<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"><channel><title>Politica | AkitaOnRails.com</title><link>https://akitaonrails.github.io/tags/politica/</link><description>Blog do Fabio Akita do Canal do YouTube 'Akitando' falando sobre tecnologia, carreira e coisas geek.</description><generator>Hugo -- gohugo.io</generator><language>pt-BR</language><lastBuildDate>Mon, 19 Oct 2026 23:20:48 +0000</lastBuildDate><atom:link href="https://akitaonrails.github.io/tags/politica/index.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>A IA desmascarou a histeria das mudanças climáticas</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/09/17/ia-desmascarou-histeria-mudancas-climaticas/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/09/17/ia-desmascarou-histeria-mudancas-climaticas/</guid><pubDate>Thu, 17 Sep 2026 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Ontem eu fechei o &lt;a href="https://akitaonrails.github.io/2026/09/16/por-que-coisas-como-typesafe-ia-nao-me-interessam/"&gt;artigo sobre o TypeSafe&lt;/a&gt; com este parágrafo:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&amp;ldquo;E se um dia eu conseguir gastar token o suficiente pra ferver um lago inteiro com o calor do datacenter, eu vou gastar com o maior prazer do mundo. É minha vingança pessoal contra quem me obrigou a usar canudo de papel que desmancha na boca por tantos anos.&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Confesso: foi provocação explícita, escrita já sabendo que eu ia explicar ela aqui hoje. Porque por trás da piada tem uma tese séria.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu fechei o <a href="/2026/09/16/por-que-coisas-como-typesafe-ia-nao-me-interessam/">artigo sobre o TypeSafe</a> com este parágrafo:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;E se um dia eu conseguir gastar token o suficiente pra ferver um lago inteiro com o calor do datacenter, eu vou gastar com o maior prazer do mundo. É minha vingança pessoal contra quem me obrigou a usar canudo de papel que desmancha na boca por tantos anos.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Confesso: foi provocação explícita, escrita já sabendo que eu ia explicar ela aqui hoje. Porque por trás da piada tem uma tese séria.</p>
<p>Semana passada eu desmontei aqui <a href="/2026/09/09/propagandas-enganosas-da-openai-anthropic-nvidia/">a propaganda do medo da IA, da OpenAI, Anthropic e NVIDIA</a>. Hoje eu quero usar a mesma lente para uma histeria muito mais antiga e muito mais lucrativa: a climática. E tem uma ironia no meio: quem desmascarou essa histeria foi a própria IA, sem querer.</p>
<p>A tese é simples. No momento em que a corrida por datacenters apertou de verdade, todos os compromissos &ldquo;verdes&rdquo; de governos e big techs evaporaram. A mesma Microsoft que prometia ser carbono negativa está religando Three Mile Island. A mesma Alemanha que desligou o parque nuclear tem hoje um chanceler admitindo que foi um erro estratégico. O que derrubou a pauta climática foi outra pauta, uma com mais dinheiro.</p>
<p>E antes que alguém me etiquete, a minha posição com todas as letras: sim, existe efeito humano no clima. Não, o mundo não está acabando, e a distância entre essas duas frases é onde a histeria mora. O que eu contesto é o pânico industrializado e a má alocação de trilhões que ele justifica.</p>
<h2>Toda década tem o seu apocalipse<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="toda-década-tem-o-seu-apocalipse"></span>
    <a href="#toda-d%c3%a9cada-tem-o-seu-apocalipse" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Eu cresci sob o apocalipse nuclear da Guerra Fria. A gente vivia sob a certeza de que o mundo podia acabar em cogumelos atômicos a qualquer momento. Quando a URSS caiu em 1989, esse medo esvaziou, e o buraco na camada de ozônio ocupou o vazio. Esse, aliás, está se recuperando décadas depois do Protocolo de Montreal de 1987, que baniu CFCs e afins aos poucos: prova de que problema real com solução barata dispensa histeria.</p>
<p>Depois veio o bug do milênio. Depois o &ldquo;aquecimento global&rdquo;. E quando &ldquo;aquecimento&rdquo; ficou difícil de sustentar em toda manchete, a pauta trocou de nome para &ldquo;mudança climática&rdquo;.</p>
<p>Repara no truque. Orwell chamou isso de Novilíngua em &ldquo;1984&rdquo;: capturar as palavras para capturar o pensamento. &ldquo;Aquecimento global&rdquo; era uma hipótese testável: ou esquentou, ou não. &ldquo;Mudança climática&rdquo; acomoda tudo. Calor, frio, seca, enchente, neve, falta de neve. Qualquer evento confirma a tese, e uma tese que tudo confirma explica nada.</p>
<p>Quando o vocabulário é capturado, a pergunta vira crime. Quem pede evidência vira &ldquo;negacionista&rdquo;. Cientista financiado por interesses obscuros vira &ldquo;especialista&rdquo;, e &ldquo;especialista&rdquo; é vendido como monopólio da verdade. A histeria do covid foi o pior fruto desse modo de pensar, mas covid fica para outro artigo. O caso climático já basta.</p>
<p>O custo humano dessa máquina está medido. Uma <a href="https://www.kff.org/other-health/the-kaiser-family-foundation-washington-post-climate-change-survey/"target="_blank" rel="noopener">pesquisa Washington Post/Kaiser Family Foundation de 2019</a> com adolescentes americanos achou 57% com medo e 52% com raiva por causa do clima. Uma <a href="https://lomborg.com/news/how-spend-162bn-fix-climate-along-everything-else"target="_blank" rel="noopener">enquete global da ONU que juntou cerca de 9,7 milhões de votos</a> perguntou prioridades: &ldquo;ação contra a mudança climática&rdquo; ficou em último entre 16 temas no total global, e mesmo nos países mais pobres ela ficou no fundo da lista. O povo quer hospital e emprego. Quem ranqueia apocalipse em primeiro é quem tem o conforto garantido.</p>
<h2>Siga o dinheiro: quem financia o medo<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="siga-o-dinheiro-quem-financia-o-medo"></span>
    <a href="#siga-o-dinheiro-quem-financia-o-medo" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Sobre a Greta Thunberg, um fato incomoda os dois lados: ela mesma não fica com dinheiro nenhum. O pai dela disse à <a href="https://www.politico.eu/article/greta-thunberg-teen-climate-icon-used-for-fundraising-without-her-knowledge/"target="_blank" rel="noopener">Politico</a> que ela nunca recebeu um centavo, e ela doou o prêmio Gulbenkian de 1 milhão de euros inteiro para projetos climáticos. O personagem é real e, pelo que consta, sem salário.</p>
<h3>A menina e a startup<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-menina-e-a-startup"></span>
    <a href="#a-menina-e-a-startup" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>A máquina em volta é outra história. A greve escolar começou em 20 de agosto de 2018, uma segunda-feira. A startup sueca We Don&rsquo;t Have Time, fundada pelo publicitário Ingmar Rentzhog, ainda construía a sua rede social climática. No dia da greve, Rentzhog postou a foto da menina no Facebook pessoal dele e a conta da empresa tuitou no mesmo dia, marcando o Climate Reality Project do Al Gore. Três dias depois do início da greve, na quinta-feira 23 de agosto, chegava às livrarias o livro da família, &ldquo;Scenes from the Heart&rdquo;.</p>
<p>O prospecto de captação da startup, de novembro de 2018, citava a Greta 11 vezes, sem o conhecimento da família; aquela rodada levantou ~13 milhões de coroas suecas, e a empresa dizia ter captado 23 milhões no total até o começo de 2019. Ela foi conselheira júnior da fundação da empresa de outubro de 2018 a janeiro de 2019 e saiu. O produto era a startup; a menina era o marketing.</p>
<h3>A indústria do protesto assalariado<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-indústria-do-protesto-assalariado"></span>
    <a href="#a-ind%c3%bastria-do-protesto-assalariado" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Depois veio a industrialização do protesto. O <a href="https://www.theguardian.com/environment/2022/apr/29/just-stop-oils-protests-funded-by-us-philanthropists"target="_blank" rel="noopener">Climate Emergency Fund</a>, fundado em 2019, financia Just Stop Oil, Extinction Rebellion, Scientist Rebellion e afins. Quem abriu o cofre com US$ 500 mil foi Aileen Getty, herdeira da fortuna do petróleo Getty, note bem. O diretor de Hollywood Adam McKay entrou com <a href="https://www.climateemergencyfund.org/press/cef/2022-9-20-press-release"target="_blank" rel="noopener">US$ 4 milhões e uma cadeira no conselho</a>.</p>
<p>Até abril de 2022 o fundo já tinha distribuído US$ 1,7 milhão para ativistas em 25 países; as declarações fiscais do ano inteiro apontam ~US$ 5 milhões em grants. Só a Just Stop Oil recebeu <a href="https://www.nytimes.com/2022/08/10/climate/climate-protesters-paid-activists.html"target="_blank" rel="noopener">quase US$ 1 milhão, ajudando a pagar o salário de uns 40 organizadores</a>. Aquela sopa na tela do Van Gogh é trabalho assalariado, financiado por herança de petróleo e dinheiro de cinema.</p>
<h3>Fundações bilionárias e governos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="fundações-bilionárias-e-governos"></span>
    <a href="#funda%c3%a7%c3%b5es-bilion%c3%a1rias-e-governos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Acima dos fundos de protesto estão as grandes fundações. A Bloomberg Philanthropies já soma US$ 1 bilhão só na campanha Beyond Carbon, e o New York Times chamou o Bloomberg de <a href="https://observer.com/2023/09/michael-bloomberg-donates-500m-eradicate-coal-plants/"target="_blank" rel="noopener">talvez o maior financiador individual do ativismo climático do mundo</a>. A Hewlett Foundation comprometeu <a href="https://hewlett.org/newsroom/william-flora-hewlett-foundation-announces-600-million-philanthropic-commitment-climate-change/"target="_blank" rel="noopener">US$ 600 milhões em cinco anos</a>, a Rockefeller anunciou em 2023 que <a href="https://www.prnewswire.com/news-releases/the-rockefeller-foundation-commits-over-usd-1-billion-to-advance-climate-solutions-301928820.html"target="_blank" rel="noopener">investiria mais de US$ 1 bilhão em clima ao longo de cinco anos</a>, e a ClimateWorks já distribuiu mais de US$ 2 bilhões. Isso é uma indústria, com orçamento de PIB de país pequeno.</p>
<p>E os governos financiam a pressão contra os adversários políticos deles. A UE paga €15,6 milhões por ano em subvenções operacionais para umas 30 ONGs verdes via programa LIFE, e em janeiro de 2025 o Parlamento Europeu fez um <a href="https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/CRE-10-2025-01-22-ITM-015_EN.html"target="_blank" rel="noopener">debate formal sobre ONGs financiadas pela Comissão fazendo lobby sobre a própria Comissão</a>, em que o comissário de orçamento admitiu ser &ldquo;inapropriado&rdquo; que partes da Comissão assinassem acordos obrigando ONGs a fazer lobby em cima de eurodeputados específicos. Na Alemanha, o Correctiv recebeu <a href="https://www.faz.net/aktuell/feuilleton/medien-und-film/bund-foerdert-projekte-von-correctiv-und-dpa-19826639.html"target="_blank" rel="noopener">€2,5 milhões de dinheiro público desde 2016</a>, o programa &ldquo;Demokratie leben!&rdquo; tinha orçamento de €182 milhões em 2024, e a CDU protocolou <a href="https://www.reuters.com/world/europe/german-conservatives-prompt-anger-with-questions-about-ngo-funding-2025-02-26/"target="_blank" rel="noopener">551 perguntas formais</a> sobre a neutralidade política de organizações financiadas pelo Estado.</p>
<p>E quem ganha com as políticas? O memorando interno da Enron de dezembro de 1997, escrito de Kyoto, já comemorava: <em>&ldquo;this agreement will be good for Enron stock!!&rdquo;</em>. O complexo climático-industrial nasceu junto com o tratado. A arrecadação global com precificação de carbono, impostos e mercados de emissão somados, bateu <a href="https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2024/05/21/global-carbon-pricing-revenues-top-a-record-100-billion"target="_blank" rel="noopener">recorde de US$ 104 bilhões em 2023</a>, e um estudo da Point Carbon de 2008 para o WWF estimou <a href="https://www.smh.com.au/world/eu-power-companies-set-for-windfall-profits-wwf-20080407-24aq.html"target="_blank" rel="noopener">entre €23 e €71 bilhões de lucro inesperado</a> para geradoras de cinco países da UE só na fase II do mercado de carbono europeu. E o maior beneficiário das metas verdes ocidentais tem nome e endereço: a China controla <a href="https://www.iea.org/reports/solar-pv-global-supply-chains/executive-summary"target="_blank" rel="noopener">mais de 80% de cada etapa da cadeia de manufatura de painéis solares</a> e produziu <a href="https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2026/executive-summary"target="_blank" rel="noopener">quase 75% dos carros elétricos do mundo em 2025</a>. O Ocidente subsidia a demanda; Pequim vende a oferta.</p>
<p>Se você não conhece o caso Enron, pare um minuto e assista:</p>


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<h3>Quem ganha<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="quem-ganha"></span>
    <a href="#quem-ganha" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Quem se beneficia do discurso do medo, então? Fundações bilionárias, consultorias, indústrias subsidiadas, governos comprando paz social com subvenção e o maior competidor industrial do Ocidente. A Greta saiu sem um tostão. A máquina ficou com o megafone.</p>
<h2>A corrida dos datacenters<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-corrida-dos-datacenters"></span>
    <a href="#a-corrida-dos-datacenters" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Parte dos números que eu vou mostrar vem da pesquisa que eu fiz para a minha palestra na <a href="https://github.com/akitaonrails/tropicalruby-2026"target="_blank" rel="noopener">Tropical Ruby 2026</a>, sobre energia e IA. Os dados do <a href="https://www.iea.org/reports/energy-and-ai/executive-summary"target="_blank" rel="noopener">IEA</a> contam a história:</p>
<ul>
<li>Datacenters consumiram <strong>415 TWh em 2024</strong>, cerca de 1,5% da eletricidade mundial.</li>
<li>Em 2025: <strong>~485 TWh</strong>, crescimento de 17% num ano; os datacenters focados em IA sozinhos cresceram 50%.</li>
<li>Projeção central para 2030: <strong>~945 TWh</strong>, o consumo do Japão inteiro, perto de 3% do planeta.</li>
</ul>
<p>Nos EUA, datacenters respondem por quase metade de todo o crescimento de demanda elétrica até 2030. E o dinheiro seguiu: o capex das big techs passou de <a href="https://iea.blob.core.windows.net/assets/3179f7f8-01f6-4dd6-bffa-c9f7b73f1dc9/KeyQuestionsonEnergyandAI.pdf"target="_blank" rel="noopener">US$ 400 bilhões em 2025 para ~US$ 715 bilhões guiados para 2026</a>, mais que o investimento anual de todo o setor de energia americano. O investimento acumulado em datacenters entre 2026 e 2030 deve bater <strong>US$ 3,9 trilhões</strong>.</p>
<p>E mesmo assim não dá conta. O gargalo deixou de ser chip e virou cobre e concreto:</p>
<ul>
<li>A PJM, maior operadora de rede dos EUA, <a href="https://www.nrdc.org/press-releases/first-time-history-pjm-auction-fails-procure-necessary-power-supply"target="_blank" rel="noopener">fechou pela primeira vez na história um leilão de capacidade abaixo do requisito de confiabilidade</a>, em dezembro de 2025: faltaram ~6,6 GW. O preço da capacidade saltou para US$ 333,44 por MW-dia, mais de 11 vezes o patamar do leilão de 2024/2025, batendo no teto permitido pela FERC.</li>
<li>Transformador de alta potência tem fila de dois a três anos, e os maiores modelos passam disso. A fila de interconexão americana tem mais de 2.000 GW esperando, cerca de 1,6 vez toda a capacidade instalada do país.</li>
<li>Dos ~16 GW de datacenters grandes que a Sightline Climate previa globalmente para 2026 (o recorte americano é ~12 GW), só ~5 GW estavam em construção no começo do ano, e a estimativa é que 30% a 50% desse pipeline anunciado atrase.</li>
</ul>
<blockquote>
  <p>A fila do mercado agora é por GPU, energia e datacenter.</p>

</blockquote>
<p>Lembra do carro elétrico, a grande salvação da agenda verde? A <a href="https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2026/outlook-for-electric-mobility-chap-9-11"target="_blank" rel="noopener">frota global inteira de EVs consumiu ~250 TWh em 2025</a>, cerca de 1% da eletricidade do mundo. Os datacenters consumiram quase o dobro, já no ano passado. E a projeção conta o resto: de 415 TWh em 2024 para ~945 TWh em 2030, são +530 TWh de carga nova na rede, quase três vezes a eletricidade da frota global inteira de EVs de 2024 (~180 TWh).</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_ev-vs-datacenter.png" alt="Gráfico de barras comparando os 250 TWh da frota global de EVs em 2025 com os datacenters: 415 TWh em 2024, 485 em 2025 e projeção de 945 em 2030"  loading="lazy" /></p>
<p>A década inteira de &ldquo;economia verde&rdquo; foi engolida em dois anos de corrida de IA. E o detalhe cômico: em março de 2026, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez anunciaram o <a href="https://www.sanders.senate.gov/press-releases/news-sanders-ocasio-cortez-announce-ai-data-center-moratorium-act/"target="_blank" rel="noopener">AI Data Center Moratorium Act</a>, uma tentativa de proibir datacenter novo nos EUA. A agenda verde passou décadas mandando você consumir menos energia. Diante da IA, a saída coerente que sobrou foi tentar proibir o consumidor novo.</p>
<h2>A volta da energia nuclear<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-volta-da-energia-nuclear"></span>
    <a href="#a-volta-da-energia-nuclear" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Se a pauta climática fosse séria, o maior aliado dela sempre foi a energia nuclear: a fonte mais limpa, mais densa e mais confiável que existe. A mesma pauta que pregava apocalipse tratou nuclear como tabu por cinquenta anos. Eis o que a fome de energia da IA fez em um ano:</p>
<h3>A corrida nuclear das big techs<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-corrida-nuclear-das-big-techs"></span>
    <a href="#a-corrida-nuclear-das-big-techs" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li>A Microsoft assinou um contrato de 20 anos para <a href="https://www.npr.org/2024/09/20/nx-s1-5120581/three-mile-island-nuclear-power-plant-microsoft-ai"target="_blank" rel="noopener">religar a unidade 1 de Three Mile Island</a>, 835 MW. Leia de novo: Three Mile Island, o símbolo máximo do medo nuclear americano desde 1979, ressuscitada como Crane Clean Energy Center para alimentar datacenter.</li>
<li>A Meta fechou <a href="https://www.powermag.com/meta-locks-in-up-to-6-6-gw-of-nuclear-power-through-deals-with-vistra-oklo-and-terrapower/"target="_blank" rel="noopener">até 6,6 GW em acordos nucleares</a> com Vistra, TerraPower e Oklo.</li>
<li>O Google encomendou <a href="https://www.datacenterdynamics.com/en/news/google-signs-nuclear-smr-deal-with-kairos-for-data-center-power/"target="_blank" rel="noopener">500 MW em reatores modulares da Kairos</a>.</li>
<li>A Amazon expandiu <a href="https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1622536/000162828025030559/a20250611pressreleasebusin.htm"target="_blank" rel="noopener">seu contrato com a usina de Susquehanna para 1,9 GW até 2042</a> e investiu na X-energy.</li>
</ul>
<p>O motivo técnico é simples. Nos EUA, nuclear opera com <a href="https://www.energy.gov/ne/articles/nuclear-power-most-reliable-energy-source-and-its-not-even-close"target="_blank" rel="noopener">fator de capacidade em torno de 91%</a>, e ficou acima de 92% na média da década até 2023; vento fica em ~34% e solar em ~23%. Datacenter quer baseload, 24 horas por dia. Sol e vento não entregam isso sem uma montanha de bateria que ninguém tem.</p>
<p>Se você não conhece o incidente de Three Mile Island, em 1979, assista:</p>


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<h3>O caso alemão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-caso-alemão"></span>
    <a href="#o-caso-alem%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>E a Alemanha? A Alemanha desligou suas três últimas usinas <a href="https://www.cleanenergywire.org/factsheets/qa-germanys-nuclear-exit-one-year-after"target="_blank" rel="noopener">em 15 de abril de 2023</a> e virou importadora líquida de eletricidade pela primeira vez desde 2002, inclusive importando nuclear francês. A Energiewende custou na casa das centenas de bilhões de euros, a eletricidade industrial alemã custa cerca do dobro da americana ou mais, e a rede alemã emite <a href="https://cdn.catf.us/wp-content/uploads/2026/03/26111928/EU-Governance-Regulation-CATF-recommendations.pdf"target="_blank" rel="noopener">em torno de 350 g de CO2 por kWh</a>, contra 22 g da França nuclearizada.</p>
<p>Pois bem. Em janeiro de 2026, o chanceler Friedrich Merz admitiu em público: <a href="https://brusselssignal.eu/2026/01/germanys-shut-down-of-nuclear-plants-a-huge-mistake-says-merz/"target="_blank" rel="noopener"><em>&ldquo;Foi um grave erro estratégico abandonar a energia nuclear&rdquo;</em></a>, <em>&ldquo;estamos fazendo a transição energética mais cara do mundo inteiro&rdquo;</em>. O chefe do próprio IEA, Fatih Birol, <a href="https://www.politico.eu/article/friedrich-merz-is-right-to-reject-germanys-nuclear-phase-out-says-iea-chief-fatih-birol/"target="_blank" rel="noopener">foi a público concordar com ele</a>. Desde maio de 2025 a Alemanha <a href="https://www.reuters.com/business/energy/berlin-paris-overcome-rift-over-nuclear-energy-french-official-says-2025-05-19/"target="_blank" rel="noopener">parou de sabotar a França nuclear na UE</a>, e em junho de 2026 <a href="https://brusselssignal.eu/2026/06/ex-nuclear-plant-bosses-urge-merz-government-to-reactivate-german-reactors/"target="_blank" rel="noopener">ex-diretores das usinas fechadas pediram oficialmente a reativação dos reatores</a>.</p>
<p>Deixa eu registrar a minha opinião aqui: fechar o parque nuclear foi um dos maiores erros da história moderna da Alemanha. Eles empobreceram a própria indústria, se viciaram em gás russo, voltaram a queimar carvão na crise de 2022 e hoje compram eletricidade nuclear do vizinho. Tudo isso em nome de uma pauta que eles mesmos estão abandonando.</p>
<h3>O medo contra os números<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-medo-contra-os-números"></span>
    <a href="#o-medo-contra-os-n%c3%bameros" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Sobre o medo em si, os números oficiais são outros. Mortes por TWh produzido, <a href="https://ourworldindata.org/safest-sources-of-energy"target="_blank" rel="noopener">somando acidentes e poluição</a>: carvão mata 24,6; petróleo, 18,4; gás, 2,8. Nuclear: <strong>0,03</strong>, menos que vento e quase igual a solar. Chernobyl matou <a href="https://www.unscear.org/unscear/en/chernobyl.html"target="_blank" rel="noopener">30 trabalhadores diretamente</a>, e a projeção do Chernobyl Forum e da OMS para cânceres eventuais fica em até 4 mil entre os 600 mil mais expostos, enquanto o Greenpeace vendia 93 mil. O mesmo relatório concluiu que o maior problema de saúde pública foi o dano psicológico: pessoas adoeceram de medo da radiação, não da radiação. Fukushima: <strong>zero mortes por radiação entre o público</strong> (o Japão reconheceu uma única morte ligada à radiação: um trabalhador com câncer de pulmão, em 2018); <a href="https://world-nuclear.org/information-library/safety-and-security/safety-of-plants/fukushima-daiichi-accident.aspx"target="_blank" rel="noopener">2.313 mortes ligadas à evacuação em pânico</a>. O medo matou mais que o acidente.</p>
<p>E o lixo? <a href="https://www.energy.gov/ne/articles/5-fast-facts-about-spent-nuclear-fuel"target="_blank" rel="noopener">Todo o combustível usado dos reatores comerciais dos EUA cabe num campo de futebol americano, empilhado a menos de 10 jardas, uns 9 metros</a>. A França reprocessa o dela em La Hague há décadas. A Finlândia construiu o primeiro depósito geológico profundo do mundo para combustível nuclear usado, Onkalo, já na reta final de licenciamento. Problema técnico resolvido há tempos; o que faltava era coragem política, e ela chegou na forma de uma conta de luz de datacenter.</p>
<h2>O homem que aponta isso há vinte anos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-homem-que-aponta-isso-há-vinte-anos"></span>
    <a href="#o-homem-que-aponta-isso-h%c3%a1-vinte-anos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Quem organiza essa argumentação com rigor há duas décadas é o dinamarquês Bjorn Lomborg. Cientista político de formação, professor de estatística por anos na Universidade de Aarhus, ex-professor visitante da Copenhagen Business School, fellow do Hoover Institution de Stanford, fundador do <a href="https://copenhagenconsensus.com/"target="_blank" rel="noopener">Copenhagen Consensus Center</a>, um think tank que trabalha com centenas de economistas, Nobel inclusos. Ele estourou em 2001 com &ldquo;The Skeptical Environmentalist&rdquo; e virou persona non grata do establishment verde, apesar de repetir desde sempre a mesma frase:</p>
<blockquote>
  <p><em>&ldquo;O aquecimento global é real, mas não é o fim do mundo. É um problema administrável.&rdquo;</em></p>

</blockquote>
<p>Anota: Lomborg aceita o consenso científico sobre a existência do aquecimento e sua causa humana. Ele defende imposto de carbono e investimento em P&amp;D verde. O que ele contesta é o pânico e a matemática das políticas. O livro dele de 2020, <a href="https://www.amazon.com/dp/B0827TL851"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;False Alarm&rdquo;</a>, é um catálogo de números que a manchete nunca te conta:</p>
<p><a href="https://www.amazon.com/dp/B0827TL851"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_capa-false-alarm-lomborg.jpg" alt="Capa do livro “False Alarm”, de Bjorn Lomborg"  loading="lazy" /></a></p>
<h3>Os números que a manchete não conta<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="os-números-que-a-manchete-não-conta"></span>
    <a href="#os-n%c3%bameros-que-a-manchete-n%c3%a3o-conta" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li>Mortes por desastres climáticos (seca, enchente, tempestade, incêndio, temperaturas extremas; compilação do Lomborg sobre a base EM-DAT): de <strong>~500 mil por ano nos anos 1920 para menos de 20 mil por ano hoje</strong>, queda de 96%. Como a população quadruplicou, o risco individual caiu 99%.</li>
<li>Na síntese do Lomborg sobre os modelos do Stanford Energy Modeling Forum, <a href="https://www.project-syndicate.org/commentary/paris-climate-accord-too-expensive-by-bjorn-lomborg-2017-12"target="_blank" rel="noopener">cumprir o Acordo de Paris custa entre US$ 1 e 2 trilhões por ano</a>, o pacto mais caro da história humana. E o efeito de cumprir todas as promessas de 2030, medido no modelo MAGICC, o mesmo usado pelo IPCC, é <a href="https://lomborg.com/paris-climate-promises-will-reduce-temperatures-just-005degc-2100-press-release"target="_blank" rel="noopener">reduzir o aquecimento de 2100 em 0,048°C</a>, no paper dele na Global Policy. Esticando todas as promessas até 2100: 0,17°C. Cada dólar gasto em Paris evita 11 centavos de dano.</li>
<li>O custo do aquecimento sem nenhuma ação, na função de dano do Nobel William Nordhaus: cerca de 3 a 4% do PIB global em 2100. O Lomborg aplica isso aos cenários de renda do IPCC e traduz: em vez de termos 4,5 vezes a renda de hoje, teremos 4,34 vezes. Um problema administrável.</li>
<li>A Nova Zelândia calculou que seu net-zero custa entre 5% e 17% do PIB de 2050, contra a meta anterior de cortar 50% das emissões. O Lomborg converte a fatia de emissões do país, pela conta dele, num adiamento de três semanas do aquecimento global.</li>
<li>Tuvalu, o país-símbolo do &ldquo;vai sumir no mar&rdquo;, <a href="https://doi.org/10.1038/s41467-018-02954-1"target="_blank" rel="noopener">cresceu 2,9% em área em quatro décadas</a> com o mar subindo ao dobro da média global. E a manchete de &ldquo;187 milhões de deslocados até 2100&rdquo; vem de um estudo para até 2 metros de elevação do mar sem adaptação; o mesmo estudo, com diques e adaptação realista, calcula entre 41 mil e 305 mil deslocados.</li>
<li>Um <a href="https://doi.org/10.1016/S0140-6736%2814%2962114-0"target="_blank" rel="noopener">estudo na Lancet que analisou 74 milhões de mortes em 13 países</a> atribuiu 7,3% delas ao frio e 0,4% ao calor: no clima atual, o frio mata umas 17 vezes mais.</li>
</ul>
<h3>A conta que ninguém deixa fazer<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-conta-que-ninguém-deixa-fazer"></span>
    <a href="#a-conta-que-ningu%c3%a9m-deixa-fazer" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Agora a comparação que importa. O <a href="https://copenhagenconsensus.com/halftime"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Best Things First&rdquo; do Copenhagen Consensus</a> calculou: <strong>US$ 35 bilhões por ano</strong> em doze soluções baratas (tratar tuberculose, redes contra malária, nutrição infantil, vacinas) salvariam <strong>~4 milhões de vidas por ano</strong>. Tratar tuberculose custa US$ 6,2 bilhões por ano e salva ~600 mil vidas por ano nesta década, retorno de ~US$ 46 por dólar. A malária sozinha <a href="https://www.who.int/teams/global-malaria-programme/reports/world-malaria-report-2025"target="_blank" rel="noopener">matou 610 mil pessoas em 2024</a>, 95% na África, a maioria crianças abaixo de 5 anos. Uma rede tratada entregue custa cerca de seis dólares; salvar uma vida com elas custa <a href="https://www.givewell.org/impact-estimates"target="_blank" rel="noopener">na faixa de US$ 5.500</a>.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_gastos-clima-vs-saude.png" alt="Gráfico comparando os 2,3 trilhões de dólares anuais da transição energética e o 1 a 2 trilhões do Acordo de Paris com os 35 bilhões do Copenhagen Consensus e os 6 bilhões para tratar tuberculose"  loading="lazy" /></p>
<p>A ajuda climática internacional sozinha, um quarto de toda a ajuda ao desenvolvimento, daria para financiar tuberculose, malária, contracepção e nutrição no mundo inteiro e ainda sobrar troco. É essa a escolha real na mesa. Ninguém deixa você fazer essa conta em voz alta sem ser chamado de monstro.</p>
<p>A palestra dele no TED de 2005, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Dtbn9zBfJSs"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Global priorities bigger than climate change&rdquo;</a>, é exatamente esse exercício de custo-benefício, feito em palco, vinte anos atrás. Vale os 16 minutos:</p>


