>Muitas pessoas fizeram isso comigo ao longo dos anos. Muitos deles se ressentem de mim até hoje, pra justificar terem tomado essa decisão. Eles acham que eu nunca vou perdoá-los. Tirando 1 ou 2 casos extremos, na real, eu já perdoei todo mundo. A única coisa que falta é elas perdoarem elas mesmas. Eu nunca rejeitei um pedido de desculpas. Muitas pessoas fizeram esse caminho de volta.</p>
<p>Como evitamos esse tipo de situação? Não tem uma resposta óbvia, se tivesse todo mundo já estaria usando e milhares de psicólogos perderiam sua profissão :-) Eu estava no meio dessa situação e eu não percebi isso, porque estava sufocado demais alimentando teorias da conspiração e procurando &ldquo;evidências&rdquo; triviais pra justificar essas neuras.</p>
<p>Um outro pensamento, eu sou um empreendedor, de muitas formas, como empresário, como comunicador, como mentor. Quem ainda idealiza o trabalho de um empreendedor pode pensar que nós fazemos planos perfeitos, que sabemos o passo a passo pro sucesso. Não é verdade. Um bom empreendedor é quem quebra a cara muitas vezes. A gente tenta 10, 20 vezes. Tentamos várias coisas diferentes. Com tempo suficiente, esforço suficiente, e inteligência, uma delas finalmente dá certo.</p>
<p>Tirando os casos de muita sorte, de estar no lugar certo na hora certa, a grande maioria dos empreendedores na verdade são especialistas em lidar com fracassos. Nenhum de nós é perfeito, muito pelo contrário aliás. Por isso tem aquela velha frase: “quando eu era pobre me chamavam de maluco, agora que sou rico, me chamam de excêntrico”.</p>
<p>E você, qual é o seu caso de relacionamento prematuramente quebrado por inseguranças? Conseguiram perdoar vocês mesmos? Compartilhem com a galera nos comentários abaixo. Se curtiram o vídeo mandem um joinha, compartilhem o vídeo com seus amigos, assinem o canal e clique no sininho.</p>
<p>Esta semana, de novo,  vai ser só um vídeo. Chegou meu novo workstation de edição que preciso configurar e vou gastar um tempo. Então a gente se vê terça que vem, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>psicologia</category><category>comunicacao</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #31 - Manifesto Anti-Parasita: Seja um Criador</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/12/05/akitando-31-manifesto-anti-parasita-seja-um-criador/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/12/05/akitando-31-manifesto-anti-parasita-seja-um-criador/</guid><pubDate>Wed, 05 Dec 2018 17:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Disclaimer: este episódio é bem &ldquo;atípico&rdquo;, não espere que eu faça esse formato sempre, é só hoje, uma indulgência a mim mesmo :-D É só uma coisa que tive vontade de testar. E a música vai ser mais alta mesmo, de propósito pra dar mais peso no texto.</p>
<p>Hoje resolvi fazer uma coisa um pouco diferente, eu ia gravar isso eventualmente mas por razões pessoais decidi que ia ser agora.</p>
<p>Esse discurso me motiva toda vez que eu me sinto &ldquo;preso&rdquo;. Eu assistindo eu mesmo dizendo isso me ajuda a olhar pra frente e me manter independente.</p>
<p>O discurso não fui eu quem escreveu. E quem acompanha meu blog faz alguns anos, já sabe de onde ele vem.</p>
<p>Todos os meus vídeos vêm exaltando a natureza do esforço individual. A intenção é definir de uma vez por todas o que é um &ldquo;criador&rdquo; e quem é sua antítese: o &ldquo;parasita&rdquo;.</p>
<p>Criador não é somente um inventor, mas qualquer pessoa que valoriza o que produz, e que produz com seu próprio esforço, não via intermediários.</p>
<p>Em particular, o mundo de redes sociais hoje é repleto de parasitas. Pessoas que dependem do &ldquo;like&rdquo; das pessoas, e que colocam como bandeira tirar o que outros criaram e dar a quem não merece. Que querem atacar os criadores, que passaram a vida produzindo, e surfar em cima de suas conquistas.</p>
<p>Percebam quem é o parasita: aquele que não produz de verdade, só diz que produz, mas olhem bem e vão ver: cadê o resultado individual? Vive de fazer &ldquo;movimentos&rdquo; chamando gado pra juntar volume e forçar outros que realmente produzem a se curvar diante da &ldquo;causa nobre&rdquo; deles. Esse é o padrão, não se deixe levar por esses padrões.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>
<p>[Off-Topic] The Fountainhead: Defesa de Howard Roark (<a href="http://www.akitaonrails.com/2011/02/04/off-topic-the-fountainhead-defesa-de-howard-roark"target="_blank" rel="noopener">http://www.akitaonrails.com/2011/02/04/off-topic-the-fountainhead-defesa-de-howard-roark</a>)</p>
</li>
<li>
<p>[Off-Topic] Direitos do Homem (<a href="http://www.akitaonrails.com/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem"target="_blank" rel="noopener">http://www.akitaonrails.com/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Discurso completo de Howard Roark (<a href="https://www.facebook.com/misesportugal/posts/discurso-completo-de-howard-roark-no-seu-julgamento-obra-the-fountainhead-por-ay/1139001889500888/"target="_blank" rel="noopener">https://www.facebook.com/misesportugal/posts/discurso-completo-de-howard-roark-no-seu-julgamento-obra-the-fountainhead-por-ay/1139001889500888/</a>)</p>
</li>
<li>
<p>A Nascente (<a href="https://www.amazon.com.br/nascente-Ayn-Rand-ebook/dp/B00GA9BTR8"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com.br/nascente-Ayn-Rand-ebook/dp/B00GA9BTR8</a>)</p>
</li>
<li>
<p>A Virtude do Egoísmo (<a href="https://www.amazon.com.br/Virtude-Do-Ego%C3%ADsmo-Verdadeira-Racional/dp/8585279133/ref=sr_1_cc_2"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com.br/Virtude-Do-Ego%C3%ADsmo-Verdadeira-Racional/dp/8585279133/ref=sr_1_cc_2</a>)</p>
</li>
<li>
<p>Exemplo de parasitismo (<a href="https://lulz.com/linux-devs-threaten-killswitch-coc-controversy-1252/"target="_blank" rel="noopener">https://lulz.com/linux-devs-threaten-killswitch-coc-controversy-1252/</a>)</p>
</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Hoje eu quero fazer uma indulgência. Tem um texto de uma autora que obviamente eu gosto muito e que eu sempre quis tentar discursar. E alguns eventos felizes nos últimos dias me lembraram desse texto então eu meio que quis marcar a data com isso.</p>
<p>Como o texto é longo ainda estou pensando se talvez de novo este seja o único vídeo desta semana. Vamos ver.</p>
<p>Eu pessoalmente tentei viver minha vida seguindo esses princípios, e apesar do texto ser de 1943 vocês vão notar como ela é absolutamente atual e descreve os males de nossos tempos. E se vocês viram meus vídeos anteriores vão entender agora de onde vieram muitos dos temas que eu já descrevi. Particularmente no tocante à vida de um empreendedor, ou criador, ou inovador, ou qualquer pessoa de trabalho digno.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Há milhares de anos atrás, a primeira pessoa descobriu como fazer fogo. Ele ou ela provavelmente foi queimado na fogueira, mas acabou ensinando seus irmão a iluminar. Foi considerado um malfeitor que lidou com um demônio que a humanidade temia. Mas depois todos usaram o fogo pra se manterem quentes, pra cozinhar sua comida, pra iluminar suas cavernas.</p>
<p>Essa pessoas deram um presente que ninguém havia imaginado e tiraram o mundo da escuridão. Séculos mais tarde, a primeira pessoa inventou a roda. Essa pessoa provavelmente foi torturada na mesma roda que ensinou seus irmãos a construir. Foi considerado um transgressor que se aventurou em território proibido. Mas depois todos puderam viajar pra lá, a todos os horizontes. Essa pessoa deu um presente que ninguém havia imaginado e abriu as estradas do mundo.</p>
<p>Essa tal primeira pessoa está no capítulo de abertura de cada lenda que a humanidade registrou sobre seus começos. Prometeu foi acorrentado a um rochedo e torturado por abutres por ter roubado o fogo dos deuses. Adão foi condenado a sofrer por ter comido o fruto da árvore do conhecimento. Qualquer que seja a lenda, a humanidade soube que a sua glória começou com uma pessoa, e que essa pessoa pagou pela sua coragem.</p>
<p>Ao longo dos séculos existiram pessoas que deram os primeiros passos em novas estradas, munidos apenas com a sua visão. Os seus objetivos divergiram mas todos tinham isto em comum: a resposta que receberam – o ódio.</p>
<p>Os grandes criadores, os pensadores, os artistas, os cientistas, os inventores, mantiveram-se sós contra as pessoas do seu tempo. Cada grande novo pensamento sofreu oposição, cada grande nova invenção foi denunciada. O primeiro motor foi considerado ridículo. O avião foi considerado impossível. O tear mecânico foi considerado cruel. A anestesia foi considerada pecado. Mas os homens de visão própria continuaram adiante. Eles lutaram, sofreram e pagaram. Mas ganharam.</p>
<p>Nenhum criador foi motivado pelo desejo de servir aos seus irmãos, uma vez que os seus irmãos rejeitaram o presente que ele deu e esse presente destruiu a rotina ociosa das suas vidas. A sua verdade foi o seu único motivo. A sua própria verdade e o seu próprio trabalho para conquistar seu resultado da sua própria maneira. Uma sinfonia, um livro, uma máquina, uma filosofia, um avião ou um edifício – estes foram os seus objetivos e a sua vida.</p>
<p>Não aqueles que ouviram, leram, operaram, voaram ou habitaram a coisa que ele criou. A criação, não os seus utilizadores. A criação, não os benefícios que outros tiraram dela. A criação que deu forma à sua verdade. Ele manteve a sua verdade ACIMA de todas as coisas e contra todos. A sua visão, a sua força, a sua coragem vieram do seu próprio espírito. Aquela entidade chamada consciência. Pensar, sentir, julgar e agir são funções do ego.</p>
<p>Os criadores não eram altruístas. Esse é o segredo do seu poder – serem autossuficientes, automotivados, autogerados. O criador não serviu nada nem ninguém. Ele viveu a si mesmo. E apenas ao viver pra si mesmo, conseguiu alcançar as coisas que são a glória da humanidade. Tal é a natureza da proeza.</p>
<p>Nós não podemos sobreviver, exceto através de nossa mente. Nós chegamos à terra indefesos. Nosso cérebro é nossa única arma. Os animais conseguem a comida à força. Nós não temos garras, não temos presas, não temos grande força de músculos. Nós temos que plantar nossa comida ou caçá-la. Pra plantar, precisamos de um processo de pensamento. Pra caçar, precisamos de armas e pra fazer armas – um processo de pensamento.</p>
<p>Desde essa simples necessidade até a mais alta abstração religiosa, desde a roda até arranha-céus, tudo o que somos e tudo o que temos vem dum único atributo – a função do nosso raciocínio mental. Mas a mente é um atributo do indivíduo. Não existe mente coletiva. Não existe pensamento coletivo. Um entendimento chegado por um grupo de pessoas é só um compromisso, ou uma média. É uma consequência secundária.</p>
<p>O ato primário – o processo da razão – deve ser feito por cada pessoa individualmente. Podemos dividir uma refeição entre várias pessoas. Mas não podemos digerir num estômago coletivo. Ninguém pode usar os seus pulmões pra respirar por outra pessoa. Ninguém pode usar seu cérebro pra pensar por outra pessoa. Todas as funções do corpo e do espírito são privadas. Elas não podem ser partilhadas ou transferidas.</p>
<p>Nós herdamos os produtos do pensamento de outros. Nós herdamos a roda. Nós fizemos uma carroça. A carroça tornou-se um automóvel. O automóvel tornou-se um avião. Mas ao longo de todo o processo, o que recebemos dos outros é apenas o produto final do seu pensamento. A força motora é a faculdade criativa, que toma este produto como material, usa-o e origina o próximo passo. Esta faculdade criativa não pode ser dada ou recebida, emprestada ou tomada de empréstimo. Pertence a um único individuo. Aquilo que cria é propriedade do criador. As pessoas aprendem uns com os outros. Mas toda a aprendizagem é apenas troca de material. Ninguém pode dar a outro a capacidade de pensar. No entanto, essa capacidade é o nosso único meio de sobrevivência.</p>
<p>Nada na terra nos é dado. Tudo que precisamos tem que ser produzido. E aqui só temos uma alternativa: só podemos sobreviver de duas formas – pelo trabalho independente da nossa própria mente OU como um parasita alimentado pela mente dos outros.</p>
<p>O criador origina. O parasita rouba. O criador enfrenta a natureza sozinho. O parasita enfrenta a natureza através de um intermediário. A preocupação do criador é a conquista da natureza. A preocupação do parasita é a conquista das pessoas. O criador vive pelo seu trabalho. Ele não precisa dos outros. O seu objetivo primário é dentro de si próprio. O parasita vive dos outros. Ele precisa de outros. Os outros se tornam o seu objetivo primário.</p>
<p>A necessidade básica do criador é independência. A mente que raciocina não pode trabalhar sob qualquer forma de coerção. Não pode ser dobrada, sacrificada ou subordinada. Exige independência total em função e em motivo. Pro criador, todas as relações são secundárias. A necessidade básica do parasita é assegurar a sua relação com as pessoas para ser alimentado. Pra ele, os relacionamentos estão acima de tudo. Ele declara que as pessoas existem para servir aos outros. Ele prega o altruísmo, que é a doutrina que exige que o homem viva pros outros e dê mais importância aos outros que a si próprio. Ninguém pode viver por outro. Mas quem vive às custas dos outros usou o altruísmo como arma de exploração e inverteu o fundamento dos princípios morais da humanidade. Começaram a ensinar coisas que destróem o criador. Foi ensinado que a dependência é uma virtude.</p>
<p>Quem tenta viver por causa de outros é um dependente. É um parasita em sua motivação e faz daqueles a quem serve parasitas também. Essa relação não produz nada além de corrupção mútua. É impossível conceber tal relação. O exemplo mais próximo na realidade, quem vive para servir aos outros, é o escravo. Se a escravidão física é repugnante, quão mais repugnante é o conceito de escravidão espiritual? O escravo, mesmo subjugado, ainda retém um vestígio de honra. Ele tem o mérito de ter resistido e de saber que a sua condição é revoltante. Mas quem se escraviza voluntariamente em nome do amor é a criatura mais desprezível que existe. Ele degrada a dignidade humana E degrada o conceito de amor.</p>
<p>Mas essa é a essência do altruísmo. Nos ensinaram que a maior virtude não é realizar, é dar. Mas nada pode ser dado antes de ser criado. A criação precede a distribuição ou não teria nada pra distribuir. As necessidades do criador têm precedência sobre as de qualquer possível beneficiário. Entretanto, somos ensinados a ter mais admiração pelo parasita que distribui presentes que não criou do que por quem tornou os presentes possíveis. Nós elogiamos um ato de caridade e ficamos indiferentes a um ato de realização.</p>
<p>Nos foi ensinado que nossa primeira preocupação é aliviar o sofrimento dos outros. Mas o sofrimento é uma doença. Se alguém se depara com outra pessoa sofrendo, é normal tentar ajudar e dar assistência. Mas, fazer dessa decisão o teste mais crucial da virtude de alguém é tornar o sofrimento alheio a parte mais importante da vida. Sob essa perspectiva, a pessoa acaba desejando que os outros sofram, para que ela possa ser virtuosa. Essa é a natureza do altruísmo. O criador não se preocupa com a doença, mas com a vida. Ainda assim, o trabalho do criador eliminou doença após doença, curando tanto o corpo quanto o espírito das pessoas, e aliviou o sofrimento humano numa escala que altruísta nenhum jamais poderia conceber.</p>
<p>Nos ensinaram que concordar com os outros é uma virtude. Mas o criador é quem discorda. Nos ensinaram que nadar a favor da corrente é uma virtude. Mas o criador é quem vai contra a corrente. Nos ensinaram que se unir aos outros é uma virtude. Mas o criador é quem fica sozinho. Nos ensinaram que o ego é sinônimo do mal, e que esquecer o ego e ser altruísta é o ideal da virtude. Mas o criador é o egoísta no sentido mais absoluto, e uma pessoa sem ego é aquele que não pensa, sente, julga ou atua. Essas são funções do ego.</p>
<p>Essa inversão é absolutamente fatal. Essa questão foi pervertida e nos deixou sem nenhuma alternativa e sem nenhuma liberdade. Duas concepções nos foram oferecidas como polos do bem e do mal: altruísmo e egoísmo. O egoísmo passou a significar o sacrifício dos outros pra benefício próprio; o altruísmo, o sacrifício pessoal em benefício dos outros. Essas concepções nos ataram irrevogavelmente uns aos outros e nos deixaram apenas uma escolha de dor: nossa própria dor, suportada para benefício dos outros, ou infligida a outros, para benefício próprio. Quando adicionaram a ideia de que devemos nos alegrar com o sacrifício pessoal, a autoimolação, a armadilha se fechou. Nós fomos forçados a aceitar o masoquismo como nosso ideal, sob a ameaça de que o sadismo seja nossa única alternativa.</p>
<p>Essa foi a maior fraude jamais perpetrada contra a humanidade. Esse foi o estratagema que fez com que a dependência e o sofrimento se perpetuassem como princípios essenciais da vida. A escolha não é sacrifício pessoal ou domínio sobre os outros. É independência ou dependência. O código do criador ou o código do parasita que vive à custa dos outros. Essa é a questão básica.</p>
<p>O código do criador é construído de acordo com as necessidades da mente racional, que permite ao homem sobreviver. O código do parasita é construído de acordo com as necessidades de uma mente incapaz de garantir sua própria sobrevivência. Tudo o que resulta do ego independente das pessoas é bom. Tudo o que resulta da dependência de uma pessoa em relação a outra é mau. O egoísta, no sentido mais absoluto, não é quem sacrifica os outros. O egoísta é quem está acima da necessidade de usar os outros de qualquer forma. A gente não funciona por intermédio delas. Nós não existimos pra benefício de ninguém e não pedimos a ninguém que exista para nosso benefício. Essa é a única forma possível de respeito mútuo entre as pessoas.</p>
<p>Graus de habilidade variam, mas o princípio básico permanece o mesmo: o grau de independência, iniciativa e amor pelo seu trabalho é que determina nosso talento como trabalhadores e nosso valor como pessoas. Nossa independência é a única medida de nossa virtude e de nosso valor: o que somos, e o que fazemos de nós mesmo; não o que fizemos, ou deixamos de fazer pelos outros.</p>
<p>Não há substituto pra a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe é nossa independência. Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém. Por exemplo, um arquiteto precisa de clientes, mas não subordina seu trabalho aos desejos deles. E eles precisam de um arquiteto, mas não encomendam uma casa só para lhe dar trabalho. Os homens trocam o seu trabalho de livre e espontânea vontade, com mútuo consentimento e pra vantagem mútua, sempre que seus interesses pessoais coincidem e ambos desejam a troca. Se não desejam tratar um com o outro, não são forçados a fazer isso. Ambos podem continuar seguindo seus caminhos. Essa é a única forma possível de relacionamento entre iguais. Qualquer outra é uma relação abusiva entre escravo e dono, ou entre vítima e carrasco.</p>