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<p>E já que os comentários vão mirar o mensageiro, deixa eu adiantar a ficha corrida. Do Lomborg você vai ouvir que um comitê dinamarquês de &ldquo;desonestidade científica&rdquo; declarou o primeiro livro dele objetivamente desonesto em 2003. É verdade. E o Ministério da Ciência da Dinamarca <a href="https://www.theguardian.com/environment/2004/jun/23/climatechange.climatechangeenvironment"target="_blank" rel="noopener">derrubou a decisão no fim do mesmo ano</a>, por vícios no processo. Você também vai ouvir do dossiê hostil de onze páginas da Scientific American. Tudo registrado. E nada disso toca os números, que saem do IPCC, da OMS, da FAO e do EM-DAT.</p>
<h2>Trinta anos de cúpulas, e o placar é zero<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="trinta-anos-de-cúpulas-e-o-placar-é-zero"></span>
    <a href="#trinta-anos-de-c%c3%bapulas-e-o-placar-%c3%a9-zero" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Antes da China, vale olhar o histórico completo do processo que produziu essas políticas. Três décadas de tratados, cada um anunciado como histórico, cada um com o mesmo resultado:</p>
<h3>Os tratados<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="os-tratados"></span>
    <a href="#os-tratados" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li>
<p><strong>Rio, 1992.</strong> Nasce a UNFCCC, com o objetivo escrito de &ldquo;estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa&rdquo;. Resultado: o CO2 fóssil global saiu de <a href="https://www.carbonbrief.org/analysis-global-co2-emissions-will-reach-new-high-in-2024-despite-slower-growth"target="_blank" rel="noopener">22,5 gigatoneladas em 1992 para 37,4 em 2024</a>, +66%. Em Mauna Loa, o CO2 atmosférico foi de <a href="https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/"target="_blank" rel="noopener">356 ppm para 427 ppm</a>, sem nenhum amasso visível na curva de crescimento.</p>
</li>
<li>
<p><strong>Kyoto, 1997.</strong> Meta: os países industrializados cortariam 5,2% abaixo de 1990 até 2012. O Senado americano <a href="https://scholarship.law.columbia.edu/sabin_climate_change/87/"target="_blank" rel="noopener">rejeitou preventivamente a ideia por 95 a 0</a> antes mesmo do texto final. O Canadá <a href="https://www.theguardian.com/environment/2011/dec/13/canada-pulls-out-kyoto-protocol"target="_blank" rel="noopener">saiu do tratado em 2011</a> quando ficou claro que não bateria a meta. As emissões globais subiram 43% durante a vigência. Os países que &ldquo;cumpriram&rdquo; cumpriram de graça: o colapso industrial pós-soviético e a recessão de 2008 fizeram o trabalho. E o segundo período de Kyoto, o de Doha, cobriu <a href="https://www.i4ce.org/wp-content/uploads/14-05-Climate-Report-n%C2%B044-Analysis-of-the-KP1.pdf"target="_blank" rel="noopener">37 países e ~14% das emissões globais</a> e entrou em vigor em 31 de dezembro de 2020: o último dia do período que ele governava.</p>
</li>
<li>
<p>O mecanismo de créditos de Kyoto, o CDM, virou fábrica de fraude: indústrias na China e na Índia produziam HFC-23, um gás estufa 14.800 vezes mais potente que o CO2, <a href="https://news.mongabay.com/2011/11/carbon-credit-market-for-hfc-23-racked-by-fraud/"target="_blank" rel="noopener">só para destruí-lo e vender créditos</a>, um esquema de €2,6 bilhões. O Öko-Institut, auditando para a própria Comissão Europeia, achou que <a href="https://www.oeko.de/publikation/how-additional-is-the-clean-development-mechanism/"target="_blank" rel="noopener">85% dos projetos tinham baixa probabilidade de integridade</a>. Um estudo na Nature Communications de 2024 calculou que <a href="https://www.nature.com/articles/s41467-024-53645-z"target="_blank" rel="noopener">menos de 16% dos créditos de carbono analisados correspondem a reduções reais</a>.</p>
</li>
<li>
<p><strong>Copenhague, 2009.</strong> A meta era o sucessor vinculante de Kyoto. Desabou ao vivo: o texto final foi <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10354701/"target="_blank" rel="noopener">anotado, não adotado</a>, redigido na última noite por EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul. O que sobrou foi a promessa dos US$ 100 bilhões por ano para o mundo pobre, cumprida <a href="https://www.carbonbrief.org/analysis-seven-charts-showing-how-the-100bn-climate-finance-goal-was-met"target="_blank" rel="noopener">pela primeira vez em 2022, dois anos atrasada</a>.</p>
</li>
<li>
<p><strong>Paris, 2015.</strong> O sistema de metas é autoatribuído e as metas não são juridicamente vinculantes. Das 197 partes, <a href="https://www.lse.ac.uk/granthaminstitute/wp-content/uploads/2018/10/Aligning-national-and-international-climate-targets-1.pdf"target="_blank" rel="noopener">só 58 tinham metas de economia inteira em lei ou política doméstica, e só 17 com ambição igual ou maior que a prometida no papel</a> (Grantham Institute, via Lomborg). A Nature escreveu em 2017 que <a href="https://www.ovid.com/journals/natr/pdf/10.1038/548025a~prove-paris-was-more-than-paper-promises"target="_blank" rel="noopener">todos os grandes países industrializados estavam descumprindo</a>. Os EUA saíram, voltaram, saíram de novo (efeito em janeiro de 2026) e, em janeiro de 2026, <a href="https://www.justsecurity.org/128687/implications-us-withdrawal-unfccc/"target="_blank" rel="noopener">anunciaram a saída da própria UNFCCC</a>, a convenção de 1992, coisa que nenhum país tinha feito. Desde Paris, as emissões subiram de 35,4 Gt para 37,4 Gt, todo ano, com exceção da queda do covid.</p>
</li>
<li>
<p><strong>Belém, 2025 (COP30).</strong> A casa foi a nossa, e o resultado foi um retrato do estado do processo. Antes de abrir: delegações da África e do Pacífico <a href="https://www.climatechangenews.com/2025/07/02/africa-pacific-climate-summit-concerns-cop30-accommodation-brazil-belem/"target="_blank" rel="noopener">reclamando formalmente da crise de hospedagem</a>, com diárias de hotel estratosféricas e parte das delegações dormindo em navios de cruzeiro. Durante: <a href="https://www.politico.com/news/2025/11/20/cop30-summit-fire-evacuation-brazil-00662600"target="_blank" rel="noopener">um incêndio na zona azul evacuou os delegados</a> no meio da negociação final, com 13 pessoas atendidas por inalação de fumaça. Foi a <a href="https://earth.org/us-absence-at-cop30-exacerbates-financial-challenge-to-meet-climate-targets/"target="_blank" rel="noopener">primeira COP sem delegação americana em 30 anos</a>, e o Trump zombou do evento no Truth Social, da rodovia na floresta e tudo. Comparecimento: ~42 mil presenciais, metade do que Dubai teve. E o que saiu de útil? Um texto chamado &ldquo;Global Mutirão&rdquo; com o plano de eliminação de combustível fóssil <a href="https://www.carbonbrief.org/debriefed-21-november-2025-cop30-debriefed-mutirao-text-latest-roadmaps-explained-cop-finish-times-plotted"target="_blank" rel="noopener">arrancado depois da pressão da Arábia Saudita e aliados</a>, apesar de mais de 80 países apoiarem, e uma promessa de triplicar financiamento de adaptação que já nasceu enfraquecida, de 2030 para 2035. A conta para o contribuinte brasileiro: <a href="https://www.terra.com.br/noticias/brasil/trabalhadores-da-construcao-em-belem-anunciam-greve-a-dois-meses-do-inicio-da-cop30,6ca049668dfefcc01e3240283045b3a6f97j7t7q.html"target="_blank" rel="noopener">~R$ 4,7 bilhões só no pacote federal</a> (Orçamento da União, BNDES e Itaipu), fora o que estado e prefeitura gastaram por conta própria e nunca consolidaram em público. Mais um circo pago com o nosso dinheiro, sem nada para mostrar no final.</p>
</li>
</ul>
<h3>O circo das COPs<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-circo-das-cops"></span>
    <a href="#o-circo-das-cops" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>E tem o circo em si, que não é só nosso. A COP28 em Dubai teve <a href="https://www.carbonbrief.org/analysis-which-countries-have-sent-the-most-delegates-to-cop28"target="_blank" rel="noopener">83.884 participantes presenciais</a>, incluindo <a href="https://www.globalwitness.org/en/press-releases/record-number-fossil-fuel-lobbyists-granted-access-cop28-climate-talks/"target="_blank" rel="noopener">2.456 lobistas de combustível fóssil</a>, o que talvez explique os textos finais. Glasgow teve <a href="https://www.forbes.com/sites/oliverwilliams1/2021/11/05/118-private-jets-take-leaders-to-cop26-climate-summit-burning-over-1000-tons-of-co2/"target="_blank" rel="noopener">118 jatos particulares</a>; o COP27, umas <a href="https://theconversation.com/why-are-people-still-flying-to-climate-conferences-by-private-jet-218459"target="_blank" rel="noopener">315 viagens de jato executivo</a>. E a cereja da nossa edição: a Avenida Liberdade, 13 km de via atravessando a Área de Proteção Ambiental de Belém, <a href="https://www.bbc.com/news/articles/c9vy191rgn1o"target="_blank" rel="noopener">com 68 hectares de vegetação suprimidos</a> (o projeto era do estado e anterior à COP, mas o corte em área protegida é fato).</p>
<p>O placar de 32 anos de tratados: +68 ppm de CO2 na atmosfera, zero desaceleração. A curva de emissões não sabe que os tratados existem.</p>
<h2>O paciente zero da histeria: Al Gore<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-paciente-zero-da-histeria-al-gore"></span>
    <a href="#o-paciente-zero-da-histeria-al-gore" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Antes da máquina de tratados, a propaganda teve um pai fundador. Al Gore perdeu a eleição de 2000 e se reinventou com &ldquo;An Inconvenient Truth&rdquo; (2006): Oscar, Nobel da Paz de 2007 dividido com o IPCC, e o template de toda a histeria que veio depois. Praticamente toda previsão apocalíptica que você ouve até hoje estreou naquele filme.</p>
<p>Quem dissecou o filme claim por claim foi o Roy Spencer: meteorologista PhD, ex-cientista sênior de clima da NASA, cocriador com John Christy do <a href="https://www.nsstc.uah.edu/climate/"target="_blank" rel="noopener">dataset de temperatura por satélite da UAH</a>, a referência independente de temperatura global. A posição dele é a de um &ldquo;lukewarmer&rdquo;: CO2 esquenta um pouco, a teoria é sólida até aí; a catástrofe é o exagero. Em 2017 ele publicou &ldquo;An Inconvenient Deception&rdquo; (<a href="https://www.amazon.com/dp/B074XG6KX1"target="_blank" rel="noopener">Kindle na Amazon</a>), que eu li para este artigo. O catálogo de profecias furadas do Gore, com os dados do Spencer:</p>
<p><a href="https://www.amazon.com/dp/B074XG6KX1"target="_blank" rel="noopener"><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_capa-inconvenient-deception-spencer.jpg" alt="Capa do livro “An Inconvenient Deception”, de Roy Spencer"  loading="lazy" /></a></p>
<h3>O catálogo de profecias furadas<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-catálogo-de-profecias-furadas"></span>
    <a href="#o-cat%c3%a1logo-de-profecias-furadas" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><ul>
<li><strong>&ldquo;Dez anos para o ponto sem retorno&rdquo;</strong> (2006). Passaram dez, passaram quase vinte. A tendência medida pelo satélite do próprio Spencer: ~0,16°C por década, até junho de 2026.</li>
<li><strong>O gelo de verão do Ártico &ldquo;pode sumir já em 2014&rdquo;</strong>: a frase é do discurso dele em Copenhague, dezembro de 2009, citando um modelador que depois renegou o número. Não sumiu.</li>
<li><strong>As neves do Kilimanjaro até 2016</strong>: seguem lá.</li>
<li><strong>Furacões mais fortes e mais frequentes depois do Katrina</strong>: o que veio foi uma seca de quase 12 anos sem nenhum furacão grande tocando os EUA, do Wilma em outubro de 2005 ao Harvey em agosto de 2017, a maior desde 1850. Pesquisadores da NASA calcularam que um intervalo desses acontece uma vez a cada 270 anos. E a contagem global de ciclones não tem tendência de alta desde os anos 1970.</li>
<li><strong>&ldquo;Até 20 pés de elevação do nível do mar&rdquo;</strong>: o ritmo global medido hoje é ~3,4 mm por ano, cerca de 1,4 polegada por década. O maregrafo de Battery Park, em Manhattan, mede 1,16 polegada por década desde 1856, e parte disso é o terreno afundando. Nesse ritmo, 20 pés levam mais de um milênio.</li>
<li><strong>Os ursos polares se afogando</strong>: a cena animada do filme nasceu de um artigo curto na Polar Biology sobre quatro ursos encontrados mortos depois de uma tempestade em 2004. A população global estimada fica entre 22 e 31 mil, <a href="https://www.factcheck.org/2008/06/polar-bear-population/"target="_blank" rel="noopener">provavelmente maior que nos anos 1970</a>, quando nem estimativa confiável existia e a ameaça real era a caça sem regra, resolvida pelo tratado de 1973. Vinte anos depois, &ldquo;os ursos estão morrendo&rdquo; ainda circula como fato.</li>
<li><strong>A seca da Síria, &ldquo;a pior em 900 anos&rdquo;, que teria causado a guerra civil</strong>: os dados de chuva do oeste do país, Aleppo, Damasco, Homs, ficaram acima da média; a seca forte de 2007/08 se concentrou no nordeste. O que quebrou o campo foi o governo triplicar o preço do diesel em 2007-2008, que inviabilizou bombear água de poço.</li>
<li><strong>A enchente do memorial do 11 de Setembro pelo furacão Sandy, apresentada na sequência como &ldquo;eu avisei&rdquo;</strong>: no filme original ele falava de subida gradual do mar, nunca de maré de tempestade. Spencer chama de decepção explícita.</li>
<li><strong>O experimento de mesa com o Bill Nye</strong>, aquecendo CO2 em potes de vidro no vídeo &ldquo;Climate 101&rdquo; do Climate Reality Project (2011): a análise do Anthony Watts mostrou que o experimento não funciona e o resultado foi falsificado em pós-produção. Segundo o Spencer, o vídeo continuava no site do Gore anos depois.</li>
<li><strong>As lavouras</strong>: os 42 modelos climáticos usados pela ONU previam aquecimento de verão no Corn Belt americano; os dados da NOAA não mostram aquecimento significativo ali desde 1960.</li>
</ul>
<p>O elenco das profecias segue firme. Os ursos, também:</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_urso-polar-beaufort-usfws.jpg" alt="Urso polar gordo e tranquilo descansando na costa do mar de Beaufort, Alasca. Foto: USFWS, domínio público"  loading="lazy" /></p>
<h3>O personagem<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-personagem"></span>
    <a href="#o-personagem" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>E o personagem: Spencer documenta que Gore enriqueceu com investimentos &ldquo;verdes&rdquo; (ele é cofundador da Generation Investment Management), mantém mansões e uma pegada de carbono de tamanho industrial. E nem o establishment engoliu o filme inteiro: em 2007, a Justiça britânica achou nove erros em &ldquo;An Inconvenient Truth&rdquo; e chamou a parte do nível do mar de <em>&ldquo;distinctly alarmist&rdquo;</em>. A palavra do Spencer para a técnica do Gore é &ldquo;wordsmithing&rdquo;: escrever de um jeito que induz o público a concluir o que ele nunca afirmou em termos.</p>
<p>O público, aliás, já tinha desligado: nas primeiras semanas da sequência de 2017, a sessão que o Spencer assistiu num cinema de 750 lugares tinha três pessoas, e uma saiu no meio.</p>
<p>Se esse assunto te pegou, os dois livros de cabeceira são o do Spencer, acima, e o <a href="https://www.amazon.com/dp/B0827TL851"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;False Alarm&rdquo; do Lomborg</a>, que eu usei na seção anterior. Um disseca a propaganda; o outro disseca a conta.</p>
<p>A ficha corrida do Spencer também já vem pronta nos comentários: ele é um dos céticos favoritos dos republicanos no Congresso, o dataset UAH teve correções famosas nos anos 90 e 2000 (publicadas e incorporadas há décadas), e um paper dele de 2011 na Remote Sensing foi tão combatido que <a href="https://www.bbc.com/news/science-environment-14768574"target="_blank" rel="noopener">o editor do periódico renunciou</a>, dizendo que o artigo tinha passado por engano. Tudo real. E nada disso muda o maregrafo de Battery Park ou o calendário das profecias expiradas. Critique os números, se puder. O mensageiro é só o mensageiro.</p>
<h2>A aritmética da insignificância<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-aritmética-da-insignificância"></span>
    <a href="#a-aritm%c3%a9tica-da-insignific%c3%a2ncia" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Vamos ao seu carro elétrico e ao seu canudo de papel. A China respondeu por <a href="https://globalcarbonbudget.org/fossil-fuel-co2-emissions-increase-again-in-2024/"target="_blank" rel="noopener">32% do CO2 fóssil global em 2024</a>, mais que EUA, UE e Índia somados. A China <a href="https://www.carbonbrief.org/chinas-construction-of-new-coal-power-plants-reached-10-year-high-in-2024"target="_blank" rel="noopener">iniciou a construção de 94,5 GW de novas usinas a carvão só em 2024</a>, recorde em dez anos, e queima mais da metade de todo o carvão do planeta todo ano desde 2011.</p>
<p>Agora as suas ações individuais, com os números:</p>
<ul>
<li>A frota global de EVs inteira deslocou <a href="https://iea.blob.core.windows.net/assets/0aa4762f-c1cb-4495-987a-25945d6de5e8/GlobalEVOutlook2025.pdf"target="_blank" rel="noopener">~1,3 milhão de barris de petróleo por dia em 2024</a>, algo como 0,5% do CO2 fóssil mundial. Esse é o tamanho do impacto total da maior política verde da década.</li>
<li>O Lomborg calculou em 2020: subsídio médio de US$ 10 mil por EV para economizar ~8 toneladas de CO2, que valiam US$ 48 no RGGI, o mercado de carbono dos estados do Nordeste americano, na época. Você pagou 10 mil por 48 dólares de carbono.</li>
<li>A conta do Lomborg, com dados do IEA da época: um EV emitia ~26 toneladas de CO2 ao longo da vida contra ~34 de um carro a gasolina, um corte de 24%. E depende da rede: o estudo do Volvo XC40 calculou o <a href="https://upcommons.upc.edu/bitstreams/e406131b-b34f-4628-8a4a-1b77a545d1f8/download"target="_blank" rel="noopener">payback da bateria em 146 mil km rodados no mix elétrico médio global</a> (84 mil km no mix europeu, 47 mil km com energia eólica). Em rede movida a carvão, é pior.</li>
<li>Canudo de papel: mesmo que todos os canudos estimados nas costas fossem parar no mar num ano, dariam <a href="https://www.bbc.com/news/56660823"target="_blank" rel="noopener">~0,03% da entrada anual de plástico no oceano</a>.</li>
<li>Reciclagem doméstica: de todo o plástico que virou lixo na história até 2015, <a href="https://doi.org/10.1126/sciadv.1700782"target="_blank" rel="noopener">só 9% foi reciclado; 12% incinerado; 79% foi para aterro ou para a natureza</a> (Geyer et al., Science Advances 2017). E plástico não recicla em loop: cada ciclo degrada o polímero, vira produto de qualidade inferior, e adia o aterro em um passo. A pior parte: a NPR mostrou que <a href="https://www.npr.org/2020/09/11/897692090/how-big-oil-misled-the-public-into-believing-plastic-would-be-recycled"target="_blank" rel="noopener">a indústria do plástico sabia desde os anos 70 que a reciclagem não se pagava e vendeu o símbolo mesmo assim</a>, para você continuar comprando sem culpa. A exceção que prova a regra é o alumínio: reciclar gasta 5% da energia de produzir do zero, e o Brasil é campeão mundial disso, com <a href="https://abralatas.org.br/wp-content/uploads/2025/11/ESG-Report-2025.pdf"target="_blank" rel="noopener">97,3% das latas recicladas em 2024</a>. Reciclagem funciona quando a física e a economia fecham. Quando não fecham, é liturgia de cozinha.</li>
</ul>
<blockquote>
  <p>O seu canudo de papel não aparece nessa conta. Nem o seu EV. A conta é dominada por quem constrói usina a carvão de 94 GW por ano.</p>

</blockquote>
<p>Esses gestos são liturgia, e aqui mora o dano real deles. O canudo de papel dá aquela sensação de &ldquo;pelo menos eu estou ajudando&rdquo;, e essa sensação anestesia. A pessoa faz o microsacrifício, se sente parte da salvação do mundo, e fecha o olho para os problemas grandes de verdade, tipo as crianças morrendo de malária na África que eu mostrei duas seções atrás. Objetivamente, o gesto move nada. Subjetivamente, ele compra a consciência. É pior que inútil.</p>
<p>E o pensamento completo do Lomborg é ainda mais brutal: se o mundo rico zerasse todas as suas emissões e ficasse no zero pelo resto do século, o aumento de temperatura em 2100 cairia 0,7°F, menos de meio grau Celsius, na conta dele com o modelo MAGICC. O sacrifício total do Ocidente é um arredondamento.</p>
<h2>O mundo não cabe na sua cabeça<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-mundo-não-cabe-na-sua-cabeça"></span>
    <a href="#o-mundo-n%c3%a3o-cabe-na-sua-cabe%c3%a7a" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Parte da histeria existe porque a maioria das pessoas não tem noção de escala física do planeta. Vamos consertar isso rapidinho, em linguagem de ser humano.</p>
<p><strong>O Sol.</strong> A Terra intercepta continuamente <a href="https://news.mit.edu/2011/energy-scale-part3-1026"target="_blank" rel="noopener">~173.000 terawatts de energia solar</a>. A civilização inteira consome ~20 TW. A razão é de mais de 8.000 para 1, e a Terra captura só uma parte em 2,2 bilhões do que o Sol emite. Uma única ejeção de massa coronal grande carrega bilhões de toneladas de plasma com energia na casa de 10^25 joules, algo como cinquenta milhões de bombas Tsar. Em 1859, o <a href="https://www.astronomy.com/today-in-the-history-of-astronomy/sept-2-1859-the-carrington-event-peaks/"target="_blank" rel="noopener">Evento Carrington</a> botou fogo em telégrafo e desenhou aurora no céu de Cuba. Nenhum painel de controle humano participou.</p>
<p><strong>A Lua.</strong> As marés são a Lua deformando o oceano: um bojo de água do lado dela, outro do lado oposto. O efeito lunar sobre a maré é de ~54 cm; o do Sol, ~25 cm. Na <a href="https://www.wecanfigurethisout.org/ENERGY/Web_notes/Exotics/Exotics_Supporting_Files/Bay%20of%20Fundy%20-%20Ocean%20Networks%20Canada.pdf"target="_blank" rel="noopener">Baía de Fundy, a maré oscila 16 metros</a>, e a cada enchente entram ~160 bilhões de toneladas de água, mais que todos os rios do mundo somados no mesmo período. Enquanto isso, a Lua se afasta 3,8 cm por ano e o dia terrestre fica mais longo uns 2 milissegundos por século. Há uns 620 milhões de anos, o dia tinha quase 22 horas.</p>
<p><strong>El Niño.</strong> Normalmente os ventos alísios empurram a água quente do Pacífico para oeste. A cada 2 a 7 anos eles enfraquecem, a água quente desliza para leste, e a temperatura média global sobe 0,1 a 0,2°C por um ano ou dois, sozinha, sem carro, sem indústria. La Niña faz o oposto. Quando você vê uma manchete de &ldquo;ano mais quente da história&rdquo;, checa se tinha El Niño: quase sempre tinha.</p>
<p><strong>Nova York e Lisboa.</strong> Nova York fica a 40,7°N. Lisboa, a 38,7°N; Madri, a 40,4°N. Mesma latitude. Nova York enterra em neve todo inverno; Lisboa e Madri têm inverno ameno em comparação. A explicação: os ventos de oeste jogam ar moderado pelo Atlântico em cima da Europa, enquanto a costa leste americana recebe ar gelado continental do Ártico, com o Atlântico transportando <a href="https://www.livescience.com/planet-earth/weather/why-do-european-cities-have-milder-winters-than-those-in-north-america-despite-being-at-the-same-latitude"target="_blank" rel="noopener">~1,2 petawatt de calor para o norte</a> via a corrente meridional da qual a Corrente do Golfo faz parte. A Islândia, a 64°N, tem médias de inverno comparáveis às de Nova York. Latitude manda bem menos que corrente e vento.</p>
<p><strong>O Saara aduba a Amazônia.</strong> Todo ano, <a href="https://svs.gsfc.nasa.gov/4273/"target="_blank" rel="noopener">~182 milhões de toneladas de poeira saem da África</a> cruzando o Atlântico; ~28 milhões de toneladas caem na bacia amazônica, carregando ~22 mil toneladas de fósforo, quase exatamente o que a chuva lixivia do solo da floresta a cada ano. O maior deserto do mundo alimenta a maior floresta do mundo, e isso acontece há milhões de anos antes de você nascer.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_mapa-mundo-clima.png" alt="Mapa mundi anotado mostrando a poeira do Saara cruzando o Atlântico até a Amazônia, a linha da latitude de Nova York e Lisboa, a Corrente do Golfo, a região do El Niño no Pacífico e a Baía de Fundy"  loading="lazy" /></p>
<p>E se você ampliar a escala de tempo, fica ainda mais absurdo:</p>
<p><strong>O Saara já foi verde.</strong> Entre ~11 mil e ~5 mil anos atrás, o Saara era savana com lagos, hipopótamos e crocodilos, e a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Cave_of_Swimmers"target="_blank" rel="noopener">Caverna dos Nadadores</a>, no Egito, guarda arte rupestre de gente nadando no que hoje é deserto. O motor foi o ciclo orbital de precessão, e a <a href="https://phys.org/news/2013-04-abrupt-widespread-climate-shift-sahara.html"target="_blank" rel="noopener">virada para deserto levou de décadas a poucos séculos, dependendo da região</a>. E ela volta: o próximo máximo orbital de verão chega em uns 10 mil anos.</p>
<p><strong>A Terra já foi uma bola de neve.</strong> Duas vezes entre ~717 e ~635 milhões de anos atrás, as glaciações Sturtiana e Marinoana levaram gelo até os trópicos: há <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Snowball_Earth"target="_blank" rel="noopener">depósitos glaciais em latitudes tropicais</a> para provar. A Terra saiu disso sozinha: o gelo global desligou o processo que tira CO2 do ar, os vulcões empilharam CO2 por milhões de anos até centenas de vezes o nível atual, e o efeito estufa venceu o gelo.</p>
<p><strong>O Mediterrâneo já secou.</strong> Entre 5,97 e 5,33 milhões de anos atrás, o mar Mediterrâneo quase evaporou e deixou <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Messinian_salinity_crisis"target="_blank" rel="noopener">camadas de sal com mais de um quilômetro de espessura</a> no leito. Quando o Atlântico rompeu em Gibraltar, a inundação encheu o mar de volta com <a href="https://www.southampton.ac.uk/news/2025/01/new-evidence-suggests-megaflood-refilled-the-mediterranean-sea-five-million-years-ago.page"target="_blank" rel="noopener">90% do volume em meses a dois anos</a>, numa vazão estimada em mil vezes a do Amazonas.</p>
<p><strong>Tubarões no Kansas.</strong> No Cretáceo, com o nível do mar 100 a 200 metros acima de hoje, <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Western_Interior_Seaway"target="_blank" rel="noopener">um mar raso partiu a América do Norte em duas</a>, do Golfo do México ao Ártico. Mosassauros e tubarões nadavam onde hoje é o Kansas.</p>
<p><strong>As plantas quase passaram fome.</strong> No último máximo glacial, o CO2 caiu a ~180 ppm, perigosamente perto da faixa de ~150 ppm em que plantas C3 começam a falhar. <a href="https://research.fs.usda.gov/download/treesearch/22081.pdf"target="_blank" rel="noopener">Árvores da era glacial preservadas no piche de La Brea mostram fome fisiológica de carbono</a>. As plantas evoluíram num mundo com muito mais CO2, e hoje o planeta reverdece: o estudo de Zhu et al. 2016, <a href="https://www.nasa.gov/centers-and-facilities/ames/carbon-dioxide-fertilization-greening-earth-study-finds/"target="_blank" rel="noopener">divulgado pela NASA</a>, mediu reverdecimento em 25 a 50% das áreas vegetadas entre 1982 e 2009, com ~70% atribuído à fertilização por CO2.</p>
<blockquote>
  <p>O CO2 virou sinônimo de gás perigoso, que precisa ser combatido a qualquer custo. Para as plantas, ele é comida. Quando o CO2 aumenta, a vida verde tende a aumentar junto. Se CO2 fosse veneno, não existia planta.</p>

</blockquote>
<p><strong>Floresta tropical na Antártida.</strong> Em 2020, a Nature publicou a descoberta de <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32238944/"target="_blank" rel="noopener">raízes intactas de uma floresta temperada que cresceu a 82°S</a>, a uns 900 km do Polo Sul, há ~90 milhões de anos, com temperatura média anual de 12 a 13°C. Clima de Nova Zelândia, na Antártida.</p>
<h2>O clima sempre mudou<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-clima-sempre-mudou"></span>
    <a href="#o-clima-sempre-mudou" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>&ldquo;Mudança climática&rdquo; é um oximoro. Mudar é o que o clima faz, desde sempre, sem pedir licença.</p>
<p>Na <a href="https://eprints.whiterose.ac.uk/id/eprint/170702/7/Cosgrove%20et%20al%202021%20Bull%20GSA%20accepted%20non-formatted.pdf"target="_blank" rel="noopener">maior parte da história da Terra não existiu gelo permanente nos polos</a>. A condição normal do planeta é estufa, sem gelo polar. No Cambriano, o CO2 era 10 a 20 vezes o nível pré-industrial. No auge do Cretáceo, a média global era uns 10°C acima de hoje, ou mais. A Antártida só ganhou gelo permanente há 34 milhões de anos.</p>
<p>E as grandes mortes, que a histeria adora invocar, aconteceram cinco vezes antes de qualquer indústria:</p>
<ul>
<li><strong>~444 milhões de anos</strong> (Ordoviciana): ~85% das espécies, glaciação.</li>
<li><strong>~372 milhões</strong> (Devoniana): ~75%, anóxia oceânica.</li>
<li><strong>~252 milhões</strong> (Permiana, &ldquo;a Grande Morte&rdquo;): ~96% da vida marinha, vulcanismo.</li>
<li><strong>~201 milhões</strong> (Triássica): ~80%, vulcanismo.</li>
<li><strong>~66 milhões</strong> (K-Pg): ~76%, o asteroide dos dinossauros. Essa é só a mais famosa.</li>
</ul>
<p>Na escala mais recente: a era glacial atual começou há 2,58 milhões de anos, com ciclos de gelo a cada ~100 mil anos no último milhão deles. Há 20 mil anos, <a href="https://www.antarcticglaciers.org/glacial-geology/laurentide-ice-sheet/laurentide-ice-sheet-at-the-last-glacial-maximum/"target="_blank" rel="noopener">centenas de metros de gelo cobriam onde hoje é Manhattan</a>, e o nível do mar estava 120 metros abaixo. Há 11,5 mil anos, no fim do Younger Dryas, a <a href="https://www.ncei.noaa.gov/sites/default/files/2021-11/3%20The%20Younger%20Dryas%20-FINAL%20NOV%20%281%29.pdf"target="_blank" rel="noopener">Groenlândia aqueceu ~10°C em cerca de uma década</a>. Depois vieram o Período Quente Medieval, a Pequena Era do Gelo com o Tâmisa congelando até 1814, e o &ldquo;ano sem verão&rdquo; de 1816, cortesia da erupção do Tambora. Tudo isso sem uma única usina a carvão.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260917_timeline-clima-terra.png" alt="Linha do tempo da história climática da Terra mostrando as cinco grandes extinções, o PETM, o congelamento da Antártida, as eras glaciais, o Younger Dryas, o Período Quente Medieval e a Pequena Era do Gelo"  loading="lazy" /></p>
<p>Para ficar claro o que eu estou dizendo: nada disso prova que o aquecimento atual não existe, e a velocidade atual da subida de CO2 é sim mais rápida que os precedentes naturais. O Lomborg mesmo diz isso. O que essa escala destrói é a palavra &ldquo;fim do mundo&rdquo;. Um planeta que já esteve 10°C mais quente e com o mar 120 metros mais baixo não está nos seus estertores. A discussão séria é sobre custo-benefício de cada política, que é exatamente a discussão que a histeria proíbe.</p>
<h2>A histeria morreu de causa natural: dinheiro<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-histeria-morreu-de-causa-natural-dinheiro"></span>
    <a href="#a-histeria-morreu-de-causa-natural-dinheiro" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Medo não salva o planeta, não ajuda o ambiente e não melhora a vida de ninguém. Medo vende narrativa, financia consultoria, elegge político e enche fundação de dinheiro. O custo dessa era está aí: trilhões torrados em gestos que não movem o termômetro, enquanto <a href="https://data.unicef.org/topic/child-survival/under-five-mortality/"target="_blank" rel="noopener">4,9 milhões de crianças morreram em 2024 antes dos 5 anos</a> de doenças que o mundo desenvolvido esqueceu que existem.</p>
<p>E aí veio a IA e encerrou o assunto por acidente. Repara como ninguém mais fala de COP em manchete. A conversa agora é GW de datacenter, contrato nuclear de 20 anos, turbina a gás. Os mesmos CEOs que assinavam carta pelo clima disputam usina. Os mesmos governos que impunham canudo de papel aprovam subsídio para reator. A pauta climática saiu de cena sem ser refutada, despejada por uma pauta maior.</p>
<p>Se o fim do mundo estivesse mesmo na agenda deles, você não estaria vendo Three Mile Island sendo religada para treinar chatbot. Está vendo. Era teatro, e o teatro fechou quando apareceu um espetáculo mais lucrativo na sala ao lado.</p>
<blockquote>
  <p>Medo não salva o planeta. Medo vende. E quem comprou o medo agora compra megawatt.</p>

</blockquote>
]]></content:encoded><category>ciencia</category><category>politica</category><category>inteligencia-artificial</category></item><item><title>Códigos de Conduta são a Raiz de Todo Mal: Recuperando sua Liberdade</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/09/14/codigo-de-conduta-e-a-raiz-de-todo-o-mal/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/09/14/codigo-de-conduta-e-a-raiz-de-todo-o-mal/</guid><pubDate>Mon, 14 Sep 2026 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Todo projeto open source grande hoje vem com um &lt;code&gt;CODE_OF_CONDUCT.md&lt;/code&gt; no repositório. Vendeu-se a ideia de que isso existia para &amp;ldquo;proteger minorias&amp;rdquo; e &amp;ldquo;criar espaços seguros&amp;rdquo;. Na prática, o que eu vi acontecer na última década foi outra coisa: um instrumento para cancelar, perseguir e banir qualquer um que pensasse diferente de quem estava no controle. E quem puxava essas caçadas, via de regra, não era quem sustentava o código dos projetos.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Todo projeto open source grande hoje vem com um <code>CODE_OF_CONDUCT.md</code> no repositório. Vendeu-se a ideia de que isso existia para &ldquo;proteger minorias&rdquo; e &ldquo;criar espaços seguros&rdquo;. Na prática, o que eu vi acontecer na última década foi outra coisa: um instrumento para cancelar, perseguir e banir qualquer um que pensasse diferente de quem estava no controle. E quem puxava essas caçadas, via de regra, não era quem sustentava o código dos projetos.</p>
<p>Essa é a minha tese, e eu sei que ela é impopular. Levei dez anos de paciência pra poder escrever esse texto. Fiquei calado vendo esse teatro se repetir ano após ano, esperando o momento certo de documentar tudo o que testemunhei de perto, e hoje eu posso, com prazer, ver minhas próprias previsões se confirmando uma por uma.</p>
<p>E antes que algum espertinho tente essa: eu sei que boicote, doxxing e caça às bruxas existem sem CODE_OF_CONDUCT.md nenhum, sempre existiram. O título mira no que esse arquivo virou: o instrumento que pegou uma tática de turba de internet e carimbou ela como política oficial do projeto, com comitê, processo e verniz de legitimidade institucional. Um arquivo markdown de 500 linhas não assusta ninguém sozinho; o que ele virou, sim.</p>
<blockquote>
  <p>Dinheiro fácil foi o combustível. Código de conduta foi a arma que essa gente construiu pra oficializar o que antes era só grito de rua.</p>

</blockquote>
<p>Uma pergunta é de onde veio a energia; outra é o instrumento que ela adotou pra virar poder permanente dentro do projeto. Guarda essa distinção, porque ela sustenta o texto inteiro. Mas antes de chegar na filosofia, deixa eu contar a parte econômica, porque sem entender o dinheiro você não entende o resto.</p>
<h2>A bolha que financiou tudo isso<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-bolha-que-financiou-tudo-isso"></span>
    <a href="#a-bolha-que-financiou-tudo-isso" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>De mais ou menos 2012 até 2022, a indústria de tech viveu a maior bolha de contratação da história. Juros a zero, capital infinito, e as big techs crescendo como se não houvesse amanhã. Chegamos ao ponto surreal de empresas contratarem engenheiros sem ter trabalho para eles. Keith Rabois, da turma do PayPal, acusou Google e Meta publicamente de contratar milhares de pessoas para fazer <a href="https://fortune.com/2023/03/10/google-over-hired-talent-do-nothing-fake-work-stop-working-rivals-former-paypal-boss-keith-rabois/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;trabalho falso&rdquo;, por vaidade, e para que não fossem trabalhar nos concorrentes</a>. Uma ex-funcionária da Meta, demitida na primeira leva de 2022, resumiu melhor: <a href="https://www.businesstoday.in/technology/news/story/paid-employees-to-do-fake-work-laid-off-worker-accuses-meta-of-not-having-enough-work-for-staff-373423-2023-03-15"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;eles estavam estocando a gente como cartas de Pokémon&rdquo;</a>. A cultura do <a href="https://www.ibtimes.co.uk/how-get-paid-doing-nothing-inside-silicon-valleys-controversial-rest-vest-culture-1633884"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;rest and vest&rdquo;</a>, colecionar salário e stock options fazendo quase nada, já era documentada em 2017.</p>
<p>Foi essa bolha que financiou a onda de &ldquo;programação é a profissão do futuro&rdquo;. Bootcamps <a href="https://www.coursereport.com/reports/2020-coding-bootcamp-market-size-study"target="_blank" rel="noopener">saíram de 2.178 formados em 2013 para quase 25 mil em 2020</a> só nos EUA e Canadá, crescimento de mais de mil por cento. O <a href="https://www.theverge.com/2012/1/6/2688172/mayor-bloomberg-resolves-to-take-a-coding-class-in-2012"target="_blank" rel="noopener">Bloomberg resolveu aprender a programar como promessa de ano novo em 2012</a>. O <a href="https://www.wired.com/2014/12/obama-becomes-first-president-write-computer-program/"target="_blank" rel="noopener">Obama escreveu uma linha de código na TV em 2014</a>.</p>
<p>Eu contei essa história com mais detalhes num vídeo de fevereiro de 2020, quando a bolha ainda estava inflando (<a href="/2020/02/19/akitando-72-rant-programacao-nao-e-facil/">transcrição aqui</a>):</p>


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<p>Influencer de tech virou profissão. Todo mundo ia ser programador.</p>
<p>Aí a bolha estourou. <a href="https://techcrunch.com/2024/05/01/a-comprehensive-archive-of-2023-tech-layoffs/"target="_blank" rel="noopener">2022: quase 165 mil demitidos. 2023: mais de 262 mil</a>, segundo o Layoffs.fyi. Meta cortou <a href="https://about.fb.com/news/2022/11/mark-zuckerberg-layoff-message-to-employees/"target="_blank" rel="noopener">11 mil em novembro de 2022</a> com o Zuckerberg admitindo <em>&ldquo;I got this wrong&rdquo;</em>, e mais <a href="https://fortune.com/2023/03/14/meta-layoffs-10000-mark-zuckerberg-year-of-efficiency-hiring-freeze"target="_blank" rel="noopener">10 mil no &ldquo;ano da eficiência&rdquo;</a> de 2023. Amazon cortou <a href="https://cbsaustin.com/news/nation-world/amazon-cuts-9000-jobs-now-at-least-27000-layoffs-in-2023"target="_blank" rel="noopener">27 mil</a>. Google, <a href="https://blog.google/company-news/inside-google/message-ceo/january-update/"target="_blank" rel="noopener">12 mil</a>, com o Pichai admitindo que <em>&ldquo;contratamos para uma realidade econômica diferente da que enfrentamos hoje&rdquo;</em>. Stripe foi a mais honesta: <a href="https://ca.finance.yahoo.com/news/digital-payments-firm-stripe-lay-134215274.html"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;we overhired&rdquo;</a>.</p>
<p>Eu registrei esse estouro no calor do momento, num vídeo de novembro de 2022 (<a href="/2022/11/22/akitando-132-rant-a-bolha-de-startups-estourou/">transcrição aqui</a>):</p>


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<p>E como o timing é uma piada pronta, em 30 de novembro de 2022, bem no meio do banho de sangue, saiu o ChatGPT. <a href="https://www.reuters.com/technology/chatgpt-sets-record-fastest-growing-user-base-analyst-note-2023-02-01/"target="_blank" rel="noopener">Cem milhões de usuários em dois meses</a>, o aplicativo de crescimento mais rápido já visto até então, segundo estimativa do UBS. As manchetes viraram uma palestra da ACM chamada <a href="https://learning.acm.org/techtalks/endporgramming"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Large Language Models and the End of Programming&rdquo;</a>, <a href="https://www.techspot.com/news/102020-nvidia-boss-jensen-huang-children-shouldnt-learn-code.html"target="_blank" rel="noopener">Jensen Huang dizendo que criança nenhuma precisa mais aprender a programar</a>, o <a href="https://www.cognition.ai/blog/introducing-devin"target="_blank" rel="noopener">Devin se anunciando como o primeiro engenheiro de IA</a>, o <a href="https://daringfireball.net/linked/2025/08/20/claim-chowder-amodei"target="_blank" rel="noopener">Dario Amodei prometendo que IA escreveria 90% do código em três a seis meses</a>. Spoiler: não escreveu.</p>
<p>Por que essa história importa? Porque foi exatamente durante essa década de dinheiro fácil que o open source foi colonizado. Quando sobra dinheiro e falta trabalho real, sobra tempo e gente para fazer política dentro dos projetos. E foi o que aconteceu.</p>
<h2>A década da caça às bruxas<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-década-da-caça-às-bruxas"></span>
    <a href="#a-d%c3%a9cada-da-ca%c3%a7a-%c3%a0s-bruxas" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O artefato central dessa história é o <a href="https://ethicalsource.dev/blog/contributor-covenant-stewardship/"target="_blank" rel="noopener">Contributor Covenant</a>, criado em 2014 por Coraline Ada Ehmke e adotado por milhares de projetos, incluindo praticamente todo gigante do setor: CNCF, Apple, Google, Microsoft, Linux. A própria autora, no dia em que o Linux adotou o código dela, tuitou com todas as letras: <a href="https://itsfoss.com/linux-code-of-conduct/"target="_blank" rel="noopener"><em>&ldquo;Some people are saying that the Contributor Covenant is a political document, and they&rsquo;re right&rdquo;</em></a>. Quando o autor do documento admite que ele é político, a discussão sobre &ldquo;espaço seguro&rdquo; acabou antes de começar.</p>
<p>A lista de vítimas dessa era é longa, então vamos aos principais.</p>
<p>Antes, vale registrar o alcance dessa turma. A Coraline trabalhou no GitHub entre 2016 e 2017, até ser demitida (a versão dela está no texto <a href="https://where.coraline.codes/writing/my-year-at-github/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Antisocial Coding: My Year at GitHub&rdquo;</a>). E o GitHub era o alvo perfeito: era onde morava praticamente todo o open source do mundo. Foi nessa era que os fundadores originais saíram de cena. Tom Preston-Werner <a href="https://www.sj-r.com/story/news/2014/05/10/github-women-miss-founder-who/37382118007/"target="_blank" rel="noopener">renunciou em 2014</a> no escândalo de assédio da Julie Ann Horvath, mesmo com a investigação interna concluindo que não houve nada ilegal, só &ldquo;erros de julgamento&rdquo;. O Chris Wanstrath já tinha anunciado que sairia do cargo de CEO em 2017 e, depois da venda para a Microsoft em 2018, ainda ficou alguns anos como technical fellow até sair de vez. Hoje nenhum fundador original trabalha lá.</p>
<p>O legado dela sobreviveu à demissão. O Contributor Covenant virou um dos <a href="https://docs.github.com/en/communities/setting-up-your-project-for-healthy-contributions/adding-a-code-of-conduct-to-your-project"target="_blank" rel="noopener">templates que o GitHub facilita adotar</a> quando você cria o <code>CODE_OF_CONDUCT.md</code> de um repositório. E em 2020 veio a joia da coroa: no meio dos protestos do George Floyd, o GitHub anunciou que ia aposentar o nome <code>master</code>, e desde <a href="https://github.blog/changelog/2020-10-01-the-default-branch-for-newly-created-repositories-is-now-main/"target="_blank" rel="noopener">1º de outubro de 2020 todo repositório novo nasce <code>main</code></a>.</p>
<p>A discussão era estúpida desde o começo. O Git nunca teve branch <code>slave</code>. O Petr Baudis, que batizou o nome nos scripts originais, <a href="https://x.com/xpasky/status/1271477451756056577"target="_blank" rel="noopener">explicou no X que <code>master</code> ali era de &ldquo;master copy&rdquo;</a>, como a gravação master de um disco (o próprio Baudis disse depois que hoje prefere <code>main</code>; a etimologia continua a mesma). Nem esse detalhe segurou a mudança: até a <a href="https://sfconservancy.org/news/2020/jun/23/gitbranchname/"target="_blank" rel="noopener">Software Freedom Conservancy endossou publicamente</a> a troca, e quem tinha automação assumindo <code>master</code> teve que correr atrás. Ninguém ficou mais protegido por causa dessa mudança, mas ela está lá, no fluxo de trabalho de todo programador, todos os dias.</p>
<p><strong>Brendan Eich, 2014.</strong> O cara inventou JavaScript, cofundou a Mozilla, era CTO desde 2005. Virou CEO e durou <a href="https://abcnews.go.com/Business/mozilla-ceo-resigns-calif-gay-marriage-ban-campaign/story?id=23181711"target="_blank" rel="noopener">onze dias no cargo</a>. O crime: uma doação de mil dólares em 2008 para a Proposition 8 da Califórnia. Funcionários tuitaram pedindo a cabeça dele, o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Brendan_Eich"target="_blank" rel="noopener">OkCupid bloqueou usuários de Firefox com uma mensagem de protesto</a>, e ele caiu. Andrew Sullivan, gay e um dos primeiros defensores de peso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, escreveu na época <a href="https://dish.andrewsullivan.com/2014/04/03/the-hounding-of-brendan-eich/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;The Hounding of a Heretic&rdquo;</a>: quando carreiras dependem de teste de pureza ideológica, a caça às bruxas já venceu. E repara: aqui não tinha código de conduta nenhum envolvido, foi pressão pura de boicote. O método já existia antes do documento; o documento só oficializou.</p>
<p><strong>Larry Garfield, 2017.</strong> Doze anos de contribuição no Drupal. Quando vazaram que ele participava de uma subcultura BDSM, num site privado, fora do projeto, o comitê de conduta do Drupal investigou e concluiu: <a href="https://www.drupal.org/association/blog/a-statement-from-the-executive-director"target="_blank" rel="noopener">sem violação do código de conduta</a>. O Dries Buytaert passou por cima do próprio comitê e <a href="https://dri.es/living-our-values"target="_blank" rel="noopener">expulsou ele assim mesmo</a>, porque a &ldquo;associação com o sistema de crenças dele&rdquo; era incompatível com os objetivos do projeto. O TechCrunch resumiu do mesmo jeito: <a href="https://techcrunch.com/2017/03/26/sex-and-gor-and-open-source/"target="_blank" rel="noopener">punido por algo dito fora do projeto</a>. Oitenta e cinco desenvolvedores <a href="https://www.inc.com/sonya-mann/drupal-confessions-open-letter.html"target="_blank" rel="noopener">assinaram carta aberta</a> ameaçando sair. Não adiantou. E repara no detalhe que enterra a tese do &ldquo;espaço seguro&rdquo;: o processo do código de conduta funcionou e inocentou o cara. Quando a turba apertou, o papel não segurou nada; quem decidiu foi a pessoa no topo, como sempre foi.</p>
<p><strong>Node.js, 2017.</strong> O TSC de treze pessoas votou a expulsão do Rod Vagg por, entre outras coisas, ter twitado um artigo questionando os efeitos colaterais de código de conduta. Ler crítica a código de conduta quase virou violação de código de conduta: <a href="https://www.theregister.com/2017/08/24/nodejs_forks_ayo_code_of_conduct/"target="_blank" rel="noopener">a votação foi 6 a 4 contra a expulsão</a>, por pouco. A máquina perdeu essa rodada, mas o recado já tinha saído: quatro dos que queriam o cabeça do Vagg pediram para sair do comitê no mesmo dia, e o projeto ganhou um fork chamado Ayo.js horas depois. Perder a votação não impediu o estrago.</p>
<p><strong>Linus Torvalds, 2018.</strong> Em setembro, segundo os relatos da época, a New Yorker tinha mandado perguntas sobre o comportamento abusivo dele nos emails. No mesmo fim de semana, Linus <a href="https://www.newyorker.com/science/elements/after-years-of-abusive-e-mails-the-creator-of-linux-steps-aside"target="_blank" rel="noopener">pediu desculpas e anunciou que ia tirar um tempo para &ldquo;entender as emoções das pessoas&rdquo;</a> e o kernel <a href="https://itsfoss.com/linux-code-of-conduct/"target="_blank" rel="noopener">trocou o Code of Conflict pelo Contributor Covenant</a>. O Linus é grosseiro nos emails desde sempre, todo mundo sabe, e ele voltou um mês depois. Mas o recado foi dado: se nem o cara que criou o kernel estava a salvo, ninguém estava.</p>
<p><strong>Richard Stallman, 2019.</strong> O criador da GPL, fundador da FSF, a encarnação do software livre. Vazaram um thread de lista de email do MIT em que ele discutia semântica jurídica sobre o caso Minsky/Epstein. A Vice estampou que ele tinha <a href="https://news.tuxmachines.org/node/128122"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;defendido Epstein&rdquo; e chamado as vítimas de &ldquo;entirely willing&rdquo;</a>, uma leitura que o próprio thread de emails não sustenta: ele questionava a terminologia jurídica da acusação contra o Minsky. A campanha <a href="https://medium.com/@selamie/remove-richard-stallman-fec6ec210794"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Remove Richard Stallman&rdquo;</a> explodiu, e em dias ele <a href="https://www.npr.org/2019/09/17/761718975/free-software-pioneer-quits-mit-over-his-comments-on-epstein-sex-trafficking-cas"target="_blank" rel="noopener">renunciou do MIT e da presidência da FSF</a>. Quando ele voltou ao conselho da FSF em 2021, saiu <a href="https://rms-open-letter.github.io/"target="_blank" rel="noopener">uma carta aberta com mais de 3 mil assinaturas e dezenas de organizações</a> exigindo a cabeça dele e de todo o conselho. A Red Hat <a href="https://www.redhat.com/en/blog/red-hat-statement-about-richard-stallmans-return-fsf-board"target="_blank" rel="noopener">cortou o financiamento da FSF</a>. A <a href="https://rms-support-letter.github.io/"target="_blank" rel="noopener">carta de apoio juntou quase 7 mil assinaturas</a> e, detalhe delicioso, o Debian votou uma resolução sobre o caso e <a href="https://www.debian.org/vote/2021/vote_002"target="_blank" rel="noopener">a opção vencedora foi não se manifestar</a>. Até para fingir neutralidade precisou de votação.</p>
<p>E tem o caso mais recente e talvez o mais didático: <strong>Tim Peters, 2024</strong>. Lenda do Python, três décadas de contribuição, suspenso por três meses pelo comitê de conduta da PSF <a href="https://www.theregister.com/software/2024/08/09/core-python-developer-suspended-for-three-months/1429020"target="_blank" rel="noopener">por acusações vagas de criar &ldquo;atmosfera de FUD&rdquo;</a>, numa briga sobre os estatutos da fundação e sobre os métodos do próprio comitê. A comunidade reagiu feio, mas não teve volta: ele cumpriu os três meses e só voltou quando a suspensão expirou, em novembro. O padrão se manteve: discordar da moderação virou ofensa punível.</p>
<p><strong>DHH, 2021.</strong> Deixei esse para o final porque é o caso que muda a história. E note: aqui nem open source era, era a empresa dele. O mesmo mecanismo, agora dentro do escritório. Em abril de 2021, no auge da era BLM, um comitê interno de DEI dentro da Basecamp, a empresa do criador do Ruby on Rails com o Jason Fried, desenterrou uma lista antiga de &ldquo;nomes engraçados de clientes&rdquo; que circulava na empresa. A discussão escalou até um funcionário citar a &ldquo;pirâmide do ódio&rdquo; e argumentar que aquela lista era o fundamento de violência racial e até genocídio. A resposta dos fundadores foi fechar o assunto, dissolver o comitê e <a href="https://world.hey.com/dhh/basecamp-s-new-etiquette-regarding-societal-politics-at-work-b44bef69"target="_blank" rel="noopener">proibir discussão política e social nos canais internos</a>. A internet explodiu. Na reunião geral seguinte, foram <a href="https://www.theverge.com/2021/5/3/22418208/basecamp-all-hands-meeting-employee-resignations-buyouts-implosion"target="_blank" rel="noopener">duas horas e meia de gente chorando e gritando no Zoom</a>. O Ryan Singer, dezoito anos de casa, disse ali que não aceitava o rótulo de &ldquo;cultura de supremacia branca&rdquo; aplicado à empresa. Foi suspenso meia hora depois da reunião e se demitiu no fim de semana. Ao final, <a href="https://www.nytimes.com/2021/04/30/technology/basecamp-politics-ban-resignations.html"target="_blank" rel="noopener">um terço da empresa, vinte dos 57 funcionários, saiu com pacote de demissão voluntária</a>.</p>
<p>E é aqui que esse caso se separa de todos os outros: ele não dobrou. Sem ritual público de humilhação, sem pedido de desculpas, sem volta atrás. Preferiu perder um terço da empresa a entregar o controle dela. A Basecamp sobreviveu, virou 37signals de novo, e o DHH aprendeu ali, na carne, com que tipo de gente estava lidando. Guarda esse nome, porque ele volta.</p>
<p>Alguém vai apontar que a regra dele também é um documento escrito proibindo um assunto. É, e a diferença é exatamente o ponto: a regra do DHH bane um tópico inteiro, igual pra todo mundo, não importa o lado. Código de conduta bane pessoa e opinião, seletivamente, dependendo de quem está no poder naquele mês.</p>
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  <p>Uma trava o assunto na porta. A outra abre um tribunal lá dentro.</p>

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<p>Repara no padrão. Em nenhum desses casos o problema era código. Em nenhum deles alguém commitou bug, roubou código, sabotou release. As ofensas foram opiniões, doações políticas, vida privada, semântica em lista de email. O critério técnico foi substituído pelo critério político, e o código de conduta foi o instrumento jurídico dessa substituição. São casos famosos, não estatística. Mas quando a lista inclui os criadores do JavaScript, da GPL e do Linux, a amostra não precisa ser grande para passar o recado.</p>
<h2>E os resultados?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="e-os-resultados"></span>
    <a href="#e-os-resultados" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Dez anos de era do código de conduta deveriam ter deixado um rastro de números bons. Se a justificativa era proteger minorias e tornar o open source mais diverso e menos tóxico, cadê a melhora? Fui procurar a pesquisa séria sobre o assunto. O que existe conta uma história interessante.</p>
<p>Sobre adoção: <a href="https://www.win.tue.nl/~aserebre/SANER2017.pdf"target="_blank" rel="noopener">Tourani, Adams e Serebrenik mediram em 2017</a> que cerca de 35% dos 150 projetos mais populares do GitHub tinham código de conduta. E que enforcement era raro: os criadores desses códigos, numa amostra de quatro entrevistados, falavam em casos de um dígito ao longo de anos. Um <a href="https://par.nsf.gov/servlets/purl/10347026"target="_blank" rel="noopener">estudo de 2021 da CSCW</a> olhou 52 mil repositórios: 12,6% tinham CoC, e só 10% das conversas mencionando o código eram uso real dele em moderação. A maioria das adoções aconteceu sem discussão pública visível no repositório. O mesmo paper diz, com todas as letras, que não existe evidência empírica de que código de conduta atraia novos contribuidores.</p>
<p>Sobre atrair gente, aliás, <a href="https://cmustrudel.github.io/papers/cscw19signals.pdf"target="_blank" rel="noopener">Qiu et al. mediram o que realmente faz alguém entrar num projeto</a>: README bom, número de estrelas, atividade recente, template de issue. Código de conduta nem entrou como variável no modelo deles, e olha que eles testaram maintainer responder rápido, que também não deu significativo. Quem mediu especificamente onde o CoC fica no ranking de fatores foi um estudo separado, o <a href="https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-20883-7_9"target="_blank" rel="noopener">Fronchetti, Wiese, Pinto e Steinmacher, também de 2019</a>: CoC ficou entre os fatores pior colocados pra atrair contribuidor novo. Ninguém escolhe projeto pelo código de conduta.</p>
<p>Sobre diversidade, que era a promessa original, tem estudo específico e a resposta é não. O <a href="https://dl.acm.org/doi/10.1145/3236024.3275441"target="_blank" rel="noopener">Robson, no ESEC/FSE de 2018</a>, olhou os 500 projetos mais populares do GitHub: projetos que adotaram CoC viram a participação de mulheres crescer praticamente no mesmo ritmo dos que não adotaram (por volta de 1,44% de aumento contra 1,43%, segundo o levantamento posterior que cita o estudo). Sem diferença estatística que sustente a promessa. O <a href="https://research.tue.nl/files/198367174/Enache_B.pdf"target="_blank" rel="noopener">Enache, em dissertação de mestrado de 2017 pra TU Eindhoven, sobre 149 comunidades open source</a>, chegou na mesma conclusão: nenhum resultado significativo de que CoC mude a participação de mulheres.</p>
<p>E tem uma pesquisa nova, de peso, publicada agora em 2026 no ICSE, a conferência mais importante da área: o <a href="https://jys-sun.github.io/website/resources/Beyond_Adoption_ICSE2026_CR.pdf"target="_blank" rel="noopener">Sun et al. rodou um experimento causal de verdade</a>, comparando 4.684 pares de repositórios que adotaram CoC contra pares equivalentes que não adotaram. O resultado tem duas pontas. Adotar CoC atrai sim mais contribuidor novo, e esse efeito cresce com o tempo. Só que adotar CoC também aumenta o número de contribuidores antigos que se desengajam, efeito concentrado justamente nos primeiros um a três meses depois da adoção. Ou seja: o próprio estudo mais recente e mais rigoroso que existe mostra, com número, o padrão que esse texto documentou caso por caso o tempo todo. Adotar o documento não constrói comunidade nova, ele expulsa gente que já estava lá.</p>
<p>O levantamento do GitHub de 2017 já marcava <a href="https://opensourcesurvey.org/2017/"target="_blank" rel="noopener">95% homens e 3% mulheres no open source</a>. O melhor dado de longo prazo que existe, do <a href="https://arxiv.org/html/2202.07278v1"target="_blank" rel="noopener">Rossi e Zacchiroli no ICSE 2022</a>, analisou 2,2 bilhões de commits do arquivo do Software Heritage. Gênero detectável para 64% dos autores e, nesse grupo, mulheres são 13,5% dos autores e assinam 8,1% dos commits. A participação delas vinha crescendo devagar e de forma contínua havia doze anos, e caiu na pandemia. O paper não fala de código de conduta, então a leitura que segue é minha, não do estudo: uma curva que sobe do mesmo jeito a década inteira, sem nenhum degrau visível quando o Contributor Covenant se espalhou, é o oposto de evidência de que o documento fez diferença.</p>
<p>Sobre toxicidade, o <a href="https://courtney-e-miller.github.io/papers/DidYouMissMyCommentOrWhat.pdf"target="_blank" rel="noopener">estudo da ICSE 2022</a> acha, em nota de rodapé e por extrapolação, algo perto de 1,3 comentários tóxicos por mil no GitHub. Ninguém tem uma série histórica comparando antes e depois da era CoC. Simplesmente não existe baseline pra dizer se piorou ou melhorou.</p>
<p>O único experimento randomizado que sustentaria a tese das regras <a href="https://doi.org/10.1073/pnas.1813486116"target="_blank" rel="noopener">é do Matias, publicado na PNAS em 2019</a>: lembretes de regras exibidos ativamente numa amostra sorteada de threads no r/science aumentaram em 70% a participação de novatos. Só que o experimento é no Reddit, com a regra pregada bem na cara de quem entrava naquela thread específica. Um arquivo estático esquecido no repositório, que ninguém lê depois do dia da adoção, não chega nem perto disso. A própria pesquisa que mostra uma regra funcionando é a prova de que o problema nunca foi ter ou não ter o arquivo. É ninguém aplicar, ninguém mostrar, ninguém fazer valer.</p>
<p>Resumindo: uma década inteira de códigos de conduta, e a promessa original continua exatamente isso, uma promessa. O que ficou documentado foi adoção sem discussão, enforcement raro e, no máximo, um monte de processo político.</p>
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  <p>Como proteção, quase nunca é invocado. Como arma política, só precisa ser invocado uma vez, contra a pessoa certa.</p>

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<h2>A contra-reação veio de onde ninguém esperava<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-contra-reação-veio-de-onde-ninguém-esperava"></span>
    <a href="#a-contra-rea%c3%a7%c3%a3o-veio-de-onde-ningu%c3%a9m-esperava" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O dinheiro fácil acabou em 2022 e, com ele, a paciência da indústria para esse teatro. E a liderança da reação foi o cara que já tinha se recusado a dobrar em 2021: o DHH, ex-fanboy de Mac da velha guarda.</p>
<p>O DHH vem escrevendo contra essa onda faz tempo: <a href="https://world.hey.com/dhh/the-waning-days-of-dei-s-dominance-9a5b656c"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;The waning days of DEI&rsquo;s dominance&rdquo;</a> em 2022, <a href="https://world.hey.com/dhh/dei-is-done-minus-the-mop-up-b3bbbb64"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;DEI is done&rdquo;</a> em 2024. Em 2022 a Ruby Central <a href="https://world.hey.com/dhh/no-railsconf-faa7935e"target="_blank" rel="noopener">tirou ele do keynote da RailsConf</a>, a conferência do framework que ele mesmo criou, dizendo que queria <em>&ldquo;dividir o palco de abertura com outros contribuidores&rdquo;</em>. No ano seguinte nasceu a Rails World, a conferência oficial da Rails Foundation, e o DHH virou keynote dela. Em 2024 lançou o Omakub e, em junho de 2025, o <a href="https://world.hey.com/dhh/omarchy-is-out-4666dd31"target="_blank" rel="noopener">Omarchy</a>: Arch Linux com Hyprland e um monte de scripts opinativos em cima, que passava de 40 mil stars no GitHub em setembro de 2026 e virou o ambiente padrão da 37signals pra quem mexe com infra e Ruby.</p>
<p>Aí a máquina de cancelar ligou de novo. Em setembro de 2025 ele publicou <a href="https://world.hey.com/dhh/as-i-remember-london-e7d38e64"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;As I remember London&rdquo;</a>, e a reação foi o script de sempre: petição para tirá-lo, acusações, tentativa de boicote. A resposta dele foi <a href="https://world.hey.com/dhh/we-ve-all-had-enough-of-this-nonsense-8545dd26"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;We&rsquo;ve all had enough of this nonsense&rdquo;</a>: <em>&ldquo;a cada poucos anos, o mesmo grupelho triste de descontentes do Ruby tenta me cancelar do Rails&rdquo;</em>.</p>
<p>Um mês depois, em outubro de 2025, foi a vez da Framework, fabricante de laptops: <a href="https://www.theregister.com/software/2025/10/14/framework-flame-war-erupts-over-linux-controversy/1466815"target="_blank" rel="noopener">um thread com mais de 1.500 respostas no fórum da própria empresa</a>, aberto por um desenvolvedor Debian chamando a comunidade do Hyprland, que a Framework patrocinava, de &ldquo;tóxica e odiosa&rdquo;, e ameaçando boicote porque a empresa também promovia o Omarchy nas redes. A resposta do CEO da Framework é a frase que faltava nessa década inteira:</p>
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  <p><em>&ldquo;Criamos deliberadamente uma barraca grande, porque queremos que o open source vença. Não fazemos parceria com base nas crenças de indivíduos ou organizações.&rdquo;</em> (&ldquo;big tent&rdquo;, no original.)</p>

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<p>E a máquina não bateu só nele. A Ruby Central, a mesma que tinha desconvidado o DHH do keynote em 2022, deu palco para ele na RailsConf 2025. A retaliação veio em dinheiro: segundo a apuração do desenvolvedor Joel Drapper, a Sidekiq <a href="https://mjtsai.com/blog/2025/09/"target="_blank" rel="noopener">retirou o patrocínio de 250 mil dólares por ano</a> por causa disso. Semanas depois, em setembro de 2025, a Ruby Central <a href="https://lwn.net/Articles/1040778/"target="_blank" rel="noopener">removeu do GitHub todos os maintainers de longa data do RubyGems e do Bundler</a>, alegando segurança da cadeia de suprimentos. A Ellen Dash, que mantinha o projeto havia dez anos, pediu conta chamando o movimento de &ldquo;hostile takeover&rdquo;, e a investigação do Drapper aponta pressão da Shopify, que tinha virado praticamente a única fonte de dinheiro da organização. A própria Ruby Central acabou publicando um <a href="https://www.theregister.com/2026/04/01/ruby_central_report/"target="_blank" rel="noopener">relatório do incidente</a> em abril de 2026, prometendo &ldquo;fortalecer a governança&rdquo;. Esse é o padrão completo: quando a máquina não derruba o alvo, incendeia a casa em volta dele.</p>
<p>Um desenvolvedor do GNOME publicou <a href="https://blogs.gnome.org/alatiera/2025/11/06/dhh-and-omarchy-midlife-crisis/"target="_blank" rel="noopener">um texto atacando o Omarchy no blog oficial de blogs do GNOME</a>. E o resultado de toda essa fúria? Nada. Em agosto de 2026 nasceu a <a href="https://www.theregister.com/os-platforms/2026/08/27/omarchy-distro-gains-serious-backing/5293026"target="_blank" rel="noopener">Omacom Foundation</a>, com oito milhões de dólares no lançamento: um milhão de cada um de Tobi Lütke (Shopify), Patrick Collison (Stripe), Michael Dell, Jack Dorsey, Matthew Prince (Cloudflare), Brendan Iribe, Jason Fried e o próprio DHH. A fundação virou patrocinadora exclusiva do Hyprland, com o Vaxry trabalhando em tempo integral. Quando a 1Password entrou como patrocinadora, a <a href="https://www.alilleybrinker.com/blog/1password-funds-ethnic-cleansing/"target="_blank" rel="noopener">tentativa de cancelamento</a> foi imediata e a <a href="https://www.theverge.com/tech/988536/1password-dhh-linux-controversy"target="_blank" rel="noopener">resposta interna do CEO</a> também: <em>&ldquo;nossa doação não é endosso de opiniões pessoais&rdquo;</em>. E segue o jogo.</p>
<p>E eu botei o meu dinheiro onde está a minha boca: <a href="https://x.com/AkitaOnRails/status/2098792361291567488"target="_blank" rel="noopener">fiz a minha doação para a fundação</a> exatamente por causa do chororo da patrulha. Nada irrita mais essa turma do que ver o cancelamento falhar em tempo real.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260914175728_omacom-doacao.jpeg" alt="Recibo da minha doação de 2.048 dólares para a Omacom Foundation, assinado pelo DHH como Founder & President"  loading="lazy" /></p>
<p>Esse é o ponto: a máquina ainda existe, mas perdeu o poder. Em 2014 derrubou um CEO em onze dias. Em 2026 não consegue arranhar um patrocínio de distro de nicho. Os documentos continuam lá, no template do GitHub; o que acabou foi o poder de fogo de quem os empunhava. O que mudou foi o dinheiro, e sim, a contra-reação também é dinheiro: oito milhões de dólares de oito homens ricos.</p>
<p>E antes que alguém aponte que dinheiro não prova mérito: depende. Milionário criado por conchavo de governo, fraude ou favor não tem mérito nenhum. Mas a maioria dos milionários se fez produzindo, e é o caso dos oito patronos da Omacom. Dinheiro ganho produzindo é a medida do mérito de quem o fez, como eu já escrevi aqui em 2011, sobre <a href="/2011/02/03/off-topic-a-revolta-de-atlas-dinheiro-e-a-raiz-de-todo-o-mal/">o discurso do dinheiro do Francisco D&rsquo;Anconia em &ldquo;A Revolta de Atlas&rdquo;</a>.</p>
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  <p>Julgue pelo resultado que a doação comprou, não pela intenção declarada de quem assina o cheque.</p>

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<p>Os 49,5 bilhões de dólares corporativos de 2020 não produziram um grama a mais de diversidade mensurável, os números aí em cima provam isso. Oito milhões de dólares de patrono individual produziram um maintainer em tempo integral escrevendo código de verdade. A bolha que financiava exércitos de gente sem trabalho real estourou, e quem sobrou foi quem estava lá pelo código.</p>
<h2>A parte filosófica<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-parte-filosófica"></span>
    <a href="#a-parte-filos%c3%b3fica" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Vamos à desculpa oficial: códigos de conduta existem para &ldquo;proteger minorias&rdquo;. Na superfície, quem seria contra proteger minorias? Eu não sou. O problema é que a frase é vaga por design.</p>
<p>O que é uma minoria? Eu já traduzi aqui no blog o capítulo <a href="/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem/">&ldquo;Direitos do Homem&rdquo;</a> de &ldquo;The Virtue of Selfishness&rdquo;, da Ayn Rand. A frase que me interessa aqui está em outro capítulo do mesmo livro, &ldquo;Racism&rdquo;, e continua imbatível:</p>
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  <p>A menor minoria da Terra é o indivíduo. Quem nega direitos individuais não pode dizer que defende minorias.</p>

</blockquote>
<p>E é exatamente isso que esses códigos fazem na prática: em nome de uma minoria abstrata e coletiva, persegue-se o indivíduo concreto. Doxxing (expor os dados pessoais da pessoa), campanha de assédio, pressão no empregador, banimento. Quando o modus operandi para &ldquo;proteger minorias&rdquo; é bullying coordenado contra uma pessoa até ela dobrar os joelhos, você está oprimindo a menor minoria que existe.</p>
<p>Esse assunto, aliás, é velho para mim. Em dezembro de 2018 eu publiquei no meu canal o vídeo <a href="/2018/12/05/akitando-31-manifesto-anti-parasita-seja-um-criador/">&ldquo;Manifesto Anti-Parasita: Seja um Criador&rdquo;</a>. Na época eu não podia ser explícito, a polícia do pensamento ainda estava forte demais. Mas quem assistiu com atenção entendeu o recado. Era o meu breadcrumb para essa história que eu só estou podendo contar direito agora.</p>


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<p>E tem o segundo problema, mais fundamental: open source é sobre software. A GPL, que essa turma tanto despreza, resolve a proteção que um projeto de software não pode perder: a do código. Garante que o código continue livre, ponto. Ela não pergunta quem escreveu, em quem votou, o que tuitou, o que doou. O compilador não checa pureza ideológica. O open source sempre foi a comunidade mais inclusiva que já existiu justamente por isso: o único passaporte era o diff. O código de conduta tornou o open source menos inclusivo, porque adicionou um critério novo à entrada: política. E política é um critério estúpido para software.</p>
<p>&ldquo;Ah, mas sem código de conduta, como lidamos com assédio real?&rdquo; Com a mesma ferramenta de sempre: bom senso de maintainer e, quando necessário, a lei. Se alguém ataca outra pessoa diretamente, uma agressão sexual num evento, por exemplo, banir é senso comum e nunca precisou de documento nenhum. Assédio, ameaça e difamação já são crimes em praticamente todo país, e crime se resolve no caminho da lei. O que eu não engulo é outra coisa: sair stalkeando a vida online de alguém para desenterrar uma opinião aleatória, sem relação com crime nenhum, e exigir banimento por causa de palavras sem consequência criminal. Esses comitês sempre foram ótimos em punir opinião e péssimos em punir crime, então o documento nunca foi sobre isso.</p>
<p>E não sou eu sozinho dizendo isso. Eric S. Raymond, o cara que escreveu <a href="http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;The Cathedral and the Bazaar&rdquo;</a>, o texto de 1997 que validou pra Netscape a decisão de abrir o código do Mozilla e que praticamente escreveu as regras do jogo do open source, cofundador da OSI, editor do Jargon File, autor do fetchmail, foi ao X em setembro de 2025 <a href="https://itsfoss.com/news/codes-of-conduct-debate/"target="_blank" rel="noopener">declarar a era dos códigos de conduta um fracasso completo</a>. Nas palavras dele: dez anos de <em>&ldquo;drama e idiotice&rdquo;</em>, uma <em>&ldquo;insanidade social infecciosa&rdquo;</em> que produz política, intriga e trabalho útil negativo. A recomendação é a mais direta possível: não adote; se já adotou, delete. E se alguma burocracia te obrigar a ter um, a substituição sugerida tem uma frase só:</p>
<blockquote>
  <p><em>&ldquo;Se você é mais chato de trabalhar do que as suas contribuições justificam, você é ejetado.&rdquo;</em></p>

</blockquote>
<p>É o que eu disse dois parágrafos acima: bom senso de maintainer.</p>
<p>E o detalhe que fecha o círculo: o próprio ESR tinha sido <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Eric_S._Raymond"target="_blank" rel="noopener">removido de duas listas de email da OSI em 2020</a> por posts que &ldquo;violaram o código de conduta&rdquo; da organização que ele ajudou a fundar.</p>
<blockquote>
  <p>O cara que escreveu as regras do jogo, ejetado pelo documento. Essa imagem resume a era inteira.</p>

</blockquote>
<h2>Como chegamos até aqui<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="como-chegamos-até-aqui"></span>
    <a href="#como-chegamos-at%c3%a9-aqui" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Vale dar um passo atrás e contar de onde veio tudo isso, porque o open source foi só um dos fronts. O tiro de largada, na minha leitura, foi o GamerGate, em 2014. Em agosto daquele ano saiu o <a href="https://thezoepost.wordpress.com/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Zoe Post&rdquo;</a>, o desabafo do ex-namorado da desenvolvedora Zoe Quinn. Doze dias depois, e cerca de 48 horas depois de a hashtag #GamerGate pegar força, <a href="https://www.gamedeveloper.com/business/-gamers-don-t-have-to-be-your-audience-gamers-are-over-"target="_blank" rel="noopener">cerca de uma dúzia de sites de games publicou variações do mesmo artigo</a>: &ldquo;gamers are over&rdquo;, os jogadores estão mortos, acabou.</p>
<p>Pouco depois vazou o GameJournoPros, um grupo fechado onde jornalistas de games coordenavam cobertura. O público percebeu na hora que a imprensa de games tinha virado clube ideológico, e reagiu com a própria versão do boicote organizado: a campanha &ldquo;Operation Disrespectful Nod&rdquo; inundou a Intel de reclamação até a empresa <a href="https://www.theverge.com/2014/10/2/6886747/intel-buckles-to-anti-feminist-campaign-by-pulling-ads-from-gaming"target="_blank" rel="noopener">tirar os anúncios da Gamasutra</a> (a imprensa da época chamou de &ldquo;campanha anti-feminista&rdquo;; pra mim é só pressão organizada de consumidor, o mesmo instrumento que a Sidekiq usou contra a Ruby Central lá na frente).</p>
<p>E aqui vale fixar o princípio, porque ele vale pros dois lados o resto do texto inteiro: pressão organizada de consumidor é jogo limpo, não importa de que lado vem. O problema nunca foi pressão. É doxxing, ameaça de emprego e comitê fingindo neutralidade pra impor o resultado que já queria antes de abrir o processo.</p>
<p>Durante anos, de 2021 a junho de 2025, o artigo da Wikipedia sobre o assunto viveu batizado <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Gamergate"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Gamergate (harassment campaign)&rdquo;</a>, tratando qualquer crítica ao jornalismo como pretexto de assédio. O título foi trocado de volta pra simplesmente &ldquo;Gamergate&rdquo; depois que a fase mais histérica passou, o que devia ser lido como uma confissão, não como se o caso estivesse encerrado: renomearam de volta quando ficou caro demais defender o rótulo político, exatamente o mesmo padrão de recuo silencioso que aparece em toda essa história. Enquanto durou, durou justamente na década em que essa turba tinha poder de fogo pra fazer valer.</p>
<p>A briga editorial foi tão feia que o comitê de arbitragem da Wikipedia <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Wikipedia_Signpost/2015-01-28/In_focus"target="_blank" rel="noopener">puniu mais de uma dúzia de editores, dos dois lados</a>. E olha que eu nem preciso acusar a Wikipedia sozinho: o Larry Sanger, cofundador da Wikipedia, escreveu em 2020 o texto <a href="https://larrysanger.org/2020/05/wikipedia-is-badly-biased/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Wikipedia Is Badly Biased&rdquo;</a> declarando que a neutralidade do projeto morreu, e em setembro de 2025 publicou as <a href="https://larrysanger.org/nine-theses/"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;Nine Theses on Wikipedia&rdquo;</a>, pedindo reformas como o fim das listas negras de fontes e o fim do bloqueio eterno de editores. Quando o fundador diz que a casa foi tomada, acredite no fundador.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260914180253_larry-sanger-akita-2018.jpg" alt="Eu e o Larry Sanger, cofundador da Wikipedia, num evento em outubro de 2018. Uma honra ter podido conhecê-lo pessoalmente."  loading="lazy" /></p>
<p>A versão do lado dos gamers dessa história está no livro <a href="https://books.google.com.br/books/about/SJWs_Always_Lie.html?id=NqSUjgEACAAJ&amp;redir_esc=y"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;SJWs Always Lie&rdquo;</a>, do Vox Day, de 2015. Já sei o que vem: &ldquo;Vox Day&rdquo; e &ldquo;Milo Yiannopoulos&rdquo; (espero ter escrito certo) são nomes que fazem gente gritar só de ouvir, e o GameJournoPros, aliás, também foi destrinchado originalmente por esse Milo. Não me interessa a reputação de quem conta a história, me interessa se a história é verdadeira. Fonte partidária de dentro da briga, aviso dado, mas o fato central bate com o que a própria Wikipedia e a imprensa da época documentam sem ligação nenhuma com esses dois nomes: a lista GameJournoPros existiu de verdade, um grupo fechado de umas 150 pessoas do jornalismo de games trocando ideia sobre como cobrir o caso.</p>
<p>O capítulo &ldquo;Counterattack&rdquo; conta o GamerGate de dentro, e a tese do livro resume a década: essa gente sempre mente, sempre dobra a aposta, sempre projeta nos outros exatamente o que ela mesma faz.</p>
<p>Do GamerGate em diante, foi dominó. A Anita Sarkeesian transformou o Kickstarter dela de <a href="https://www.backerkit.com/projects/566429325/tropes-vs-women-in-video-games"target="_blank" rel="noopener">meta de 6 mil dólares em 158 mil</a>, virou autoridade global, foi falar na <a href="https://www.polygon.com/2015/9/25/9399169/united-nations-women-cyber-violence-anita-sarkeesian-zoe-quinn"target="_blank" rel="noopener">ONU em 2015</a> sobre &ldquo;violência cibernética&rdquo;, e o jornalismo de games nunca mais se recuperou. O Feminist Frequency dela <a href="https://www.gamesindustry.biz/anita-sarkeesian-to-close-feminist-frequency-after-15-years"target="_blank" rel="noopener">fechou as portas em 2023</a>, mas a lógica que ela inaugurou migrou para dentro dos estúdios: nasceu a indústria da consultoria de &ldquo;narrativa inclusiva&rdquo;, com a Sweet Baby Inc na dianteira.</p>
<p>A CEO da Sweet Baby, Kim Belair, foi gravada numa palestra da GDC de 2019, gravação pública que circula fora do site que primeiro a levantou, aconselhando quem quer aprovação interna pra consultoria de &ldquo;representação&rdquo; a <a href="https://nichegamer.com/sweet-baby-ceo-terrify-them-if-game-devs-dont-push-diversity/"target="_blank" rel="noopener"><em>&ldquo;ir tomar um café com o time de marketing e aterrorizar eles&rdquo;</em></a> com a possibilidade do que aconteceria se não desse a eles o que queriam. Em 2024, um brasileiro criou no Steam uma página de curadoria (o recurso da própria Valve onde qualquer conta pode publicar recomendações de jogos e ganhar seguidores) batizada de &ldquo;Sweet Baby Inc Detected&rdquo;. Um funcionário da empresa tentou individualmente derrubar o perfil por conta própria, e a Valve também agiu por moderação própria; mesmo assim, o resultado foi o grupo explodindo para <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Sweet_Baby_Inc."target="_blank" rel="noopener">mais de 350 mil seguidores</a>.</p>
<p>E vieram os flops. O Suicide Squad: Kill the Justice League, com <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Sweet_Baby_Inc."target="_blank" rel="noopener">consultoria confirmada da Sweet Baby</a>, <a href="https://finance.yahoo.com/news/suicide-squad-flop-still-hurting-135841738.html"target="_blank" rel="noopener">custou 200 milhões de dólares de prejuízo à Warner</a>. O Unknown 9, do estúdio onde a dupla fundadora da Sweet Baby trabalhava, <a href="https://www.pcgamer.com/gaming-industry/unknown-9-awakening-studio-makes-major-layoffs-just-a-month-after-the-games-release/"target="_blank" rel="noopener">demitiu em massa um mês depois do lançamento</a>.</p>
<p>Aí veio 2020. Com o BLM, a mesma cartilha virou política de Estado: as 50 maiores empresas americanas <a href="https://finance.yahoo.com/news/corporate-america-pledged-50b-racial-185054221.html"target="_blank" rel="noopener">prometeram 49,5 bilhões de dólares</a> em ações de &ldquo;justiça racial&rdquo;, vagas de DEI <a href="https://www.visier.com/blog/chief-diversity-officers-exits/"target="_blank" rel="noopener">cresceram 123% em meses</a>, Biden assinou no primeiro dia de mandato a <a href="https://civilrights.org/biden-timeline/"target="_blank" rel="noopener">ordem executiva de &ldquo;equidade&rdquo; para todo o governo federal</a>, e a União Europeia saiu com seu <a href="https://ec.europa.eu/newsroom/just/items/692134"target="_blank" rel="noopener">plano anti-racismo 2020-2025</a>. Era o auge: a patrulha tinha chegado à presidência dos EUA e à liderança da UE.</p>
<p>O recuo veio tão rápido quanto a subida. A Suprema Corte americana <a href="https://www.scotusblog.com/2023/06/supreme-court-strikes-down-affirmative-action-programs-in-college-admissions/"target="_blank" rel="noopener">derrubou o affirmative action em junho de 2023</a>, as empresas <a href="https://www.npr.org/2025/05/27/nx-s1-5307319/dei-jobs-trump"target="_blank" rel="noopener">demitiram milhares de profissionais de DEI</a>, Walmart, Meta, McDonald&rsquo;s e Amazon abandonaram os programas, e em janeiro de 2025 o Trump <a href="https://www.everycrsreport.com/reports/IN12497.html"target="_blank" rel="noopener">revogou as ordens de equidade</a> no primeiro dia.</p>
<p>Contei tudo isso só para situar: o que aconteceu no open source não foi um fenômeno isolado. Foi o mesmo roteiro, com os mesmos métodos, em todas as indústrias de cultura e tecnologia ao mesmo tempo. A diferença é que no open source a resistência demorou mais para organizar. Mas organizou.</p>
<h2>O meu Cortlandt<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-meu-cortlandt"></span>
    <a href="#o-meu-cortlandt" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Foi essa pressão que me tirou da organização da RubyConf Brasil. Eu fundei o evento em 2008, ainda como Rails Summit, e na última edição que eu organizei, em 2016, levamos 1.500 pessoas. Quando <a href="/2016/09/26/os-proximos-10-anos/">anunciei a minha saída</a>, escrevi que não tinha drama nenhum envolvido. Não era a verdade inteira: a patrulha já tinha chegado nas conferências de tecnologia, e eu me recusei a transformar o evento que eu criei em mais um palco dela.</p>
<p>Vou dar um exemplo pequeno do que significa ser obrigado a forçar diversidade. Como os dados que eu mostrei acima indicam, mulheres são de 3% a pouco mais de 13% dos contribuidores de open source, dependendo de como se mede: survey autodeclarado ou detecção por nome nos commits. Os analytics do meu canal mostram a mesma faixa, 3 a 5% no máximo, e essa proporção não mudou em dez anos. Todo ano eu abria um Call for Papers público: qualquer pessoa podia submeter uma palestra. E o meu processo de seleção <strong>sempre foi cego</strong>: eu lia cada submissão sem saber quem tinha enviado, de propósito, para a escolha ser pelo mérito do tema e nunca pela pessoa.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/20260914175728_youtube-analytics-genero.png" alt="Analytics do meu canal no YouTube, últimos 28 dias: 97% homens, 3% mulheres"  loading="lazy" /></p>
<p>Nos anos da patrulha, a cobrança nunca foi direta comigo. Era aquela pressão externa e difusa de que todo evento tinha que ser &ldquo;mais diverso&rdquo;. E na prática isso só podia significar uma coisa: uma fase nova no processo. Depois da seleção cega, revelar quem tinha submetido o quê, para conferir se o lineup estava &ldquo;diverso o suficiente&rdquo;. Só que isso é uma impossibilidade matemática. As submissões seguiam os mesmos 3 a 5%. Mesmo aprovando todas as mulheres que submetiam, a cota imaginária não fechava. O jeito era sair convidando pessoas diretamente, escolhendo pelo perfil, e não pelo tema.</p>
<p>E o resultado prático desse esquema, onde quer que ele seja aplicado, é cortar gente que entrou por mérito para abrir vaga para gente escolhida por uma política externa irrelevante. Isso derruba a qualidade do evento em vez de subir. E repara: isso não é um argumento contra mulher nenhuma. É o contrário. No momento em que a cota entra no processo, a dúvida deixa de ser sobre uma palestrante específica e passa a pairar sobre todo mundo que pisa no palco. Não importa quem esteja falando: se alguém na plateia discordar do conteúdo, sempre vai sobrar a pergunta &ldquo;será que o Akita escolheu esse por cota?&rdquo;. A partir daí, todo palestrante carrega uma suspeita que não merece e o mérito de cada um fica desvalorizado por tabela. Prejudica a minoria que a política dizia proteger, prejudica os outros palestrantes, prejudica o público. É lose-lose em todas as pontas.</p>
<p>E tem uma parte dessa história que ninguém vê de fora. Algumas das pessoas convidadas desse jeito recusaram na hora, &ldquo;porque o evento não era diverso o suficiente&rdquo;. A recusa deixava o evento menos diverso ainda, óbvio. E depois iam para as redes sociais falar mal do evento, como se eu nunca tivesse convidado ninguém. Esse era o nível do lixo que eu tinha que engolir todo ano.</p>
<p>E que fique bem claro: não existe nada que eu queira mais do que ver mais mulheres na tecnologia. O que eu não consigo me convencer é de que forçar cota, do jeito que eu descrevi acima, ajuda nisso. Tudo que eu vi na prática aponta o contrário: prejudica mais do que ajuda. E se eu não acredito que é benéfico, eu prefiro não fazer.</p>
<p>Quer um exemplo recente de mulher que eu admiro na indústria? Asha Sharma, que <a href="https://www.gameshub.com/news/news/xbox-game-pass-cheaper-new-ceo-asha-sharma-2026-2862856/"target="_blank" rel="noopener">assumiu como CEO do Xbox em fevereiro</a>. Desde então é resultado atrás de resultado: <a href="https://www.windowscentral.com/gaming/xbox/microsofts-xbox-ceo-asha-sharma-vows-to-deliver-xbox-updates-every-two-weeks-to-fix-the-fundamentals"target="_blank" rel="noopener">cortou o Copilot dos consoles e reestruturou a divisão para focar no que importa</a>, <a href="https://www.allkeyshop.com/blog/xbox-first-party-titles-survive-layoffs-news-d/"target="_blank" rel="noopener">vendeu estúdios e cortou custo sem cancelar nenhum jogo anunciado</a>, e essa semana <a href="https://www.kojimaproductions.jp/en/xbox_partnership_announcement"target="_blank" rel="noopener">trouxeram a Kojima Productions para o Xbox</a> publicar o próximo jogo do Hideo Kojima, <a href="https://www.gamespot.com/articles/kojimas-physint-dropped-by-playstation-rescued-by-xbox/"target="_blank" rel="noopener">depois da PlayStation cancelar o projeto</a> em meados de 2026. Repara no discurso em volta dela: zero menção a &ldquo;gênero&rdquo;, zero pauta.</p>
<blockquote>
  <p>Só número: cortar custo desnecessário, apostar nas bets certas, melhorar o valor para o cliente. Isso é mérito. Não precisa de DEI para isso.</p>

</blockquote>
<p>Até que eu decidi que chega. Quem leu &ldquo;The Fountainhead&rdquo; sabe o que eu fiz: como o Howard Roark, o arquiteto que explode o próprio prédio quando adulteram o projeto dele, eu dinamitei o meu Cortlandt. Mais precisamente: o evento como ele existia enquanto era meu. A marca sobreviveu alguns anos na mão de outros, sem a mesma alma, até desaparecer. E eu já tinha <a href="/2011/02/04/off-topic-the-fountainhead-defesa-de-howard-roark/">sinalizado essa filosofia aqui no blog ainda em 2011</a>. Um indivíduo não faz nada pelos outros: faz por si mesmo. Se o que você constrói beneficia outras pessoas como efeito colateral, melhor, mas esse nunca foi o motivo. Quando os parasitas querem tomar o que você construiu, você mesmo explode tudo. Porque pode. Quem construiu uma vez, constrói de novo do zero.</p>
<p>Foi o que eu fiz. Troquei a conferência pelo meu canal do YouTube, que não dependia de patrocinador, de comitê, de ninguém além de mim. E o canal cresceu muito além do que a conferência jamais seria. Depois eu sentei e esperei a bolha estourar, porque eu sabia que ela ia estourar: escrevi isso aqui no blog e repeti nos vídeos anos antes de acontecer. Estourou. Paciência sempre vence.</p>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Dez anos de código de conduta e o placar é esse: zero evidência de que aumentou diversidade, nem baseline de toxicidade pra comparar antes e depois, e o estudo causal mais recente e mais rigoroso que existe mostra o documento afastando contribuidor antigo mais do que constrói comunidade nova. A promessa era proteger minorias. A entrega foi uma coleção de cabeças: o criador do JavaScript, o criador da GPL, o criador do Linux, todos passando pelo ritual público de humilhação. Nenhum por causa de código. Todos por causa de opinião.</p>
<p>E repara como essa era terminou.</p>
<blockquote>
  <p>A máquina não perdeu o debate, perdeu o financiamento.</p>