<p>Aqueles que dominam outros não são egoístas. Eles não criam nada. A sua existência depende inteiramente de outros. O seu objetivo reside em seus súditos, seus seguidores, no ato de escravizá-los. Eles são tão dependentes quanto o mendigo, o assistente social e o bandido. A forma da dependência não importa. Mas nós fomos ensinados a ver os parasitas que vivem à custa dos outros - os tiranos, imperadores e ditadores - como os expoentes do egoísmo. Por meio dessa fraude, fomos levados a destruir o ego, a nós mesmos e aos outros. O objetivo da fraude era destruir os criadores. Ou subjugá-los.</p>
<p>Desde os primórdios da história, os dois antagonistas se enfrentaram face a face: o criador e o parasita. Quando o primeiro criador inventou a roda, o primeiro parasita reagiu. Ele inventou o altruísmo. O criador, rejeitado, hostilizado, perseguido, explorado, perseverou, seguiu adiante e com sua energia carregou toda a humanidade com ele. O parasita não contribuiu com nada para esse processo, só com obstáculos. Essa disputa tem outro nome: o indivíduo contra o coletivo.</p>
<p>O ‘bem comum’ do coletivo&hellip; da raça, do gênero, da classe, do Estado&hellip; foi a alegação e a justificativa de todas as tiranias estabelecidas sobre a humanidade. Os maiores horrores da história foram cometidos em nome de motivos altruísticos. Onde está a culpa: na hipocrisia dos altruístas ou na natureza do seu princípio? Os piores carrascos foram os mais sinceros. Eles acreditavam na sociedade perfeita alcançada através da guilhotina e do pelotão de fuzilamento.</p>
<p>Ninguém questionou o seu direito de matar porque matavam por motivações altruístas. A ideia de que devemos ser sacrificados pro beneficio dos outros tá bem estabelecida. Os atores e o cenário mudam, mas o curso da tragédia permanece o mesmo. Humanitários que começam declarando seu amor pela humanidade e acabam com banhos de sangue. Assim foi e assim será enquanto se acreditar que uma ação é boa se for altruísta. Essa crença dá ao altruístas permissão pra agir e forçar suas vítimas a sofrerem caladas. Os líderes de movimentos coletivistas não pedem nada para si mesmos. Mas observem os resultados. A única forma de nos beneficiarmos mutuamente e a única declaração de um relacionamento apropriado entre nós é: ‘Não se meta!’</p>
<p>Esse é um conflito muito antigo. Cada vez que as pessoas estiveram perto de descobrir a verdade, elas foram destruídas, e civilizações pereceram, uma após outra. A civilização é o progresso em direção a uma sociedade de privacidade. A existência inteira de um selvagem é pública, governada pelas leis da sua tribo. A civilização é o processo de libertar as pessoas umas das outras. Agora, na nossa época, o coletivismo, o reinado do parasita que vive às custas dos outros e do medíocre, o monstro antigo está à solta e correndo descontrolado. Isso leva as pessoas a um nível de indecência intelectual nunca igualado na face da Terra. Está causando horrores numa escala sem precedentes. Envenenaram todas as mentes.</p>
<p>Eu vim aqui para dizer que não reconheço o direito de ninguém a um minuto sequer da minha vida. Nem a nenhuma parte da minha energia. Nem a nenhuma conquista minha. Não me importa quem faça a exigência, quantos a façam, nem o tamanho da sua necessidade. Eu quis vir aqui e dizer que sou uma pessoa que não existe para servir aos outros. Isso precisava ser dito. O mundo está perecendo por causa de uma orgia de sacrifícios pessoais. Eu quis vir aqui e dizer que a integridade do trabalho criativo de uma pessoa é muito mais importante que qualquer projeto de caridade. Aqueles entre vocês que não entendem isso são os que estão  destruindo o mundo. Eu quis vir aqui e ditar as minhas condições. Não tenho interesse em existir sob quaisquer outras.</p>
<p>Eu não reconheço nenhuma obrigação a ninguém, com uma única exceção: respeitar a sua liberdade e não participar de nenhuma maneira em uma sociedade escravagista.</p>
<p>Esse texto é de autoria de Ayn Rand, é parte do famoso discurso no julgamento de Howard Roark, no livro The Fountainhead, ou A Nascente. Obviamente é uma obra de ficção e uma alegoria que define o que é o ideal de uma pessoa criativa contra uma sociedade de parasitas. Como ficção não é um livro de receita ou procedimentos, apenas uma perspectiva que pode ser útil a pessoas diferenciadas que querem tomar controle de suas próprias vidas.</p>
<p>Valeu pela paciência pessoal, a gente se vê! Até mais!</p>
]]></content:encoded><category>filosofia</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #30 - Minha Máquina do Tempo | Meus Sites de Anime</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/11/29/akitando-30-minha-maquina-do-tempo-meus-sites-de-anime/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/11/29/akitando-30-minha-maquina-do-tempo-meus-sites-de-anime/</guid><pubDate>Thu, 29 Nov 2018 17:00:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Uma coisa que recomendo que todo mundo faça: backups. Faça backup de todos os seus trabalhos. Daqui 20, 30 anos, você vai se agradecer por ter feito isso.</p>
<p>Aproveitando a dica, quero abrir uma pequena janela pra um hobby que eu tinha nos anos 90: os sites de anime que eu fazia.</p>
<p>E ainda terminando com uma confusão que deu até boletim de ocorrência :-D</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>Meu Passado Otaku – A revista de anime que publicou… um Boletim de Ocorrência (!!!) (<a href="https://maisdeoitomil.wordpress.com/2016/03/07/meu-passado-otaku-a-revista-de-anime-que-publicou-um-boletim-de-ocorrencia/"target="_blank" rel="noopener">https://maisdeoitomil.wordpress.com/2016/03/07/meu-passado-otaku-a-revista-de-anime-que-publicou-um-boletim-de-ocorrencia/</a>)</li>
</ul>
<p>AkitaOnRails:</p>
<ul>
<li>[Off-Topic] Meu Backup Pessoal (Drobo/Time Capsule) (<a href="http://www.akitaonrails.com/2009/09/19/off-topic-meu-backup-pessoal-drobo-time-capsule"target="_blank" rel="noopener">http://www.akitaonrails.com/2009/09/19/off-topic-meu-backup-pessoal-drobo-time-capsule</a>)</li>
<li>[Off-Topic] Faça Backup do seu Ambiente (<a href="http://www.akitaonrails.com/2011/03/01/off-topic-faca-backup-do-seu-ambiente"target="_blank" rel="noopener">http://www.akitaonrails.com/2011/03/01/off-topic-faca-backup-do-seu-ambiente</a>)</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Se vocês ainda não me seguem nas redes sociais procurem por AkitaOnRails no Facebook, Twitter e Instagram. Quem me segue no Instagram sabe que alguns dias atrás eu resolvi finalmente abrir minha cápsula do tempo. Os códigos que vocês viram nos episódios da série Sua Linguagem É especial? vieram daí.</p>
<p>Quando eu era criança eu não lembro se foi no Show de Beakman ou outro programa infantil desse tipo, onde eu vi o conceito de Cápsula do Tempo pela primeira vez. Não é só acumular velharias. É empacotar seu presente intencionalmente pra ser aberto bem no futuro.</p>
<p>Intuitivamente eu nunca tive vontade de fazer o mais óbvio: pegar uma caixa de sapato e colocar pertences meus da época como uma fita cassette ou brinquedo. Em vez disso eu queria de alguma forma preservar o que eu era. E eu me defino não pelo o que eu possuo, mas o que eu penso e produzo. Eu não sou apegado a nenhuma posse. Por sorte, tudo que eu produzo é digital.</p>
<p>Eu já tinha visto os disquetes de 8 polegadas e depois os de 5 1/4 polegadas ficarem obsoletos, eu estava vendo os disquetes de 3 1/2 ficarem obsoletos. Então eu fui gradativamente passando tudo de disquetes pra zip drives, de zip drives pra CD-ROMs (quando finalmente os gravadores ficaram acessíveis), de CD-ROMs pra DVD. E de DVD pra HDs. As coisas hoje em dia estão muito fáceis, antigamente eu tinha caixas e caixas de disquetes, CDs e DVDs, hoje cabe tudo num HDzão.</p>
<p>Em 2008 obviamente eu tinha noção que HDs tem vida útil e costumam falhar, são dispositivos mecânicos que não foram feitos pra durar pra sempre. Assistindo os primeiros video casts, programas tech que existiam desde antes do YouTube, que você via no iTunes, eu vi um programa da Kali Lewis sobre Drobos. Eu já sabia o que era uma configuração RAID de storage pra servidor mas eu achava complicado pra ter em casa. Mas o Drobo tinha a intenção de ser portátil e plug and play. Então eu resolvi pedir pra um amigo trazer pra mim.</p>
<p>E o Drobo realmente funcionou. Eu fiquei com esse Drobo por 10 anos. Nesses 10 anos eu troquei discos 2 vezes porque falharam, e isso justificou essa compra. Custou caro pra caramba, na época foi quase 800 dólares se somar com os HDs. Mas se considerar que foi 800 dólares que protegeram minha história por 10 anos, eu digo que foi extremamente barato. Eu troquei de Drobo ano passado. A porta USB 2 era muito lenta, troquei pelo mesmo modelo com USB 3, que ainda não chega a ser um Thunderbolt, mas já ajuda. Eu tirei todos os 4 HDs do antigo, coloquei no novo, e boom, plug and play, tudo funciona. Impressionante.</p>
<p>O objetivo não é fazer propaganda do Drobo, claro, mas eu não confiaria em nenhum HD externo que não seja redundante. Aliás, muito cuidado, existem muitas configurações de HD externo com 2 ou mais HDs em layout de RAID-0 com striping. É só a pior configuração imaginável porque se você tem 2 HDs de 500 GB em striping, você enxerga como se fosse um único HDzaão de 1 TB. Só que não tem proteção contra erro nem redundância, se um dos HDs falhar, você perde os dados DOS DOIS. Jamais use RAID-0. E RAID-1 é o pior custo benefício porque é basicamente um HD fazendo cópia do outro.</p>
<p>Temos outro problema hoje em dia. Tudo está no maldito cloud. O problema não é o cloud, o problema são serviços que dificultam você sincronizar uma cópia local. Você está tão acostumado que o Google vai cuidar dos seus e-mails, que o Dropbox ou Microsoft OneDrive ou Google GDrive vai cuidar dos seus arquivos, que o Slack vai cuidar dos seus chats, que a Apple vai cuidar das suas fotos e músicas, que você literalmente não pensa em fazer mais backup hoje em dia.</p>
<p>Eu prefiro partir do princípio que qualquer um deles pode ter uma falha amanhã, nem estou dizendo falir, uma falha mesmo, e podem perder meus dados. Eu não preciso guardar tudo, mas de meses em meses eu acho saudável exportar os arquivos do Twitter, eu gosto de abrir um Mozilla Thunderbird e conectar nos meus diversos e-mails pra sincronizar tudo local via IMAP, prefiro baixar tudo do Dropbox e manter um backup local no meu Drobo, e assim por diante.</p>
<p>Nos últimos anos eu confesso que tenho sido menos cuidadoso com meus backups por conta de todos esses serviços cloud, mas é bom não descuidar. 25 anos depois, eu me arrependo de não ter guardado os fontes dos meus primeiros programas em Basic. Existem coisas que quando você tiver conseguido guardar dinheiro vai ainda conseguir encontrar algum colecionador vendendo, um MSX, um TK-85, mas seu primeiro programa? Isso não tem mais como.</p>
<p>De qualquer forma, este mês eu finalmente resolvi abrir meus arquivos antigos. Meus e-mails de 1997 a 2006, quase 10 anos de e-mails foram preservados em arquivos PST do Outlook que, felizmente, são fáceis de abrir. De 2006 em diante está tudo no Gmail.
Viu meu vídeo sobre Sua Linguagem É Especial que eu mostro os sites que eu trabalhava pra PSN como o do Corinthians e Cruzeiro? Eu tenho as imagens porque eu ainda tenho o Photoshop original que eu usei pra recortar as imagens pro site. Estavam como anexo nesses e-mails.</p>
<p>Essa é uma daquelas coisas que de vez em quando dá trabalho, você gasta dinheiro e tempo, mas o prêmio é que eu tenho uma oportunidade única: de viajar no tempo, pra qualquer lugar de hoje até mais de 20 anos no passado. Eu ainda ia esperar mais uma década antes de abrir, mas eu sinto que agora é a hora de fazer isso. Vai que amanhã eu morro e perco a oportunidade de deixar registrado pra posteridade?</p>
<p>Eu não guardei todos os instaladores de todos os programas que eu usava. Mas por sorte achei esse site WinWorld que tem instaladores de tudo que é programa dos anos 90. Achei até o instalador de Clipper, FoxPro e tudo mais que eu usava. E graças ao VMWare Workstation Pro que eu uso todo dia, ele também suporta Windows 95 em diante. Eu comecei antes do Windows 95, no MS DOS 3 e usei tudo que a Microsoft lançou do fim dos anos 80 até 2004 que foi quando migrei pra Apple e Mac até voltar pro Windows 10 anos depois em 2015. O Windows 98 foi um dos que eu mais usei nos anos 90 por isso instalei ele.</p>
<p>Como eu já falei bastante, por hoje quero mostrar um dos primeiros sites pessoais que eu fiz. É tão velho que se não for Internet Explorer 4 ou Netscape Navigator 4, o site nem renderiza direito. Essa é uma época anterior a eu aprender ASP ou PHP, quando eu fazia sites estáticos com HTML puro, estamos falando de 1997.</p>
<p>Em 1994 o Brasil foi pego de surpresa quando a Manchete resolveu lançar Cavaleiros do Zodíaco. De repente eu comecei a ver mais gente falando de anime. Até então gostar de anime era um troço bem solitário. Eu cresci assistindo anime gravado em fita Betamax e VHS que vinha do Japão no meio dos anos 80. Mas depois de 1994 todo mundo queria mais e mais anime. Shurato, Sailor Moon, Yuyu Hakusho, e tantos mais. Em 1995 surgiu uma das primeiras revistas especializadas em anime e cultura japonesa, a revista Herói. Daí na sequência saiu um pasquim de pior qualidade chamado Japan Fury que depois se tornou Animax em 1996.</p>
<p>Por coincidência eu fazia parte de um grupo de pessoas que se auto-intitulava Orcade e participava dessa revista, então eu mesmo escrevi um ou dois artigos, em particular sobre Evangelion, que eu me considerava especialista na época - típico de amador se achar especialista mesmo . Como eu tinha acabado de aprender HTML e quando virei monitor na sala de computação da USP eu ganhei acesso ao servidor Unix da Politécnica e como em toda faculdade da época, toda conta tinha uma pasta exposta no Apache pra internet, então decidi fazer um site pra revista. Essa foi a Animax Plug-In.</p>
<p>Essa é a primeira versão, que eu fiz usando o bom e velho Microsoft FrontPage 3.0. Eu sei, eu sei, nem precisa dizer, esse design é tenebroso até pros padrões da época, se bem que em 1997 não se tinha tanto padrão assim pras coisas, em outro vídeo vou mostrar os sites profissionais que fazia com designers de verdade da época. Mas por agora veja que a gente usava framesets e frames e muito table. Não tinha CSS ainda. E o destaque é o menu lateral que abre e fecha, quer dizer, abre e fecha no Netscape mas não no Internet Explorer. Pois é, diferença de Javascript entre navegadores é antiga, a web nasceu quebrada e a gente vem tentando consertar desde então. Mas é legal ver funcionando de novo, em navegador novo nada funciona. Nessa época Internet Explorer era superior ao Netscape já. Renderizava bem mais rápido, Javascript era mais rápido. Eu escrevia pra caramba, vocês podem ver que minha mania de fazer textão não vem de hoje.</p>
<p>Lendo meus textos fica claro que eu escrevia bem mal. Eu ainda não tinha adquirido a noção de editar meus textos. É como programador júnior que ainda tem dó de apagar o código que escreveu. Hoje em dia eu às vezes escrevo páginas e páginas e no meio do caminho eu vejo que está ruim e jogo tudo fora e começo do zero, ou vou refinando o texto, apago seções inteiras. Não existe escrever em apagar. O melhor fluxo é deixar tudo crú sair da sua cabeça, e quando terminar esse dump, daí sim reler e começar a ajustar e apagar e reorganizar.</p>
<p>De qualquer maneira, esse design está um pouco mais engolível. Eu ficava tentando fazer jeitos bizarros de navegação. Dessa vez em vez de um menu lateral eu tinha um menu no fim da página que ia abrindo sub menus pra cima. E eu tinha conceito de uma página que abre a próxima. Naquela época não era muito claro qual a melhor abstração pra organizar conteúdo. Vocês vão notar que nessa época era comum a gente querer simular o estilo de layout editoração de revista. E eu tinha de tudo nesse site, até uns textos tentando ensinar japonês, como se isso fosse fazer alguma diferença. E como ainda não existia Google também era comum os sites terem páginas linkando outros sites, como uma bibliografia ou recomendação.</p>
<p>Na sequência essa é a terceira ou quarta versão. Isso já era 1999, 3 anos fazendo isso. Esta é um pouquinho mais aceitável, pelo menos um pouco mais limpo. De novo note o estilo de layout inpirado em revistas. Eu gastava meu parco salário comprando revistas importadas de anime nessa época, eu queria fazer juz ao investimento. E, de novo, note o menu lateral em Javascript só que dessa vez com inspiração em ícones do Mac OS 8 que eu tinha acesso na agência onde fazia estágio. E continuando no mesmo estilo das outras versões eu colocava mais e mais seções de mangás novos explicando um a um em detalhes, olhando agora eu fico pensando se teria paciência de fazer a mesma coisa hoje em dia.</p>
<p>Eu cheguei até a iniciar um projeto onde eu escaneei vários volumes de um manga que eu gostava e ficava traduzindo balão a balão no photoshop, puta trampo, mas antigamente não existia mangareader e mesmo no mangareader, alguém faz esse tipo de trampo. Eu sei exatamente como dá trabalho</p>
<p>Essa atividade durou uns 3 anos. Durante esse tempo o site ficava hospedado na minha conta no UNIX da faculdade, mas na realidade eu não podia usar a conta da faculdade pra um site de revista comercial, mesmo que eu não ganhasse nada por isso. Eu ganhei zero reais, a revista não dava dinheiro, o site não dava dinheiro, a gente fazia tudo isso porque gostava. Vocês podem ver que isso de eu gastar todo meu tempo livre fazendo coisas trabalhosas só pela diversão vem de longa data.</p>
<p>Mas o que eu ganhei com isso foi outra coisa: com esse exercício todo, eu fiquei rápido pra layoutar sites no estilo da época. Podia me dar qualquer photoshop que eu recortava e montava muito rápido na agência. Sabia otimizar as imagens, otimizar o HTML - pelo menos pros padrões da época, e eu exercitei muito o Javascript da época. Isso seria muito útil nos anos seguintes.</p>
<p>Além disso eu treinei muito minha escrita. Como eu disse antes, lendo agora, é fácil ver que meus textos não eram bons, mas também dá pra ver que mesmo nesse curto período eu escrevi o suficiente pra encher as páginas de um pequeno livro. Eu escrevia em detalhes sobre as séries que eu gostava, indo de personagem em personagem, isso deu tipo MUITO trabalho. Mas novamente, esse trabalho também me ajudou muito, os meus e-mails no trabalho sempre foram completos e concisos, porque eu tinha treinado muito escrever em grande quantidade em pouco tempo.</p>
<p>Ou seja, quando eu comecei meu blog em 2006 eu já tinha escrito muito texto anos antes. E agora escrevendo scripts aqui pro canal, é tudo uma sequência. Eu não sou escritor profissional, mas eu vim aprendendo as técnicas e tentando refinar com o passar do tempo. Mesmo em 1999 comparado com 1997 eu já tinha melhorado.</p>
<p>E como última curiosidade, uma das coisas que atraía as pessoas pra Animax Plug-in e minhas matérias na revista é porque eu era um troll. Como eu disse, a revista Herói era uma droga em termos de conteúdo. Ela vendia porque na época não tinha nada na internet, e todo mundo queria qualquer coisa Cavaleiros do Zodíaco e outros animes.
Então eu tinha vários artigos listando um a um todos os erros dos textos da Herói, e não era errinhos ortográficos - que tinha de monte aliás - eram erros conceituais, contava a história errada mesmo. E eu não era sutil, eu chamava pro pau mesmo, eu diz sr Fulano, você não manja porque esse ponto X tá errado, ah e esse ponto Y tá totalmente errado.