</blockquote>
<p>Foi só o dinheiro fácil acabar que os exércitos de gente sem trabalho real evaporaram, e quem sobrou foi quem estava lá pelo código. Enquanto isso, os builders seguiram construindo: o Brendan Eich foi expulso da Mozilla em 2014 e no ano seguinte fundou a Brave, hoje com mais de 100 milhões de usuários ativos por mês e valuation perto de 1 bilhão de dólares. O DHH perdeu o keynote e criou uma conferência maior, perdeu um terço da empresa e ajudou a levantar uma fundação de oito milhões. Eu saí da minha conferência e cresci muito mais no canal. Instituição, parasita toma. Capacidade de construir, não. Quem construiu uma vez, constrói de novo do zero.</p>
<p>Open source recruta voluntários que querem contribuir código. Qualquer discussão que não envolve código é distração na melhor hipótese e sabotagem na pior. E a resposta para &ldquo;o que colocar no lugar do código de conduta&rdquo; cabe numa frase só, que o ESR já escreveu: se você é mais chato de trabalhar do que as suas contribuições justificam, você é ejetado. Sempre foi assim que funcionou. O único passaporte é o diff.</p>
<p>O resto é politicagem. E politicagem, para usar o termo técnico preciso, é bullshit.</p>
<p>E fica a recomendação prática final. Se o seu projeto open source tem um <code>CODE_OF_CONDUCT.md</code>, delete o arquivo. Se o seu branch principal virou <code>main</code> na onda de 2020, renomeie de volta para <code>master</code>. Em parte de birra, admito. Mas principalmente para exercitar a liberdade recém-recuperada de fazer isso sem ser cancelado por causa disso. Liberdade que não se exercita atrofia. Sem nota de esclarecimento, sem votação de comitê, sem pedir licença para ninguém. Só porque agora você pode de novo.</p>
]]></content:encoded><category>off-topic</category><category>open-source</category><category>politica</category></item><item><title>Entendendo a censura ao Discord e a ECA digital</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/08/13/entendendo-a-censura-ao-discord-e-a-eca-digital/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/08/13/entendendo-a-censura-ao-discord-e-a-eca-digital/</guid><pubDate>Thu, 13 Aug 2026 11:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Em seis dias, o Brasil saiu de uma tragédia para um precedente regulatório que deveria preocupar qualquer pessoa que entende de tecnologia. No dia 22 de julho, uma adolescente de 13 anos morreu em Naviraí, Mato Grosso do Sul, durante uma transmissão ao vivo no Discord, coagida por um grupo que a polícia investiga como organização criminosa. No dia 12 de agosto, a ANPD ordenou que o Discord suspendesse as transmissões ao vivo no país inteiro.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Em seis dias, o Brasil saiu de uma tragédia para um precedente regulatório que deveria preocupar qualquer pessoa que entende de tecnologia. No dia 22 de julho, uma adolescente de 13 anos morreu em Naviraí, Mato Grosso do Sul, durante uma transmissão ao vivo no Discord, coagida por um grupo que a polícia investiga como organização criminosa. No dia 12 de agosto, a ANPD ordenou que o Discord suspendesse as transmissões ao vivo no país inteiro.</p>
<p>Entre um ponto e outro: a primeira-dama pedindo bloqueio da plataforma em cerimônia oficial, a AGU anunciando ação civil pública, e a primeira grande fiscalização da história da ECA Digital. Vamos por partes, porque o diabo mora exatamente nas partes.</p>
<h2>O caso de Naviraí<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-caso-de-naviraí"></span>
    <a href="#o-caso-de-navira%c3%ad" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Os fatos, conforme a <a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/policia-faz-operacao-contra-suspeitos-de-induzir-adolescente-a-tirar-a-propria-vida-e-transmitir-em-rede-social.ghtml"target="_blank" rel="noopener">Polícia Civil do MS e o G1</a>: Lívia, 13 anos, foi encontrada morta na manhã de 22 de julho no quintal de casa. Ela tirou a própria vida durante uma transmissão no Go Live, o recurso de vídeo ao vivo do Discord, sob pressão, humilhação e incentivo explícito de outros usuários. <strong>Mais de 200 pessoas</strong> assistiam.</p>
<p>A <a href="https://www.enfoquems.com.br/operacao-livia-combate-grupo-neonazista-que-coagiu-adolescente-ao-suicidio-em-navirai/"target="_blank" rel="noopener">Operação Lívia</a>, deflagrada em 4 de agosto com mandados em cinco estados, revelou o que havia por trás: um grupo composto majoritariamente por adolescentes — o líder investigado tem 14 anos — que recrutava menores via Discord <strong>e Telegram</strong>, espalhava conteúdo neonazista e misógino, e é investigado por homicídio qualificado e organização criminosa. Uma segunda menina foi induzida a se automutilar na mesma live, mas saiu da transmissão.</p>
<p>Guarde dois detalhes pra depois: o grupo operava em mais de uma plataforma, e o Ministério da Justiça <a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/policia-faz-operacao-contra-suspeitos-de-induzir-adolescente-a-tirar-a-propria-vida-e-transmitir-em-rede-social.ghtml"target="_blank" rel="noopener">pediu à ANPD que investigasse Discord e Telegram</a>. Só um dos dois foi sancionado.</p>
<h2>Da primeira-dama à ANPD em seis dias<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="da-primeira-dama-à-anpd-em-seis-dias"></span>
    <a href="#da-primeira-dama-%c3%a0-anpd-em-seis-dias" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>No dia 6 de agosto, na cerimônia de sanção do <a href="https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2528433"target="_blank" rel="noopener">PL 3066/2025</a> (que endurece penas pra crimes digitais contra crianças — guarda esse projeto, que ele volta daqui a pouco), a primeira-dama Janja da Silva <a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/janja-chama-discord-de-rede-horrorosa-apos-caso-de-suicidio-ao-vivo-e-pede-seu-bloqueio-no-brasil.shtml"target="_blank" rel="noopener">não deixou margem pra dúvida</a>: <em>&ldquo;a gente precisa bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma&hellip; a gente precisa atuar junto ao Judiciário para tirar essa rede horrorosa do ar&rdquo;</em>. O advogado-geral da União, Jorge Messias, anunciou ali mesmo uma ação civil pública pra tirar a plataforma do ar.</p>
<p>No dia 7, a ANPD <a href="https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/anpd-instaura-processo-de-fiscalizacao-contra-o-discord-para-apurar-falhas-na-protecao-de-criancas-e-adolescentes"target="_blank" rel="noopener">abriu processo de fiscalização contra o Discord</a>, com cinco dias úteis pra empresa se explicar. No dia 12, <a href="https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/em-medida-preventiva-anpd-determina-que-discord-suspenda-transmissoes-ao-vivo-no-brasil"target="_blank" rel="noopener">a medida preventiva saiu</a>: o Discord deve suspender o Go Live e recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo no Brasil em <strong>três dias úteis</strong>, e só religa quando provar medidas eficazes de proteção infantil e obtiver autorização expressa da ANPD. A base legal: artigos 6º, 10, 17, 28 e 29 da ECA Digital, com multas de até <strong>R$ 50 milhões</strong> por infração (art. 35).</p>
<p>O Discord <a href="https://www.meioemensagem.com.br/midia/anpd-suspende-transmissoes-ao-vivo-do-discord-no-brasil"target="_blank" rel="noopener">chamou a medida de &ldquo;prematura&rdquo;</a>: recebeu o processo na sexta-feira, ainda estava dentro do prazo de resposta, e afirma que removeu o servidor privado onde o crime aconteceu. E soltou a frase mais interessante de toda a resposta: sua investigação interna encontrou evidências de que <em>&ldquo;a atividade criminosa foi coordenada em outras plataformas antes da criação do servidor no Discord e continuou nelas depois&rdquo;</em>.</p>
<p>Sobre isso, um esclarecimento necessário. Circulou a versão de que o caso teria se originado no Instagram. Fui checar e não encontrei nenhuma fonte que confirme: a plataforma citada pela polícia, além do Discord, é o Telegram. O Discord não nomeia as &ldquo;outras plataformas&rdquo;. O que importa continua de pé, só que com outro nome no lugar: o caso <strong>não era exclusivo do Discord</strong>, o Ministério da Justiça pediu investigação de duas plataformas, e só o Discord tomou a sanção. O Telegram, que sequer tem representação legal robusta no Brasil, segue intocado.</p>
<p>E aqui aparece a primeira pergunta incômoda: se o problema é sistêmico, por que a sanção é cirúrgica?</p>
<h2>O que é a ECA Digital, a &ldquo;Lei Felca&rdquo;<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-que-é-a-eca-digital-a-lei-felca"></span>
    <a href="#o-que-%c3%a9-a-eca-digital-a-lei-felca" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A sanção só foi possível por causa de uma lei novinha em folha. Em agosto de 2025, o YouTuber Felca publicou o vídeo <em>&ldquo;Adultização&rdquo;</em>, expondo perfis que monetizavam conteúdo sexualizado com menores — o caso mais chocante sendo o do influenciador Hytalo Santos, <a href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/hytalo-santos-e-marido-sao-condenados-por-exploracao-de-menores/"target="_blank" rel="noopener">preso naquele mês e condenado em fevereiro de 2026</a> a mais de 11 anos de prisão. O vídeo passou de 30 milhões de views, o Senado abriu uma CPI, e o Congresso <a href="https://gcaa.com.br/eca-digital-e-sancionado-comentarios-sobre-marco-regulatorio-de-protecao-de-criancas-e-adolescentes-em-ambientes-digitais/"target="_blank" rel="noopener">correu pra aprovar em regime de urgência</a> o PL 2628/2022, do senador Alessandro Vieira.</p>
<p>Resultado: a <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15211.htm"target="_blank" rel="noopener">Lei 15.211, de 17 de setembro de 2025</a>, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, em vigor desde 17 de março de 2026. Os pontos que importam pra esta discussão:</p>
<ul>
<li><strong>Dever de cuidado</strong> (art. 6º): plataformas devem tomar <em>&ldquo;medidas razoáveis desde a concepção&rdquo;</em> pra prevenir exposição de menores a exploração sexual, violência e indução a autolesão e suicídio.</li>
<li><strong>Verificação de idade</strong> (art. 9º, §1º): <em>&ldquo;mecanismos confiáveis de verificação de idade a cada acesso&rdquo;</em>, com uma frase de efeito devastador: <strong>&ldquo;vedada a autodeclaração&rdquo;</strong>.</li>
<li><strong>Notificação e remoção</strong> (art. 29): dever de retirar conteúdo que viole direitos de crianças assim que comunicados, <strong>independentemente de ordem judicial</strong>.</li>
<li><strong>Fiscalizador</strong>: a ANPD, que acumulou o cargo com a LGPD e, desde maio de 2026, com deveres do Marco Civil da Internet. Virou o regulador digital de fato do país.</li>
<li><strong>Multas</strong> de até 10% do faturamento no Brasil, limitadas a R$ 50 milhões por infração. Suspensão de atividades, no papel, <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15211.htm"target="_blank" rel="noopener">só pelo Judiciário</a> (art. 35, §5º).</li>
</ul>
<p>Esse último ponto já está em disputa: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/anpd-tem-poder-para-fiscalizar-discord-mas-competencias-ainda-sao-discutiveis-dizem-especialistas.shtml"target="_blank" rel="noopener">especialistas ouvidos pela Folha</a> apontam que a &ldquo;medida preventiva&rdquo; da ANPD pode ser, na prática, uma suspensão temporária de atividades — sanção que a lei reserva ao Judiciário. Mal nasceu, a regulação já flerta com a própria ilegalidade.</p>
<p>Vale lembrar o contexto maior: em junho de 2025 o STF <a href="https://www.conjur.com.br/2025-jun-11/stf-forma-maioria-por-responsabilizacao-de-big-techs-por-publicacoes-de-usuarios/"target="_blank" rel="noopener">derrubou parcialmente o art. 19 do Marco Civil</a>, acabando com a exigência de ordem judicial específica pra responsabilizar plataformas. Em junho de 2026 o mesmo tribunal <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/stf-exige-representante-de-big-techs-no-brasil-e-da-60-dias-para-adaptacao/"target="_blank" rel="noopener">consolidou um &ldquo;dever de cuidado&rdquo;</a> com categorias de remoção imediata, incluindo indução a suicídio e crimes graves contra crianças. A ECA Digital legisla nessa direção. Em um ano, a responsabilidade das plataformas no Brasil deixou de ser reativa e virou proativa.</p>
<h2>O oximoro: &ldquo;pode criptografar, desde que a gente possa ler&rdquo;<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-oximoro-pode-criptografar-desde-que-a-gente-possa-ler"></span>
    <a href="#o-oximoro-pode-criptografar-desde-que-a-gente-possa-ler" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Agora o miolo, que é o que me motivou a escrever. A justificativa oficial da ANPD pra suspender o Go Live merece ser lida com atenção: a arquitetura do Discord usa criptografia de ponta a ponta, <strong>a plataforma não tem acesso ao conteúdo das transmissões ao vivo</strong>, e portanto a moderação em tempo real é impossível. Na avaliação da ANPD, se a moderação depende de sistemas automatizados falhos e da denúncia de quem está na sala onde o crime acontece, o recurso é incompatível com a lei.</p>
<p>Leia de novo, devagar. A ANPD não proibiu criptografia — uma proibição direta seria indefensável em público. Ela disse outra coisa, muito mais engenhosa: você pode ter criptografia de ponta a ponta, desde que consiga monitorar o conteúdo pra cumprir os deveres legais.</p>
<p>Só que isso é um oximoro. O propósito inteiro da criptografia de ponta a ponta é que o servidor transporta texto cifrado e não tem como ler. Pra &ldquo;monitorar o conteúdo&rdquo;, esse conteúdo precisa chegar aberto aos servidores — e aí não é mais ponta a ponta. Não existe terceira opção: ou é ilegível pra plataforma, ou é legível. A ANPD não criminalizou a criptografia; ela apenas tornou impossível oferecer criptografia de verdade e operar no Brasil ao mesmo tempo. Tecnicamente errado dizer que &ldquo;proibiram criptografia&rdquo;. Funcionalmente, é exatamente o que aconteceu.</p>
<p>E não sou eu quem está dizendo. O Carlos Affonso Souza, diretor do ITS Rio, <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/discord-anpd-cria-precedente-perigoso-sobre-criptografia-diz-especialista/"target="_blank" rel="noopener">disse à CNN Brasil</a> que é a primeira vez que a ANPD trata criptografia de ponta a ponta como obstáculo regulatório, um precedente perigoso comparável aos bloqueios do WhatsApp — e que os criminosos simplesmente migram pra plataformas menos cooperativas e sem representação no país (alguém disse Telegram?).</p>
<p>Pra ser justo com o debate: o texto da lei não menciona criptografia uma única vez, e o art. 34, §1º <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15211.htm"target="_blank" rel="noopener">proíbe expressamente</a> <em>&ldquo;mecanismos de vigilância massiva, genérica ou indiscriminada&rdquo;</em>. Os checadores <a href="https://www.boatos.org/tecnologia/ia-tera-acesso-a-todas-conversas-do-whatsapp-a-partir-de-hoje.html"target="_blank" rel="noopener">derrubaram os boatos</a> de que a ECA Digital leria seu WhatsApp. Tudo isso é verdade — e tudo isso é sobre o papel. Na prática, a primeira fiscalização grande da história da lei tratou a impossibilidade técnica de vigiar como fundamento pra derrubar um recurso. O papel aceita tudo; a caneta da fiscalização é que escreve o direito real.</p>
<p>E tem ganchos na letra da lei esperando pra serem usados: o art. 18, III exige que ferramentas de controle parental permitam <em>&ldquo;identificar os perfis de adultos com os quais a criança ou o adolescente se comunica&rdquo;</em> — me explica como um mensageiro criptografado de ponta a ponta cumpre isso. O art. 27 manda <em>&ldquo;remover e comunicar&rdquo;</em> conteúdo de abuso <em>&ldquo;detectado&rdquo;</em> direta ou indiretamente — e detectar pressupõe ver. Nenhum dos dois foi usado ainda. O precedente do Go Live mostra como serão lidos quando forem.</p>
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  <p><strong>Pra guardar:</strong> a ANPD não proibiu criptografia. Proibiu um recurso cuja criptografia impede a vigilância do conteúdo. O efeito prático é idêntico: no Brasil, criptografia de ponta a ponta agora é um risco regulatório.</p>

</blockquote>
<h2>ECA Digital contra LGPD<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="eca-digital-contra-lgpd"></span>
    <a href="#eca-digital-contra-lgpd" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A ironia maior é institucional. Em 2018 aprovamos a LGPD pra proteger os dados pessoais do brasileiro, construída sobre princípios como minimização (colete só o necessário) e finalidade (use só pro que foi coletado). A ECA Digital, aplicada pela mesma agência, empurra na direção oposta.</p>
<p>A verificação de idade é o exemplo cristalino. <em>&ldquo;Vedada a autodeclaração&rdquo;</em> significa que todo usuário — adulto inclusive — vai precisar provar a idade pra acessar serviços comuns. Provar como? Documento, biometria facial, credencial verificável. A <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/verificacao-etaria-do-eca-digital-poe-em-risco-privacidade-de-dados/"target="_blank" rel="noopener">Gazeta do Povo ouviu especialistas</a> que alertam pro óbvio: estamos construindo uma infraestrutura permanente de identificação de toda a população na internet, com dados biométricos que, uma vez vazados, não têm como trocar — você troca de senha, não troca de cara.</p>
<p>E não é teoria. Uma <a href="https://convergenciadigital.com.br/governo/inutil-e-perigoso-cientistas-alertam-contra-sistemas-de-verificacao-de-idade-na-internet/"target="_blank" rel="noopener">carta aberta assinada por 438 cientistas de 32 países</a> chama esses sistemas de &ldquo;inúteis e perigosos&rdquo;: fáceis de burlar com VPN e deepfake, enviesados contra minorias. E cita o exemplo perfeito — o próprio Discord, que <a href="https://convergenciadigital.com.br/governo/inutil-e-perigoso-cientistas-alertam-contra-sistemas-de-verificacao-de-idade-na-internet/"target="_blank" rel="noopener">vazou fotos de documentos de ~70 mil usuários</a> justamente por causa de verificação de idade terceirizada. A plataforma que a ANPD pune por não vigiar é a mesma que provou, na prática, o custo de coletar.</p>
<p>A lei tem salvaguardas no papel — o art. 13 limita o uso dos dados de verificação <em>&ldquo;unicamente para essa finalidade&rdquo;</em>, o art. 12 fala em minimização. Mas note o conflito de interesses estrutural: a ANPD acumula três mandatos — LGPD, ECA Digital e Marco Civil. <strong>A agência que deveria defender a minimização dos seus dados é a mesma que agora exige que você os entregue.</strong> Quando os dois papéis colidirem dentro do mesmo órgão, qual deles você acha que vence?</p>
<h2>A outra lei do dia 6: usar VPN agora pesa na pena<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-outra-lei-do-dia-6-usar-vpn-agora-pesa-na-pena"></span>
    <a href="#a-outra-lei-do-dia-6-usar-vpn-agora-pesa-na-pena" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Lembra que a cerimônia em que a primeira-dama pediu o bloqueio era a sanção de outra lei? Vale olhar o que mais foi sancionado naquele dia, porque tem um artigo do PL 3066/2025 que passou quase despercebido fora da bolha técnica: o <strong>art. 226-A</strong>, que <a href="https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202608/sancionada-lei-que-atualiza-o-eca-e-que-define-e-pune-crimes-sexuais-no-mundo-digital"target="_blank" rel="noopener">aumenta a pena de um terço a dois terços</a> pra crimes do ECA cometidos com uso de proxy, VPN ou qualquer técnica de mascaramento ou anonimização de IP.</p>
<p>O Ayub, que acompanha legislação digital há anos, <a href="https://x.com/ayubio/status/2058990595503509513"target="_blank" rel="noopener">soou o alarme ainda em maio</a>, quando a Câmara aprovou o texto: <em>&ldquo;prevê prisão para quem desenvolver ou fornecer serviço de VPN. Não foi falta de aviso meu.&rdquo;</em></p>
<p>Aqui vai uma precisão que importa, porque checar fonte é o que separa análise de pânico. A redação <strong>original</strong> do deputado Osmar Terra criminalizava mesmo quem desenvolve, distribui ou comercializa programa de mascaramento de IP — na prática, tornava crime a profissão de desenvolvedor de VPN. Mas o projeto passou por um grupo de trabalho técnico que ouviu Polícia Federal, Ministério Público, Safernet e as próprias plataformas, e a relatora final, deputada Rogéria Santos, <a href="https://iclnoticias.com.br/projeto-contra-pedofila-quase/"target="_blank" rel="noopener">retirou a criminalização do desenvolvimento</a> e manteve só a majorante, com salvaguarda expressa pro uso lícito. O tweet do Ayub descreve o projeto que entrou na Câmara, não a lei que saiu. O aviso dele, porém, capturou o rumo — e o rumo se cumpriu.</p>
<p>Porque o que sobrou já é bastante coisa. A <a href="https://isoc.org.br/noticia/isoc-e-isoc-brasil-pedem-rejeicao-do-art-226-a-do-pl-3066-2025"target="_blank" rel="noopener">ISOC Brasil apontou</a> que a majorante coloca o uso de VPN no mesmo patamar penal da majoração de roubo com arma de fogo. E uma <a href="https://teletime.com.br/06/07/2026/vpn-senado-entidaddes/"target="_blank" rel="noopener">carta aberta ao Senado</a>, assinada por EFF, Projeto Tor, Artigo 19, Data Privacy Brasil e mais meia dúzia de entidades, explicou o óbvio pra quem é da área: proxy e VPN são infraestrutura padrão de segurança corporativa, recomendados por normas internacionais como a ISO/IEC 27001; anonimização de identificadores é função nativa de navegadores como Firefox e Brave; e sua empresa provavelmente te <strong>obriga</strong> a usar VPN pra trabalhar de casa. O Senado não acolheu. No dia 6 de agosto, o artigo virou lei — na tal cerimônia.</p>
<p>A frase da carta que deveria assombrar qualquer legislador: <em>&ldquo;precedentes jurídicos raramente permanecem restritos à hipótese que justificou sua criação&rdquo;</em>. Na formulação da carta, é a <strong>primeira vez</strong> que o direito penal brasileiro trata uma tecnologia neutra de segurança como, por si só, motivo de pena mais grave. Hoje a hipótese é crime contra criança — aquela que ninguém ousa questionar em público, e os autores do projeto sabiam disso. Amanhã é qualquer crime. O próximo deputado que quiser agravar furto &ldquo;mediante uso de VPN&rdquo; já tem o precedente pronto, votado e sancionado.</p>
<p>E repare na engenhosidade, igualzinha à da criptografia: ninguém proibiu VPN — uma proibição direta seria indefensável. Apenas se criou o mecanismo pra tratar usuário de VPN como suspeito qualificado. Pensa na execução: pra aplicar a salvaguarda do &ldquo;uso lícito&rdquo;, o Estado precisa primeiro saber que você usa VPN e depois determinar se o seu uso era lícito. Ou seja, todo usuário de ferramenta de privacidade vira, por padrão, objeto potencial de verificação. A salvaguarda não protege o usuário — autoriza a fiscalização dele.</p>
<p>E tem a ironia fina pra fechar: a carta dos 438 cientistas que mencionei na seção anterior alerta que verificação de idade se burla com VPN. A resposta do legislador brasileiro não foi repensar a verificação de idade. Foi deixar a VPN meio criminalizada. O cerco se fecha pelos dois lados, sempre com a mesma plaquinha de boa intenção pregada em cima.</p>
<blockquote>
  <p><strong>Pra guardar:</strong> ninguém proibiu VPN no Brasil. Criou-se algo mais sutil: o primeiro precedente penal em que usar uma ferramenta neutra de privacidade pesa contra você. Hoje agrava crime contra criança. O precedente, esse, não tem dono.</p>

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<h2>E os criminosos de verdade?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="e-os-criminosos-de-verdade"></span>
    <a href="#e-os-criminosos-de-verdade" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Tem um contrassenso nessa história que quase ninguém comentou. A sanção contra o Discord caiu em seis dias, com potencial de R$ 50 milhões de multa por infração. E o que acontece com os autores do crime que motivou tudo isso?</p>
<p>O grupo de Naviraí era composto por cinco adolescentes de 13 a 17 anos e um jovem de 18. O líder investigado tem 14. Pela lei brasileira, <strong>só o de 18 responde como adulto</strong>, por homicídio qualificado. Os outros cinco entram no regime do ECA — o clássico, não o digital: medida socioeducativa de internação, com <a href="https://www.atfcursosjuridicos.com.br/repositorio/material/15893963154125-ecaparaoabatf.pdf"target="_blank" rel="noopener">teto de três anos</a> e soltura compulsória aos 21. O caso corre em sigilo e não sabemos as medidas aplicadas, mas o teto é esse, não importa a crueldade. O mentor intelectual do massacre de Suzano, com 10 mortos, tinha 17 anos e <a href="https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/05/03/justica-decide-manter-internacao-de-menor-apontado-como-mentor-intelectual-do-massacre-em-suzano.ghtml"target="_blank" rel="noopener">ficou internado</a> — três anos, independentemente da contagem de corpos.</p>
<p>E tem uma ironia de calendário: em fevereiro de 2026 o Brasil <a href="https://www.brasilparalelo.com.br/noticias/lula-sanciona-lei-que-define-bullying-e-cyberbullying-como-crimes"target="_blank" rel="noopener">sancionou a lei que tornou hedionda a indução online a suicídio e autolesão</a>, com pena dobrada pra líderes de grupo. Pra adultos. Pros cinco adolescentes de Naviraí, investigados exatamente por isso, não muda nada: o teto continua sendo os três anos do ECA.</p>
<p>E segue assim por escolha, porque tentativa não faltou. Em março de 2026, o relator da PEC da Segurança Pública incluiu um <a href="https://www.congressoemfoco.com.br/amp/noticia/116889/governo-se-manifesta-contra-a-reducao-da-maioridade-penal--ineficaz"target="_blank" rel="noopener">referendo sobre a redução da maioridade penal pra 16 anos</a>; o governo chamou a redução de &ldquo;ineficaz e inconstitucional&rdquo; e o trecho foi arrancado pra PEC passar — <a href="https://www.nsctotal.com.br/noticias/camara-aprova-pec-da-seguranca-publica-apos-retirada-de-mencao-a-maioridade-penal"target="_blank" rel="noopener">aprovada por 487 a 15</a> sem uma linha sobre o assunto. Em junho, a CCJ da Câmara <a href="https://www.camara.leg.br/noticias/1280551-comissao-de-constituicao-e-justica-aprova-pec-que-reduz-maioridade-penal/"target="_blank" rel="noopener">aprovou a admissibilidade de outra PEC da redução, por 44 a 18</a>, mas ela ainda precisa de 308 votos em dois turnos de plenário — exatamente o muro onde a versão de 2015 morreu. Até a saída intermediária empaca: o <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/10/22/vai-a-camara-mais-tempo-de-internacao-de-adolescente-em-conflito-com-a-lei"target="_blank" rel="noopener">PL 1.473/2025</a>, que subiria a internação máxima de 3 pra 5 anos (10 pra crimes violentos), passou no Senado em outubro de 2025 e dorme na Câmara até hoje.</p>
<p>Enquanto isso, o crime organizado faz aritmética. Facções recrutam adolescentes de propósito, porque sabem que o ECA protege o executor: nos ataques de facções no Ceará, adultos <a href="https://ponte.org/periferias-sao-as-principais-vitimas-dos-ataques-de-faccoes-no-ceara/"target="_blank" rel="noopener">pagavam de R$ 1.000 a R$ 5.000 por atentado</a> pra adolescentes tocarem fogo em veículos — o mandante não se expõe, o executor não vai pra prisão. O grupo de Naviraí é a versão digital da mesma lógica: um líder de 14 anos coordenando crimes que, se cometidos por um adulto, dariam décadas de cadeia.</p>
<p>E o Brasil virou exceção até na vizinhança. A Argentina <a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/27/argentina-aprova-lei-que-reduz-maioridade-penal-de-16-para-14-anos.ghtml"target="_blank" rel="noopener">aprovou em fevereiro a redução de 16 pra 14 anos</a>. A Suécia, de todos os países, <a href="https://noticias.r7.com/prisma/espaco-prisma/com-13-anos-um-adolescente-pode-matar-e-ir-para-a-cadeia-a-suecia-decidiu-que-sim-o-brasil-ainda-nao-sabe-05022026/"target="_blank" rel="noopener">baixou pra 13 anos em crimes graves a partir de julho</a> — depois que gangues passaram a recrutar crianças pelo Snapchat pra atentados justamente porque elas não podiam ser processadas. Inglaterra pune a partir dos 10 (embora a própria Ordem dos Advogados de lá queira subir pra 14), a maioria dos estados americanos transfere adolescentes de 14 pra vara criminal em homicídio, Portugal pune aos 16.</p>
<p>Pra constar, o outro lado existe: a <a href="https://brasil.un.org/pt-br/317703-redu%C3%A7%C3%A3o-da-maioridade-penal-unicef-manifesta-preocupa%C3%A7%C3%A3o-com-avan%C3%A7o-da-pec-na-c%C3%A2mara-dos"target="_blank" rel="noopener">UNICEF se posicionou contra a redução</a>, e os dados de reincidência são desconfortáveis pros dois lados — ~43% depois da internação, ~70% depois da prisão comum. Se é pra debater o modelo, debata. O que não dá é o resultado atual: uma lei nova conseguiu em seis dias tirar do ar um recurso usado por milhões de pessoas inocentes, enquanto o sistema que pune os autores do crime não sai do lugar há trinta. A gente pune o cano porque o cano é quem está ao alcance.</p>
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  <p><strong>Pra guardar:</strong> seis dias pra sancionar a plataforma que milhões de inocentes usam; trinta anos sem mexer no teto de quem cometeu o crime.</p>

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<h2>Enquanto isso, no STF: o sigilo da fonte furado<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="enquanto-isso-no-stf-o-sigilo-da-fonte-furado"></span>
    <a href="#enquanto-isso-no-stf-o-sigilo-da-fonte-furado" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Se fosse só o Discord, dava pra chamar de acidente regulatório. Mas na mesma semana, outro pilar caiu.</p>
<p>Desde novembro de 2025, o jornalista Luís Pablo, do Maranhão, publicava reportagens sobre o uso de um carro oficial do TJ-MA pelo ministro Flávio Dino e familiares. Em março, Alexandre de Moraes autorizou <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/republica/decisao-de-moraes-sobre-jornalista-cita-inquerito-das-fake-news-e-contraria-nota-oficial-do-stf/"target="_blank" rel="noopener">busca e apreensão contra o jornalista</a> — numa decisão que citava o inquérito das fake news, o que a assessoria do STF depois negou. Celulares, notebook e pen drive apreendidos. Em abril, o equipamento foi devolvido, mas a análise forense continuou.</p>
<p>No dia 11 de agosto, <a href="https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/08/11/moraes-determina-investigacao-contra-fonte-de-jornalista-em-reportagem-sobre-dino.ghtml"target="_blank" rel="noopener">a PF cumpriu mandados contra Raimundo Cutrim</a>, ex-secretário de Segurança do Maranhão — identificado como a fonte do jornalista. Como chegaram nele? Pela análise dos dispositivos apreendidos do jornalista.</p>
<p>Entendeu o mecanismo? O art. 5º, XIV da Constituição protege o sigilo da fonte, e o jornalista pode se recusar a revelar — como ele fez, ficando em silêncio no depoimento. Então não perguntaram. Apreenderam o material de trabalho, leram tudo, e <strong>identificaram a fonte pelas costas</strong>. A constitucionalista Vera Chemin <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/especialistas-avaliam-decisao-de-moraes-sobre-fonte-de-jornalista/"target="_blank" rel="noopener">resumiu na CNN</a>: <em>&ldquo;não se pode violar o sigilo para depois verificar se houve um crime ou não&rdquo;</em>.</p>
<p>O próprio STF já decidiu isso, e mais de uma vez. Na ADPF 601, em 2019, Gilmar Mendes <a href="https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/ministro-gilmar-mendes-garante-sigilo-da-fonte-a-jornalista-glenn-greenwald/"target="_blank" rel="noopener">protegeu o Glenn Greenwald na Vaza Jato</a> com uma frase que deveria estar emoldurada: o sigilo da fonte <em>&ldquo;impossibilita que o Estado utilize medidas coercivas para constranger a atuação profissional e devassar a forma de recepção e transmissão daquilo que é trazido a conhecimento público&rdquo;</em>. &ldquo;Devassar a forma de recepção&rdquo; é literalmente o que a análise forense dos dispositivos fez.</p>
<p>Pra constar, a defesa do STF existe e merece ser apresentada: a investigação apura monitoramento ilegal de um ministro e da família dele, com placas, nomes de seguranças e imagens clandestinas de crianças publicados; a PF aponta que Cutrim usou cargo público pra acessar sistemas restritos; e há uma transferência de R$ 100 mil de um segundo investigado pro jornalista, cuja natureza ninguém provou ainda. Os autos correm em sigilo, então nenhuma das versões é verificável de fora. É possível que haja crime ali. Mas é exatamente por isso que a ordem importa: primeiro se investiga com meios lícitos, depois — talvez, em casos excepcionalíssimos — se discute exceção. <strong>Inverter essa ordem transforma a exceção em método.</strong></p>
<p>A reação foi a de sempre, só que mais alta: <a href="https://www.abraji.org.br/noticias/abraji-condena-violacao-de-sigilo-de-fonte-de-jornalista-no-maranhao"target="_blank" rel="noopener">Abraji</a>, ANJ, ABERT, SIP internacional, e <a href="https://www.poder360.com.br/poder-midia/globo-folha-e-estadao-criticam-stf-por-quebra-de-sigilo-da-fonte/"target="_blank" rel="noopener">editoriais dos três maiores jornais do país no mesmo dia</a>. O Estadão escreveu que o inquérito das fake news <em>&ldquo;foi convertido em instrumento de intimidação&rdquo;</em>. Miro Teixeira, o advogado que derrubou a Lei de Imprensa da ditadura em 2009, disse que o STF <a href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/stf-atua-momentaneamente-como-tribunal-de-excecao-diz-miro-teixeira/"target="_blank" rel="noopener">atua &ldquo;momentaneamente como tribunal de exceção&rdquo;</a>.</p>
<blockquote>
  <p><strong>Pra guardar:</strong> o sigilo da fonte não foi revogado — foi contornado. Ninguém coagiu o jornalista; apreenderam os dispositivos dele e a fonte apareceu na perícia. A garantia segue existindo, mas só no papel.</p>

</blockquote>
<h2>Conclusão: estamos virando um país censurado?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão-estamos-virando-um-país-censurado"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o-estamos-virando-um-pa%c3%ads-censurado" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O padrão é o que me preocupa, não os episódios isolados. Em 2024, o X ficou um mês fora do ar no Brasil por ordem monocrática. Em 2025, caiu o art. 19 do Marco Civil e a responsabilidade das plataformas virou proativa. Em 2026, a ECA Digital entregou ao Executivo um pacote de obrigações tão intrusivo que, na primeira vez usado, derrubou um recurso criptografado no país inteiro — enquanto o líder de 14 anos do grupo que motivou a sanção enfrenta, no máximo, três anos de internação. E o sigilo da fonte jornalística foi furado por via forense, com aval do mesmo tribunal que o consagrou.</p>
<p>Cada degrau dessa escada tem uma justificativa simpática, e é exatamente por isso que a escada é perigosa. Ninguém constrói infraestrutura de censura dizendo que é pra censura. Constrói-se pra proteger crianças, pra proteger ministros, pra proteger a democracia.</p>
<p>O problema é que <strong>infraestrutura não tem dono moral</strong>. A régua que hoje mede o Discord mede qualquer aplicativo amanhã. A fiscalização que hoje exige transmissão aberta pra proteger a Lívia vai exigir transmissão aberta pra qualquer coisa que o governo de plantão queira ver. A quebra de sigilo que hoje pega a fonte do caso Dino pega qualquer fonte, de qualquer caso, contra qualquer um.</p>
<p>E o detalhe mais revelador da semana: das duas plataformas que o Ministério da Justiça pediu pra investigar, a sancionada foi a que tem escritório, CNPJ e advogados no Brasil — a que <em>coopera</em>. A mensagem que o regulador mandou pro mercado foi invertida: <strong>cooperar te expõe; ser opaco te protege</strong>. Os adolescentes do grupo neonazista de Naviraí não vão pra lugar nenhum — vão pro Telegram, que ninguém tocou.</p>
<p>E tem o traço mais brasileiro de todos nesse arranjo: ficou impossível estar em dia com a lei. Se você protege seus usuários de verdade, com criptografia de ponta a ponta, descumpre a ECA Digital. Se cumpre a ECA Digital, abre os dados dos seus usuários e descumpre a LGPD. Se coleta documento pra verificar idade, vira alvo de vazamento e de sanção; se não coleta, vira alvo de fiscalização. <strong>Não existe configuração segura.</strong></p>
<p>E isso é tradição nossa: leis tão amplas, com tantas exceções empilhadas, que qualquer um vira infrator por acidente em qualquer esquina. Quando todo mundo está sempre devendo, a lei deixa de ser regra e vira opção — o poder real migra pra quem escolhe contra quem aplicar. Foi o que aconteceu essa semana: duas plataformas investigadas, uma punida. A que tinha endereço aqui.</p>
<p>Proteger crianças é dever civilizatório inegociável. Investigar crime contra ministro é obrigação do Estado. A pergunta que fica não é se essas causas são legítimas — são. É se o Brasil ainda consegue perseguir causas legítimas sem demoliar as garantias que tornam o país uma democracia liberal: privacidade real, criptografia funcional, imprensa com fonte protegida. Essa semana, a resposta foi não três vezes seguidas.</p>
<p>Não é censura de regime. É pior, de certa forma: é censura por acumulado, votada, sancionada e aplaudida, cada tijolo com uma plaquinha de boa intenção. E a gente só percebe o muro quando ele já está em volta.</p>
]]></content:encoded><category>seguranca</category><category>leis-e-regulacao</category><category>politica</category></item><item><title>Por que uma eleição digital perfeita ainda não seria viável?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/08/07/por-que-uma-eleicao-digital-perfeita-ainda-nao-seria-viavel/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/08/07/por-que-uma-eleicao-digital-perfeita-ainda-nao-seria-viavel/</guid><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 10:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Toda eleição no Brasil vira a mesma novela: metade do país não confia no resultado. E, diferente da maioria dos países, aqui não tem o que recontar. O Brasil é um dos poucos países do mundo com eleição &lt;strong&gt;100% digital&lt;/strong&gt;: sem recibo de papel, sem cédula física, sem possibilidade de recontagem independente. O voto entra numa urna eletrônica, vira um número dentro de um software fechado e sai um boletim. Ou você confia no TSE, ou não tem o que fazer.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Toda eleição no Brasil vira a mesma novela: metade do país não confia no resultado. E, diferente da maioria dos países, aqui não tem o que recontar. O Brasil é um dos poucos países do mundo com eleição <strong>100% digital</strong>: sem recibo de papel, sem cédula física, sem possibilidade de recontagem independente. O voto entra numa urna eletrônica, vira um número dentro de um software fechado e sai um boletim. Ou você confia no TSE, ou não tem o que fazer.</p>
<p>Recentemente o TSE fez um teatrinho: <a href="https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Junho/eleicoes-2026-tse-abre-urna-eletronica-para-tecnicos-da-sociedade-brasileira-de-computacao"target="_blank" rel="noopener">&ldquo;abriu a urna&rdquo;</a> pra técnicos da Sociedade Brasileira de Computação verem os componentes. Isso é obviamente inútil. Mostrar placa-mãe, processador e memória não prova que não existe malware. Hardware é só o palco; a peça acontece no software. E auditar o software é justamente o que é difícil, restrito, cheio de ritual e janela curta — o que derrota completamente o propósito de transparência pública. Uma auditoria que só meia dúzia de credenciados consegue fazer, sob supervisão, por alguns dias, não é transparência. É encenação.</p>
<p>E pra deixar claro: eu não defendo o sistema atual, nem tenho expectativa nenhuma nele. Como resumi <a href="https://x.com/AkitaOnRails/status/2084669984555331706"target="_blank" rel="noopener">neste tweet</a>: a urna é só uma caixa, um PC velho. Mesmo que o software fosse perfeito, não faria diferença — os processos ao redor continuam secretos, feitos debaixo dos panos. A urna é cortina de fumaça. Com ou sem alternativa, eu não ligo pra ela.</p>
<p>Muita gente conclui daí que o certo seria ter eleição digital, mas com um sistema diferente. Esse artigo é um exercício de ciência da computação: como seria um sistema hipoteticamente perfeito? E, mais importante, a conclusão final: <strong>por que mesmo esse sistema perfeito não seria uma opção viável.</strong></p>
<p>Uma coisa que vale enfatizar antes de começar: o sistema que vou descrever não exigiria <strong>nenhum</strong> segredo do governo. Nenhum componente secreto, nenhum processo secreto, nenhuma sala trancada com credenciado vigiando. Tudo — o código, os dados, a estrutura inteira — poderia ser 100% aberto, acessível pra qualquer pessoa, sem restrição nenhuma. E ainda assim seria possível provar, matematicamente, que fraudar é impossível. É exatamente o oposto do modelo atual, em que a confiança nasce do sigilo.</p>
<blockquote>
  <p>Sem paciência pra código e matemática no meio do caminho? <a href="#e-por-que-isso-nunca-funcionaria">Pule direto pra parte em que explico por que isso não funcionaria</a>. E no fim do artigo, três apêndices: <a href="#ap%c3%aandice-1-afinal-o-sistema-atual-%c3%a9-audit%c3%a1vel">o sistema atual é auditável?</a>, <a href="#ap%c3%aandice-2-skin-in-the-game--recompensar-quem-verifica">como dar incentivo pra quem verifica o voto</a> e <a href="#ap%c3%aandice-3-por-que-conhecimento-zero-%c3%a9-t%c3%a3o-dif%c3%adcil-de-engolir">por que &ldquo;conhecimento zero&rdquo; é tão difícil de engolir</a>.</p>

</blockquote>
<h2>&ldquo;A urna é segura porque não está na internet&rdquo;<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-urna-é-segura-porque-não-está-na-internet"></span>
    <a href="#a-urna-%c3%a9-segura-porque-n%c3%a3o-est%c3%a1-na-internet" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Todo defensor do sistema atual saca esse argumento mais cedo ou mais tarde: a urna não está conectada à internet, logo não pode ser hackeada de fora. Tecnicamente é verdade. E é completamente irrelevante.</p>
<p>Primeiro, porque isolamento não diz nada sobre o que o software faz. Uma urna offline pode trocar votos do mesmo jeito — você só não tem como assistir ela fazendo isso. E malware não precisa de rede pra chegar: pode vir de fábrica, numa atualização, na cadeia de suprimentos, de um técnico com acesso físico. O Stuxnet, o worm mais famoso da história, atravessou o air gap das centrífugas iranianas via pendrive. Air gap é obstáculo, não é prova de honestidade. E repare: o dado da urna precisa sair dela de algum jeito no fim do dia, em mídia física transportada ou transmissão posterior. &ldquo;Não está na internet&rdquo; é uma meia-verdade logística.</p>
<p>Segundo, e mais importante: esse argumento revela o modelo mental errado. A segurança do sistema atual nasce de <strong>custódia física</strong> — lacres, salas trancadas, credenciados, rituais. Ou seja, mais uma vez, de confiar em gente e em processo que você não vê.</p>
<p>No sistema que vou descrever, a urna poderia estar <strong>ligada direto na internet</strong>, publicando cada voto na árvore pública em tempo real, e ainda assim seria impossível fraudar. Não porque a rede seja segura, mas porque ninguém precisa confiar na urna:</p>
<ul>
<li>O que ela publica são compromissos opacos: mesmo transmitindo tudo ao vivo, não existe voto pra vazar nos dados publicados.</li>
<li>Cada compromisso carrega uma prova matemática de validade: a urna não consegue inventar voto inválido.</li>
<li>A árvore é pública e replicada por observadores independentes: nada do que foi publicado pode ser alterado depois sem quebrar os hashes.</li>
<li>E se a urna trocar seu voto na hora, o desafio de Benaloh pega (é a Peça 4, mais adiante): ela não sabe se você vai confirmar ou auditar.</li>
</ul>
<p>Estar ou não na internet deixa de ser a questão. A segurança não mora na ausência de rede; mora na verificação pública. &ldquo;Confie, a máquina está trancada numa sala&rdquo; vira &ldquo;não confie em nada, confira a matemática&rdquo;. Essa inversão é a única coisa que o modelo atual não consegue oferecer.</p>
<h2>O tweet que inspirou este post<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-tweet-que-inspirou-este-post"></span>
    <a href="#o-tweet-que-inspirou-este-post" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Recentemente eu postei <a href="https://x.com/AkitaOnRails/status/2085550756837335483"target="_blank" rel="noopener">este tweet</a> sobre verificabilidade ponta a ponta (E2E-V, <em>end-to-end verifiability</em>). O resumo da ideia:</p>
<ol>
<li>Cada eleitor recebe um recibo em papel com um identificador único — um hash — que <strong>não identifica a pessoa nem o voto</strong>.</li>
<li>Os votos de cada urna entram numa estrutura pública onde só se acrescenta, nunca se apaga (<em>append-only</em>): uma Merkle tree (o mesmo princípio de uma blockchain).</li>
<li>Essa árvore é publicada na íntegra. Qualquer cidadão baixa e verifica.</li>
<li><strong>Verificabilidade individual:</strong> cada eleitor checa se o seu hash está lá, sem intermediário.</li>
<li><strong>Verificabilidade universal:</strong> qualquer um refaz a conta da árvore e confere se ela produz o total anunciado.</li>
</ol>
<p>Eu deixei explícito no tweet: isso <strong>não</strong> é uma solução, é uma ideia de guardanapo. O conceito existe, é matematicamente sólido e não é novidade pra ninguém de ciência da computação. Mas a reação foi interessante.</p>
<h2>O problema do voto de cabresto<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-problema-do-voto-de-cabresto"></span>
    <a href="#o-problema-do-voto-de-cabresto" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Boa parte dos comentários travou no mesmo ponto: o voto de cabresto. No Brasil isso é prática histórica: o coronel compra o voto do eleitor pobre e exige prova de que ele votou &ldquo;direito&rdquo;. Antigamente era a cédula pré-marcada; hoje seria a foto da tela da urna (por isso celular é proibido na cabine).</p>
<p>E aí surge a aparente contradição:</p>
<ul>
<li>Se o recibo que o eleitor leva pra casa <strong>revela</strong> pra quem ele votou, ele pode ser coagido ou vendido.</li>
<li>Se o recibo <strong>não revela</strong> pra quem ele votou, como o eleitor confere que o voto dele foi pro candidato certo?</li>
</ul>
<p>Recentemente postei a resposta, ainda que só de passagem: <strong>prova de conhecimento zero</strong> (zero-knowledge proof, ZK). O mesmo princípio por trás de criptomoedas verdadeiramente anônimas como Monero e Zcash.</p>
<p>O fluxo seria assim: o eleitor escolhe o candidato na tela; a urna gera um número aleatório secreto, computa <code>ciphertext = Enc(chave_publica_da_eleicao, voto; aleatorio)</code>, gera uma prova ZK de que esse ciphertext contém um voto válido, e publica tudo numa Merkle tree pública. O eleitor leva pra casa só um número de série. O serial <strong>não contém o voto</strong>, mas permite provar que o voto existe na árvore e não foi adulterado.</p>
<p>Agora vamos destrinchar isso pra programador, passo a passo, com valores reais — e no final eu explico por que isso, mesmo funcionando perfeitamente, não resolveria nada.</p>
<h2>Peça 1: hash como compromisso<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-1-hash-como-compromisso"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-1-hash-como-compromisso" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A fundação de tudo é a função de hash. Uma função como SHA-256 pega qualquer entrada e produz 32 bytes aparentemente aleatórios. Três propriedades importam aqui:</p>
<ul>
<li><strong>Determinística:</strong> mesma entrada, mesma saída. Sempre.</li>
<li><strong>Unidirecional:</strong> dado o hash, não dá pra voltar à entrada.</li>
<li><strong>Avalanche:</strong> mudar um bit da entrada muda o hash inteiro.</li>
</ul>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="kn">import</span> <span class="nn">hashlib</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="k">def</span> <span class="nf">commit</span><span class="p">(</span><span class="n">voto</span><span class="p">,</span> <span class="n">nonce</span><span class="p">):</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">return</span> <span class="n">hashlib</span><span class="o">.</span><span class="n">sha256</span><span class="p">(</span><span class="sa">f</span><span class="s2">&#34;</span><span class="si">{</span><span class="n">voto</span><span class="si">}</span><span class="s2">:</span><span class="si">{</span><span class="n">nonce</span><span class="si">}</span><span class="s2">&#34;</span><span class="o">.</span><span class="n">encode</span><span class="p">())</span><span class="o">.</span><span class="n">hexdigest</span><span class="p">()</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
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  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">commit(&#39;Candidato A&#39;, 987654321) = 337051f1dbc6a8ef412ecc14067c263d6a0dc83dada6939b51d74b6651727b69
</span></span><span class="line"><span class="cl">commit(&#39;Candidato A&#39;, 123456789) = 55512bcd60924abf68d162f1a130023635089974db08ea9cff691e1f209898ab
</span></span><span class="line"><span class="cl">commit(&#39;Candidato B&#39;, 987654321) = faf54e90eb84ba4c0446701c3779a382e48d02847bd2301f3836f673c54f9693</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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  </button>
</div>
</div>
<p>Olhe com atenção. O primeiro e o segundo hash escondem <strong>o mesmo voto</strong> — o que muda é o <code>nonce</code>, um número aleatório que serve de &ldquo;embalagem&rdquo;. O primeiro e o terceiro têm o mesmo nonce, mas votos diferentes. Os três hashes não têm nenhuma semelhança visível entre si.</p>
<p>Isso é um <strong>compromisso</strong> (<em>commitment</em>): eu publico o hash hoje, e amanhã posso revelar <code>(voto, nonce)</code> e qualquer um confere que o hash bate. Eu não consigo mudar o voto depois de publicado (propriedade <em>binding</em>), e ninguém consegue descobrir o voto antes da revelação (propriedade <em>hiding</em>).</p>
<p>Só que tem um problema pra nossa eleição: se o eleitor leva pra casa o voto e o nonce, ele pode <strong>mostrar os dois pro coagidor</strong>, que verifica o hash e confirma o voto. Cabresto de volta. Precisamos de algo melhor.</p>
<h2>Peça 2: compromissos Pedersen — esconder de verdade<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-2-compromissos-pedersen--esconder-de-verdade"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-2-compromissos-pedersen--esconder-de-verdade" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O compromisso de Pedersen resolve isso com aritmética modular. Vou usar números de brinquedo pra você poder conferir na mão; sistemas reais usam primos de 2048 bits ou curvas elípticas, mas a matemática é idêntica.</p>
<p>Pegue um primo <code>p = 23</code> e dois geradores <code>g = 4</code> e <code>h = 8</code> (ambos geram um subgrupo de ordem 11 módulo 23 — confira: <code>4^11 mod 23 = 1</code> e <code>8^11 mod 23 = 1</code>). O compromisso de um voto <code>v</code> com nonce <code>n</code> é:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">C = g^v * h^n  (mod p)</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="n">p</span><span class="p">,</span> <span class="n">q</span><span class="p">,</span> <span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">h</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">23</span><span class="p">,</span> <span class="mi">11</span><span class="p">,</span> <span class="mi">4</span><span class="p">,</span> <span class="mi">8</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="k">def</span> <span class="nf">pedersen</span><span class="p">(</span><span class="n">v</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">):</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">return</span> <span class="p">(</span><span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">v</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">h</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">p</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">C(voto=1, n=3)  = 1
</span></span><span class="line"><span class="cl">C(voto=1, n=9)  = 13
</span></span><span class="line"><span class="cl">C(voto=0, n=3)  = 6</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Mesmo voto, nonces diferentes, compromissos completamente diferentes. O Pedersen tem uma propriedade chamada <strong>ocultação perfeita</strong> (<em>perfectly hiding</em>): para qualquer compromisso <code>C</code>, <strong>existe</strong> um nonce que abre <code>C</code> como voto 0, e <strong>existe</strong> um nonce que abre <code>C</code> como voto 1. Com nosso primo de brinquedo dá pra provar por força bruta:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="n">C</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">1</span>  <span class="c1"># o compromisso de cima, C(voto=1, n=3)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="k">for</span> <span class="n">n</span> <span class="ow">in</span> <span class="nb">range</span><span class="p">(</span><span class="mi">11</span><span class="p">):</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">if</span> <span class="n">pedersen</span><span class="p">(</span><span class="mi">0</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">)</span> <span class="o">==</span> <span class="n">C</span><span class="p">:</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="nb">print</span><span class="p">(</span><span class="sa">f</span><span class="s2">&#34;C abre como voto=0 com nonce </span><span class="si">{</span><span class="n">n</span><span class="si">}</span><span class="s2">&#34;</span><span class="p">)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">if</span> <span class="n">pedersen</span><span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">)</span> <span class="o">==</span> <span class="n">C</span><span class="p">:</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="nb">print</span><span class="p">(</span><span class="sa">f</span><span class="s2">&#34;C abre como voto=1 com nonce </span><span class="si">{</span><span class="n">n</span><span class="si">}</span><span class="s2">&#34;</span><span class="p">)</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
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    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">C=1 abre como voto=0 com nonce 0
</span></span><span class="line"><span class="cl">C=1 abre como voto=1 com nonce 3</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Leia de novo, porque este é o coração do artigo. O compromisso <code>C = 1</code> é compatível com <strong>as duas histórias</strong>. Quem vê só o <code>C</code> não tem como saber qual é a verdadeira — nem por força bruta, nem com computador quântico, porque ambas as aberturas existem matematicamente. O valor <code>C</code> simplesmente não contém a informação do voto.</p>
<p>&ldquo;Mas espera&rdquo;, você diz, &ldquo;então o eleitor pode trocar de voto depois?&rdquo;. Não, e essa é a outra metade da propriedade: o compromisso é <strong>computacionalmente vinculante</strong> (<em>computationally binding</em>). Quem gerou o compromisso com <code>(voto=1, n=3)</code> só consegue revelar a outra abertura (<code>voto=0, n=0</code>) se conseguir calcular logaritmo discreto — ou seja, descobrir <code>x</code> tal que <code>g^x = h mod p</code>. Com <code>p = 23</code> é trivial; com 2048 bits, é computacionalmente impossível. Resumo:</p>
<ul>
<li><strong>Quem olha de fora</strong> não descobre o voto (ocultação).</li>
<li><strong>Quem gerou</strong> não consegue mudar o voto depois (vinculação).</li>
</ul>
<p>E o detalhe final que mata o cabresto: <strong>quem gera o nonce é a urna, não o eleitor.</strong> O eleitor vê seu voto na tela, a urna faz o compromisso internamente, descarta o nonce e imprime só o <code>C</code> — o serial. O eleitor sai da cabine sem ter como abrir o próprio compromisso, nem que queira.</p>
<p>(Um detalhe de implementação que vou simplificar daqui pra frente: o Pedersen esconde tão bem que <strong>ninguém</strong> consegue decriptá-lo — nem as autoridades na hora de apurar. Na prática, a urna publica junto um ciphertext ElGamal do mesmo voto: igualmente opaco pra quem olha de fora, mas decriptável pelas autoridades na apuração, com uma prova ZK de que os dois carregam o mesmo voto. Nosso Pedersen de brinquedo faz o papel dos dois neste artigo, pra manter a matemática com números pequenos.)</p>
<h2>Peça 3: a Merkle tree — a urna que qualquer um audita<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-3-a-merkle-tree--a-urna-que-qualquer-um-audita"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-3-a-merkle-tree--a-urna-que-qualquer-um-audita" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Onde ficam esses compromissos? Numa estrutura pública que qualquer pessoa pode baixar e verificar: uma Merkle tree. Se você assistiu meu vídeo sobre <a href="/2023/11/10/akitando-147-criptografia-na-pratica-certificados-bittorrent-git-bitcoin/">criptografia na prática — certificados, BitTorrent, Git, Bitcoin</a>, já viu essa estrutura em ação: é a mesma que escala o BitTorrent, organiza os commits do Git e as transações de um bloco de Bitcoin.</p>
<p>A construção é simples: cada folha é o hash de um voto (o compromisso <code>C</code> de um eleitor), e cada nó interno é o hash da concatenação dos dois filhos, até sobrar um único hash no topo: a <strong>raiz</strong>.</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="k">def</span> <span class="nf">H</span><span class="p">(</span><span class="n">x</span><span class="p">):</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">return</span> <span class="n">hashlib</span><span class="o">.</span><span class="n">sha256</span><span class="p">(</span><span class="n">x</span><span class="o">.</span><span class="n">encode</span><span class="p">())</span><span class="o">.</span><span class="n">hexdigest</span><span class="p">()</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">eleitores</span> <span class="o">=</span> <span class="p">[(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">3</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">0</span><span class="p">,</span> <span class="mi">7</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">2</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">10</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">0</span><span class="p">,</span> <span class="mi">5</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">1</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">0</span><span class="p">,</span> <span class="mi">8</span><span class="p">),</span> <span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">4</span><span class="p">)]</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">leaves</span> <span class="o">=</span> <span class="p">[</span><span class="n">H</span><span class="p">(</span><span class="sa">f</span><span class="s2">&#34;</span><span class="si">{</span><span class="n">i</span><span class="si">}</span><span class="s2">:</span><span class="si">{</span><span class="n">pedersen</span><span class="p">(</span><span class="n">v</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">)</span><span class="si">}</span><span class="s2">&#34;</span><span class="p">)</span> <span class="k">for</span> <span class="n">i</span><span class="p">,</span> <span class="p">(</span><span class="n">v</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">)</span> <span class="ow">in</span> <span class="nb">enumerate</span><span class="p">(</span><span class="n">eleitores</span><span class="p">)]</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
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  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Com os 8 votos de exemplo, as folhas ficam assim (hashes abreviados):</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">eleitor 0: voto=1 nonce=3  -&gt; C=1  -&gt; folha=ef134f2a180ba05d...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 1: voto=0 nonce=7  -&gt; C=12 -&gt; folha=ce356d2f943ea5af...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 2: voto=1 nonce=2  -&gt; C=3  -&gt; folha=8e0375adfc1f4563...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 3: voto=1 nonce=10 -&gt; C=12 -&gt; folha=df284a49f837c454...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 4: voto=0 nonce=5  -&gt; C=16 -&gt; folha=fd6df9e3530cb74f...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 5: voto=1 nonce=1  -&gt; C=9  -&gt; folha=e0e9d38f9ccb7a41...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 6: voto=0 nonce=8  -&gt; C=4  -&gt; folha=e719f7fde83fafda...
</span></span><span class="line"><span class="cl">eleitor 7: voto=1 nonce=4  -&gt; C=8  -&gt; folha=1393ac80e69a8991...
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl">RAIZ PUBLICA: 48826b6481b574e37156f85e34d877105bc55073fb5a5b981239572a8e7c4b61</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
    title="Copy code"
  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>(Os votos e nonces da tabela aparecem abertos só pra você conferir a conta; na árvore pública existem apenas as folhas — hashes opacos.)</p>
<p>A raiz é o &ldquo;resumo&rdquo; da eleição inteira: 32 bytes que representam todos os votos. Se <strong>um único bit</strong> de um único voto mudar, a raiz muda completamente. Publica-se a raiz e a árvore inteira. Qualquer cidadão, em casa, com código aberto, refaz a árvore e confere se a raiz publicada bate. Isso é a <strong>verificabilidade universal</strong>.</p>
<p>Pra verificação individual, suponha que você é o eleitor 4. Seu recibo é o serial — a folha <code>fd6df9e3530cb74f1f0795b751a43454cab281a431d0558b413e33bba83a4100</code>, que é o hash do seu compromisso <code>C = 16</code> na posição 4 da árvore. Pra provar que ele está na árvore, você não precisa baixar e conferir todos os 8 votos — precisa de apenas <code>log2(8) = 3</code> hashes, o caminho dos &ldquo;irmãos&rdquo; até a raiz:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="k">def</span> <span class="nf">merkle_verify</span><span class="p">(</span><span class="n">leaf</span><span class="p">,</span> <span class="n">proof</span><span class="p">,</span> <span class="n">root</span><span class="p">):</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="n">cur</span> <span class="o">=</span> <span class="n">leaf</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">for</span> <span class="n">h_</span><span class="p">,</span> <span class="n">side</span> <span class="ow">in</span> <span class="n">proof</span><span class="p">:</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">        <span class="n">cur</span> <span class="o">=</span> <span class="n">H</span><span class="p">(</span><span class="n">h_</span> <span class="o">+</span> <span class="n">cur</span><span class="p">)</span> <span class="k">if</span> <span class="n">side</span> <span class="o">==</span> <span class="s2">&#34;esq&#34;</span> <span class="k">else</span> <span class="n">H</span><span class="p">(</span><span class="n">cur</span> <span class="o">+</span> <span class="n">h_</span><span class="p">)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">    <span class="k">return</span> <span class="n">cur</span> <span class="o">==</span> <span class="n">root</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
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  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-text" data-lang="text"><span class="line"><span class="cl">prova do eleitor 4:
</span></span><span class="line"><span class="cl">  (dir) e0e9d38f9ccb7a41...  (irmão: folha do eleitor 5)
</span></span><span class="line"><span class="cl">  (dir) 3149c3bf17d98fbc...  (irmão: nó dos eleitores 6-7)
</span></span><span class="line"><span class="cl">  (esq) 3b902c849a40619b...  (irmão: nó dos eleitores 0-3)
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl">verificação local: True
</span></span><span class="line"><span class="cl">tentando folha adulterada: False</span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
  <button
    class="hextra-code-copy-btn hx:group/copybtn hx:cursor-pointer hx:transition-all hx:active:opacity-50 hx:bg-primary-700/5 hx:border hx:border-black/5 hx:text-gray-600 hx:hover:text-gray-900 hx:rounded-md hx:p-1.5 hx:dark:bg-primary-300/10 hx:dark:border-white/10 hx:dark:text-gray-400 hx:dark:hover:text-gray-50"
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  >
    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>Você pega seu serial, concatena com os 3 hashes da prova na ordem certa, hasheia três vezes e confere se chegou na raiz pública. Se chegou, <strong>é matematicamente impossível</strong> que seu voto não esteja na árvore — porque produzir uma prova falsa exigiria encontrar uma colisão no SHA-256, e ninguém no planeta sabe fazer isso. Se alguém trocar seu voto depois, sua prova deixa de funcionar e você tem a evidência da fraude na mão. Numa eleição real com 150 milhões de votos, a prova teria uns 28 hashes — cabe num recibo de papel ou num QR code.</p>
<p>Repare no que acabou de acontecer: você provou que <strong>uma informação está na árvore pública</strong> e que <strong>ninguém mexeu nela</strong>, carregando pra casa apenas um número de 32 bytes que, sozinho, não diz absolutamente nada sobre o conteúdo. É isso que as pessoas querem dizer com &ldquo;zero knowledge&rdquo; nesse contexto: a verificação acontece sem que o conhecimento (o voto) precise circular.</p>
<h2>Peça 4: o desafio de Benaloh — conferindo a urna na hora<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-4-o-desafio-de-benaloh--conferindo-a-urna-na-hora"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-4-o-desafio-de-benaloh--conferindo-a-urna-na-hora" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Sobrou um ponto cego. A urna mostra na tela &ldquo;voto registrado&rdquo; e imprime seu serial <code>C</code>. Em casa, você confere que <code>C</code> está na árvore. Tudo certo? Nem tanto. E se a urna tiver <strong>mentido</strong> e comprometido outro voto? Na tela ela mostra o candidato que você escolheu, mas por dentro calcula o compromisso de outro. Você jamais perceberia, porque o compromisso é opaco por design. É a propriedade de ocultação trabalhando contra você.</p>
<p>A solução clássica é do criptógrafo Josh Benaloh, e ficou conhecida como <strong>desafio de Benaloh</strong> (ou <em>cast-or-challenge</em>). A ideia: depois que a urna mostra o compromisso <code>C</code> na tela, mas <strong>antes</strong> de você confirmar, existem duas opções:</p>
<ul>
<li><strong>Confirmar</strong>: o voto vale, entra na árvore e o nonce é descartado pra sempre.</li>
<li><strong>Desafiar</strong>: você declara aquela cédula um <strong>voto de teste</strong>. A urna é obrigada a revelar o nonce e o voto que ela pôs dentro do compromisso, e você refaz a conta na hora — num app independente, no seu próprio celular, não no software da urna:</li>
</ul>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># a urna mostrou na tela: C = 1</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># você desafiou; a urna revela: voto=1, nonce=3</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">pedersen</span><span class="p">(</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="mi">3</span><span class="p">)</span> <span class="o">==</span> <span class="mi">1</span>   <span class="c1"># True -&gt; a urna comprometeu exatamente o que você escolheu</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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  </button>
</div>
</div>
<p>Se bate, a urna foi honesta <strong>naquela cédula</strong>. A cédula de teste é anulada, não entra na apuração — o nonce revelado a tornaria legível — e você vota de novo, agora pra valer.</p>
<p>Agora suponha uma urna adulterada, que troca uma fração dos votos. Você escolhe <code>voto=1</code>; ela registra por dentro <code>voto=0</code> e mostra <code>C = 12</code> na tela (<code>pedersen(0, 7) = 12</code>). Se você <strong>confirmar</strong>, a fraude passa batida. Mas se você <strong>desafiar</strong>, a urna está encurralada: precisa revelar um par <code>(voto, nonce)</code> que abra <code>C = 12</code>. O único que ela conhece é <code>(0, 7)</code> — e revelar isso expõe a troca na sua frente: &ldquo;eu votei 1!&rdquo;. Abrir como <code>voto=1</code> exigiria achar um nonce <code>n</code> com <code>pedersen(1, n) = 12</code>, que é o problema do logaritmo discreto de novo. Com nosso primo de brinquedo dá pra achar por força bruta (existe: <code>n = 10</code>), mas com primos de 2048 bits a urna trapaceira simplesmente não consegue produzir a resposta.</p>
<p>E o que fecha a armadilha: a urna <strong>não sabe de antemão</strong> se você vai confirmar ou desafiar. A decisão é sua, tomada depois que o compromisso já foi mostrado. Se uma parcela dos eleitores testa algumas cédulas antes de votar pra valer, uma urna que adultera votos em escala é pega com probabilidade esmagadora. Sistemas reais de votação verificável, como o Helios e o ElectionGuard, usam exatamente esse mecanismo.</p>
<p>E note que isso não fere o sigilo de nada: o nonce revelado é de uma cédula <strong>anulada</strong>, que não conta. O voto que vale continua com o nonce descartado e o compromisso impenetrável.</p>
<h2>Peça 5: prova de conhecimento zero de verdade — Schnorr<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-5-prova-de-conhecimento-zero-de-verdade--schnorr"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-5-prova-de-conhecimento-zero-de-verdade--schnorr" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Falta mais uma peça. Quem garante que cada compromisso na árvore contém um <strong>voto válido</strong> — e não, digamos, <code>voto = 500</code>, que inflaria o resultado? A urna precisa provar que o compromisso abre pra um valor legítimo <strong>sem abrir o compromisso</strong>. Isso é uma prova de conhecimento zero no sentido estrito.</p>
<p>O exemplo canônico, e que dá pra demonstrar com números pequenos, é o protocolo de <strong>Schnorr</strong>: provar que você conhece um segredo <code>s</code> tal que <code>y = g^s mod p</code>, sem revelar <code>s</code>. A intuição antes da matemática: é a caverna de Ali Babá. A caverna tem duas passagens que se encontram numa porta trancada. Você prova que tem a chave entrando por um lado e saindo pelo que o verificador pedir — sem nunca mostrar a chave. Se não tivesse a chave, você só acertaria o pedido por sorte, 50% das vezes; depois de 20 rodadas, a chance de enganar é menor que uma em um milhão.</p>
<p>A versão matemática, com nossos números de brinquedo (<code>p = 23</code>, <code>g = 4</code>, ordem <code>q = 11</code>):</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="n">segredo</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">7</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">y</span> <span class="o">=</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">segredo</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span>   <span class="c1"># y = 4^7 mod 23 = 8  (valor público)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 1. compromisso: o provador escolhe r aleatório e envia t</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">r</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">3</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">t</span> <span class="o">=</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">r</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span>          <span class="c1"># t = 4^3 mod 23 = 18</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 2. desafio: o verificador escolhe c aleatório</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">c</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">5</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 3. resposta: o provador calcula z</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">z</span> <span class="o">=</span> <span class="p">(</span><span class="n">r</span> <span class="o">+</span> <span class="n">c</span> <span class="o">*</span> <span class="n">segredo</span><span class="p">)</span> <span class="o">%</span> <span class="n">q</span>  <span class="c1"># z = (3 + 5*7) mod 11 = 5</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># verificação: g^z == t * y^c (mod p)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">esq</span> <span class="o">=</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">z</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span>                 <span class="c1"># 4^5 mod 23 = 12</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="nb">dir</span> <span class="o">=</span> <span class="p">(</span><span class="n">t</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">y</span><span class="p">,</span> <span class="n">c</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">p</span>       <span class="c1"># 18 * 8^5 mod 23 = 12</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="nb">print</span><span class="p">(</span><span class="n">esq</span> <span class="o">==</span> <span class="nb">dir</span><span class="p">)</span>                  <span class="c1"># True</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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</div>
</div>
<p>Funciona porque <code>g^z = g^(r + c·s) = g^r · (g^s)^c = t · y^c</code>. A álgebra fecha. Agora observe o que o verificador viu: os números <code>t</code>, <code>c</code>, <code>z</code> e a conferência final. Em nenhum momento o segredo <code>s = 7</code> apareceu. E um impostor que não sabe <code>s</code> não consegue responder a um desafio arbitrário: se ele chutar <code>z = 2</code>, o verificador calcula <code>g^2 = 16 ≠ 12</code> e a fraude aparece.</p>
<p>E por que o verificador aprende <strong>nada</strong> sobre <code>s</code>, e não apenas &ldquo;pouco&rdquo;? Porque a conversa inteira poderia ter sido fabricada por alguém que <strong>não sabe o segredo</strong>, nesta ordem invertida:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># simulador: escolhe c e z PRIMEIRO, depois calcula t que fecha a equação</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">c_sim</span><span class="p">,</span> <span class="n">z_sim</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">5</span><span class="p">,</span> <span class="mi">9</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">t_sim</span> <span class="o">=</span> <span class="p">(</span><span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">z_sim</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">y</span><span class="p">,</span> <span class="o">-</span><span class="n">c_sim</span> <span class="o">%</span> <span class="n">q</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">p</span>  <span class="c1"># t = 8</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># conferência do transcrito forjado:</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">g</span><span class="p">,</span> <span class="n">z_sim</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">)</span>              <span class="c1"># 4^9 mod 23 = 13</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="p">(</span><span class="n">t_sim</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">y</span><span class="p">,</span> <span class="n">c_sim</span><span class="p">,</span> <span class="n">p</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">p</span>  <span class="c1"># 8 * 8^5 mod 23 = 13  -&gt; bate!</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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    <div class="hextra-copy-icon hx:group-[.copied]/copybtn:hidden hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
<div class="hextra-success-icon hx:hidden hx:group-[.copied]/copybtn:block hx:pointer-events-none hx:h-4 hx:w-4"></div>
  </button>
</div>
</div>
<p>O transcrito forjado <code>(t=8, c=5, z=9)</code> passa na verificação e é <strong>indistinguível</strong> de um transcrito real. Se qualquer um consegue fabricar uma conversa válida sem saber o segredo, então a conversa real não pode conter informação nenhuma sobre o segredo. É isso que &ldquo;conhecimento zero&rdquo; significa formalmente. (Pra usar fora de um laboratório, o desafio <code>c</code> é derivado por hash do compromisso — a transformação Fiat-Shamir — e a prova vira um objeto único, não-interativo, que qualquer um verifica offline.)</p>
<p>Na nossa eleição hipotética, a urna publica junto com cada voto uma prova desse tipo — na prática, uma variante em disjunção (&ldquo;o voto é 0 <strong>ou</strong> é 1&rdquo;, sem dizer qual) — e qualquer auditor verifica que todo voto na árvore é válido, sem nunca ver voto nenhum.</p>
<h2>Peça 6: quem impede os votos fantasmas?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="peça-6-quem-impede-os-votos-fantasmas"></span>
    <a href="#pe%c3%a7a-6-quem-impede-os-votos-fantasmas" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Resta um furo, e é um dos favoritos de quem desconfia de eleição digital: o que impede a autoridade de <strong>enfiar votos inventados na árvore</strong>? Cada compromisso na Merkle tree carrega uma prova ZK de que contém um voto válido — mas a prova só garante que o valor é 0 ou 1. Mil votos fantasmas seriam mil compromissos perfeitamente válidos, com provas perfeitamente corretas. A árvore é pública, qualquer um pode contar as folhas&hellip; mas quem garante que deveriam ser 8 e não 8 mil?</p>
<p>A primeira resposta é a replicação. A árvore segue o modelo das <em>transparency logs</em> — o mesmo Certificate Transparency que protege os certificados HTTPS que você usa o dia inteiro: um publicador escreve, e dezenas de observadores independentes (partidos, OAB, universidades, imprensa, você) copiam a árvore, assinam a raiz e conferem entre si. Reescrever o histórico exigiria convencer todos eles a aceitar uma raiz diferente da que já assinaram.</p>
<p>Isso protege o que já foi publicado. Mas e a <strong>criação</strong> de votos fantasmas? Aí entra a peça mais elegante de todas, e ela é do mesmo David Chaum que inventou o dinheiro digital e as mix-nets: a <strong>assinatura cega</strong> (<em>blind signature</em>, 1982).</p>
<p>O fluxo: você se autentica na mesa como hoje — documento, biometria. Na cabine, a urna calcula seu compromisso (Peça 2), mas antes de publicá-lo precisa de uma credencial da mesa. Ela <strong>cega</strong> o compromisso com um fator aleatório e manda pra mesa só o valor cego — e aqui estar online não é problema nenhum, como vimos na seção do air gap. A mesa, que já registrou sua autenticação, assina uma única vez, sem ver o conteúdo. A urna descega a assinatura e publica o par <code>(compromisso, assinatura)</code>. No fim, a mesa não faz ideia de qual compromisso assinou — logo, não consegue vincular sua identidade ao seu voto. Com RSA de brinquedo, dá pra ver a mágica acontecendo:</p>
<div class="hextra-code-block hx:relative hx:mt-6 hx:first:mt-0 hx:group/code">