Ah, e eu nos meus 20 sou que nem vocês nos seus 20, só que em vez de ficar tweetando, eu fazia matéria de revista.
E eu sei porque todo mundo gosta de extravazar no twitter, é extremamente satisfatório enfiar o dedo na cara dos outros, cagar um monte de regra, pisar no calo dos outros e ainda ter gente aplaudindo você fazendo isso. Mais satisfatório ainda quando o outro lado reage e vira uma briga. Acho que faz parte da natureza humana.</p>
<p>Hoje eu não faço mais isso. Pelo menos não desse jeito e jamais em público. E não é só por questões de imagem ou qualquer coisa assim. Deixa eu dar uma perspectiva: minhas matérias e artigos circularam entre 1997 e 1999. Hoje em dia, não tem uma pessoa que se lembra mais disso. Os assuntos da época foram todos esquecidos. Pra todos os efeitos, é como se nunca tivessem existido. As brigas são divertidas na hora, mas no final ninguém vai se lembrar, com exceção de quem você pisou no calo. E depois daquela satisfação momentânea, você se sente vazio porque no final, não mudou nada. E você fica querendo ir atrás da próxima briga pra ter de novo a satisfação momentânea, é um vício.</p>
<p>Dê tempo suficiente e qualquer briga que você achou que valia a pena apostar tudo, depois de alguns poucos anos não tem valor nenhum. Não deixa de ser um pouco o: faça o que eu falo mas não faça o que eu fiz. Por outro lado tinha gente que me dizia isso na época, quem disse que eu dei atenção?</p>
<p>O cara da revista Herói ficou tão puto que foi atrás do editor da Animax e socou ele na rua. Foram parar na polícia. E quem escreveu o texto ainda fui eu :-) hahaha Coitado. Vou deixar linkado na descrição se alguém se interessa nesse tipo de história.</p>
<p>Minha recomendação de hoje é: guarde o que você produz, mesmo que você ache que é uma droga. Daqui 20 ou 30 anos vai ser interessante constatar que você realmente evoluiu nesse tempo. Não confie nos serviços de cloud, você provavelmente vai viver mais do que eles. Muitos serviços que eu usava nos anos 90 e começo dos anos 2000 já não existem mais. Lembram do ICQ? Hotmail? Orkut?</p>
<p>E como eu disse no vídeo anterior, eu venho praticando deliberadamente a atividade de escrever desde o meio dos anos 90, agora vocês sabem porque eu escrevo tanto. Estamos no episódio 30 deste canal. Cada episódio tem em média umas 6 páginas no Google Docs, então desde Agosto eu já escrevi 180 páginas de texto, mais de 10 páginas semanalmente, ininterruptamente por umas 15 semanas já. Vou dizer que eu estou bem cansado, vamos ver até onde meu corpo aguenta.</p>
<p>E por hoje é isso aí, faça backups! E não deixe de comentar abaixo! Se curtiram mandem um joinha, compartilhem o vídeo com seus amigos, assinem o canal e cliquem no sininho. A gente se vê, até mais.</p>
]]></content:encoded><category>retrocomputacao</category><category>anime-e-manga</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #19 - Devo fazer Faculdade? (Eu, 22 anos depois)</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/10/18/akitando-19-devo-fazer-faculdade-eu-22-anos-depois/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/10/18/akitando-19-devo-fazer-faculdade-eu-22-anos-depois/</guid><pubDate>Thu, 18 Oct 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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&lt;a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;p&gt;Continuando no tema de &amp;ldquo;Devo fazer faculdade?&amp;rdquo; e de histórias pessoais hoje quero falar um pouco da minha faculdade e meu início de carreira, mais de 20 anos atrás, como era a minha época. E vocês sabendo como eu estou hoje, veja o contraste de como era pra mim e como isso afetou o que faço até hoje.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal <a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener">Akitando</a>. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.</p>


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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Continuando no tema de &ldquo;Devo fazer faculdade?&rdquo; e de histórias pessoais hoje quero falar um pouco da minha faculdade e meu início de carreira, mais de 20 anos atrás, como era a minha época. E vocês sabendo como eu estou hoje, veja o contraste de como era pra mim e como isso afetou o que faço até hoje.</p>
<ul>
<li>Os Bastidores da Internet no Brasil (<a href="https://www.amazon.com.br/Os-Bastidores-Internet-no-Brasil/dp/8520417086"target="_blank" rel="noopener">https://www.amazon.com.br/Os-Bastidores-Internet-no-Brasil/dp/8520417086</a>)</li>
</ul>
<p>Os links abaixo não são relacionados, mas são bons assuntos paralelos que eu menciono neste vídeo:</p>
<p>Links sobre Imigração Japonesa:</p>
<ul>
<li>Os Japoneses no Vale do Ribeira e Sudoeste Paulista (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=7euLZybjG_Q"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=7euLZybjG_Q</a>)</li>
<li>Jornal da Cultura: Casos de tortura e morte de imigrantes japoneses é tema da Comissão da Verdade (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=xQz-n6QP8-w"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=xQz-n6QP8-w</a>)</li>
<li>Expulsão de Japoneses da Cidade de Santos - 1943 (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=OyXiXwhCjHI"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=OyXiXwhCjHI</a>)</li>
<li>Yami no Ichinichi - O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil&quot; (versão português) (<a href="https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&amp;v=QDf_egB3MG4"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=QDf_egB3MG4</a>)</li>
<li>1988 80 ANOS DE IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=27_cRZRPeXg"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=27_cRZRPeXg</a>)</li>
<li>Ultrapassando fronteiras - Os 120 anos de Japão e Brasil (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=9o1d4BZgz6E"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=9o1d4BZgz6E</a>)</li>
</ul>
<p>Internet no Brasil nos Anos 90</p>
<ul>
<li>Fantástico - Primeira transmissão pela internet - 1997 (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=14SH8Wp9z1U"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=14SH8Wp9z1U</a>)</li>
<li>Jornal da Band de 1995 sobre atividades pioneiras na internet (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=P47e5puQl6I"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=P47e5puQl6I</a>)</li>
<li>O INICIO DA INTERNET NO BRASIL ( Internet World 1996 ) (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=AJr0No21Ibk"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=AJr0No21Ibk</a>)</li>
<li>Lançamento do windows 95 - matéria do Jornal Nacional (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Ys06xUGOwdA"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=Ys06xUGOwdA</a>)</li>
<li>Jornal Hoje 1981 - O Computador no Brasil (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=NSVoKeiBSm0"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=NSVoKeiBSm0</a>)</li>
<li>A Febre do Videogame 1991, Globo Repórter (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=8GirQPUdlTM"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=8GirQPUdlTM</a>)</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Acho que eu me empolguei em compartilhar histórias pessoais então vou terminar esta semana com mais uma.</p>
<p>Novamente, continuando na vibe do vídeo “Devo fazer faculdade?” Aquele episódio foi feito para um público bem específico: aqueles que já escolheram o que fazer e que tem recursos (dinheiro, tempo) para escolher uma boa faculdade.</p>
<p>Minha conclusão é simples: se você pode fazer, faça. Existem milhares de pessoas que gostariam de fazer e não podem, por inúmeras razões.</p>
<p>O episódio de hoje é praqueles que pelo menos gostam da área, mas pensam em sair da faculdade ou se vêem tensos porque sentem que não tempo pra estudar mais ou estão indecisos sobre o que estudar. Mais especificamente, eu sempre fui uma pessoa introvertida e anti-social. Eu não saberia dizer como é para pessoas extrovertidas ou sociáveis. A idéia não é dar uma resposta ou encher vocês de teorias, vou tentar contar como foi pra mim. Mais de 20 anos depois, o que eu tenho a dizer?</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Como vocês podem ver, eu sou japonês &hellip;, portanto venho de uma linhagem de imigração que começou com meus avós saindo de um Japão em crise lá pelos anos 40 e vindo para cá. Imagine que houve uma época em que um japonês, fugir pro Brasil, fazia sentido!!</p>
<p>A comunidade japonesa assim como muitas outras colônias de imigrantes começou aqui do zero. Na pobreza. Sem posses, sem propriedade, trabalhando na enxada, de sol a sol. É o que muitas famílias aqui e ao redor do mundo fazem até hoje: tentam deixar para próximas gerações uma situação melhor do que a que se tem no momento.</p>
<p>E deu certo! Graças aos esforços dos meus avós, meus pais puderam estudar, frequentar faculdades. Então chegou a vez da minha geração, perdido no começo do anos 90, sem saber exatamente o que fazer. Toda família de japoneses tinha altas expectativas de seus filhos virarem engenheiros ou médicos. O que eu devia fazer?</p>
<p>Sabe qual é o problema de jovens que herdam opções? A gente costuma escolher errado por falta de experiência.</p>
<p>E aqui vai uma informação sobre mim que muitos não sabem porque eu raramente falo sobre isso. Eu não terminei a faculdade.
Pois é, também sou um “drop out”. Vamos dizer que quando anunciei isso provavelmente meus pais não ficaram muito contentes.</p>
<p>Como eu expliquei em outros episódios, eu já programava antes, e embora não achasse isso na época, obviamente eu era um amador. Pra mim isso foi o mais importante da faculdade: jogar na minha cara que eu não sabia nada ainda.</p>
<p>Exemplo de choque? Primeiro dia de aula, o professor coloca na lousa uma bibliografia de livros de referência, parte em inglês (!!) E vou dizer que quando eu entrei na faculdade eu male-male sabia inglês. Tinha zero fluência pra falar. E sempre que ia na livraria procurar livros eu escolhia em português. Mais um choque, ver colegas que tiveram formação melhor que eu e já sabiam inglês muito melhor que eu. Obviamente meu ego tomou um nocaute logo no começo. Nada aumenta a motivação mais do que quebrar a cara com força.</p>
<p>Essa história toda foi só explicar um ponto: eu sou um drop-out, porém minha primeira recomendação não é dizer pra largar a faculdade. O que eu experimentei na faculdade me ajuda até hoje.</p>
<p>No meu segundo semestre resolvi virar monitor na sala de computação do CCE na politécnica. O trabalho era basicamente ficar lá sentado, e ajudar a desenroscar papel em impressora matricial. Ganhava na época R$ 50 (equivalente hoje a uns R$ 200). Mas o real motivo era porque antes de entrar na faculdade eu estava envolvido com BBS de pirataria. E ser monitor me dava acesso à rede de banda larga da universidade. Mas tinha um porém, eu só podia usar via terminal remoto numa conta UNIX. Portanto, pra procurar e fazer download das coisas, precisava aprender a usar UNIX. Relembrando, não tinha Google na época, nem tutorial em blog post. Ah sim, Linux era novidade naquela época também e nem de longe tão evoluído como é hoje. Foi assim que aprendi tudo que pude sobre ambientes UNIX. De quebra, tinha Apache instalado lá, e foi assim que sem querer tive meu primeiro contato com Web e como fazer HTML. Naquela época só cientista da computação sabia fazer HTML, imagine só.</p>
<p>Alguns meses depois, um belo dia olhei o quadro de recados da sala, tinha alguém oferecendo emprego numa agenciazinha perto da faculdade. Foi assim que fui aplicar o HTML que tinha acabado de aprender e a fazer CD-ROMs. Outro dia conto mais dessa história, mas foi onde tive acesso a Mac e onde comecei a aprender coisas como Photoshop e algumas noções de design que me são úteis até hoje.</p>
<p>Eu não pensava muito em objetivos de carreira: quero aprender X porque parece que vou ter uma carreira melhor. Eu era simplesmente entusiasmado com tudo. Tudo que aparecia de novo eu queria aprender, pensando assim eu não ficava julgando se o trabalho era “digno” de um bacharel de ciência da computação ou não. Recortar gif? Eu fazia. Consertar a rede do escritório? Eu fazia.</p>
<p>Até o fim do colégio, eu não refletia muito sobre o que eu estudava, simplesmente estudava o que me mandavam, fazia as provas e pronto. Um exemplo besta, que eu vi nas aulas de física. Eu nunca tinha parado pra pensar que as fórmulas de velocidade e aceleração era uma derivada da outra, por exemplo. Ou que as fórmulas de gravitação de Newton poderiam ser derivadas das fórmulas de Relatividade Geral. Óbvio que eu sabia que tinha muito mais no mundo do que só o que tinha nos livros do colégio, mas foi a primeira vez que parei pra contemplar o relacionamento desses conhecimentos onde antes eram só coisas para decorar.</p>
<p>Daí eu criei uma noção na minha cabeça que pretensiosamente eu chamava de Teoria das Pirâmides. Tudo que eu aprendi até o fim do colégio era o pequeno topo de diversas pirâmides. Pirâmide de matemática. Pirâmide de Português. Eu nunca ia saber tudo sobre tudo. Em vez disso eu falava pra mim mesmo que deveria aprender o topo de muitas pirâmides, e à medida que eu fosse avançando, iria descendo nessas pirâmides. E eu pensei em pirâmides meio como a dificuldade, o topo é menor, a parte mais fácil, a base é maior, as partes mais avançadas, quanto mais você desce na pirâmide, mais difícil fica. Muitos pensam em ir completando uma pirâmide inteira de cada vez e eu sempre achei isso ineficiente.</p>
<p>Antes da faculdade, e até talvez o primeiro ano, eu tentava ler os livros inteiros, mas antes dava, porque não tinha muito mais pra se ler. Na faculdade eu vi que isso não iria acontecer mais. Antes meu mundo se restringia a uma dúzia dessas pirâmides de conhecimento. Foi quando eu parei de tentar ler livros técnicos inteiros, eu só lia a introdução. (pegue o livro)
E ia avançando se precisasse. Em vez de ler 1 livro inteiro, era melhor ler o começo de 10 livros. E gastava mais tempo praticando do que lendo.3</p>
<p>Em 1997 ou 1998 a febre das ponto com começou, com força. Trabalhar no meio da bolha da internet era super empolgante, claro, a gente nem imaginava que estava numa bolha, é como bolhas funcionam. Naquela época a população em geral ainda se perguntava se essa tal de internet ia vingar ou não. Consegue imaginar isso? Mas eu nunca parei muito pra pensar nisso também, só achava divertido. E mesmo parecendo retórica, realmente nunca foi pelo dinheiro. Era simplesmente que naquela época eu achava tudo que era novo empolgante.</p>
<p>Sair da faculdade, olhando em retrospecto, talvez tenha sido prematuro. Mas naquela época eu estava com DPs em algumas matérias. O curso de ciência da computação da USP é tempo integral, significa que eu ficava com buracos no meu horário: tinha aulas de manhã cedo e depois aulas só no meio da tarde. Era impossível trabalhar no ritmo de agência onde não raras as vezes eu dormia no escritório. Eu tinha um professor que inclusive recomendava que eu deixasse de trabalhar e focasse só na faculdade.</p>
<p>Lembra da parte que eu falei do meu ego inflado? Então, eu me coloquei na seguinte posição: eu ia sair da faculdade, mas não ia parar de continuar estudando. Mas eu ia fazer meu próprio curriculo por assim dizer. Intuitivamente eu sabia do valor de certos conhecimentos, mesmo tendo pouca ou nenhuma aplicação prática naquele momento. A faculdade me ajudou a enxergar a diferença entre conhecimento de base e conhecimento temporário.</p>
<p>Quando eu digo isso parece que eu desenhei um plano detalhado de estudo, mas não é isso. Além do ego, eu sou extremamente teimoso com o que eu acredito, e significa que eu vou tentar provar meu ponto nem que seja por força bruta. Levou anos pra eu aprender a escolher minhas batalhas e ser mais eficiente.</p>
<p>Eu era novo, em 1999 eu ainda tinha 22 anos. Eu comecei a programar de alguma forma 7 anos antes mas eu ainda era muito inexperiente. Essa idéia de focar na introdução das coisas, daí praticar e através da prática voltar pra teoria, indo e vindo, eu tinha confiança que era um jeito mais eficiente do que ficar 1 semestre num único curso aprendendo só a teoria.</p>
<p>Eu nunca li nada sobre carreira. Na verdade eu nunca nem procurei sobre isso. Eu não pensava muito em que tipo de carreira eu queria ou em que tipo de empresa queria trabalhar. Eu nunca fiquei escolhendo, mandando curriculos bonitos. Nunca participei de processos seletivos de trainee em grandes empresas porque eu nunca nem tentei e nunca gastei um dia me lamentando do tipo “essa empresa é pequena eu devia estar numa empresa maior” ou qualquer coisa do tipo.</p>
<p>Mais uma razão de porque eu não me sinto confortável dando muita recomendação de carreira: eu nunca planejei a minha. Eu nunca pensei que era algo que dava pra planejar. Olhando em retrospecto, justamente porque eu não pensava muito, tudo que aparecia eu ia fazendo, sem pensar muito se tinha valor ou não. Não me preocupava se o ritmo de trabalho era insalubre, não me preocupava se estava varando noite aprendendo alguma coisa útil pro futuro ou não.</p>
<p>Na minha época não existiam eventos de programação, conferências. Não tinha meetups. Eu não sabia muito o que estava sendo discutido no mundo. Não existia o conceito de influencer, celebridade, ou algo assim. Então eu não tinha muita referência, por outro lado eu não me sentia perdendo alguma coisa ou indo no caminho errado pelo simples fato que eu nunca parei de aprender coisas novas.</p>
<p>Por conta dessa falta de contatos, por outro lado, eu não tinha muito viés. Eu não julgava tecnologia. Pra mim tecnologia era tecnologia, tudo igual. Eu não era anti-Microsoft ou pró-Open Source ou algo assim. Quando eu estava fazendo ASP eu não ficava pensando, ah isso é inferior a Perl, eu deveria estar fazendo Perl. Eu fazia o oposto, no trabalho alguém falava, tem que fazer em Perl, você sabe? Eu respondia algo do tipo, não, mas posso aprender. Nunca tive aquela sensação de estar fazendo algo inferior ou usando a coisa errada, da mesma forma como eu não tenho julgamentos de valor quando estou usando um martelo ou uma chave de fenda. Tudo era ferramenta que eu não sabia usar, toda oportunidade de praticar era bem vinda.</p>
<p>Existe uma enorme armadilha no começo de carreira: a minha teoria das pirâmides tem outro detalhe: só de aprender o topo da pirâmide, você consegue entregar um projeto. Hoje em dia eu ilustro isso como o problema dos 80/20. Com 20% do conhecimento você consegue resolver 80% dos problemas. Mas pra resolver os últimos 20%, vai precisar dos 80% de conhecimento que ainda não tem.</p>
<p>Com meus pífios 20%, eu entregava projetos. O perigo era eu achar que já era bom, eu entendia isso. O que me mantinha no chão é que pra entregar esses projetos eu varava muitas noites corrigindo bug. Na minha cabeça, se eu não consigo entregar com menos bugs e se eu não consigo entregar só no horário do trabalho, era minha falta de experiência. Esse era meu termômetro de competência.</p>
<p>Ah mas não era culpa do meu chefe que me mandava fazer mais do que eu conseguia? Claro que tinha isso também. Mas por outro lado, se era esse o caso, eu considerava incompetência minha não saber julgar isso antes de começar a fazer. Depois que já deu merda é fácil dizer o que tava errado.</p>
<p>Novamente, não estou recomendando que você seja explorado no trabalho. Muitas vezes eu sabia que devia ganhar mais, eu via que não me pagavam as horas extras que eu fazia, e num dos empregos eu cheguei a ficar 3 meses sem receber salário antes de pedir demissão. Eu ficava com raiva disso, mas não o suficiente pra ficar encanado. Não era R$ 200 a mais ou R$ 1000 a mais que ia resolver minha vida. Eu pensava nos R$ 10 mil, nos R$ 20 mil no futuro. Não lembro de onde foi mas uma vez eu ouvi uma frase de que quem gasta muito tempo pensando nos centavos deixa de ganhar os dólares.</p>