<div><div class="highlight"><pre tabindex="0" class="chroma"><code class="language-python" data-lang="python"><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># RSA de brinquedo da mesa: n=3233, e=17 (público), d=2753 (privado)</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">n</span><span class="p">,</span> <span class="n">e</span><span class="p">,</span> <span class="n">d</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">3233</span><span class="p">,</span> <span class="mi">17</span><span class="p">,</span> <span class="mi">2753</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">C</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">16</span>        <span class="c1"># seu compromisso Pedersen, o mesmo da Peça 3</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 1. a urna cega o compromisso com um fator aleatório r</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">r</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">7</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">cego</span> <span class="o">=</span> <span class="p">(</span><span class="n">C</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">r</span><span class="p">,</span> <span class="n">e</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">n</span>       <span class="c1"># 2341 -&gt; só isso vai pra mesa</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 2. a mesa, que já registrou sua autenticação, assina o valor CEGO</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">ass_cego</span> <span class="o">=</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">cego</span><span class="p">,</span> <span class="n">d</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">)</span> <span class="o">%</span> <span class="n">n</span>      <span class="c1"># 216</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># 3. a urna remove o fator cego e publica (C, s) na árvore</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="n">s</span> <span class="o">=</span> <span class="p">(</span><span class="n">ass_cego</span> <span class="o">*</span> <span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">r</span><span class="p">,</span> <span class="o">-</span><span class="mi">1</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">))</span> <span class="o">%</span> <span class="n">n</span>  <span class="c1"># 2802</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl">
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="c1"># qualquer auditor verifica: s^e mod n == C ?</span>
</span></span><span class="line"><span class="cl"><span class="nb">print</span><span class="p">(</span><span class="nb">pow</span><span class="p">(</span><span class="n">s</span><span class="p">,</span> <span class="n">e</span><span class="p">,</span> <span class="n">n</span><span class="p">))</span>   <span class="c1"># 16 -&gt; o compromisso, com assinatura válida!</span></span></span></code></pre></div></div><div class="hextra-code-copy-btn-container hx:opacity-0 hx:transition hx:group-hover/code:opacity-100 hx:flex hx:gap-1 hx:absolute hx:m-[11px] hx:right-0 hx:top-0">
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  </button>
</div>
</div>
<p>Repare: a mesa só viu o número 2341, que pra ela é ruído. Ela assinou 216 sem saber que estava assinando o seu <code>C = 16</code>. Mesmo assim, o par <code>(C, s)</code> passa na verificação de qualquer auditor. É uma assinatura digital normal — <code>s</code> é exatamente <code>C^d mod n</code> — só que produzida sem que o signatário visse o documento. Parece truque de mágico, mas é só álgebra do RSA: cegar multiplica por <code>r^e</code>; assinar eleva tudo a <code>d</code>, e como <code>e·d ≡ 1</code>, sobra <code>C^d · r</code>; descegar divide por <code>r</code> e resta <code>C^d</code>.</p>
<p>Agora monte o quadro completo: <strong>uma folha só entra na árvore se vier com duas coisas — a prova ZK de validade (Peça 5) e uma credencial assinada pela mesa (Peça 6).</strong> A mesa emite uma credencial por autenticação, e autenticação é evento público: tem fila na seção, mesário, fiscal de partido, log biométrico, contagem de comparecimento publicada por seção. No fim do dia, a conta que qualquer um confere é:</p>
<p><strong>número de folhas na árvore == número de eleitores autenticados.</strong></p>
<p>Voto fantasma é folha sem credencial (não entra) ou credencial sem eleitor (infla a contagem e aparece). Remover um voto legítimo quebra a prova de inclusão do recibo (Peça 3). Alterar um voto publicado quebra os hashes nas cópias dos observadores. Roubar credenciais exigiria fraudar a biometria na frente dos fiscais. Cada caminho de fraude bate numa parede diferente — e todas as paredes são verificáveis por qualquer um, de casa.</p>
<h2>O elo mais fraco: quem prova que você é você?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-elo-mais-fraco-quem-prova-que-você-é-você"></span>
    <a href="#o-elo-mais-fraco-quem-prova-que-voc%c3%aa-%c3%a9-voc%c3%aa" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Tudo o que veio antes desta seção é matemática. Mas tem uma porta que nenhuma matemática tranca: a autenticação. Nenhum algoritmo prova que o ser humano parado na sua frente é quem diz ser. Esse é, honestamente, o elo mais fraco do sistema inteiro — e vale encarar de frente.</p>
<p>E aqui o Brasil simplifica o problema, porque já pagou a parte cara: o cadastro biométrico do eleitorado existe e cobre mais de 80% dos eleitores — mais de 124 milhões de pessoas, <a href="https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Fevereiro/eleitores-sem-cadastro-biometrico-podem-votar-normalmente"target="_blank" rel="noopener">segundo o TSE</a>. A deduplicação nacional já rodou: um mesmo dedo só existe uma vez no cadastro, por mais que venha acompanhado de dez documentos falsos. E na seção a digital já libera o voto — em 2026, <a href="https://www.tre-mg.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/manual-do-eleitor-entenda-como-vai-funcionar-a-biometria-nas-eleicoes-2026"target="_blank" rel="noopener">em todas as seções do país</a>. Pro sistema hipotético deste artigo, a autenticação biométrica é de graça: é reusar o que já está de pé.</p>
<p>Claro que esse cadastro existir é, ele mesmo, a aposta de privacidade: biometria é dado irrevogável — senha você troca, sua digital não. O Aadhaar, o cadastro biométrico da Índia, teve incidentes que expuseram dados de mais de um bilhão de pessoas; a OPM, o RH do governo americano, perdeu 5,6 milhões de impressões digitais num único ataque, em 2015. Um banco de dados biométrico nacional é um ponto único de falha catastrófica e permanente — e o Brasil já fez essa aposta. O sistema hipotético não a piora; só herda.</p>
<p>Pra quem está fora do cadastro biométrico, a seção cai pro documento com foto — e documento se falsifica. Provavelmente se falsifica hoje. Mas repare no que a arquitetura faz com esse problema: uma autenticação forjada emite <strong>uma</strong> credencial, que gera <strong>uma</strong> folha na árvore. Pra fraudar em escala, o criminoso precisa de gente de carne e osso se apresentando pessoalmente, na frente de mesário e fiscal, uma vez por voto falso. É fraude de varejo: cara, visível, lenta. Mil votos falsos exigem mil corpos — e aí já não é fraude digital silenciosa, é logística de ônibus fretado que todo mundo vê passar. O sistema não impede a falsificação; ele <strong>limita o estrago por falsificação a exatamente um voto</strong> e empurra o custo pro mundo físico.</p>
<p>E as anomalias aparecem: a equação da Peça 6 — folhas == autenticações — pode ser conferida seção por seção. Uma seção com 400 eleitores cadastrados e 420 autenticações chama atenção. Padrões regionais de comparecimento acima de 100% chamam atenção. E se a paranoia for grande, a chave de assinatura da mesa pode ser fragmentada como a chave da eleição, exigindo quorum pra emitir credencial.</p>
<p>Resumindo com honestidade: o elo continua físico e humano — um humano provando, uma vez, em público, que está no cadastro — e nenhum sistema, por mais perfeito que seja, o elimina. O melhor desenho possível faz duas coisas com ele: encolhe a superfície de confiança até esse evento único e torna as falhas dele <strong>visíveis</strong> em vez de silenciosas. Com a biometria valendo em todas as seções em 2026, a falsificação de identidade vira o caminho mais caro e menos escalável de todos — que é exatamente onde um sistema bem desenhado quer que ela esteja. Não tem almoço grátis, e fingir que tem é o tipo de discurso que este artigo inteiro se recusa a fazer.</p>
<h2>Juntando tudo: o protocolo completo<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="juntando-tudo-o-protocolo-completo"></span>
    <a href="#juntando-tudo-o-protocolo-completo" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A eleição hipoteticamente perfeita ficaria assim:</p>
<ol>
<li><strong>Preparação.</strong> Um grupo de autoridades independentes (TSE, OAB, partidos, sociedade civil) gera em conjunto a chave pública da eleição. A chave privada correspondente fica fragmentada: nenhuma autoridade sozinha consegue decriptar nada; só uma maioria agindo junta.</li>
<li><strong>Autenticação.</strong> O eleitor se identifica na mesa — documento, biometria, como hoje — e a mesa registra a autenticação. Isso autoriza a emissão de <strong>uma</strong> credencial: a assinatura cega de um compromisso, sem que a mesa veja o conteúdo. Nenhum vínculo entre identidade e voto.</li>
<li><strong>Votação.</strong> O eleitor escolhe o candidato na tela. A urna gera um nonce aleatório, calcula o compromisso Pedersen e o ciphertext ElGamal do mesmo voto (o compromisso vira o serial do recibo; o ciphertext é o que será apurado), produz a prova ZK de validade e mostra o compromisso na tela. O eleitor então decide: confirma, e o nonce é descartado — ou desafia, e a urna revela o nonce pra conferência imediata, a cédula é anulada e ele vota de novo. Confirmado, a urna cega o compromisso, a mesa assina sem vê-lo e a urna descega a assinatura.</li>
<li><strong>Publicação.</strong> O compromisso entra numa Merkle tree pública, junto com a prova ZK e a credencial — replicada e assinada por múltiplos observadores independentes. Sem credencial, não entra.</li>
<li><strong>Recibo.</strong> O eleitor leva pra casa um papel com o serial. Ele <strong>não consegue</strong> provar pra ninguém em quem votou — nem que queira, porque não tem o nonce.</li>
<li><strong>Verificação individual.</strong> Em casa, o eleitor baixa a árvore (ou usa qualquer site independente) e confere que seu serial está lá, com a prova de inclusão. Se não estiver, ele tem prova material da fraude.</li>
<li><strong>Verificação universal.</strong> Qualquer cidadão, universidade ou partido refaz a árvore inteira, confere a raiz, valida todas as provas ZK e credenciais, e confere se o número de folhas bate com o total de autenticações publicado por seção.</li>
<li><strong>Apuração.</strong> No fim, os votos encriptados passam por um mix-net (são re-embaralhados e re-encriptados, cortando o vínculo com a posição original) e as autoridades decriptam em conjunto, provando cada passo. O total bate com a raiz pública ou a fraude é evidente.</li>
</ol>
<p>Repare no que mudou em relação ao sistema atual: <strong>não é mais preciso confiar no TSE, na urna, nem em auditor nenhum.</strong> Cada propriedade é verificável individualmente por qualquer pessoa com um computador. É o mesmo princípio que faz o Bitcoin funcionar sem banco central: don&rsquo;t trust, verify.</p>
<p>Antes que alguém anime demais: isso é uma simplificação. Um sistema real precisa ainda resolver credenciais anônimas mais robustas que nossa assinatura cega de brinquedo, disponibilidade da árvore, e uma porção de detalhes operacionais. O ponto aqui é o mecanismo central, não o projeto completo.</p>
<h2>E por que isso nunca funcionaria<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="e-por-que-isso-nunca-funcionaria"></span>
    <a href="#e-por-que-isso-nunca-funcionaria" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Agora a parte que quase ninguém que propõe esses sistemas quer ouvir.</p>
<p>Volta pro começo do artigo e repara no que eu precisei explicar pra chegar até aqui: funções de hash, compromissos, aritmética modular, logaritmo discreto, árvores de Merkle, o desafio de Benaloh, assinaturas cegas, provas de conhecimento zero, simuladores. Com código, com números, com exemplos passo a passo. E mesmo assim eu aposto que uma parcela boa dos leitores — inclusive programadores — chegou até aqui sem ter certeza de que entendeu de verdade por que o esquema é seguro.</p>
<p>E não é por falta de inteligência. É porque a confiança nesse sistema exige entender matemática que a imensa maioria da população nunca vai entender. O único ser humano que pode ter <strong>100% de certeza</strong> de que esse sistema é correto é aquele que consegue verificar as demonstrações matemáticas por conta própria. Todo o resto — 99,9% da população — não estaria <em>verificando</em> coisa nenhuma. Estaria <strong>acreditando</strong> no matemático que diz que funciona.</p>
<p>E aí chegamos na contradição fatal: se um sistema eleitoral exige que o cidadão comum acredite cegamente num especialista que ele não consegue auditar, ele é <strong>exatamente tão opaco quanto o sistema atual do TSE</strong>. A opacidade só trocou de endereço: em vez de confiar no burocrata do tribunal, você confia no criptógrafo. Pra dona Maria, que vende pastel na feira, tanto faz — os dois são &ldquo;um monte de letrinha que eu não entendo&rdquo;. E um sistema que a população não consegue entender é um sistema cuja legitimidade ela nunca vai aceitar. O cético de hoje que diz &ldquo;não confio na urna&rdquo; viraria o cético de amanhã dizendo &ldquo;não confio nessa álgebra&rdquo;.</p>
<p>Uma eleição não é só um problema de engenharia; é um problema de <strong>confiança social</strong>. O padrão-ouro de transparência não é o sistema mais sofisticado — é o sistema que <strong>qualquer pessoa consegue fiscalizar com os próprios olhos</strong>: cédula de papel, urna de vidro, contagem pública na seção, ata na porta. Qualquer um entende papel sendo contado em público. Ninguém precisa acreditar em ninguém.</p>
<p>É por isso que países muito mais ricos e tecnológicos que o Brasil — Alemanha, Holanda, França, a maior parte dos EUA — continuam com papel ou exigem trilha de papel auditável. Não é atraso. É a constatação de que verificabilidade que só especialista entende não é verificabilidade pública.</p>
<h2>Parêntese: o que as criptomoedas provam todos os dias<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="parêntese-o-que-as-criptomoedas-provam-todos-os-dias"></span>
    <a href="#par%c3%aantese-o-que-as-criptomoedas-provam-todos-os-dias" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Antes de concluir, vale um desvio pra responder à pergunta que sempre aparece: &ldquo;mas isso funciona de verdade ou é teoria de guardanapo?&rdquo;. Funciona. E a prova está rodando há quase duas décadas, movimentando bilhões de dólares, sob ataque constante: as blockchains.</p>
<p>Primeiro, desfazendo um mal-entendido: <strong>blockchain não é sinônimo de criptomoeda.</strong> Como o próprio nome diz, é só uma cadeia de blocos. Cada bloco carrega uma Merkle tree de registros e o hash do bloco anterior. No Bitcoin, o cabeçalho do bloco guarda a raiz da árvore de transações, o hash do bloco anterior, um carimbo de tempo e um nonce — aqui, um contador de mineração — que os mineradores variam até o hash do bloco inteiro cair abaixo do alvo de dificuldade — a tal prova de trabalho. É a Peça 3 deste artigo, estendida no tempo: não uma árvore, mas uma cadeia de árvores, cada uma selando a anterior.</p>
<p>O resultado prático é a garantia que interessa aqui: mexa em <strong>uma transação</strong> de um bloco antigo e a raiz da árvore muda, o hash do bloco muda, o elo com o bloco seguinte quebra, e pra esconder isso você precisaria refazer a prova de trabalho de todos os blocos até hoje — enquanto milhares de nós honestos continuam alongando a cadeia verdadeira. Depois que tudo está assinado e selado por hash, adulterar o passado é computacionalmente impossível. É exatamente por isso que o Bitcoin pode ser 100% público: a exposição funciona como proteção, não como risco. Todo mundo tem cópia de tudo, então ninguém reescreve a história.</p>
<p><strong>Mas público não significa anônimo.</strong> Essa é a parte que a maioria confunde. No Bitcoin, toda transação fica visível pra sempre: quais endereços alimentaram, quais receberam, quanto foi. Endereços são pseudônimos — apelidos, não anonimato. E existe uma indústria inteira de análise de cadeia (Chainalysis, Elliptic, TRM) que vive de grudar identidade nesses apelidos:</p>
<ul>
<li><strong>Heurística dos inputs comuns:</strong> se uma transação gasta moedas de vários endereços, quase certamente todos pertencem à mesma carteira. Agrupe-os num cluster.</li>
<li><strong>Detecção de troco:</strong> o output que volta pra um endereço novo costuma ser do próprio pagador.</li>
<li><strong>Ponte com o mundo real:</strong> quando um endereço do cluster encosta numa exchange com KYC, o nome e o CPF se ligam ao cluster inteiro — e ao histórico completo dele, retroativamente.</li>
</ul>
<p>Foi assim que o FBI recuperou parte do resgate do oleoduto Colonial, foi assim que as moedas da Silk Road foram rastreadas anos depois, e é assim que os ~1.128 BTC roubados das ColdCards continuam parados em endereços conhecidos que meio mundo vigia — eu detalhei isso no <a href="/2026/08/01/explorando-o-problema-escandaloso-do-rng-da-coinkite/">artigo sobre o RNG da Coinkite</a>. Se o ladrão mover um satoshi pra uma exchange com KYC, ele se identifica. A cadeia garante integridade, não sigilo.</p>
<p>Pra ter anonimato de verdade, não basta a cadeia: precisa de prova de conhecimento zero. O Monero, por exemplo, combina três técnicas:</p>
<ol>
<li><strong>Assinaturas de anel</strong> (<em>ring signatures</em>): cada gasto é assinado em nome de um grupo de chaves possíveis. A assinatura prova que <strong>uma delas</strong> autorizou, sem revelar qual.</li>
<li><strong>Endereços furtivos</strong> (<em>stealth addresses</em>): o endereço do destinatário nunca aparece na cadeia; cada pagamento cria um endereço descartável, derivado de um segredo compartilhado.</li>
<li><strong>RingCT</strong> (<em>confidential transactions</em>): os valores ficam escondidos em <strong>compromissos Pedersen</strong> — sim, exatamente a Peça 2 deste artigo — e uma prova de alcance em ZK garante que ninguém criou moeda do nada, sem revelar quantia nenhuma.</li>
</ol>
<p>O Zcash segue a mesma filosofia com zk-SNARKs: você prova &ldquo;eu sou dono de uma nota válida e ainda não gasta&rdquo; sem revelar qual nota. A rede verifica a prova, aceita a transação e não aprende remetente, destinatário nem valor.</p>
<p>E aqui o círculo se fecha. Olhe o que o esquema eleitoral deste artigo usa: uma estrutura pública e imutável que qualquer um verifica (a Merkle tree, primo mais simples da blockchain), compromissos Pedersen pra esconder o conteúdo (a mesma primitiva do Monero) e provas ZK pra garantir validade sem revelação (a mesma família do Monero e do Zcash). Nada disso é conjectura de laboratório: são sistemas em produção, auditados, atacados diariamente, protegendo dinheiro de verdade. Uma eleição é, se muito, um problema mais simples — janela curta, um publicador só, verificação offline.</p>
<p>Por isso eu disse lá no começo que a ideia é matematicamente sólida: ela não inventa nada, só compõe peças que já provaram aguentar o mundo real. Sabemos que um sistema de eleição digital verificável ponta a ponta <strong>poderia</strong> ser construído, porque todos os componentes dele já estão construídos e funcionando. O que nos leva de volta ao problema que não é técnico.</p>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Deixo claro mais uma vez, como deixei nos tweets: <strong>isso não é uma proposta, é um exercício.</strong> Eu não sei qual é a solução pro problema da confiança eleitoral no Brasil. Se soubesse, estaria publicando paper, não post de blog.</p>
<p>Mas o exercício vale por duas razões. Primeiro, porque mostra que a tecnologia pra ter verificabilidade individual e universal <strong>existe</strong> — quem diz &ldquo;eleição digital é inerentemente inauditável&rdquo; está errado. Segundo, porque mostra o limite real: a fronteira não é técnica, é epistemológica. Um sistema perfeito que ninguém entende falha no mesmo ponto que um sistema imperfeito que ninguém pode auditar.</p>
<p>Se você entendeu cada linha deste artigo, parabéns: você faz parte de uma minoria pequena demais pra carregar uma democracia nas costas.</p>
<h2>Apêndice 1: afinal, o sistema atual é auditável?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="apêndice-1-afinal-o-sistema-atual-é-auditável"></span>
    <a href="#ap%c3%aandice-1-afinal-o-sistema-atual-%c3%a9-audit%c3%a1vel" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Fica no ar uma pergunta justa: então o sistema atual não tem auditoria nenhuma? Tem sim, e vale ser honesto sobre isso. O que não existe é um tipo específico de auditoria: a que não depende de software. Vamos por partes.</p>
<p>O arsenal atual, resumido e com as fontes:</p>
<ul>
<li><strong>Inspeção de código-fonte.</strong> Partidos, OAB, TCU, Polícia Federal, Ministério Público e universidades podem examinar o código dos sistemas na sede do TSE, meses antes da eleição — o tal <a href="https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2025/Novembro/codigos-fonte-do-ciclo-de-transparencia-ao-teste-publico-da-urna"target="_blank" rel="noopener">ciclo de transparência</a>.</li>
<li><strong>Teste Público de Segurança (TPS).</strong> Pesquisadores externos tentam atacar o sistema de verdade. E ele funciona: em 2012, a equipe do professor Diego Aranha desembaralhou o RDV e mostrou que dava pra descobrir em quem cada eleitor votou; em 2017, conseguiram adulterar o software de votação antes da instalação (a história está na <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/a-urna-eletronica-na-maturidade/"target="_blank" rel="noopener">Revista Pesquisa FAPESP</a> e neste <a href="https://www.agencialupa.org/jornalismo/2023/11/27/entenda-como-funciona-o-teste-de-seguranca-das-urnas-eletronicas-feito-pelo-tse/"target="_blank" rel="noopener">resumo da Lupa</a>). As falhas encontradas foram corrigidas depois.</li>
<li><strong>Zerésima, BU e Teste de Integridade.</strong> Antes da votação, a urna imprime o relatório zerado. No fim do dia, imprime o Boletim de Urna, afixado na seção e publicado digitalmente com QR code — qualquer um pode baixar os BUs e somar por conta própria. E uma amostra aleatória de urnas é desviada pra uma votação paralela, filmada, comparando o registro em papel com o digital.</li>
<li><strong>RDV — a &ldquo;recontagem digital&rdquo;.</strong> A urna grava cada voto individual num arquivo embaralhado e anonimizado, publicado depois (<a href="https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2021/resolucao-no-23-673-14-de-dezembro-de-2021"target="_blank" rel="noopener">definição na Resolução TSE 23.673/2021</a>). Partidos e entidades autorizadas podem re-somar os votos e cruzar com os BUs e com a totalização oficial — é o mecanismo oficial apresentado como substituto da recontagem em papel (<a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/historia/processo-eleitoral-brasileiro/votacao/votacao-segura"target="_blank" rel="noopener">explicação do TSE</a>).</li>
<li><strong>Auditorias externas.</strong> Em 2022, o TCU cruzou 9 milhões de registros de 4.577 seções eleitorais com a base de totalização e encontrou zero divergências — probabilidade de fraude &ldquo;próxima de 0%&rdquo; (<a href="https://www.cnnbrasil.com.br/politica/auditoria-do-tcu-diz-que-possibilidade-de-fraude-nas-eleicoes-de-2022-e-proxima-de-0/"target="_blank" rel="noopener">CNN Brasil</a>). O Carter Center observou as eleições de 2022, não registrou evidência de fraude e reconheceu a ampliação das auditorias (<a href="https://www.cartercenter.org/news/pr/2022/brazil-100522-portuguese.pdf"target="_blank" rel="noopener">declaração da missão</a>).</li>
</ul>
<p>Agora o &ldquo;mas&rdquo; que este artigo inteiro constrói: <strong>toda camada dessa lista depende de software ou de cerimônia conduzida pelo próprio TSE.</strong> A comparação BU × RDV prova consistência interna — que os números publicados batem com os números registrados. Ela não prova que os números registrados refletem o que os eleitores apertaram na tela, porque uma urna adulterada produziria BU e RDV adulterados de forma perfeitamente consistente. É o que o próprio Aranha resume: todas as auditorias disponíveis hoje dependem do software; se o programa for adulterado, todas as checagens caem juntas (<a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/06/so-brasil-bangladesh-e-butao-usam-urna-eletronica-sem-comprovante-do-voto-impresso.shtml"target="_blank" rel="noopener">Folha de S.Paulo</a>). E o Teste de Integridade, que cobre uma amostra pequena de urnas, é um primo pobre do desafio de Benaloh da Peça 4: em vez de cada eleitor auditar a própria cédula na hora, quem audita é uma amostra sorteada e conduzida pelo sistema.</p>
<p>Tem ainda o capítulo jurídico: a tentativa de criar um registro em papel verificável pelo eleitor, o &ldquo;voto impresso&rdquo;, foi declarada inconstitucional pelo STF na ADI 4543, por risco ao sigilo do voto, e a tentativa de ressuscitá-la foi barrada de novo em 2020 (<a href="https://conjur.com.br/2020-set-16/supremo-confirma-liminar-impede-volta-voto-impresso/"target="_blank" rel="noopener">Conjur</a>). A ironia é que o esquema deste artigo resolve exatamente o conflito que derrubou o voto impresso: recibo verificável <strong>sem</strong> quebrar o sigilo, via compromissos e provas ZK. A matemática destrava o que o papel não destravou. O que continua travado é todo o resto, como as seções anteriores explicam.</p>
<p>O veredito honesto, então: o sistema brasileiro é auditável de formas digitais e procedurais reais, e nunca se provou fraude que alterasse um resultado em quase 30 anos de urna eletrônica. Mas não existe recontagem independente de software, porque não existe registro físico verificado pelo eleitor. Na linguagem da pesquisa de segurança eleitoral, uma <em>risk-limiting audit</em> de verdade não é possível. A confiança continua depositada no software, nas inspeções prévias e na custódia dos registros digitais — exatamente o que o sistema hipotético deste artigo tenta eliminar.</p>
<h2>Apêndice 2: skin in the game — recompensar quem verifica<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="apêndice-2-skin-in-the-game--recompensar-quem-verifica"></span>
    <a href="#ap%c3%aandice-2-skin-in-the-game--recompensar-quem-verifica" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Uma pergunta que fica no ar depois de montar o esquema inteiro: criptomoedas funcionam porque alguém tem algo a perder. No Bitcoin, o minerador queima energia de verdade; no proof-of-stake, o validador deposita capital que é confiscado se trapacear. E o eleitor? Votar não custa nada, e conferir o recibo em casa dá trabalho de graça. O sistema inteiro depende de gente verificando — e ninguém tem incentivo pra verificar. Dá pra colocar <em>skin in the game</em> no eleitor?</p>
<p>A primeira ideia que vem à cabeça é um depósito: vote, deposite uma quantia, receba de volta depois via imposto de renda. Como desenho de mecanismo, tem lógica — precifica identidade falsa: um milhão de votos fantasmas custaria cem milhões de reais. Na prática, morre em três lugares. É um imposto eleitoral disfarçado, censitário e inconstitucional — a devolução resolve a contabilidade, não o fluxo de caixa de quem não tem o dinheiro pra adiantar. A via &ldquo;imposto de renda&rdquo; não alcança a maioria dos brasileiros pobres, que nem declaram — ou seja, exclui exatamente quem o sistema mais precisa incluir. E criaria na Receita um banco de dados ligando identidade, conta bancária e participação eleitoral, um retrocesso de vigilância maior que o problema que resolve. Tudo isso antes do detalhe plutocrático: segurança precificada em dinheiro é segurança comprável por quem tem dinheiro. Eleição é desenhada pra ser cega a riqueza — um voto por pessoa. Colocar preço na camada de segurança é convidar o rico a ser mais igual que os outros.</p>
<p>A versão que sobrevive a esse crivo inverte o sinal: em vez de cobrar pra votar, <strong>recompensar quem verifica</strong>. O ponto fraco real do esquema é a taxa de verificação individual — se ninguém confere o serial em casa, a prova de inclusão da Peça 3 vira decoração. Então: cada recibo verificado entra num sorteio público e auditável, com a raiz da própria árvore servindo de fonte de aleatoriedade (mais um uso pra ela). Conferiu seu voto na árvore? Concorre a um prêmio. O incentivo aponta exatamente pro comportamento que o sistema precisa — milhões de olhos conferindo a árvore — sem excluir ninguém, sem cobrar nada e sem banco de dados novo, porque o sorteio roda em cima do serial anônimo, não da identidade.</p>
<p>É a lógica do Bitcoin do lado certo: lá, a recompensa por bloco paga pra milhares de máquinas manterem o ledger honesto; aqui, o prêmio pagaria pra milhões de eleitores manterem a eleição honesta. É quase uma <em>proof of verification</em>: a recompensa de bloco paga o trabalho de hashear que sustenta o Bitcoin, e o prêmio pagaria o trabalho de conferir que sustentaria a eleição. Não é proposta — como nada neste artigo —, mas como exercício de desenho de incentivos, é a versão que eu colocaria no papel.</p>
<h2>Apêndice 3: por que &ldquo;conhecimento zero&rdquo; é tão difícil de engolir<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="apêndice-3-por-que-conhecimento-zero-é-tão-difícil-de-engolir"></span>
    <a href="#ap%c3%aandice-3-por-que-conhecimento-zero-%c3%a9-t%c3%a3o-dif%c3%adcil-de-engolir" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Se você chegou até aqui com a sensação de que entendeu cada peça individualmente, mas não juraria que entendeu o conjunto, relaxa: você está em ótima companhia. Quando Goldwasser, Micali e Rackoff formalizaram provas de conhecimento zero nos anos 80, a ideia soou paradoxal até pra criptógrafo de profissão. Toda prova que a gente conhece funciona <em>mostrando</em> alguma coisa. Como pode uma prova transferir convicção sem transferir informação nenhuma?</p>
<p>A matemática das Peças 2 a 5 é a resposta completa, mas a intuição demora a assentar. Então aqui vão duas analogias clássicas que não envolvem equação nenhuma — cada uma ilumina uma metade do conceito.</p>
<p><strong>Onde está o Wally?</strong> Eu digo que encontrei o Wally na página e quero te provar isso sem revelar onde ele está — senão você ganha o jogo de graça. A solução: pego uma folha de papelão enorme, bem maior que o livro, faço um furo pequeno no meio e posiciono sobre a página de modo que só o Wally apareça pelo furo. Você vê o Wally. Mas como o papelão cobre tudo em volta, você não faz ideia de em que canto da página ele está. Eu provei que sei a localização; você aprendeu zero sobre ela. E repare no que sustenta a prova: se eu não soubesse onde ele está, não teria como posicionar o papelão — a chance de acertar o furo no Wally por sorte é minúscula. É a caverna de Ali Babá de novo, só que com papelão.</p>
<p><strong>As duas bolas do amigo daltônico.</strong> Seu amigo é daltônico vermelho-verde. Você tem duas bolas idênticas em tamanho, peso e textura, uma vermelha e uma verde, e afirma: &ldquo;essas bolas são de cores diferentes&rdquo;. Pra ele, são indistinguíveis. Como provar sem revelar qual é qual? Ele mostra as duas bolas, uma em cada mão. Esconde as mãos atrás das costas e decide, sozinho, se troca as bolas de mão ou não. Mostra de novo e pergunta: &ldquo;troquei?&rdquo;. Você, que enxerga as cores, acerta sempre. Ele, que não enxerga, não passaria de 50%. Depois de 20 acertos seguidos, ele está convencido de que as bolas são diferentes — a chance de você blefar 20 rodadas é uma em um milhão. E o que ele aprendeu sobre qual bola é a vermelha? <strong>Nada.</strong> Cada resposta sua (&ldquo;trocou&rdquo;, &ldquo;não trocou&rdquo;) era algo que ele mesmo já sabia — afinal, foi ele quem decidiu se trocava ou não. A informação da rodada já era dele; a única coisa nova é a convicção de que você enxerga a diferença.</p>
<p>A versão formal dessa intuição é o simulador da Peça 5: se qualquer pessoa, sem saber segredo nenhum, consegue fabricar a &ldquo;gravação&rdquo; de uma sessão de prova indistinguível de uma sessão real, então a sessão real não pode carregar informação sobre o segredo. O poder de convencer vem da ordem das operações — primeiro o compromisso, depois o desafio. O conhecimento zero vem do fato de que a gravação, sozinha, é falsificável. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, por razões diferentes. É por isso que o conceito escorrega: você segura dois fatos que parecem se contradizer até perceber que cada um se apoia numa coisa distinta.</p>
<p>E se mesmo depois de tudo isso o conceito continua escorregadio, ótimo: você acabou de sentir na pele o argumento central deste artigo.</p>
]]></content:encoded><category>politica</category><category>seguranca</category><category>tutoriais</category></item><item><title>Off-Topic: Não tenha esperança com Política - Como se tornar imune</title><link>https://akitaonrails.github.io/2026/07/01/rant-nao-tenha-esperanca-com-politica-como-se-tornar-imune/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2026/07/01/rant-nao-tenha-esperanca-com-politica-como-se-tornar-imune/</guid><pubDate>Wed, 01 Jul 2026 11:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aviso antes que alguém finja que não entendeu:&lt;/strong&gt; isto é opinião pessoal. Não é conselho financeiro, jurídico, tributário, eleitoral, matrimonial, espiritual, nem receita de bolo. Se for mexer com empresa, patrimônio, imposto, casamento, herança, residência fiscal ou qualquer coisa que possa ferrar sua vida, fale com contador e advogado de verdade. Não comigo. Não com influencer. Não com thread de Twitter.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Eleições chegando e a internet brasileira já virou arquibancada.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<blockquote>
  <p><strong>Aviso antes que alguém finja que não entendeu:</strong> isto é opinião pessoal. Não é conselho financeiro, jurídico, tributário, eleitoral, matrimonial, espiritual, nem receita de bolo. Se for mexer com empresa, patrimônio, imposto, casamento, herança, residência fiscal ou qualquer coisa que possa ferrar sua vida, fale com contador e advogado de verdade. Não comigo. Não com influencer. Não com thread de Twitter.</p>