<p>Eu imaginei que se eu realmente merecesse algum reconhecimento isso viria eventualmente. Fazer um trabalho bem feito 1 vez não é motivo pra reconhecimento, fazer um trabalho bem feito por 10 anos começa a ser. E você só vai saber disso se durar 10 anos sendo consistente. Se a única coisa que você faz é reclamar, se justificar, é isso que vai definir o que você vai ser.</p>
<p>Todos os empregos ruins que eu já passei não importa, ficaram pra trás, 10 ou 15 anos pra trás, algumas dessas empresas faliram, as pessoas que eu não gostava já nem sei mais por onde andam. Eu continuo aqui, fazendo coisas que eu jamais tinha imaginado na faculdade. Qualquer plano que eu tivesse feito na época da faculdade, teria falhado.</p>
<p>Aprender a aprender é a única coisa que você precisa. Todo o resto é secundário. Eu não acredito em receitas de carreira, funções bem definidas. Eu não estou nem aí se eu devia ou não devia fazer alguma coisa. Logo no começo eu vi que as pessoas contavam comigo não pelo conhecimento que eu tinha, mas porque com ou sem bugs, eu ia até o fim pra entregar. Ninguém gosta de alguém que acha que sabe tudo mas na hora do vamos ver só tem justificativas. Eu aprendi isso logo no começo e em vez de ficar me questionando toda hora, eu simplesmente fui indo.</p>
<p>E, por hoje já ficou bem comprido! Já me pediram pra falar especificamente de materiais e livros recomendados, estou planejando isso pra outro episódio. E quais são as suas experiências na faculdade? Já tem 10 anos de carreira? As coisas estão indo como você planejou? Não deixe de compartilhar nos comentários abaixo. Se gostaram deste vídeo mande um joinha, assinem o canal e clique no sininho. A gente se vê, até mais!</p>
]]></content:encoded><category>carreira</category><category>aprendizado</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #18 - Motivação: O Diário de Henry Jones</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/10/16/akitando-18-motivacao-o-diario-de-henry-jones/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/10/16/akitando-18-motivacao-o-diario-de-henry-jones/</guid><pubDate>Tue, 16 Oct 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>O que o diário de Henry Jones (Indiana Jones e a Última Cruzada) tem a ver com minhas atividades de blogueiro, palestrante e agora YouTuber? Quero contar uma história pessoal que se inicia em 1984 e dura até hoje.</p>
<p>Não subestime uma criança, você nunca sabe o que pode se tornar uma inspiração que pode durar uma vida inteira.</p>
<p>Links:</p>
<ul>
<li>AkitaOnRails - [Off-Topic] Disney, História do Computador e o Encarte Perdido (<a href="http://www.akitaonrails.com/2011/09/25/off-topic-disney-historia-do-computador-e-o-encarte-perdido"target="_blank" rel="noopener">http://www.akitaonrails.com/2011/09/25/off-topic-disney-historia-do-computador-e-o-encarte-perdido</a>)</li>
<li>Meu Passado Otaku – A revista de anime que publicou… um Boletim de Ocorrência (!!!) (<a href="https://maisdeoitomil.wordpress.com/2016/03/07/meu-passado-otaku-a-revista-de-anime-que-publicou-um-boletim-de-ocorrencia/"target="_blank" rel="noopener">https://maisdeoitomil.wordpress.com/2016/03/07/meu-passado-otaku-a-revista-de-anime-que-publicou-um-boletim-de-ocorrencia/</a>)</li>
</ul>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Olá pessoal, Fabio Akita</p>
<p>Quem me acompanha pelo Instagram sabe que passei as últimas 2 semanas numa peregrinação blockchain. Vou compilar o que aprendi provavelmente semana que vem.</p>
<p>Pensei em começar a contar algumas histórias pessoais, meio inspirado pelo meu episódio de “Devo Fazer Faculdade?”.</p>
<p>A história de hoje é como Indiana Jones me levou a virar blogueiro e, por consequência, começar este canal do YouTube.</p>
<p>(&hellip;)</p>
<p>Eu lembro até hoje, em 1989 meu pai me levou no cinema pra assistir Indiana Jones e a Última Cruzada. Eu já era fã de Indiana desde 1984 quando assisti tanto Star Wars o Retorno de Jedi e Indiana Jones e o Tempo da Perdição. Obviamente eu queria ver a Última Cruzada.</p>
<p>Chegamos atrasados pra sessão, quando entramos no cinema já tinha passado a introdução com o Indiana Jones adolescente e já estava na parte em que ele estava recuperando a Cruz de Coronado no navio. Lembro que a sessão estava cheia e assistimos tudo da primeira fileira, vou dizer que foi bem ruim pro pescoço, depois desse dia nunca mais me atrasei pra uma sessão de cinema. Enfim, resolvemos ficar depois do filme até a sessão seguinte pra ver a introdução que perdemos.</p>
<p>Eu gosto bastante desse filme por várias razões, assisti dezenas de vezes desde então, mas um conceito que ficou na minha cabeça sobre esse filme foi o diário de Henry Jones. Eu fiquei fascinado com o conceito de um pequeno livro que contém todo o conhecimento do personagem sobre o assunto do Graal, que ele veio escrevendo ao longo dos anos e que no final tinha as chaves pra resolver os 3 desafios do templo do sol.</p>
<p>Acho que todo mundo tem pequenos ganchos aleatórios como esse. Só faz sentido pra um jovem eu porque naquela época não existia o conceito de Web. Aliás, a palavra “internet” simplesmente não existia. Pra mim existia livros, revistas. Como uma criança de 12 anos eu ficava fascinado que era possível comprimir o conhecimento em volumes de uma enciclopédia. Eu não tinha a Britânica, mas tinha uma versão menor, o Mirador.</p>
<p>Eu não era particularmente estudioso nem nada disso. O que ressoou pra mim é que o diário de Henry Jones não era um enciclopédia. Era um compêndio sobre o Graal, um apanhado dos insights sobre um único assunto.</p>
<p>Outro gancho foi que na época eu tinha outro fascínio: computadores. Eu nunca brinquei na rua, só lia gibi e jogava videogame. Eu não refletia muito sobre computadores, pra mim eram simplesmente brinquedos caros que eu não tinha acesso. Porém, eu tive a sorte de ter um gibi de edição especial da Disney com a História dos Computadores de 1984. A história era muito bem contada, ia desde a origem dos números, do ábaco, passava por coisas como Leibnitz, Konrad Zuze, ENIAC, até o computador moderno - que naquela época eram representados pelos Macintosh e os primeiros IBM PC.</p>
<p>E como eu tinha uma enciclopédia, você pode imaginar que o verbete que eu lia mais vezes era a história dos computadores, que preenchia os detalhes que não tinha no gibi da Disney. Foi quando aprendi sobre Babbage, Lovelace, Turing e tantos outros.</p>
<p>Em a Última Cruzada, o diário era o compilado do trabalho de uma vida inteira de pesquisa. Em 1989 eu tinha 12 anos, na minha cabeça de criança, eu queria um livro como aquele, mas era super frustrante que obviamente eu não tinha nada pra escrever que desse mais que 2 páginas. Minha vida não era particularmente interessante.</p>
<p>Eu gastei algum tempo datilografando a história dos computadores. Coitados dos meus pais, quando criança eu ficava datilografando de noite e isso fazia barulho. Quando meu pai comprou meu primeiro computador, ele também comprou uma impressora matricial, uma Epson FX-1050. Eu era uma criança barulhenta de certa forma.</p>
<p>Foi assim que nasceu um pouco minha vontade de escrever e também meu interesse em história da computação. Meu Graal se tornou a computação. Nunca quis me tornar um especialista, foi só uma daquelas idéias que você tem quando criança que persistem mesmo quando você vira adulto.</p>
<p>Em paralelo, durante os anos 90 eu tinha outra obsessão: mangás e animes. Isso daria um episódio por si só, mas pra resumir aqui, além de consumir eu queria muito escrever a respeito. Eu conheci um grupinho e algumas pessoas que começaram a publicar uma revista chamada Animax, foi logo depois da revista Herói. A Herói era muito mal escrita, num nível que me dava raiva, então eu escrevi algumas matérias pra Animax, em particular sobre Evangelion. E como eu tinha acesso a um servidor web da faculdade, eu fiz um site chamado Animax Plug-in pra publicar matérias sobre meus animes favoritos da época como Evangelion, Gundan Wing, Ranma ½. Foi assim que comecei a escrever publicamente. Não lembro exatamente porque parei.</p>
<p>Eu gosto de explicar as coisas no contexto da história. Por exemplo, não era suficiente pra mim falar de Evangelion, eu precisava explicar a Gainax e seus trabalhos anteriores, Nadia and the secret of blue water, Gunbuster, Wings of Honneamise. E toda vez que escrevi sobre assuntos de computação a primeira coisa que me vinha na cabeça era escrever a história. Eu tenho essa obsessão de pensar em como as coisas chegam onde estão baseado nos eventos anteriores.</p>
<p>Por exemplo, por volta de 2002 eu quis dar um workshop de Java pra consultoria SAP onde eu trabalhava. Era pra ensinar o básico. Mas, claro, em vez de fazer slides mostrando como instalar o JDK, baixar o Eclipse e fazer um Hello World, eu comecei a apostila falando da história do Java. Claro, porque isso seria interessante … só que não.</p>
<p>Eu tenho um grande defeito. Eu nunca quis ser um escritor, eu era programador. Eu queria escrever alguma coisa pra mim. Melhor, sempre que escrevo penso no que eu de daqui 10 anos diria. Eu primeiro penso em mim, e é secundário se outra pessoa vai ou não gostar. Por isso eu nunca fui muito didático, nem escrevo só sobre assuntos da moda, porque o momento não necessariamente vai interessar o eu de aqui 20 anos.</p>
<p>Em 2006 eu publiquei meu primeiro livro de verdade, o Repensando a Web com Rails. Não era a primeira vez que eu aprendo uma nova linguagem, mas foi a primeira vez que eu fiquei empolgado além do meu normal, o suficiente pra largar minha carreira anterior e cair de cabeça nisso. Novamente, um assunto que daria facilmente outro episódio, mas pra resumir, meu objetivo com o livro era muito simples. Naquela época ninguém dava atenção a um assunto se não tivesse um livro publicado, por isso eu senti a necessidade de publicar em papel. Por outro lado eu não queria que fosse um livro caro e também não queria fazer um livro curto. Então eu cortei meus royalties. Eu faturei exatamente zero reais mas isso ia deixar o livro um pouco mais acessível. E eu não fiz isso por nenhum motivo altruísta, o livro nunca foi o objetivo final, era só um meio. Esse conceito pra mim é importante: eu não faço as coisas porque penso num bem maior ou porque vou ganhar dinheiro, eu faço porque eu quero.</p>
<p>Outra característica: eu tenho alguns momentos obsessivos quando escrevo ou programo. Meu estilo de vida sempre foi insalubre, e eu também não recomendo isso pra ninguém. De novo, eu não faço isso porque me espelho em alguém, por isso espero que ninguém se espelhe nas minhas partes ruins. Em vez de copiar o que eu faço, faça melhor do que eu, é melhor. Toda vez que eu varo noite eu fico frustrado comigo mesmo, porque só significa que eu ainda não sou bom o suficiente pra acabar antes. Não existe mérito em varar noite. Isso dito, como eu trabalhava tempo integral na consultoria SAP eu escrevi o livro nas horas vagas durante o dia, todas as noites, todos os fins de semana e todos os feriados durante um período de mais ou menos 2 meses pra escrever umas 500 páginas. O primeiro capítulo do livro e muitos dos capítulos seguintes começam com algumas páginas de história. Não é simplesmente um passo-a-passo, eu sinto essa necessidade de argumentar qualquer coisa que eu digo em vez de só dizer “faça porque eu disse”.</p>
<p>O blog akitaonrails.com começou como akitaonrails.blogspot.com antes de ter domínio e era mais para publicar notícias e dicas de Rails que eu ia vendo por aí. Levou ainda algum tempo pra começar a escrever conteúdo realmente original. De 2006 até hoje se passaram 12 anos. Eu nunca virei um blogueiro profissional de milhões de acessos. É um blog de nicho, mas mais importante, assim como foi com o livro de Rails, com meu site de anime, com as apostilas, até as datilografias da história da computação: eu nunca escrevo pros outros. Eu escrevo pra mim. Se meu blog só tivesse 1 acesso, de mim mesmo, era suficiente. Eu nunca cobrei pra escrever. Meu blog não tem ads. Meu canal de YouTube não vai monetizar. Porque no fundo, eu fico tentando escrever o diário de Henry Jones. Se eu ficasse pensando em matérias pra monetizar, eu ia escrever sobre coisas que interessam os outros mas não eu mesmo.</p>
<p>Meu blog é a primeira vez que eu cheguei perto de alguma coisa parecida com esse diário. É a coletânea de todas as minhas reflexões sobre pesquisas de assuntos que me interessam em particular e que eu escrevi de tal maneira que mesmo lendo 10 anos depois os argumentos sejam minimamente válidos, e que eu não me contradiga.</p>
<p>Novamente, meu objetivo nunca foi virar um escritor profissional e ganhar pra escrever. Minha obsessão é esse maldito diário. O canal do YouTube é a versão em vídeo do meu blog. O formato mudou. No começo eu tinha interesse em ter um volume em papel, como o diário original do Jones. Do papel pra sites, de sites pra blogs, agora de blogs pra vídeo. A mídia mudou, mas o objetivo continua sendo o mesmo.</p>
<p>Em retrospecto, tudo que eu faço eu faço pra mim, nunca pros outros. Eu sempre fiz tudo sem buscar validação. Eu não preciso muito que os outros digam que estou fazendo certo ou errado. Eu escrevi e gravei sobre porque você não deve procurar fazer só o que ama. Como eu disse naquele vídeo, eu não amo ficar varando noite pra editar vídeo, mas eu gosto de assistir o resultado tipo “da hora, pra um amador como eu, até que esse vídeo não tá vergonhoso, mas eu sei que posso fazer melhor”.</p>
<p>Deve ser muito frustrante quem faz as coisas esperando a validação de alguém. Eu não entendo muito quando as pessoas reclamam que ninguém elogia ou dá feedback positivo no trabalho delas. Me soa muito com uma extrema falta de capacidade de auto-crítica. Eu dou feedback pra mim mesmo. Eu nunca fiz nada porque alguém me motivou. Eu me motivo sozinho. Eu me sentiria muito mal se pra tudo que eu fosse fazer eu precisasse ser validado.</p>
<p>E tudo isso de certa forma nasceu daquele diário de Henry Jones, ele não foi feito pra ser lido por milhões, ele foi feito pra ser lido por uma única pessoa. A experiência pra mim era ver se eu conseguia chegar perto. E, claro é até engraçado pensar em ultrapassar um personagem fictício, é coisa da cabeça de uma criança de 12 anos. O diário de Henry Jones é só um prop de cinema que tem meia dúzia das 300 páginas de verdade. Eu provavelmente já mais que ultrapassei o volume. Agora vocês sabem porque eu consigo escrever conteúdos aqui pro canal: eu venho fazendo isso faz 20 anos. Eu escrevi 500 páginas de um livro. Eu escrevi 1000 posts. Eu produzi dezenas de palestras. Eu venho treinando faz tempo.</p>
<p>Esta história não é uma recomendação, tampouco uma receita. É só isso, uma história. Eu acho que todo mundo tem alguma história que os motiva de alguma forma. Qual é sua história? Compartilhe nos comentários abaixo. Se gostaram desse vídeo mandem um joinha, não esqueçam de assinar o canal e clicar no sininho pra não perder as próximas histórias.</p>
]]></content:encoded><category>pessoal</category><category>aprendizado</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #2 - Akitando em Seoul - Parte 2</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/08/16/akitando-2-akitando-em-seoul-parte-2/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/08/16/akitando-2-akitando-em-seoul-parte-2/</guid><pubDate>Thu, 16 Aug 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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&lt;a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h2&gt;&lt;p&gt;Esta é a segunda parte da parte turística da minha viagem para Seoul em Julho de 2018. Vamos continuar de onde paramos, no topo da Nansam Tower e visitar outros lugares da cidade.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal <a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener">Akitando</a>. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.</p>


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<h2>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Esta é a segunda parte da parte turística da minha viagem para Seoul em Julho de 2018. Vamos continuar de onde paramos, no topo da Nansam Tower e visitar outros lugares da cidade.</p>
<p>Hm, e no começo do vídeo eu achava que ainda era possível colocar annotations nos vídeos pra clicar em cima mas o YouTube tirou e eu não sabia :-) Então ficou só o card no topo mesmo, mals pela minha noobice haha</p>
<p>Para quem me acompanha nas redes sociais como Facebook ou Instagram (@akitaonrails), este episódio ainda é gravado pelo meu pobre Osmo+, no próximo que vou testar os novos equipamentos.</p>
<p>E no próximo episódio começar a falar sobre os assuntos das conferências de criptomoedas. Não deixem de seguir o canal e ativar o sininho!</p>
<p>Aliás, depois eu achei este vídeo mostrando todos os lugares que eu menciono nos meus 2 episódios só que com muito mais detalhe, qualidade. Assistam pra ver como são de fato os lugares que mencionei: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AulHEVz75lY"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=AulHEVz75lY</a></p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Anyonhaseyou de novo! Fabio Akita!</p>
<p>No episódio anterior eu tinha parado no topo da Nansam Tower. E eu estava lembrando do Gangnam Style do Psi e explicando como o rio Han divide a cidade em Norte e Sul.</p>
<p>Agora Gangnam significa literalmente “sul do rio” e agora vocês sabem porque. É um bairro mais badalado. Tem muitas empresas, bancos, o world trade center deles, incluindo 2 monumentos em comemoração ao Psi; um que é literalmente a pose mais famosa da música do lado do enorme COEX Mall e outro um pouco menor em Gangnam square, no cruzamento onde você encontra a sede da Samsung e sua loja modelo, a Samsung D’Light.</p>
<p>A D’Light tá longe de ser a loja Cubo da Apple de New York, mas tenta seguir um pouco o estilo, apresentando seus principais flagships e alguns displays mais conceituais ou protótipos, incluindo suas excepcionais TVs, eletrodomésticos, equipamentos de VR. Aliás, na Coréia você vê todo mundo usando algum modelo de smartphone Samsung. Para ter uma idéia de quão grande a Samsung é, pensa que eles representam pelo menos 15% do PIB do país! O PIB!</p>
<p>A Apple sequer tem Apple Store própria lá. Tem uma marca que meio que tem algumas lojas licenciadas para vender produtos Apple chamada Frisbee, &hellip;. Frisbee &hellip; como uma que vi em Myeongdong. Mas Samsung é de longe mais difundido.</p>
<p>Falando nisso, eu já disse que apps do Google são inúteis lá? O Google meio que desconsidera o mercado porque o governo local (e na China é pior, como todos sabem) é protecionista. Google Maps tem um mapa básico, semi-funcional porque pelo menos tem as linhas de metrô mas ESQUECE rotas, é inusável.
Ninguém usa Whatsapp, nem Hangouts, nem Messenger.
Tudo lá gira em torno de uma empresa local chamada Kakao que faz tudo que o Google faz incluindo KakaoTalk, KakaoMaps, KakaoNavi para rotas de carros (que os taxistas usam). App de Taxi, lógico é o KakaoTaxi.
Esquece Uber também. Lá só tem Uber Black e é bem mais caro que taxi então nem compensa e tem um número bem menor. Taxi em si é até barato em comparação com Estados Unidos e pegar o metrô é mais rápido de qualquer forma.
A Kakao tem um bom marketing porque eu esbarrei com pelo menos DUAS lojas de merchandising dos personagens da Kakao. Também esbarrei com loja de merchandising da Line.
Asiático é mestre de merchandising, vi isso no Japão também.</p>
<p>Voltando à caminhada, depois disso eu precisava procurar mais alguns pontos de destaque. Esta é a prefeitura, de um lado um prédio moderno do outro um castelo mais tradicional. E por acaso tava tendo alguma manifestação política. Interessante ver a opinião dos manifestantes em frente ao palácio contra o regime do Norte, obviamente &hellip;. Uma manifestação organizada, pacífica e sem nenhuma bagunça ou qualquer tentativa de causa confusão. Também tinha pelo menos 3 ônibus de policiais ali ao redor.</p>
<p>Resolvi ir um pouco mais longe - bem longe na verdade - no bairro de Songpa-gu onde tem o parque Olímpico. Um parque enorme no meio da cidade.
Um pouco maior que nosso Ibirapuera em São Paulo, mas menos da metade de um Central Park.
O lugar é grande, de novo, caminhei o máximo que pude mas o calor estava absurdo. &hellip; Mesmo assim deu para aproveitar o cenário verde e quente no meio da cidade.</p>
<p>Outro lugar que resolvi visitar foi o National Museum Palace, com relíquias da dinastia Joseon, construções com influência de arquitetos russos.
É um parque também ENORME, e também difícil de apreciar totalmente no CALOR infernal. Ele fica no bairro de Jong-Url Gu que é meio um bairro ao redor de escolas, então ao mesmo tempo tinha muitos estudante, e no parque não era difícil ver gente vestida com trajes de cerimônia da antiguidade. Além do contraste de ver construções palacianas na frente com prédios modernos ao fundo.
Isso é outra coisa que vi tanto em Tokyo quanto Kyoto, construções históricas preservadas no meio das construções modernas. Diferente das Américas, a história de lugares como Europa e Ásia remetem milhares de anos no passado e esse contraste é SEMPRE fascinante.</p>
<p>Lição de casa feita, lugares históricos e turísticos visitados, eu queria fazer compras.
Como disse antes o lugar é feito para mulheres. Eu queria achar bons lugares de eletrônicos. Já tinha ouvido falar do mercado de Yongsam então fui até lá.
É um complexo de prédios com pequenas lojinhas de novo, boxes, mas basicamente um lugar para achar coisas de segunda mão. Nem de longe perto de uma Best Buy dos Estados Unidos.
Se você quiser achar peças, acessórios, coisas meio velhas a bons preços acho que é um bom lugar.
Se você é de São Paulo, imagina a região da Santa Ifigênia, só que mais limpo e com BEM menos gente. É Yongsam.</p>
<p>Por acaso também passei perto de outro lugar chamado Techno Mart em Gwangjin-gu.
O nome meio que dá a entender que deve ser um lugar de eletrônicos. Mas apesar dos 8 andares e centenas de pequenas lojinhas, de novo, parecia uma Santa Ifigênia vertical. Você até achava algumas coisas novas, mas no geral era meio bagunçado e meio vazio.
Sério, se você já andou pela Ifigênia, ou Liberdade ou Paulista e viu aquelas galerias apertadas com lojas boxes é meio isso. Na verdade, lembra dos shoppings de metrô que falei, é tudo parecido: lojas boxes. Todas áreas de loja da cidade lembram um Bom Retiro e Ifigênia só que muito maior.</p>
<p>Finalmente achei mais ou menos o que eu tava procurando num hiper mercado!
Não muito longe, em Myeongdong mesmo, perto da estação Seoul que é onde chega a linha de trem do aeroporto também, é onde você encontra o Lotte Outlet com várias marcas famosas
e o Lotte Mart que é um hipermercado -
aliás um hipermercado cheio e barulhento, cheio de tias com pequenos estandezinhos de degustação de algum miojo coreano e coisa assim. No andar de cima uma loja de eletrodomésticos e eletrônicos para quem estiver interessado.
O hipermercado em si é bem interessante e onde me dei conta de outra coisa. Eu tava curioso para saber da bebida mais vendida do mundo, o Soju. No Japão você tem Sake que é o fermentado de arroz e base de tudo que é drink e coquetel aqui no Brasil também.
Mas na Coréia eles bebem Soju que é um destilado de arroz. Diferente de Sake que você costuma associar com garrafas mais caras, o Soju é vendido no mercado em garrafinhas de plástico a 2 dólar, é bebida popular tipo breja. Não é a toa que é mais vendido.</p>
<p>E é isso aí, taí minha RÁPIDA passagem por Seoul. A viagem é brutal!
Pensa, quase 30 horas, soma ai 14 horas de São Paulo a Dubai, depois umas 3 a 4 horas de espera e mais 9 horas de Dubai até Seoul.
A ida e volta é basicamente a uma volta completa ao redor do mundo!</p>
<p>Eu já tinha reservado 2 dias pra conferência, a Beyond Blocks. Daí fui convidado para participar de um meetup um dia antes e chegando lá descobri que ia ter outra conferência de 2 dias no fim de semana.
Então o que acabei de resumir aqui foi o que deu para ver em uns 4 dias e pouco.
Dado que ir de novo até lá é mais uma volta ao mundo, tentei ver o máximo que pude.</p>
<p>Da próxima vez, quero chegar lá sabendo falar um pouco mais da língua. Eu consigo ler - que nem uma criança de 2 anos - e quase não tenho vocabulário. Dava para ler algumas placas, embalaagens e coisas do tipo, mas só.
Ajudou muito que a sinalização é em Hangul, Japones e Inglês. E até no metro eles falam as 3 linguas nos vagões.
Aliás, todo lugar que eu andava ouvia japoneses. Faz sentido já que de Narita para Seoul é praticamente uma ponte aérea.</p>
<p>Fora das conferências, eu quase não vi ocidentais. Brasileiros, zero, puta contraste comparado com Miami por exemplo - onde você pensa que nem saiu do Brasil.
Os taxistas e um povo mais velho das lojinhas tem zero paciência com você.
É até meio zoado pra mim porque à primeira vista eles olham pra mim e pensam que sou coreano &hellip; aí eles acham que eu vou falar em coreano &hellip; e eu não falo .. daí já olham pra mim com aquela cara &hellip;</p>
<p>Se for ocidental pelo menos já não esperam nada. A maioria dos taxistas que peguei também tinha zero paciência.
Numa das noites eu tava acompanhando um grupo de franceses e tentando pegar taxi e nenhum parava. Um que parou uma hora fez de desentendido e, serio, depois de uns 10 minutos mostrando no mapa do celular onde a gente ia, ele não queria sair do lugar
e a gente teve que sair do taxi e ir procurar outro. Por sorte um taxista mais novo que arriscava um inglês bem ruim resolveu nos levar … pelo dobro do preço.</p>
<p>A comida lá é toda à base de Kimchi&hellip;. Sempre tem kimchi, esses vegetais fermentados. E sempre apimentado. Aliás, tudo lá é apimentado.
Eu não comi em restaurantes caros nem nada. Quando viajo eu gosto de comer o que os locais comem. Mas vou dizer que tendo experimentado Tokyo, o que comi em Seoul não me deixou impressionado.
Uma coisa que me acostumei em Tokyo foi comer marmita de loja de conveniência, em Seoul tem muitas, como as GS25 e não é de todo ruim não, pelo preço.
No geral a comida lá é razoavelmente barata. Comi em restaurantezinho de beco, de qualidade duvidosa, comi em shopping que achei meio ruim. Sério, no shopping, um dos restaurantes fazia macarrao tipo de miojo mesmo, tinha uma pilha. &hellip;
Tirando isso tem bastante restaurante japones, chines e tailandes também. E eles têm uma variação de “barbecue” que são tiras de carne finas e grelhas nas mesas onde você mesmo que vai grelhando a carne e comendo com molho e sai com a roupa defumada no processo.
Eu já tinha experimentado isso na Liberdade em São Paulo e no bairro coreano de Nova Iorque, e no calor de 40 graus eu não tava muito a fim de tentar em Seoul.
Em termos de carne, obviamente é difícil chegar perto dos nossos churrascos. Ouvi até falar que tem uma churrascaria brasileira em algum lugar mas não cheguei a encontrar.</p>
<p>Pelo pouco tempo que fiquei lá até que deu para visitar vários  lugares. Na prática, me pareceu uma Tokyo bem menor, com bem menos opções, e um pouco mais bagunçada. Tokyo, você pode ficar lá 1 mes e ainda vai ficando achando novidades, em Seoul dá impressão que em 2 semanas você já viu tudo.</p>
<p>Bom, com o turismo fora do caminho, no próximo episódio vou tentar resumir um pouco do que vi e ouvi nas conferências de blockchain e criptomoedas para explicar PORQUE a Coréia é tão influente nesse mercado.</p>
<p>Pra um episódio piloto ficou um pouco longo mas espero que eu tenha conseguido dar uma idéia de como é uma metrópole do outro lado do planeta. Se tiverem a oportunidade, obviamente recomendo visitar, com pelo menos o dobro de dias que eu. 10 dias de turismo deve ser mais que suficiente para saciar sua fome por K-Pop.</p>
<p>Por hoje é só. Kamsahapnida!</p>
]]></content:encoded><category>viagens</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>[Akitando] #1 - Akitando em Seoul - Parte 1</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/08/10/akitando-1-akitando-em-seoul-parte-1/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/08/10/akitando-1-akitando-em-seoul-parte-1/</guid><pubDate>Fri, 10 Aug 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Este é meu episódio piloto e para iniciar quero começar relatando como foram meus 10 dias na Blockchain Week de Seoul. Neste episódio vou começar falando sobre como foi minha primeira vez visitando a cidade de Seoul.</p>
<p>Perdoem o reflexo da iluminação no meu óculos. Vou ajustar isso nos próximos vídeos!</p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Anyonghaseyo! Fabio Akita o yo! Pangawoyo!</p>
<p>Bem vindos ao episódio piloto deste canal. Como devem ter percebido o assunto vai ser Coréia, e o que acabei de dizer basicamente exauriu meus enormes conhecimentos da língua, esperem eu massacrar os nomes dos lugares em coreano. Coloquem KY nos comentários e sejam legais, é meu primeiro vídeo.</p>
<p>Mas HOJE quero falar sobre a viagem que eu fiz no final de Julho pra Seoul.</p>
<p>Alguns devem saber que eu tô BEM engajado no assunto de criptomoedas e blockchains - assunto que VAMOS cobrir mais para frente.</p>
<p>Mas, quem está pesquisando essa área SABE que o FOCO das atenções não é Silicon Valley, como era na época do Google ou Facebook.</p>
<p>NÃO, as atenções estão voltadas lá pro Mediterrâneo, Norte e Leste Europeu e PRINCIPALMENTE a Ásia. Países como China, Japão, Singapura, Taiwan, e, claro Coréia do Sul, estão liderando esse movimento.</p>
<p>Portanto, se alguém está levando isso REALMENTE a sério, PRECISA ir pra Seoul.</p>
<p>Eu tinha essa intenção MAIS pra frente, queria ainda aprender um POUCO de Hangul - que é a língua deles - antes de ir - porque eu DETESTO ir para um país onde não entendo nada da língua - mas daí, no começo de junho, SEM QUERER vi um anúncio de um GRANDE evento chamado Beyond Blocks Summit Seoul, que ia acontecer em julho! JÁ!</p>
<p>Bom, Coréia! Tem DUAS! a do Norte que foi Cubanizada e ultimamente é só fonte de memes no Twitter. E a do Sul que é realmente impressionante!</p>
<p>Eu já estive em Tokyo duas vezes e, sendo descendente de japoneses - caso alguém não tenha notado - sou obrigado a dizer que em Seoul eu me senti meio que numa versão miniatura de Tokyo.</p>
<p>NESTE episódio, vou comentar um pouco sobre minha visita na cidade e falar da conferência no próximo vídeo.</p>
<p>A idéia não é fazer um documentário turístico mas relatar algumas impressões. A primeira coisa a saber se você quiser ir pra Coréia do Sul é que para estadias curtas - de menos de 90 dias - não precisa de nenhum visto, só chegar chegando mesmo.</p>
<p>Você aterrissa no aeroporto Incheon que fica numa ilha. E para chegar em Seoul você tem 3 opções: táxi, ônibus e trem. Esquece táxi, vai pagar uma fortuna - 80 trumps.</p>
<p>Trem é o canal. Aliás, a malha metroviária de Seoul é foda. Tá no mesmo nível de Berlin, Manhattan. Quem sabe um dia São Paulo chega lá &hellip;. A maioria dos vagões são modernos, com ar condicionado, wi-fi (pago), e as estações têm paredes de vidro para ninguém cair nos trilhos. Diferente de Tokyo, eu não vi aquelas multidões se empurrando e apertando dentro dos vagões. Mesmo dias de semana que voltei nos horários de rush, tava bem sossegado.</p>
<p>Uma coisa parecida com Japão e outros países, muitas das estações tem shopping centers subterrâneos. Então se você vai numa estação invariavelmente vai achar diversas pequenas lojinhas, tipo boxes. Os lugares que passei tinham MUITAS lojas, e era MUITO difícil achar lojas para homens, a maioria esmagadora eram lojas femininas.</p>
<p>Roupas, bijuterias, perfumes, cosméticos, tudo é pro público feminino. Tem pelo menos 2 bairros que eu vi ao redor de universidades só para mulheres (coisa comum no Japão também) e nesses locais é mais cheio ainda de lojas, cafés e coisas para mulheres. Não é anormal em metrópoles da Asia as mulheres casarem tarde ou nem casarem e preferirem continuar independentes, e as ofertas de consumo refletem isso.</p>
<p>Eu fiquei num bairro meio turístico chamado Myeongdong, no meio da muvuca. Esse bairro tem uma característica interessante, todos os dias mesmo durante a semana as ruas estreitas comerciais, entupidas de lojas de diversos tipos, tavam sempre cheios de street food, várias barracas com os mais diversos tipos de culinária de rua coreanas. Cheiro de feira o dia todo.</p>
<p>Por coincidência, nessa região eu tava próximo de 2 atrações. Primeiro sem querer achei uma escola de animação, anime mesmo. Eu sou Otaku portanto gosto muito de tudo que tem a ver com anime então tive que entrar.</p>
<p>Parece que na história da Coréia eles também curtiam mestre Osamu Tezuka, mas ao invés de só consumir o que o Japão produzia, eles também criaram as próprias histórias.</p>
<p>Eu visitei no fim de semana, então não tinha muita gente. Mas tinha vários itens legais pra ver, em particular bonecos e esculturas de mechas dos anos 60 e 70 como esse derivado coreano de Mazinger Z. Dá pra ver que eles apreciam a arte faz muito tempo. Especialmente porque você pode ver mais clássicos como Oogon Bat, Kikaider, Ultraman USA. E eles sabem o que existe de bom, como mais estes ultra clássicos de Leiji Matsumoto, Captain Harlock, Galaxy Express 999, Yamato, Queen Millenia.</p>
<p>Não sei porque tinha uma exposição sobre filmes da DC. Os filmes foram uma droga mas pelo menos essas estátuas da Liga da Justiça tavam animais. E eles incluíram alguns interessantes como o Cavaleiro das Trevas original de Frank Miller, dioramas do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, e até algumas lembranças do Batman de Tim Burton - que por acaso fez o melhor Batmóvel de todos os tempos, na minha opinião.</p>
<p>Falando em coisas geek, não lembro pra onde eu tava  indo mas acabei descendo na estação errada sem querer. Já tava ficando irritado comigo mesmo mas logo na saída das catracas, esbarro com isso! Uma loja de Gundams e outros mechas! As estações de metro são realmente lugares a serem explorados. E eles tinham coleções completas de tudo, desde os clássicos RX-78, vi modelos de séries como Z, ZZ, 0080, 0083, até versões super deformed e outros mecha como os Evas de Evangelion. Um harém de mechas no meio do nada.</p>
<p>Aproveitei para pegar o metrô e ir até o bairro de Seogyo-dong visitar o famoso Trick Eye museum. É um museu interativo que tinha duas exibições. Na primeira você tinha aquelas pinturas que se faz no chão e você precisa estar numa certa posição pra ver o desenho se formar na perspectiva e adicione a isso um app pra iOS e Android com realidade aumentada que cria animações 3D em cima dessas pinturas. Tinha vários cenários da hora, fogo e lava, gelo e neve, fundo do mar, dragões e fantasia.</p>
<p>Mais engraçado foi saindo do museu, indo de volta à estação, resolvo pegar uma rua paralela menor dô de cara com um monte de pequenos grupos cantando e dançando por tudo quanto é lado, com uma audiência até respeitável. E eu quero dizer ALTO!</p>
<p>Sendo otaku e geek eu preciso ficar me forçando a não ficar só caçando lojas de eletrônicos e cultura pop. Então fiz longas caminhadas. Sério! Andei pelo menos 10 km por dia. Lembrando que eu cheguei no VERAO e, só porque desgraça pouca é bobagem parece que alguns dos dias que lá foram os MAIS quentes da história recente deles. Todo dia fazia pra lá de 38 ou a 40 graus. Era bem úmido. Eu suava pra caramba.</p>
<p>Um exemplo do meu masoquismo foi próximo daonde eu tava, em Myeongdong.
De lá dava pra ver a Nansam Tower, a torre mais alta de Seoul de onde é possível ter uma visão panorâmica da cidade. Até a base da morro  já era um caminho de subida.</p>
<p>Na base cruzei com um pequeno monumento. Um memorial aos que lutaram e morreram defendendo o país do comunismo, depois da invasão do que eles chamam de “exército de fantoches” da Coreia do Norte em 1950. Fantoche é bem correto pra um comunista. Um excelente lembrete do extremo mau do comunismo e do socialismo.
A Coréia é uma visão BEM clara: a Coréia do Sul é o futuro e a Coréia do Norte comunista morreu no passado.</p>
<p>Enfim, dali eu podia pegar o teleférico para subir mas eu olhei e pensei, bah  &hellip; porque não ir a pé? Bom, vamos dizer que foi uma subida BEM &hellip; mas BEM &hellip;. mais longa e BEM mais íngreme do que eu pensei, ainda mais sendo meio dia, a quase 40 graus com sol pesado na cabeça. Sério, cheguei lá em cima me arrastando, encharcado de suor.</p>
<p>Mas a vista valeu a pena, dava para ter uma visão MUITO boa da cidade.
A cidade não é tão grande assim, na verdade é menos da metade de São Paulo e tem alguns milhões de pessoas a menos, um total de 9 milhões. A torre em si é alta mas a pouco mais de 200m de altura ainda não chega na categoria da torre de Tokyo que visitei em 2009 que junto com a Eiffel, tão acima dos 300m nem muito menos ao Burj Khalifa que visitei ano passado em Dubai, e tem seus 800 e tantos metros.</p>
<p>Lá do alto eu conseguia ver meu bairro e meu hotel e mais ao lado o hotel Shilla, 5 estrelas de propriedade da Samsung que é onde foi o evento.