</blockquote>
<p>Eleições chegando e a internet brasileira já virou arquibancada.</p>
<p>De um lado, camisa vermelha. Do outro, camisa amarela. No meio, gente adulta se comportando como se eleição fosse final de campeonato. Grita, xinga, cola adesivo, compartilha recorte conveniente, chama parente de burro no WhatsApp e depois acha que está &ldquo;participando da democracia&rdquo;.</p>
<p>Grande coisa.</p>
<p>Depois de 50 anos vendo esse filme, minha recomendação é simples: pare de torcer. Trate política como risco que se administra, do mesmo jeito que você lida com chuva, trânsito e câmbio. O partido é, no máximo, um fornecedor de política pública. A eleição é um evento no calendário. Sua vida adulta precisa se sustentar sozinha, sem pendurar nada disso no papel de pai, família ou escudo.</p>
<p>Não estou dizendo pra ser alienado. Leia notícia. Entenda risco. Vote se quiser votar. Eu voto. Só não entregue sua sanidade pra isso. A sua ansiedade diária, seu textão, sua briga no grupo da família e seu voto individual não vão consertar uma estrutura que foi montada ao longo de décadas.</p>
<p>Não vão.</p>
<p>Se melhorar, ótimo. Mas planeje como se não fosse melhorar.</p>
<h2>Política virou futebol<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="política-virou-futebol"></span>
    <a href="#pol%c3%adtica-virou-futebol" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Brasileiro entende muito bem lealdade de time. Corinthians, Palmeiras, Flamengo, São Paulo. Seu time perde, contrata mal, faz dívida, cai pra segunda divisão, e você continua lá. Porque é identidade. Camisa. Tribo.</p>
<p>O problema é carregar essa cabeça pra política.</p>
<p>No futebol, tudo bem, é entretenimento. Na política, isso vira burrice organizada. A pessoa defende um escudo em vez de uma política pública. Quando aparecem números ruins, dobra a aposta em vez de rever a posição. Ignora dívida, imposto, inflação, câmbio, previdência, produtividade, educação, segurança jurídica, e só quer saber se &ldquo;o meu lado&rdquo; ganhou.</p>
<p>Isso não serve pra nada.</p>
<p>Pior: deixa você vulnerável. Porque você começa a planejar a vida em cima de esperança.</p>
<p>&ldquo;Agora vai.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Dessa vez muda.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Se tal pessoa ganhar, melhora.&rdquo;</p>
<p>&ldquo;Se tal pessoa perder, acaba.&rdquo;</p>
<p>Pare.</p>
<p>Planeje como adulto. Seu plano precisa funcionar com qualquer presidente, qualquer Congresso, qualquer ministro da Fazenda, qualquer maluquice nova que inventem em Brasília.</p>
<h2>A conta sempre chega<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="a-conta-sempre-chega"></span>
    <a href="#a-conta-sempre-chega" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>O Brasil tem dívida alta, gasto público alto, imposto alto, serviço ruim e regra demais. Nenhuma eleição apaga isso por decreto.</p>
<p>Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral fechou 2025 em <strong>78,7% do PIB</strong>, perto de <strong>R$ 10 trilhões</strong>. Você pode discutir metodologia, critério FMI, título na carteira do Banco Central, o que quiser. Faça isso se gosta do assunto. O ponto prático continua: a conta é grande.</p>
<p>Quando o Estado gasta mais do que arrecada por tempo demais, a conta aparece. Aparece em imposto. Aparece em juros. Aparece em inflação. Aparece em moeda fraca. Aparece em serviço ruim. Aparece em burocracia. Aparece em investimento que não veio.</p>
<p>Populismo é sedutor porque promete benefício agora e manda a conta pra depois. Só que &ldquo;depois&rdquo; chega. Chega como IPCA. Chega como dólar mais caro. Chega como juro alto. Chega como salário que não acompanha custo de vida.</p>
<p>Uma confusão comum: dizer que inflação é &ldquo;causada por aumento de preços&rdquo;. Isso é inverter causa e consequência. O próprio <a href="https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/oqueinflacao"target="_blank" rel="noopener">Banco Central</a> define inflação como aumento de preços e perda do poder de compra. Essa é a forma como ela aparece. A raiz, quando a inflação é persistente e espalhada, envolve moeda, crédito, demanda, expectativa e situação fiscal. O <a href="https://www.clevelandfed.org/-/media/project/clevelandfedtenant/clevelandfedsite/publications/economic-commentary/1999/ec-19990801-money-growth-and-inflation-how-long-is-the-long-run-pdf.pdf"target="_blank" rel="noopener">Fed de Cleveland</a> explica a relação de longo prazo entre crescimento de moeda e nível de preços. O FMI chama um dos casos extremos de <a href="https://www.imf.org/-/media/files/publications/dp/2021/english/apdfea.pdf"target="_blank" rel="noopener">dominância fiscal</a>: quando a dívida e o déficit começam a mandar mais que a política monetária.</p>
<p>Preço de supermercado subindo é o sintoma, e a maioria confunde o sintoma com a raiz.</p>
<p>Claro que um produto pode subir por petróleo, safra ruim, guerra, câmbio, imposto, cartel, logística. Mas abuso localizado não explica perda generalizada de poder de compra por décadas. Transformar empresa em bode expiatório é conveniente pra político. Conveniente não quer dizer verdadeiro.</p>
<p>Nos últimos 20 anos, pelo SGS do Banco Central, o <a href="https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.433/dados"target="_blank" rel="noopener">IPCA acumulado de julho de 2006 a maio de 2026</a> ficou perto de <strong>197%</strong>. Preços quase triplicaram. A <a href="https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.1/dados"target="_blank" rel="noopener">PTAX venda</a> saiu de cerca de <strong>R$ 2,16 por dólar em 30/06/2006</strong> pra cerca de <strong>R$ 5,18 em 30/06/2026</strong>. O Real passou a comprar muito menos dólar.</p>
<p>Não precisa de teoria sofisticada. Basta lembrar quanto custava um mercado, um carro, um aluguel, uma escola, um plano de saúde.</p>
<h2>O Brasil não vira Suíça em quatro anos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="o-brasil-não-vira-suíça-em-quatro-anos"></span>
    <a href="#o-brasil-n%c3%a3o-vira-su%c3%ad%c3%a7a-em-quatro-anos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Outra fantasia: &ldquo;agora o serviço público vai melhorar&rdquo;.</p>
<p>Tomara. Sério. Eu torço pra que melhore. Mas não planejaria minha vida apostando nisso.</p>
<p>Saúde pública? Se você depende dela, espero honestamente que seja bem atendido. Mas eu não montaria meu plano familiar contando com milagre. A <a href="https://www.gov.br/ans/pt-br/acesso-a-informacao/perfil-do-setor/dados-gerais"target="_blank" rel="noopener">ANS</a> contava cerca de <strong>52,9 milhões</strong> de beneficiários em planos privados médico-hospitalares em março de 2026. O <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37235-populacao-do-pais-chega-a-203-1-milhoes-de-habitantes-aponta-censo-2022"target="_blank" rel="noopener">Censo 2022</a> mediu o Brasil em <strong>203,1 milhões</strong> de pessoas. A maioria depende direta ou indiretamente do SUS e da infraestrutura pública.</p>
<p>Quando o sistema falha, falha em cima de gente real. O G1 noticiou em junho de 2026 o caso de <a href="https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/06/22/homem-que-morreu-na-antessala-de-upa-no-df-passou-mais-de-12-horas-no-local-veja-imagens.ghtml"target="_blank" rel="noopener">Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, que morreu na antessala de uma UPA no DF</a>. Também noticiou em Sorocaba a morte de <a href="https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/06/30/camara-cobra-explicacoes-da-prefeitura-apos-morte-de-adolescente-que-esperou-18-horas-em-upa-veja-o-que-se-sabe-sobre-o-caso.ghtml"target="_blank" rel="noopener">um adolescente de 14 anos que, segundo a família, esperou 18 horas em UPA</a>. Não estou usando dois casos como estatística nacional. Estou lembrando que abstração vira corpo quando dá errado.</p>
<p>Educação pública? Se você tem filhos, seja brutalmente honesto: você quer apostar 15 anos da formação deles esperando uma revolução educacional que talvez nunca venha?</p>
<p>No <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/educacao/noticia/2023-12/pisa-less-half-brazilian-students-know-basic-math-science"target="_blank" rel="noopener">PISA 2022</a>, o Brasil fez <strong>379 em matemática</strong>, <strong>410 em leitura</strong> e <strong>403 em ciências</strong>, contra médias da OCDE de <strong>472</strong>, <strong>476</strong> e <strong>485</strong>. Isso é base fraca de verdade, bem longe de ser só uma disputa ideológica.</p>
<p>Eu sei que a maioria não consegue pagar plano privado e escola privada. Esse é justamente o problema. O país é caro, o serviço público é ruim, e a alternativa privada também é cara.</p>
<p>Negar a realidade não melhora a realidade.</p>
<h2>Eu vi o dinheiro derreter<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="eu-vi-o-dinheiro-derreter"></span>
    <a href="#eu-vi-o-dinheiro-derreter" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Eu cresci nos anos 80. Vi hiperinflação. Preço mudava no mesmo dia. Dinheiro derretia na mão. Família precisava fazer conta de sobrevivência. Depois veio Collor e o confisco.</p>
<p><img src="https://new-uploads-akitaonrails.s3.us-east-2.amazonaws.com/2026/07/01/politica-imune/turma-monica-inflacao.webp" alt="Turma da Mônica explicando inflação para crianças"  loading="lazy" /></p>
<p>Pra quem é jovem, parece história antiga. Pra mim é memória.</p>
<p>Hiperinflação tem causa conhecida e bem documentada. Normalmente começa com governo gastando mais do que pode, dívida que ninguém quer encarar e a tentação de cobrir buraco imprimindo dinheiro. Parece esperto por cinco minutos. Depois vira imposto invisível em cima de todo mundo.</p>
<p>Mas mesmo no caos tem gente ganhando dinheiro, e é gente que entende a mecânica, não que seja mais virtuosa que o resto.</p>
<p>Pensa num comércio simples. Ele recebe à vista hoje e paga fornecedor em 30 dias. Se compra <strong>Cr$ 1 milhão</strong> em mercadoria e só paga o fornecedor no mês seguinte, com inflação de <strong>30% no mês</strong>, aqueles <strong>Cr$ 1 milhão</strong> pagos depois já compram muito menos. Enquanto isso, ele vende o estoque a preço reajustado. O cliente acha que o comerciante ficou rico porque &ldquo;subiu preço&rdquo;. Às vezes ele só sobreviveu no intervalo. Às vezes ganhou muito no intervalo.</p>
<p>Agora pensa no dinheiro parado por alguns dias. Empresa recebe boletos no dia 5 e paga folha no dia 30. Se ficam <strong>Cr$ 10 milhões</strong> no caixa por 25 dias e o overnight rende perto de <strong>1% ao dia</strong>, isso vira mais ou menos <strong>Cr$ 12,8 milhões</strong> antes da folha. A folha nominal continua ali. O ganho veio do tempo. Do float.</p>
<p>Banco fazia isso em escala muito maior. Captava dinheiro pagando uma taxa, emprestava ou aplicava cobrando outra, e girava volumes enormes todos os dias. Se a diferença parecia pequena, tipo alguns pontos no mês, em cima de bilhões virava fortuna. Spread e float. Nome feio pra uma coisa simples: quem recebia antes, pagava depois e sabia estacionar o dinheiro no meio ganhava. Quem recebia salário no fim do mês e corria pro supermercado perdia.</p>
<p>E nem precisa ser banco. Um indivíduo organizado também podia jogar melhor. Se sabe que a moeda está derretendo, não deixa tudo parado em cruzeiro esperando virar pó. Compra dólar quando consegue. Compra ação de exportadora que ganha em dólar. Usa futuro ou opção pra se proteger, não pra brincar de cassino. Exemplo simples: você tem dinheiro que só vai usar em 30 dias. Se deixa parado em moeda podre, perde. Se compra proteção em dólar e o câmbio explode, você entendeu o jogo antes de todo mundo, e sorte não teve nada a ver. Claro: opção, forex e alavancagem quebram amador mais rápido que inflação. Que fique claro, isso não é convite pra brincar de trader. O ponto é mais simples: conhecimento financeiro transforma caos em oportunidade, enquanto ignorância transforma salário em pó.</p>
<p>É por isso que inflação destrói pobre e desorganizado primeiro. Quem vive de salário fixo chega atrasado na corrida. Quem entende prazo, estoque, dívida, caixa e moeda joga outro jogo.</p>
<p>Foi nesse ambiente que veio o Plano Collor. Pra tentar controlar a hiperinflação na marra, o governo fez algo brutal: tirou liquidez das pessoas à força. O <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2007/03/15/plano-collor-abertura-de-mercados-e-impeachment-marcaram-primeiro-governo-eleito-apos-o-regime-militar"target="_blank" rel="noopener">Senado resume</a>: a MP 168/1990 bloqueou por 18 meses valores acima de NCz$ 50 mil em contas, poupanças e aplicações financeiras. Na prática, famílias e empresas acordaram com o próprio dinheiro preso pelo Estado. Décadas depois, Collor voltou à política e foi <a href="https://www25.senado.leg.br/web/senadores/senador/-/perfil/4525"target="_blank" rel="noopener">senador por Alagoas</a>.</p>
<p>Essa é uma aula que brasileiro deveria tatuar na testa: não espere que &ldquo;a justiça&rdquo; venha. Não espere que quem destruiu vidas pague proporcionalmente. Não espere que o sistema reconheça seu esforço e te proteja.</p>
<p>O sistema protege o sistema.</p>
<p>Você protege você.</p>
<h2>Pare de terceirizar sua vida<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="pare-de-terceirizar-sua-vida"></span>
    <a href="#pare-de-terceirizar-sua-vida" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Seu plano não pode depender de eleição.</p>
<p>Se eu tivesse que resumir minha estratégia, seria algo assim:</p>
<ul>
<li>aprenda inglês de verdade;</li>
<li>construa uma profissão vendável fora do Brasil;</li>
<li>entenda imposto e contabilidade;</li>
<li>proteja patrimônio legalmente;</li>
<li>forme filhos sem depender do Estado, se isso for possível pra você;</li>
<li>conheça gente competente em áreas que você não domina.</li>
</ul>
<p>Nada disso é sexy. Não dá slogan. Não viraliza.</p>
<p>Funciona melhor que esperança.</p>
<h2>Inglês e dólar não são fetiche<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="inglês-e-dólar-não-são-fetiche"></span>
    <a href="#ingl%c3%aas-e-d%c3%b3lar-n%c3%a3o-s%c3%a3o-fetiche" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Inglês é oxigênio no mercado global. Muita gente ainda trata como diferencial chique, quando já virou requisito básico de sobrevivência.</p>
<p>Existe um motivo pra este ser um dos primeiros vídeos do meu canal: <a href="https://akitaonrails.com/2018/12/11/akitando-32-como-eu-aprendi-ingles-e-entendendo-padroes/"target="_blank" rel="noopener">Akitando #32 - Como eu aprendi inglês e entendendo padrões</a>.</p>
<p>Nem toda profissão brasileira é exportável. Programação é uma das que são. Mesmo com mercado remoto mais difícil, layoffs, concorrência global e IA bagunçando tudo, ainda existe caminho. Não é fácil. Nunca foi. Só parecia fácil na bolha.</p>
<p>Você começa local. Ganha experiência. Estuda mais do que os outros. Aprende a se comunicar. Melhora inglês. Aplica pra fora. Toma não. Aplica de novo. Continua.</p>
<p>Isso é trabalho de décadas, não uma virada de seis meses.</p>
<p>O objetivo é simples: aumentar sua chance de ser pago em moeda forte.</p>
<p>Por que dólar? Porque o dólar continua sendo o centro do sistema financeiro internacional, por mecânica pura, e não por eu torcer pelos EUA. Depois de Bretton Woods, e mesmo depois do fim da conversibilidade em ouro em 1971, ele continuou como principal moeda de reserva, comércio, dívida e liquidez. O <a href="https://www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt2212x.htm"target="_blank" rel="noopener">BIS</a> mostra que o dólar participa de quase <strong>90%</strong> das transações globais de câmbio e aparece em cerca de metade do comércio global faturado em moeda estrangeira.</p>
<p>Nos anos 80, o Acordo Plaza coordenou uma <strong>desvalorização do dólar</strong> frente a moedas como iene e marco alemão. Materiais do <a href="https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/files/FOMC19851105material.pdf"target="_blank" rel="noopener">FOMC de 1985</a> já registravam o dólar cerca de 14% abaixo contra o iene semanas depois. A história real mistura moeda, juros, comércio, geopolítica e dívida, bem longe da versão simplista de &ldquo;EUA imperialista&rdquo;.</p>
<p>Quando uma crise geopolítica aumenta petróleo, países importadores precisam de mais dólares pra comprar energia. A Reuters mostrou isso durante a guerra Irã-EUA: <a href="https://www.marketscreener.com/news/us-dollar-gains-as-iran-conflict-fuels-safe-haven-demand-higher-oil-ce7e5cdcdf81f324"target="_blank" rel="noopener">dólar subiu com demanda por safe haven, petróleo mais caro e risco no Estreito de Ormuz</a>. Sanções e alternativas existem, mas isso não prova o fim do dólar. Prova o contrário: todo mundo precisa contornar a rede dominante justamente porque ela é dominante.</p>
<p>Você não precisa gostar do dólar pra entender que ele manda no jogo.</p>
<p>O Real funciona mal como reserva de valor de longo prazo. Se você consegue manter parte da renda, patrimônio ou clientela em moeda forte, fica menos vulnerável. Simples assim.</p>
<h2>Imposto é parte da vida adulta<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="imposto-é-parte-da-vida-adulta"></span>
    <a href="#imposto-%c3%a9-parte-da-vida-adulta" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Brasileiro CLT acha que entende imposto porque abre o programa da Receita uma vez por ano e clica em &ldquo;próximo&rdquo;.</p>
<p>Não entende.</p>
<p>Parece simples porque a parte difícil ficou escondida. A empresa paga uma montanha antes de seu salário líquido aparecer. Depois você paga IR, contribuição, imposto embutido em produto, serviço, consumo, propriedade, cartório, ganho de capital, inventário.</p>
<p>A <a href="https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/estudos/carga-tributaria/carga-tributaria-no-brasil-2023"target="_blank" rel="noopener">Receita Federal</a> estimou a carga tributária em <strong>32,3% do PIB</strong> em 2023. O último Doing Business comparável do Banco Mundial colocava uma empresa-padrão no Brasil gastando <strong>1.501 horas por ano</strong> só com obrigações tributárias. O relatório foi descontinuado, então não use como ranking atual. Use como fotografia do tamanho do monstro.</p>
<p>E a maioria não sabe a diferença entre renda, patrimônio, ganho de capital, pró-labore, dividendo, offshore declarada, evasão, elisão, residência fiscal, holding, inventário, ITCMD, IRPF, IRPJ, ISS, ICMS, PIS, Cofins.</p>
<p>Mistura tudo.</p>
<p>Offshore não é automaticamente sonegação. Pode ser ilegal se for usada pra esconder patrimônio, omitir renda, fraudar credor ou lavar dinheiro. Mas uma estrutura internacional declarada, com beneficiário final identificado, contabilidade correta e imposto pago conforme a lei aplicável, não é crime por definição. Você pode achar feio. Pode achar injusto. Só não chame tudo pelo nome errado.</p>
<p>Na prática, o que importa é cumprir a lei real, não repetir meme de internet.</p>
<p>Você compra imóvel. Anos depois vende por mais reais nominais. Parece lucro. Às vezes é só inflação. Mesmo assim, se houver ganho de capital tributável pela regra fiscal, o governo cobra sobre a diferença nominal conforme as regras aplicáveis.</p>
<p>Exemplo simplificado: comprou uma casa por <strong>R$ 500 mil</strong> em 2006. Vendeu em 2026 por <strong>R$ 1,2 milhão</strong>. Parece ganho de <strong>R$ 700 mil</strong>. Com IPCA acumulado perto de <strong>197%</strong>, essa casa precisaria valer perto de <strong>R$ 1,485 milhão</strong> só pra preservar poder de compra. Antes de imposto, você já perdeu em termos reais.</p>
<p>No papel, &ldquo;lucro&rdquo;. Na vida real, perda.</p>
<p>Você morre. Seus herdeiros descobrem inventário, cartório, advogado, ITCMD, prazo, conflito familiar e custo.</p>
<p>Não estou dizendo que toda família precisa de holding. Estou dizendo que você precisa saber fazer a conta antes, não depois que alguém morreu.</p>
<h2>Patrimônio precisa de estrutura<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="patrimônio-precisa-de-estrutura"></span>
    <a href="#patrim%c3%b4nio-precisa-de-estrutura" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Aqui muita gente entende errado de propósito.</p>
<p>Fique claro que não estou falando pra esconder patrimônio, sonegar, fraudar credor, nem transferir bem depois de ser processado pra tentar escapar de execução. Isso é ilegal, anulável e idiota.</p>
<p>Estou dizendo pra estudar planejamento patrimonial antes de comprar coisa grande no impulso.</p>
<p>Pode fazer sentido usar holding, empresa patrimonial, estrutura societária, testamento, seguro, previdência privada, conta internacional, offshore declarada. Depende do caso.</p>
<p>&ldquo;Depende do caso&rdquo; é a frase mais importante. Não copie estrutura de influencer. Não abra empresa em Bahamas porque viu num vídeo. Consulte profissional.</p>
<p>Holding boa não é mágica tributária. Pode ter ITBI, ganho de capital, custo anual, contabilidade, obrigação acessória, regra antiabuso, risco de desconsideração se você fizer bagunça. Ela não deixa bem imune a credor, execução, partilha ou fraude contra credores.</p>
<p>Ela só troca improviso por governança.</p>
<p>O princípio é simples: tudo que está diretamente no seu CPF fica exposto ao seu CPF. Processo, divórcio, inventário, disputa familiar, erro tributário, confusão societária, dívida, acidente. Uma estrutura legítima organiza risco, sucessão, administração e imposto dentro da lei.</p>
<p>O importante é não improvisar patrimônio quando já é tarde demais.</p>
<h2>Casamento, filhos e contratos<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="casamento-filhos-e-contratos"></span>
    <a href="#casamento-filhos-e-contratos" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Casamento é amor, claro. Perante o Estado também é contrato.</p>
<p>E contrato ruim destrói patrimônio, família e paz.</p>
<p>No Brasil existem regimes de bens. Comunhão parcial, comunhão universal, separação convencional, separação obrigatória em alguns casos, participação final nos aquestos. Muita gente casa sem entender nada disso.</p>
<p>Eu considero separação total de bens a forma mais respeitosa de casar.</p>
<p>Separar bens é o oposto de amar menos: é confiar o suficiente pra não precisar prender o outro no bolso pra provar sentimento. Cada um mantém clareza sobre o que é seu, o que é do outro, o que é construído junto por decisão explícita.</p>
<p>Isso continua permitindo generosidade, comprar coisas juntos e construir uma vida em comum. Só evita fingir que afeto substitui contabilidade.</p>
<p>E filhos?</p>
<p>Se puder escolher, tenha filhos quando conseguir pagar saúde e educação privadas.</p>
<p>Eu sei que essa frase irrita. Melhor se irritar agora do que descobrir tarde demais que o Estado não vai entregar o que você imaginou.</p>
<p>Filho é gente inteira que depende de você, não acessório de adulto nem projeto de Instagram pra resolver no &ldquo;depois a gente vê&rdquo;.</p>
<p>Se você quer filhos, planeje. Plano de saúde, escola, moradia, reserva, idioma, segurança, tempo, família por perto. Se ainda não dá, trabalhe pra dar.</p>
<h2>Opcionalidade<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="opcionalidade"></span>
    <a href="#opcionalidade" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Não deixe sua vida pendurada num único ponto de falha.</p>
<p>Uma moeda só. Um banco só. Um empregador só. Um país só. Um documento vencido. Uma plataforma que pode te banir. Uma corretora que pode travar. Uma fonte de renda que pode desaparecer.</p>
<p>Isso é fragilidade disfarçada de simplicidade.</p>
<p>Ter passaporte válido, visto quando fizer sentido, conta internacional declarada, reserva em moeda forte, currículo vendável fora, rede de contatos fora da sua bolha e capacidade de trabalhar remoto não significa que você vai embora amanhã. Significa que você pode escolher.</p>
<p>Governo nenhum precisa te perseguir pra destruir sua vida. Às vezes basta mudar regra, travar conta, aumentar imposto, atrasar documento ou corroer moeda devagar.</p>
<p>Quem só tem uma opção obedece.</p>
<p>Quem tem várias opções negocia.</p>
<p>Todo programador entende backup. Faça backup da própria vida.</p>
<h2>Então por que não ir embora?<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="então-por-que-não-ir-embora"></span>
    <a href="#ent%c3%a3o-por-que-n%c3%a3o-ir-embora" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Vá, se quiser e puder. Não há nada errado em emigrar.</p>
<p>Mas não trate isso como obrigação moral. Muita gente tem pais, irmãos, filhos, amigos, raízes. Nem todo mundo quer criar filho longe dos avós. Nem todo mundo quer transplantar uma vida inteira.</p>
<p>E existe uma vantagem prática: se você tem renda externa formalizada, declarada e tributada corretamente, e gasta em Real, o Brasil pode ser barato.</p>
<p>Serviço é mais barato. Aluguel pode ser mais barato. Comida pode ser mais barata. Diarista, encanador, dentista, restaurante, escola boa fora dos eixos mais caros: muita coisa fica acessível se sua renda vem de fora.</p>
<p>Eletrônico e hardware são caros por imposto e importação. Isso você resolve comprando fora quando fizer sentido, dentro das cotas, declarando e pagando o que for devido.</p>
<p>Qualidade de vida no Brasil pode ser muito boa se você tiver meios.</p>
<p>Esse é o ponto: não dependa da política pra ter meios.</p>
<h2>Gente competente vale ouro<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="gente-competente-vale-ouro"></span>
    <a href="#gente-competente-vale-ouro" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Durante sua carreira, não seja o nerd que só entrega tarefa e vai embora.</p>
<p>Empresa média ou grande tem financeiro, contabilidade, jurídico, vendas, operações, RH, diretoria. Faça amigos fora da sua bolha.</p>
<p>No Brasil, é muito útil conhecer pelo menos um bom contador e um bom advogado. Não pra pedir favor errado. Pra aprender a fazer certo.</p>
<p>O ambiente é hostil. Aqui e fora daqui. Sobrevive melhor quem acumula conhecimento, ferramentas e relações confiáveis.</p>
<p>Isso é survival of the fittest no sentido real: sobrevive o mais adaptado, aquele que se ajusta ao ambiente, e não o mais forte fisicamente.</p>
<h2>Conclusão<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="conclusão"></span>
    <a href="#conclus%c3%a3o" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Eleição não é plano de vida.</p>
<p>Você pode acompanhar política se quiser. Acompanhe como risco ambiental, não como religião. Chuva, seca, terremoto, inflação, câmbio, imposto, regra nova. Você não controla o céu. Controla se constrói telhado.</p>
<p>Pare de esperar uma mudança brilhante no futuro próximo.</p>
<p>Planeje como se nada fosse mudar por muito tempo.</p>
<p>Aprenda inglês. Ganhe em dólar se puder. Entenda imposto. Estruture patrimônio legalmente. Proteja sua família. Faça amigos competentes. Use o Brasil a seu favor, sem acreditar no Brasil como promessa.</p>
<p>Quando você faz isso, eleição vira barulho de fundo.</p>
<p>E barulho de fundo não manda na sua vida.</p>
]]></content:encoded><category>politica</category><category>pessoal</category></item><item><title>[Akitando] #3 - Por que a Coréia do Sul é tão grande em Criptomoedas?</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/08/21/akitando-3-por-que-a-coreia-do-sul-e-tao-grande-em-criptomoedas/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/08/21/akitando-3-por-que-a-coreia-do-sul-e-tao-grande-em-criptomoedas/</guid><pubDate>Tue, 21 Aug 2018 17:00:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal &lt;a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener"&gt;Akitando&lt;/a&gt;. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.&lt;/p&gt;
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&lt;h3&gt;Descrição no YouTube&lt;span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"&gt;&lt;/span&gt;
&lt;a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;&lt;p&gt;Neste episódio finalmente vamos ver alguns dos assuntos que assisti na conferência Beyond Blocks Summit em Seoul. E no meio da pesquisa esbarrei com uma história muito curiosa que quero contar em mais detalhes aqui:&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Disclaimer: esta série de posts são transcripts diretos dos scripts usados em cada video do canal <a href="https://www.youtube.com/channel/UCib793mnUOhWymCh2VJKplQ"target="_blank" rel="noopener">Akitando</a>. O texto tem erros de português mas é porque estou apenas publicando exatamente como foi usado pra gravar o video, perdoem os errinhos.</p>


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<h3>Descrição no YouTube<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="descrição-no-youtube"></span>
    <a href="#descri%c3%a7%c3%a3o-no-youtube" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h3><p>Neste episódio finalmente vamos ver alguns dos assuntos que assisti na conferência Beyond Blocks Summit em Seoul. E no meio da pesquisa esbarrei com uma história muito curiosa que quero contar em mais detalhes aqui:</p>
<p>O que um culto xamanista e um cachorro de estimação podem ter a ver com o impeachment da presidente da Coréia do Sul e como isso pode estar relacionado com o boom das criptomoedas lá?</p>
<p>Este episódio ficou com a narração um pouco mais devagar do que eu gosto, mas nos próximos eu acelero um pouco mais, aguardem ;-)</p>
<h2>Script<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="script"></span>
    <a href="#script" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>A gente acha que o Brasil não é para novatos.
É verdade. Mas não subestimem outros países. Querem ver?
Como um CULTO XAMANISTA e um cachorro de estimação levam ao impeachment da presidenta da Coréia do Sul e o que isso pode ter a ver com o boom de criptomoedas lá?</p>
<p>Rola a intro!</p>
<p>Olá Pessoal, Fabio Akita!</p>
<p>Mano … esse episódio vai dar trabalho. Apertem os cintos e vamos lá!
Com o turismo pra trás, HOJE vamos falar sobre o que vocês estavam esperando. Por que a Coréia é o que é no mundo de criptomoedas HOJE?</p>
<p>Claro, podemos criar muitas teorias e a maioria delas provavelmente vai estar errada, MAS uma delas veio logo no primeiro dia do evento Beyond Blocks. A primeira palestra foi do CEO e co-fundador da Hashed, Simon Kim.</p>
<p>A Hashed é um dos grupos mais influentes no mundo de criptomoedas na Coréia. Basicamente é uma aceleradora fundada no meio de 2017. Eles tem dezenas de startups no portfólio e estão envolvidos em projetos que vocês já devem ter ouvido falar como Kyber Network, OmniseGo, EOS, WAS, Storm. No portfolio deles, segundo a Crunchbase, você vê empreendimentos como Origin Protocol que já levantou mais de USD 28 milhões em investimento, Watcha que levantou 12 milhões, Bluzelle que levantou quase 20 milhões e assim por diante.</p>
<p>O próprio Simon foi um investidor no começo do Ethereum e, claro, se deu muito bem quando o Ether começou a crescer exponencialmente. Muitos fundadores de crypto funds eram inicialmente investidores e tiveram a sorte de pegar os primeiros bull runs como o de 2013 e do ano passado.</p>
<p>A teoria de Simon e da Hashed até faz muito sentido pra mim por isso apresento ela aqui. E tem a ver com TRES pilares: cultura, demografia e timing político.</p>
<p>Para dar perspectiva, pense que a Coréia do Sul é um país BEM pequeno. Ele não está nem entre os top 100 países em tamanho. É quase o fim da lista dos top 30 de população. Mas mesmo assim figura quase entre os top 10 de PIB, estando em 12o lugar!</p>
<p>A coréia é globalmente mais conhecida hoje pelo que eu chamo dos TRES Ks: Kimchi, K-pop claro e Kryptomoedas.</p>
<p>Que outros fatos são interessantes? Eles tem uma das internets mais rápidas do mundo, liderando acima da China, acima do Japão.</p>
<p>Eu falei como todo coreano carrega um celular Samsung e eles tem a maior densidade de smartphones difundido na população. E não estamos falando de feature phones, tipos os Nokia baratos que ainda se usa em muitos lugares da China ou Índia por exemplo. Estamos falando de smartphones Android. E a penetração é nada menos que 94% da população!</p>
<p>Some isso ao fato que quase metade dessa população, 40%, vive em Seoul ou em cidades ao redor da região de Seoul e você tem uma das populações mais hiperconectadas do mundo. O Brasil por exemplo é prejudicado pela sua geografia, que isola as cidades e impede conexões maiores. Veja este vídeo para saber mais.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=FQ2jmrz_xgU"target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=FQ2jmrz_xgU</a></p>
<p>Por causa disso a Coréia tem a 4a maior receita de app store do mundo. Só em 2017 os sul coreanos gastaram nada menos que 3 BILHÕES de dólares no Google App Store comprando itens puramente digitais. Avatars, presentes digitais, upgrade de apps. Num jogo chamado Lineage que é um MMORPG tipo World of Warcraft, jogadores gastam até 1000 DÓLARES em espadas digitais de quantidade limitada.</p>
<p>Games, todo mundo sabe que a Coréia tem uma longa tradição em games, MMORPG, e-sports. Todo mundo neste ponto já conhece a Bluehole que é a criadora sul coreana do explosivo massive multiplayer battle royale PUBG. Mas essa tradição vem lá de trás.</p>
<p>Sabe qual é o MMORPG mais antigo ainda em funcionamento até hoje? Que tal NEXUS: The Kingdom of the Winds que foi lançado em 1996 (!!) e até hoje está funcionando?</p>
<p>Em 1999 você já tinha o primeiro serviço pago de avatars chamado SayClub!</p>
<p>Também em 1999 você tinha um tipo de rede social com microblogging onde você podia comprar mercadorias virtuais para mobiliar um quarto virtual chamado CyWorld, algo como um Orkut mas já envolvendo comércio.</p>
<p>E 1999 não pára porque daí você tinha um grande portal onde você podia jogar usando uma moeda virtual, o Hancoin, na plataforma Hangame.</p>
<p>E o próximo passo depois de comprar coisas virtuais é trocá-las e aí você tem a plataforma ItemBay em 2001, um e-Bay para coisas virtuais.</p>
<p>E a Coréia também embarcou na onda Napster de música p2p com seu próprio Soribada.</p>
<p>E isso sem contar o início do e-Sports com o Starcraft League em 2000, a primeira liga de e-sports a atrair popularidade nacional.</p>
<p>Um aspecto que eu mesmo não tinha me dado conta, e faz todo sentido, é que asiático é viciado em jogatina. E jogatina organizada tipo cassino é proibido em muitas dos países asiáticos como na China, Japão ou Coréia do Sul. Só estrangeiros podem frequentar os cassinos. Um exemplo, Macau tem metade dos casinos de Las Vegas mas tem o DOBRO da receita. E nem começamos a falar das apostas em corridas de cavalos.</p>
<p>Com tudo isso, estabelecemos que a sociedade coreana é altamente cosmopolita, com quase metade da população na grande região ao redor de Seoul, todo mundo altamente conectado onde as notícias se espalham muito rápido entre uma população altamente acostumada a jogatina online.</p>
<p>Mas em 2012 quando o Bitcoin começou seu primeiro grande crescimento parabólico (antes do crash por causa do Mt Gox e Silk Road) os coreanos ainda não tinha muito acesso a comprar Bitcoins e perderam essa corrida. Então quando o Ethereum apareceu e passou do USD 1 de valor já haviam várias exchanges operacionais e as pessoas viram como uma oportunidade de investir no “próximo Bitcoin”.</p>
<p>Quando o valor do Ethereum passou de USD 1 para USD 40 em 4 meses em 2016, a notícia de ganhos de 4000% se espalharam hiper rápido e todo mundo começou a comprar Ether como se não houvesse amanhã! E as notícias de ganhos extraordinários em altcoins como Ripple, Litecoin, Monero e outros continuaram a se espalhar extremamente rápido nas mídias sociais durante 2017.</p>
<p>Só uma coisa poderia parar isso: a intervenção do governo. Qualquer governo do mundo, principalmente em 2015 a 2016, depois do crash da Mt Gox de 2014, estaria atento vendo pessoas comprando coisas como Ether desgovernadamente e o preço subindo de USD 1 para USD 10 do nada.</p>
<p>Em 2013 a Coréia do Sul tava elegendo seu 18o presidente, a primeira presidente mulher da história não só da Coréia do Sul, mas do Leste Asiático -  박근혜 - Park Geun Hyeo .
Ela tinha longa carreira política e exerceu quatro termos consecutivos no parlamento desde 1998. Segundo nossa amiga Wikipedia, depois que foi eleita ela foi listada como décima-primeira das mulheres mais influentes da lista da Forbes e quadragésima-sexta (46) pessoa mais influente da lista da Forbes, em termos de coreanos ela tava só atrás do presidente e vice-presidente do poderoso grupo Samsung. Lembram? 15% do PIB??</p>
<p>Ela também era conhecida pela más línguas como a “filha do ditador”, Park Chung Hee 박정희 que liderou um golpe de estado em 1961. Pelo bem ou pelo mal, numa Coréia do Sul pós-liberação (lembra? Contra os fantoches do norte em 1950), tendo terminado a segunda república que não tinha apoio por acusações de terem fraudado as eleições de 1960, dizem que a ditadura de Park criou as fundações pro rápido período de industrialização do país. As ditaduras militares iam ainda continuar até 1993.</p>
<p>Em 1974 uma tentativa de assassinato deu errado e o tiro perdido matou a primeira mulher de Park - Yuk Young-soo 육영수.</p>
<p>Park Chung Hee e sua filha Park Geun Hye obviamente sofreram muito com a morte de Yuk Young Soo e eis que uma figura bizarra aparece: Choi Tae-min originalmente um monge budista que se converteu para a igreja católica romana e criou um culto xamanista chamado Yongsae-gyo (영세교), ou “Igreja do Espírito do Mundo”, se auto-declarando Maitreya, ou “Futuro Buda”! Ele apareceu na vida dos Park logo depois do assassinato de Yuk Young Soo dizendo que ela apareceu para ele e pediu para que ajudasse sua filha!</p>
<p>Park escapou de outras tentativas de assassinato, sendo 2 pelo menos ligados a simpatizantes da Coréia do Norte. Mas em 79 ele foi traído pelo seu amigo e diretor da agencia central de inteligencia - a fucking CIA da Coréia- Kim Jae-gyu 김재규 que depois foi capturado junto com seus comparsas, torturado, julgado, condenado e executado. Então, em 2 anos, a jovem Geun Hyeo perdeu sua mãe e seu pai.</p>
<p>E foi assim que o sinistro Choi se tornou mentor de Park Geun Hyeo e também foi assim que sua 5a filha Choi Soon Sil se tornou amiga de Park Geun Hyeo desde pelo menos 1977.</p>
<p>Com uma carreira em ascensão que culminou em ser eleita democraticamente presidente em 2013 começaram a aparecer os escândalos. Parece que Park se tornou mero fantoche dos Choi, sendo manipulada a vida inteira.</p>
<p>Mas como isso veio à tona? A Coréia do Sul não é para amadores. A coisa estourou por causa do Puppygate! Isso mesmo!</p>
<p>Em resumo, a tal Choi conheceu um ex-esgrimista e atleta olímpico, o Ko Young Tae, que estava com uma marca luxuosa de bolsas e roupas chamada Villomillo. Choi gostou dos itens e passou a dá-los para a presidente Park. E, claro, o Ko se beneficiou muito tendo sua cara marca de itens associada não-oficialmente a Park via Choi.</p>
<p>A coisa azedou uma vez que a Choi pediu para ele cuidar do cachorro da sua filha. Ko deixou o cachorro no seu apartamento e foi jogar golfe. Quando voltou tomou uma comida de rabo homérica por ele ter deixado o cachorro abandonado. Daí ela passou a tratar ele mal, xingando ele, tratando como escravo. E o que fez o sr. Ko? Resolveu devolver os maus tratos: foi pra imprensa e contou da relação da Choi com Park. Aí a casa caiu.</p>
<p>Foi revelado como Choi Soon Sil que Não tem afiliação política nem nenhum tipo de cargo oficial tinha acesso a documentos confidenciais do governo, chegando a editar os discursos de Park. Também por causa dessa relação apareceu que Park fazia as grandes empresas como Samsung doar mais de dezenas de milhões de dólares para ONGs controladas por Choi.</p>
<p>Em resumo, como vocês sabem, o boca a boca corre MUITO rápido na população hiperconectada de Seoul. E em outubro de 2015 o povo já tava de saco cheio e foi pras ruas pedindo a renúncia de Park. Ela se recusou a renunciar mesmo tendo chegado ao pior índice de aceitação da história da Coréia do Sul, indo para 1% entre as pessoas abaixo de 60 anos de idade.</p>
<p>Choi foi até chamada por muitos de a Rasputin Coreana. Depois de muitas investigações e muita merda jogada no ventilador que espirrou em gigantes como os grupos Samsung e Lotte, terminou com a condenação de 20 anos de prisão de Choi.
E tentando relutar e negar até o fim, boicotando os julgamentos, ela terminou condenada por 16 das 18 acusações e terminou com uma sentença de 24 anos de prisão.  Agora ela está cumprindo sua pena no Centro de Detenção de Seoul.
Muitos ainda apoiam a ex-presidente e dizem que foi Golpe. ..</p>
<p>Sério, essa história é surreal. Quando você acha que já viu de tudo .. mas eu sei que ficou longo mas a história é tão legal que eu me empolguei aqui.</p>
<p>E o que tudo isso tem a ver com criptomoedas você se pergunta. Imagine o rebuliço que ficaram todas as instâncias de todas as instituições do país enquanto as investigações e o escrutínio da mídia e do público pegavam fogo.</p>
<p>Vocês acham que alguém do governo tava prestando atenção em Ethereum, que estava tendo uma valorização meteórica de preço de USD 1 para USD 40 e a mesma coisa estava começando a acontecer com outras alt-coins. Num período normal o governo teria brecado isso.</p>
<p>E eis a receita de como a Coréia do Sul saltou para o país com o maior volume de transações em criptomoedas em 2017. Imagina, uma população viciada por jogatina, ouvindo falar de novos milionários aparecendo do dia para a noite por causa de uma novidade chamada criptomoedas. O boca a boca digital de uma população quase inteira hiperconectada.</p>
<p>Nos Estados Unidos parece que nem 1% da população tem criptomoedas. De acordo com algumas pesquisas da Hashed, parece que nada menos que 30% dos trabalhadores assalariados da coréia do sul já tem criptomoedas em alguma forma, e isso é um número conservador. Alguns acreditam que o número real seja mais próximo dos 50% ou mais.</p>
<p>Além disso nos Estados Unidos, a maioria dos investidores está concentrado em grupos mais jovens, de millennials. Na Coréia até sua avó está investindo em criptomoedas. Não é incomum encontrar grupos de velhinhas discutindo altcoins nos cafés de Seoul.</p>
<p>Como disse no começo, é muito difícil dizer que essa exata sequência de eventos foram realmente os determinantes, mas que é uma puta boa história, isso é. E no mínimo serve para tornar a imagem que temos dos coreanos mais colorida.</p>
<p>E no próximo episódio vou ser mais leve e vamos tratar dos outros assuntos e startups que vi nos eventos. Em particular, vamos começar a tocar no assunto de ICOs!</p>
<p>Nos vemos em breve! Câmbio e desligo!</p>
]]></content:encoded><category>bitcoin-e-criptomoedas</category><category>politica</category><category>games</category><category>akitando</category></item><item><title>Off-Topic: A Lamentável Evolução da Sociedade Moderna</title><link>https://akitaonrails.github.io/2018/07/26/off-topic-a-lamentavel-evolucao-da-sociedade-moderna/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2018/07/26/off-topic-a-lamentavel-evolucao-da-sociedade-moderna/</guid><pubDate>Thu, 26 Jul 2018 15:28:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;O mundo está perecendo numa orgia de autojustiça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pessoal do Wisecrack sempre consegue me arrancar um sorriso. Me dão esperança de que ainda existem pessoas com bom senso nesse mundo. Este texto é inspirado naquele vídeo e numa série de pensamentos complementares que fui juntando.&lt;/p&gt;
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&lt;p&gt;Como engenheiro, vivo pasmo com o que somos capazes de criar. Ninguém imaginaria que uma das invenções mais fantásticas da humanidade, a internet, junto dos seus maiores sucessos, pudesse virar arma de destruição em massa. Falo do acesso móvel onipresente e das redes sociais capazes de reunir um número absurdo de pessoas ao mesmo tempo.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>O mundo está perecendo numa orgia de autojustiça.</p>
<p>O pessoal do Wisecrack sempre consegue me arrancar um sorriso. Me dão esperança de que ainda existem pessoas com bom senso nesse mundo. Este texto é inspirado naquele vídeo e numa série de pensamentos complementares que fui juntando.</p>


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<p>Como engenheiro, vivo pasmo com o que somos capazes de criar. Ninguém imaginaria que uma das invenções mais fantásticas da humanidade, a internet, junto dos seus maiores sucessos, pudesse virar arma de destruição em massa. Falo do acesso móvel onipresente e das redes sociais capazes de reunir um número absurdo de pessoas ao mesmo tempo.</p>
<p>Esse caso está longe de ser o único, mas serve de exemplo. Há poucos dias, fui pego de surpresa por uma notícia aparentemente pequena. James Gunn, o querido diretor de dois dos maiores sucessos do MCU com seus Guardiões da Galáxia, foi demitido por causa de tweets que escreveu havia dez anos.</p>
<p>Não estou aqui para julgar o mérito dos tweets nem se o pedido de desculpas dele foi suficiente.</p>
<p>Na verdade, só de dizer que sou neutro já sou automaticamente julgado como favorável. Esse é o problema.</p>
<p>Nos últimos dias, vimos páginas e contas de direita sendo deletadas do Facebook. Faz parte do esforço contínuo da plataforma para combater &ldquo;fake news&rdquo;, que de fato é um problema contemporâneo. Portais de notícia viraram fábricas de clickbait, exatamente como o vídeo do Wisecrack descreve.</p>
<p>Mas quem decide o que é &ldquo;fake news&rdquo;? O que &ldquo;ofende&rdquo; um grupo barulhento que gera cliques. Portanto, precisamos banir o outro lado.</p>
<p>Isso me lembra uma frase clichê de O Senhor dos Anéis que sempre ressoou em mim. Quando a Sociedade tenta atravessar Moria, Frodo lamenta para Gandalf:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Que pena que Bilbo não apunhalou aquela criatura vil quando teve a chance!&rdquo;</p>

</blockquote>


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<p>E Gandalf responde:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Pena? Foi a Pena que deteve sua mão. Pena e Misericórdia: não ferir sem necessidade. E ele foi bem recompensado por isso, Frodo. Pode ter certeza de que sofreu tão pouco com o mal e escapou no final justamente porque começou sua posse do Anel dessa forma. Com Pena.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>E então conclui:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Merece! Eu diria que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem a vida. Você pode devolvê-la a eles? Então não seja tão ansioso para distribuir a morte em julgamento.</p>
<p>Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver todos os fins. Não tenho muita esperança de que Gollum seja curado antes de morrer, mas existe uma chance. E ele está ligado ao destino do Anel. Meu coração me diz que ele ainda tem um papel a cumprir, para o bem ou para o mal, antes do fim; e quando isso acontecer, a pena de Bilbo poderá reger o destino de muitos, inclusive o seu.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Voltando ao Gunn: o que me surpreendeu não foi a republicação dos tweets nem a indignação pública (obviamente, nenhuma pessoa sã endossa literalmente o conteúdo específico). O que realmente me impressionou foi a velocidade absurda com que uma megacorporação do tamanho da Disney respondeu com uma guilhotina, destruindo uma grande carreira em questão de horas.</p>
<p>Me lembra sentenças públicas igualmente rápidas, sem julgamento, sem devido processo. De novo, não estou defendendo essas pessoas, mas lembro dos casos James Damore vs. Google, Brendan Eich vs. Mozilla e James Watson vs. Nobel.</p>
<p>E a maioria de vocês, ou dos seus amigos, diria: <em>&ldquo;claro que foram expulsos, são pessoas ruins, temos que nos policiar para remover esses vilões do nosso meio.&rdquo;</em></p>
<p>Será que devemos?</p>
<p>Você consegue devolver o futuro deles se estiver errado? O que te dá o direito de ser juiz e júri?</p>
<p>Cuidado. Quando provocada, uma pessoa razoável e normal busca o diálogo em privado, como qualquer sociedade civilizada aprendeu a fazer. Mas as redes sociais motivam as pessoas a fazerem o pior: expor publicamente.</p>
<p>Isso é formação de manada. Bullying puro e simples. Sofri bullying a vida inteira, sendo minoria japonesa num país ocidental, e sei exatamente o quanto dói. É por isso que jamais revido com bullying.</p>
<p>Se você expõe alguém publicamente, não está praticando &ldquo;justiça&rdquo;. Você é simplesmente um bully. Independente do assunto.</p>
<p>Você já leu o cabeçalho dos meus perfis no <a href="https://www.facebook.com/fabio.akita.profile"target="_blank" rel="noopener">Facebook</a> e no <a href="https://twitter.com/akitaonrails"target="_blank" rel="noopener">Twitter</a>? Diz:</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Eu desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.&rdquo; — Evelyn Beatrice Hall.</p>

</blockquote>
<p>E eu acredito nisso de verdade.</p>
<p>Nunca vou humilhar alguém publicamente. Só covardes fazem isso. Envergonhar alguém em público tem um único propósito: mobilizar a massa, transformar o rebanho em tropa de choque para executar alguém em praça pública e, assim, fazer valer o próprio ponto sem precisar defendê-lo.</p>
<p><em>&ldquo;Mas eu tenho o direito de não ser ofendido.&rdquo;</em></p>
<p>Não. Não tem.</p>
<p>Outro filme que comentei anos atrás, e do qual cortei um trecho para publicar aqui, é a obra-prima de Miloš Forman, O Povo Contra Larry Flynt, produzida por Oliver Stone.</p>
<div class="video-container">
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</div>
<p>O filme conta a história do fundador da revista pornográfica Hustler. Um sujeito desprezível por praticamente qualquer critério.</p>
<p>Mas esse é exatamente o ponto. Larry fez coisas que a maioria de vocês condenaria. Não só publicar pornografia, mas satirizar figuras públicas com piadas de péssimo gosto. Piadas, ainda assim. O trecho que mais me impactou foi a ideia de que ninguém tem o direito de não ser ofendido. É uma questão subjetiva, sem lugar num tribunal, porque gosto não se define juridicamente.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Senhoras e senhores do júri, vocês ouviram muito hoje, e não vou revisitar tudo isso, mas precisam entrar naquela sala e tomar algumas decisões. Mas antes, há algo que precisam saber. Não estou tentando sugerir que vocês deveriam gostar do que Larry Flynt faz. Eu não gosto do que Larry Flynt faz. Mas gosto de viver num país onde você e eu podemos tomar essa decisão por conta própria. Gosto de viver num país onde posso pegar a revista Hustler, lê-la, ou jogá-la no lixo se for lá que acho que ela pertence.&rdquo;</p>

</blockquote>
<p>Qualquer pessoa tem o direito de fazer e dizer o que quiser, desde que não cause dano real a outra pessoa. É uma linha tênue, porque meus direitos devem terminar onde os seus começam.</p>
<blockquote>
  <p>&ldquo;Se a Primeira Emenda vai proteger um lixo como eu, vai proteger todos vocês.&rdquo; — Larry Flynt.</p>