Também dava pra ver o rio Han que corta a cidade no meio. Eu tava na metade norte do rio, e ao sul tem um bairro que ficou famoso no mundo inteiro por conta do famoso Gangnam Style do Psi, todo mundo sabe.</p>
<p>E &hellip; ufa! Chega, acho que é o suficiente pro primeiro episódio! No próximo episódio vou concluir meu relato sobre minha visita a Seoul antes de partir pro assunto de blockchains na sequência.</p>
<p>Finalmente tirei o cabaço de YouTube, o que acharam? Não deixem de mandar seus comentários abaixo, se gostaram dêem um joinha e se quiserem saber como essa aventura acaba, assinem o canal e cliquem no sininho.</p>
<p>Cambio e desligo! Kamsahapnida!</p>
]]></content:encoded><category>viagens</category><category>pessoal</category><category>akitando</category></item><item><title>De 10 Mil e Além: Discutindo Criptomoedas</title><link>https://akitaonrails.github.io/2017/11/30/de-10-mil-e-alem-discutindo-criptomoedas/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2017/11/30/de-10-mil-e-alem-discutindo-criptomoedas/</guid><pubDate>Thu, 30 Nov 2017 17:04:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/665/cryptocurrencies.jpg" alt="cryptocurrencies" loading="lazy" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois da &lt;a href="https://www.coindesk.com/10000-bitcoins-price-makes-history/"target="_blank" rel="noopener"&gt;histórica quebra dos USD 10.000&lt;/a&gt; ontem, o Bitcoin e as criptomoedas em geral finalmente chegaram à mídia mainstream de forma bombástica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como muitos na área de tecnologia, eu experimentei desde o início. Eu mesmo minerava alguns bitcoins lá em 2009, depois perdi a chave privada da minha carteira, esqueci completamente do assunto, e muitos anos depois estou aqui me mordendo de arrependimento :-)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando chegou a USD 3.000, meu interesse na plataforma foi totalmente renovado. E foi uma surpresa muito agradável ver o tamanho que isso tomou. Quem me acompanha sabe o quanto sou ávido por aprender coisas novas que têm potencial real. E também como é fácil para mim mergulhar de cabeça em algo.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/665/cryptocurrencies.jpg" alt="cryptocurrencies"  loading="lazy" /></p>
<p>Depois da <a href="https://www.coindesk.com/10000-bitcoins-price-makes-history/"target="_blank" rel="noopener">histórica quebra dos USD 10.000</a> ontem, o Bitcoin e as criptomoedas em geral finalmente chegaram à mídia mainstream de forma bombástica.</p>
<p>Como muitos na área de tecnologia, eu experimentei desde o início. Eu mesmo minerava alguns bitcoins lá em 2009, depois perdi a chave privada da minha carteira, esqueci completamente do assunto, e muitos anos depois estou aqui me mordendo de arrependimento :-)</p>
<p>Quando chegou a USD 3.000, meu interesse na plataforma foi totalmente renovado. E foi uma surpresa muito agradável ver o tamanho que isso tomou. Quem me acompanha sabe o quanto sou ávido por aprender coisas novas que têm potencial real. E também como é fácil para mim mergulhar de cabeça em algo.</p>
<p>Só consigo fazer isso porque não sou fiel a nada. Não escolho e defendo uma <a href="http://www.akitaonrails.com/2016/05/31/flertando-com-crystal-perspectiva-de-um-rubyista"target="_blank" rel="noopener">única linguagem</a>, nem um <a href="http://www.akitaonrails.com/2017/01/10/arch-linux-a-melhor-distro-de-todas"target="_blank" rel="noopener">único sistema operacional</a>, nem um <a href="http://www.akitaonrails.com/2017/11/21/da-microsoft-para-a-apple-e-de-volta"target="_blank" rel="noopener">único fabricante</a>, nem um <a href="http://www.akitaonrails.com/2017/08/28/off-topic-blockchain-e-criptomoedas-no-brasil"target="_blank" rel="noopener">único mercado</a>. Ficar na posição de defender algo por defender me parece extremamente improdutivo.</p>
<p>Acredite ou não, as criptomoedas vieram para ficar, pelo menos por alguns anos. Lembro da sensação quando experimentei a internet comercial em 1993. É exatamente isso de novo: um território inexplorado com muito potencial e muita coisa que ainda não conseguimos imaginar.</p>
<p>Quem me acompanha também sabe que sou um grande defensor do uso da Razão. Odeio tanto o hype extremo quanto o FUD. Quem dissemina qualquer um dos dois está atrás de atenção fácil, sem nada útil a dizer de verdade. <em>&ldquo;Vai chegar a 100k logo! Compra agora!&rdquo;</em> ou <em>&ldquo;É uma bolha de tulipas, você é idiota se comprar!&rdquo;</em>. Os dois extremos são imbecis.</p>
<p>Educação é a base de tudo. O raciocínio é o ponto de partida.</p>
<p>Um <strong>aviso importante</strong>: não estou recomendando que ninguém compre criptomoedas sem fazer a sua própria pesquisa. Qualquer um que faz recomendações, a favor ou contra, está sendo irresponsável. Tudo que posso fazer é transmitir uma opinião pessoal e uma análise técnica. Esse é o meu papel.</p>
<p>Um exemplo: você sabia que a tão repetida <a href="https://www.smithsonianmag.com/history/there-never-was-real-tulip-fever-180964915/"target="_blank" rel="noopener">Bolha das Tulipas nunca existiu de verdade</a>? Pois é. Isso mostra como as pessoas são rápidas em compartilhar memes e fake news sem pesquisar nada.</p>
<p>E fica ainda mais hilário na área de tecnologia, onde vejo muitos &ldquo;evangelistas&rdquo; gritando sobre os &ldquo;milagres&rdquo; de abrir sua própria startup para &ldquo;disrupar&rdquo; o mercado com <a href="https://www.producthunt.com/e/uber-for-x"target="_blank" rel="noopener">mais um derivado de Uber</a>. Vamos ser diretos: qualquer coisa pode ser uma bolha.</p>
<p>O ouro só tem valor porque criamos uma história em torno dele. Ouro não se come. Ouro nem é um metal tão bom para trabalhar. Só criamos uma história e todo mundo concordou. O mesmo vale para qualquer coisa que consideramos &ldquo;valioso&rdquo;. O que é uma moeda fiduciária? É um pedaço de papel, inútil por si só. Mas se todos concordarmos com a mesma história, o &ldquo;$100&rdquo; impresso nele torna o papel supervalioso.</p>
<p>Tal é o poder da <strong>crença</strong>.</p>
<p>Tudo que fazemos exige algum nível de fé. Se presto um serviço para alguém, preciso ter fé de que serei pago no futuro. A confiança vem de um papel assinado ou mesmo de um simples e-mail, e da certeza de que as instituições vão me ajudar a cobrar esse pagamento se necessário.</p>
<p>É tudo histórias, fé e crenças. Se ainda não leu, recomendo fortemente o <a href="https://www.amazon.com/Sapiens-Humankind-Yuval-Noah-Harari/dp/0062316095"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Sapiens&rdquo;</a> de Yuval Harari para entender como as histórias moldam nossa história.</p>
<p>Dito isso, acho hilário que técnicos considerados &ldquo;sérios&rdquo; sejam rapidíssimos em gritar <em>&ldquo;é uma fraude!&rdquo;</em> ou <em>&ldquo;é uma bolha!&rdquo;</em> sem dedicar 1 segundo sequer para verificar os fundamentos e checar as fontes. Engenheiros deveriam saber fazer isso melhor, e essa preguiça expõe quem realmente sabe fazer análise e quem só segue multidões cegamente.</p>
<p>Não dá para dizer que eu estava errado se, por algum motivo, as criptomoedas implodissem amanhã do nada. Tampouco que os céticos estavam certos. Isso é importante: qualquer coisa no futuro é impossível de prever com certeza. Você joga com as probabilidades. Se não tem convicção, não aposte. Mas criar histórias para justificar a própria ignorância é decepcionante demais.</p>
<p>O interessante nos mercados financeiros é que eles ensinam as pessoas a lidar com a improbabilidade. Venho evangelizando Nassim Taleb neste blog <a href="http://www.akitaonrails.com/2008/10/09/off-topic-entendendo-a-crise-econ-mica"target="_blank" rel="noopener">há anos</a>, desde o colapso econômico de 2008/2009. Aprendemos muito. Aprendemos sobre &ldquo;Cisnes Negros&rdquo; e como se tornar &ldquo;Antifrágil&rdquo; e, em boa hora, como ter <a href="https://www.amazon.com/Skin-Game-Hidden-Asymmetries-Daily/dp/B077BSK9LC/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1512059894&amp;sr=1-1&amp;keywords=skin&#43;in&#43;the&#43;game"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Skin in the Game&rdquo;</a>. Engenheiros deveriam ter muito mais esse tipo de conhecimento — chegariam a soluções muito melhores.</p>
<p>Respondendo a alguns FUDs específicos que tenho lido:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;É uma bolha!&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Pode ser. Como disse, o setor de tecnologia já é uma bolha para todo efeito. Basta alguns VCs se articularem e <a href="https://techcrunch.com/2017/11/30/theres-an-implosion-of-early-stage-vc-funding-and-no-ones-talking-about-it/"target="_blank" rel="noopener">recuarem</a> para deixar uma bomba explodindo atrás. Tudo é história, não importa o quanto você valorize algo. É simples assim.</p>
<p>Como operar dentro de uma bolha? De forma antifrágil. Antes de tudo, se você é iniciante, nunca, em hipótese alguma, invista tudo que tem. Invista apenas o que, se perder tudo, não te deixará na miséria. Isso é Investimento-101.</p>
<p>Tente comprar nas baixas e talvez vender nas altas. Ou planeje o longo prazo e faça <a href="https://coinsutra.com/hodl-popular-cryptocurrency-terms/"target="_blank" rel="noopener">HODL</a> por alguns anos. Se precisa de retornos rápidos, aprenda a operar com <a href="https://www.investopedia.com/terms/s/stop-lossorder.asp"target="_blank" rel="noopener">ordens de stop-loss</a>, por exemplo. Não tente ser mais esperto que o mercado se não tem experiência com trading. Ou tente, mas não reclame quando perder.</p>
<p>Perdas ou lucros, é sua responsabilidade e de mais ninguém — não &ldquo;do mercado&rdquo; nem &ldquo;dos especuladores&rdquo;. Todo mundo é adulto. Adultos assumem responsabilidade pelos próprios atos. Se perderam dinheiro em uma aposta que não entendiam, a culpa é deles.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;A mineração consome mais energia do que alguns países pequenos!&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Não importa. Antes de mais nada, não estão drenando energia de graça. Todo minerador paga por ela. Agora você vai entender por que é tão problemático quando governos interferem nos mercados livres. Se algum país subsidia a energia, a fórmula de oferta e demanda vai falhar. Óbvio.</p>
<p>E os técnicos deveriam saber disso melhor. Nunca houve banda suficiente nas linhas telefônicas para todo mundo no planeta se conectar à internet. Tivemos que evoluir muito a infraestrutura. Adicionamos cabos submarinos. Saímos dos modems discados para ISDN, para modems a cabo, e assim por diante.</p>
<p>A mineração baseada em <a href="http://www.akitaonrails.com/2017/11/01/como-o-bitcoin-forca-consenso-entre-os-generais-bizantinos"target="_blank" rel="noopener">proof of work</a> consome uma quantidade enorme de energia, e com razão. Estamos trocando energia por integridade. Mas não é a única alternativa. Existem implementações de <a href="https://github.com/ethereum/wiki/wiki/Proof-of-Stake-FAQ"target="_blank" rel="noopener">proof of stake</a> começando a ser implantadas em outras alt-coins, com eficiência energética muito maior enquanto oferecem níveis similares de confiança no consenso.</p>
<p>O ponto é que a tecnologia evolui rápido e não dá para extrapolar o futuro com base no que temos hoje. É como alguém em 1993 dizendo <em>&ldquo;a internet comercial não pode acontecer porque as linhas telefônicas são lentas demais se algum dia quisermos streaming de vídeo&rdquo;</em>.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;O Bitcoin é centralizado demais, isso é perigoso!&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Se você é programador e ainda não sabe exatamente o que significa minerar, recomendo que leia primeiro meu <a href="http://www.akitaonrails.com/2017/11/01/como-o-bitcoin-forca-consenso-entre-os-generais-bizantinos"target="_blank" rel="noopener">artigo anterior</a> sobre o assunto.</p>
<p>A mineração não é determinística. Mesmo com o melhor hardware do mundo, não há garantia de que você vai minerar o bloco primeiro. É mais como uma rifa.</p>
<p>Por isso os mineradores se organizam em pools, que dividem os ganhos entre os membros.</p>
<p>A preocupação é que <a href="https://blockchain.info/pools"target="_blank" rel="noopener">4 dos maiores pools</a> — AntPool, ViaBTC, BTC.com e BTC.TOP — &ldquo;controlam&rdquo; 62% do hashpower mundial.</p>
<p>Diz-se que quem controla 51% do hashpower poderia lançar um ataque ao blockchain, sendo capaz de reescrever blocos do passado recente e permitir double-spend, por exemplo.</p>
<p>Mas <a href="https://bitcoinmagazine.com/articles/problems-associated-with-bitcoin-mining-centralization-may-be-overstated-1474917259/"target="_blank" rel="noopener">na prática</a>, não é tão simples assim.</p>
<p>Minerar custa caro. Um equipamento de USD 20.000 consegue minerar em torno de USD 11 por dia, sem descontar todos os custos, incluindo a depreciação das máquinas. Qualquer coisa além de minerar honestamente é muito arriscada e pouco lucrativa. O sistema foi construído de forma que os hackers teriam que gastar tanto dinheiro com riscos tão altos que é mais fácil simplesmente seguir as regras.</p>
<p>E novamente, as alt-coins e forks estão experimentando novas formas de tornar isso ainda mais difícil no futuro.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;A Visa processa milhares de transações por segundo. O Bitcoin jamais vai conseguir isso!&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>De novo, argumento inútil. É como dizer <em>&ldquo;o ouro não pode ser trocado rápido o suficiente, nunca vai prestar&rdquo;</em>.</p>
<p>Já temos várias alt-coins como o Litecoin e outras tentando resolver o problema de transações rápidas. Considere que todas as alt-coins estão de certa forma atreladas ao Bitcoin, da mesma forma que o dólar já foi atrelado ao ouro. E se a chamada <a href="https://lightning.network/"target="_blank" rel="noopener">Lightning Network</a> entrar em operação, poderemos cruzar fronteiras entre blockchains com muito mais facilidade.</p>
<p>A Visa não transaciona &ldquo;cédulas&rdquo; de dólar — ela faz transações virtuais em seus bancos de dados internos. Só quando o comerciante saca é que converte para dólares em espécie.</p>
<p>Dá para adicionar Bitcoin tranquilamente ao mix de opções num sistema de transações Visa. É assim que o cartão de crédito funciona hoje: você só paga 30 dias depois. E funciona. Qual é o problema?</p>
<p>E de novo: vamos resolver isso com o tempo. Deixa as tecnologias amadurecerem, a demanda aparecer e a solução vai surgir.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Não tem nenhuma função social.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Grande parte das críticas às criptomoedas vêm da população &ldquo;elite&rdquo; dos países do primeiro mundo. Se você é uma pessoa branca nos EUA com uma boa renda em dólares, ou alguém parecido na Europa com bastante Euro, sua principal preocupação é <em>&ldquo;o Bitcoin é lento demais para comprar no shopping&rdquo;</em> ou <em>&ldquo;as taxas de transação são altas demais para o meu café diário no Starbucks&rdquo;</em>. E aí começa a gritar que <em>&ldquo;o Bitcoin não tem função social&rdquo;</em>.</p>
<p>Mas isso é absurdo. Você não mora na América do Sul, na África, no Sudeste Asiático. Você não está na Venezuela, onde a moeda foi destruída pela ditadura vigente. Consegue imaginar a sua amada nota de dólar valendo menos que papel higiênico?</p>
<p>Você não mora no Zimbábue onde o exército <a href="http://www.telegraph.co.uk/technology/2017/11/20/bitcoin-has-become-zimbabwes-crisis-currency/"target="_blank" rel="noopener">tomou o poder</a>. Não mora na Ásia, lugar sob ameaça constante de <a href="https://www.express.co.uk/news/world/886680/North-Korea-news-North-Korea-update-World-War-3-Donald-Trump-Kim-Jong-un-missile-test"target="_blank" rel="noopener">mísseis nucleares</a> do ditador maluco Kim Jong-Un.</p>
<p>Então, tudo bem, não tem função social para a sua cota diária de açúcar no 7-Eleven. É lento demais para comprar refrigerante em galão e as taxas são altas demais. Mas se você mora em qualquer lugar do mundo onde o governo representa uma ameaça aos cidadãos, ter uma <strong>reserva de valor</strong> descentralizada e sem regulação governamental, que você pode tirar facilmente do país opressor, é algo que <strong>salva vidas</strong>. Mesmo em países como o meu, o Brasil, você não quer ter tudo em Reais caso candidatos a ditadores como Lula ou Bolsonaro realmente percam o juízo e deem um golpe.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Não vejo sentido nisso. Simplesmente não vejo. E não me importo.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Isso é a coisa mais honesta que se pode dizer — pelo menos assume a própria ignorância e a própria falta de interesse.</p>
<p>E há uma boa razão para isso. Em termos de tecnologia, os EUA seguem o que o Vale do Silício diz. E muitos outros países simplesmente repetem o que vem de lá. Então os técnicos estão acostumados a seguir o que Google, Facebook ou Apple estão dizendo.</p>
<p>Mas a tecnologia blockchain não veio diretamente deles. Não é um produto do Google. E pior: ela mexe com as frágeis crenças morais dessas pessoas. Elas acham normal receber enormes quantias de dinheiro de VC como &ldquo;recompensa&rdquo; pelo que &ldquo;acreditam&rdquo;, pela sua &ldquo;cultura&rdquo;, pelos seus &ldquo;valores&rdquo; arbitrários. Não acreditam em ganhar o próprio dinheiro. E mesmo que os VCs sejam do mercado financeiro, os técnicos desprezam Wall Street e as finanças. Os hipsters do Starbucks odeiam os traders de terno e gravata e suas supostas &ldquo;táticas sujas&rdquo; para ganhar dinheiro.</p>
<p>É hilário, no fim das contas todo mundo quer uma coisa e uma coisa só: mais dinheiro. Mas os hipsters são muito hipócritas para admitir isso. <em>&ldquo;Não quero dinheiro, quero disrupar o mercado&rdquo;</em>. Claro, pode continuar se dizendo isso.</p>
<p>Agora, considere que todo esse buzz das criptomoedas não vem do Ocidente. Vem todo da Ásia. Japão, Coreia do Sul, Cingapura, China — são eles que estão conduzindo o mercado. O Japão, como país, já regulamentou e aceitou o Bitcoin como moeda de verdade e detém sozinho <a href="https://cointelegraph.com/news/bitcoin-price-surpasses-1000000-yen-as-japan-seizes-nearly-60-market-share"target="_blank" rel="noopener">60% do market share</a>.</p>
<p>Esse é um fenômeno fortemente impulsionado pela Ásia. E estamos só no começo.</p>
<p>Portanto, não estamos mais no cenário de <em>&ldquo;se isso acontecer&rdquo;</em>. Já aconteceu. Gigantes como o <a href="https://seekingalpha.com/article/4128569-5-things-aware-cme-bitcoin-futures"target="_blank" rel="noopener">CME Group</a> e a <a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-11-29/nasdaq-is-said-to-plan-bitcoin-futures-joining-biggest-rivals"target="_blank" rel="noopener">Nasdaq</a> vão começar a oferecer produtos de Bitcoin. Estamos perdendo tempo discutindo questões triviais e idiotas que serão resolvidas no longo prazo.</p>
<p>As criptomoedas vieram para ficar. Minha recomendação para quem realmente valoriza o conhecimento: estude o assunto.</p>
]]></content:encoded><category>bitcoin-e-criptomoedas</category><category>economia</category><category>pessoal</category></item><item><title>Participando em Podcasts</title><link>https://akitaonrails.github.io/2017/06/02/participando-em-podcasts/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2017/06/02/participando-em-podcasts/</guid><pubDate>Fri, 02 Jun 2017 10:34:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Atualização 11/10/17&lt;/strong&gt;: mais um podcast pelo Ruby Rogues, entitulado &lt;a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/rr-331-30-days-elixir-crystal-back-ruby-fabio-akita"target="_blank" rel="noopener"&gt;&amp;ldquo;RR 331: 30 days to Elixir then Crystal and back again to Ruby with Fabio Akita&amp;rdquo;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este ano, por total coincidência, tive a oportunidade de participar de 3 canais de podcast. Quero deixar meus agradecimentos ao Paulo Silveira, Charles Max Wood, Lucas Caton, Fellipe Azambuja e Ramon Sanches.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro na verdade saiu no fim do ano passado, em Novembro, pelo &lt;a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/"target="_blank" rel="noopener"&gt;Ruby Rogues&lt;/a&gt; com o tema &lt;a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/285-rr-ruby-conf-brazil-and-building-communities-with-fabio-akita"target="_blank" rel="noopener"&gt;&amp;ldquo;Ruby Conf Brazil and Building Communities&amp;rdquo;&lt;/a&gt; (em inglês) onde o Charles Wood e eu discutimos um pouco sobre a história da comunidade Ruby no Brasil, como eu tentei começar, o que tentei fazer, blog, palestras, eventos. Além de pontos mais específicos como um pequeno panorama da linguagem Ruby e meu conceito sobre não se limitar a somente uma linguagem ou tecnologia. Se você é novo na comunidade Ruby talvez ajude a ter uma idéia de como chegamos onde estamos hoje.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Atualização 11/10/17</strong>: mais um podcast pelo Ruby Rogues, entitulado <a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/rr-331-30-days-elixir-crystal-back-ruby-fabio-akita"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;RR 331: 30 days to Elixir then Crystal and back again to Ruby with Fabio Akita&rdquo;</a></p>
<p>Este ano, por total coincidência, tive a oportunidade de participar de 3 canais de podcast. Quero deixar meus agradecimentos ao Paulo Silveira, Charles Max Wood, Lucas Caton, Fellipe Azambuja e Ramon Sanches.</p>
<p>O primeiro na verdade saiu no fim do ano passado, em Novembro, pelo <a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/"target="_blank" rel="noopener">Ruby Rogues</a> com o tema <a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/285-rr-ruby-conf-brazil-and-building-communities-with-fabio-akita"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Ruby Conf Brazil and Building Communities&rdquo;</a> (em inglês) onde o Charles Wood e eu discutimos um pouco sobre a história da comunidade Ruby no Brasil, como eu tentei começar, o que tentei fazer, blog, palestras, eventos. Além de pontos mais específicos como um pequeno panorama da linguagem Ruby e meu conceito sobre não se limitar a somente uma linguagem ou tecnologia. Se você é novo na comunidade Ruby talvez ajude a ter uma idéia de como chegamos onde estamos hoje.</p>
<p>O segundo saiu em fevereiro, no podcast do Paulo Silveira, o <a href="http://hipsters.tech"target="_blank" rel="noopener">Hipsters Ponto Tech</a> e o assunto foi <a href="http://hipsters.tech/carreira-em-tecnologia-hipsters-31/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Carreira em Tecnologia&rdquo;</a>. Participaram os grandes Guilherme Silveira e Sérgio Lopes, e nessa conversa demos uma pincelada nos principais aspectos para quem está começando na carreira de programação. Vejam também os comentários, pois vários outros pontos de vista, opiniões e dicas surgiram dos ouvintes. De curiosidade, esse deu um pouquinho de trabalho porque gravamos um anterior mas como o Paulo ainda estava no início do podcast, ele refinou o processo e pediu para regravar este que acabou saindo. O formato e os temas mudaram um pouco para ficar mais focado, o que tornou a conversa melhor. Alguns dos assuntos que eu abordei na primeira tentativa acabei retomando nos podcasts seguintes desta lista.</p>
<p>O terceiro saiu no meio de maio a convite do Lucas Caton, que me apresentou ao Montanha e Ramon do podcast <a href="http://devnaestrada.com.br"target="_blank" rel="noopener">Dev na Estrada</a> e o tema foi <a href="http://devnaestrada.com.br/2017/05/18/vale-a-pena-ruby-on-rails.html"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Vale a pena? Ruby on Rails com Lucas Caton e Akita&rdquo;</a> onde novamente eu retomo um pouco da parte história da comunidade Ruby internacional e porque Ruby on Rails é diferente de todas as outras comunidades e porque ainda vale a pena investir seu tempo nesse ecossistema.</p>
<p>O quarto saiu no fim de maio e o Charles Wood me convidou novamente para o Ruby Rogues com o título de <a href="https://devchat.tv/ruby-rogues/ruby-story-fabio-akita"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;My Ruby Story&rdquo;</a> (em inglês), mas desta vez para eu contar um pouco da minha história pessoal. Como comecei minha carreira. Como comecei com Ruby particularmente. O contexto histórico no mundo da tecnologia nos últimos 20 anos.</p>
<p>O quinto e último até agora saiu hoje, começo de junho. Retorno novamente com o Montanha do Dev na Estrada numa <a href="http://devnaestrada.com.br/2017/06/02/entrevista-fabio-akita.html"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Entrevista&rdquo;</a> para repetir um pouco do tema do Ruby Rogues sobre meu começo de carreira. Mas enquanto no Ruby Rogues eu passo muito rápido sobre o começo e vou para os últimos 10 anos onde foquei mais em Ruby, neste com o Montanha eu foco muito mais realmente no comecinho da minha carreira, particularmente os anos 90 e uma pincelada de 30 anos atrás até 10 anos atrás. Os anteriores são longos (média de 1h cada) mas esse em particular é MUITO longo (quase 2h!), peço desculpas pelo tamanho. Mas o Montanha começou &ldquo;conta do começo&rdquo; &hellip; eu tentei resumir e só contar alguns poucos pontos, mas mesmo assim ficou BEM longo!</p>
<p>Quem chegou a escutar um dos podcasts? O que acharam? Deixem seus comentários abaixo.</p>
]]></content:encoded><category>entrevistas</category><category>carreira</category><category>pessoal</category></item><item><title>[Off-Topic] Carpe Diem e os Mitos da Felicidade</title><link>https://akitaonrails.github.io/2017/02/14/off-topic-carpe-diem-e-os-mitos-da-felicidade/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2017/02/14/off-topic-carpe-diem-e-os-mitos-da-felicidade/</guid><pubDate>Tue, 14 Feb 2017 15:44:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/618/img_109445809d36e63818.jpg" alt="Don Draper" loading="lazy" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&amp;ldquo;Mas o que é felicidade? É um momento antes de você precisar de mais felicidade.&amp;rdquo; - Don Draper&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Um dos grandes mitos da sociedade moderna, perpetuado por uma torturante repetição diária nas redes sociais, é o falso &amp;ldquo;objetivo&amp;rdquo; da &amp;ldquo;busca pela felicidade&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A esse mito se soma o &lt;a href="https://www.huffpost.com/entry/the-myth-of-motivation_b_8261560"target="_blank" rel="noopener"&gt;mito da &amp;ldquo;motivação&amp;rdquo;&lt;/a&gt;. TL;DR: motivação é superestimada, muito mais do que realmente merece.&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&amp;ldquo;As pessoas podem ter dois tipos de mentalidade, diz ela. Aqueles com &amp;lsquo;mentalidade fixa&amp;rsquo; acreditam que seus talentos e habilidades estão cravados em pedra. Aqueles com &amp;lsquo;mentalidade de crescimento&amp;rsquo; acreditam que seus talentos e habilidades podem ser desenvolvidos. Mentalidades fixas enxergam cada situação como um teste de seu merecimento. Mentalidades de crescimento enxergam as mesmas situações como oportunidades de melhorar.&amp;rdquo; - Daniel H. Pink, &lt;a href="https://www.goodreads.com/work/quotes/6643001"target="_blank" rel="noopener"&gt;Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/618/img_109445809d36e63818.jpg" alt="Don Draper"  loading="lazy" /></p>
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  <p>&ldquo;Mas o que é felicidade? É um momento antes de você precisar de mais felicidade.&rdquo; - Don Draper</p>

</blockquote>
<p>Um dos grandes mitos da sociedade moderna, perpetuado por uma torturante repetição diária nas redes sociais, é o falso &ldquo;objetivo&rdquo; da &ldquo;busca pela felicidade&rdquo;.</p>
<p>A esse mito se soma o <a href="https://www.huffpost.com/entry/the-myth-of-motivation_b_8261560"target="_blank" rel="noopener">mito da &ldquo;motivação&rdquo;</a>. TL;DR: motivação é superestimada, muito mais do que realmente merece.</p>
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  <p>&ldquo;As pessoas podem ter dois tipos de mentalidade, diz ela. Aqueles com &lsquo;mentalidade fixa&rsquo; acreditam que seus talentos e habilidades estão cravados em pedra. Aqueles com &lsquo;mentalidade de crescimento&rsquo; acreditam que seus talentos e habilidades podem ser desenvolvidos. Mentalidades fixas enxergam cada situação como um teste de seu merecimento. Mentalidades de crescimento enxergam as mesmas situações como oportunidades de melhorar.&rdquo; - Daniel H. Pink, <a href="https://www.goodreads.com/work/quotes/6643001"target="_blank" rel="noopener">Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us</a></p>

</blockquote>
<p>Junto vem o mantra repetido do &ldquo;faça o que ama&rdquo;. Como <a href="http://www.akitaonrails.com/2014/09/13/off-topic-nao-faca-o-que-voce-acha-que-ama"target="_blank" rel="noopener">discorri em 2014</a>, essa ideia é uma forma mesquinha de desvalorizar o trabalho dos outros.</p>
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  <p>&ldquo;&hellip;, o grande problema da narrativa do “ame o que você faz” é que ela está vinculada a um discurso de felicidade que é “estar no topo da montanha russa o tempo inteiro”. Como se uma vida normal, cotidiana, rotineira não pudesse ser uma vida de satisfação. Tudo isso torna esse cenário preocupante.&rdquo; - Bárbara Castro - <a href="http://web.archive.org/web/20140326092650/http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/5-razoes-pelas-quais-o-faca-o-que-ama-nao-e-uma-solucao"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;5 Razões pelas quais o &lsquo;faça o que você ama&rsquo; não é a solução&rdquo;</a></p>

</blockquote>
<p>No nosso pequeno grande mundo de tecnologia, isso leva muita gente a concluir: &ldquo;vou trabalhar numa startup ou abrir a minha própria&rdquo;. A decisão em si não tem nada de errado. O problema é chegar nela movido pelos mitos anteriores, o que vira uma fonte enorme de frustração desnecessária, como <a href="http://www.akitaonrails.com/2013/10/31/traducao-carta-para-um-jovem-programador-considerando-uma-startup"target="_blank" rel="noopener">já expliquei em 2013</a>.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Não vou me equivocar: eu sou profundamente cético com esse sistema. Sou cético quanto à escravidão desse sistema, fetichização autocongratulatória de &ldquo;disrupção&rdquo; e ao mesmo tempo se tornando tão obviamente o tipo de instituição impassível que quer substituir. Sou cético quanto à visão de curto-prazo da comunidade de startup. E sou particularmente cético pelo seu desprezo quanto às vidas das pessoas que participam e a vida daqueles que vivem no mundo que as startups procuram reformular. Não vamos nem começar a discutir o conluio, cartelização e outras atividades de corrupção de mercado que são tão comuns no mundo dos VCs. O ponto sendo: é um jogo ruim, e um jogo de fraude.&rdquo; - Alex Payne</p>

</blockquote>
<p>Some a isso o &ldquo;consenso&rdquo; das redes sociais de que o mundo não para de piorar. Tudo hoje seria pior. As pessoas, piores. Os trabalhos, piores. O meio ambiente, destruído. Tudo ofende todo mundo o tempo todo, e ninguém consegue parar de julgar os outros.</p>
<p>Eu discordo, como <a href="http://www.akitaonrails.com/2013/01/02/off-topic-o-mundo-hoje-e-muito-bom-feliz-2013"target="_blank" rel="noopener">já expliquei também em 2013</a> e repito todo ano: o mundo está melhor, em melhoria constante, e o futuro será ainda melhor. Aproveito para homenagear um dos homens que ajudaram a mudar minha perspectiva sobre o mundo, o recém-falecido Dr. Hans Rosling.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/619/quote-i-have-a-neighbor-who-knows-200-types-of-wine-i-only-know-two-types-of-wine-red-and-hans-rosling-79-96-23.jpg" alt="Hans Rosling"  loading="lazy" /></p>
<h3>A Perpetuação dos Mitos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-perpetuação-dos-mitos"></span>
    <a href="#a-perpetua%c3%a7%c3%a3o-dos-mitos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Não faltam livros, palestras, programas de TV, filmes e tudo mais construído ao redor da ideia de que todos &ldquo;devem&rdquo; ser felizes, o tempo todo. E que, se você não está feliz, está fazendo alguma coisa muito errada. A busca incessante pela &ldquo;felicidade ideal&rdquo; virou uma das obsessões mais insalubres e cruéis dos últimos dois séculos, ao lado do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=f_4Q9Iv7_Ao"target="_blank" rel="noopener">consumo excessivo de açúcar</a>. Esse é outro assunto, embora açúcar e felicidade costumem andar correlacionados.</p>
<p>Existem 2 conceitos que todos precisam entender:</p>
<ol>
<li>Você provavelmente <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ykvC3QXJb18"target="_blank" rel="noopener">não tem depressão</a>. Hoje em dia todo mundo &ldquo;está deprimido&rdquo;, claro, porque &ldquo;descobrir o que ama fazer&rdquo; dá muito trabalho e traz muito &ldquo;sofrimento&rdquo;&hellip;</li>
</ol>
<p>Não, você só está <strong>entediado</strong>, momentaneamente.</p>
<p>Dizer &ldquo;estou com depressão&rdquo; em vez de &ldquo;estou entediado&rdquo; ficou tão comum que a condição clínica de verdade precisou de outro nome para se diferenciar, o <a href="http://web.archive.org/web/20170213181854/http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/depression/basics/symptoms/CON-20032977"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Major Depressive Disorder&rdquo;</a>. Essa é uma condição médica séria demais para ser tratada com tanta falta de consideração.</p>
<ol start="2">
<li>Normalmente, mesmo depois de passar por eventos que consideramos muito ruins, ou muito bons, tendemos a voltar ao mesmo nível de &ldquo;felicidade&rdquo; (ou de tédio) em que estávamos antes deles. Isso se chama <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Hedonic_treadmill"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Adaptação Hedônica&rdquo;</a>. É a principal razão de a &ldquo;busca pela felicidade&rdquo; ser uma jornada tão cruel: quem não entende esse mecanismo vive frustrado o tempo inteiro.</li>
</ol>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Quando o suficiente não é o suficiente, nasce um <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Hedonism"target="_blank" rel="noopener">hedonista</a>.&rdquo; - Sukant Ratnakar</p>

</blockquote>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/620/hypocrisy.jpg" alt="Hypocrisy"  loading="lazy" /></p>
<blockquote>
  <p>Você já pensou em &ldquo;Eu finalmente serei feliz quando me casar.&rdquo; Ou &ldquo;se eu conseguir esse trabalho, vou me sentir totalmente satisfeito.&rdquo; Ou talvez você se relacione mais com o outro lado da moeda &ldquo;Eu nunca vou ser feliz agora que recebi esse diagnóstico médico.&rdquo; Ou &ldquo;Eu não posso ser feliz enquanto tiver que pagar essas dívidas.&rdquo; Pesquisas psicológicas revelaram duas descobertas importantes quando se fala nessas crenças: As coisas que achamos que nos tornarão felizes nunca nos tornam felizes pelo tempo que imaginamos. Ao mesmo tempo, eventos negativos na vida e desafios não têm um impacto duradouro na nossa felicidade como acreditamos que teriam também. - Sonja Lyubomirsky, Ph.D - <a href="https://www.amazon.com/gp/product/014312451X/ref=as_li_tl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=9325&amp;creativeASIN=014312451X&amp;linkCode=as2&amp;tag=happify05-20&amp;linkId=IYACCQJL6HM3CW3N"target="_blank" rel="noopener">The Myths of Happiness</a></p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Nós parecemos obcecados por motivação, nos incitando rumo a algo além da vida disponível a nós agora, e tratamos essa motivação como se fosse uma parte importante da história da sabedoria, o que ela não é.&rdquo; - Jennifer Hecht - <a href="https://www.amazon.com/Happiness-Myth-Historical-Antidote-Working/dp/0060859504"target="_blank" rel="noopener">The Happiness Myth: The Historical Antidote to What Isn&rsquo;t Working Today</a></p>

</blockquote>
<p>Por causa da Adaptação Hedônica, qualquer mudança parece fornecer uma &ldquo;motivação&rdquo; nova, a sensação de que &ldquo;finalmente engatamos no caminho certo&rdquo;. A menos que ela traga um propósito novo, é só mais do mesmo. Logo nos acostumamos ao &ldquo;novo normal&rdquo; e voltamos ao tédio.</p>
<p>Sem entender isso, você fica preso no ciclo interminável e insatisfatório da &ldquo;grama do vizinho é sempre mais verde&rdquo;. O efeito mais perverso desses mitos aparece quando a pessoa passa a culpar os outros pelos próprios problemas. &ldquo;Eu não consigo porque meu marido&hellip;&rdquo;, &ldquo;Eu não consigo porque minha família&hellip;&rdquo;, &ldquo;Eu não consigo porque meus colegas de trabalho&hellip;&rdquo;, &ldquo;Eu não consigo porque meu chefe&hellip;&rdquo;, &ldquo;Eu não consigo porque a sociedade&hellip;&rdquo;</p>
<p>Nesse momento você está perdido. Quer mudanças, mas quer que tudo ao seu redor mude, menos você mesmo. Essa é a melhor definição de covardia: viver de justificativas e desculpas superficiais para não se esforçar, para evitar a dor, para maximizar o prazer de curto prazo. É o comportamento de um viciado, e julgar tudo e todos é a droga.</p>
<p>Só você está destinado a coisas grandes, mas alguma coisa ou alguém te impede. Só você é especial. Só você merece tratamento diferenciado. Antigamente chamaríamos isso, educadamente, de &ldquo;imaturidade&rdquo; ou &ldquo;criancice&rdquo;. Hoje eu diria que a maioria se encaixa mesmo em <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Narcissistic_personality_disorder"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Transtorno de Personalidade Narcisista&rdquo;</a>.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Transtorno de personalidade narcisista é um transtorno mental em que as pessoas têm uma sensação inflada de sua própria importância, uma profunda necessidade de admiração e uma falta de empatia. Mas por trás dessa máscara de ultraconfiança está uma frágil auto-estima que é vulnerável à menor crítica &hellip; (isso) causa problemas em muitas áreas da vida, tais como relações, trabalho, escola ou assuntos financeiros. Você pode ser infeliz no geral e frustrado quando não lhe é concedido favores especiais ou admiração que você acredita que merece. Outros podem não gostar de estar perto de você, e você pode achar que seus relacionamentos não te satisfazem.&rdquo; - <a href="http://web.archive.org/web/20170208015158/http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/narcissistic-personality-disorder/basics/definition/CON-20025568"target="_blank" rel="noopener">Mayo Clinic</a></p>

</blockquote>
<p>No mundo moderno, eu reduziria isso à &ldquo;Cultura do Like&rdquo;. Triste.</p>
<h3>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Essa busca incessante pela &ldquo;felicidade ideal&rdquo;, esse &ldquo;fazer somente o que você ama&rdquo; e essa certeza de que &ldquo;o mundo vai acabar&rdquo; tornam as pessoas muito fracas. Baixa autoestima, baixa empatia, narcisismo altíssimo e uma sensação de &ldquo;depressão&rdquo; que chega a paralisar. No fim, a pessoa só atira para todos os lados, por falta de &ldquo;propósito&rdquo; e por frustração constante com tudo e com todos.</p>
<p>Felizmente, eu nunca tive esse problema. Conheci pessoas que têm, e este artigo é dedicado a elas, como um &ldquo;wake up call&rdquo;. Isso não quer dizer que eu não tenha tido momentos infelizes e crises pessoais. Já perdi muita coisa, financeira e pessoalmente. Negócios, amigos, relacionamentos. Não estou exagerando. Mas aceito meus prejuízos e pago por eles, como parte da vida: No Pain, No Gain.</p>