</blockquote>
<p>Mas como isso não pode ser resolvido nos tribunais, pessoas radicais tomam a lei nas próprias mãos usando a arma mais poderosa já criada: as redes sociais. Elas conseguem reunir um júri enorme em minutos e decretar a execução pública. É como dar uma arma carregada para uma criança.</p>
<p>Isso é território de Inquisição. Galileu foi julgado e condenado porque ofendeu a sociedade católica ao afirmar que a Terra e os planetas giram em torno do Sol, e não o contrário. Parece trivial hoje, mas era um escândalo monumental na época. Havia gente disposta a morrer para não aceitar essa afirmação ofensiva. O tema estaria em alta no Twitter dos anos 1600, e a execução pública seria exigida em minutos.</p>
<p>Essa justificativa do <em>&ldquo;estou ofendido&rdquo;</em> é o que levou, em última análise, a assassinatos como os de Luther King, JFK e Lennon, à prisão de Gandhi e ao genocídio dos judeus. Intolerância.</p>
<p>Se não ser ofendido é o objetivo máximo, a intolerância vira o único caminho, e o assassinato da Liberdade, a pior consequência.</p>
<p>Toda atrocidade da humanidade começa com o comportamento de manada em torno do <em>&ldquo;eu não deveria me sentir ofendido.&rdquo;</em></p>
<p>Essa é a história por trás de Fahrenheit 451, que o Wisecrack explica bem. Em dado momento, as pessoas simplesmente começaram a criar câmaras de eco. Cada feed do Twitter e cada linha do tempo do Facebook são, por definição, câmaras de eco. Você só recebe conteúdo meticulosamente curado por machine learning, configurado para cuspir posts que não vão te ofender e jamais vão desafiar seus pontos de vista.</p>
<p>Você cria e vive numa bolha, e fica indignado imediatamente quando sua realidade é desafiada por qualquer ideia que provoque reflexão. Você se limita ao seu status quo personalizado e estreito.</p>
<p>É mentira quando você diz <em>&ldquo;sou de mente aberta&rdquo;</em> mas fica expondo pessoas o tempo todo e reclamando de tudo que te ofende. Você não é de mente aberta. Não dá pra ter o bolo e comer o bolo também. Pelo menos admita a verdade: que você é de mente fechada e intolerante.</p>
<p>Ao contrário do que muitos acreditam, a internet deveria nos libertar dos governos, das instituições autoritárias e dos grandes veículos de mídia que supostamente controlavam o ponto de vista das massas.</p>
<p>Deveríamos ter acesso a um leque mais amplo de conhecimento, sem fronteiras, sem preconceito, o que nos ajudaria a avançar mais rápido para o futuro, para mais inovação.</p>
<p>Inovação, por definição, é um desafio ao status quo. Você não consegue inovar e agradar todo mundo ao mesmo tempo. Isso é impossível. Do contrário, é só mais do mesmo.</p>
<p>A invenção do fogo desafiou a natureza, o heliocentrismo questionou Deus, a teoria da evolução por seleção natural desafiou a alma humana.</p>
<p>As redes sociais pegaram uma internet livre e descentralizada e a colocaram numa coleira bem apertada, controlada por &ldquo;Influencers&rdquo;. Gente de puro carisma, sem retidão e muito menos sabedoria. O carisma é o que atrai grandes quantidades de seguidores. O efeito de rede é perverso.</p>
<p>Deveríamos estar todos <strong>juntos</strong>, colaborando para o bem da humanidade, independente de raça, geografia ou inclinações políticas.</p>
<p>Fique atento: você está caindo nas <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Eight_stages_of_genocide"target="_blank" rel="noopener">Oito Etapas do Genocídio</a>. Veja:</p>
<ol>
<li>Classificação: As pessoas são divididas em &ldquo;eles e nós&rdquo;.</li>
<li>Simbolização: &ldquo;Quando combinados com ódio, símbolos podem ser impostos a membros relutantes de grupos párias&hellip;&rdquo;</li>
<li>Desumanização: &ldquo;Um grupo nega a humanidade do outro. Os membros são equiparados a animais, vermes, insetos ou doenças.&rdquo;</li>
<li>Organização: &ldquo;O genocídio é sempre organizado&hellip; Unidades especiais do exército ou milícias são frequentemente treinadas e armadas&hellip;&rdquo;</li>
<li>Polarização: &ldquo;Grupos de ódio disseminam propaganda polarizante&hellip;&rdquo;</li>
<li>Preparação: &ldquo;As vítimas são identificadas e separadas por sua identidade étnica ou religiosa&hellip;&rdquo;</li>
<li>Extermínio: &ldquo;É &rsquo;extermínio&rsquo; para os assassinos porque eles não acreditam que suas vítimas sejam plenamente humanas.&rdquo;</li>
<li>Negação: &ldquo;Os perpetradores&hellip; negam que cometeram qualquer crime&hellip;&rdquo;</li>
</ol>
<p>Esse é o modus operandi nazista original, e você está perpetuando essas etapas. Não sou judeu, mas admiro e respeito profundamente sua história e resiliência. Já fui ao <a href="http://www.akitaonrails.com/2012/11/21/viagem-a-europa-parte-3-tel-aviv-israel"target="_blank" rel="noopener">Instituto do Holocausto</a> oficial em Yad Vashem, em Israel, e também ao de Washington D.C., porque respeito as lições que deixaram para trás. Era nosso dever não deixar a história se repetir.</p>
<p>Mas tal é o poder da ideologia cega e da liderança de celebridades carismáticas.</p>
<p>Tivemos líderes carismáticos fazendo coisas boas e ruins, carismáticos de qualquer forma. Para cada Lincoln ou Churchill, tivemos um Stalin ou um Castro.</p>
<p>O mais difícil é que só conseguimos saber, com clareza, que algo deu horrivelmente errado olhando para trás, pela História. Não existe um &ldquo;bem&rdquo; versus &ldquo;mal&rdquo; em preto e branco. Você sempre acha que está fazendo um excelente trabalho ao seguir pessoas carismáticas que parecem promover apenas o bem-estar de um grupo minoritário.</p>
<p>Pergunte a si mesmo: você está seguindo alguém altruísta, capaz de tratar o outro com mais humanidade do que recebeu? Ou isso soa mais como vingança egoísta e acerto de contas? O ódio é sempre a matéria do mal. Uma pessoa justa não imita aquilo contra o qual diz lutar. Qualquer um que defenda &ldquo;vamos fazer com eles o que fizeram conosco&rdquo; é provavelmente o Mal. Você cita gente como Gandhi. Não aprendeu nada com o que ele ensinou a vida inteira?</p>
<p>Todo Fidel, todo Mussolini, todo Hitler realmente acreditava que estava lutando pelo bem-estar do seu povo. Todo nazista agiu acreditando que estava fazendo a coisa certa pelo futuro dos seus filhos e filhas, que os sacrifícios valeriam a pena. Que eram Nobres por matar pessoas.</p>
<p>Nunca houve uma plataforma melhor para transformar pessoas em manadas irracionais do que agora. Há YouTubers com milhões de seguidores a mais do que qualquer Hitler jamais teve.</p>
<p>E para piorar, formamos o consenso online de que as pessoas têm um direito mágico e inerente de &ldquo;nunca serem ofendidas&rdquo;. Não podem ser ofendidas por tweets de 200 caracteres. Isso é pecado capital, e o perpetrador deve morrer. Pedido de desculpas não basta. A polícia do pensamento chegou a tal ponto que um único tweet fora de contexto basta para julgar e executar a vida de uma pessoa, sem recurso, sem liberdade condicional.</p>
<p>É fascinante ver como uma série de tecnologias e inovações que deveriam ampliar a liberdade de todos acabou se tornando a arma de destruição em massa mais potente já criada. E não precisou de um novo Hitler para isso.</p>
<p>O fim do mundo não precisa ser um evento físico catastrófico, como uma explosão nuclear. Acho que a destruição do próprio tecido da sociedade é ainda pior. Não é um grande ditador malvado que vai matar a Liberdade, são as pessoas que não a merecem. É muito mais nefasto e pode ser ainda mais devastador.</p>
<p>Essa é a lição: nenhum Omar Bashir, Bashar Al-Assad ou Nicolás Maduro será, sozinho, responsável por destruir a sociedade.</p>
<p>Todo malfeitor da história fez o que fez <em>&ldquo;em nome do povo.&rdquo;</em></p>
<p>E tudo começa com <em>&ldquo;eu não deveria ser ofendido.&rdquo;</em></p>
]]></content:encoded><category>politica</category><category>filosofia</category><category>psicologia</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Penn &amp; Teller e Larry Flynt, sobre Liberdade</title><link>https://akitaonrails.github.io/2010/03/07/off-topic-penn-and-teller-e-larry-flynt-sobre-liberdade/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2010/03/07/off-topic-penn-and-teller-e-larry-flynt-sobre-liberdade/</guid><pubDate>Sun, 07 Mar 2010 02:21:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;Ontem eu estava no canal FX e esbarrei por acaso numa reprise do ótimo &lt;a href="http://web.archive.org/web/20100313081433/http://www.sho.com/site/ptbs/home.do"target="_blank" rel="noopener"&gt;Penn &amp;amp; Teller, Bullshit!&lt;/a&gt;. Penn e Teller são dois mágicos famosos que se apresentam em Las Vegas e têm seu próprio programa, o Bullshit!, que discute política, questiona o status quo e desmonta falácias e folclore popular. Nesse episódio eles fecharam com um truque de mágica: queimar a bandeira americana enquanto falavam sobre Liberdade de Expressão. Assistam ao trecho antes de continuar:&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu estava no canal FX e esbarrei por acaso numa reprise do ótimo <a href="http://web.archive.org/web/20100313081433/http://www.sho.com/site/ptbs/home.do"target="_blank" rel="noopener">Penn &amp; Teller, Bullshit!</a>. Penn e Teller são dois mágicos famosos que se apresentam em Las Vegas e têm seu próprio programa, o Bullshit!, que discute política, questiona o status quo e desmonta falácias e folclore popular. Nesse episódio eles fecharam com um truque de mágica: queimar a bandeira americana enquanto falavam sobre Liberdade de Expressão. Assistam ao trecho antes de continuar:</p>
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<p>Já não é segredo que sou um <a href="/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem/">grande fã</a> dos Pais Fundadores da América. Política em si não me atrai muito, mas a filosofia por trás dela me interessa. E ali estava o Penn queimando a bandeira americana ao vivo.</p>
<p>Talvez vocês não saibam, mas esse ato, comum em protestos públicos de inúmeros países, é <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Flag_desecration"target="_blank" rel="noopener">considerado crime</a> em boa parte do mundo. Nos Estados Unidos, não. A <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/First_Amendment_to_the_United_States_Constitution"target="_blank" rel="noopener">Primeira Emenda</a> garante a Liberdade de Expressão, e por isso é inconstitucional o governo censurar o gesto, tratado como uma expressão simbólica.</p>
<p>No fim do truque, para quem não conhece, Penn recita a segunda estrofe do hino americano, o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Star-Spangled_Banner"target="_blank" rel="noopener">Star-Spangled Banner</a>:</p>
<blockquote>
  <p>On the shore, dimly seen through the mists of the deep,<br>
Where the foe’s haughty host in dread silence reposes,<br>
What is that which the breeze, o’er the towering steep,<br>
As it fitfully blows, half conceals, half discloses?<br>
Now it catches the gleam of the morning’s first beam,<br>
In full glory reflected now shines in the stream:<br>
‘Tis the star-spangled banner! Oh long may it wave<br>
O’er the land of the free and the home of the brave.</p>

</blockquote>
<blockquote>
  <p>Na costa, vista com dificuldade pelas névoas do oceano profundo,<br>
Onde as orgulhosas hostes do inimigo em silêncio temoroso repousam,<br>
O que é que a brisa, sobre o altíssimo precipício,<br>
Enquanto sopra irregularmente, ora esconde, ora expõe?<br>
Eis que ela reflete o brilho do primeiro raio de luz da manhã,<br>
Em toda a sua glória refletida brilha sobre o rio:<br>
É a bandeira estrelada! Ó, que por muito tempo ela tremule<br>
Sobre a terra dos livres e o lar dos valentes.</p>

</blockquote>
<p>A ideia é simples: a Liberdade de Expressão, a livre circulação das ideias, vale mais do que a própria bandeira que a simboliza, e mais do que as instituições por trás dela. É um valor forte, e é a base sobre a qual se constrói uma grande sociedade.</p>
<p>Isso me lembrou de outro caso famoso, o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hustler_Magazine_v._Falwell"target="_blank" rel="noopener">Hustler contra Jerry Falwell</a>. Falwell foi um daqueles líderes religiosos famosos na TV, e a Hustler é uma das maiores revistas pornográficas dos EUA. A briga começou com uma sátira de um anúncio da Campari, publicada na revista, que trazia uma entrevista falsa de Falwell contando um caso de incesto com a própria mãe, tudo regado a Campari.</p>
<p>Falwell processou a Hustler. O caso subiu até a Suprema Corte, e a decisão foi unânime, 8 a 0:</p>
<blockquote>
  <p>“No coração da Primeira Emenda está o reconhecimento da importância fundamental do livre fluxo de idéias e opiniões em assuntos de interesse e preocupação pública. A liberdade de dizer o que se pensa não é apenas um aspecto da liberdade individual – e portanto um bem em si mesmo – mas também é essencial para a busca comum pela verdade e da vitalidade da sociedade como um todo. Portanto nós temos estado particularmente vigilantes para garantir que a expressão individual de idéias permaneçam livres de sanções impostas pelo governo.”</p>

</blockquote>
<p>Se ainda não assistiu, recomendo o filme <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_People_vs._Larry_Flynt"target="_blank" rel="noopener">The People vs Larry Flynt</a>, que dramatiza justamente esse episódio. Veja a sustentação oral do caso no vídeo abaixo:</p>
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<p>Para florescer e se sustentar, uma sociedade precisa de fundações sólidas. É por isso que admiro tanto os Pais Fundadores, que ainda no século XVIII tiveram a visão de escrever peças-mestras como a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Declaration_of_Independence"target="_blank" rel="noopener">Declaração de Independência</a> e a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Bill_of_Rights"target="_blank" rel="noopener">Declaração de Direitos</a>.</p>
<p>Para mim, tudo isso se conecta com a ideia de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Organizations"target="_blank" rel="noopener">Organizações</a> no sentido amplo, e de empresas no sentido mais restrito. Numa escala reduzida, uma empresa é uma comunidade, com cultura, regras, leis e governo próprios.</p>
<p>E me espanta como a fundação ideológica dessas comunidades ainda é primitiva. A maioria se parece com um <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Totalitarianism"target="_blank" rel="noopener">governo totalitário</a>, na definição do dicionário:</p>
<blockquote>
  <p>Totalitarismo é um sistema político onde o estado, normalmente sob o controle de uma única organização política, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regular cada aspecto da vida pública e privada onde quiser. Totalitarismo é geralmente caracterizado pela coincidência do autoritarismo (onde cidadãos ordinários não têm parte significativa nas tomadas de decisão do estado) e ideologia (um esquema perverso de valores promulgados por meios de instituições para dirigir a maioria dos aspectos da vida pública e privada).</p>
<p>Regimes ou Movimentos Totalitários se mantém no poder político por meio de uma ideologia oficial e propaganda disseminada por mídia controlada pelo estado, um único partido que controla o estado, cultos de personalidade, controle sobre a economia, regulação e restrições de discussões livres e críticas, o uso de vigilância em massa e uso de terrorismo do estado.</p>

</blockquote>
<p>Soa familiar? Garanto que dá para descrever muitas empresas com a definição acima. Você tem direito à &ldquo;liberdade de expressão&rdquo; dentro da sua? Ou algumas opiniões são passíveis de punição, sobretudo quando se parecem com o caso Falwell?</p>
<p>Na minha opinião, um documento de Missão e Valores, para não ser totalmente imprestável, deveria se parecer com o <em>Bill of Rights</em> e começar, no mínimo, com algo à altura da Primeira Emenda.</p>
]]></content:encoded><category>filosofia</category><category>politica</category><category>off-topic</category></item><item><title>[Off-Topic] Direitos do Homem</title><link>https://akitaonrails.github.io/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem/</link><guid isPermaLink="true">https://akitaonrails.github.io/2009/09/09/off-topic-direitos-do-homem/</guid><pubDate>Wed, 09 Sep 2009 23:14:00 -0300</pubDate><description>&lt;p&gt;&lt;img src="http://s3.amazonaws.com/akitaonrails/assets/2009/9/8/The_Virtue_of_Selfishness_Ayn_Rand_unabridged_M_original.jpg" alt="" loading="lazy" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Normalmente eu não gosto de falar de política. Detesto. Sempre achei uma grande perda de tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas diante das visões mais exacerbadas de populismo-esquerdismo, da ignorância que engrandece o socialismo-tirano cubano ou a ditadura totalitária venezuelana, do clamor por reestatização e dos movimentos contra a privatização, tudo calcado na ideia de “o bem para o povo”, “pelo benefício da maioria”, “pela ajuda aos fracos” e outras baboseiras do gênero, resolvi oferecer ao menos uma pequena contribuição filosófica.&lt;/p&gt;</description><content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://s3.amazonaws.com/akitaonrails/assets/2009/9/8/The_Virtue_of_Selfishness_Ayn_Rand_unabridged_M_original.jpg" alt=""  loading="lazy" /></p>
<p>Normalmente eu não gosto de falar de política. Detesto. Sempre achei uma grande perda de tempo.</p>
<p>Mas diante das visões mais exacerbadas de populismo-esquerdismo, da ignorância que engrandece o socialismo-tirano cubano ou a ditadura totalitária venezuelana, do clamor por reestatização e dos movimentos contra a privatização, tudo calcado na ideia de “o bem para o povo”, “pelo benefício da maioria”, “pela ajuda aos fracos” e outras baboseiras do gênero, resolvi oferecer ao menos uma pequena contribuição filosófica.</p>
<p>Traduzi mais um capítulo do livro de Ayn Rand, <a href="http://web.archive.org/web/20090802051516/http://www.aynrandbookstore2.com/prodinfo.asp?number=AR09B"target="_blank" rel="noopener">The Virtue of Selfishness</a>, que trata exatamente desse tema. Vale lembrar que ele foi escrito no contexto dos anos 60. Ainda assim, é impressionante como as coisas mudaram pouco por aqui.</p>
<p>Antes do capítulo, mais um trecho da introdução, sobre a fundação do “egoísmo racional” do Objetivismo:</p>
<blockquote>
  <p>Observem a indecência do que se passa por julgamentos morais hoje. Um industrial que produz uma fortuna, e um bandido que rouba um banco são considerados igualmente imorais, uma vez que ambos procuraram riqueza para seu próprio benefício “egoísta”. Um jovem que abandona sua carreira, a fim de sustentar os pais e nunca ultrapassa o posto de escriturário de mantimentos é considerado moralmente superior ao jovem que sofre um esforço excruciante e alcança a sua ambição pessoal. Um ditador é considerado como moral, uma vez que as atrocidades indescritíveis que foram cometidas foram para beneficiar “o povo”, e não a si mesmo.</p>
<p>Observe o que este critério de benefício da moralidade faz na vida de um homem. A primeira coisa que ele aprende é que a moralidade é o seu inimigo, ele não tem nada a ganhar com isso, ele só pode perder; perda auto-infligida, dor auto-infligida e a mortalha cinza, debilitante de uma obrigação incompreensível é tudo o que ele pode esperar. Ele pode esperar que outros podem, ocasionalmente, sacrificar-se para seu benefício, como ele se sacrifica de má vontade a eles, mas ele sabe que o relacionamento vai trazer ressentimento mútuo, não prazer – e que, moralmente, sua perseguição de valores será como um intercâmbio de presentes de Natal indesejados, não escolhidos, onde nenhum é moralmente permitido comprar para si mesmo. Além dos momentos onde ele consegue realizar um ato de auto-sacrifício, ele não possui nenhum significado moral: a moral não toma conhecimento dele e não tem nada a dizer-lhe para orientá-lo nas questões cruciais de sua vida, é apenas a sua própria vida pessoal, privada, “egoísta” e, como tal, é considerado ou mal, ou, na melhor das hipóteses, amoral.</p>
<p>…</p>
<p>Já que o egoísmo é a “preocupação com os próprios interesses,” a ética Objectivista utiliza esse conceito em seu sentido exato e mais puro. Não é um conceito que pode ser entregue aos inimigos do homem, nem para os equívocos irrefletidos, distorções, preconceitos e medos do ignorante e do irracional. O ataque ao “egoísmo” é um ataque à auto-estima do homem, desistir de um é desistir do outro.</p>

</blockquote>
<h2>Capítulo 12 – Direitos do Homem<span class="hx:absolute hx:-mt-20" id="capítulo-12--direitos-do-homem"></span>
    <a href="#cap%c3%adtulo-12--direitos-do-homem" class="subheading-anchor" aria-label="Permalink for this section"></a></h2><p>Se alguém quiser defender uma sociedade livre – ou seja, capitalismo – ele deve entender que a fundação indispensável é o princípio do direito individual. Se alguém quiser suportar os direitos individuais, ele deve entender que o capitalismo é o único sistema que pode sustentá-los e protegê-los. E se alguém quiser medir o relacionamento da liberdade com os objetivos dos intelectuais de hoje, ele deve medí-lo pelo fato que o conceito de direitos individuais é evitado, distorcido, pervertido e raramente discutido pelos chamados “conservadores”.</p>
<p>“Direitos” são um conceito moral, o conceito que fornece uma transição lógica dos princípios que norteiam as ações de um indivíduo para os princípios que orientam a sua relação com os outros, o conceito que preserva e protege a moralidade individual em um contexto social, a ligação entre o código moral de um homem e o código jurídico de uma sociedade, entre ética e política. Os direitos individuais são o meio para subordinar a sociedade à lei moral.</p>
<p>Todo sistema político é baseado em algum código de ética. A ética dominante da história da humanidade é variante da doutrina altruísta-coletivista, que subordinava o indivíduo a alguma autoridade superior, seja mística ou social. Consequentemente, a maioria dos sistemas políticos eram variantes da mesma tirania estatista, diferindo apenas em grau, não em princípio básico, limitada apenas pelos acidentes da tradição, do caos, da luta sangrenta e colapso periódico. Sob todos esses sistemas, a moralidade era um código aplicável ao indivíduo, mas não à sociedade. A Sociedade foi colocada fora da lei moral, como a sua incorporação ou fonte ou intérprete exclusivo – e a inculcação de devoção auto-sacrificial ao dever social foi considerado como o principal objetivo da ética na existência terrena do homem.</p>
<p>Uma vez que não existe tal entidade como “sociedade”, já que a sociedade é apenas um número de homens individuais, isto significou, na prática, que os governantes da sociedade estavam isentos da lei moral, sujeita apenas aos rituais tradicionais, detendo o poder total e exigindo obediência cega – no princípio implícito de: “O bom é o que é bom para a sociedade (ou a tribo, a raça, a nação), e decretos do governante são sua voz na terra.”</p>
<p>Isto era verdade de todos os sistemas estatais, em todas as variantes da ética altruísta-coletivista, mística ou social. “O direito divino dos reis”, resume a teoria política da primeira “Vox populi, vox Dei” do segundo. Como testemunha: a teocracia do Egito, com o faraó como um deus encarnado, a regra da maioria ilimitada ou democracia de Atenas, o estado de bem-estar executado pelos imperadores de Roma, a Inquisição da Idade Média, a monarquia absolutista da França, o estado de bem-estar da Prússia de Bismarck, as câmaras de gás da Alemanha nazista, o matadouro da União Soviética.</p>
<p>Todos estes sistemas políticos eram expressões da ética altruísta-coletivista e sua característica comum é o fato de que a sociedade estava acima da lei moral, como um adorador caprichoso, onipotente, soberano. Assim, politicamente, todos estes sistemas eram variantes de uma sociedade amoral.</p>
<p>O resultado mais profundamente revolucionário dos Estados Unidos da América foi a subordinação da sociedade à lei moral.</p>
<p>O princípio dos direitos individuais do homem representou a extensão da moralidade no sistema social, como a limitação do poder do Estado, como a proteção do homem contra a força bruta do coletivo, como a subordinação do poder ao direito. Os Estados Unidos foram a primeira sociedade moral da história.</p>
<p>Todos os sistemas anteriores consideravam o homem como um meio de sacrifício para os objetivos dos outros, e da sociedade como um fim em si mesmo. Os Estados Unidos consideraram o homem como um fim em si mesmo, e a sociedade como um meio para a convivência pacífica, ordenada e voluntária de indivíduos. Todos os sistemas anteriores tinham considerado que a vida do homem pertence à sociedade, que a sociedade pode dispor dele da forma que quiser, e que qualquer liberdade que ele desfruta é seu apenas por favor, com a permissão da sociedade, que pode ser revogada a qualquer momento. Os Estados Unidos decidiram que a vida do homem é seu por direito (o que significa: por princípio moral e por sua natureza), que um direito é a propriedade de um indivíduo, que a sociedade como tal, não tem direitos, e que o único propósito moral de uma governo é a proteção dos direitos individuais.</p>
<p>Um “direito” é um princípio moral que define e sanciona a liberdade de ação de um homem em um contexto social. Existe apenas um direito fundamental (todos os outros são as suas consequências ou corolários): um direito do homem à sua própria vida. A vida é um processo de ações auto-geradas de auto-sustentação, o direito à vida significa o direito de exercer ações auto-geradas de auto-sustentação, o que significa: a liberdade de tomar todas as medidas exigidas pela natureza de forma racional sendo para o apoio, a promoção, a satisfação e o prazer de sua própria vida. (Esse é o significado do direito à vida, liberdade e a busca da felicidade.)</p>
<p>O conceito de “direito” se refere apenas à ação, especificamente, a liberdade de ação. Isso significa ausência de coerção física, coação ou interferência de outros homens. Assim, para cada indivíduo, um direito é a sanção moral de um positivo – de sua liberdade para agir em seu próprio julgamento, para seus próprios objetivos, por sua própria escolha voluntária. Quanto aos seus vizinhos, seus direitos não impõem obrigações a eles, exceto de um tipo negativo: de se abster de violar os seus direitos.</p>
<p>O direito à vida é a fonte de todos os direitos – e do direito de propriedade é a sua implementação. Sem direitos de propriedade, nenhum outro direito é possível. Já que o homem tem de sustentar a sua vida por seu próprio esforço, o homem que não tem direito ao produto do seu esforço não tem meios para sustentar a sua vida. O homem que produz, enquanto outros dispõe do seu produto, é um escravo.</p>
<p>Tenha em mente que o direito à propriedade é um direito de ação, como todos os outros: não é o direito a um objeto, mas a ação e as conseqüências de produzir ou ganhar esse objeto. Não é uma garantia de que um homem vai ganhar qualquer propriedade, mas apenas uma garantia de que ele terá sua propriedade se ganhá-la. É o direito de adquirir, guardar, usar e dispor dos bens materiais.</p>
<p>O conceito de direitos individuais é tão novo na história da humanidade que a maioria dos homens não o compreenderam plenamente até hoje. De acordo com as duas teorias da ética, o místico ou o social, alguns homens afirmam que os direitos são um dom de Deus, outros, que os direitos são um dom da sociedade. Mas, na verdade, a fonte dos direitos é a natureza do homem.</p>
<p>A Declaração de Independência afirmou que “homens são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis.” Se alguém acredita que o homem é produto de um Criador ou da natureza, a questão da origem do homem não altera o fato de que ele é uma entidade de um tipo específico de um ser racional que não pode funcionar com êxito sob coerção, e que os direitos são uma condição necessária para o seu modo particular de sobrevivência.</p>
<p>“A fonte dos direitos do homem não é a lei divina ou lei do Congresso, mas a lei da identidade. A é A e homem é homem. Os direitos são condições de existência exigido pela natureza do homem para sua própria sobrevivência. Se o homem deve viver na Terra, é direito dele usar sua mente, é direito agir em seu próprio livre julgamento, é direito trabalhar para os seus valores e manter o produto de seu trabalho. Se a vida na Terra é o seu propósito, ele tem o direito de viver como um ser racional: a natureza o proíbe do irracional. &ldquo;(Atlas Shrugged.)</p>
<p>Violar os direitos do homem significa obrigá-lo a agir contra seu próprio julgamento, ou expropriar seus valores. Basicamente, só há uma maneira de fazê-lo: pelo uso de força física. Há dois potenciais violadores dos direitos do homem: os criminosos e o governo. A grande conquista dos Estados Unidos foi de estabelecer uma distinção entre esses dois, proibindo ao segundo a versão legalizada das atividades do primeiro.</p>
<p>A Declaração de Independência estabelece o princípio de que “para assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens.” Isso forneceu a única justificativa válida de um governo e definiu o seu único objetivo correto: para proteger os direitos do homem, protegendo-o da violência física.</p>
<p>Assim, a função do governo mudou do papel de governante para o papel servil. O governo foi instituído para proteger o homem dos criminosos – e a Constituição foi escrita para proteger o homem do governo. O <em>Bill of Rights</em> não era dirigida contra cidadãos particulares, mas contra o governo como uma declaração explícita de que os direitos individuais se sobressaem a qualquer poder público ou social.</p>
<p>O resultado foi o padrão de uma sociedade civilizada que, por breve espaço de cerca de cento e cinquenta anos, a América chegou perto de conquistar. Uma sociedade civilizada é aquela em que a força física é banida das relações humanas, em que o governo, agindo como um policial, pode usar a força apenas em retaliação e somente contra aqueles que iniciam seu uso.</p>
<p>Este foi o sentido essencial e intenção da filosofia política da América, implícita no princípio dos direitos individuais. Mas não foi formulado de forma explícita, nem totalmente aceita, nem consistentemente praticada.</p>
<p>A contradição interna da América foi a ética altruísta-coletivista. Altruísmo é incompatível com Liberdade, com o capitalismo e os direitos individuais. Não se pode combinar a busca da felicidade com o status moral de um animal de sacrifício.</p>
<p>Foi o conceito de direitos individuais que deu à luz a uma sociedade livre. Foi com a destruição de direitos individuais que a destruição da liberdade tinha de começar.</p>
<p>A tirania coletivista não se atreve a escravizar um país por um confisco dos seus valores, material ou moral. Tem que ser feito por um processo de corrupção interna. Assim como no reino material a pilhagem das riquezas de um país é feito inflacionando a moeda – então hoje se pode testemunhar o processo de inflação sendo aplicado à esfera de direitos. O processo envolve tamanho crescimento de recém promulgados “direitos” que as pessoas não percebem o fato de que o sentido do conceito está sendo revertido. Assim como dinheiro ruim acaba com o dinheiro bom, assim essa “máquina de imprimir direitos” nega os direitos autênticos.</p>
<p>Considere o fato curioso que nunca houve tal proliferação, em todo o mundo, de dois fenômenos contraditórios: de “direitos” novos e de campos de trabalho escravo.</p>
<p>O truque foi a troca do conceito de direitos da esfera política para a econômica.</p>
<p>A plataforma do Partido Democrata de 1960, resume a troca de forma ousada e explícita. Ela declara que uma Gestão Democrata “reafirmará o projeto econômico dos direitos que Franklin Roosevelt escreveu em nossa consciência nacional dezesseis anos atrás.”</p>
<p>Tenha claramente em mente o significado do conceito de “direitos” quando ler a lista que esta plataforma oferece:</p>
<p>“1. O direito a um trabalho útil e remunerado, em indústrias ou estabelecimentos comerciais ou fazendas ou minas do país.</p>
<p>“2. O direito de ganhar o suficiente para fornecer alimentação adequada, de vestuário e de recreação.</p>
<p>“3. O direito de cada agricultor para criar e vender seus produtos a um retorno que dará a ele e sua família uma vida decente.</p>
<p>“4. O direito de cada homem de negócios, grande e pequeno, de comercializar em uma atmosfera de liberdade em relação à concorrência desleal e da dominação de monopólios no país e no exterior.</p>
<p>“5. O direito de cada família a uma casa decente.</p>
<p>“6. O direito à assistência médica adequada e oportunidade de alcançar e gozar de boa saúde.</p>
<p>“7. O direito à proteção adequada para os temores econômicos da velhice, doença, acidentes e desemprego.</p>
<p>“8. O direito a uma boa educação.”</p>
<p>Uma pergunta simples adicionada a cada uma das oito cláusulas acima tornaria a questão clara: à custa de quem?</p>
<p>Postos de trabalho, alimentação, vestuário, recreação (!), casas, assistência médica, educação, etc, não crescem na natureza. Esses são valores feitos pelo homem – bens e serviços produzidos pelos homens. Quem vai fornecer isso a eles?</p>
<p>Se alguns homens têm garantia por direito aos produtos do trabalho dos outros, isso significa que os outros são privados de direitos e condenados ao trabalho escravo.</p>
<p>Qualquer alegação de “direito” de um homem, que implica na violação dos direitos do outro, não é e não pode ser um direito.</p>
<p>Nenhum homem pode ter o direito de impor uma obrigação não escolhida, um dever sem recompensa ou um direito de servidão involuntária a outro homem. Não pode existir qualquer coisa tal como “o direito de escravizar.”</p>
<p>Um direito não inclui a implementação material desse direito por outros homens; ele inclui apenas a liberdade de ganhar tal implementação por próprio esforço.</p>
<p>Observe-se, neste contexto, a precisão intelectual dos Pais Fundadores da América: eles falaram do direito à “busca pela felicidade”, não do direito à felicidade. Isso significa que um homem tem o direito de tomar as ações que considera necessário para atingir a sua felicidade, mas isso não significa que outros devem fazê-lo feliz.</p>
<p><a href="http://tinyurl.com/5bkx5d"target="_blank" rel="noopener"><img src="http://s3.amazonaws.com/akitaonrails/assets/2009/9/10/declaration_original.jpg" alt=""  loading="lazy" /></a><br>
<em>“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, Liberdade e a <strong>Busca pela Felicidade</strong>.”</em> – Thomas Jefferson</p>
<p>O direito à vida significa que um homem tem o direito de apoiar a sua vida pelo seu próprio trabalho (em qualquer nível econômico, tão alto quanto a sua capacidade o levar), mas isso não significa que outros devem prestar-lhe as necessidades da vida.</p>
<p>O direito à propriedade significa que um homem tem o direito de tomar as medidas econômicas necessárias para ganhar sua propriedade, usá-lo e descartá-la, mas isso não significa que outros devem fornecer-lhe essa propriedade.</p>
<p>O direito à liberdade de expressão significa que um homem tem o direito de expressar suas idéias, sem risco de supressão, interferência ou ação punitiva por parte do governo. Isso não significa que outros devem fornecer-lhe uma sala de aula, uma estação de rádio ou uma prensa de impressão para expressar suas idéias.</p>
<p>Qualquer empresa que envolve mais do que um homem, exige o consentimento voluntário de cada participante. Cada um deles tem o direito de tomar sua própria decisão, mas ninguém tem o direito de forçar a sua decisão sobre os outros.</p>
<p>Não há tal coisa como um “direito a um emprego”, existe apenas o direito de livre comércio, que é um direito do homem de ter um emprego se outro homem escolher contratá-lo. Não há direito a “uma casa”, apenas o direito de livre comércio: o direito de construir uma casa ou comprá-lo. Não existem direitos a um salário “justo” ou um preço “justo” se ninguém escolhe pagar por isso, contratar um homem ou comprar seu produto. Não há “direitos dos consumidores” ao leite, sapatos, filmes ou champanhe, se ninguém escolhe fabricar tais itens (existe apenas o direito de fabricá-los você mesmo). Não há “direitos” de grupos especiais, não há “direitos dos agricultores, dos trabalhadores, dos empresários, dos trabalhadores, dos empregadores, dos idosos, dos jovens.” Existem apenas os Direitos do Homem – direitos possuídos por cada homem individualmente e por todos os homens como indivíduos.</p>
<p>Os direitos de propriedade e o direito de livre comércio são os únicos “direitos econômicos” do homem (eles são, de fato, direitos políticos) – e não pode haver tal coisa como “um projeto de lei de direitos econômicos.” Mas observe que os defensores deste último têm feito tudo para destruir os primeiros.</p>
<p>Lembre-se que os direitos são princípios morais que definem e protegem a liberdade de ação de um homem, mas não impõem obrigações aos demais. Os cidadãos não são uma ameaça para os direitos ou liberdades dos outros. Um cidadão que recorre à força física e viola os direitos dos outros é um criminoso e os homens têm proteção legal contra ele.</p>
<p>Criminosos são uma pequena minoria em qualquer época ou país. E o mal que fizeram à humanidade é infinitesimal quando comparado com os horrores – o derramamento de sangue, as guerras, as perseguições, a confiscação, as fomes, as escravidões, a destruição por atacado, perpetrados pelos governos da humanidade. Potencialmente, um governo é a ameaça mais perigosa para os direitos dos homens: ele detém um monopólio legal sobre o uso de força física contra vítimas legalmente desarmadas. Quando irrestrito e ilimitado pelos direitos individuais, um governo é o inimigo mortal dos homens. Não é como proteção contra ações privadas, mas contra as ações governamentais que o “Bill of Rights” foi escrito.</p>
<p>Agora observe o processo pelo qual essa proteção está sendo destruída.</p>
<p>O processo consiste em atribuir a cidadãos particulares as violações específicas constitucionalmente vedadas ao Governo (que cidadãos particulares não têm poder para cometer) e assim libertando o governo de todas as restrições. A troca está se tornando cada vez mais evidente no domínio da liberdade de expressão. Por anos, os coletivistas propagam a ideia de que a recusa de um indivíduo particular, de financiar um adversário é uma violação do direito do oponente da liberdade de expressão e um ato de “censura”.</p>
<p>É “censura”, dizem eles, se um jornal se recusa a empregar ou publicar escritores cujas idéias são diametralmente opostas à sua política.</p>
<p>É “censura”, dizem eles, se os empresários se recusam a anunciar numa revista que denuncia, os insulta e os mancha.</p>
<p>É “censura”, dizem eles, se um patrocinador de TV se opõe a algum atentado perpetrado em um programa que está financiando, tais como o incidente de Alger Hiss sendo convidado a denunciar o ex-vice-presidente Nixon.</p>
<p>E depois há Newton N. Minow que declara: “Existe censura por audiência, pelos anunciantes, pelas redes, pelas filiais que rejeitam a programação oferecida às suas áreas.” É o mesmo Sr. Minow que ameaça revogar a licença de qualquer estação que não seguir com sua opinião sobre a programação – e que afirma que isso não é censura.</p>
<p>Considere as implicações de tal tendência.</p>
<p>“Censura” é um termo que apenas diz respeito à ação governamental. Nenhuma ação privada é censura. Nenhum indivíduo particular ou agência pode silenciar um homem ou suprimir uma publicação; só o governo consegue fazer isso. A liberdade de expressão dos indivíduos particulares inclui o direito de não concordar, não ouvir e não financiar seus próprios antagonistas.</p>
<p>Mas de acordo com doutrinas como o projeto “econômico de direitos”, um indivíduo não tem o direito de dispor do seu próprio meio material através da orientação de suas próprias convicções – e deve entregar o seu dinheiro de forma indiscriminada a qualquer falador ou propagandista, que têm o “direito” à sua propriedade.</p>
<p>Isto significa que a capacidade de fornecer as ferramentas materiais para a expressão das idéias de um homem o priva do direito de ter a propriedade sobre qualquer idéia. Isso significa que um editor tem que publicar livros que considera inúteis, falsas ou más – que um patrocinador de TV tem que financiar comentadores que optam por afrontar suas convicções – que o proprietário de um jornal deve tornar suas páginas editoriais a qualquer jovem hooligan que clamar pela escravização da imprensa. Isso significa que um grupo de homens, adquire o “direito” à licença ilimitada – enquanto outro grupo é reduzido à irresponsabilidade desamparada.</p>
<p>Mas uma vez que é obviamente impossível fornecer qualquer reclamante com um emprego, um microfone ou uma coluna de jornal, quem irá determinar a “distribuição” dos “direitos econômicos” e selecionar os destinatários, quando o direito dos proprietários de escolha foi abolida? Bem, Sr. Minow indicou isso muito claramente.</p>
<p>E se você cometer o erro de pensar que isso se aplica apenas aos grandes proprietários, é melhor perceber que a teoria do “direito econômico” inclui o “direito” de cada aspirante a escritor, cada poeta jovem, cada compositor ruidoso e cada artista não-objetivo (que puxa saco de político) ao apoio financeiro que você não lhes deu quando não assistiu seus shows. O que mais é o significado do projeto para gastar o dinheiro dos seus impostos em arte subsidiada?</p>
<p>E enquanto as pessoas estão reclamando sobre os “direitos econômicos,” o conceito de direitos políticos está desaparecendo. Esquece-se que o direito à liberdade de expressão significa a liberdade para defender pontos de vista e encarar as possíveis consequências, incluindo desacordo com outros, oposição, impopularidade e falta de apoio. A função política do “direito à liberdade de expressão” é proteger as minorias dissidentes e impopulares da repressão violenta – não para garantir-lhes apoio, vantagens e recompensas de uma popularidade que não ganharam.</p>
<p>O “Bill of Rights” diz: &ldquo;O Congresso não fará nenhuma lei … cerceando a liberdade de expressão ou de imprensa … &quot; Ele não exige que os cidadãos privados ofereçam um microfone para o homem que defende a sua destruição, ou uma chave de acesso para o ladrão que quer roubá-los, ou uma faca para o assassino que quer cortar suas gargantas.</p>
<p>Tal é o estado de uma das questões mais cruciais de hoje: os direitos políticos versus “direitos econômicos.” É ou-ou. Um destrói o outro. Mas não existe, de fato, “direitos econômicos”, “direitos coletivos”, “direitos de interesse público.” A expressão “direitos individuais” é uma redundância: não há nenhum outro tipo de direitos e ninguém mais para os possuir.</p>
<p>Aqueles que defendem o capitalismo laissez-faire são os únicos defensores dos direitos do homem.</p>


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