<p>Ambiente de trabalho &ldquo;fancy&rdquo; nunca foi preocupação. Já trabalhei embaixo de uma lona (!) quando pintaram o pequeno escritório onde eu era estagiário, no verão, sem ar-condicionado, porque iam dar uma festa e o trabalho não podia parar. Já trabalhei dentro de um armazém de logística, com teto de zinco, só com ventilador, caminhões entrando e saindo ao lado.</p>
<p>Dormi no chão do escritório dezenas de vezes. Carreguei móveis pelo meio da rua para mudar de sede. Varei muitas noites não pagas. Tomei esporro na cara por coisas que nem eram minha responsabilidade (eu era estagiário). Fiz um monte de coisas fora do meu trabalho de verdade, briguei com gerentes, com &ldquo;colegas&rdquo; e com fornecedor.</p>
<p>Nunca tratei nada disso como &ldquo;fim do mundo&rdquo;. Era só o inevitável. O famoso &ldquo;aceita, que dói menos&rdquo;.</p>
<p>Não é à toa que sou um <strong>Engenheiro</strong>. Engenheiro resolve problema, e a nossa obsessão é sempre encontrar um jeito mais eficiente de fazer a mesma coisa. Nenhum engenheiro resolveu nada só com mimimi.</p>
<p>Também não existe &ldquo;trabalho que me desvaloriza&rdquo;. Se eu precisar recortar um Photoshop, não vou tratar isso como trabalho braçal inútil. Não existe trabalho inútil. Existe má vontade. Toda tarefa corriqueira e subestimada, feita com a cabeça, pode levar a <a href="http://www.popularmechanics.com/science/health/g1216/10-awesome-accidental-discoveries/"target="_blank" rel="noopener">grandes descobertas acidentais</a>.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;O inventor da Coca-Cola não era um homem de negócios astuto, um vendedor de doces, nem um sonhador buscando enriquecer no ramo de bebidas. John Pemberton só queria curar dores de cabeça. Farmacêutico de profissão, Pemberton usou dois ingredientes principais em sua esperada cura para dor de cabeça: folhas de coca e nozes de cola. Quando seu assistente de laboratório acidentalmente misturou os dois com água carbonada, o resultado foi a primeira Coca-Cola do mundo.&rdquo; - <a href="http://www.popularmechanics.com/science/health/g1216/10-awesome-accidental-discoveries/"target="_blank" rel="noopener">10 Awesome Accidental Discoveries</a></p>

</blockquote>
<p>Muitos desses narcisistas, na aura de autoimportância, acham que precisam do ambiente perfeito, que alguém lhes <strong>dê</strong> as condições para realizar coisas grandiosas (a ênfase no &ldquo;dê&rdquo; é porque eles se recusam a conquistar sozinhos o que precisam). Isso é uma grande besteira. Ainda estou para ver alguém que pensa assim realizar qualquer coisa relevante para alguém.</p>
<p>Na minha experiência, todas as grandes descobertas nasceram em condições humildes, com pessoas que tinham interesse real no que faziam. Apenas isso. Profissionais, &ldquo;craftsmen&rdquo;, interessados em aperfeiçoar o próprio conhecimento e que, por consequência, chegaram a coisas grandes que beneficiaram mais gente. Você não planeja algo revolucionário. Ele acontece por acidente, dadas as condições ideais de temperatura e pressão daquele momento.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;A questão não é quem vai me permitir: é quem acha que pode me impedir.&rdquo; - by Akita.</p>

</blockquote>
<p>Eu <strong>não</strong> sou programador com o intuito de um dia superar Bill Gates ou Linus Torvalds. Dá para fazer coisa boa sem ser cegamente arrogante. 30 anos depois, ainda me divirto com coisas triviais: um código novo que compila, uma configuração que otimiza minha GPU, montar um Raspberry Pi, testar uma linguagem nova, ajustar meu editor de textos, pesquisar, aprender, evoluir, e assim vai. &ldquo;Fazer o que ama&rdquo; é fazer bem essas coisas pequenas. E &ldquo;ser feliz&rdquo; é um processo de tentativa e erro, sempre em movimento, que se conquista aos poucos em vez de num destino final.</p>
<p>Quem aproveita o <strong>presente</strong>, o que existe ao redor e ao alcance neste momento, em vez de perder tempo com o &ldquo;e se no futuro&hellip;&rdquo;, é quem tem mais chance de fazer o que os outros não conseguem, cegos pela jornada da felicidade impossível. <a href="http://www.akitaonrails.com/2013/04/01/off-topic-restricoes-sao-libertadoras-menos-e-mais"target="_blank" rel="noopener">Restrições levam à Inovação</a>, como venho repetindo faz anos.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;carpe diem, quam minimum credula postero&rdquo; - <a href="http://www.phrases.org.uk/meanings/carpe-diem.html"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Faça o melhor possível com o tempo (limitado) que você tem&rdquo;</a>.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Quem vive de passado é museu. E quem sofre com o futuro longínquo é um doente mental.&rdquo; - Desconhecido.</p>

</blockquote>
<p>Coincidentemente, enquanto estava pesquisando para escrever este post, saiu o podcast do <a href="http://hipsters.tech/carreira-em-tecnologia-hipsters-31"target="_blank" rel="noopener">Hipsters Ponto Tech</a> onde fiz uma pequena participação justamente para falar sobre o assunto de Carreiras em tecnologia.</p>
<p>E releiam meus antigos posts mencionados acima, relacionado a estes assuntos:</p>
<ul>
<li><a href="http://www.akitaonrails.com/2013/01/02/off-topic-o-mundo-hoje-e-muito-bom-feliz-2013"target="_blank" rel="noopener">O Mundo Hoje é Muito Bom! Feliz 2013!</a></li>
<li><a href="http://www.akitaonrails.com/2013/10/31/traducao-carta-para-um-jovem-programador-considerando-uma-startup"target="_blank" rel="noopener">Carta para um Jovem Programador Considerando uma Startup</a></li>
<li><a href="http://www.akitaonrails.com/2013/04/01/off-topic-restricoes-sao-libertadoras-menos-e-mais"target="_blank" rel="noopener">Restrições são libertadoras: menos é mais</a></li>
<li><a href="http://www.akitaonrails.com/2014/09/13/off-topic-nao-faca-o-que-voce-acha-que-ama"target="_blank" rel="noopener">NÃO Faça o que Você (&ldquo;ACHA&rdquo;) que Ama</a></li>
</ul>
<p>TL;DR: Aprenda a aprender, e aproveite melhor sua vida.</p>
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]]></content:encoded><category>psicologia</category><category>pessoal</category><category>filosofia</category><category>off-topic</category></item><item><title>Off-Topic: Por que Estamos Todos Migrando para Longe da Apple?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2017/01/12/off-topic-por-que-estamos-todos-migrando-para-longe-da-apple/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2017/01/12/off-topic-por-que-estamos-todos-migrando-para-longe-da-apple/</guid><pubDate>Thu, 12 Jan 2017 11:37:00 -0200</pubDate><description>&lt;p&gt;&amp;ldquo;Todo mundo que é alguém acompanhou a Apple nas últimas décadas. Ame ou odeie, a única coisa que você não pode fazer é ignorá-la.&amp;rdquo; - esse sempre foi o consenso geral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os profissionais &amp;ldquo;criativos&amp;rdquo; (como se &amp;ldquo;criativo&amp;rdquo; fosse restrito a pintores e ilustradores) sempre foram os seguidores mais fiéis da Apple, e com razão. A plataforma foi o berço de ferramentas essenciais como Photoshop, QuarkXPress, PostScript, PDF e QuickTime. A Apple estabeleceu os padrões da criação de mídia, e qualquer um que era alguém usava essas ferramentas.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>&ldquo;Todo mundo que é alguém acompanhou a Apple nas últimas décadas. Ame ou odeie, a única coisa que você não pode fazer é ignorá-la.&rdquo; - esse sempre foi o consenso geral.</p>
<p>Os profissionais &ldquo;criativos&rdquo; (como se &ldquo;criativo&rdquo; fosse restrito a pintores e ilustradores) sempre foram os seguidores mais fiéis da Apple, e com razão. A plataforma foi o berço de ferramentas essenciais como Photoshop, QuarkXPress, PostScript, PDF e QuickTime. A Apple estabeleceu os padrões da criação de mídia, e qualquer um que era alguém usava essas ferramentas.</p>
<p>A Microsoft focava no mercado corporativo, não nos criativos. O Linux ainda engatinhava, e a maioria dos desenvolvedores nem sabia a diferença entre CMYK e RGB. Ficavam satisfeitos em ter um bitmap tosco na tela.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/587/918d80cb21131a7a62e6ccaf71229960.jpg" alt="Old Macintosh"  loading="lazy" /></p>
<p>Tenho uma teoria: achamos que dominávamos a tecnologia no final dos anos 90, que estávamos no topo do mundo. Essa euforia era fruto da Bolha da Internet, que estourou junto com o 11 de setembro. A depressão que se seguiu desperdiçou os próximos 3 a 4 anos enquanto todo mundo tentava descobrir o que fazer a seguir.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/588/1dot.jpg" alt="Dotcom burst"  loading="lazy" /></p>
<p>A Apple teve a sorte de escapar da explosão. Ela já estava no fundo do poço desde 1997. A reorganização do portfólio de hardware e o lançamento do iPod criaram uma bolhinha própria. Steve Jobs havia voltado e trouxe bons desenvolvedores que fizeram do OS X um prazer de usar, não só para criativos, mas também para desenvolvedores.</p>
<p>O processo antitruste contra a Microsoft em 2000, o estouro da Bolha da Internet em 2001, o lançamento do iPod em 2001, a transição do System 9 para o OS X/BSD em 1999, a troca do PowerPC para Intel em 2005, o lançamento do desejadíssimo Titanium PowerBook G4 em 2001. Tudo isso junto deu à Apple uma vantagem enorme. E enquanto todo mundo estava em baixa, a Apple parecia maior do que realmente era.</p>
<p><a href="http://www.economist.com/node/2535519"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/589/Microsoft.gif" alt="Microsoft Antitrust"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Aí vieram 2007 e 2008 com um novo impulso: o iPhone, a App Store e a necessidade de usar o Xcode, disponível apenas em computadores Apple. Diferente de ficar preso ao Windows por causa do Visual Studio, usar o Xcode era um motivo a mais para comprar um Mac.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/590/SteveJobsUnveilsiPhone.jpg" alt="iPhone announcement"  loading="lazy" /></p>
<p>As distros Linux ainda sofriam. Até então, estávamos presos ao <a href="https://www.youtube.com/watch?v=RIctzAQOe44"target="_blank" rel="noopener">maldito X11</a>. Se o núcleo de um sistema Linux era moderno, o X11 em cima era o pior dos mundos. A Apple foi esperta o suficiente para não adotá-lo e criou o Quartz do zero, melhorando-o a cada nova versão do OS X. Levou cinco anos para estabilizar direito. Só agora, em 2017, estamos finalmente saindo do X para o Wayland/Weston.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/591/steve-ballmer.jpg" alt="Steve Ballmer"  loading="lazy" /></p>
<p>A Microsoft também sofreu depois que Bill Gates passou as rédeas para Steve Ballmer. A trajetória do XP até o Windows 10 passou pelos desastres do Vista, do Windows 8 e do Windows Mobile, além das inúmeras tentativas de ressuscitar o Internet Explorer, o maior Walking Dead da história da tecnologia. A era Ballmer foi um desastre.</p>
<p>Aí veio o iPad. E Steve Jobs morreu.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/592/hi-steve-jobs-memorial-0139.jpg" alt="Jobs Dies"  loading="lazy" /></p>
<h3>A Apple está presa em 2010.<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-apple-está-presa-em-2010"></span>
    <a href="#a-apple-est%c3%a1-presa-em-2010" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>E nós também.</p>
<p>As grandes distros Linux, a Microsoft, os fabricantes de hardware para PC, as viradas de grandes empresas (Nokia, Blackberry, Motorola), o começo da era das GPUs, o fim das guerras de clock da Lei de Moore em direção à computação paralela, a ascensão do ARM. Levou dez anos para a poeira baixar, e foi preciso a Apple ficar parada por seis anos para que todos os outros conseguissem alcançá-la.</p>
<p>Ballmer passou o bastão para Satya Nadella. A Microsoft adquiriu a Xamarin, deu passos enormes em direção ao open source e até o <a href="http://www.akitaonrails.com/2016/07/26/o-ano-do-linux-no-desktop-esta-usavel"target="_blank" rel="noopener">Ubuntu passou a rodar nativamente no Windows 10</a>.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/593/THE_END_TIMES_ARE_HERE-399de53540c79757ac9af535579cdad9.jpg" alt="Satya Nadella"  loading="lazy" /></p>
<p>E os asiáticos. Samsung, LG, Huawei, sul-coreanos e chineses forçaram os norte-americanos a se mexerem mais.</p>
<p>Um último legado da era Steve Jobs foi matar o Adobe Flash (finalmente!) e impulsionar as tecnologias HTML 5, comprimindo dez anos de evolução em cinco. Foi por causa do iPhone que a Web é o que é hoje.</p>
<p><a href="https://web.archive.org/web/20170114150212/http://www.apple.com/hotnews/thoughts-on-flash/"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/594/flash-dead.jpg" alt="HTML 5 kills Flash"  loading="lazy" /></a></p>
<p>O Google entrou em campo e assumiu o espaço deixado pelo Internet Explorer. O WebKit se tornou a referência obrigatória de navegadores. O JavaScript se transformou na nova plataforma de aplicações, impulsionado pelas redes sociais em constante evolução.</p>
<p>Para o bem ou para o mal, as redes sociais forçaram o surgimento de uma nova geração de aplicações web complexas e interativas. O Gmail e a Web 2.0 serviram de exemplo, e com o novo ambiente mobile, tudo convergiu para aplicações multiplataforma e ubíquas.</p>
<p>Hoje é mais fácil do que nunca trocar de sistema operacional no desktop, porque já treinamos o hábito de pular entre desktop e dispositivos móveis.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/599/alldevices.jpg" alt="All devices"  loading="lazy" /></p>
<p>Por que ficou fácil migrar entre macOS, Windows ou distros Linux? Ou entre macOS e iOS, ou entre Linux e Android? Porque a maior parte do software está &ldquo;na nuvem&rdquo;. O Linux domina o mundo da nuvem que a Amazon estreou em 2006 com S3 e EC2, seguida de perto pelo Google Cloud, Microsoft Azure e outros competidores menores.</p>
<p>Porque em qualquer plataforma existe pelo menos um bom Chrome.</p>
<p>Porque os apps que usamos são majoritariamente web: Gmail, Spotify, Slack, Hangout, Twitter, Facebook, YouTube, Netflix, Amazon. E a outra metade está disponível nativamente no iOS ou Android: WhatsApp, Waze, Swarm, Snapchat, Instagram.</p>
<p>Dez anos atrás, com o lançamento do iPhone, a indústria de tecnologia finalmente começou a se organizar.</p>
<p>Foi um jogo de gato e rato até uns cinco anos atrás, quando as coisas começaram a se estabilizar.</p>
<p>Depois que Jobs morreu, ainda tínhamos a expectativa de que a Apple continuaria avançando, ainda que num ritmo mais lento sem o chicote do Jobs.</p>
<p>Não aconteceu. Foram decisão ruim atrás de decisão ruim, e a sensação é de que voltamos ao início dos anos 90, na era de Scully, Spindler ou Amelio.</p>
<p><a href="https://web.archive.org/web/20170116083256/http://uk.businessinsider.com/wired-1997-save-apple-predictions-pray-2015-5"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/595/wired_cover.jpg" alt="Apple, Prey"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Mas agora existem alternativas sólidas disponíveis: o Windows 10 Anniversary Edition é finalmente um Windows competente, recuperando a glória dos meados dos anos 90. E as grandes distros Linux são coesas, exigindo pouco ou nenhum ajuste nerd em arquivos de configuração obscuros, empurradas pela Canonical, para o bem ou para o mal.</p>
<p>E a maioria dos apps que usamos no dia a dia está disponível. Dá até para encontrar um bom editor de texto multiplataforma baseado na web na forma do Atom.</p>
<p>A Apple também deixou o legado da compilação multiplataforma ubíqua na forma do <a href="https://www.infoq.com/br/presentations/novas-linguagens-o-que-vem-depois-do-ruby"target="_blank" rel="noopener">LLVM</a>. Serviu às próprias necessidades deles de ter Objective-C disponível em PowerPC, Intel, ARM e nos processadores Apple Ax. Mas o LLVM é agora a melhor espinha dorsal para permitir que linguagens como Rust, RubyMotion e Crystal existam e criem binários rápidos em múltiplas plataformas.</p>
<p><a href="https://www.tesla.com/blog/welcome-chris-lattner"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/596/11-1484116910-chris-lattner-01.jpg" alt="Chris Lattner leaves Apple to Tesla"  loading="lazy" /></a></p>
<p>&ldquo;O conselho da Apple precisa ir embora.&rdquo; &ldquo;Tim Cook precisa renunciar.&rdquo; Tenho certeza que muita gente grita isso por aí, mas não tem Steve Jobs esperando para voltar. A Apple é grande o suficiente para que a inércia sozinha a mantenha andando por mais alguns anos, mas ela corre o risco real de cair na irrelevância.</p>
<p>Outras indústrias como energia, saúde e genética evoluem do jeito delas, mas a tecnologia da computação está num perigoso marasmo.</p>
<p>As linguagens de programação pararam de evoluir em meados dos anos 90. Todas as linguagens &ldquo;novas&rdquo; são amálgamas de recursos que já existiam desde os anos 70 e 80. Os processadores estão presos em fazer transistores menores e mais eficientes em termos de energia. E já chegamos lá: <a href="https://www.kickstarter.com/projects/1598272670/chip-the-worlds-first-9-computer"target="_blank" rel="noopener">computadores de US$ 9</a> são suficientes para tarefas triviais como navegar na web. A ponto de estarmos colocando processadores em tudo: inclusive numa escova de dentes bluetooth que registra suas sessões de escovação.</p>
<p><a href="https://www.dezeen.com/2017/01/06/ara-first-toothbrush-artifical-intelligence-kolibree-ces/"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/597/smart-video-toothbrush-ces.jpg" alt="Bluetooth Toothbrush"  loading="lazy" /></a></p>
<p>Viu os produtos da CES 2017? Travesseiros e camas que monitoram seu sono e sincronizam com um app. Máquinas de lavar. Aspiradores de pó. Dispositivos fitness. Dispositivos de saúde. Assistentes pessoais como a Alexa. Tudo captura dados seus e sincroniza na nuvem.</p>
<p>A nuvem também chegou ao pico. É ubíqua, acessível e barata. A tecnologia em geral está absurdamente barata hoje em dia.</p>
<p>Wearables e VR são boas novidades, mas mesmo que se tornem ubíquos, continuam sendo apenas uma extensão dos casos de uso que a revolução do iPhone iniciou.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/600/3017180-inline-mg5205.jpg" alt="Baby monitor"  loading="lazy" /></p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/601/iswimband-drowning-prevention-510px.jpg" alt="iSwimband"  loading="lazy" /></p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/602/6e752109eac4d37830078517b2aefd583d52722a.jpg" alt="mobile"  loading="lazy" /></p>
<p>Mobile, wearables, redes sociais, só deixaram as pessoas mais ansiosas. Dar &ldquo;voz&rdquo; a todo mundo online não melhorou as coisas, só aumentou a ansiedade geral. Opiniões estão em oferta tão grande que valem cada vez menos.</p>
<p>Cada pessoa online é agora uma fonte de terabytes de informação inútil para gerar pseudo-estatísticas que não servem para quase nada. <a href="http://www.techrepublic.com/article/the-dark-side-of-wearables-how-theyre-secretly-jeopardizing-your-security-and-privacy/"target="_blank" rel="noopener">Cada pessoa é agora definida por um monte de dados na nuvem</a>.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/603/donald-trump-twitter-president.jpg" alt="Trump"  loading="lazy" /></p>
<p>Não faço ideia para onde vamos daqui. Como testemunha da história, tenho que dizer que sinto falta da empolgação de explorar novas fronteiras. Tivemos isso a partir dos meados dos anos 90. Demos uma pausa depois do estouro da Bolha da Internet, mas recuperamos com tudo em 2004. Perdemos depois de 2010.</p>
<p><img src="https://akitaonrails.s3.amazonaws.com/assets/image_asset/image/598/20150824-bill-gates-microsoft-windows-95-launch.0.jpg" alt="Windows 95 launch"  loading="lazy" /></p>
<p>2010 foi o ano mais longo que já vivi. Talvez estabilizar seja uma coisa boa. Quem sabe?</p>
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